Gabriel Delanne a alma e Imortal


Terceira parte O Espiritismo e a ciência



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Terceira parte

O Espiritismo e a ciência

Capítulo I


Estudo do perispírito


De que é formado o perispírito? – Obrigação que tem a ciência de se pronunciar a respeito. – Princípios gerais. – O ensino dos Espíritos. – O que é preciso se estude.

De que é formado esse perispírito, cuja existência, assim durante a vida, como durante a morte, se acha demonstrada? Qual a substância constituinte desse envoltório permanente da alma? Tal a primeira questão que tentaremos resolver.

Nenhuma das narrativas, nenhuma das experiências acima referidas nos instruíram sobre esse ponto importante. Não tendo sido possível submeter esse corpo abmaterial aos reativos ordinários, forçoso é, ainda agora, que nos atenhamos à observação e ao que os Espíritos hão dito a tal respeito. Aliás, dificilmente poderíamos encontrar melhores instrutores do que aqueles mesmos que produzem as aparições. Não esqueçamos que eles põem em jogo leis que ainda teremos de descobrir, pois mostraram que uma matéria invisível aos olhares humanos pode impressionar uma chapa fotográfica, mesmo na mais absoluta obscuridade.173 Os fenômenos de transporte constituem outra prova da ação dos Espíritos sobre a matéria, ação que se opera por processos de que nem sequer suspeitamos. E que dizer dessas materializações que engendram, por alguns instantes, um ser tangível, tão vivo quanto os assistentes, senão que a ciência humana é de todo impotente para explicar tais manifestações de uma biologia extraterrena?

Até mais amplos esclarecimentos, contentar-nos-emos com os que nos queiram ministrar as individualidades do espaço e tentaremos demonstrar que eles nada têm de contrário às leis conhecidas, não tomadas em sua acepção acanhada, mas consideradas em sua filosofia. Nestes estudos, não se deve pedir uma demonstração em regra, que seria impossível produzir-se. Desde que, porém, por meio de analogias tiradas das leis naturais, possamos formar idéia bastante clara da causa dos fenômenos e do modo provável por que se operam, sensível progresso teremos realizado na senda da investigação, banindo das nossas concepções a idéia de sobrenatural.

O conhecimento do perispírito tem grande importância para a explicação das anomalias que os pacientes sonambúlicos apresentam, nos casos, bem comprovados, de visão a distância, de telepatia, de transmissão de pensamentos e de perda da lembrança de tudo ao despertar. Do mesmo modo, os fenômenos de personalidades múltiplas, os casos de bicorporeidade e as aparições tangíveis, de que temos falado, podem ser muito bem compreendidos, desde que se admita a nossa teoria, ao passo que se conservam inteiramente inexplicáveis por meio do ensino materialista.

Em presença de tais fatos, os sábios oficiais guardam prudente mutismo. Se, pelo maior dos acasos, falam dessas experiências, é para as declarar apócrifas, indignas de prender a atenção de homens inteligentes e, então, as assinalam como últimos vestígios atávicos das superstições dos nossos antepassados.

Importa, porém, que, de uma vez por todas, nos entendamos a esse respeito. Não ignoramos que não se pode absolutamente discutir com quem esteja de parti pris e que o Espiritismo, hoje, se acha mais ou menos na mesma situação em que se encontrava o magnetismo há uma vintena de anos. A história aí está a nos mostrar a obstinação estúpida dos que se petrificaram nas suas idéias preconcebidas.

Sabemos o que pensar da penetração de espírito dos sucessores daqueles que acreditavam que as pedras talhadas eram produzidas pelo trovão; que negaram a eletricidade, zombando de Galvani; que vituperaram e perseguiram Mesmer; que qualificaram de loucura o telefone e o fonógrafo, como, aliás, todas as descobertas novas. Por isso mesmo, sem dar atenção ao banimento mais ou menos sincero a que eles condenam o fenômeno espírita, corajosamente exporemos a nossa maneira de ver, apoiando-a em fatos positivos e bem estudados.

A despeito de todas as negações possíveis, o fenômeno espírita é uma verdade tão bem comprovada hoje, que não há fatos científicos mais bem firmados do que eles, entre os que não são de observação cotidiana, tais como: a queda dos aerólitos, as auroras boreais, as tempestades magnéticas, a raiva, etc.

A ciência está neste dilema: ou os espíritas são charlatães e é falso tudo o que eles proclamam e, nesse caso, ela os deve desmascarar, pois que lhe incumbe a instrução do povo; ou os fatos que os espíritas têm observado são reais, porém mal referidos e, portanto, errôneas as conclusões que eles daí deduzem, caso em que a ciência se acha obrigada a lhes retificar os erros. Assim, qualquer que seja a eventualidade que se considere, vê-se que o silêncio ou o descaso nenhum cabimento têm. Essa a razão pela qual sinceramente chamamos a atenção dos homens de boa-fé para as nossas teorias que, embora ainda muito incompletas, explicam com lógica os diferentes fenômenos de que acima falamos.

Eis, sucintamente, os princípios gerais sobre os quais nos apoiaremos. São os de Allan Kardec, que magistralmente resumiu em sua obra todos os ensinos dos Espíritos que o assistiram.174

Princípios gerais


Reconhecemos a existência de uma causa eficiente e diretora do universo: a sublimada inteligência que, pela sua vontade onipotente, imutável, infinita, eterna, mantém a harmonia do Cosmos. A alma, a força e a matéria são igualmente eternas, não podem aniquilar-se.

A Ciência admite a conservação da matéria e da energia,175 prova rigorosamente que são indestrutíveis, mas indefinidamente transformáveis. Do mesmo modo, o Espiritismo dá a certeza da imortalidade do eu pensante.

O princípio espiritual é a causa de todos os fenômenos intelectuais que se dão nos seres vivos. No homem, esse princípio se toma à alma, que se revela à observação como absolutamente distinta da matéria, não só porque as faculdades que a determinam (tais como a sensação, o pensamento ou a vontade) não se podem conceber revestidas de propriedades físicas, mas, sobretudo, por ser ela uma causa de movimento e por se conhecer plenamente a si mesma, o que a diferencia de todos os outros seres vivos e, com mais forte razão, dos corpos brutos.

É-nos desconhecida a natureza da alma. Tentar defini-la, dizendo que é imaterial, nada significa, a menos que com essa palavra se queira precisar a diferença que há entre a sua constituição e a da matéria. Qualquer, porém, que seja o seu modo de existir, ela se mostra simples e idêntica. Aliás, a nossa ignorância acerca da natureza da alma é da mesma ordem e tão absoluta, quanto acerca da natureza da matéria ou da natureza da energia. Até agora, somos de todo impotentes para penetrar as causas primárias e temos que nos contentar com o definir a alma, a matéria e a energia pelas suas manifestações, sem pretendermos indagar se, de qualquer maneira, procedem umas das outras.

Certamente a alma não é a resultante das funções cerebrais, pois que subsiste após a morte do corpo. Da análise de suas faculdades ressalta que ela é simples, isto é, indivisível e a experiência espírita confirma essa verdade, mostrando que a sua personalidade se mantém integral depois da morte. O Espiritismo, com o apoiar-se exclusivamente nos fatos, reduz a nada todas as teorias segundo as quais a alma sofre uma desagregação qualquer. O que, ao contrário, se verifica é a indestrutibilidade do princípio pensante.

Suas faculdades a alma as desenvolve por uma evolução incessante que tem por teatro, alternativamente, o espaço e o mundo terrestre. Em cada uma dessas suas passagens, adquire ela nova soma de conhecimentos intelectuais e morais, que são conservados, aperfeiçoados e aumentados por uma evolução sem-fim.

Possui um livre-arbítrio proporcional ao número de suas encarnações, dependendo a sua responsabilidade do grau do seu adiantamento moral e intelectual. Assim como o mundo físico tem a regê-lo lei imutável, também o mundo espiritual é regido por uma justiça infalível, de sorte que as leis morais têm sanção absoluta após a morte. Como o Universo não se limita ao imperceptível grão de areia por nós habitado, como o espaço formiga de sóis e planetas em número indefinido, admitimos que as futuras existências do princípio pensante podem desenvolver-se nesses diferentes sistemas de mundos, de maneira que a nossa vida se perpetua pela imensidade sem limites.

Como pode a alma executar esse processo evolutivo, conservando a sua individualidade e os conhecimentos que adquiriu? Como atua sobre a matéria tangível, durante a encarnação? É o que tentamos determinar em o nosso estudo sobre a Evolução anímica. Aqui, temos que começar por compreender o papel de cada uma das partes que formam o homem vivo.


O ensino dos Espíritos


Se a questão do homem espiritual se conservou por tão longo tempo em estado hipotético, é que faltavam os meios de investigação direta. Assim como as ciências não puderam desenvolver-se seriamente, senão depois que se inventaram o microscópio, o telescópio, a análise espectral e, ultimamente, a radiografia, também o estudo do Espírito tomou prodigioso impulso com a hipnose e, principalmente, depois que a mediunidade tornou possível o estudo do Espírito desprendido da matéria corpórea. Aqui está o que as nossas relações com os Espíritos nos ensinaram relativamente à constituição da alma.

Das numerosas observações feitas no mundo inteiro resulta que o homem é formado da reunião de três princípios:

1) a alma ou espírito, causa da vida psíquica;

2) o corpo, envoltório material, a que a alma se associa temporariamente, durante a sua passagem pela Terra;

3) o perispírito, substrato fluídico que serve de liame entre a alma e o corpo, por intermédio da energia vital. Do estudo desse órgão decorrem conhecimentos novos, que nos permitem explicar as relações da alma e do corpo; a idéia diretora que preside à formação de todo indivíduo vivo; a conservação do tipo individual e específico, sem embargo das perpétuas mutações da matéria; enfim, o tão complicado mecanismo da máquina vivente.

A morte é a desagregação do invólucro carnal, aquele que a alma abandona ao deixar a Terra; o perispírito a acompanha, conservando-se-lhe sempre ligado. Forma-o a matéria em estado de extrema rarefação. Esse corpo etéreo, que no estado normal nos é invisível, existe, portanto, no curso da vida terrestre. É por seu intermédio que o eu percebe as sensações físicas e é também por seu intermédio que o espírito pode revelar, no exterior, o seu estado mental.

Tem-se dito que o Espírito é uma chama, uma centelha, etc. Assim, porém, se deve entender com relação ao espírito propriamente dito, como princípio intelectual e moral, ao qual não se poderia atribuir forma determinada. Em qualquer grau que ele se encontre na animalidade, está sempre intimamente associado ao perispírito, cuja eterização corresponde ao seu adiantamento moral, de sorte que, para nós, a idéia de espírito é inseparável de uma forma qualquer, de maneira a não podermos conceber um sem a outra.

“O perispírito, pois, faz parte integrante do Espírito, como o corpo faz parte integrante do homem. Mas, o perispírito, por si só, não é o Espírito, como o corpo não é, por si só, o homem, visto que o perispírito não pensa, não age por si só. Ele é para o espírito o que o corpo é para o homem: o agente ou instrumento da sua ação.”

Segundo o ensino dos Espíritos, essa forma fluídica é extraída do fluído universal, sendo deste, como tudo o que existe materialmente, uma modificação. Justificaremos, dentro em pouco, essa maneira de ver.

Malgrado à tenuidade extrema do corpo perispirítico, ele se mantém constantemente unido à alma, que se pode considerar um centro de força. Sua constituição lhe permite atravessar todos os corpos com mais facilidade do que a que tem a luz para atravessar o vidro; do que o calor ou os raios-X para atravessar os diferentes obstáculos que se lhes oponham à propagação. A velocidade do deslocamento da alma parece superior à das ondulações luminosas, diferindo destas, porém, essencialmente, em que nada a detém, deslocando-se ela pelo seu próprio esforço. Por ser muito rarefeito o organismo fluídico, a vontade atua sobre o fluído universal e produz o deslocamento. Concebe-se facilmente que, sendo quase nula a resistência do meio, a mais fraca ação física acarretará uma translação no espaço, cuja direção estará submetida à vontade do ser.

O perispírito se nos afigura imponderável, pelo que a ação da gravidade parece inteiramente nula sobre ele; mas, daí não se deverá concluir que, desprendido do corpo, possa o Espírito transportar-se, segundo a sua fantasia, a todas as partes do Universo. Veremos, daqui a pouco, que o espaço é pleno de matérias variadas, em todos os estados de rarefação, de modo que, para o Espírito, existem certos obstáculos fluídicos de tanta realidade, quanto a que para nós pode ter a matéria tangível.

Nos seres muito evoluídos, o perispírito carece, no espaço, de forma absolutamente fixa; não é rígido, nem está condensado, como o corpo físico, num tipo particular. Regra geral, predomina no corpo fluídico as formas humanas, à qual ele naturalmente retorna, quando haja sido deformado pela vontade do Espírito.

Por intermédio do envoltório fluídico é que os Espíritos percebem o mundo exterior; mas, suas sensações são de outra ordem, diversas das que tinham na Terra. A luz deles não é a nossa; as ondulações do éter, quais as ressentimos, como calor ou luz, são por demais grosseiras para os influenciar normalmente. São, do mesmo modo, insensíveis aos sons e aos odores terrestres. Referimo-nos aqui aos Espíritos adiantados. Mas, todas as nossas sensações terrestres têm, para eles, equivalentes mais apurados. Dá-se, a esse respeito, uma como transposição para mais elevado registro da mesma gama. Além disso, eles percebem vibrações em muito maior número do que as que nos chegam diferenciadas pelos sentidos e as sensações determinadas por esses diferentes movimentos vibratórios criam uma série de percepções de ordem diversa das de que temos consciência.

Os Espíritos inferiores, que formam a maioria no espaço que circunda a Terra, podem ser acessíveis às nossas sensações, sobretudo se seus perispíritos são grosseiros de todo, porém isso se dá de maneira atenuada. A sensação neles não é localizada: experimentam-na em todas as partes do corpo espiritual, enquanto que, nos homens, é experimentada no ponto do corpo onde teve origem.

Estes os dados gerais que se encontram na obra de Allan Kardec, a mais completa e a mais racional que possuímos sobre o Espiritismo. A bem dizer, é mesmo a única que trata, em todas as suas partes, da filosofia espírita e fica-se espantado de ver com que sabedoria e prudência esse iniciador traçou as grandes linhas da evolução espiritual.

A dedução rigorosa é o caráter distintivo desta doutrina. Em vez de forjar seres imaginários para explicar os fatos mediúnicos, o Espiritismo deixou que o fenômeno se revelasse por si mesmo. Em todas as partes do mundo, há 70 anos, são as almas dos mortos que, vindo confabular conosco, afirmam ter vivido na Terra e dão dessas afirmativas provas que os evocadores verificam mais tarde e reconhecem exatas. Numa palavra, achamo-nos em presença de um fato real, visível, palpável, que coisa alguma poderia infirmar. Não há negações que prevaleçam contra a luminosa evidência da experiência moderna. Não há demônios, nem vampiros, nem lêmures, nem elementais ou outros seres fantásticos, imaginados para aterrorizar o vulgo, ou desviar, em proveito de obscuros engrimanços, a atenção dos pesquisadores. É a alma dos mortos que se revela pela mesa, pela escrita direta e pelas materializações.


O que é preciso se estude


Pela observação e pela experiência, fomos levados a comprovar que o invólucro da alma é material, pois que pode ser visto, tocado, fotografado. Mas, é evidente que essa matéria difere, pelo menos quanto ao seu estado físico, da matéria com que estamos diariamente em contacto.

O perispírito existente no corpo humano não nos é visível; não tem peso apreciável e, quando sai do corpo para se mostrar longe deste, verifica-se que nada lhe pode opor obstáculo. Destas observações, temos de concluir que é formado de uma substância invisível, imponderável e de tal sutileza, que coisa alguma lhe é impenetrável. Ora, estes são caracteres que parecem em absoluta contradição com os que a Física nos revela como sendo os da matéria.

Temos, pois, que procurar saber o que se deve entender pelo termo matéria e, para isso, urge conhecer o que são o átomo, o movimento e a energia. Adquiridas estas noções, poderemos inquirir como é que uma matéria fluídica tem a possibilidade de conservar forma determinada e, sobretudo, como é que a morte não acarreta a dissolução desse corpo espiritual, uma vez que ocasiona a do corpo físico.

Tornar-se-á então necessário nos familiarizemos com a idéia da unidade da substância, porquanto, admitida essa idéia, claro fica que, se o perispírito é formado da matéria primordial, não poderá decompor-se em elementos mais simples e, como a alma já se acha revestida dele antes de nascer, isto é, anteriormente à sua entrada no organismo humano, irá com ele, ao deixar o seu corpo terreno.

Se for verdadeiramente possível demonstrar que as concepções científicas atuais nos permitem conceber semelhante matéria, poder-se-á empreender, racionalmente, o estudo do perispírito, estudo que então sairá do domínio do empirismo para entrar no das ciências positivas.

Vejamos, pois, desde já, como é constituída a matéria.


Capítulo II
O tempo, o espaço, a matéria primordial


Definição do espaço, dada pelos Espíritos. – Justificação dessa teoria. – O tempo. – Justificações astrológicas e geológicas. – A matéria. – O estado molecular. – A isomeria. – As pesquisas de Lockyer.

O que, em definitivo, importa saber é o que somos, donde viemos e aonde vamos. A filosofia é impotente para nos esclarecer a esse respeito, porquanto umas às outras se opõem as conclusões a que chegaram as diferentes escolas. As religiões, proscrevendo a razão e fazendo exclusivamente questão da fé, pretendendo impor a crença em dogmas imaginados quando os conhecimentos humanos ainda se achavam na infância, vêem afastar-se delas os espíritos independentes, que preferem as realidades tangíveis e sempre verificáveis da experiência a todas as afirmações autoritárias e cominatórias. Vamos justificar os principais ensinos do Espiritismo, mostrando que decorrem de minuciosos estudos, harmônicos com as concepções modernas e constituindo uma filosofia religiosa de imponente realidade.176


Espaço


É infinito o espaço, pela razão de ser impossível supor-lhe qualquer limite e porque, malgrado à dificuldade que encontramos para conceber o infinito, mais fácil nos é, contudo, ir eternamente pelo espaço em pensamento, do que pararmos num lugar qualquer, depois do qual nenhuma extensão mais houvesse a ser percorrida.

Para imaginarmos, tanto quanto o permitam as nossas faculdades restritas, a infinidade do espaço, imaginemos que, partindo da Terra, perdida em meio do infinito, rumo a um ponto qualquer do Universo, com a velocidade prodigiosa da centelha elétrica, que transpõe milhares de léguas num segundo, havendo, pois, percorrido milhões de léguas mal tenhamos deixado este globo, nos achemos num lugar de onde a Terra não nos pareça mais do que vaga estrela. Um instante depois, seguindo sempre na mesma direção, chegamos às estrelas longínquas, que da nossa morada terrestre mal se percebem. Daí, não só a Terra terá desaparecido das nossas vistas nas profundezas do céu, como também o Sol, com todo o seu esplendor, estará eclipsado pela extensão que dele nos separa. Sempre com a mesma velocidade do relâmpago, transpomos sistemas de mundos, à medida que avançamos pela amplidão, ilhas de luzes etéreas, vias estelíferas, paragens suntuosas onde Deus semeou mundos na mesma profusão com que semeou as plantas nos prados terrestres.

Ora, minutos apenas há que caminhamos e já centenas de milhões de léguas nos separam da Terra, milhares de milhões de mundos passaram sob os nossos olhares e, entretanto, escutai bem! Na realidade, não avançamos um único passo no Universo.

Se continuarmos durante anos, séculos, milhares de séculos, milhões de períodos cem vezes seculares e incessantemente com a mesma velocidade do relâmpago, nada teremos avançado, qualquer que seja o lado para onde nos encaminhemos e qualquer que seja o ponto para onde nos dirijamos, a partir do grão invisível que deixamos e que se chama Terra.

Eis o que é o espaço!

Justificação desta teoria


Concordam essas poéticas e grandiosas definições com o que sabemos de positivo sobre o Universo? Concordam, porquanto, sucessivamente, a luneta, o telescópio e a fotografia nos hão feito penetrar, cada vez mais longe, no campo do infinito.

Durante séculos, nossos pais imaginaram que a criação se limitava à Terra que eles habitavam e que julgavam chatas. O céu era apenas uma abóbada esférica onde se achavam incrustados pontos brilhantes chamados estrelas. O Sol era tido como um facho móvel destinado a distribuir claridade. Nós, terrícolas, éramos os únicos habitantes da criação, feita especialmente para nosso uso. A observação, mais tarde, facultou reconhecer-se a marcha das estrelas; a abóbada celeste se deslocava, arrastando consigo todos os pontos luminosos. Depois, o estudo dos movimentos planetários e a fixidez da Estrela Polar levaram Tales de Mileto a reconhecer a esfericidade da Terra, a obliqüidade da eclíptica e a causa dos eclipses.

Pitágoras conheceu e ensinou o movimento diurno da Terra sobre seu eixo, seu movimento em torno do Sol e ligou os planetas e os cometas ao sistema solar. Esses conhecimentos precisos datam de 500 anos a.C. Mas, sabidas apenas de alguns raros iniciados, tais verdades foram esquecidas e a massa humana continuou a ser joguete da ilusão. Foi preciso surgisse Galileu e se desse a descoberta da luneta, em 1610, para que concepções exatas viessem retificar os antigos erros.

Desde então, o Universo se apresenta qual realmente é. Reconhece-se que os planetas são mundos semelhantes à Terra e muito provavelmente habitados também; que o Sol mais não é do que um astro entre inúmeros outros; que com o telescópio se percebem as estrelas e as nebulosas disseminadas pelo espaço sem limites, a distâncias incalculáveis; que, finalmente, a fotografia, recente descoberta do gênio humano, revela a presença de mundos que o olhar do homem jamais contemplara, nem mesmo com o auxílio dos mais possantes instrumentos.

As chapas fotográficas que hoje se preparam são não somente sensíveis a todos os raios elementares que afetam a retina, mas alcançam também as regiões ultravioletas do espectro e as regiões opostas, as do calor obscuro (infravermelho), nas quais o olhar humano é impotente para penetrar.

Assim é que os irmãos Henry conseguiram tornar conhecidas estrelas da 17ª grandeza, as quais nenhum olho humano ainda percebera. Descobriram também, para lá das Plêiades, uma nebulosa, invisível devido ao seu afastamento.

À medida que os nossos processos de investigação se ampliam, a natureza recua os limites do seu império. Ao passo que os mais poderosos telescópios não revelavam, num canto do céu, mais que 625 estrelas, a fotografia tornou conhecidas 1.421. Assim, pois, em parte alguma o vácuo, por toda parte e sempre as criações a se desdobrarem em número indefinido! As insondáveis profundezas da amplidão fatigam, pela sua imensidade, as imaginações mais ardentes. Pobres seres chumbados num imperceptível átomo, não podemos elevar-nos a tão sublimes realidades.

O tempo


Aos mesmos resultados chegamos, quando queremos avaliar o tempo. Os períodos cósmicos nos esmagam com um formidável amontoado de séculos. Ouçamos mais uma vez o nosso instrutor espiritual.

“O tempo, como o espaço, é uma palavra que se define a si mesma. Mais exata idéia dele se faz, estabelecendo-se a relação que guarda com o todo infinito.

O tempo é a sucessão das coisas. Está ligado à eternidade, do mesmo modo pelo qual essas coisas se acham ligadas ao infinito. Suponhamo-nos na origem do nosso mundo, naquela época primitiva em que a Terra ainda não se balouçava sob a impulsão divina. Numa palavra: no começo da gênese.

Aí, o tempo ainda não saiu do misterioso berço da Natureza e ninguém pode dizer em que época de séculos está, pois que o balancim dos séculos ainda não foi posto em movimento.

Mas, silêncio! a primeira hora de uma Terra isolada soa no relógio eterno, o planeta se move no espaço e, desde então, há tarde e manhã. Fora da Terra, a eternidade permanece impassível e imóvel, se bem o tempo avance para muitos outros mundos. Na Terra, o tempo a substitui e, durante uma série determinada de gerações, contar-se-ão os anos e os séculos.

Transportemo-nos agora ao último dia deste mundo, à hora em que, curvado sob o peso da vetustez, a Terra se apagará do livro da vida, para aí não mais reaparecer. Nesse ponto, a sucessão dos eventos se detém, interrompem-se os movimentos terrestres que mediam o tempo e este finda com eles.

Quantos mundos na vasta amplidão, tantos tempos diversos e incompatíveis. Fora dos mundos, só a eternidade substitui essas efêmeras sucessões e enche, serenamente, da sua luz imóvel, a imensidade dos céus. Imensidade sem limites e eternidade sem limites, tais as duas grandes propriedades da natureza universal.

Agem concordes, cada uma na sua senda, para adquirirem esta dupla noção do infinito: extensão e duração, assim o olhar do observador, quando atravessa, sem nunca ter de parar, as incomensuráveis distâncias do espaço, como o do geólogo, que remonta até muito além dos limites das idades, ou que desce às profundezas da eternidade onde eles um dia se perderão.”

Também estes ensinamentos a Ciência os confirma. Malgrado à dificuldade do problema, os físicos, os geólogos hão tentado avaliar os inumeráveis períodos de séculos decorridos desde a formação da nossa Terra e as mais fracas avaliações mostram quão infantis eram os seis mil anos da Bíblia.

Segundo Sir Charles Lyell, que empregou os métodos usados em Geologia – métodos que consistem em avaliar-se a idade de um terreno pela espessura da câmara sedimentada e a rapidez provável da sua erosão –, ao cabo de numerosas observações feitas em todos os pontos do globo, mais de trezentos milhões de anos transcorreram depois da solidificação das camadas superficiais do nosso esferóide.

As experiências do professor Bischoff sobre o resfriamento do basalto, diz Tyndall,177 parecem provar que, para se resfriar de 2.000 graus a 200 graus centígrados, precisou o nosso globo de 350 milhões de anos. Quanto à extensão do tempo que levou a condensação por que teve de passar a nebulosa primitiva para chegar a constituir o nosso sistema planetário, essa escapa inteiramente à nossa imaginação e às nossas conjeturas.178 A história do homem não passa de imperceptível ondulação na superfície do imenso oceano do tempo.

Entremos agora no estudo do nosso planeta e vejamos quais os ensinos dos Espíritos sobre a matéria e a força.


A unidade da matéria


“À primeira vista, nada parece tão profundamente variado, tão essencialmente distinto, quanto as diversas substâncias que compõem o mundo. Entre os objetos que a arte ou a natureza diariamente nos fazem passar sob as vistas, não há dois que acusem perfeita identidade, ou, sequer, simples paridade de composição. Que dessemelhanças, do ponto de vista da solidez, da compressibilidade, do peso e das propriedades múltiplas dos corpos, entre os gases atmosféricos e um fio de ouro; entre a molécula aquosa da nuvem e a do mineral que forma a carcaça óssea do globo! Que diversidade entre o tecido químico das variadas plantas que adornam o reino vegetal e o dos representantes, não menos numerosos, da animalidade na Terra!

Entretanto, podemos pôr por princípio absoluto que todas as substâncias, conhecidas ou desconhecidas, por mais dessemelhantes que pareçam, quer do ponto de vista da constituição íntima, quer no que concerne à ação que reciprocamente exercem, não são, de fato, senão modos diversos sob os quais a matéria se apresenta, senão variedades em que ela se transformou, sob a direção das inúmeras forças que a governam.

Decompondo todos os corpos conhecidos, a Química chegou a um certo número de elementos irredutíveis a outros princípios; deu-lhes o nome de corpos simples e os considera primitivos, porque nenhuma operação até hoje pôde reduzi-los a partes relativamente mais simples do que eles próprios.

Mas, mesmo onde param as apreciações do homem, auxiliado pelos seus mais impressionáveis sentidos artificiais, a obra da Natureza continua; mesmo onde o vulgo toma como realidade a aparência, o olhar daquele que pôde apreender o modo de agir da Natureza, apenas vê, sob os materiais constitutivos do mundo, a matéria cósmica primitiva, simples e una, diversificada em certas regiões, na época do nascimento deles, distribuída em corpos solidários durante a vida e que, por decomposição, se desmembram um dia no receptáculo da extensão.

Tal diversidade se observa na matéria, porque, sendo em número ilimitado as forças que lhe presidiram às transformações e as condições em que estas se produziram, ilimitadas não podiam também deixar de ser as próprias combinações várias da matéria.

Logo, quer a substância que se considere pertença aos fluidos propriamente ditos, isto é, aos corpos imponderáveis, quer se ache revestida dos caracteres e das propriedades ordinárias da matéria, não há, em todo o Universo, mais do que uma única substância primitiva: o cosmos, ou matéria cósmica dos uranógrafos.”

O ensino é claro, formal: existe uma matéria primitiva, da qual decorrem todos os modos que conhecemos. Terá a ciência confirmado esta maneira de ver? Tomando-se as coisas ao pé da letra, não há negar que essa substância ainda não é conhecida; mas, pesando-se maduramente todos os fatos que vamos expor, torna-se fácil verificar que, se a demonstração direta ainda não foi dada, a tese da unidade da matéria é muito provável e encontra cabimento nas mais fundamentadas opiniões filosóficas dos físicos.

Justificação desta teoria – O estado molecular


Uma das maiores dificuldades com que defrontamos quando queremos estudar a Natureza é a de no-la representarmos tal qual ela é. Quando se vêem massas de mármore de granulação fina e cerrada, enormes barras de ferro suportando pesos gigantescos, torna-se difícil admitir que esses corpos são formados de partículas excessivamente pequenas, que não se tocam, chamadas átomos nos corpos simples e moléculas nos corpos compostos. A extrema tenuidade desses átomos escapa à imaginação. O pó mais impalpável é grosseiro, a par da divisibilidade a que pode chegar.

Disso dá Tyndall um exemplo frisante. Dissolvendo-se um grama de resina pura em 87 gramas de álcool absoluto, deitando-se a solução num frasco de água cristalina e agitando-se fortemente o frasco, ver-se-á o líquido tomar uma coloração azul, devida às moléculas da resina em dissolução. Pois bem, Huxley, examinando essa mistura com o seu mais poderoso microscópio, não conseguiu ver partículas distintas: é que elas tinham, de tamanho, menos de um quarto do milésimo de milímetro!

Também o mundo vivente é formado de moléculas orgânicas, em que os átomos entram como partes constituintes. Segundo o Padre Secchi, em certas diátomas circulares, de diâmetro igual ao comprimento de uma onda luminosa (dois milésimos de milímetro), se podem contar, sobre esse diâmetro, mais de cem células, cada uma das quais composta de moléculas de diferentes substâncias!

Outros vegetais e infusórios microscópicos são menores, em tamanho, do que uma onda luminosa e, no entanto, possuem todos os órgãos necessários à nutrição e às funções vitais. Em suma, é quase indefinida a divisibilidade da matéria, pois, se considerarmos que um miligrama de anilina pode colorir uma quantidade de álcool cem milhões de vezes maior, forçoso será desistir de fazer qualquer idéia das partes extremas da matéria.

E esses infinitamente pequenos se acham separados uns dos outros por distâncias maiores do que os seus diâmetros; estão incessantemente animados de movimentos diversos e a mais compacta massa, o metal mais duro são apenas agregados de partículas semelhantes, porém afastadas umas das outras, em vibrações ou girações perpétuas e sem contacto material entre si. A compressibilidade, isto é, a faculdade que possuem todos os corpos de ser comprimidos, ou, por outra, de ocupar um volume menor, põem essa verdade fora de toda dúvida.

A difusão, isto é, o poder que têm duas substâncias de se penetrarem mutuamente, também mostra que a matéria não é contínua.

Examinando-se uma pedra jacente na estrada, julga-se que está em repouso, pois não é vista a deslocar-se. Quem, no entanto, lhe pudesse penetrar na intimidade da substância, para logo se convenceria de que todas as suas moléculas se acham em incessante movimento. No estado ordinário, esse formigamento é de todo imperceptível. Entretanto, poderemos aperceber-nos dele, se bem que de modo grosseiro, se notarmos que os corpos aumentam ou diminuem de volume, isto é, se dilatam ou contraem – sem que suas massas sofram qualquer alteração – conforme a temperatura neles se eleva ou decresce. Essas mudanças dão a ver que é variável o espaço que separa as moléculas e guarda relação com a quantidade de calor que os corpos contêm no momento em que são observados.

Desse conhecimento resulta que no interior dos corpos, brutos e na aparência imóveis, se executa um trabalho misterioso, uma infinidade de vibrações infinitamente pequenas, um equilíbrio que de contínuo se destrói e restabelece, e cujas leis, variáveis para cada substância, dão a cada uma a sua individualidade. Do mesmo modo que os homens se distinguem uns dos outros segundo a maneira com que suportam o jugo das paixões ou lutam contra elas, também as substâncias minerais se distinguem umas das outras pela maneira com que suportam os choques e contra eles reagem.

Ter-se-ão estudados esses movimentos internos? Ainda não se puderam observar diretamente os deslocamentos moleculares, senão na sua totalidade, pois que os mais poderosos microscópios não nos permitem ver uma molécula; mas, os fenômenos que se produzem nas reações químicas e a aplicação que se lhes fez da teoria da transformação do calor em trabalho, e reciprocamente, possibilitaram comprovar-se que estas últimas divisões da matéria se acham submetidas às mesmas leis que presidem às evoluções dos sóis no espaço. Também ao mundo atômico são aplicadas as regras fixas da mecânica celeste, o que mostra, inegavelmente, a admirável unidade que rege o universo.179

Graças aos progressos das ciências físicas, admite-se hoje que todos os corpos têm suas moléculas animadas de duplo movimento: de translação ou oscilação em torno de uma posição mediana e de libração (balanço) ou de rotação em torno de um ou muitos eixos. Esses movimentos se efetuam sob a influência da lei de atração. Nos corpos sólidos, as moléculas se encontram dispostas segundo um sistema de equilíbrio ou de orientação estável; nos líquidos, acham-se em equilíbrio instável; nos gases, estão em movimento de rotação e em perpétuo conflito umas com as outras.180

Todos os corpos da Natureza, assim inorgânica, como vivente, se acham submetidos a essas leis. Seja a asa de uma borboleta, a pétala de uma rosa, a face de uma donzela, o ar impalpável, o mar imenso ou o solo que pisamos, tudo vibra, gira, se balança ou se move. Mesmo um cadáver, embora a vida o haja abandonado, constitui um amontoado de matéria, cada uma de cujas moléculas possui energias que não lhe podem ser subtraídas. Repouso é palavra carente de sentido.

As famílias químicas


Procedendo à análise de todas as substâncias terrestres, chegaram os químicos a reconhecê-las devidas a inúmeras combinações de cerca 181 de 70 corpos simples, Isto é, de 70 elementos que se não puderam decompor. Fora, pois, de supor-se que há tantas matérias entre si diferentes, quantos corpos simples. Pura ilusão haveria aí, devido à nossa impotência para reduzir esses corpos a uma matéria uniforme, que então lhes seria a base. É o que pensavam Proust e Dumas, quando, no começo do século, procuravam descobrir, por meio da lei das proporções definidas, qual seria a substância única, isto é, aquela de que fossem múltiplos exatos os elementos dos corpos primários. Dumas chegou a mostrar que não é o hidrogênio, como então se acreditava, mas uma substância ainda desconhecida, cujo equivalente, em vez de ser a unidade, seria a metade desta: 0,5.

Os físicos partidários da teoria do éter – e hoje são todos – vão ainda mais longe do que os químicos. A matéria desconhecida, pela razão mesma de ter por equivalente 0,5, seria ponderável, até para os instrumentos de que o homem dispõe. Ora, o éter, que enche o Universo, é imponderável; donde se segue que a substância hipotética dos químicos, a ter por peso metade do hidrogênio, seria, quando muito, uma das primeiras condensações ou um dos primeiros agrupamentos do éter. Assim, pois, seria o éter, segundo os físicos, a matéria única constitutiva de todos os corpos.

“O estudo da luz e da eletricidade – diz o Padre Secchi –, nos há levado a considerar infinitamente provável que e éter mais não é do que a própria matéria, chegada ao mais alto grau de tenuidade, a esse estado de rarefação extrema a que se chama estado atômico. Conseguintemente, todos os corpos seriam apenas agregados dos próprios átomos desse fluido.” 182

Estas maneiras teóricas de ver se originam dos seguintes fatos químicos:

1º) nos corpos simples existem verdadeiras famílias naturais;

2º) um grupo composto, cujos elementos se conheçam, pode desempenhar o papel de um corpo simples; um corpo dito simples pode ser decomposto;

3º) corpos formados exatamente dos mesmos elementos, reunidos estes, nas mesmas proporções, têm, entretanto, propriedades diferentes;

4º) a análise espectral revela a existência primitiva de uma só substância nas estrelas mais quentes, em geral o hidrogênio.

Examinemos rapidamente tão interessantes fatos.

Se atentarmos nos diferentes corpos simples, convencer-nos-emos de que não são de ordem fundamental as suas divergências, visto que eles podem grupar-se em séries de famílias naturais. Essa divisão, fundada em analogias manifestas que alguns deles apresentam, uns com relação aos outros, oferece uma vantagem que se não pode negar, porquanto, feito estudo profundo do corpo mais importante, a história dos outros, salvo questões de detalhes, se deduz naturalmente desse estudo. A semelhança na maneira de se comportarem mostra que essas matérias apresentam analogias de composição e, portanto, que elas não são tão dessemelhantes quanto pareciam à primeira vista.

Não lhes é peculiar a individualidade que apresentam os corpos simples. Há corpos compostos, como o cianogênio – formado pela combinação do carbono com o azoto –, que, nas reações, desempenham o papel de um corpo simples. É claro que, se não houvesse podido separar os elementos constituintes do cianogênio, também ele houvera sido classificado entre os corpos simples. Aliás, com os métodos aperfeiçoados da ciência, tais como a análise espectral, já se pode saber que o ferro, por exemplo, é formado de elementos mais simples, embora ainda não se haja conseguido isolar estes últimos. Mas, o que não se conseguiu com relação ao ferro, William Crookes realizou com referência ao ítrio. Podemos, pois, prever próxima a época em que desaparecerá a demarcação entre os corpos simples. O mesmo poder de análise, que limitou a inumerável multidão das substâncias naturais, minerais, vegetais e animais, a alguns elementos apenas, certamente nos conduzirá à descoberta da matéria única de onde todas as outras derivam.

Os fenômenos da alotropia e da isomeria justificam essa expectativa.


A isomeria


Há corpos simples, quais o fósforo, que revelam propriedades diferentes, sem que se lhes tenha acrescentado ou subtraído a menor parcela de matéria. Toda gente sabe que o fósforo é branco, venenoso e muito inflamável. Entretanto, se, durante algum tempo, for exposto à luz no vácuo, ou se for aquecido em vaso fechado, ele muda de cor e se torna de um belo vermelho. Nesse estado, é inofensivo, do ponto de vista da saúde, e deixa de incendiar-se pelo atrito. Contudo, a mais severa análise não logra descobrir qualquer diferença na composição química do fósforo vermelho ou branco. O carvão pode tomar a forma de diamante ou de grafite; o enxofre apresenta modificações características, conforme o estado em que se encontre; o oxigênio se torna ozônio. A todos esses diferentes estados do mesmo corpo foi dada a denominação de alotrópicos.

Esses caracteres tão opostos, que a mesma substância pode denotar, são devidos a mudanças que se lhes operam no íntimo. As moléculas se grupam diferentemente, ao mesmo tempo em que seus movimentos se modificam. Daí, as variações que se produzem nas suas respectivas propriedades.

É tão verdade isso, que corpos muito diferentes pelas suas propriedades, tais como as essências de terebintina, de limão, de laranja, de alecrim, de basilisco, de pimenta, são, todavia formadas todas da combinação de dezesseis equivalentes de hidrogênio com vinte equivalentes de carbono.

Essa ordem especial das partículas associadas, chamadas moléculas, se tornou visível por meio da cristalização.

Se nos lembrarmos de que todos os tecidos dos vegetais e dos animais são formados, principalmente, de combinações variadas de quatro gases apenas: o hidrogênio, o oxigênio, o carbono e o azoto, aos quais se adicionam fracas quantidades de corpos sólidos em número muito reduzido, compreenderemos a inesgotável fecundidade da Natureza e os infinitos recursos de que ela dispõe para, grupando átomos, formar moléculas que, a seu turno, se podem agregar entre si com a mesma diversidade de maneiras.

Se se complicarem essas disposições por meio dos movimentos de translação e de rotação peculiares aos átomos e moléculas, possível se torna conceber-se que todas as propriedades dos corpos estão intimamente ligadas a tão diversos arranjos, tão variados e tão diferentes uns dos outros.

Numa série de memórias muito relevantes, o astrônomo Normann Lockyer fez notar que a análise espectral do ferro contido na atmosfera solar permite se conclua com certeza que esse corpo não é simples; que é um grupo complexo, tendo por base um metal ainda desconhecido. Somente, porém, nas altas temperaturas da fornalha ardente do nosso astro central essa dissociação se torna aparente. Nenhuma temperatura terrestre seria capaz de produzi-la.

Esse eminente químico dos espaços estelares estudou os espectros das estrelas, desde as mais quentes até as que se acham prestes a extinguir-se, e mostrou que o número dos corpos simples aumenta, à medida que a temperatura diminui. Quer isso dizer que eles nascem sucessivamente, pois que cada massa se acha isolada no espaço e nenhuma partícula de matéria recebe do exterior, por mais insignificante que seja.

Em suma, a idéia de uma matéria única, donde necessariamente derive tudo o que existe, está hoje admitida pelos sábios e os Espíritos que no-la preconizaram estão de acordo com a ciência contemporânea. Veremos se a continuação de seus ensinos é tão verdadeira quanto as suas primeiras asserções.

Capítulo III
O mundo espiritual e os fluidos


As forças. – Teoria mecânica do calor. – Conservação da energia. – O mundo espiritual. – A energia e os fluidos. – Estudo detalhado sobre os fluidos: estados sólido, liquido, gasoso, radiante, ultra-radiante e fluídico. – Lei de continuidade dos estados físicos. – Quadro das relações da matéria e da energia. – Estudo sobre a ponderabilidade.

As forças


Citemos de novo o nosso instrutor espiritual.183

“Se um desses seres desconhecidos que consomem a efêmera existência nas regiões tenebrosas do fundo do oceano, se um desses poligástricos, dessas nereidas – miseráveis animálculos que da Natureza unicamente conhecem os peixes ictiófagos e as florestas submarinas – recebesse de súbito o dom da inteligência, a faculdade de estudar o seu mundo e de levantar sobre as suas apreciações um raciocínio conjetural, abrangendo a universalidade das coisas, que idéia faria da Natureza viva que se desenvolve no meio em que ele vive e do mundo terrestre existente fora do campo de suas observações?

Se, depois, por um efeito maravilhoso do seu novo poder, esse mesmo ser chegasse a elevar-se acima das suas trevas eternas, à superfície do mar, não longe das margens opulentas de uma ilha de rica vegetação, ao banho fecundante do Sol, dispensador de calor benfazejo, que juízo faria ele dos seus juízos anteriores, acerca da Criação universal? Não substituiria de pronto a teoria que houvesse construído por uma apreciação mais ampla, porém, ainda tão incompleta, relativamente, quanto à primeira. Tal ó homens! A imagem da vossa ciência, toda especulativa...

Há um fluido etéreo, que enche o espaço e penetra os corpos. Esse fluido é a matéria cósmica primitiva, geratriz do mundo e dos seres. São inerentes ao éter as forças que presidiram às metamorfoses da matéria, as leis imutáveis e necessárias que regem o mundo. Essas forças múltiplas, indefinidamente variadas segundo as combinações da matéria, localizadas segundo as massas, diversificadas, quanto ao modo de ação, segundo as circunstâncias e o meio, são conhecidas na Terra sob o nome de gravidade, coesão, afinidade, atração, magnetismo, eletricidade. Os movimentos vibratórios do agente são os de: som, calor, luz, etc.

Ora, assim como uma única é a substância simples, primitiva, geratriz de todos os corpos, mas diversificada em suas combinações, também todas essas forças dependem de uma lei universal, diversificada em seus efeitos, lei que lhes está na origem e que, pelos decretos eternos, foi soberanamente imposta à Criação, para lhe constituir a harmonia e a estabilidade permanentes.

A Natureza jamais está em oposição a si mesma. Uma só é a divisa no brasão do Universo: Unidade. Remontando-se à escala dos mundos, encontra-se unidade de harmonia e de criação, ao mesmo tempo em que uma variedade infinita nessa imensa platéia de estrelas; percorrendo-se-lhes os degraus da vida, desde o último dos seres até Deus, a grande lei de continuidade se patenteia; considerando-se as forças em si mesmas, pode-se formar com elas uma série, cuja resultante, a confundir-se com a geratriz, é a lei universal....



Todas essas forças são eternas e universais, como a Criação. Sendo inerentes ao fluido cósmico, elas necessariamente atuam em tudo e em toda parte, modificando, sucessivamente, ou pela simultaneidade, ou pela sucessividade, as ações que exercem. São predominantes aqui, ali apagadas, poderosas e ativas em certos pontos, latentes ou secretas noutros. Mas, finalmente, estão sempre preparando, dirigindo, conservando e destruindo os mundos em seus diversos períodos de vida, governando os maravilhosos trabalhos da Natureza, em qualquer parte onde eles se executem, assegurando para sempre o eterno esplendor da Criação.”

Difícil dizer melhor e exprimir de maneira tão elevada quanto concisa os resultados todos a que a ciência tem chegado e nos há feito conhecer.

Escapa ao poder do homem criar qualquer parcela de energia, ou destruir a que existe. Transformar um movimento em outro é tudo o que lhe está ao alcance. O mundo da mecânica, diz Balfour Stewart,184 não é uma manufatura criadora de energia, mas um como mercado ao qual podemos levar certa espécie particular de energia e trocá-la por um equivalente de energia de outro gênero, que mais nos convenha... Se lá chegarmos sem coisa alguma nas mãos, podemos ter a certeza de voltar sem coisa alguma.

É absurdo, diz o Padre Secchi, admitir-se que o movimento, na matéria bruta, possa ter outra origem que não o próprio movimento.

Assim, não se pode criar a energia e firmado está que ela não pode destruir-se. Onde um movimento cessa, imediatamente aparece o calor, que é uma forma equivalente desse movimento. Esta a grande verdade formulada sob o nome de conservação da energia, idêntica à lei de conservação da matéria.

Assim como esta não pode ser aniquilada 185 e apenas passa por transformações, também a energia é indestrutível: experimenta tão-só mudanças de forma. Até ao século XIX, a prática diuturna dava, na aparência, motivos para crer-se que a energia era parcialmente suprimida.

Pertence a J. R. Mayer, médico de Heilbronn (reino do Wurtemberg), ao dinamarquês Colding e ao físico inglês Joule a glória de terem demonstrado que nem uma só fração de energia se perde e que é invariável a quantidade total de energia de um sistema fechado. Essa demonstração, conhecida sob a denominação de teoria mecânica do calor, constitui uma das mais admiráveis e fecundas obras do século XIX.

Descobrindo a que quantidade exata de calor corresponde um certo trabalho, isto é, uma certa quantidade de movimento, a Ciência fez que a indústria mecânica desse um passo gigantesco. Aplicando semelhante descoberta à Química, fez esta entrasse para o rol das ciências finitas, isto é, daquelas cujos fenômenos se podem reduzir todos a fórmulas matemáticas. Finalmente, em Fisiologia, as noções de que tratamos deram lugar a que se achasse a medida precisa da intensidade da força vital.

Mas, não se limitou a isso o estudo experimental da energia. Conseguiu-se demonstrar que todas as diferentes formas que ela assume: calor, luz, eletricidade, etc., podem transformar-se umas nas outras, de maneira que uma daquelas manifestações é capaz de engendrar todas as demais.

Dessas descobertas experimentais decorre que as forças naturais, conforme ainda hoje se chamam, não são mais do que manifestações particulares da energia universal, ou, em última análise, dos modos de movimento. O problema da unidade e da conservação da força foi, pois, resolvido pela ciência moderna.

Possível se tornou comprovar no universo inteiro a unidade dos dois grandes princípios: força e matéria.

A luneta e o telescópio permitiram se visse que os planetas solares são mundos quais o nosso, pela forma, pela constituição e pela função que preenchem. Nem só, porém, o nosso sistema obedece a tais leis, todo o espaço celeste está povoado de criações semelhantes, evidenciando a semelhança de organização das massas totais do Universo, ao mesmo tempo em que a uniformidade sideral das leis da gravitação.

Os sóis ou estrelas, as nebulosas e os cometas foram estudados pela análise espectral, que demonstrou serem compostos esses mundos, tão diversos, de materiais semelhantes aos que conhecemos na Terra. A mecânica química e física dos átomos é a mesma lá, que neste mundo. É, pois, em tudo e em toda parte, a unidade fundamental incessantemente diversificada.

Que confirmação magnífica daquela voz do espaço que, há cinqüenta anos, afirmava que eterna é a força e que as séries dessemelhantes de suas ações têm uma resultante comum, que se confunde com a geratriz, isto é, com a lei universal!

Assim, portanto: força única, matéria única, indefinidamente variada em suas manifestações, tais as duas causas do mundo visível. Existirá outro, invisível e sem peso? Interroguemos de novo os nossos instrutores do Além. Eles respondem afirmativamente e cremos que também quanto a isso a Ciência não os desmentirá.

O mundo espiritual 186


“O fluido cósmico universal, como foi ensinado, é a matéria elementar primitiva, cujas modificações e transformações constituem a inumerável variedade dos corpos da Natureza. Como elementar princípio universal, ele se apresenta em dois estados distintos: o de eterização ou imponderabilidade, que se pode considerar o estado normal primitivo, e o de materialização ou de ponderabilidade, que, de certo modo, é apenas consecutivo àquele. O ponto intermediário é o da transformação do fluido em matéria tangível; mas, ainda aí não há transição brusca, pois que os nossos fluidos imponderáveis podem considerar-se um termo médio entre os dois estados.

No estado de eterização, o fluido cósmico não é uniforme; sem deixar de ser etéreo, sofre modificações tão variadas, em gênero, senão mais numerosas quanto no estado de matéria tangível.

Essas modificações constituem fluidos distintos que, embora procedendo do mesmo princípio, são dotados de propriedades especiais e dão lugar aos fenômenos particulares do mundo invisível.

Sendo tudo relativo, esses fluidos têm para os Espíritos uma aparência tão material, como a dos objetos tangíveis para os encarnados e são para eles o que são para nós as substâncias do mundo terrestre. Eles os elaboram e combinam para produzir determinados efeitos, como fazem os homens com os seus materiais, se bem que por processos diferentes.

Lá, entretanto, como neste mundo, só aos Espíritos mais esclarecidos é dado compreender o papel dos elementos constitutivos do mundo deles. Os ignorantes do mundo invisível são tão incapazes de explicar os fenômenos que observam e para os quais concorrem, muitas vezes maquinalmente, como o são os ignorantes da Terra para explicar os efeitos da luz ou da eletricidade e para dizer como os vêem e entendem.”

É admiravelmente justo o que se acaba de ler. Interrogai ao acaso dez pessoas que passem pela rua, perguntando-lhes quais são as operações sucessivas da digestão ou da respiração e ficai certos de que nove delas não saberão responder-vos. No entanto, em nossa época, a instrução já se acha bastante disseminada. Mas, quão poucos se dão ao trabalho de aprender ou de refletir!

“Os elementos fluídicos do mundo espiritual fogem aos nossos instrumentos de análise e à percepção dos nossos sentidos, feitos que estes são para a matéria tangível e não para a etérea. Alguns há peculiares a um meio tão diferente do nosso, que não podemos fazer deles idéia, senão mediante comparações tão imperfeitas como aquelas pelas quais um cego de nascença procura fazer idéia da teoria das cores.

Mas, dentre esses fluidos, alguns se acham intimamente ligados à vida corpórea e pertencem de certo modo ao meio terrestre. Em falta de percepção direta, podem observar-se-lhes os efeitos e adquirir, sobre a natureza deles, conhecimentos de certa exatidão. É essencial esse estudo, porquanto constitui a chave de uma multidão de fenômenos que só com as leis da matéria se não explicam.

No seu ponto de partida, o fluido universal se acha em grau de pureza absoluta, da qual nada nos pode dar idéia. O ponto oposto é o da sua transformação em matéria tangível. Entre esses dois extremos, há inúmeras transformações, mais ou menos aproximadas de um ou de outro. Os fluidos mais próximos da materialidade, os menos puros conseguintemente, compõem o que se poderia chamar a atmosfera espiritual da Terra. É desse meio, no qual também diferentes graus de pureza existem, que os Espíritos encarnados ou desencarnados extraem os elementos necessários à economia de suas existências. Por muito sutis e impalpáveis que sejam para nós, não deixam esses fluidos de ser de natureza grosseira, comparativamente aos fluidos etéreos das regiões superiores.

Não é rigorosamente exata a qualificação de fluidos espirituais, porquanto, em definitivo, eles são sempre matéria mais ou menos quintessenciada. De realmente espiritual, há só a alma ou princípio inteligente. Eles são qualificados de espirituais, em comparação e, sobretudo, em razão da afinidade que guardam com os Espíritos. Pode dizer-se que são a matéria do mundo espiritual. Daí o serem denominados fluidos espirituais.

Quem, ao demais, conhece a constituição íntima da matéria tangível? Ela possivelmente só é compacta com relação aos nossos sentidos. Prová-lo-ia a facilidade com que a atravessam os fluidos espirituais 187 e os Espíritos, aos quais ela não opõe obstáculo maior do que o que à luz oferecem os corpos transparentes.

Tendo por elemento primitivo o fluido cósmico etéreo, há de a matéria tangível ter a possibilidade de voltar, desagregando-se, ao estado de eterização, como o diamante, que é o mais duro dos corpos, pode volatilizar-se em gás impalpável. A solidificação da matéria mais não é, em realidade, do que um estado transitório do fluido universal, que pode volver ao seu estado primitivo, quando deixam de existir as condições de coesão.

Quem sabe mesmo se, no estado de tangibilidade, a matéria não é suscetível de adquirir uma espécie de eterização, que lhe dê propriedades particulares? Certos fenômenos, que parecem autênticos, tenderiam a fazê-lo supor. Ainda não possuímos senão as balizas do mundo invisível e o futuro sem dúvida nos reserva o conhecimento de novas leis que permitirão se conheça o que para nós continua a ser mistério.”

Vejamos agora, por meio das modernas descobertas, se são exatas estas concepções.


A energia e os fluidos


Até há pouco, a Ciência negava a existência de estados imponderáveis da matéria e a hipótese do éter estava longe de ser unanimemente admitida, apesar da sua necessidade para tornar compreensíveis os diversos modos da força. Atualmente, já a negação não será talvez tão absoluta, pois que toda uma categoria de novos fenômenos veio mostrar a matéria revestida de propriedades de que nem se suspeitava.

A matéria radiante dos tubos de Crookes revela as energias intensas que parecem inerentes às últimas partículas da substância. Os raios X, que nascem no ponto em que os raios catódicos tocam o vidro da empola, ainda mais singulares são, porquanto se propagam através de quase todos os corpos e têm propriedades fotogênicas, sem serem visíveis de si mesmos. Finalmente, as experiências espíritas de Wallace, de Beattie, de Aksakof consignam, fotografados, esses estados da matéria invisível, que concorrem para a produção dos fenômenos espíritas.

O Dr. Baraduc, o comandante Darget, o Dr. Adam, o Dr. Luys, o Sr. David e as experiências do Sr. Russel 188 põem de manifesto essas forças materiais que emanam constantemente de todos os corpos, mas, sobretudo, dos corpos vivos, e os clichês que se obtêm são testemunhos irrecusáveis da existência desses fluidos.189

Assistimos, presentemente, à demonstração científica desses estados imponderáveis da matéria antes tão obstinadamente repelidos. Mais uma vez, confirma-se o ensino dos Espíritos, sendo a prova de veracidade das suas revelações dada por pesquisadores que não partilham das nossas idéias e que, portanto, não podem ser suspeitados de complacências.

É necessário que o público, ao ouvir-nos falar de fluidos, se habitue a não ver nessa expressão um termo vago, destinado a mascarar a nossa ignorância. É necessário fique ele bem persuadido de que estamos constantemente mergulhados numa atmosfera invisível, intangível pelos nossos sentidos, porém, tão real, tão existente, quanto o próprio ar.

Não é certo que as maiores inteligências do século, os mais hábeis analistas, químicos e físicos hão vivido em contacto com o argônio, o novo gás que faz parte integrante do ar, sem lhe suspeitarem a presença? Esse exemplo deve inspirar modéstia a todos quantos orgulhosamente proclamam que sabem todas as coisas e que a Natureza nenhum mistério mais lhes guarda. A verdade é que ainda somos muito ignorantes e que a nossa existência se escoa num lugar do qual só pequeníssima parte conhecemos.

O de que todos se devem bem compenetrar é de que a atmosfera que nos circunda contém seres e forças cuja presença normal somos incapazes de apreciar. O ar se encontra povoado de miríades de organismos vivos, infinitamente pequenos, que não lhe turvam a transparência. No azul translúcido de um belo dia de verão volteia uma inumerável quantidade de sementes vegetais, que irão fecundar as flores. Ao mesmo tempo, o espaço se encontra atravancado de bilhões de seres, aos quais foi dado o nome de micróbios.

Todos esses seres evolvem dentro de gases cuja existência nada nos revela. O ácido carbônico, produzido por tudo o que tem vida ou se consome, mistura-se aos gases constitutivos do ar, sem que alguém o possa suspeitar. Quase todos os corpos emitem vapores que imergem nesse laboratório límpido e os nossos olhos permanecem cegos para todos esses corpos tão diversos, cada um com a sua função e a sua utilidade.

Tampouco os nossos sentidos nos advertem dessas correntes que sulcam o globo e desorientam a bússola durante as tempestades magnéticas. Só raramente a eletricidade se manifesta sob forma que nos seja apreciável. Ela não existe unicamente no instante em que o raio risca a nuvem, em que repercutem ao longe os roncos do trovão; antes, atua perpetuamente, por meio de lentas descargas, por meio de trocas incessantes entre todos os corpos de temperaturas diferentes. A própria luz não a percebemos, senão dentro de limites muito acanhados. Seus raios químicos, de ação tão intensa, escapam completamente à nossa visão.

Somos banhados, penetrados por todos esses eflúvios em meio dos quais nos movemos e longuíssimo tempo viveu a humanidade sem conhecer tais fatos que, entretanto, sempre existiram. Foram necessárias todas as descobertas da ciência, para criarmos sentidos novos, mais poderosos, mais delicados do que os que devemos à Natureza. O microscópio nos revelou o átomo vivo, o infinitamente pequeno; a chapa fotográfica é, ao mesmo tempo, um tato e uma retina, de incomparáveis finura e acuidade de visão.

O colódio registra as vibrações etéreas que nos chegam dos planetas invisíveis, perdidos nas profundezas do espaço, e nos revela a existência deles. Apanha os movimentos prodigiosamente rápidos da matéria quintessenciada; reproduz fielmente a luz obscura que todos os corpos à noite irradiam. Se a nossa retina possuísse essa singular sensibilidade, seríamos impressionados pelas ondas ultravioletas, como o somos pela parte visível do espectro.

Pois bem! essa chapa preciosa ainda presta o serviço de dar-nos a conhecer os fluidos que emanam do nosso organismo, ou que nele penetram. Mostra-nos, com irresistível certeza, que em torno de nós forças existem, isto é, movimentos da matéria sutil, que se diferençam uns dos outros pelos seus caracteres particulares, por uma assinatura especial. Presentemente, já não se pode duvidar dessas modalidades, desses avatares da matéria.

Há, envolvendo-nos, uma atmosfera fluídica incorporada na atmosfera gasosa, penetrando-a de todos os lados. São ininterruptas as suas ações: é todo um mundo tão variado, tão diverso em suas manifestações, quanto o é a natureza física, isto é, a matéria visível e ponderável. Há fluidos grosseiros, como fluidos quintessenciados, uns e outros com propriedades inerentes ao respectivo estado vibratório e molecular, que os tornam substâncias tão distintas, quanto o podem ser, para nós, os corpos sólidos ou gasosos.

Mas, que energias se manifestam nesse meio! Que de mudanças visíveis, de mobilidade, de plasticidade nessa matéria sutil! Quanto ela difere da pesada, compacta e rígida substância que conhecemos. A eletricidade nos permite julgar da instantaneidade das suas transformações: é um prodígio, uma febre contínua. É bem a fluidez ideal para as tão leves, tão vaporosas, tão instáveis criações do pensamento. É a matéria do sonho, na sua impalpável realidade.

Estudando a matéria gasosa, chegamos a imaginar esses estados transcendentes. Já, sob a forma radiante, vemos os átomos, movendo-se com velocidades fantásticas, produzirem fenômenos cuja intensidade, dada a massa de matéria posta em jogo, é realmente formidável e essa energia nos faz compreender a força, em suas manifestações superiores de luz, eletricidade, magnetismo, devidas às rapidíssimas ondulações do éter.

Torna-se admissível que esses átomos animados de enormes velocidades retilíneas, girando sobre si mesmos com vertiginosa rapidez, desenvolvam uma força centrífuga que anula a atração terrestre. Sim, é mais que provável que eles se diferenciem entre si pela quantidade de força viva que individualmente contêm e podemos entrever a inesgotável variedade de agrupamentos que se constituem entre essas inúmeras formas de substâncias.

É o mundo espiritual, o que nos cerca e penetra, em o qual vivemos. Com ele entramos em relações por meio do nosso organismo fluídico. Porque possuímos um perispírito, possível se nos faz atuar sobre esse mundo invisível à carne. É pela nossa constituição espiritual que os Espíritos têm ação sobre nós e nos podem influenciar.

Estudo sobre os fluidos


É tão importante a demonstração da existência dos fluidos, para a compreensão dos fenômenos espirituais, que devemos examinar esse problema sob todos os seus aspectos. A experiência espírita há demonstrado que a alma se acha revestida de um envoltório material, mas invisível e intangível no estado normal, e que se move num meio físico que carece de peso. Urge, pois, apresentemos todas as razões que tendem a provar o fato capital da existência de um mundo imponderável, porém tão real como o em que vivemos.

Acreditava-se, outrora, que a luz, a eletricidade, o calor, o magnetismo, etc., eram substâncias inteiramente distintas umas das outras, dotadas de natureza própria, especial, que as diferençavam completamente. As pesquisas contemporâneas demonstraram falsa semelhantes concepção.

Nas primeiras idades da ciência, não só parecia que as forças eram separadas, mas também que o número delas se multiplicava ao infinito. Considerava-se cada fenômeno como a manifestação de uma certa força. Entretanto, pouco a pouco se reconheceu que efeitos diferentes podem derivar de uma causa única. Desde então, diminuiu consideravelmente o número das forças, cuja existência se admitia. Newton identificou a gravidade e a atração, reconhecendo na queda da maçã e na manutenção do astro em sua órbita efeitos de uma mesma causam: a gravitação universal. Ampère demonstrou que o magnetismo é apenas uma forma da eletricidade. A luz e o calor, desde longo tempo, são tidos como manifestações de uma mesma causa: um movimento vibratório extremamente rápido do éter.

Nos dias atuais, uma grandiosa concepção veio mudar de novo a face à ciência: a de que todas as forças da Natureza se reduzem a uma só. A energia ou a força (são sinônimos os dois termos) pode assumir todas as aparências, sendo, alternativamente, calor, trabalho mecânico, eletricidade, luz e dar origem às combinações e decomposições químicas. Às vezes, a força como que se acha oculta ou destruída. Simples aparência. Pode-se sempre encontrá-la novamente e fazê-la passar de novo pelo ciclo de suas transformações.

Inseparável da matéria, a força é indestrutível, fazendo-se mister que à energia se aplique este princípio: em a Natureza, nada se perde, nem se cria.

É tão verdade isto, que, quando um movimento sofre brusca interrupção, imediatamente uma coisa nova aparece: é o calor. Assim, um pedaço de chumbo, colocado na bigorna, se aquecerá violentamente sob os golpes do martelo do ferreiro; uma bala de artilharia, batendo num alvo de ferro, poderá chegar à temperatura do rubro; as rodas de um trem em marcha despedem centelhas, quando se apertam subitamente os freios. Se o movimento da Terra em torno do Sol cessasse instantaneamente, diz Helmholtz que a quantidade de calor gerado por esse fato seria tal, que faria passar ao estado de vapor toda a massa terrestre.

Temos, portanto, que calor e movimento são duas formas equivalentes da energia, formas que mutuamente se substituem, tomando-se visível uma, quando a outra desaparece. Determinou-se exatamente a que quantidade de calor corresponde uma certa quantidade de movimento, medida a que se dá o nome de equivalente mecânico do calor.

Torna-se então fácil de compreender-se que aquecer um corpo é aumentar-lhe o movimento interno, isto é, o de suas moléculas. Sabemos que, desde o átomo invisível até o corpo celeste perdido no espaço, tudo se acha sujeito a movimento. Tudo gravita numa órbita imensa ou infinitamente pequena. Mantidas a uma distância definida umas das outras, em virtude do próprio movimento que as anima, as moléculas guardam entre si relações constantes, que só se alteram pela adição ou subtração de certa quantidade de movimento. Em geral, a aceleração do movimento das moléculas lhes aumenta as órbitas e as afasta umas das outras, ou, por outras palavras, aumenta o volume dos corpos. É justamente por isso que o calor se apresenta como fonte de movimento.

Sob sua influência, as moléculas, afastando-se cada vez mais, fazem que os corpos passem do estado sólido ao líquido, em seguida ao de gás. Os gases, a seu turno, se dilatam indefinidamente, pela adição de novas quantidades de calor, isto é – de movimento – e, se se criar embaraço a essa expansão, ele exercerá considerável pressão sobre as paredes do vaso que o contenha. É assim que as moléculas dos gases ou dos vapores, em cativeiro nos cilindros das locomotivas, transmitem ao êmbolo a força que se emprega para produzir a tração dos trens, isto é, trabalho mecânico.

Quando, pois, os movimentos moleculares de um corpo se mostrem grupados de maneira a apresentar, uns com relações aos outros, centros fixos de orientação, diremos que esse corpo é sólido;

Quando os movimentos moleculares de um corpo estejam grupados de maneira que os centros desses grupos sejam móveis, uns com relação aos outros, o corpo é líquido;

Quando as moléculas de um corpo se movem em todos os sentidos e colidem umas com as outras milhões de vezes por segundo, o corpo é chamado gás.190

Convém notar que, à proporção que a matéria passa do estado sólido ao estado líquido, o volume aumenta; depois, do estado líquido ao gasoso, a dilatação do mesmo peso de matéria se torna ainda maior, de sorte que a matéria se rarefaz, ao mesmo tempo em que o movimento molecular se pronuncia. Um litro d’água, por exemplo, dá 1.700 litros de vapor, isto é, ocupa um volume 1.700 vezes superior ao que tinha no estado líquido; nessas condições, as atrações mútuas entre as moléculas diminuem e o movimento oscilatório das mesmas moléculas se torna mais rápido.

Com efeito, segundo cálculos de probabilidades,191 os sábios chegaram a admitir que se pode considerar constante a velocidade média das moléculas para um mesmo gás, qualquer que seja a direção do caminho percorrido. O valor dessa velocidade média, por segundo, à temperatura do gelo em fusão, isto é, a 0º, e à pressão barométrica de 760 mm, é de:

461 metros para as moléculas do oxigênio;

485 para as do ar;

492 para as do azoto;

1.848 para as do hidrogênio.

Tais velocidades são comparáveis à de um projétil à saída de uma arma de grande alcance. A velocidade das moléculas é tanto maior, quanto mais leve é o gás, isto é, quanto menos matéria contém na unidade de volume. Logo, se num tubo fechado se fizer o vácuo tão perfeito quanto possível e se obrigarem as moléculas restantes a mover-se em linha reta, por meio da eletricidade, obter-se-á o estado radiante que Crookes descobriu.

Como muito se fala desse estado especial, expliquemos claramente em que consiste ele.

Sabemos que os gases se compõem de um número indefinido de particulazinhas em incessante movimento e animadas, conforme suas naturezas, de velocidades de todas as grandezas.

Sabemos igualmente que, em conseqüência do número imenso delas, essas partículas não podem mover-se em nenhuma direção, sem se chocarem, quase imediatamente, com outras partículas.

Que se dará se, de um vaso fechado, se retirar grande parte do gás ali encerrado? É claro que, quanto mais diminuir o número das moléculas do gás, tanto menos oportunidade terão as que restarem de chocar-se umas com as outras. Pode-se, pois, induzir que, num vaso fechado, onde se faça cada vez maior vazio, crescerá a distância que qualquer molécula poderá percorrer, sem se chocar com outras. Teoricamente, o comprimento do percurso livre, isto é, o comprimento da distância que uma molécula qualquer poderá percorrer, sem colidir com outra, estará na razão inversa das moléculas restantes, ou, o que vem a dar no mesmo, na razão direta do vácuo produzido.

Como, no estado gasoso ordinário, as moléculas se acham em colisão contínua umas com as outras; como essa colisão contínua é precisamente o que determina as propriedades físicas do gás, segue-se que, se as moléculas percorrem espaços maiores sem se chocarem, dessa diferença na maneira de se comportarem hão de decorrer propriedades físicas diferentes e, por conseguinte, um estado novo para a matéria. O quarto estado será tão distante do estado gasoso, quanto este o é do estado líquido. Foi o que Crookes experimentalmente demonstrou.

Aqui se acusa nitidamente a lei que assinalamos, segundo a qual quanto mais rarefeita é a matéria, tanto mais rápido é o movimento molecular. É tal a velocidade destas últimas partículas da matéria, que os metais mais refratários, submetidos ao bombardeio das moléculas, não tardam a tornar-se rubros e mesmo a fundir-se, se a ação for suficientemente prolongada. Nesse estado, a matéria, se bem que excessivamente rara, ainda tem um peso apreciável, não por meio da balança, mas por meio do raciocínio. O vácuo produzido é tal, que, se supusermos a pressão barométrica ordinária, representada por uma coluna de mercúrio da altura de 4.800 metros, a pressão da matéria radiante não poderá equilibrar mais de um quarto de milímetro de mercúrio! Ela ainda tem peso, o que explica que conserva suas propriedades químicas, porquanto não há dissociação.

Mas, se acompanharmos a ciência em suas induções, ser-nos-á possível conceber um estado em que a matéria se ache tão rarefeita que o seu movimento molecular a liberte da atração terrestre. É o éter dos físicos que primeiro realiza essa concepção. Para serem compreensíveis os diversos aspectos da energia, imaginou-se o Universo cheio de uma substância imponderável, perfeitamente elástica, a qual, graças à sua sutileza, penetraria todos os corpos. Conforme vibre mais ou menos rapidamente, essa matéria dá lugar aos fenômenos que para nós se traduzem em sensações de calor, sendo as mais lentas as vibrações; de eletricidade, se forem as mais rápidas; de raios obscuros, se for atividade química; finalmente, às vibrações excessivamente rápidas da luz visível e invisível.

Será aí, porém, o limite extremo que não se possa ultrapassar nas pesquisas? Não, pois sabemos, pelas experiências espíritas, que os Espíritos possuem corpos fluídicos, que nenhuma das formas da energia pode influenciar. Nem os frios intensos dos espaços interplanetários, que chegam a 273 graus abaixo de zero, nem a temperatura de muitos milhares de graus dos sóis qualquer influência exercem sobre a matéria perispirítica. É que esse invólucro da alma procede do fluido cósmico universal, isto é, da substância em sua forma primitiva. Nenhuma mudança poderá atingi-la; ela, em sua essência, é imutável. Não se acha sujeita às decomposições, por não poder simplificar-se, uma vez que se encontra no estado inicial, último tempo a que hão de fatalmente ir ter todas as mutações. Mesclam mais ou menos o perispírito os fluidos do planeta a que o Espírito se acha ligado. O trabalho da alma consiste justamente em desembaraçar o seu corpo fluídico de todas as escórias que se lhe agregaram, desde a origem da sua evolução.

Entre esse estado perfeito – em que o mínimo de matéria é animado do máximo de força viva – e o estado sólido a 273° – em que o máximo de matéria contém o mínimo de movimentos vibratórios – há uma infinidade de graus que formam a escala de todas as modalidades possíveis da matéria. Estamos, pois, cientificamente autorizados a dizer que os fluidos não são simples criações da imaginação; que eles correspondem, no mundo físico, a realidades positivas, a estados ainda não descobertos, mas que a matéria radiante, os raios X, o fluido que impressiona as chapas fotográficas e o éter nos animam a conceber como existentes de fato. Não é de duvidar-se que pesquisas ulteriores farão se descubram mais tarde essas modificações tão variadas dos estados da substância primitiva, à medida que se aperfeiçoem os nossos meios de investigação e que a ciência voltar suas vistas para o invisível e para o imaterial, em vez de se acantonar por sistema no domínio grosseiramente tangível e cujo território é tão limitado.

Aliás, a força da evolução obriga fatalmente os retardatários a abrir o intelecto às novas concepções. A fotografia do invisível, quer opere nas insondáveis profundezas da extensão, quer penetre no interior das substâncias opacas, patenteia ao espírito possibilidades que, há alguns anos apenas, seriam tachadas de utopias supersticiosas. Faz-se mister que a humanidade se liberte das enervantes afirmações dos materialistas. Soou a hora em que tem de cair o véu que tolhia a visão clara da Natureza.

Apesar das mais extravagantes teorias, forjadas para explicarem os fenômenos espíritas sem a intervenção dos Espíritos, a verdade se evidencia de maneira esplêndida. Sim, temos uma alma imortal. Sim, as vidas sucessivas na Terra e no espaço são simples trechos do interminável caminho do progresso e todos nos achamos em marcha para altos destinos. O sentimento da imortalidade, que sempre se manifestou em todas as idades do gênero humano, que se atestou, de modo tangível, em todas as épocas, por manifestações semelhantes às que hoje observamos, está prestes, enfim, a receber sua explicação científica. Esplenderá então a moral sublime da solidariedade, da fraternidade e do amor, forçosa conseqüência das vidas sucessivas e da identidade de origem e de destino. Por termos o sentimento vivo de que soou a hora em que a ciência há de unir-se à revelação, é que todos os esforços empregam por trazer a nossa pedra ao edifício. Para todos espíritos independentes, que se não ache cegado por idéias preconcebidas, são fora de dúvida que as descobertas contemporâneas acarretam firmes apoios ao espiritualismo.

As especulações precedentes sobre a matéria no estado sólido, líquido ou gasoso se justificam plenamente, como é fácil de ver-se. Dado que, verdadeiramente, os gases são formados de átomos a moverem-se em todos os sentidos com prodigiosa rapidez, é claro que, resfriando-se esses gases, isto é, reduzindo-se-lhes o movimento, suas moléculas se aproximarão. Se, ao demais, ajudarmos essa concentração por meio de pressões enérgicas, o gás há de passar ao estado líquido e de, afinal, solidificar-se, quando as suas moléculas possam exercer as mútuas atrações. É precisamente o que se dá.

Só ultimamente se chegou a comprovar esses resultados que a teoria fazia prever. Assim é que o Senhor Cailletet mostrou que o oxigênio se liquefaz a 29 graus abaixo de zero, sob uma pressão de 300 atmosferas, ou, então, conforme o Sr. Wroblewski o determinou, sob a pressão de uma atmosfera, mas fazendo-se descer a temperatura a 184 graus abaixo de zero. O ar que respiramos se torna líquido, quando a temperatura é de 192 graus abaixo de zero. A dois graus de menos, também o azoto se torna líquido. De sorte que, se o Sol se extinguisse, isto é, se deixasse de nos dar o calor que mantém todos os corpos terrestres no estado atual, a Terra seria inabitável, porquanto o ar provavelmente se solidificaria, bem como o hidrogênio e todos os gases; não mais haveria atmosfera e um frio mortal substituiria a animação e a vida.

Incontestavelmente, reina continuidade em todas as manifestações da matéria e da energia. Todos os estados, tão diversos, das substâncias se ligam entre si por estreitos laços; não há barreira intransponível a separar os gases impalpáveis das matérias mais duras ou mais refratárias. Em realidade, uma continuidade existe perfeita nos estados físicos, que podem passar de um a outro por gradações tão suaves, que racionalmente podem ser considerados formas amplamente espaçadas de um mesmo estado material. Tanto mais exato é isto, quanto nenhum estado material possui qualquer propriedade essencial de que os outros não partilhem.

Os sólidos, sob fortes pressões, se escoam como os líquidos, e os gases podem comportar-se como corpos sólidos pouco compressíveis. O Sr. Tresca, submetendo o chumbo a uma pressão de 130 quilogramas por centímetro quadrado, fez correr dele um veio líquido, qual se estivesse fundido. O Sr. Daubrée 192 produziu erosões e arrancamentos em blocos de aço, pela força de gases violentamente comprimidos. O efeito foi semelhante ao que teria produzido o choque de um buril de aço energicamente acionado.

Urge se compreenda que a grandeza do efeito que um corpo produz está longe de corresponder ao peso desse corpo. Assim, uma quantidade extremamente fraca de gás, diz o Sr. Daubrée, falando da dinamite, produz efeitos verdadeiramente assombrosos. O peso de um quilograma e meio de gás, atuando sobre um prisma de aço de 134 centímetros quadrados (o que corresponde ao peso de 162 miligramas por milímetro quadrado), produz nele, a par de diferentes escavações na superfície, o seguinte:

1º) Rupturas, que somente pressões de um milhão de quilogramas seriam capazes de produzir, isto é, a pressão de um peso 600 mil vezes maior do que o do gás causador de tais despedaçamentos;

2º) Esmagamentos, que não podem corresponder a menos de 300 atmosferas.

Postas em confronto com efeitos mecânicos determinados pelo raio, mostram essas experiências que as mais altas formas da energia se acham sempre ligadas à matéria cada vez mais rarefeita.



É, pois, por indução absolutamente legítima que acreditamos na existência dos fluidos, isto é, de estados materiais em que a força viva das moléculas ou dos átomos aumenta sem cessar, até ao estado primitivo, que se caracterizará pelo máximo de força viva no mínimo de matéria. Entre a matéria sólida e o fluido universal, depara-se com uma imensa série graduada de transições insensíveis, em que o movimento molecular vai em constante crescendo. Pode-se resumir no quadro seguinte tudo o que acabamos de examinar:


Na unidade de volume máximo de matéria, ligada ao mínimo de força viva, limite absoluto: 273º abaixo de zero.

Matéria no estado sólido.

  • Minerais, metais, sais, etc.

  • Orientação fixa dos agrupamentos moleculares, uns com relação aos outros.

  • Oscilações restritas e movimentos de vibração das moléculas.




Matéria no estado líquido.

  • A água, o vinho, o álcool, etc.

  • Orientação móvel dos agrupamentos moleculares uns com relação aos outros.

  • Oscilações lentas, mas começo do movimento de rotação das moléculas sobre si mesmas.




Matéria no estado gasoso.

  • O ar, o hidrogênio, o oxigênio, etc.

  • Movimentos rápidos de translação das moléculas em todas as direções, acompanhadas de uma rotação mais pronunciada, à medida que a matéria se rarefaz.




Matéria no estado etérico imponderável.

  • Manifestando-se pelos fenômenos caloríficos, luminosos, elétricos. vitais, etc.

  • Movimentos de translação, mais rápidos do que no estado precedente; movimento rotatório dos átomos, desenvolvendo uma força centrífuga, que contrabalança a ação da gravitação.




Matéria no estado fluídico.

  • Todos os fluidos do mundo espiritual. Caracterizados por movimentos cada vez mais rápidos das moléculas e dos átomos. Sempre imponderáveis.

Na unidade do volume: máximo de força viva com o mínimo de matéria.

Matéria no estado cósmico ou primordial.

  • Máximo de movimentos atômicos. A matéria está no seu ponto extremo de rarefação. Acha-se no estado inicial e contém, em potência, todos os estados enumerados acima.



A ponderabilidade


Estudando o quadro precedente, é-nos lícito perguntar como pode a matéria chegar ao ponto de não pesar, isto é, a tornar-se imponderável. Compreendemos facilmente que a matéria, passando do estado sólido à forma gasosa, ocupe um volume maior, pois que o calor tem por efeito aumentar a amplitude das vibrações de todas as partes infinitamente pequenas que constituem o corpo, mas é claro que, se se recolher todo o gás produzido pela transformação de um corpo sólido em corpo gasoso, esse gás terá sempre o mesmo peso que quando estava concentrado sob uma forma material. Parece incompreensível que a matéria possa deixar de ter peso, mesmo que a imaginemos tão rarefeita quanto o queiramos; entretanto, é certo que a eletricidade ou o calor nenhuma influência exercem sobre a balança, qualquer que seja a quantidade que desses fluidos se acumule no prato do aparelho. Se tais manifestações da energia derivam de movimentos muito rápidos da matéria etérea, precisamos tentar compreender porque essa matéria não pesa.

Devemos prevenir o leitor de que, neste ponto, recorremos a uma hipótese e de que nos é toda pessoal a maneira pela qual resolvemos o problema. Se, portanto, não for concludente a nossa demonstração, a falta só nos deve ser imputada a nós e não ao Espiritismo.

Para termos a explicação do que neste caso se passa, precisamos lembrar-nos de que a ponderabilidade não é propriedade essencial dos corpos. O a que neste mundo se chama o peso de um corpo mais não é do que a soma das atrações exercidas pela Terra sobre cada uma das moléculas desse corpo. Ora, sabemos que a atração decresce com muita rapidez segundo o afastamento, pois que ela diminui na razão do quadrado da distância. Vemos, portanto, que um corpo pesará mais ou menos conforme esteja mais ou menos afastado do centro da Terra. A experiência demonstra que é assim. Pesando-se um pedaço de ferro em Paris, se seu peso for igual a dois quilogramas, quer isso dizer que a força de atração, nessa cidade, é, para aquele corpo, igual a 2 quilogramas. Se transportarmos esse ferro para o equador, ele pesará menos 5 gramas e 70 centigramas e no pólo mais 5 gramas e 70 centigramas. Que foi o que se deu?

Evidentemente, a massa do corpo considerado não mudou durante a viagem; mas, como a Terra, no equador, é mais volumosa, estando aquele pedaço de ferro mais afastado do seu centro, a atração é menos forte, sendo de 5,70g a diminuição por ela sofrida. No pólo, produziu-se a ação oposta, por isso que a Terra aí é achatada, de sorte que a gravitação aumentou de 5 gramas e 70 centigramas.

Logo, em geral, um corpo varia de gravidade conforme seja maior ou menor a sua distância ao centro da Terra. A gravidade é uma propriedade secundária, não ligada intimamente à substância. Bem compreendido isto, mais fácil se torna conceber-se como a matéria pode vir a ser imponderável. Bastar-lhe-á desenvolver uma força suficiente a contrabalançar a atração terrestre.

Ora, notou-se, precisamente, que os corpos que giram em torno de um centro, como a Terra sobre si mesma, desenvolvem uma força a que foi dado o nome de força centrífuga. Porque essa força tem por efeito diminuir a gravidade, em mecânica se define o peso de um corpo como sendo – a resultante da atração do centro terrestre, diminuída da ação que a força centrífuga exerce. Ela no pólo é nula e máxima no equador. Calculou-se que, se a Terra girasse 17 vezes mais depressa, isto é, se fizesse a sua rotação em 1 hora e 24 minutos, a força centrífuga se tornaria grande bastante para destruir a ação da gravidade, de modo que um corpo colocado no equador deixaria de pesar.

Apliquemos estes conhecimentos mecânicos às moléculas materiais que, como se sabe, são animadas de um movimento duplo, de oscilação e de rotação, e possível nos será imaginar, para cada uma delas, um movimento de rotação bastante rápido para que a força centrífuga desenvolvida anule a de gravitação. Nesse momento, a matéria se torna imponderável. Esta hipótese se ajusta bem aos fatos, pois que, à medida que a matéria se rarefaz, aumentam de rapidez os seus movimentos moleculares, como temos comprovado relativamente aos gases. A grande lei de continuidade nos leva a supor que o estado gasoso não é o limite último que se possa atingir; a matéria fluídica é aquela em a qual, acentuando-se o movimento molecular gasoso, a rarefação também se acentua e, com o desenvolver a rotação das moléculas crescente força centrífuga, a matéria passa ao estado de invisível e imponderável.

Em seu discurso sobre a gênese dos elementos, Crookes foi conduzido a levantar a questão de saber se não existem elementos de pesos atômicos menores do que zero, isto é, que não pesam. Lembra ele que, em nome da teoria, o Dr. Carnelay reclamou esse elemento, essa “não-substancialidade”. Cita igualmente a opinião de Helmholtz, segundo o qual a eletricidade é, provavelmente, atômica, como a matéria. Isto posto, ele pergunta se a eletricidade não será um elemento negativo e se o éter luminoso também não o será. Declara: “não é impossível conceber-se uma substância de peso negativo”. Antes dele, o Sr. Airy, na sua Vida de Faraday, escrevera: “Posso facilmente conceber que em torno de nós abundem corpos não submetidos a essa ação intermútua e, por conseguinte, não sujeitos à lei de gravitação.”

Aí chegado, podemos perguntar se a matéria primitiva é rigorosamente imponderável, isto é, absolutamente livre de toda e qualquer ação da gravitação.

Sabemos, evidentemente, que os movimentos da matéria primitiva, conhecidos sob os nomes de luz, calor, eletricidade, etc., nenhuma ação exercem sobre a mais sensível balança; não haverá, porém, apesar de tudo, uma atração que retenha essas forças da matéria em torno da Terra, de maneira a constituir para esta um envoltório permanente? Cremos que tal é a realidade e vamos dizer em que nos baseamos para emitir essa hipótese.

Examinando o nosso sistema solar, a Astronomia nos ensina que, primitivamente, o Sol e todos os planetas formavam uma imensa nebulosa de matéria difusa, tal qual outras que ainda vemos no espaço. Antes que se houvesse operado a condensação dessa matéria em focos distintos, qual poderia ser a sua densidade? Camille Flammarion responde com exatidão:193

“Suponhamos toda a matéria do Sol, dos planetas e de seus satélites uniformemente repartida no espaço esférico que a órbita de Netuno abrange; daí resultaria uma nebulosa gasosa, homogênea, cuja densidade é fácil de calcular-se.

Como a esfera d’água de igual raio teria um volume de mais de 300 quatrilhões de vezes o volume terrestre, a densidade procurada não seria de mais de meio trilionésimo da densidade da água. A nebulosa solar seria 400 milhões de vezes menos densa do que o hidrogênio à pressão ordinária, o qual, como se sabe, é o mais leve de todos os gases conhecidos (ele pesa 14 vezes menos que o ar: dez litros de ar pesam 13 gramas; dez litros de hidrogênio pesam 1 grama).”

Vê-se, pois, que essa matéria nebulosa atinge tal grau de rarefação, que a imaginação não a pode conceber; entretanto, a matéria ainda pesa, nesse estado último. Este ponto se acha perfeitamente determinado pelo estudo dos cometas, que são amontoados nebulosos de densidade extremamente fraca e que, no entanto, obedecem às leis da atração. Isto mostra que os fluídos formadores da nossa atmosfera terrestre têm uma densidade tão fraca quanto se queira, mas suficiente para os reter em nossa esfera de atração. Decorre daí este outro ponto importante: que a alma, revestida do seu corpo fluídico, não pode abalar para o infinito, no momento em que a morte terrena a libera da prisão carnal. Somente quando se ache terminada a sua evolução terrena, isto é, quando o perispírito está suficientemente desprendido dos fluidos grosseiros que o tornam pesado, é que o espírito pode gravitar para outras regiões e abandonar, afinal, o seu berço e, como o pássaro, desferindo o vôo, fugir do ninho onde viu a luz.

Aliás, também é possível que entre a matéria pesada e os fluidos relações existam oriundas, não mais da gravitação, porém de ações indutivas, como as que existem entre as correntes elétricas e magnéticas.

Estes argumentos, que se poderiam multiplicar, mostram que a ciência especulativa não se opõe de forma alguma à existência dos fluidos e que, nesse terreno, os Espíritos nos instruíram tão bem e tão exatamente, quanto lhes era possível fazê-lo. Os nossos instrutores do espaço se revelam bons químicos e excelentes físicos. Acionam forças e leis que ainda temos de descobrir, quer com relação aos fenômenos de transporte, quer para produzir essas maravilhosas materializações de que resulta a formação temporária, parcial ou total, de um ser vivo!

Completo é preciso que se torne o acordo entre o mundo espiritual e a Ciência, para que se opere a transformação desta humanidade rebelde, que cada dia mais se atola na negação de toda espiritualidade. Mas, a ação da Providência se faz sentir e as manifestações supraterrestres vêm arrancar os povos ao torpor em que caíram. Já muitas inteligências despertam e procuram saber o que se oculta por detrás dessas aparições, dessas casas assombradas, desses fenômenos espíritas que se lhes apresentavam como superstições vulgares. Vem próximo o dia em que as multidões aprenderão, com emoção religiosa, que a alma é imortal e que o reino da justiça imanente do Além se ergue sobre as bases inabaláveis da certeza científica.




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