Gabriel Delanne a alma e Imortal


Capítulo II As pesquisas do Sr. de Rochas e do Dr. Luys



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Capítulo II
As pesquisas do Sr. de Rochas e do Dr. Luys


Pesquisas experimentais sobre as propriedades do perispírito. – Os eflúvios. – A exteriorização da sensibilidade. – Hipótese. – Fotografia de uma exteriorização. – Repercussão, sobre o corpo, da ação exercida sobre o perispírito. – Ação dos medicamentos a distancia. – Conseqüências que dai decorrem.

A par das narrativas dos sonâmbulos e dos médiuns videntes, as comunicações dos Espíritos, confirmadas pelas fotografias e pelas materializações de vivos e de desencarnados, atestam que a alma tem sempre uma forma fluídica.

A existência desse envoltório da alma, a que os espíritas dão o nome de perispírito, também ressalta evidente dos fatos acima relatados. Esse duplo etéreo, inseparável do espírito, existe, pois, no corpo humano em estado normal e recentes experiências nos vão permitir o estudo experimental do novo órgão.

Acabamos de apreciar a exteriorização completa da alma humana. Fotografamo-la no espaço, quando quase livre, e num estado próximo do em que virá a achar-se por efeito da morte. – Interessa saber por que processos pode esse fenômeno produzir-se. – Ao mesmo tempo em que nos instruirá acerca da maneira pela qual se dá a saída astral, este estudo nos fará adquirir noções diretas sobre as propriedades do perispírito, conhecimentos que nos serão preciosos por esclarecer-nos quanto ao gênero da matéria que o constitui.


Pesquisas experimentais sobre as propriedades do perispírito


Um sábio investigador, o Sr. de Rochas,136 chegou a estabelecer a objetividade da luz ódica, que o barão de Reichenbach atribuía a todos os corpos cujas moléculas guardam uma orientação determinada.137 Ele examinou particularmente os eflúvios produzidos pelos pólos de um poderoso eletroímã – com o auxílio de um paciente hipnótico –, fazendo-o analisar as luzes que via, mediante o espectroscópio, que dá os comprimentos de onda característicos de cada cor e verificando-lhe as informações por uma contraprova, isto é, por meio da luz polarizada. As interferências e as intensificações da luz se revelaram sempre de acordo com o que deve passar-se no estudo de uma luz realmente percebida.

Dessas experiências parece resultar que os eflúvios poderiam ser devidos unicamente às vibrações constitucionais dos corpos, transmitindo-se ao éter ambiente. Mas, será preciso talvez ir mais longe e admitir que há emissão, por arrastamento, de certo número de partículas que se destacam do próprio corpo, dado que os eflúvios ondulam, como as chamas, em virtude dos deslocamentos do ar.138

O corpo humano emite, pois, eflúvios de coloração variável, conforme os pacientes. Uns vêem vermelho o lado esquerdo, como vêem igualmente matizados os jatos fluídicos que saem de todas as aberturas da figura humana. Outros invertem essas cores, que, entretanto, se conservam dispostas sempre de maneira semelhante para o mesmo paciente, se a experiência não se prolonga demasiadamente. Avançando em seus estudos sobre a hipnose, o sábio pesquisador chegou a descobrir notáveis modificações na maneira pela qual se comporta a sensibilidade. Acreditava-se, até então, que o domínio desta não ia além da periferia do corpo. Houve, porém, de reconhecer-se que ela se pode exteriorizar.

Afirma o Sr. de Rochas:

“Vou retomar agora o estudo das modificações da sensibilidade, servindo-me, primeiro, das indicações de um paciente A, cujos olhos foram previamente conduzidos ao estado em que vêem os eflúvios exteriores,139 o qual examina o que se passa quando magnetizo outro paciente B, que apresenta, no estado de vigília, normal sensibilidade cutânea.

Desde que, neste, a sensibilidade cutânea principia a desaparecer, a penugem luminosa que lhe recobre a pele no estado de vigília parece dissolver-se na atmosfera, para surgir de novo, ao cabo de algum tempo, sob a forma de ligeira névoa que, pouco a pouco, se condensa, tornando-se cada vez mais brilhante, de maneira a tomar, em definitivo, a aparência de uma camada muito delgada, acompanhando, a três ou quatro centímetros distante da pele, todos os contornos do corpo.

Se eu, magnetizador, atuo de qualquer modo sobre essa camada, B experimenta as mesmas sensações que experimentaria se lhe atuasse sobre a pele, nada sente, ou quase nada, se atuo alhures, que não sobre a aludida camada. Nada sente, tampouco, se atuar uma pessoa que não esteja em relação com o magnetizador.

Se continuo a magnetização, A vê formar-se em torno de B uma série de camadas eqüidistantes, separadas por um intervalo de seis ou sete centímetros (o dobro da distância entre a primeira camada e a pele) e B só sente os contactos, as picadas e as queimaduras quando feitas nessas camadas, que se sucedem por vezes até dois ou três metros, interpenetrando e entrecruzando-se, sem se modificarem, pelo menos de maneira apreciável. A sensibilidade nelas diminui, à medida que se afastam do corpo.

Conhecido assim o processo de exteriorização da sensibilidade, Muito mais fácil se tornava continuar as observações, sem recorrer ao vidente A. Reconheci então, por meio de numerosas tentativas, que a primeira camada exterior sensível se formava geralmente no terceiro estado, que nalguns pacientes nunca se produz, ao passo que noutros se produzia sob a influência de alguns passes, desde o estado de credulidade, que é uma modificação quase imperceptível do estado de vigília, ou, até, sem qualquer manobra hipnótica, em conseqüência de uma emoção, de uma perturbação nervosa e, porventura, de uma simples alteração do estado elétrico do ar.

Se é certo que a sensibilidade se transporta para as camadas concêntricas exteriores, aproximando as palmas de suas mãos, deverá o paciente experimentar a sensação de contacto, logo que duas camadas sensíveis se toquem. É, efetivamente, o que acontece. Ainda mais: se se entremeiam as camadas sensíveis da mão direita com as da mão esquerda, de modo que fiquem regularmente alternadas, uma chama que passe sobre essas camadas fará que o paciente tenha a sensação de uma queimadura nas duas mãos, sucessiva e alternativamente.”


Hipótese


Que conseqüências devemos tirar de tão interessantes experiências?

Quando se examina o desenho representativo de um paciente exteriorizado e se notam essas camadas sucessivamente luminosas e obscuras, é-se impressionado pela analogia que há entre esse e o fenômeno conhecido em Física pela denominação de “faixas de Fresnel”. Sabe-se em que consiste esta experiência: se, numa câmara escura, um feixe luminoso for projetado sobre uma tela branca, notar-se-á que a iluminação é uniforme; se, porém, um segundo feixe, idêntico ao primeiro, cair sobre a tela, de forma que os dois se superponham em parte, toda a região comum a ambos se apresentará coberta de faixas paralelas, sucessivamente brilhantes e obscuras. Resulta isto de que a característica essencial dos movimentos vibratórios é a interferência, ou seja, a produção, por efeito da combinação das ondas, de faixas de movimentos, em que as vibrações são máximas, e faixas de repouso, nas quais o movimento vibratório é nulo, ou mínimo.140

Nas experiências do Sr. de Rochas, dá-se, ao que nos parece, um fenômeno análogo. Os máximos de sensibilidade se revelam ordenados segundo as camadas luminosas, separadas entre si por outras camadas insensíveis e obscuras. Como explicar isso?

É aí que a existência do perispírito claramente se afirma. A força nervosa, em vez de se espalhar pelo ar e dissipar, distribui-se em camadas concêntricas ao corpo. Faz-se, pois, necessário que uma força a retenha, porquanto, desde que normalmente ela se escoa pela extremidade dos dedos, conforme se observa, do mesmo modo que a eletricidade pelas pontas, forçosamente se perderia no meio ambiente, se não existisse um envoltório fluídico para retê-la ao sair do corpo.

A analogia permite se assimile a força nervosa, cuja existência Crookes demonstrou,141 às outras forças naturais: calor, luz, eletricidade, as quais, devidas a movimentos vibratórios do éter, se propagam em movimentos ondulatórios, cuja forma, amplitude e número de vibrações variam por segundo, conforme a força considerada. No estado normal, a força nervosa circula no corpo, pelos condutos naturais, os nervos, e chega à periferia pelas mil ramificações nervosas que se estendem por baixo da pele. Mas, sob a influência do magnetismo, o perispírito, segundo a natureza fisiológica do paciente, se exterioriza mais ou menos, isto é, irradia em volta de todo o seu corpo e a força nervosa se espalha no envoltório fluídico e aí se propaga em movimentos ondulatórios.

As mais das vezes, necessário se torna fazer que o paciente chegue aos estados profundos da hipnose, para que se produza a irradiação perispirítica, porquanto de certo tempo precisa o magnetizador para neutralizar, em parte, a ação da força vital, a fim de que o duplo possa exteriorizar-se parcialmente. O estado de relação só se acha estabelecido, quando começa o desprendimento, ou, por outra, nesse momento, as ondulações nervosas do magnetizador vibram sincronicamente com as do paciente, interferem e produzem exatamente aquelas camadas alternativamente sensíveis e inertes.

Em suma, a experiência é talvez idêntica à de Fresnel. Nessa hipótese, em lugar de ondulações luminosas, há ondulações nervosas, os dois focos luminosos são substituídos pelo magnetizador e o seu paciente, figurando de tela o perispírito.

O lugar dos pontos onde se mostram as zonas sensíveis é limitado pela expansão da substância perispirítica. Temos assim um meio de estudar esse envoltório fluídico que se nos revelou e que não era conhecido antes dos ensinos do Espiritismo.

Atribuindo maior extensão à precedente experiência, é-nos fácil conceber que a exteriorização seja mais completa. Chegaremos então a compreender como pode a alma sair do corpo e manifestar-se sob a forma de aparição. Foi o que o Sr. de Rochas verificou experimentalmente 142 e, para comprovar-se esta afirmativa, basta se encontrem pacientes aptos a produzir fenômenos desse gênero, o que não é impossível, pois que o médium de Boulogne-sur-Mer, assim como os pacientes do magnetizador Lewis e da Sra. de Morgan, nos ofereceram exemplos disso.

Vimos que os fantasmas de vivos falam, o que implica a existência neles, além dos órgãos da palavra, de certa quantidade de força viva, cuja presença é também atestada por deslocamentos de objetos materiais, como o abrir e fechar uma porta, agitação de campainhas, etc. Necessário é, portanto, que eles tirem de qualquer parte essa força. Nos casos que examinamos, tiram-na provavelmente de seus corpos materiais, o que faz evidente a necessidade de estarem ligados a estes.

Ensina Allan Kardec, de acordo com os Espíritos, que a alma, quando se desprende, seja durante o sono, seja nos casos de bicorporeidade, permanece ligada sempre ao seu envoltório terreno por um laço fluídico.

Podemos justificar essa maneira de ver por meio das experiências seguintes:

Prosseguindo em seus estudos, notou o Sr. de Rochas que, se fizer que uma zona luminosa, isto é, sensível, de um paciente exteriorizado atravesse um copo d’água, interrompidas se mostrarão as camadas que ficarem atrás do copo, com relação ao corpo. Quanto à água existente no copo, essa se ilumina rapidamente em toda a sua massa, desprendendo-se dela, ao fim de algum tempo, uma espécie de fumaça luminosa.

Ainda mais: tomando do copo d’água e transportando-o a certa distância, verificava o experimentador que ele se conservava sensível, isto é, que o paciente ressentia todos os toques que se fizessem na água, embora àquela distância já não restassem vestígios de camadas sensíveis.

O Sr. de Rochas pesquisou em seguida sobre quais as substâncias que armazenam a sensibilidade e verificou serem quase sempre as mesmas que guardam os odores: os líquidos, os corpos viscosos, sobretudo os de origem animal, como a gelatina, a cera, o algodão, os tecidos de malhas frouxas ou que se desfiam, como os veludos de lã, etc.

“Refletindo – diz ele – sobre o fato de que os eflúvios das diferentes partes do corpo se fixavam de preferência nos pontos da matéria absorvente que mais próximos se lhe achavam, fui levado a crer que uma localização muito mais perfeita se me ofereceria, se eu chegasse a reunir, em certos pontos da matéria absorvente, os eflúvios de tais ou tais partes do corpo e a reconhecer quais eram esses pontos. Como os eflúvios se espargem de modo análogo à luz, uma lente que reduzisse a imagem do corpo atenderia à primeira parte do programa. Já só se tratava então de ter uma matéria absorvente sobre a qual se houvesse fixado a imagem reduzida. Ocorreu-me que uma chapa de bromo-gelatina poderia dar resultado, principalmente se fosse ligeiramente viscosa.”


Fotografia de uma exteriorização


“Daí os meus ensaios com um aparelho fotográfico, ensaios que vou relatar de conformidade com o meu registro de experiências.

30 de julho de 1892. – Fotografei a Sra. Lux, primeiramente desperta, depois adormecida, sem estar exteriorizada; por fim, adormecida e exteriorizada, servindo-me, neste último caso, de uma chapa que tive o cuidado de conservar por alguns instantes em contato com o seu corpo, dentro do “chassis”, antes de colocá-la na máquina.

Comprovei que, picando com um alfinete a primeira chapa, a Sra. Lux nada sentia; picando a segunda, sentia um pouco; na terceira, sentia vivamente e tudo isso poucos instantes após a operação.

2 de agosto de 1892. – Presente a Sra. Lux, experimentei a sensibilidade das chapas impressionadas a 30 de julho e já reveladas. A primeira nada produziu; a segunda pouca coisa; a terceira estava tão sensível quanto na data anterior. Para ver até onde ia a sensibilidade da terceira chapa, dei dois golpes fortes de alfinete na imagem de uma das mãos, de forma a cortar a camada de bromo-gelatina.

A Sra. Lux, que se achava dois metros distantes de mim e não podia ver em que parte eu dava a picada, fez logo uma contração, soltando gritos de dor. Tive grande trabalho para fazê-la voltar ao seu estado normal. Acusava sofrimentos na mão e, passados alguns momentos, vi que lhe apareciam na mão direita, aquela cuja imagem recebera a picada, dois traços vermelhos, em situação correspondente à dos arranhões na imagem. O Dr. P..., que assistia à experiência, verificou que na epiderme não havia incisão nenhuma e que a vermelhidão era na pele. Verifiquei, ao demais, que a camada de gelatina bromada (muito mais sensível do que a chapa que a suportava) emitia radiações com máximos e mínimos, tal qual a própria paciente. Essas radiações quase não se apresentavam do outro lado da chapa.”

Paremos aqui com a nossa citação, que já nos permite comprovar a existência de uma relação, estabelecida de modo contínuo, entre a Sra. Lux e a sua fotografia, estando aquela exteriorizada. De 30 de julho a 2 de agosto, sem embargo do prolongado afastamento da paciente, não se rompeu a relação, tanto que toda ação exercida na fotografia se transportava para o corpo, de maneira a deixar traços visíveis. É, pois, legítimo admitir-se que a ligação é ainda mais íntima, quando o próprio perispírito se acha inteiramente exteriorizado, qualquer que seja a distância que o separe do corpo físico.

As experiências do Sr. de Rochas foram verificadas pelo Dr. Luys, na “Charité” 143 e pelo Dr. Paul Joire, que já assinalara essa exteriorização no seu tratado de hipnologia, publicado em 1892. Muito recentemente 144 reconheceu ele que a exteriorização da sensibilidade é um fenômeno real, de forma nenhuma dependente da sugestão oral, conforme o Dr. Mavroukakis pretendera insinuar, e independente também de qualquer sugestão mental, porquanto, se quatro ou cinco pessoas de mãos dadas separam do paciente o operador, há regular e progressivo retardamento na sensação que o hipnotizado experimenta, o que evidentemente não se daria, se a sensação fosse produzida por uma sugestão mental do operador.

Repercussão, sobre o corpo,
da ação exercida sobre o perispírito


O magnetizador Cahagnet, como vimos, cria firmemente na possibilidade do desprendimento da alma. Relata, sem a poder explicar, uma experiência que, como tudo parece indicar, resultou de ação material exercida sobre o perispírito, de envolta, provavelmente, com uma auto-sugestão. Eis aqui o fato.145

Um Sr. Lucas, de Rambouillet, muito inquieto pela sorte de um cunhado seu que desaparecera do país, havia uns doze anos, em conseqüência de discussão que tivera com o pai, deliberou recorrer à clarividência de Adèle Maginot, para saber se o cunhado ainda vivia. A clarividente viu o indivíduo de quem se tratava e o descreveu de maneira que sua mãe e seu cunhado o reconheceram. Aí, porém, começa a experiência a complicar-se. Vamos, pois, citá-la textualmente:

“Não contribuiu menos para espantar àquela boa senhora, assim como ao Sr. Lucas e às outras pessoas presentes à curiosa sessão, o verem que Adèle, como que para se defender dos raios ardentes do Sol naquelas terras, punha as mãos do lado esquerdo do rosto, parecendo sufocada pelo calor. O mais maravilhoso, no entanto, dessa cena foi que ela recebeu um golpe de sol, que lhe tornou vermelho-azulado aquele lado do rosto, desde a fronte até a espádua, ao passo que o outro lado conservou a sua coloração branco-mate. Somente 24 horas depois principiou a desaparecer a cor carregada. Era tão violento o calor, naquele instante, que não se podia ter dadas às mãos. Achava-se presente o Sr. Haranger-Pirlat, antigo magnetizador, honrosamente conhecido, havia mais de 30 anos, no mundo do magnetismo.”

Para explicar o caso, cremos que a idéia do calor intenso do sol do Brasil há fortemente sugestionado a paciente, cujo perispírito talvez estivesse muito pouco desmaterializado e, em conseqüência, ainda bastante sensível às radiações caloríficas. Houve, pois, parece-nos, repercussão da ação física do sol sobre o corpo material, facilitada e provavelmente aumentada pela auto-sugestão de que naquele país o calor é tórrido.

O fato da passagem da alteração do perispírito para o corpo físico já foi observado inúmeras vezes, de sorte que nos achamos em condições de lhe conceber o mecanismo,146 tendo-se mesmo chegado a verificá-lo experimentalmente, como vamos mostrar.

O Sr. Aksakof, numa experiência realizada em S. Petersburgo, com a célebre médium Kate Fox, observou que, enfulijada a mão fluídica do médium, a fuligem foi transportada para a extremidade dos seus dedos materiais, que se não tinham movido, porquanto o sábio russo colocara as mãos da Sra. Fox sobre uma placa luminosa, de modo a certificar-se bem da imobilidade delas e, por maior precaução, espalmara suas próprias mãos sobre as do médium.

Vê-se, pois, que há mais do que simples presunções no que respeita à existência de solidariedade entre o corpo e o seu duplo fluídico. No seu tratado de Magia Prática,147 Papus refere o caso de um oficial russo que, presa de obsessão por uma individualidade encarnada, lançou-se de espada em punho sobre a aparição e lhe fendeu a cabeça. O ferimento feito no perispírito se reproduziu na mulher causadora do fenômeno, a qual, no dia seguinte, morreu das conseqüências do golpe recebido pelo seu corpo fluídico.

Dassier cita muitos casos semelhantes, extraídos dos arquivos judiciários da Inglaterra.148 Uma certa Joana Brooks, em se desdobrando, causara muitos malefícios àqueles de quem não gostava. Havendo atacado uma criança, esta entrou a deperecer rapidamente, sem que ninguém soubesse a que atribuir o mal que a tomara, quando, em dado momento, disse a criança, apontando para um ponto da parede: “É Joana Brooks que está ali!” Um dos presentes saltou e deu um golpe de punhal no lugar indicado e a criança declarou que a mulher ficara ferida na mão. No dia seguinte, foram à casa da feiticeira e verificaram que ela estava realmente ferida, como o afirmara a criança.

Em circunstâncias quase semelhantes, outra mulher, Juliana Cox, foi ferida em sua perna fluídica, por uma moça a quem ela obsediava e, indo-lhe depois a casa algumas pessoas, comprovaram que a lâmina da faca, que lhe atingira o duplo fluídico, se adaptava exatamente à ferida que se lhe abrira na perna material.

Recordemos a última frase do Sr. de Rochas: “A imagem da Sra. Lux emitia radiações com máximas e mínimas.” Ora, como essas radiações são imperceptíveis à visão ordinária, temos por demonstrado ser possível fotografar-se matéria invisível, o que pode fazer se compreenda a fotografia dos Espíritos.


Ação dos medicamentos a distância


Por outra série de provas, podemos evidenciar a existência do perispírito no homem. Fa-lo-emos examinando os efeitos que se produzem em certos pacientes hipnotizados, quando se lhes aproximam do corpo substâncias encerradas em frascos cuidadosamente arrolhados.

Os fatos expostos pelos Srs. Bourru e Burot 149 escapam a toda explicação científica, pela boa razão de que, desconhecendo o perispírito e suas propriedades, era impossível aos sábios compreender o gênero de ação que nesse caso se exerce. Graças às experiências do Sr. de Rochas, fazendo intervir nelas o perispírito exteriorizado, torna-se mais fácil explicar os fenômenos.

Depois de haver tomado todas as precauções, para evitar a simulação ou as sugestões, aqueles observadores comprovaram os fatos seguintes:

Conservada a uma distância de dez a quinze centímetros de um paciente adormecido, a cuba de um termômetro lhe produzia dor muito viva, convulsões e uma contração do braço. Um cristal de iodeto de potássio determinava espirros. O ópio fez dormir. Um frasco de jaborandi acarretava salivação e suor. Continuadas com a valeriana, a cantárida, a apomorfina, a ipecacuanha, o emético, a escamônea, o aloés, as mesmas experiências deram resultados precisos e concordantes. Apenas colocados perto da cabeça do paciente, mas sem contacto, cada um daqueles medicamentos produzia efeito de acordo com a sua natureza, isto é, verdadeira ação fisiológica, como se o aludido paciente o houvesse introduzido em seu organismo.

Foi também experimentada a ação de venenos diluídos na água e comprovaram-se os mesmos sintomas que se produziriam se o paciente os houvesse ingerido pelas vias ordinárias. O louro-cereja determinou uma crise de êxtase numa mulher judia, que acreditou ver a Virgem Maria.

O Dr. Luys, muito céptico a princípio, afinal se convenceu. Refere ele que dez gramas de conhaque num tubo selado a fogo e aproximado da cabeça de um paciente hipnotizado causam a embriaguez ao cabo de dez minutos. Dez gramas d’água, sempre em tubo selado, produzem, depois de alguns minutos, a constrição da garganta, a rigidez do pescoço e os sintomas da hidrofobia. Quatro gramas de essência de tomilho, encerradas da mesma maneira num tubo e postas diante do pescoço de uma mulher hipnotizada, perturbaram-lhe a circulação, fizeram-lhe sair das órbitas os olhos, intumesceram-lhe o pescoço de modo assustador e ocasionaram, na inervação circulatória do pescoço, da face e dos músculos inspiratórios, uma crescente desordem, acompanhada de um ruído de pulmoeira de caráter sinistro, que aterrou o experimentador e o obrigou a deter-se, para evitar acidentes fulminantes.150

“Diante de tão claras manifestações tangíveis – escreve o Dr. Luys –, e tão precisas, de que fui com freqüência testemunha; diante de tão surpreendentes casos de repercussão das ações a distância sobre a inervação visceral dos pacientes, em os quais ocasionei náuseas e vômitos, apresentando-lhes um tubo que continha ipecacuanha em pó, e vontade de defecar, colocando-lhes no pescoço um tubo com vinte gramas de óleo de rícino, não hesito em reconhecer que assistimos a uma série de fenômenos singulares que se desenvolvem com exclusão das leis naturais, e à evolução normal deles, fenômenos que derrocam o que julgamos saber sobre a ação dos corpos. Mas, eles existem, impõem-se à observação e, cedo ou tarde, servirão de ponto de partida para a explicação de grande número de fenômenos invulgares da vida normal.” 151

Sem dúvida alguma, são singulares esses fatos, mas não é impossível explicá-los, depois que a exteriorização do perispírito e do fluído nervoso se tornou fenômeno demonstrado. Numa das experiências do Sr. de Rochas, observamos que a água acumula a sensibilidade e que, atuando-se sobre essa água, se transmitem sensações ao corpo. Devemos admitir que no mesmo caso estejam outros líquidos; mas, então, as sensações experimentadas estarão em relação com as propriedades desses líquidos, podendo-se notar no paciente os mesmos fenômenos que apresentaria, se os houvesse ingerido naturalmente.

Nas experiências precedentes, as substâncias estavam encerradas em frascos fechados a esmeril, ou selados a fogo. O fluido perispirítico, porém, penetra todos os corpos, o mesmo fazendo o fluido nervoso em grande número deles. Somente, pois, se observaram fenômenos, quando o medicamento em experiência era capaz de ser assimilado, quanto à sua parte volátil, pela força nervosa.

Capítulo III
Fotografias e moldagens de
formas de Espíritos desencarnados


A fotografia dos Espíritos. – Fotografias de Espíritos desconhecidos dos assistentes e identificados mais tarde como sendo de pessoas que viveram na Terra. – Espíritos vistos por médiuns e ao mesmo tempo fotografados. – Impressões e moldagens de formas materializadas. – História de Katie King. – As experiências de Crookes. – O caso da Sra. Livermore. – Resumo. – Conclusão. – As conseqüências.

A fotografia dos Espíritos


Vimos que um dos fenômenos que de modo autêntico demonstram a existência da alma durante a vida é a fotografia do duplo, durante a sua saída temporária do corpo. A grande lei de continuidade, que rege os fenômenos naturais, havia de conduzir os espíritas a ponderar que, sendo a alma humana – durante o seu desprendimento – capaz de impressionar uma chapa fotográfica, a mesma faculdade há de ela ter após a morte. É efetivamente o que se chegou a comprovar, desde que se puderam estabelecer as condições necessárias a essas manifestações transcendentes.

Aqui, nenhuma objeção pode prevalecer. A prova fotográfica tem um valor documentário de extrema importância, porque mostra que a famosa teoria da alucinação é notoriamente inaplicável a tais fatos. A chapa sensível constitui um testemunho científico que certifica a sobrevivência da alma à desagregação do corpo; que atesta conservar ela uma forma física no espaço e que a morte não lhe pode acarretar a destruição.

Em face de semelhantes resultados, que restará de todas as costumeiras declamações acerca do sobrenatural e do maravilhoso? Há-se de convir em que os Espíritos se obstinaram singularmente em contrapor-se aos que lhes negam a existência. Não satisfeitos com o se fazerem visíveis aos seus parentes e amigos, apareceram em fotografias e forçoso foi se reconhecesse que dessa vez o fenômeno era verdadeiramente objetivo, pois que a chapa fotográfica lhes conservava indelével a imagem. Resumamos sumariamente, segundo o eminente naturalista Russel Wallace, alguns fatos bem verificados.152

É freqüente zombarem do a que se chamou fotografias espíritas, porque algumas podem ser facilmente imitadas. Refletindo-se, porém, um pouco, ver-se-á que essa mesma facilidade também faz que a gente se precate da impostura, pois bastante conhecidos são os meios de imitação. Em todo caso, ter-se-á de admitir que um fotógrafo experimentado não pode ser iludido a tal ponto, desde que ele próprio forneça as chapas e fiscalize as operações, ou as execute.

Aliás, há um meio muito simples de se verificar se a figura que aparece é a de um Espírito desencarnado. Consiste esse meio em ver se a pessoa que posa ou os membros da sua família reconhecem a figura que se apresenta na chapa. Se reconhecerem, o fenômeno é real. É o caso de Wallace, que o narra assim:

“A 14 de março de 1874, fui convidado pela primeira e única vez ao gabinete do Sr. Hudson, acompanhado da Sra. Guppy, como médium. Contava eu que, se obtivesse algum retrato espírita, fosse o de meu irmão mais velho, em cujo nome freqüentes mensagens eram recebidas por intermédio da Sra. Guppy, com quem eu fizera uma sessão antes de ir ao Sr. Hudson, sessão essa na qual recebera, pela tiptologia, uma comunicação onde se dizia que minha mãe se fosse possível, apareceria na chapa.

Posei três vezes, sempre escolhendo eu próprio a posição que tomava. De todas as vezes, apareceu no negativo, juntamente com a minha imagem, uma segunda figura. A primeira era a de uma pessoa do sexo masculino, trazendo à cinta um sabre curto; a segunda, uma pessoa de pé, aparentemente a meu lado, um pouco por trás de mim, olhando para baixo, na minha direção, e empunhando um ramo de flores. Na terceira sessão, depois de haver tomado a posição que escolhi e quando já a chapa preparada fora colocada na câmara escura, pedi que a aparição se apresentasse junto de mim e nessa terceira chapa apareceu uma figura de mulher encostada a mim e à minha frente, de tal sorte que os panos que a revestiam cobriram toda a parte inferior do meu corpo.

Vi todas as chapas reveladas e, em cada caso, a figura se mostrou no momento em que o líquido revelador foi derramado sobre o negativo, ao passo que a minha imagem só se tornou visível uns vinte segundos mais tarde. Não reconheci nenhuma das figuras nos negativos, mas, logo que obtive as provas, ao primeiro golpe de vista verifiquei que a terceira chapa continha um retrato incontestável de minha mãe, muito parecido quanto aos traços fisionômicos e à expressão do semblante. Não era uma semelhança como a que existe num retrato tirado em vida, mas uma semelhança um pouco idealizada, se bem fosse, para mim, uma semelhança que não me permitia qualquer equívoco.

A segunda fotografia é muito menos distinta: o olhar se dirige para o chão; o rosto tem uma expressão diferente da terceira, a tal ponto que, a princípio, achei que era outra pessoa. Tendo enviado os dois retratos de mulher à minha irmã, ela foi de opinião que o segundo se parecia muito mais com minha mãe do que o terceiro e que, de fato, apresentava boa semelhança com ela como expressão, mas com alguma coisa de inexato na boca e no queixo. Verificou-se que isso era devido, em parte, a que o fotógrafo retocara os brancos. Efetivamente, ao ser lavada, a fotografia se mostrou toda coberta de manchas brancas, mas melhor, quanto da semelhança, com minha mãe. Eu ainda não verificara a semelhança do segundo retrato, quando, ao examiná-lo algumas semanas mais tarde com um vidro de aumento, imediatamente percebi um traço especial e notável do rosto natural de minha mãe, a saber: o lábio e o maxilar inferiores bastante salientes.

Os dois espectros trazem iguais ramos de flores. É de notar-se que, quando eu posava para o segundo grupo, o médium haja dito: “Vejo alguém e há flores.”

Esse retrato também foi reconhecido pelo irmão de R. Wallace,153 que não é espírita.

Se um médium declara que vê um Espírito, quando as outras pessoas presentes nada vêem, e que o Espírito está em tal lugar; se lhe descreve o aspecto e as vestes e, em seguida, a chapa fotográfica confirma a descrição em todos os pontos, não se poderá negar que, positivamente, o Espírito existe no lugar indicado. Damos a seguir muitos exemplos de tão notáveis manifestações.

É autor dessas experiências o Sr. Beattie, de Clifton, de quem o editor do British Journal of Photography fala nestes termos:

“Todos os que conhecem o Sr. Beattie o consideram hábil e cuidadoso fotógrafo, uma das últimas criaturas, no mundo, passíveis de ser enganadas, pelo menos em tudo o que diga respeito à fotografia. Também é incapaz de enganar os outros.

O Sr. Beattie teve a ajudá-lo em suas pesquisas o Dr. Thomson, médico em Edimburgo, que durante vinte e cinco anos praticou a fotografia como amador. Os dois fizeram experiências no gabinete de um amigo não espiritualista, mas que se tornou médium no curso das experimentações. Auxiliou-os como médium um negociante muito amigo dos dois. Todo o trabalho fotográfico era executado pelos Srs. Beattie e Thomson, conservando-se os dois outros sentados junto de uma mesa pequena. As provas foram tiradas por séries de três, com poucos segundos de intervalo e muitas dessas séries foram feitas numa mesma sessão...

Há duas provas, tiradas como as antecedentes, em 1872 e cujas fases todas o médium descreveu durante a exposição das chapas. Apareceu primeiro, diz ele, um denso nevoeiro branco. A prova saiu toda sombreada de branco, sem nenhum vestígio dos modelos. A outra fotografia ele a descreveu previamente, como tendo de ser um nevoeiro em forma de nuvem, com uma pessoa no meio. Na prova, vê-se apenas uma figura humana, branca, dentro de uma superfície quase uniformemente enevoada. Durante as experiências de 1873, em cada caso o médium descreveu minuciosa e corretamente as configurações que haviam de em seguida aparecer na chapa. Numa delas, há uma estrela luminosa de grande dimensão, em cujo centro se mostra bem visível um rosto humano. É a última das três em que se manifestou uma imagem, tendo o médium anunciado cuidadosamente o conjunto.

Noutra série de três, o médium, primeiro, descreveu o seguinte: “Uma luz nas suas costas, vinda do chão”; depois: “uma luz a subir pelo braço de outra pessoa e provindo ou parecendo provir da perna”; em terceiro: “existência da mesma luz, mas com uma coluna que se eleva da mesa, como que incandescente, até às suas mãos”. E exclamou de súbito: “Que luz brilhante lá no alto! Não a vedes?” E apontava com a mão o lugar. Todas essas palavras descreviam muito fielmente o que depois apareceu nas três provas, sendo que na última se percebia a mão do médium indicando uma mancha branca existente acima da sua cabeça.”

Mencionemos ainda uma fotografia isolada e muito marcante.

“Durante a “pose”, disse um dos médiuns estar vendo, no plano posterior, uma figura negra, enquanto que o outro médium dizia perceber uma figura brilhante ao lado daquela. Na fotografia aparecem as duas figuras, muito fraca a brilhante, muito mais nítida a escura, que é de gigantesca dimensão, de talhe maciço, traços grosseiros e longa cabeleira.”

Tais experiências só puderam realizar-se com muito trabalho e perseverança. Às vezes, vinte provas consecutivas nada de anormal revelavam. Passaram de cem as que se tiraram, havendo completo malogro na maioria delas. Mas, os êxitos alcançados valeram bem a pena que custaram. Demonstram de modo a não admitir dúvidas:

1) a existência objetiva dos Espíritos;

2) a faculdade, que possuem alguns seres chamados médiuns, de ver essas formas que se conservam invisíveis para toda gente.

Sendo da mais alta importância a prova fotográfica da visão mediúnica, citaremos o fato que se segue, extraído da obra de Aksakof, Animismo e Espiritismo, págs. 67 e seguintes:

O Banner of Light, de 25 de janeiro de 1873, publicou uma carta do Sr. Bromson Murray 154 concebida nestes termos:

“Senhor Diretor,

Num dos últimos dias do mês de setembro último, a senhora W. H. Mumler, residente na cidade de Boston, à rua West Springfield, achando-se em estado de transe, durante o qual dava conselhos médicos a um de seus doentes, interrompeu-se de súbito para me dizer que, quando o Sr. Mumler me fotografasse, apareceria na chapa, ao lado do meu retrato, a imagem de uma mulher, segurando na mão uma âncora feita de flores. Essa mulher desejava ardentemente afirmar sua sobrevivência ao marido e inutilmente procurara até então uma oportunidade de aproximar-se dele. Achava que o conseguiria por meu intermédio. Acrescentou a Sra. Mumler: “Por meio de uma lente, poder-se-ão perceber nessa chapa as letras R. Bonner.” Perguntei-lhe, mas em vão, se essas letras queriam dizer Robert Bonner. No momento em que me preparava para a “pose”, a fim de me ser tirada a fotografia, caí em transe, o que jamais me acontecera. Apesar de todos os esforços, Mumler não conseguiu colocar-me na posição desejada. Foi-lhe impossível fazer que eu ficasse ereto e com a cabeça apoiada no suporte. Meu retrato, pois, ele o tirou na posição que a prova indica, aparecendo a meu lado a figura de mulher com a âncora e as letras formadas de botões de rosas, como fora predito. Infelizmente, eu não conhecia com o nome de Bonner pessoa alguma que pudesse estabelecer a identidade da figura fotografada.

De volta à cidade, referi a várias pessoas o que se dera. Disse-me uma delas que recentemente encontrara um Sr. Bonner, da Georgia. Queria mostrar-lhe a fotografia. Decorridos quinze dias, essa pessoa me pediu que passasse pela sua casa. Alguns instantes depois de haver eu lá chegado, entrou um visitante: Sr. Robert Bonner. Declarou-me que era de sua mulher a fotografia, que a vira em poder da senhora que no momento nos recebia e que achava perfeita a semelhança. Aliás, não há aqui quem conteste a semelhança que aquela fotografia apresenta com um retrato da Sra. Bonner, tirado dois anos antes de sua morte.” 155

O Sr. Bonner ainda obteve a fotografia de sua defunta mulher numa posição previamente designada por um médium de Nova York que não a conhecia, nem vira a fotografia que se achava em Boston.

O jornal O Médium, de 1872, também fala de uma fotografia de Espírito, obtida ao mesmo tempo em que o médium declarava o que se ia dar. Diz o jornal:

No momento em que a chapa ia ser exposta, a Sra. Connant (o médium) voltou-se para a direita e exclamou: “Oh! Aqui está a minha Was-Ti!” (Era uma menina índia, que se manifestava freqüentemente por seu intermédio.) E estendeu a mão esquerda, como se quisesse pegar a da aparição. Na fotografia, vê-se, perfeitamente reconhecível, a figura da indiazinha, com os dedos da mão direita na mão da Sra. Connant.

Temos, pois, aqui a fotografia de uma figura astral, assinalada e reconhecida pelo paciente sensitivo, no momento da exposição da chapa. É mais uma confirmação das experiências do Sr. Beattie.

Poderíamos multiplicar o número das citações deste gênero; mas, a exigüidade do nosso quadro nos obriga a remeter o leitor às mencionadas obras do eminente naturalista e do sábio russo. Em precedente trabalho,156 reproduzimos a fotografia de um Espírito obtida em plena obscuridade, pelo Sr. Aksakof, com o médium Eglinton. Veremos, dentro em pouco, que também o grande físico inglês William Crookes obteve uma série de fotografias de uma forma materializada.

Examinemos outro aspecto do fenômeno.

Impressões e moldagens de formas materializadas


Os casos de aparições de duplos de pessoas vivas ou de Espíritos após a morte terrestre, comprovadas e referidas pela Sociedade de Pesquisas Psíquicas, são manifestações isoladas, reais, porém, relativamente muito raras e que se produzem somente em circunstâncias tão excepcionais, que se torna difícil fazer delas outra análise além da que resulta da narração verídica do acontecimento. Os espíritas, familiarizados desde longo tempo com esses fenômenos, hão feito um estudo minucioso de todos os possíveis gêneros de comunicação dos Espíritos conosco. Entre os mais notáveis de tais fenômenos, podem citar-se as diversas impressões deixadas em substâncias moles ou friáveis, pelos seres do espaço, durante sessões em que foram evocados. Resumamos em poucas palavras tão probantes experiências, as quais voltaremos a tratar no capítulo seguinte.

Pretendem os cépticos que ninguém pode estar certo de não se achar alucinado, ao observar a presença de uma aparição, senão se esta houver deixado, da sua passagem, um traço que subsista após o desaparecimento da imagem.

Os fatos que se seguem respondem a esse desideratum.

O eminente astrônomo alemão Zoellner obteve, em folhas de papel enegrecido e postas entre ardósias, colocadas estas sobre os seus joelhos, duas marcas, de um pé direito uma, a outra de um pé esquerdo, sem que o médium houvesse tocado as lousas. Doutra vez, colocou o papel enegrecido sobre uma prancheta e a marca de um pé foi aí feita, medindo quatro centímetros menos do que o pé de Slade.157 Num vaso cheio de farinha finíssima, achou-se a marca de uma mão, com todas as sinuosidades da epiderme nitidamente visíveis.

Já fizemos notar que as aparições sempre se assemelham, traço a traço, às pessoas de quem elas são o desdobramento. Faremos notar agora que os Espíritos que se materializam momentaneamente tomam um corpo físico idêntico a um corpo material ordinário, porquanto as marcas ou impressões que eles deixam revelam semelhança perfeita com as que as mesmas partes de um corpo vivo produziriam.

O professor Chiaia, de Nápoles, experimentando com Eusápia Paladino, teve a idéia de se munir de argila dos escultores e o Espírito imprimiu nessa matéria plástica o seu rosto. Derramando gesso no molde assim produzido, obteve ele uma bela cabeça de homem, de melancólico semblante.158

Na América, conseguiram-se resultados do mesmo gênero, chegando-se até a descobrir um novo meio de se obterem reproduções fiéis das aparições. Derretendo-se parafina em água quente, aquela sobe à superfície desta. Pede-se então ao Espírito que mergulhe repetidas vezes na parafina a parte do seu corpo que se deseja conservar. Feito isso e desmaterializando-se, quando o envoltório de parafina se ache seco, a aparição deixa um molde perfeito. Derrame-se gesso dentro deste e ter-se-á uma lembrança duradoura do Espírito desencarnado que se prestou à operação. Vamos transcrever o relato de uma dessas sessões, reproduzindo o que publicou o célebre sábio russo Aksakof.159

“Para completar as experiências do Sr. Reimers, acrescentar-lhes-ei a resenha de uma sessão que se realizou em Manchester, a 7 de abril de 1875, e à qual deu publicidade The Spiritualist de 12 de maio seguinte. Da mesma resenha apareceu uma tradução alemã no Psychische Studien de 1877, páginas 550-553. Dentre as cinco testemunhas, conheço pessoalmente os Srs. Marthèze, Oxley e Reimers, dignos todos de absoluto crédito:

Nós, abaixo assinados, certificamos pela presente os fatos seguintes, que se produziram na nossa presença, em casa do Sr. Reimers a 7 de abril de 1875. Pesamos cuidadosamente três quartos de libra de parafina, pusemo-los numa cuba e despejamos em cima água a ferver, o que logo a derreteu. Se se introduzir muitas vezes uma mão nesse liquido, a parafina que sobre ela se depositar, forma, depois de resfriada, um molde perfeito. A cuba, assim como outro vaso contendo água fria, fora colocada a um canto da sala. Duas cortinas de seis pés de altura e quatro de largura, suspensas por varões de ferro, formavam um gabinete quadrado, tendo em cada extremidade aberturas de quinze polegadas de largo. A parede ficava distante da casa ao lado e, quase cheio de móveis o gabinete, a ninguém podia acudir a idéia da existência de alçapões, tanto mais que também o assoalho estava coberto de vasos, cadeiras, etc.

Uma senhora de nossa amizade, dotada desse misterioso poder a que se dá o nome de mediunidade, foi envolvida numa rede de malhas, que lhe cobria a cabeça, os braços, as mãos e cujos cordões, passando em corrediças, foram apertados o mais possível e amarrados com um nó. Meteu-se ao demais na rede um pedaço de papel que cairia se se desfizesse o nó. Todas as testemunhas foram acordes em declarar que seria impossível ao médium, por si só, libertar-se, sem se trair. Nessa situação foi ela conduzida ao canto do gabinete onde só havia a cadeira, alguns vasos e uma estante de livros. Nada que se visse havia perto desses objetos, que examinamos a toda luz do gás.

Fechou-se a sala. Baixamos a luz, mas de modo que alguma coisa sempre se podia distinguir no aposento, e sentamo-nos a distância de quatro ou seis pés da cortina. Decorrido algum tempo, que passamos a cantar ou a ouvir música, uma figura apareceu na abertura do meio da cortina e se moveu para o lado. Todos os assistentes notaram distintamente a bela e brilhante coroa que trazia à cabeça e a fita preta que lhe rodeava o pescoço e da qual pendia uma cruz de ouro. Logo outra figura feminina surgiu, também com uma coroa visível. Mostrando-se ao mesmo tempo que a primeira, elevou-se acima do gabinete em direção ao teto e graciosamente saudou os assistentes. Uma voz fortíssima de homem, vinda do canto, anunciou que ia tentar fazer moldes.

Então, na abertura da cortina apareceu de novo a primeira figura, fazendo sinal ao Sr. Marthèze para que se aproximasse, a fim de lhe apertar a mão. Tirou-lhe do dedo o anel e o Sr. Marthèze viu, naquele mesmo instante, o médium no canto oposto, envolto na rede já descrita. A figura, porém, se desvaneceu rapidamente na direção do médium.

Tendo o Sr. Marthèze voltado à sua cadeira, a voz perguntou de dentro do gabinete que mão desejávamos e pouco depois aquele senhor foi outra vez chamado à abertura da cortina, para receber o molde de uma mão esquerda. Inspecionando-a, descobriu-se-lhe num dos dedos o anel do Sr. Marthèze. O Sr. Reimers foi chamado a seu turno e recebeu da mesma maneira a mão direita destinada a seus sábios amigos de Leipzig, em cumprimento da promessa que ele expressamente lhes fizera. Em seguida, ouviu-se tossir o médium, cuja tosse desaparecera durante todo o tempo (mais de uma hora), tosse que fizera recear um malogro, tão violentos tinham sido em começo os acessos. Quando ela saiu do gabinete, examinamos os nós e... achamos tudo no mesmo estado que anteriormente. Retiramos toda a parafina que restava no vaso e, pesando-a juntamente com os dois moldes obtidos, encontramos pouco mais de três quartos de libra, sendo o pequeno excesso devido ao anel que aderira à parafina, como se verificou, tirando-o do molde. A proporção de água dos moldes correspondia perfeitamente ao restante. Com isso terminaram as nossas experiências.

As mãos obtidas diferem consideravelmente, sob todos os aspectos, das do médium, mas ambas revelam as pequenas marcas (muito bem visíveis com o auxílio de um vidro de aumento) de uma mão pequenina, da mesma individualidade que por mais de uma vez nos deu moldes em condições idênticas de experimentação.

Assinados: J. N. Tiedman Marthèze, Palmeira Square, Brington.
– Christian Reimers, 2, Ducie Avenue, Oxford Road, Manchester.
– William Oxley, 65, Burwen Road, Manchester. – Thomas
Gaskell, 69, Oldham Road, Manchester. – Henry Marsh,
Birch Cottage, Fairy lane, Bury new-road Manchester.

É de notar-se que os experimentadores espíritas tomaram todas as precauções para evitar qualquer causa de erro, da parte deles ou da do médium. Essas experiências, como outras análogas, freqüentemente repetidas hão dado lugar a que já se eleve a algumas centenas o número de moldes reproduzindo partes diversas das materializações de Espíritos de todas as idades e de ambos os sexos. Em todas as experiências, as peças obtidas se assemelham às que se obteriam, se a operação fosse praticada em corpos de vivos.

O Sr. de Bodisco, camareiro do czar,160 publicou o relato de curiosas experiências de materialização, feitas com o médium Srta. K...

“Não hesito, diz ele, em declarar que o corpo astral (ou psíquico) é, na natureza, o mais importante de todos os corpos, sem embargo da pertinácia com que as ciências experimentais se obstinam em ignorá-lo. Esse corpo tem a governá-lo leis cujo estudo lançará luz em muitos corações, que desejam ser consolados por uma prova real da vida futura. Ele constitui a única parte imperecível do corpo humano. É o zoo-éter, ou matéria primordial, ou força vital.”

Quatro fotografias tirou ele, mostrando diversas fases da materialização, desde a em que a aparição astral ou psíquica cerca o corpo do médium, até a da condensação de uma forma, da qual se vê a cabeça, parecendo envolto numa espécie de gaze o resto do corpo. Ao lado da forma, percebe-se o corpo do médium, em letargia, na poltrona.

História de Katie King


Os fenômenos de materialização constituem as mais altas e irrefragáveis demonstrações da imortalidade.

Surgir um ser defunto diante dos espectadores com uma forma corpórea, conversar, caminhar, escrever e desaparecer, quer instantaneamente, quer gradativamente, sob as vistas dos observadores, é decerto o mais empolgante e o mais singular dos espetáculos. Isso, para um incrédulo, ultrapassa os limites da verossimilhança e provas físicas irrefutáveis se fazem necessárias, para que o fenômeno não seja lançado à conta de fraude ou de alucinação.

Felizmente, porém, bom número existe de observações, relatadas por homens imparciais e, ainda, dotados da isenção e da competência indispensáveis a dar a tais experiências o apoio da autoridade de que eles desfrutam.

O Sr. Aksakof fez com o médium Eglinton uma série delas, em que as mais minuciosas precauções foram tomadas, o que lhe facultou chegar a resultados absolutamente inatacáveis, do ponto de vista científico. O avultado número de matérias de que temos de tratar nos obriga, com muito pesar nosso, a remeter o leitor às obras originais onde esses casos se encontram longamente expostos. Serão consultadas com proveito: Animismo e Espiritismo, de Aksakof; Ensaio de Espiritismo Científico, de Metzger; Depois da morte, de Léon Denis, e Psiquismo Experimental, de Erny.

Aqui, agora, nos limitaremos a apresentar alguns dados geralmente desconhecidos sobre a célebre Katie King, cuja existência foi posta fora de dúvida pelos trabalhos, que se tornaram clássicos, de William Crookes, consignados em seu livro: Pesquisas experimentais sobre o Espiritismo.161 Servir-nos-emos dos estudos que na Revue Spirite 162 publicou a Sra. de Laversay, resumindo o mais possível essa interessante tradução da obra de Epes Sargent, editada em Boston, no ano de 1875.

Muitas pessoas, pouco a par da literatura espírita, supõem que o Espírito Katie King só foi examinado por William Crookes. Vamos mostrar que há elevadíssimo número de atestados relativos à sua existência, procedentes de testemunhas bastante conhecidas no mundo literário e científico. Quando o ilustre químico teve de verificar a mediunidade da Srta. Cook, já muito tempo havia que Katie se materializava. Os grandes médiuns, por demais raros, não se revelam de improviso. Faz-se necessário certo tempo para que cheguem a produzir fenômenos físicos. Por um lado, o médium precisa de adestramento e, por outro, o Espírito que dirige as manifestações é obrigado a exercitar-se longo tempo, para manipular com a indispensável exatidão os fluidos sutis que tem de empregar.

Em 1872, contava a Srta. Cook dezesseis anos. Desde a mais tenra idade via Espíritos e ouvia vozes; mas, como somente ela observava esses fatos, seus pais nenhuma confiança depositavam em suas narrativas. Depois de haver ela assistido a algumas sessões espíritas, veio-se a saber que a mocinha era médium e que obteria as mais belas manifestações. A princípio, o Sr. e a Sra. Cook se opuseram. Entretanto, depois de assediados pelos Espíritos, resolveram ceder aos desejos dos atores invisíveis e foi então que se deram fenômenos absolutamente probantes.

A 21 de abril de 1872, diz o Sr. Harrison, no jornal O Espiritualista, ocorreu um curioso incidente. Ouviram de súbito bater nos vidros de uma janela; aberta esta, ninguém viu coisa alguma. Fez-se, porém, ouvir a voz de um Espírito, dizendo: “Senhor Cook, precisa mandar limpar suas calhas, se não quiser que os alicerces de sua casa sejam abalados. As calhas estão entupidas.” Muito surpreendido, procedeu ele a uma exame imediato. Era exato! Chovera e o pátio da casa estava cheio da água que transbordara das calhas. Ninguém sabia desse acidente, antes que o Espírito o houvesse revelado daquela forma notável. Acompanhando-se a marcha da mediunidade da Srta. Cook, observa-se o desenvolvimento de uma série de fenômenos, que se produzem sucessivamente, tornando-se cada dia mais espantosos, até chegarem à materialização de Katie. Correu assim a primeira sessão em que ela se mostrou.

Até então, as sessões se haviam realizado no escuro. Querendo remediar isso, o Sr. Harrison fez muitos ensaios em casa do Sr. Cook com luzes diferentes. Conseguiu uma luz fosforescente, aquecendo uma garrafa revestida interiormente de uma camada de fósforo, misturada com óleo de cravo. Graças a esse engenho, podia-se ver o que se passava durante a sessão às escuras. A 22 de maio de 1872, a Sra. Cook, seus filhos, uma tia destes e a criada se reuniram e o Espírito Katie King se materializou parcialmente. A Srta. Cook não estava a dormir, como o faz certo uma carta que ela no dia seguinte dirigiu ao Sr. Harrison, nestes termos:

“Ontem à noite, Katie King nos disse que tentaria produzir alguns fenômenos, mas se concordássemos em armar um gabinete escuro com o auxílio de cortinas. Acrescentou que precisava lhe déssemos uma garrafa de óleo fosforescente, visto não lhe ser possível tomar de mim o fósforo necessário, devido ao fraco desenvolvimento da minha mediunidade. Ela quer iluminar a sua figura, para se tornar visível.

Encantada com a idéia, fiz os preparativos necessários, ficando tudo pronto ontem à noite, às 8 e meia. Minha mãe, minha tia, os meninos e a criada sentaram-se fora, nos degraus da escada. Deixaram-me sozinha na sala de jantar, o que nada me agradou, porque estava com muito medo.

Katie mostrou-se na abertura das cortinas. Seus lábios se moveram e, por fim, conseguiu falar. Conversou durante alguns minutos com a mamãe. Todos puderam ver-lhe o movimento dos lábios. Como eu, do lugar onde estava, não a visse bem, pedi-lhe que se voltasse para mim. O Espírito me respondeu: “Mas, decerto; fa-lo-ei.” Vi então que só estava formada a parte superior do seu corpo, o busto, sendo o resto da aparição uma espécie de nuvem, ligeiramente luminosa.

Após breves instantes de espera, o Espírito Katie começou por trazer algumas folhas frescas de hera, planta que não existe no nosso jardim. Depois, todos vimos aparecer, fora da cortina, um braço cuja mão segurava a garrafa luminosa. Mostrou-se uma figura com a cabeça coberta de uma porção de pano branco. Katie aproximou do seu rosto o frasco e todos a percebemos distintamente. Esteve dois minutos e em seguida desapareceu. O rosto era oval, aquilino o nariz, vivos os olhos e a boca lindíssima.

Disse Katie à mamãe que a olhasse bem, pois sabia que tinha um ar lúgubre. Eu, pelo que me diz respeito, fiquei muito impressionada quando o Espírito se aproximou de mim. Emocionadíssima, não pude falar, nem mesmo esboçar um gesto. Da última vez que se apresentou na junção das cortinas, demorou-se uns bons cinco minutos e incumbiu a mamãe de lhe pedir que venha aqui um dia desta semana... Katie King encerrou a sessão, implorando para nós as bênçãos de Deus. Exprimiu a sua alegria por se ter podido mostrar aos nossos olhares.”

O Sr. Harrison atendeu a 25 de abril ao convite de Katie e na sua presença se verificou a segunda sessão de materialização. Ele tomou interessantes notas que publicou depois no seu jornal, The Spiritualist, donde extraímos os tópicos seguintes:

Testemunho do Sr. Harrison


“Com a minha presença, uma sessão se realizou a 25 de abril, em casa do Sr. Cook. O médium, Srta. Cook, sentou-se no interior de um gabinete escuro. De tempos a tempos, ouvia-se um ruído de raspagem com unhas. O Espírito Katie segurava um tecido leve, por ela mesma fabricado e no qual procurava recolher, em torno do médium, os fluidos necessários à sua materialização completa. Para esse efeito, atritava o médium com o mencionado tecido. Dali a pouco, travou-se em voz baixa, entre o médium e o Espírito, o seguinte diálogo:

Srta. Cook – Vamos, Katie, não gosto de ser friccionada assim.

Katie – Não sejas tolinha, tira o que tens na cabeça e olha-me. (E continuava a friccionar.)

Srta. Cook – Não quero. Deixa-me, Katie. Já não gosto de ti. Metes-me medo.

Katie – Como és tola! (E não cessava de friccionar.)

Srta. Cook – Não me quero prestar a estas manifestações. Não gosto disto. Deixa-me sossegada.

Katie – És apenas o meu médium e um médium é uma simples máquina de que os Espíritos se servem.

Srta. Cook – Pois bem! Se não sou mais do que máquina, não gosto de ser assombrada deste jeito. Vai-te embora.

Katie – Não sejas estouvada.”

Vê-se, por este diálogo, que a aparição não é o duplo do médium, pois que a vontade consciente da moça se revela em oposição absoluta à do fantasma, que se acha na sua presença. A Sra. d’Espérance, outro médium célebre,163 resolveu não mais cair em transe durante as manifestações e o conseguiu, o que mostra a independência da sua individualidade psíquica no curso das aludidas manifestações. O Sr. Harrison, em sessões ulteriores, pôde apreciar o desenvolvimento do fenômeno e o descreveu assim:

“A figura de Katie nos apareceu com a cabeça toda envolta num pano branco, a fim, disse ela, “de impedir que o fluido se dispersasse muito rapidamente”. Declarou que apenas o seu rosto se achava materializado. Todos puderam ver-lhe distintamente os traços do semblante. Notamos que tinha fechados os olhos. Mostrava-se durante meio minuto e desaparecia. Depois, disse-me: “Willie, olha como sorrio; vê como falo.” E exclamou: “Cook, aumenta a luz.” Imediatamente isso foi feito e todos puderam observar a figura de Katie King brilhantemente iluminada. Tinha uma fisionomia jovem, linda, jovial, olhos vivos um tanto maliciosos. Sua tez já não era mate e imprecisa, como da sua primeira aparição, a 22 de abril, porque, explicava ela: “já sei melhor como devo fazer.” Quando a sua figura se apresentou em plena luz, suas faces pareciam naturalmente coloridas. Todos os assistentes exclamaram: “Vemos-te agora perfeitamente.” Katie manifestou a sua alegria, estendendo o braço para fora da cortina e batendo na parede com um leque que achara ao seu alcance.”

As sessões continuaram com bom êxito. As forças de Katie King aumentaram de mais em mais; porém, durante longo tempo, ela só consentiu uma luz muito fraca, enquanto se materializava. A cabeça trazia sempre envolta em véus brancos, porque não a formava completamente, a fim de empregar menor quantidade de fluido e não fatigar a médium. Ao cabo de bom número de sessões, conseguiu mostrar-se em plena luz, com o rosto, os braços e as mãos descobertos.

Naquela época, a Srta. Cook permanecia quase sempre acordada, enquanto se achava presente o Espírito. Algumas vezes, porém, quando fazia mau tempo, ou eram desfavoráveis outras condições, a mocinha adormecia sob a influência espírita, o que aumentava o poder da médium e obstava a que a sua atividade mental perturbasse a ação das forças magnéticas. Depois, Katie não mais apareceu sem que a médium estivesse em transe. Realizaram-se algumas sessões para a aparição de outros Espíritos; mas, essas sessões tiveram que ser efetuadas com muito pouca luz e foram menos perfeitas do que as em que Katie se mostrava. Contudo, verificou-se a aparição de figuras conhecidas, cuja autenticidade ficou bem comprovada. Apreciaremos daqui a pouco o testemunho da Sra. Florence Marryat, conhecida escritora.

Numa sessão feita a 20 de janeiro de 1873, em Hackney, sua face se transformou, tornando-se, de branca, negra, em poucos segundos, fato que depois se reproduziu muitas vezes. Para mostrar que suas mãos não eram movidas mecanicamente, ela fez uma costura na cortina que se havia rasgado. Noutra sessão, a 12 de março e no mesmo local, as mãos da Srta. Cook foram atadas, sendo postos selos de cera sobre os nós. Katie King se mostrou então a certa distância, à frente da cortina, com as mãos inteiramente livres.

Como se vê, só ao fim de longas experiências, a princípio imperfeitas e que com a continuação foram melhorando, o Espírito Katie King alcançou o desenvolvimento que lhe possibilitou manifestar-se livremente, em plena luz, sob forma humana, fora e à frente do gabinete escuro, diante de um círculo de espectadores maravilhados.

A partir desse momento, organizaram-se “controles” muito severos e, somente depois de os terem estudado com todo o rigor possível, foi que o Sr. Benjamin Coleman, o Dr. Gully e o Dr. Sexton proclamaram a realidade daquelas manifestações transcendentes. Tiraram-se à luz do magnésio muitas fotografias de Katie King, estando ela completamente materializada, de pé na sala, sob severíssima fiscalização. Desde os primórdios da mediunidade da Srta. Cook, o Sr. Ch. Blackburn, de Manchester, com ponderada liberalidade, lhe fez importante dote que lhe assegurou a subsistência. Assim procedeu ele, tendo em vista o progresso da ciência. Todas as sessões da Srta. Cook se realizaram gratuitamente.


Primeiras fotografias de Katie King


Na primavera de 1873, muitas sessões se realizaram com o fito de obterem-se fotografias de Katie King. A 7 de maio, tiraram-se quatro com bom resultado. Uma delas foi reproduzida em gravura.

As experiências fotográficas se acham bem descritas na resenha que abaixo transcrevemos, elaborada depois de uma sessão e assinada com os seguintes nomes: Amélie Corner, Caroline Corner, M. Luxmore, G. Tapp e W. Harrison. Ao começar a sessão, tomaram-se as seguintes precauções: a Sra. Corner e sua filha acompanharam a Srta. Cook ao seu quarto, onde lhe pediram que se despisse, a fim de serem examinadas suas roupas. Fizeram-na envergar um grande roupão de pano cinzento, em substituição do vestido que despira e depois conduziram-na à sala das sessões, onde lhe ataram solidamente os pulsos com as fitas. O gabinete foi examinado em todos os sentidos, após o que a Srta. Cook se sentou dentro dele. As fitas que lhe atavam os punhos foram passadas por um anel fixado no assoalho, em seguida por baixo do manto, sendo, afinal, amarradas a uma cadeira colocada fora do gabinete. Desse modo, se a médium se movesse, logo o perceberiam.

A sessão principiou às seis horas da tarde e durou cerca de duas horas, com um intervalo de trinta minutos. A médium adormeceu logo que se instalou no gabinete e, decorridos poucos instantes, Katie apareceu e se encaminhou para o meio da sala. Também assistiam à sessão a Sra. Cook e seus dois filhos que muito se divertiam a conversar com o Espírito.

Katie vestia-se de branco. Aquela noite, seu vestido era decotado e de mangas curtas, de sorte que se lhe podiam admirar o maravilhoso pescoço e os belos braços. A própria coifa que, como sempre, lhe envolvia a cabeça, estava ligeiramente afastada, deixando ver seus cabelos castanhos. Os olhos eram grandes e brilhantes, de cor cinzenta, ou azul escuro. Tinha a tez clara e rosada, os lábios corados. Parecia inteiramente viva. Notando o prazer que experimentávamos em contemplá-la assim diante de nós, Katie redobrou de esforços para que tivéssemos uma boa sessão. Depois, quando acabou de “posar” em frente do aparelho, passeou pela sala, conversando com todos, criticando os assistentes, o fotógrafo e seus dispositivos, completamente à vontade. Pouco a pouco, aproximou-se de nós, animando-se cada vez mais. Apoiou-se ao ombro do Sr. Luxmore, enquanto a fotografavam. Chegou mesmo, uma vez, a segurar a lâmpada, para melhor iluminar o seu rosto.

Consentiu que o Sr. Luxmore e a Sra. Corner lhe passassem as mãos pelo corpo, para se certificarem de que trazia apenas um vestido. Depois, divertiu-se em apoquentar o Sr. Luxmore, dando-lhe tapas, puxando-lhe os cabelos e tomando-lhe os óculos para com eles mirar os que estavam na sala. As fotografias foram tiradas à luz de magnésio. A iluminação permanente era dada por uma vela e uma lâmpada pequena. Retirada a chapa para a revelação, Katie deu alguns passos, acompanhando o Sr. Harrison, a fim de assistir a essa operação.

Outro fato curioso também se deu essa noite. Estando Katie a repousar diante do gabinete, à espera de se colocar em posição para ser fotografada, todos viram aparecer por sobre a cortina um grande braço de homem, nu até a espádua e a agitar os dedos. Katie voltou-se e repreendeu o intruso, dizendo que era muito malfeito vir outro Espírito perturbar tudo, quando ela se preparava para lhe tirarem o retrato, e ordenou-lhe que sem demora se retirasse. No dia da sessão, declarou Katie que suas forças desfaleciam, que ela estava a pique de dissolver-se. Com efeito, suas forças haviam diminuído tanto, que, à luz que penetrava no gabinete para onde se retirara, ela pareceu esvair-se. Todos então a viram achatar-se, destituída totalmente de corpo e com o pescoço a tocar o chão. A médium se conservava ligada como no começo.

Chamamos muito particularmente a atenção do leitor para este último pormenor, que mostra, a toda evidência, que a aparição não é um manequim preparado, nem o médium com um disfarce. Sobre esse ponto, outro testemunho probante é o da Sra. Florence Marryat.164

“Perguntaram um dia a Katie King por que não podia mostrar-se sob uma luz mais forte. (Ela só permitia aceso um bico de gás e esse mesmo com a chapa muito baixa.) A pergunta pareceu irritá-la enormemente. Respondeu assim: “Já vos tenho declarado muitas vezes que não me é possível suportar a claridade de uma luz intensa. Não sei por que me é isso impossível; entretanto, se duvidais de minhas palavras, acendei todas as luzes e vereis o que acontecerá. Previno-vos, porém, de que se me submeterdes a essa prova, não mais poderei reaparecer diante de vós. Escolhei.”

As pessoas presentes se consultaram entre si e decidiram tentar a experiência, a fim de verem o que sucederia. Queríamos tirar definitivamente a limpo a questão de saber se uma iluminação mais forte embaraçaria o fenômeno de materialização. Katie teve aviso da nossa decisão e consentiu na experiência. Soubemos mais tarde que lhe havíamos causado grande sofrimento.

O Espírito Katie se colocou de pé junto à parede e abriu os braços em cruz, aguardando a sua dissolução. Acenderam-se os três bicos de gás. (A sala media cerca de dezesseis pés quadrados.)

Foi extraordinário o efeito produzido sobre Katie King, que apenas por um instante resistiu à claridade. Vimo-la em seguida fundir-se, como uma boneca de cera junto de ardentes chamas. Primeiro, apagaram-se-lhe os traços fisionômicos, que não mais se distinguiam. Os olhos enterraram-se nas órbitas, o nariz desapareceu, a testa como que entrou pela cabeça. Depois, todos os membros cederam e o corpo inteiro se achatou, qual um edifício que desmorona. Nada mais restava do que a cabeça sobre o tapete e, por fim, um pouco de pano branco, que também desapareceu, como se o houvessem puxado subitamente. Conservamo-nos alguns momentos com os olhos fitos no lugar onde Katie deixara de ser vista. Terminou assim aquela memorável sessão.”

Com o exercício, o Espírito adquirira maior força, pois que William Crookes pôde, a seguir, bater mais de quarenta chapas com auxílio da luz elétrica. Vimos acima que um Espírito tentara materializar-se ao mesmo tempo que Katie. É que, com efeito, este último não era o único Espírito a mostrar-se. Eis aqui um novo testemunho da Sra. Marryat que, numa aparição que se lhe lançou nos braços, reconheceu uma deformação característica que sua filha apresentava num dos lábios. Ouçamo-la.

“A sessão se realizou numa pequenina sala da associação, sem móveis, nem tapete. Apenas três cadeiras de vime foram ali colocadas, para que pudéssemos estar sentados. A um canto, dependurou-se um velho xale preto, para formar o necessário gabinete, em o qual foi posto um coxim para servir de travesseiro à Srta. Cook.

Esta, moreninha, delgada, de olhos pretos e cabelos anelados, trazia um vestido de merinó cinzento, guarnecido de fitas cor de cereja. Informou-me, antes de começar a sessão, que, desde algum tempo, se sentia enervada durante os transes e que lhe acontecia vir adormecida para a sala. Pediu-me então que a repreendesse, caso tal coisa ainda se desse, e que lhe ordenasse voltar para o seu lugar, como se fora uma criança. Prometi fazê-lo e logo a Srta. Cook se sentou no chão, por trás do xale preto que fazia de cortina. Víamos o seu vestido cinzento, por isso que o xale não chegava até ao assoalho. Baixou-se a chama do gás e tomamos assento nas três cadeiras de vime.

A médium, a princípio, parecia não se sentir à vontade. Queixava-se de que a maltratavam. Decorridos alguns instantes vimos o xale agitar-se e uma mão aparecer e desaparecer, repetindo-se isso várias vezes. Apareceu depois uma forma a se arrastar com os joelhos, para passar por baixo do xale, acabando por ficar de pé, perfeitamente ereta. A luz era insuficiente para se lhe reconhecerem os traços fisionômicos. O Sr. Harrison perguntou se quem ali estava era a Sra. Stewart. O Espírito abanou a cabeça, em sinal negativo. “Quem poderá ser?” Perguntei ao Sr. Harrison.

– Não me reconhece, minha mãe?

Quis lançar-me em seus braços; ela, porém, me disse: “Fique no seu lugar; irei lá ter.” Momentos depois, Florence veio sentar-se nos meus joelhos. Tinha soltado os longos cabelos, nus os braços, assim como os pés. Suas vestes não apresentavam forma determinada. Dir-se-ia estar envolta nalguns metros de musselina. Por exceção esse Espírito não trazia coifa, estava com a cabeça descoberta.

– Minha querida Florence, exclamei, és mesmo tu?

– Aumentem a luz, respondeu ela, e olhem a minha boca.

Vimos então, distintamente, num de seus lábios, a deformação com que nascera e que os médicos que a examinaram haviam declarado constituir um caso muito raro. Minha filha viveu apenas alguns dias. Na sessão em que se me apresentou parecia contar 17 anos.

Diante dessa inegável prova de identidade, fiquei banhada em lágrimas, sem poder dizer palavra.

A Srta. Cook estava muito agitada por detrás do xale e logo, de súbito, correu para nós, exclamando: “É demasiado, já não posso mais.”



Vimo-la então fora do gabinete, ao mesmo tempo em que o Espírito de minha filha sentado no meu colo. Isso, porém, durou apenas um instante. A forma que eu abraçava se lançou para o gabinete e desapareceu. Lembrei-me então de que a Srta. Cook me pedira que a repreendesse, caso viesse andar pela sala. Repreendi-a, pois, severamente. Ela tornou ao seu lugar no gabinete e logo o Espírito voltou para junto de mim, dizendo: “Não deixes que ela volte; causa-me um medo horrível.”

Retruquei-lhe: “Mas, Florence, nós outros, mortais, neste mundo, temos medo das aparições e tu, ao que parece, tens medo da tua médium!”

“Tenho medo de que ela me faça partir”, respondeu ela. A Srta. Cook, porém, não tornou a sair do gabinete e Florence esteve mais algum tempo conosco. Lançou-me os braços ao pescoço e me beijou repetidas vezes. Nessa época, eu me achava muito atribulada. Disse-me Florence que, se pudera aparecer-me com a marca que me permitira reconhecê-la, fora para bem me convencer das verdades do Espiritismo, no qual eu encontraria copiosas fontes de consolação.

– “Tu algumas vezes duvidas, minha mãe, disse ela, e supões que teus olhos e teus ouvidos te enganam. Nunca mais deves duvidar e não creias que, como Espírito, eu me conserve desfigurada. Retomei hoje este defeito apenas para melhor te convencer. Lembra-te de que estou sempre contigo.”

Eu não conseguia falar, tão emocionada me sentia à idéia de que tinha em meus braços a filha que eu própria depositara num esquife, de que ela não estava morta, de que presentemente era uma mocinha. Fiquei muda, com os braços passados pela sua cintura, com o coração a bater de encontro ao seu. Em seguida, a força diminuiu. Florence me deu um último beijo, deixando-me estupefata e maravilhada com o que se passara.”

Acrescenta a Sra. Florence Marryat que tornou a ver aquele Espírito muitas vezes, em outras sessões e com diferentes médiuns, recebendo dele ótimos conselhos.

Facilmente se concebe que os incrédulos hajam negado com obstinação tão extraordinários fenômenos. Calorosas polêmicas se travaram, mesmo entre espíritas, e só as experiências e as afirmações de William Crookes puderam confirmar a autenticidade absoluta de Katie King. Recomendamos ao leitor a obra desse sábio; todavia, precisamos assinalar, de modo especial, que Katie é um ser em tudo semelhante, anatomicamente, a um ser vivo.

As experiências de Crookes


São particularmente interessantes os trabalhos do grande sábio inglês, do ponto de vista em que nos colocamos,165 pelo que reproduziremos aqui uma pequena parte da sua narrativa, tão completamente probante ela é. Ele nos mostra um Espírito tão bem materializado, que se não poderia distingui-lo de uma pessoa normal.

Essa notável experiência estabelece, pertinentemente, que o perispírito reproduz não só o exterior de uma pessoa, mas também todas as partes internas do seu corpo.

“Uma das mais interessantes fotografias é a em que estou de pé ao lado de Katie, tendo esta um pé nu em determinado ponto do assoalho. Em seguida, vesti a Srta. Cook tal qual o estava Katie e nos colocamos, ela e eu, na mesma posição em que estivéramos Katie e eu, e fomos fotografados pelas mesmas objetivas, situadas estas absolutamente como na outra experiência e iluminadas pela mesma luz. Superpostas as duas fotografias, as minhas imagens numa e noutra coincidem exatamente, quanto ao talhe, etc.; ao passo que a de Katie se demonstra maior, de uma meia cabeça, do que a da Srta. Cook, junto de quem aquela parece uma mulher gorda. Em muitas das fotografias, o tamanho do seu rosto e a sua corpulência diferem essencialmente dos de seu médium, podendo-se ainda notar muitos outros pontos de dessemelhança...”

Isto responde à objeção, tantas vezes formulada, de que, nas sessões espíritas, as aparições que se fotografam são desdobramentos do médium. Continuemos.

“Recentemente, vi Katie tão bem, à claridade da luz elétrica, que se me torna fácil acrescentar mais algumas diferenças às que, em precedente artigo, assinalei entre ela e seu médium. Tenho a mais absoluta certeza de que a Srta. Cook e Katie são duas individualidades distintas, pelo menos quanto aos corpos. Pequenas marcas que em grande número se encontram no rosto da Srta. Cook não existem no de Katie. Os cabelos daquela são de um castanho tão escuro que parecem pretos! Tenho sob os olhos uma madeixa que Katie permitiu lhe eu cortasse da luxuriante cabeleira, depois de meter nesta os meus próprios dedos até ao alto da cabeça e de me haver certificado de que ela daí nascia realmente. É de um lindo castanho dourado.

Uma noite, contei as pulsações de Katie. Eram em número de 75 e seu pulso batia regularmente. As da Srta. Cook, alguns instantes após, chegaram a 90, algarismo que lhe era habitual. Aplicando o ouvido ao peito de Katie, pude ouvir-lhe o coração a bater no interior, sendo os seus batimentos mais regulares do que os do coração da Srta. Cook quando, depois da sessão, ela me permitiu fazer a mesma experiência. Auscultados de igual modo, os pulmões de Katie se revelaram mais sãos do que os de sua médium, porquanto, no momento em que fiz a experiência, a Srta. Cook estava em tratamento de um grande resfriado.”

Tais as primeiras manifestações de Katie King. Eis agora o que se passou da última vez que ela apareceu, achando-se entre os espectadores a Sra. Florence Marryat, o Sr. Tapp, William Crookes e a doméstica Mary.166

A última sessão


As 7 horas e 23 minutos da noite, o Sr. Crookes conduziu a Srta. Cook para o gabinete escuro, onde ela se deitou no chão, com a cabeça sobre um travesseiro. As 7 horas e 28 minutos, Katie falou pela primeira vez e às 7 horas e 30 mostrou-se fora da cortina e em toda a sua estatura. Estava vestida de branco, de mangas curtas e o pescoço nu. Trazia soltos os seus longos cabelos castanho-claros, de tom dourado, a lhe caírem em cachos dos dois lados da cabeça e pelas costas até à cintura. Também trazia um longo véu branco que apenas uma ou duas vezes abaixou sobre o rosto, durante a sessão.

O médium trajava um vestido de merinó azul-claro. Durante quase toda a sessão, Katie se conservou em pé diante dos assistentes. Corrida que fora a cortina do gabinete, todos viam distintamente o médium adormecido, com o rosto coberto por um xale vermelho, para preservá-lo da luz. Não deixara a posição que havia tomado desde o começo da sessão, que transcorreu a uma luz que espalhava viva claridade. Katie falou da sua próxima partida e aceitou um ramo de flores que o Sr. Tapp lhe trouxera, assim como um apanhado de lírios que o Sr. Crookes lhe ofereceu. Pediu ao Sr. Tapp que desmanchasse o ramo e colocasse diante dela as flores, no chão. Sentou-se, então, à moda turca e pediu que todos fizessem o mesmo, ao seu derredor. Distribuiu as flores, fazendo com algumas um raminho, que atou com uma fita azul.

Escreveu cartas de adeus a alguns de seus amigos, pondo-lhes a assinatura: Annie Owen Morgan, dizendo que fora este o seu verdadeiro nome na vida terrena. Escreveu também uma carta ao seu médium e escolheu um botão de rosa para lhe ser entregue como presente de despedida. Pegou uma tesoura, cortou uma mecha de seus cabelos e ofereceu certa porção destes a cada um. Enfiou depois o braço no do Sr. Crookes e deu volta à sala apertando a mão de todos, um por um. Sentou-se de novo, cortou vários pedaços do seu vestido e do seu véu, presenteando com eles os assistentes. Como fossem visíveis os grandes buracos que lhe ficaram nas vestes e estando ela sentada entre o Sr. Crookes e o Sr. Tapp, alguém lhe perguntou se poderia reparar aqueles estragos, como já o fizera noutras ocasiões. Ela então expôs à luz a parte cortada, bateu em cima com uma das mãos e imediatamente aquela parte do vestido se tornou tão perfeita como era antes. Os que lhe estavam próximos examinaram e tocaram, com sua permissão, a fazenda e afirmam que não mais havia nem buraco, nem costura, nem a aposição de qualquer remendo onde um momento antes tinham visto rasgões do diâmetro de muitas polegadas.

Transmitiu a seguir suas últimas instruções ao Sr. Crookes e aos outros amigos sobre como deviam proceder com relação às manifestações ulteriores, que prometera, com o auxílio do seu médium. Essas instruções foram cuidadosamente anotadas e entregues ao Sr. Crookes. Parecendo então fatigada, Katie dizia com tristeza que precisava ir-se embora, que a sua força decaía. Reiterou muito afetuosamente seu adeus a todos e todos lhe agradeceram as maravilhosas manifestações que lhes havia proporcionado.

Dirigindo a seus amigos um último olhar, grave e pensativo, desceu a cortina e tornou-se invisível. Ouviram-na despertar o médium, que lhe pediu, banhado em lágrimas, que se demorasse mais um pouco. Katie, porém, lhe respondeu: “Minha querida, não posso. Está cumprida a minha missão. Deus te abençoe!” E todos ouviram o som do seu beijo de despedida no médium. Logo depois, a Srta. Cook vinha ter com os presentes, inteiramente esgotada e profundamente consternada.

Vê-se assim quanto a moça, rebelde a princípio, se afeiçoara à sua amiga invisível. Katie dizia que dali em diante não mais poderia falar nem mostrar-se; que, realizando, por três anos, aquelas manifestações físicas, passara vida bem penosa, para expiar suas faltas; que decidira elevar-se a um grau mais alto da vida espiritual; que só a longos intervalos poderia corresponder-se por escrito com o seu médium, mas que este poderia vê-la sempre, por meio da lucidez magnética.167


O caso da Sra. Livermore


As aparições de Katie King foram tão numerosas e tantas vezes observadas, que não se pode duvidar um instante de que fosse um Espírito quem assim se manifestava; mas, não era possível verificar-se-lhe a identidade, pois, segundo declarava, vivera, havia muitos séculos, com o nome de Annie Morgan, sob Carlos I. Vimos que Florence, a filha da Sra. Marryat se fez reconhecer por um sinal particular do lábio. Vamos ver, segundo o Sr. Aksakof,168 ser impossível deparar-se com um caso mais concludente, mais perfeito, como prova de identidade da aparição de uma forma materializada, do que o de “Estela”, morta em 1860, ao seu marido Sr. Livermore.

Esta observação reúne todas as condições necessárias a ser considerada clássica; responde a todas as exigências da crítica. A narração detalhada desse caso encontra-se em The Spiritual Magazine de 1861, nos artigos do Sr. B. Coleman, que lhe obteve todos os pormenores diretamente do Sr. Livermore, pormenores que foram publicados depois, numa brochura intitulada: Spiritualisrn in America, Londres, 1861, e, finalmente, na obra de Dale Owen, Debatable Land, que lhe tirou os detalhes do manuscrito do Sr. Livermore.

Duraram cinco anos, de 1861 a 1866, as materializações daquela figura e em todo esse tempo o Sr. Livermore realizou com o médium Kate Fox 388 sessões, cujas particularidades ele publicou num jornal. Foram feitas em completa obscuridade. As mais das vezes o Sr. Livermore realizava a sessão a sós com o médium, cujas mãos segurava o tempo todo. Kate Fox se conservava sempre em estado normal, sendo, pois, testemunha consciente de tudo o que se passava.

Foi gradual a materialização visível da figura de Estela; somente na 43ª sessão pôde seu marido reconhecê-la, sob intensa claridade, de origem misteriosa, ligada ao fenômeno, e, em geral, sob a direção de outra figura que a acompanhava e auxiliava em suas manifestações. Essa outra aparição dava o nome de Franklin.

A partir de então, a aparição de Estela se tornou cada vez mais perfeita, chegando mesmo a suportar a luz de uma lanterna que o Sr. Livermore levava para a sessão. Felizmente para a apreciação do fato, a figura não pôde falar, limitando-se a pronunciar algumas palavras. Todo o lado intelectual da manifestação teve de revestir uma forma que deixou traços indeléveis. Referimo-nos às comunicações, em número de uma centena, escritas todas pela própria Estela em folhas de papel que o Sr. Livermore levava, marcadas pelas suas mãos. Enquanto a aparição escrevia, ele, segurando as mãos de Kate Fox, via perfeitamente a mão e toda a figura de quem escrevia.

A caligrafia dessas comunicações é reprodução exata da da Sra. Livermore, quando viva. Lê-se, numa carta do Sr. Livermore ao Sr. B. Coleman, de Londres, a quem o primeiro conhecera na América: “Acabamos, afinal, por obter cartas datadas. A primeira das desse gênero tem a data de 3 de maio de 1861, sexta-feira, e foi escrita com muito cuidado e muito corretamente e pôde comprovar-se, de maneira categórica, por meio de minuciosas comparações, a identidade da escrita com a de minha mulher. O estilo e a grafia são para mim provas positivas da identidade da autora, mesmo deixando de lado as outras provas, ainda mais concludentes, que obtive.” Mais tarde, noutra carta, acrescentava o Sr. Livermore: “Sua identidade foi estabelecida, de modo a não deixar subsistisse a menor dúvida: primeiro, pela sua aparência, em seguida pela sua caligrafia e, finalmente, pela sua individualidade mental, sem falar de numerosas outras provas, que seriam concludentes nos casos ordinários, mas que não levei em conta, senão como provas complementares.”

O testemunho do Sr. Coleman confirma o do Sr. Livermore e no Spiritualist Magazine de 1861 foram publicados muitas espécimes da caligrafia de Estela em vida e depois de morta. O caráter da letra é sem dúvida uma prova absoluta e de todo concludente da identidade do ser que se materializa, porquanto é uma espécie de fotografia da personalidade, da qual foi ela considerada sempre como expressão fiel e constante. Além dessa prova, material e intelectual ao mesmo tempo, outra ainda se nos depara em multas das comunicações que Estela escreveu em francês, língua que o médium desconhecia inteiramente. A esse propósito, é decisivo o testemunho do Sr. Livermore: “Uma folha de papel que eu mesmo levara me foi arrebatada da mão e, após alguns instantes, foi-me restituída de modo visível. Li, escrita nela, uma mensagem admiravelmente redigida em puro francês, idioma que minha mulher conhecia muito bem, em o qual falava e escrevia corretamente, ao passo que a Srta. Fox não tinha dele a mais ligeira noção.” 169

O Sr. Aksakof, tão exigente em matéria de provas, escreveu:

“Temos aqui uma dupla prova de identidade, dada não só pela caligrafia, semelhante, em todos os pontos, à do defunto, mas também por ser desconhecida do médium a língua em que está escrita a mensagem. O caso é extremamente importante e, ao nosso parecer, apresenta uma prova absoluta de identidade.”

A cessação das manifestações de Estela por meio da materialização oferece notável semelhança com o termo das aparições de Katie. Lê-se, com efeito, em Owen:

“Foi na 388 sessão, a 2 de abril de 1866, que a forma de Estela apareceu pela última vez. Depois daquele dia, o Sr. Livermore não mais tornou a ver a figura que lhe era tão conhecida, se bem haja recebido, até ao momento em que escrevo (1871), numerosas mensagens repassadas de simpatia e de afeto.”

Afigura-se-nos bem firmado que a imortalidade ressalta, em completa evidência, dessas manifestações sugestivas. As mais ousadas teorias não poderão lutar contra fatos desta natureza que, por si sós, atestam a realidade da vida de Além-túmulo, cuja existência já se havia tornado mais que provável, por todos os outros gêneros de comunicações entre os homens e os Espíritos.


Resumo


Na brevíssima exposição que vimos de colocar sob as vistas do leitor, apenas possível nos foi reproduzir a narrativa de um só dos casos particulares que desejáramos citar em grande número. Fácil, porém, é a consulta às obras mencionadas e quem a fizer se convencerá de que é considerável a quantidade dos testemunhos autênticos concernentes a aparições de vivos e de mortos, emanando, a maior parte deles, de pessoas dignas de fé, que nenhum interesse tinham em enganar. Ao demais, a veracidade dessas afirmações foi verificada, com todos os cuidados possíveis, por homens sábios, prudentes e imparciais. Entretanto, mesmo que se suponham falsos alguns desses relatos e inexatamente reproduzidos outros, resta deles um número suficiente (muitas centenas) para dar a certeza do desdobramento do ser humano e da sobrevivência da alma após a morte.

Foi-nos fácil comprovar, em quase todas as narrações, que o corpo dormia, enquanto o Espírito manifestava ao longe a sua presença. A realidade da alma, isto é, do eu pensante e volitivo, ao mesmo tempo em que a sua individualidade distinta do corpo, se impõem como corolários obrigatórios do fenômeno de desdobramento.

Com efeito, por testemunhos precisos, quais os de Varley, do jovem gravador citado pelo Dr. Gibier e pelos casos de Newnham e de Sofia, pudemos verificar que durante o sono a alma humana tem a capacidade de desprender-se e demonstrar sua autonomia. Ela é, pois, distinta do organismo material e impossível se torna explicar esses fenômenos psicológicos por uma ação do cérebro, pois que o sono, segundo a ciência, se caracteriza pelo desaparecimento da atividade psíquica.170

Esse eu que se desloca não é uma substância incorpórea, é um ser bem definido, com um organismo que reproduz os traços do corpo e, quando se mostra, é graças a essa identidade absoluta com o envoltório carnal que pode ser reconhecido.

Varia o grau de materialidade do perispírito. Ora é uma simples névoa branca que desenha os traços, atenuando-os; ora apresenta contornos muito nítidos e parece um retrato animado. Acontece também mostrar-se com todos os caracteres da realidade, reconhecendo-se-lhe suficiente tangibilidade para exercer ações físicas sobre a matéria inerte e para revelar a existência de um organismo interno semelhante ao de um indivíduo vivo.

Em nada influi sobre a intensidade das manifestações a distância que separe do corpo a sua alma. Vimos disso muitos exemplos probantes.

Esse envoltório da alma, que somente em circunstâncias muito raras acusa a sua existência distinta do corpo, aí se acha, entretanto, no seu estado normal, como o indicam as experiências sobre a exteriorização da sensibilidade e sobre a ação dos medicamentos a distância. Aliás, a certeza da coexistência do corpo e do perispírito resulta da sobrevivência deste último à destruição do invólucro carnal. Essa imortalidade se encontra estabelecida por experiências variadas, oferecendo todos os caracteres que impõe a convicção.

São idênticas as aparições de vivos e de mortos; atuam da mesma maneira, produzem os mesmos resultados; logo, a causa de onde derivam é a mesma: é a alma desprendida do corpo. Nem poderia ser de outro modo, note-se, pois que, em ambos os casos, a alma se encontra liberta da sua prisão carnal.

Se, pois, descobrimos, nas aparições dos mortos, caracteres que não foram postos em evidência nas aparições de pessoas vivas, podemos concluir legitimamente que também o duplo humano os possui.

A continuidade que existe entre todos os fenômenos da natureza nos facultará perceber a ligação existente entre as manifestações da alma produzidas pela sua ação a distância e as que são devidas à sua saída do corpo. Transmissão de pensamento, telepatia, exteriorização parcial, desdobramento, são fenômenos que formam uma cadeia ininterrupta, uma gradação dos poderes anímicos.

As circunstâncias que acompanham as aparições de vivos são, em geral, bastante demonstrativas por si mesmas, para estabelecerem a objetividade do fantasma. Evidenciamos esse caráter em todos os casos citados; mas, não foi possível dar dele provas absolutas, por isso que esses fenômenos, pela sua raridade, pela sua espontaneidade se opõem a toda pesquisa metódica. O mesmo já não se dá quando as aparições se produzem nas sessões espíritas, em que são provocadas. Aí, conta-se que elas se produzam e todas as precauções são tomadas para que se lhes verifique cuidadosamente a objetividade.

A fotografia é uma das garantias mais fortes que podemos fornecer. Se, a rigor, é possível se admita, para explicar as aparições, uma alucinação a efetivar-se em cérebros predispostos a sofrê-la, essa explicação cai redondamente diante da realidade brutal que se inscreve na camada sensível da chapa fotográfica. Ora, tem-se fotografado o corpo fluídico durante a vida e depois da morte, o que dá a certeza absoluta de que a alma existe sempre, tanto na Terra, como no espaço.

Aliás, a continuidade do ser se revela bem claramente pelas aparições que se verificam algumas horas depois da morte. Tudo se passa como se o indivíduo que aparece ainda estivesse vivo. O perispírito que acaba de deixar o corpo lhe retraça fielmente não só a imagem, como também a configuração física, que se patenteia pelas marcas que deixa no papel enegrecido e pelas moldagens! Que descoberta maravilhosa essa possibilidade de qualquer um se convencer da sobrevivência integral do ser pensante, por meio de provas materiais!

Vemos, finalmente, nas experiências de Crookes, que o Espírito materializado é, por completo, um ser que vive temporariamente, como se houvesse nascido na Terra. Bate-lhe o coração, funcionam-lhe os pulmões, ele vai e vem, conversa, dá uma mecha de cabelos existentes na própria cabeça. Seu perispírito tem, pois, em si tudo o que é necessário à criação de todos esses órgãos, com a força e a matéria que haure do médium. É o desdobramento completo do fenômeno, que vimos apenas esboçado nas aparições falantes.171

Pouco importa que os sábios oficiais fechem os olhos, que a imprensa, obstinadamente, guarde silêncio sobre tão notáveis fatos. Isso não impedirá que a verdade brilhe aos olhos dos que não sejam espíritos prevenidos. Essa demonstração material da sobrevivência tem capital importância para o futuro da humanidade. Ninguém poderá destruir o feixe de provas que apresentamos. Cedo ou tarde, ainda os mais orgulhosos terão que se curvar à evidência e de reconhecer que os espíritas, tão escarnecidos, hão, todavia, dotado a ciência com a maior e a mais fecunda descoberta que já se fez na Terra.

Conclusão


Parece-nos, conseguintemente, firmado pela observação e pela experiência, que:

1º) o ser humano pode desdobrar-se em duas partes: o corpo e a alma;

2º) a alma, separada do corpo, lhe reproduz exatamente a imagem;

3º) as manifestações anímicas independem do corpo físico; durante o desprendimento, quando a alma está totalmente exteriorizada, o corpo nada mais é do que uma massa inerte;

4º) a aparição pode denotar todos os graus de materialidade, desde a de uma simples aparência até a de uma realidade concreta, que lhe permite andar, falar e atuar sobre a matéria bruta;

5º) a forma fluídica da alma pode ser fotografada;

6º) a forma fluídica da alma, durante a vida, ou depois da morte, pode deixar marcas ou moldes;

7º) durante a vida, pode a alma perceber sensações, sem o concurso dos órgãos dos sentidos;

8º) a forma fluídica reproduz não só o exterior, mas também toda a constituição interna do ser;

9º) a morte não destrói a alma; esta subsiste com todas as suas faculdades psíquicas e com um organismo físico, visível e imponderável, dotado, em estado latente, de todas as leis biológicas do ser humano.


As conseqüências


Que se deve concluir de todos esses fatos? Em primeiro lugar, somos forçados a admitir que o corpo e a alma são duas entidades absolutamente distintas, que se podem separar, cada uma delas com caracteres inequívocos de substancialidade. Também devemos notar que o organismo físico não passa de um envoltório que se torna inerte, logo que o princípio pensante se separa dele. A parte sensível, inteligente do homem reside no duplo e se mostra como causa da vida psíquica. Desde então, será lógico que, para explicar os fenômenos espíritas, se imaginem outros fatores, com exclusão da alma humana?

Evidentemente não e todas as teorias que recorrem à intervenção de seres extraordinários, como demônios, elementais, elementares, ogros, idéias coletivas, não suportam o exame dos fatos, nem explicam os fenômenos observados. No caso em que o Espírito de um vivo se manifesta de qualquer maneira, possível se nos torna remontar do efeito à causa e descobrir a razão eficiente do fenômeno: é a psique humana, em ação temporária fora dos limites do seu organismo.

Sabemos que ela haure do corpo material a força de que necessita para suas manifestações. Abandone definitivamente o seu corpo material, e essa alma será obrigada a recorrer a um médium, para dele tomar aquela energia indispensável. Assim, claramente se explicam todas as manifestações. Há nesses fatos, que se desenrolam em séries paralelas, não só evidente parentesco, mas uma semelhança tão grande, que chega à identidade. Logo, em boa lógica, a causa é necessariamente a mesma: em todos os casos, a alma.

Essa continuidade foi tão bem sentida, que alguns incrédulos, como Hartmann, tentaram explicar todos os fatos espíritas pela ação incorpórea e inconsciente do médium. Mas, os fenômenos, em grandíssimo número, responderam vitoriosamente a essa inexata asserção. Os Espíritos, por provas irrecusáveis, revelaram-se dotados de uma personalidade inteiramente autônoma e independente por completo das dos assistentes. Demonstraram de modo peremptório a sobrevivência de que gozavam, por uma quantidade prodigiosa de comunicações, fora, em absoluto, dos conhecimentos de todos os experimentadores.172 Firmaram sua identidade, por meio de assinaturas autênticas; pela narração de fatos que só eles podiam conhecer; por predições que minuciosamente se cumpriram. Numa palavra: provaram cientificamente a imortalidade.

Foi certamente a mais importante e a mais fecunda descoberta do século XIX. Chegar a conhecimentos positivos sobre o amanhã da morte é revolucionar a humanidade inteira, dando à moral uma base científica e uma sanção natural, à revelia de todo e qualquer credo dogmático e arbitrário.

Sem dúvida, mesmo quando essas consoladoras certezas hajam penetrado as massas humanas, a humanidade não se achará só por isso bruscamente mudada, nem se tornará melhor subitamente; disporá, todavia, da mais forte alavanca que possa existir para derribar o montão de erros acumulados desde há seis mil anos. Seus instrutores poderão falar com autoridade dos deveres que correm a todo aquele que vem a este mundo. Exporão aos olhos dos mais recalcitrantes os destinos que os aguardam, e a vida futura, na qual a maioria já não crê, se tornará tão evidente quanto a claridade do Sol. Compreender-se-á então que a morada terrestre não é mais do que um degrau nos destinos do homem; que alguma coisa de mais útil há do que a satisfação dos apetites materiais e que cada um terá que conseguir, a todo custo, refrear suas paixões e domar seus vícios. Esses os benefícios indubitáveis que o Espiritismo traz consigo.

Bendita e emancipadora doutrina! Que as tuas irradiações se estendam rapidamente por toda a Terra, a fim de levarem a certeza aos que duvidam, de abrandarem as dores dos corações dilacerados pela partida de seres amados com ternura e de darem aos que lutam com as asperezas da vida a coragem de superar as duras necessidades deste mundo ainda tão bárbaro.




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