Gabriel Delanne a alma e Imortal


Capítulo V O corpo fluídico depois da morte



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Capítulo V
O corpo fluídico depois da morte


O perispírito descrito em 1804. – Impressões produzidas pelas aparições sobre os animais. – Aparição depois da morte. – Aparição do Espírito de um índio. – Aparição a uma criança e a uma sua tia. – Aparição coletiva de três Espíritos. – Aparição coletiva de um morto. – Algumas reflexões.

O perispírito descrito em 1804


Sob o título: Aparição real de minha mulher depois de morta – Chemnitz, 1804 –, o Dr. Wœtzel publicou um livro que causou grande sensação nos primeiros anos do século dezenove. Em muitos escritos foi ele atacado. Wieland, sobretudo, o meteu a ridículo na Enthauesia.106

Wœtzel pedira à sua mulher, quando enferma, que, se viesse a morrer, lhe aparecesse. Ela prometeu; porém, mais tarde, a pedido seu, o doutor a desobrigou do prometido. Todavia, algumas semanas depois de ter ela morrido, sentiu ele no quarto, que se achava fechado, uma forte rajada de vento, que quase lhe apagou a luz e abriu uma janelazinha do aposento. À branda claridade reinante, Wœtzel viu a forma de sua esposa, que lhe disse com voz meiga: “Carlos, sou imortal; um dia tornaremos a ver-nos.” A aparição e essas palavras se repetiram segunda vez, mostrando-se vestida de branco a morta e com o aspecto que tinha antes de morrer. Um cão, que da primeira vez não dera sinal de perceber coisa alguma, da segunda se pôs a farejar e a descrever um círculo, como se o fizesse em torno de alguma pessoa sua conhecida.

Noutra obra sobre o mesmo assunto (Leipzig, 1805), o autor fala de solicitações que lhe foram feitas no sentido de desmentir toda aquela história – “porque, do contrário, muitos sábios serão forçados a repudiar o que, até então, tinham tido como opiniões verdadeiras e justas e a superstição encontraria naquilo farto alimento”. Ele, porém, já pedira ao conselho da Universidade de Leipzig que lhe permitisse formular sobre o caso um juramento judiciário. O Dr. Wœtzel desenvolveu assim a sua teoria: “Depois da morte, a alma ficaria envolta num corpo etéreo, luminoso, por meio do qual poderia tornar-se visível, podendo também pôr outras vestes em cima desse invólucro luminoso. A aparição não atuara, com relação a ele, sobre o seu sentido interior, mas, unicamente, sobre o seu sentido exterior.”

Temos, nesta observação, uma prova da objetividade da aparição, por haver ela visto e reconhecido o cão. Indubitavelmente, uma imagem subjetiva, isto é, existente no cérebro do sábio, não houvera podido exercer aquela influência sobre um animal doméstico.


Impressões produzidas pelas aparições sobre os animais


No que escreveu sobre a vidente de Prévorst, Justinus Kerner alude a uma aparição que ela teve durante um ano inteiro. De cada vez que o Espírito lhe aparecia, um galgo negro, que havia na casa, como que lhe sentia a presença. Logo que a aparição se tornava perceptível à vidente, o cão corria para junto de alguém, como a pedir proteção, muitas vezes uivando forte. Desde o dia em que viu o vulto, nunca mais quis ficar só durante a noite.

No terrível episódio de casa mal-assombrada, que a Sra. S. C. Hall narrou a Robert Dale Owen,107 se vê que foi impossível fazer-se que um cão permanecesse, nem de dia, nem de noite, no aposento onde as manifestações se produziam. Pouco tempo depois destas começarem, ele fugiu e não mais o encontraram.

John Wesley, fundador da seita que lhe tomou o nome, deu publicidade aos ruídos que se ouviam no curato de Epworth. Depois de descrever esses sons estranhos, semelhantes aos que produziriam objetos de ferro ou de vidro caindo ao chão, acrescenta ele:

“Pouco mais tarde, o nosso grande mastim correu a refugiar-se entre minha mulher e eu. Enquanto duraram os ruídos, ele ladrava e pulava de um lado para outro, abocanhando o ar e isso, as mais das vezes, antes que alguém, no aposento, houvesse escutado coisa alguma. Ao cabo de três dias, tremia e se esgueirava rastejando, antes que começassem os ruídos. Era, para a família, o sinal de que estes iam principiar, sinal que nunca falhou.”

Fazemos a respeito algumas observações, tomando-as ao ilustre naturalista Sir Alfred Russel Wallace.108

É sem dúvida notável e digna de atenção essa série de casos em que se puderam observar as impressões que os fantasmas produzem nos animais. Fatos tais certamente não se dariam, se fossem verdadeiras as teorias da alucinação e da telepatia. Eles, no entanto, merecem fé, porque quase sempre entram nas narrativas como episódios inesperados. Além disso, são anotados a fim de que não passem despercebidos, o que prova que os observadores conservavam o seu sangue-frio.

Mostram, irrefutavelmente, que grande número de fantasmas, percebidos pela visão ou pela audição, ainda quando seja uma única a pessoa que os perceba, constituem realidades objetivas. O terror que manifestam os animais que os percebem e a atitude que assumem, tão diferente da que guardam em presença dos fenômenos naturais, estabelecem, de modo não menos claro, que, embora objetivos, não são normais os fenômenos e não podem ser explicados por qualquer embuste, ou por eventualidades naturais mal interpretadas.

Continuaremos agora o estudo das aparições que se produzem após a morte. Salientaremos as semelhanças que existem entre essas aparições e as dos vivos e veremos que umas e outras apresentam clara analogia de caracteres, que implica a das causas. Se bem nos pareça pouco possível imaginar-se, para os casos precedentes, qualquer ação, ainda desconhecida, de um cérebro humano sobre outro cérebro humano, de maneira a alucinar completamente, impossível será, com as teorias materialistas, supor essa ação exercitada por um morto. Todavia, desde que os fatos são idênticos, ter-se-á que admitir, como causa verdadeira, a alma, quer habite a Terra, quer haja deixado este mundo.

É exato que os incrédulos são muito hábeis em forjar teorias, quando topam com fenômenos embaraçosos, cuja realidade não possam negar. Daí vem o terem estendido aos mortos a hipótese da telepatia, pretendendo que a ação telepática de um moribundo pode penetrar inconscientemente no espírito do paciente, de modo que a alucinação se dê muito tempo depois da morte daquele que a originou.

Apóia-se esta suposição nas experiências de sugestões em longo prazo. É sabido que se pode conseguir que pacientes muito sensíveis pratiquem atos bastante complicados, alguns dias e até alguns meses mais tarde. Despertado, o paciente nenhuma consciência tem da ordem adormecida no seu íntimo; mas, em chegando o dia determinado, executa fielmente a sugestão.

Se, pois, o pensamento de um morto é violentamente levado a um de seus parentes, pode este guardá-lo inconscientemente e, quando a alucinação se produzir, já não haverá uma aparição, mas apenas a realização de uma sugestão. É muito engenhoso este modo de conceber as coisas, porém, muito longe de explicar todos os fatos de aparição de mortos. Em primeiro lugar, a analogia entre a visão de um morto e uma sugestão retardada é absolutamente falsa, porquanto o agente – na maioria dos casos – não cogita de ordenar ao paciente que o veja mais tarde. Em segundo lugar, se, como nas aparições de vivos, há fenômenos físicos produzidos pela aparição, evidente se torna que não é uma imagem mental quem as executa: preciso se faz seja o ser desencarnado, o que demonstra a sua sobrevivência. Teremos adiante ocasião de mostrar quanto essas explicações, pretensamente científicas, costumam ser falsas e quão incompletas são sempre.

Voltemos aos casos referidos nos Phantasms of the Living.

Aqui temos um em que a aparição se produz pouco tempo após o trespasse. A narrativa é da Sra. Stella Chieri, Itália:109

Aparição depois da morte


“18 de janeiro de 1884.

Contando eu mais ou menos quinze anos, fui passar algum tempo com o Dr. J. G., em Twyford, Hants, e lá me afeiçoei a um primo do doutor, rapaz de 17 anos. Tornamo-nos inseparáveis, juntos passeávamos de bote, juntos andávamos a cavalo, de todas as diversões participávamos, como irmãos.

Porque fosse de saúde muito delicada, eu cuidava dele, vigiando-o constantemente, de sorte que nunca passávamos, sequer, uma hora, longe um do outro.

Desço a estes pormenores todos para lhe mostrar que não havia o menor vestígio de paixão entre nós. Éramos, um para o outro, como dois rapazes.

Certa noite, vieram chamar o Sr. G..., para ver o primo que caíra de súbito gravemente enfermo de uma inflamação dos pulmões. Ninguém nada me dissera da gravidade da doença; eu, portanto, ignorava que o rapaz corria perigo de vida e, por isso, não me inquietava a seu respeito. A noite, ele morreu. O Sr. G... e sua irmã foram à casa de uma tia, deixando-me sozinha no salão de visitas. Ardia no fogão um fogo vivo e eu, como muitas moças, gostava de estar junto da lareira, para ler à claridade das chamas. Não sabendo que o meu amigo estava mal, conservava-me tranqüila, apenas um pouco aborrecida por não poder ele passar a noite ao meu lado, tão só me sentia.

Estava eu lendo calmamente, quando a porta se abriu e Bertie (o meu companheiro) entrou. Levantei-me bruscamente, a fim de aproximar do fogo uma poltrona para ele, pois me parecia estar com frio e não trazia capote, se bem na ocasião nevasse. Pus-me a repreendê-lo por haver saído sem se agasalhar bastante. Em vez de responder, ele colocou a mão no peito e abanou a cabeça, o que, a meu ver, queria significar que não sentia frio, que sofria do peito e perdera a voz, coisa que de vez em quando acontecia. Censurei-lhe ainda mais a imprudência. Estava a falar, quando o Sr. G... entrou e me perguntou a quem me estava dirigindo. Respondi: “A este insuportável rapaz, que sai sem capote, com um resfriado tão sério, a ponto de não poder falar. Empreste-lhe o seu capote e mande-o para casa.”

Jamais esquecerei o horror e o espanto que se pintaram no semblante do doutor, porquanto sabia (o que eu ignorava) que o pobre rapaz morrera, havia uma meia hora, e vinha precisamente dar-me essa notícia. A sua primeira impressão foi a de que já eu a recebera e de que isso me ocasionara a perda da razão. Fiquei sem compreender por que me obrigou a sair do salão, falando-me como se o fizesse a uma criancinha. Durante alguns momentos trocamos observações incoerentes, explicando-me ele, depois, que eu tivera uma ilusão de óptica. Não negou que eu houvesse visto Bertie com meus próprios olhos; mas, apresentou-me uma explicação muito científica dessa visão, temendo que me assustasse ou ficasse debaixo de uma impressão aflitiva.

Até ao presente, não falei a quem quer que fosse desse acontecimento, em primeiro lugar porque encerra para mim uma triste recordação e, também, porque temia me tomassem por espírito quimérico e não me acreditassem. Minha mãe, essa me disse que fora um sonho. Entretanto, o livro que eu lia na ocasião, intitulado O Sr. Verdant Green, não é dos que fazem dormir e recordo-me bem de que muito me ria de alguns disparates do herói, no instante mesmo em que a porta se abriu.”

Às diversas perguntas que lhe dirigiram os investigadores, a Sra. Stella respondeu:

“A casa do rapaz ficava mais ou menos a um quarto de hora de marcha da do Sr. G... E Bertie morreu cerca de vinte minutos antes que o doutor lhe deixasse a casa. Quando o Sr. G... entrou, havia perto de cinco minutos que a aparição estava na sala. O que sempre me pareceu muito singular é que eu tenha ouvido o ruído da maçaneta a girar e da porta a se abrir. Com efeito, foi o primeiro desses ruídos que me fez levantar do livro os olhos. A aparição caminhou, atravessando a sala, em direção à lareira e se sentou, enquanto eu acendia as velas. Tudo se passou de modo tão real e natural, que mal posso agora admitir que não fosse uma realidade.”

Esta última observação mostra que a moça se achava em seu estado habitual. Ria, lendo um livro alegre e de modo nenhum se encontrava predisposta a uma alucinação. O Espírito de Bertie, que apenas acabara de abandonar o seu corpo, entra na sala, fazendo girar a maçaneta da porta. O ruído é tão real, que a faz levantar a cabeça. Se se tratasse de uma alucinação, quem a teria produzido?

Já vimos que a mãe de Helena 110 – fantasma de vivo – abriu uma porta; assistimos aqui ao mesmo fenômeno produzido por Bertie, no estado de Espírito. A alma do rapaz não é visível para o doutor – tal qual como o duplo de Frederico 111 para o amigo de Goethe – mas atua telepaticamente sobre Stella e objetivamente sobre a matéria da porta.

“Começamos a aperceber-nos – diz F. H. Myers, um dos autores dos Phantasms –, quão intimamente ligadas se acham as nossas experiências de telepatia entre vivos à telepatia entre os vivos e os mortos. Ninguém, todavia, quer com estas ocupar-se, por medo da pecha de misticismo.”

A aparição se assemelhava tanto a Bertie quando vivo, que a moça lhe fala, o repreende por ter saído sem capote. Numa palavra: persuade-se de que ele lá está, pois que caminhou desde a porta até a poltrona em que se sentou.

Se o fenômeno se houvera produzido alguns minutos antes da morte de Bertie, em vez de se produzir depois, entraria na classe dos acima estudados. Aqui, porém, o corpo está sem vida, só a alma se manifesta, sem que, no entanto, qualquer mudança se haja operado nas circunstâncias exteriores pelas quais ela atesta a sua presença. Os traços fisionômicos são idênticos aos do corpo material. O talhe, o andar, tudo lembra o ser vivo.

Citemos outro caso, no qual o Espírito que se manifesta imprime ao seu perispírito tangibilidade bastante para poder pronunciar algumas palavras, se bem já não pertencesse ao número dos vivos.112


Aparição do Espírito de um índio


A Sra. Bishop, Bird em solteira, escritora muito conhecida, mandou-nos, em março de 1884, esta narrativa, quase idêntica a outra, de segunda mão, que nos fora remetida em março de 1883. Excursionando pelas Montanhas Rochosas, travou ela relações com um índio mestiço, chamado Nugent, porém, conhecido pelo nome de “Mountain Jim”, e sobre o qual adquirira considerável influência.

“No dia, diz a narradora, em que dele me despedi, Mountain Jim estava muito comovido e muito excitado. Tivéramos uma longa palestra sobre a vida mortal e a imortalidade, palestra a que eu pusera fim proferindo algumas palavras da Bíblia. Muito impressionado, mas também muito exaltado, ele exclamara: “Não tornarei talvez a vê-la nesta vida; vê-la-ei, porém, quando eu morrer.” Repreendi-o brandamente, pela sua violência, ao que ele retrucou, repetindo, com mais energia ainda, a mesma coisa e acrescentando: “Nunca esquecerei as palavras que a senhora acaba de me dirigir e juro que tornarei a vê-la, quando eu morrer.” Dito isso, separamo-nos.

Durante algum tempo, tive notícias dele. Fui sabedora de que se conduzira mal, pois retomara seus costumes selvagens, e mais tarde vim a saber que se achava muito doente, em conseqüência de ferimentos que recebera numa rixa; depois, que estava melhor, mas que formava projetos de vingança. Da última vez que me chegaram notícias suas, eu me achava no Hotel Interlaken, em Interlaken, na Suíça, em companhia da Srta. Clayson e da família Ker. Algum tempo depois de as ter recebido (fora em setembro de 1874), estava recostada na cama a escrever uma carta para minha irmã, quando, erguendo os olhos, vi Mountain Jim em pé diante de mim. Fitava-me e, quando lhe dirigi o olhar, disse-me em voz baixa, mas muito distintamente: “Vim, como prometi.” Em seguida, fez um sinal com a mão e disse: “Adeus!”

Quando a Srta. Bessie Ker me veio trazer o almoço, tomamos nota do acontecido, da data e da hora. Mais tarde, chegou-nos a notícia da morte de Mountain Jim e verificamos que, levada em conta a diferença das longitudes, a data coincidia com a da sua aparição.”

Esta, na realidade, segundo os autores, se dera oito horas depois da morte, ou catorze horas, se ocorreu no dia seguinte ao indicado pela Sra. Bishop.

Comprova-se invariavelmente que a distância não constitui obstáculo ao deslocamento do Espírito, pois que ele pôde manifestar a sua presença na Europa muito pouco tempo após sua morte na América. As observações precedentemente feitas aplicam-se aqui ao aspecto exterior do Espírito. Julgamos, entretanto, que a materialização, neste caso, foi mais completa do que no último citado, porquanto ele dirigiu um adeus à vidente, o que nos reconduz ao caso em que o fantasma de vivo igualmente pronuncia algumas palavras. Esta observação firma que também o Espírito dispõe de um órgão para produzir sons articulados e de uma força para acioná-lo. Veremos, dentro em pouco, que no perispírito não existe apenas o laringe, mas todos os órgãos do corpo material. O que, acima de tudo, nos importava assinalar é a notável uniformidade que se observa na maneira de agir dos fantasmas, quer se trate de um desdobramento, quer da materialização temporária de um habitante do espaço.

Mencionemos, por fim, mais um caso em que o mesmo Espírito se manifesta, com pequeníssimo intervalo, a duas pessoas.

Aparição a um menino e a uma sua tia


Sra. Cox, Summer Hill, Queenstown, Irlanda.113

“Na noite de 21 de agosto de 1869, entre oito e nove horas, estava eu, sentada, no meu quarto de dormir, em casa de minha mãe, em Devonport. Meu sobrinho, um menino de sete anos, estava deitado no quarto ao lado. Tive de repente a surpresa de vê-lo entrar correndo no meu aposento e a gritar aterrorizado: “Tia! Acabo de ver meu pai andando à volta da minha cama!” Observei-lhe: “Que tolice! estavas a sonhar!” Ele: “Não, não sonhei.” E não quis voltar para o seu quarto. Vendo que não conseguia persuadi-lo a que voltasse, acomodei-o na minha cama. Entre dez e onze horas também eu me deitei.

Cerca de uma hora depois, creio, dirigindo o olhar para o lado da lareira, vi distintamente, com grande espanto, a forma de meu irmão, sentado numa poltrona, sendo que sobremaneira logo me impressionou a palidez mortal do seu semblante. (Nesse momento, meu sobrinho dormia a sono solto.) Fiquei tão aterrada (sabia que naquela ocasião meu irmão se achava em Hong Kong), que cobri a cabeça com o lençol. Pouco depois, ouvi-lhe nitidamente a voz, chamando-me pelo meu nome, que foi repetido três vezes. Quando de novo olhei para o lugar onde o vira, ele havia desaparecido. No dia seguinte, narrei o fato à minha mãe e à minha irmã e disse que tomaria nota de tudo e assim fiz. Pela primeira mala chegada da China, veio-me a triste notícia da morte súbita de meu irmão, ocorrida a 21 de agosto de 1869, na baía de Hong Kong, em conseqüência de um ataque de insolação.

Minnie Cox.

Segundo informações complementares, a data da morte precedeu de algumas horas a aparição.

É impossível admitir-se aqui a alucinação, porquanto o mesmo Espírito se faz visível a uma criança e a uma mulher que não estavam juntos. Cada uma dessas pessoas reconhece a aparição e, com a segunda, para atestar a sua identidade, o irmão chama pela irmã três vezes seguidas. A alma fazia empenho, evidentemente, em assinalar de modo positivo a sua presença, donde devemos legitimamente induzir que ela se achava materializada. A irmã olhou tão atentamente para o irmão, que lhe notou a palidez extrema do rosto. Afastemos, portanto, neste caso, qualquer outra interpretação diferente da que atribui à alma desencarnada o poder de mostrar a sua sobrevivência.

Encerremos a série dos casos que fomos pedir à Sociedade de Pesquisas Psíquicas com dois tão probantes, que tornam supérfluos quaisquer comentários.

Aparição coletiva de três Espíritos


“19 de maio de 1883.

Srta. Catarina, Sr. Weld.114

Filipe Weld era o filho mais moço do Sr. James Weld, de Archers Lodge, perto de Southampton, e sobrinho do falecido cardeal Weld. Em 1842, seu pai o mandou para o colégio Saint-Edmond, próximo de Ware, no Hertfordshire, para fazer seus estudos. Rapaz de boas maneiras e amável, fez-se muito estimado de seus mestres e camaradas. Na tarde de 16 de abril, Filipe, acompanhado de um de seus mestres e de alguns companheiros, foi passear de canoa pelo rio. Era esse um exercício de que gostava muito. Quando o mestre avisou que estava na hora de regressar ao colégio, Filipe pediu licença para mais uma corrida. O mestre consentiu e os rapazes rumaram até ao ponto onde faziam a virada. Chegados aí, Filipe, manobrando o barco para dar a volta, caiu acidentalmente no rio e afogou-se, apesar de todos os esforços empregados para salvá-lo.

Transportaram-lhe o corpo para o colégio e o Reverendíssimo Dr. Cox, o diretor, ficou profundamente contristado e aflito. Resolveu ir em pessoa à casa do Sr. Weld, em Southampton.

Partiu naquela mesma tarde e, passando por Londres, chegou a Southampton no dia seguinte. Foi de carro a Archers Lodge, residência do Sr. Weld e, antes de entrar, viu o Sr. Weld a pequena distância do portão, dirigindo-se para a cidade. O Dr. Cox fez parar o carro, desceu e encaminhou-se para o Sr. Weld. Ao aproximar-se, disse-lhe este, impedindo-o de falar: “Não precisa dizer coisa alguma, pois já sei que Filipe morreu. Ontem à tarde, estando a passear com minha filha Catarina, ambos de repente o vimos. Estava na alameda, do outro lado da estrada, entre duas pessoas, sendo uma delas um moço vestido de preto. Minha filha foi a primeira a percebê-lo e exclamou: “Papai, já viste alguém tão parecido com o Filipe como aquele rapaz?” – “Como ele, não, respondi, pois que é ele próprio!” Coisa singular: minha filha nenhuma importância ligou a esse episódio. Para ela, apenas víramos alguém que se parecia extraordinariamente com seu irmão. Encaminhamo-nos para aquelas três formas. Filipe olhava sorridente e com uma expressão de ventura para o mancebo vestido de preto, que era mais baixo do que ele. De repente, como que se desvaneceram às minhas vistas e nada mais vi, senão um camponês que antes eu divisara através daquelas três formas, o que me levou a pensar que eram Espíritos. Contudo, a ninguém falei, temendo afligir minha mulher. Aguardei ansioso o correio do dia seguinte. Com grande satisfação para mim, nenhuma carta recebi. Esquecera-me de que as cartas de Ware só chegavam à tarde e os meus receios se acalmaram. Não mais pensei naquele acontecimento extraordinário, até ao momento em que o vi de carro perto do meu portão. Tudo então reviveu em meu espírito e logo compreendi que me vinha anunciar a morte do meu querido rapaz.”

Imagine o leitor o inexprimível espanto do Dr. Cox ao ouvir essas palavras. Perguntou ao Sr. Weld se já vira alguma vez o rapaz trajado de preto para o qual Filipe olhava com um sorriso de grande satisfação. O Sr. Weld respondeu que jamais o vira, porém, que tão nitidamente os traços do seu semblante se lhe haviam gravado no espírito, que estava certo de o reconhecer imediatamente, assim o encontrasse. Narrou então o Dr. Cox ao amargurado pai todas as circunstâncias em que se dera a morte de seu filho, ocorrida precisamente à hora em que aparecera à sua irmã e ao seu genitor. O Sr. Weld foi ao enterro do filho e, ao deixar a igreja, após a triste cerimônia, olhou em torno de si para ver se algum dos religiosos se parecia com o moço que vira ao lado de Filipe, mas em nenhum descobriu a menor semelhança com a figura que lhe aparecera.

Cerca de quatro meses mais tarde partiu em visita a seu irmão, Sr. Jorge Weld, em Seagram Hall, no Lancashire, levando consigo toda a família. Certo dia, indo com sua filha Catarina, a passeio na aldeia vizinha de Chikping, depois de assistir a um ofício religioso na igreja, foi à casa do sacerdote visitá-lo. Enquanto esperavam que o padre aparecesse, os dois visitantes se entretiveram a examinar as gravuras dependuradas nas paredes da sala. Súbito, o Dr. Weld se deteve diante de um retrato (não se podia ler o nome escrito embaixo, porque a moldura o encobria) e exclamou: “É a pessoa que vi com Filipe; não sei de quem é este retrato, mas, tenho a certeza de que foi esta a pessoa que vi com Filipe.” Passados alguns instantes, entrou o sacerdote e o Sr. Weld imediatamente o interpelou com respeito à gravura. Respondeu ele que esta representava Santo Estanislau Kostka e que considerava aquele um bom retrato do jovem santo.

O Sr. Weld se tornou presa de grande emoção. Santo Estanislau fora um jesuíta que morrera muito moço. Tendo sido o pai do Sr. Weld grande benfeitor daquela ordem, sua família era considerada sob a proteção especial dos santos jesuítas. Ao demais, Filipe, havia pouco, se tomara, em conseqüência de circunstâncias diversas, de particular devoção a Santo Estanislau. Além disso, este santo é tido como o padroeiro dos afogados, conforme consta da história de sua vida. O reverendo logo ofereceu o retrato ao Sr. Weld que, naturalmente, o recebeu com a maior veneração e o conservou até à morte, passando, depois de ocorrida esta, à sua filha (a narradora), que vira a aparição ao mesmo tempo em que seu pai e que ainda o guarda consigo.”

São típicas as circunstâncias deste relato. Não só o filho se apresenta a seu pai sob uma forma que, embora transparente, permite que aquele o reconheça perfeitamente, como também um de seus companheiros apresenta fisionomia tão característica, que o Sr. Weld pôde reconhecê-lo num retrato, depois de passados quatro meses. Sua filha igualmente o reconhece, o que exclui toda idéia de alucinação. Aliás, o fato de o Sr. Weld, antes da manifestação, não ter conhecido a imagem de Santo Estanislau mostra bem que ele não pode ter sido vítima de uma ilusão.

Eis agora um último caso em que a aparição é reconhecida por todas as pessoas da casa.


Aparição coletiva de um morto


Sr. Charles A. W. Lett, do Real Clube Militar e Naval, rua Albermale, Londres.115

“3 de dezembro de 1885.

A 5 de abril de 1873, o pai de minha mulher morreu na sua residência, em Cambrook, Rosebay, perto de Sydney. Umas seis semanas depois de sua morte, certa noite, pelas nove horas, minha mulher entrou acidentalmente num dos quartos de dormir da casa. Acompanhava-a uma jovem, a Srta. Berton. Ao entrarem no quarto – achava-se aceso o bico de gás – tiveram ambas a surpresa de dar com a imagem do capitão Towns, refletida na superfície polida do armário. Viam-se-lhe a metade do corpo, a cabeça, as espáduas e os braços. Dir-se-ia um retrato em tamanho natural. Tinha pálido e magro o rosto, como ao morrer. Trazia uma jaqueta de flanela cinzenta, com que costumava dormir. Surpreendidas e meio apavoradas, supuseram, a princípio, ser um retrato que houvessem pendurado no quarto e cuja imagem viam refletida. Mas, não havia ali nenhum retrato daquele gênero.

Estando as duas ainda a olhar, entrou no quarto a irmã de minha mulher, Srta. Towns, e, antes que as outras lhe falassem, exclamou: “Meu Deus! olhem o papai.” Como na ocasião passasse pela escadaria uma das criadas de quarto, chamaram-na e lhe perguntaram se via alguma coisa. Ela respondeu: “Oh! Senhorita, o patrão!” Mandaram chamar Graham, ordenança do capitão Towns, o qual, assim que chegou ao quarto, foi exclamando: “Deus nos guarde! Senhorita Lett, é o capitão.” Chamaram também o mordomo e depois a Sra. Crane, ama de minha mulher, e ambos disseram o que viam. Finalmente, pediram à Sra. Towns que viesse. Ao deparar com a aparição, encaminhou-se para ela de braços estendidos, como para segurá-la; mas, ao passar a mão pela face do armário, a imagem começou a desaparecer pouco a pouco e nunca mais foi vista, embora o quarto continuasse ocupado.

Tais os fatos como se deram, sendo impossível duvidar deles. As testemunhas de nenhum modo foram influenciadas. A todas era feita a mesma pergunta, logo que chegavam ao quarto, e todas responderam sem hesitação. Eu, no momento, estava em casa, mas não ouvi chamarem-me.

C. A. W. Lett.

“As abaixo assinadas, depois de lerem a narrativa acima, certificam que está exata. Todas nós fomos testemunhas da aparição.

Sara Lett. – Sibbie Singth (Towns em solteira).”

Além dos casos citados, As Alucinações Telepáticas trazem sessenta e três outros análogos.

Tanto custa às verdades novas abrir caminho através da inextricável balseira das idéias preconcebidas, que a inevitável alucinação não deixou de ser invocada, para explicar os casos em que as aparições de Espíritos são vistas simultaneamente por muitas pessoas. Com a maior simplicidade imaginável, com espantosa desenvoltura, dizem os negadores que a alucinação, em vez de ser única, é coletiva. Em vão se lhes objeta que as testemunhas gozam de perfeita saúde e se acham no uso de todas as suas faculdades; que essas testemunhas, conquanto diversas, se referem a um mesmo objeto, descrito ou reconhecido identicamente por todos os observadores, o que constitui sinal certo da sua realidade: os incrédulos abanam a cabeça desdenhosamente e, fazendo garbo da sua ignorância, preferem atribuir o fato a um desarranjo momentâneo das faculdades mentais dos observadores, a uma ilusão que se apodera de todos os assistentes, antes que reconhecer lealmente a manifestação de uma inteligência desencarnada.

A negação, porém, para legitimar-se, precisa de limites, porquanto não lhe é possível manter-se, desde que seja posta em face das provas experimentais, que permanecem quais testemunhos autênticos da realidade das manifestações.

Notemos que, em todos os casos precedentemente referidos, a certeza da visão em si mesma não é contestada; o que os opositores negam é que seja objetiva, isto é, que se haja produzido algures, que não no cérebro do ou dos assistentes. Pretendem eles que os relatos das testemunhas não podem ter valor absoluto, dado que, a admitir-se uma coisa tão inverossímil como a aparição de um morto, ou a realidade de um fenômeno sobrenatural, mais vale se suponha, da parte dos vivos, uma aberração do espírito.

Mas, ainda aqui, os incrédulos desprezam um fato muito importante, pois, se há uma alucinação, não pode esta ser uma alucinação qualquer; tem que estar ligada a um acontecimento real e achar-se com este em íntima conexão. Não podem, conseguintemente, atribuir-se ao acaso ou a meras coincidências as visões telepáticas e, se demonstrarmos possível a provocação artificial de tais fenômenos, fica fora de dúvida que os que se produzem acidentalmente são devidos a uma lei natural ainda ignorada.

É precisamente o que vamos fazer no capitulo seguinte. Levando mesmo mais longe a experimentação, comprovaremos que certas aparições são tão reais, que se chega a fotografá-las. Desde então, nem sequer a sombra de uma dúvida poderá restar acerca da objetividade delas, tão obstinadamente contestada.


Segunda parte

A experiência

Capítulo I


Estudos experimentais sobre o
desprendimento da alma humana


O Espiritismo é uma ciência. – Aparição voluntária. – Vista a distância e aparição. – Fotografias dos duplos. – Efeitos produzidos por Espíritos de vivos. – Evocação do Espírito de pessoas vivas. – Espíritos de vivos manifestando-se pela mediunidade dita de incorporação. – Como pode o fenômeno produzir-se.

Uma ciência só se acha verdadeiramente constituída quando pode verificar, por meio da experiência, as hipóteses que os fatos lhe sugerem. O Espiritismo tem direito ao nome de ciência, porque não se há limitado à simples observação dos fenômenos naturais que revelam a existência da alma durante a encarnação terrena e depois da morte. Todos os processos empregou ele para chegar à demonstração de suas teorias e pode dizer-se que o magnetismo e a ciência pura lhe serviram de poderosos auxiliares para firmar a exatidão de seus ensinos.

Os numerosos exemplos registrados, do desdobramento da alma, mostraram que havia de ser possível a reprodução experimental de tais fenômenos. Grande número de pesquisas feitas nesse sentido e coroadas de êxito confirmaram essa possibilidade. Deu-se a denominação de animismo à ação extracorpórea da alma; mas, semelhante distinção é puramente nominal, pois que tais manifestações são sempre idênticas, quer durante a vida, quer após a morte.

Com efeito, a ação da alma, fora das limitações em que o corpo a encerra, não se traduz apenas por fenômenos de transmissão do pensamento ou de aparições; pode também assinalar-se por deslocamentos de objetos materiais, que lhe atestam a presença. Acham-se então os assistentes diante de fatos iguais aos que a alma desencarnada produz.

É esta uma observação da mais alta importância, mas a que não se tem dispensado bastante atenção. Se, verdadeiramente, o Espírito de um homem que vive na Terra, saindo momentaneamente do seu invólucro corpóreo, pode fazer que uma mesa se mova, de maneira a ditar uma comunicação por meio de um alfabeto convencional; se o Espírito de um encarnado é capaz de atuar sobre um médium escrevente, para lhe transmitir seus pensamentos; se, enfim, é possível se obtenha o molde da personalidade exteriorizada desse indivíduo, ocioso se torna atribuir esses mesmos fenômenos a outros fatores que não a almas desencarnadas, quando são observados nas manifestações espíritas, isto é, nas em que impossível se revela a intervenção de um ser vivo.

Segundo o método científico, desde que bem definidos ficam os efeitos de uma causa, basta depois se observem os mesmos efeitos, para haver a certeza de que a causa não mudou. Regra idêntica se deve aplicar no estudo dos fenômenos do Espiritismo. Pois que a alma humana tem o poder de agir fora do seu corpo, isto é, quando se acha no espaço, lógico é se admita que do mesmo poder dispõe ela depois da morte, se sobrevive integralmente e se se põe em comunicação com uns organismos vivos, análogos ao que possuía antes de morrer. Ora, sabemos, por testemunhos autênticos, que ela conserva um corpo real, mas fluídico; que nada perdeu de suas faculdades, pois que as exerce como outrora; logo, se os fatos observados de animismo são inteiramente semelhantes aos do Espiritismo, é que a causa é a mesma, ou seja, a alma em nós encarnada.

Essa relação de causa e efeito, que assinalamos nos casos de telepatia, vamos criá-la voluntariamente, de sorte a não ser mais possível atribuírem-se ao acaso, ou a coincidências fortuitas, os fenômenos que produzirmos. Numa palavra, procederemos experimentalmente, tendo em mira obter resultados previstos de antemão. Se as previsões se realizarem, é que são exatas as hipóteses segundo as quais as pesquisas se intentaram.

Vejamos, pois, as experiências que já não permitem dúvidas sobre a possibilidade de a alma sair do seu envoltório corporal. Elas são múltiplas e variadas, como mostraremos.

Voltemos, por um instante, aos Phantasms of the Living, a fim de extrairmos daí a narrativa seguinte, em que a manifestação é consecutiva à vontade de aparecer num lugar determinado.

Aparição voluntária


É interessante este caso,116 porque duas pessoas viram a aparição voluntária do agente. A narrativa foi copiada de um manuscrito do Sr. S. H. B., que o transcrevera de um diário em que ele próprio relatava os fatos que lhe sucediam cotidianamente.

“Certo domingo do mês de novembro de 1881, à noite, tendo acabado de ler um livro em que se falava do grande poder que a vontade humana é capaz de exercer, resolvi, com todas as minhas forças, aparecer no quarto de dormir situado na frente do segundo andar da casa de Hogarth Road, 22, Kensington. Nesse quarto dormiam duas pessoas de minhas relações: as Srtas. L. S. V. e C. E. V., de 25 e 11 anos de idade. Eu, na ocasião, residia em Kildare Gardens, 23, a uma distância de mais ou menos três milhas de Hogarth Road, e não falara a nenhuma das duas senhoritas da experiência que ia tentar, pela razão muito simples de que a idéia dessa experiência me viera naquela mesma noite de domingo, quando me ia deitar. Era meu intento aparecer-lhes à uma hora da madrugada e estava decidido a manifestar a minha presença.

Na quinta-feira seguinte fui visitar as duas jovens e, no curso da nossa palestra (sem que eu fizesse qualquer alusão à minha tentativa), a mais velha me relatou o seguinte episódio:

No domingo anterior, à noite, vira-me de pé junto de sua cama e ficara apavorada. Quando a aparição se encaminhou para ela, gritou e despertou a irmãzinha, que também me viu.

Perguntei-lhe se estava bem acordada no momento e ela me afirmou categoricamente que sim. Perguntando-lhe a que horas se passara o fato, respondeu que por volta de uma hora da manhã.

A meu pedido, escreveu um relato do ocorrido e o assinou.

Era a primeira vez que eu tentava uma experiência desse gênero e muito me impressionou o seu pleno e completo êxito.

Não me limitara apenas a um poderoso esforço de vontade; fizera outro, de natureza especial, que não sei descrever. Tinha a impressão de que uma influência misteriosa me circulava pelo corpo e também a de que empregava uma força que até então me fora desconhecida, mas que, agora, posso acionar, em certos momentos, a meu bel-prazer.

S. H. B.

Acrescenta o Sr. B...:

“Lembro-me de haver escrito a nota que figura no meu diário, quase uma semana depois do acontecido, quando ainda conservava muito fresca a lembrança do fato.”

A Srta. Vérity narra assim o episódio:

“Há quase um ano, um domingo à noite, em nossa casa de Hogarth Road, Kensington, vi distintamente o Sr. B... em meu quarto, por volta de uma hora da madrugada. Achava-me inteiramente acordada e fiquei aterrada. Meus gritos despertaram minha irmã, que também viu a aparição. Três dias depois, encontrando-me com o Sr. B..., referi-lhe o que se passara. Só ao cabo de algum tempo, recobrei-me do susto que tive e conservo tão viva a lembrança da ocorrência, que ela não poderá apagar-se da minha mente.

L. S. Vérity.

Respondendo a perguntas nossas, disse a Senhorita Vérity:

“Eu nunca tivera nenhuma alucinação.”

São características muitas circunstâncias desta narrativa e nos vão facilitar emitamos a nossa opinião.

Primeiramente, convém notar que a Srta. Vérity não é um paciente magnético, que nunca teve alucinações e que goza de saúde normal. A aparição se lhe apresenta com todos os caracteres da realidade. Ela se persuade tanto da presença física do Sr. B... no seu quarto, que solta um grito, quando o vê encaminhar-se para o seu leito. Verifica, portanto, que o fantasma se desloca com relação aos objetos circunjacentes, o que não se daria, se fosse interior a visão. Sua irmã desperta e também vê a aparição.

Ainda quando se suponha, o que já é difícil, dadas as circunstâncias, uma alucinação da Srta. Vérity, inteiramente improvável é que sua irmãzinha, ao despertar, também fosse presa imediatamente de uma ilusão. Na vida ordinária, não basta se diga a alguém: aqui está o Sr. tal, para que instantaneamente uma alucinação se produza. Logo, pois que a imagem do Sr. B... se desloca, que é percebida simultaneamente pelas duas irmãs, evidencia-se que ela tem uma existência objetiva, que se acha realmente no quarto.

Que conseqüências tirar dessa presença efetiva?

Posta de lado a alucinação como causa do fenômeno, temos de admitir que o Sr. B... desdobrou-se, isto é, que, conservando-se o seu corpo físico onde estava, sua alma se transportou ao aposento de Hogarth Road e pôde materializar-se bastante para dar às duas moças a impressão de que era ele em pessoa quem lá estava. Notaremos que nesse estado a alma reproduz identicamente a fisionomia, o talhe, os contornos do ser vivo. Ao demais, a distância que separa o corpo do seu princípio inteligente parece que em nada influi sobre o fenômeno. Notaremos também que essas observações são gerais e se aplicam a todos os casos espontâneos já observados.

O agente, no caso em apreço, pôde desdobrar-se voluntariamente. No caso que se segue, vamos ver que ele teve necessidade do auxílio de outrem, para chegar ao mesmo resultado.


Efeitos físicos produzidos por Espíritos de vivos


Nesta outra experiência o duplo logrou provar a sua presença por uma ação física. Devemo-la à Sra. de Morgan, esposa do professor que escreveu o livro: From matter to spirit (Da matéria ao Espírito).117

Ela tivera ocasião de tratar de urna moça por meio do magnetismo e muitas vezes se aproveitara da sua faculdade de clarividência para fazê-la ir, em Espírito, a diferentes lugares. Um dia, quis que a paciente se transportasse à casa que ela, Sra. Morgan, habitava. “Bem, disse a moça, aqui estou e bati com força à porta.” No dia seguinte, a Sra. Morgan se informou do que se passara em sua casa naquele momento. Responderam-lhe: “Um bando de meninos endiabrados veio bater à porta e em seguida fugiu.”

Noutro caso, o Espírito vivo que produziu a manifestação veio por causa de um dos assistentes. A narração fê-la o engenheiro Sr. Desmond Fitzgerald.118 Conta ele que um negro chamado H. E. Lewis possuía grande força magnética, da qual dava demonstração em reuniões públicas. Em Blackheath, no mês de fevereiro de 1856, numa dessas sessões, magnetizou uma moça a quem jamais vira. Depois de mergulhá-la em profundo sono, determinou-lhe que fosse à sua própria casa e revelasse ao público o que visse lá. Referiu ela então que via a cozinha, que aí se achavam duas pessoas ocupadas em misteres domésticos.

Ordenou-lhe então Lewis que tocasse numa dessas pessoas. A moça se pôs a rir e disse: “Toquei-a. Como ficaram aterradas as duas!” Dirigindo-se ao público, Lewis perguntou se algum dos presentes conhecia a moça. Como alguém lhe respondeu afirmativamente, propôs que uma comissão fosse à casa da paciente. Diversas pessoas para lá se dirigiram e, ao regressarem, confirmaram em todos os pontos o que, adormecida, a moça dissera. Toda a gente da casa estava atarantada e em profunda excitação, porque uma das pessoas que se achava na cozinha declarara ter visto um fantasma e que este lhe tocara no ombro.

Pode-se colocar em paralelo com esta observação a do Dr. Kerner, em que o duplo da sonâmbula Susana B... apareceu ao Dr. Rufi e lhe apagou a vela.

Temos também um caso de batimentos, em completa analogia com os que os Espíritos produzem.119

Uma Sra. Lauriston, de Londres, tem uma irmã residente em Southampton. Certa noite, estando esta última a trabalhar em seu quarto, ouviu três pancadas na porta. “Entre”, disse ela. Ninguém, todavia, entrou. Como, porém, as pancadas se repetissem, ela se levantou e abriu a porta. Não havia pessoa alguma. A Sra. Lauriston, que estivera gravemente enferma, voltando a si, referiu que, tomada do ardente desejo de rever a irmã antes de morrer, sonhara que fora a Southampton, que batera à porta do quarto da irmã e que, depois de bater segunda vez, sua irmã se apresentara à porta, mas que a impossibilidade em que ela, visitante, se achara para falar à outra a emocionara tanto, que a fez voltar a si.

Precisaríamos de muito maior espaço do que o de que podemos dispor, para citar os numerosos testemunhos existentes com respeito às ações físicas exercidas pelas almas dos moribundos, com o intuito de se fazerem lembradas de parentes ou amigos distantes. A tal propósito, podem consultar-se as obras de Perty: Ação dos moribundos a distância e O Moderno Espiritualismo. Os Proceedings da Sociedade de Pesquisas e os Phantasms of the Living relatam uma imensidade deles. Não insistiremos, pois, sobre esses fenômenos, fora que estão, absolutamente, de toda dúvida.120


Fotografias de duplos


Os fatos que até aqui temos relatado firmam a realidade dos fantasmas de vivos, isto é, a possibilidade, em certos casos, do desdobramento do ser humano. Tais aparições reproduzem, com todas as minúcias, o corpo físico e também às vezes manifestam a sua realidade por meio de deslocamentos de objetos materiais e por meio da palavra. Já expendemos as razões pelas quais a hipótese da alucinação telepática nem sempre é admissível e, se essas razões não convenceram a todos os leitores, esperamos que os fatos que seguem bastarão para mostrar, com verdadeiro rigor científico, que, na realidade, a alma é a causa eficiente de todos esses fenômenos.

As objeções todas caem por si mesmas, diante da fotografia do espírito fora do seu corpo. Neste caso, nenhuma ilusão mais é possível; a chapa fotográfica é testemunho irrefutável da realidade do fenômeno e será necessário uma prevenção muito enraizada para negar a existência do perispírito. Vamos citar diversos exemplas que tomamos ao Sr. Aksakof.121

O Sr. Humber, espiritualista muito conhecido, fotografou um jovem médium, Sr. Herrod, a dormir numa cadeira, em estado de transe, e no retrato via-se, por detrás do médium, a sua própria imagem astral, isto é, o seu perispírito, em pé, quase de perfil e com a cabeça um pouco inclinada para o paciente.

Outro caso de fotografia de um duplo atesta-o o juiz Carter, em carta de 31 de julho de 1875 à Banner of Light, transcrita em Human Nature de 1875, págs. 424 e 425.

Finalmente, o Sr. Glandinning, no Spiritualist, numero 234 (Londres, 15 de fevereiro de 1877, pág. 76), assinala terceiro caso de fotografia de duplo, o de um médium em lugar que este ocupara alguns minutos antes.

Veremos que o pensamento é uma força criadora e que, assim sendo, se poderia imaginar que tais fotografias resultam de um pensamento que o agente exteriorizou. A seguinte experiência, porém, estabelece que semelhante hipótese carece de base, pois que o duplo não é simples imagem, mas um ser que atua sobre a matéria.


O caso do Sr. Stead


O Borderland, de abril de 1876, pág. 175, traz um artigo de W. T. Stead sobre uma fotografia do Espírito de um vivo. Eis o resumo do relatado ali:

A Sra. A... é dotada da faculdade de se desdobrar e de apresentar-se a grande distância, com todos os atributos de sua personalidade. O Sr. Z... lhe propôs fotografar-lhe o duplo e combinou que ela se fecharia no seu quarto, entre 10 e 11 horas, e que se esforçaria por aparecer em casa dele, no seu gabinete de trabalho.

A tentativa abortou, ou, pelo menos, se o Sr. Z... sentiu a influência da Sra. A..., não se serviu do seu aparelho fotográfico, temendo nada obter. A Sra. A... concordou em repetir a experiência no dia seguinte e, como se achasse indisposta, deitou-se e dormiu. O Sr. Z... viu o duplo entrar-lhe no gabinete à hora aprazada e pediu licença para fotografá-lo, depois de lhe cortar uma mecha de cabelos para tornar-lhe indubitável a presença real. Batida a chapa e cortada a mecha, ele se meteu na câmara escura, para proceder à revelação do negativo.

Ainda não havia um minuto que para ali entrara, quando ouviu forte estalido, que o fez sair a verificar o que acontecera. Ao entrar no gabinete, encontrou sua mulher, que subira à pressa, por também haver escutado o estalido. O duplo desaparecera; mas, o quadro que servira de fundo durante a exposição da chapa fora arrancado do suporte, quebrado ao meio e atirado ao chão. A Sra. A..., que nesse momento se achava deitada em sua cama, não tinha, ao despertar, a menor idéia do que se passara.

A fotografia do seu duplo existe e o Sr. Stead possui o negativo. A lembrança do que sucedera durante o desprendimento apagou-se com a volta da paciente ao estado normal.

Outro caso agora, em que a lembrança permanece.


Outras fotografias de duplos


Em seu livro sobre a iconografia do invisível,122 o Dr. Baraduc, à pág. 122 (Explicações, XXIV bis), reproduz uma fotografia obtida por telepatia entre o Sr. Istrati e o Sr. Hasdeu, de Bucareste, diretor do ensino na Romênia. Eis aqui, textualmente, como foi ela conseguida:

“Indo o Dr. Istrati para Campana, convencionou com o Dr. Hasdeu que, numa data prefixada, apareceria numa chapa fotográfica do sábio romeno, a uma distância mais ou menos igual à que há entre Paris e Calais.

A 4 de agosto de 1893, o Dr. Hasdeu, ao deitar-se à noite, evoca o Espírito de seu amigo, com um aparelho fotográfico nos pés da cama e outro à cabeceira.

Após uma prece ao seu anjo protetor, o Dr. Istrati adormece em Campana, formando, com toda a força de sua vontade, o desejo de aparecer num dos aparelhos do Dr. Hasdeu. Ao despertar, exclama: “Tenho a certeza de que me apresentei ao aparelho do Sr. Hasdeu, como figurinha, pois sonhei isso muito distintamente.”

Escreve ao professor P... que, levando consigo a carta, encontra o Sr. Hasdeu em preparativos para revelar a chapa.

Copio textualmente a carta do Sr. Hasdeu ao Sr. de R... que ma transmitiu:

“Na chapa A, vêem-se três impressões, uma das quais, a que marquei no verso com uma cruz, extremamente satisfatória. Vê-se aí o doutor a olhar atentamente para o obturador do aparelho, cuja extremidade de bronze é iluminada pela luz própria do Espírito.”

O Sr. Istrati volta a Bucareste e fica espantado diante do seu perfil fisionômico. É muito característica a sua imagem fluídica, no sentido de que o exprime com mais exatidão do que o seu perfil fotográfico. Assemelham-se muito a reprodução, em tamanho pequeno, do retrato e a fotografia telepática.”

Para terminar, lembraremos que o Capitão Volpi também conseguiu obter a fotografia do duplo de uma pessoa viva que se fora fotografar.123 A imagem astral é muito visível e apresenta características especiais, que não permitem se lhe ponha em dúvida a autenticidade.

Materialização de um desdobramento


O ponto culminante da experimentação, no que concerne ao desdobramento, foi alcançado com o médium Eglinton. Um grupo de pesquisadores, de que faziam parte o Dr. Carter Blake e os Srs. Desmond, G. Fitz Gerald, M. S. Tel e E..., engenheiros telegrafistas, afirma que, a 28 de abril de 1876, em Londres, obtiveram, em parafina, um molde exato do pé direito do médium, que nem um instante fora perdido de vista por quatro dos assistentes.

O atestado da realidade do fenômeno apareceu no Spiritualist de 1876, pág. 300, redigido nos seguintes termos:

Desdobramento do corpo humano. O molde em parafina de um pé direito materializado, obtido numa sessão à rua Great Russell, 38, com o médium Eglinton, cujo pé direito se conservou, durante toda a experiência, visível aos observadores colocados fora do gabinete, verificou-se que era a reprodução exata do pé do Sr. Eglinton, verificação essa resultante do minucioso exame a que procedeu ao Dr. Carter Blake.” 124

Não é único o exemplo; mas, é notável pela alta competência científica dos observadores e pelas condições em que foi obtida tão palpável prova do desdobramento.

Nas experiências que o Sr. Siemiradeski realizou com Eusápia, foram conseguidas muitas vezes, em Roma, impressões do seu duplo sobre superfícies enegrecidas com fumaça. Veja-se a obra do Sr. de Rochas: A exteriorização da motricidade.

Como se há de negar, em face de provas tais! Todas as condições se acham preenchidas, para que a certeza se imponha com irresistível força de convicção.

Recomendamos esses notáveis estudos muito especialmente aos que negam ao Espiritismo o título de ciência. Eles mostram a justeza das deduções que Allan Kardec tirou de seus trabalhos, há cinqüenta anos, ao mesmo tempo em que nos abrem as portas da verdadeira psicologia positiva, da que empregará a experimentação como auxiliar indispensável do senso íntimo.

Que dizer e que pensar dos sábios que fecham os olhos diante dessas evidências? Queremos acreditar que não têm conhecimento de tais pesquisas; que, cegados pelo preconceito, estão ainda a imaginar que o Espiritismo reside inteiro no movimento das mesas, pois, se assim não fora, haveria, da parte deles, verdadeira covardia moral no mutismo que guardam em presença da nossa filosofia.

A conspiração do silêncio não pode prolongar-se indefinidamente. Os fenômenos hão repercutido e ainda repercutem fortemente; os experimentadores têm valor científico solidamente firmado, para que haja quem não se lance resolutamente ao estudo. Sabemos bem que esta demonstração irrefutável da existência da alma é a pedra de escândalo donde nos vêm as inimizades, os sarcasmos e a nossa exclusão do campo científico. Mas, queiram ou não, os materialistas já se acham batidos. Suas afirmações errôneas são destruídas pelos fatos. Será inútil valerem-se das retumbantes palavras “superstição”, “fanatismo”, etc. A verdade acabará por esclarecer o público, que lhes repudiará as teorias antiquadas e desmoralizadoras, para volver à grande tradição da imortalidade, hoje assente sobre bases inabaláveis.

Agora que temos a prova científica do desdobramento do ser humano, muito mais fácil será compreenderem-se os variados fenômenos que a alma humana pode produzir, quando sai do seu corpo físico.


Evocações do Espírito de pessoas vivas

Comunicações pela escrita


É doutrina constante do Espiritismo que a alma, quando não está em seu corpo, goza de todas as faculdades de que dispõe quando na erraticidade se encontra. Cada um de nós, durante o sono corporal, readquire parte da sua independência e pode, conseguintemente, manifestar-se. Allan Kardec consignou em sua revista muitos exemplos dessas evocações.125

“Em 1860, foi o Espírito do Dr. Vignal que veio espontaneamente dar, por um médium escrevente, pormenores sobre esse modo de manifestação. Descreveu como percebia a luz, as cores e os objetos materiais. Não podia ver-se a si mesmo num espelho, sem a operação pela qual o Espírito se torna tangível.126 Comprovou a sua individualidade pela existência do seu perispírito que – embora fluídico – tinha para ele a mesma realidade que o seu envoltório material e também pelo laço que o prendia ao seu corpo adormecido.”

Outro Espírito, não prevenido, se manifesta, no mesmo ano, em virtude de uma evocação. É o da Srta. Indermulhe, surda e muda de nascença que, entretanto, exprime com clareza seus pensamentos. Por certas particularidades características que lhe estabelecem a identidade, um seu irmão a reconhece. Sob o título: O Espiritismo de um lado e de outro lado o Corpo, em o número de janeiro, de 1860, a Revue relata a evocação de uma pessoa viva, feita com autorização sua. Daí resultou interessante colóquio sobre as situações respectivas do corpo e do espírito, durante o transporte deste a distância; sobre o laço fluídico que os prende um ao outro; e sobre ser a clarividência do Espírito ligado ao corpo, inferior à do Espírito desligado pela morte. Ainda neste caso, o Espírito emprega torneios de frases, idênticos aos de que habitualmente se serve na vida corrente.

Para os pormenores, recomendamos aos leitores os números citados da Revue. Eles poderão convencer-se de que há já 40 anos que os fenômenos do animismo foram bem estudados; que nenhum cabimento há para que deles se separem os fenômenos espíritas propriamente ditos, pois que uns e outros são devidos à mesma causa: a alma.

Pode quem quer que seja evocar o Espírito de um cretino ou o de um alienado e convencer-se experimentalmente de que o princípio pensante não é louco. O corpo é que se acha enfermo e não obedece por isso às volições da alma, donde dolorosa e horrível situação, constituindo uma das mais temíveis provas.127

O Sr. Alexandre Aksakof consagrou parte do seu livro Animismo e Espiritismo a relatar casos, extremamente numerosos, de encarnados manifestando-se a amigos ou a estranhos, pelos processos espiríticos. Resumamos alguns dos mais característicos exemplos dessas observações.128

O muito conhecido escritor russo Wsevolod Solowiof conta que freqüentemente sua mão era presa de uma influência estranha à sua vontade e, então, escrevia com extrema rapidez e muita clareza, mas da direita para a esquerda, de sorte a não se poder ler o escrito, senão colocando-o diante de um espelho, ou por transparência.

Um dia, sua mão escreveu o nome “Vera”. Como perguntasse: Que Vera? Obteve por escrito o nome de família de uma jovem sua parente. Admirado, insistiu, para saber se era, na realidade, a sua parente quem assim se manifestava. Respondeu a inteligência: “Sim; durmo, mas estou aqui e vim para lhe dizer que nos veremos amanhã, no Jardim de Verão.” Efetivamente assim aconteceu, sem premeditação da parte do escritor. A moça, por seu lado, dissera à família que visitara em sonho o seu primo e lhe anunciara o encontro que teriam.129

Existe, pois, uma prova material: o escrito da visita perispirítica do Espírito da moça que, por clarividência, anuncia um acontecimento futuro. Passados dias, outro fato similar se produziu, quase nas mesmas condições e com as mesmas personagens.

Agora, um segundo exemplo, extraído do artigo de Max Perty, intitulado: Novas experiências no domínio dos fatos místicos, exemplo que é dos mais demonstrativos.

A Srta. Sofia Swoboda, durante uma festa de família que se prolongou até muito tarde, lembrou-se de repente de que não fizera o seu dever de aluna. Como estimasse muito a sua professora e não quisesse contrariá-la, tentou pôr-se a trabalhar. Eis, porém, que, sem saber como e sem mesmo se surpreender, julgou achar-se na presença da Sra. W..., a professora em questão. Fala-lhe e lhe comunica, em tom de aborrecimento, o que sucedera. Súbito, a visão desaparece e Sofia, calma de espírito, volta para a festa e narra aos convidados o que se passara. A professora, que era espírita, naquela mesma noite, por volta das dez horas, tomara de um lápis para se corresponder com o seu defunto marido e ficou espantada, ao verificar que escrevera palavras alemãs, com uma caligrafia em que reconheceu a de Sofia. Eram desculpas formuladas em tom jocoso, a propósito do esquecimento involuntário da sua tarefa. No dia seguinte, houve Sofia de reconhecer não só que era sua a caligrafia da mensagem, como também que as expressões eram as que empregara no fictício colóquio que tivera com a Sra. W...

Em seu artigo, Perty relata outro caso, particularmente edificante pelas circunstâncias que o cercaram e devido ao Espírito da mesma Srta. Sofia:

A 21 de maio de 1866, dia de Pentecostes, Sofia, que morava em Viena, depois de um passeio pelo Prater, foi tomada de violenta dor de cabeça que a obrigou a deitar-se, por volta das três horas da tarde. Sentindo-se em boas disposições para se desdobrar, transportou-se rápido em pensamento a Mœdling, à casa do Sr. Stratil, sogro de seu irmão Antônio. Viu, no gabinete do Sr. Stratil, um moço, o Sr. Gustavo B..., a quem estimava muito e desejava dar uma prova da independência da alma com relação ao corpo. Dirigiu-se ao rapaz em tom jovial e carinhoso, mas, de repente, calou-se, chamada a Viena por um grito que partira do quarto vizinho ao seu, onde dormiam seus sobrinhos e sobrinhas. A palestra de Sofia com o Sr. B... apresentava os caracteres de uma mensagem espírita dada a um médium.

Querendo certificar-se com relação à personalidade que se manifestara, o Sr. Stratil escreveu à sua filha, que se achava em Viena, em companhia da família da Srta. Sofia, fazendo-lhe estas perguntas: como passara Sofia o 21 de maio? Que fizera? Não estivera a dormir, naquele dia, entre três e quatro horas? No caso afirmativo, que sonho tivera?

Interrogada, a Srta. Sofia falou, com efeito, de um desdobramento seu, enquanto dormia; mas, a brusca chamada de seu espírito ao corpo lhe fizera esquecer a maior parte da conversa em que se empenhara. Entretanto, lembrava-se de ter conversado com dois senhores e de haver, em certo momento, experimentado desagradável sensação, proveniente de um dissídio com os seus interlocutores. Respondendo a esses pormenores, o Sr. Stratil expediu para Viena, a seu genro, uma carta lacrada, com o pedido de não falar dela a Sofia, enquanto esta não recebesse uma do Sr. B... Passados alguns dias, a tal carta se achava completamente esquecida, em meio das preocupações cotidianas.

A 30 de maio, recebeu Sofia, pelo correio, uma carta galante do Sr. B..., com um retrato seu. Dizia assim:

“Senhora,

Aqui me tem. Reconhece-me? Se assim for, peço me designe um lugar modesto, seja no rebordo do teto, seja na abóbada. Muito grato lhe ficaria se não me suspendesse, caso fosse possível. Mais valera que me relegasse para um álbum, ou para o seu livro de missa, onde eu facilmente poderia passar por um santo cujo aniversário se festejasse a 28 de dezembro (dia dos Inocentes). Se, porém, não me reconhece, nenhum valor poderá dar ao meu retrato e, nesse caso, eu muito lhe agradeceria que mo devolvesse.

Queira aceitar, etc.

(Assinado): N. N.

Os termos e a fraseologia eram familiares à moça. Pareciam-lhe seus. Ela, entretanto, apenas vaga lembrança deles guardava. Como falasse do fato a seu irmão Antônio, abriram a carta do Sr. Stratil. Continha o texto de uma conversa psicográfica com invisível personagem, numa sessão em que as perguntas eram formuladas pelo próprio Sr. Stratil, servindo de médium o Sr. B...

Segundo esse documento, o Espírito de Sofia diz que seu corpo se acha em profundo sono, que ela dita a carta que o Sr. B... enviou-lhe e que ouve, como se estivesse sonhando, as crianças a gritar. Termina com estas palavras: Adeus, desp... são quatro horas.

À medida que lia o referido documento, cada vez mais precisas se iam tornando as lembranças de Sofia que, de quando em quando, exclamava: “Oh! sim; é bem isso.” Concluída a leitura, ela, na posse plena da sua memória, se recordava de todos os pormenores que olvidara ao despertar. Antônio notou que a caligrafia do documento se assemelhava muito à de Sofia nos seus deveres em francês, mostrando-se ela do mesmo parecer.

Nesta observação se nos deparam todos os caracteres necessários a estabelecer a identidade do ser que se manifestara. Nada falta. Aquela carta ditada pelo Espírito de Sofia, numa escapada perispirítica, com o pedido da fotografia, lhe desperta as lembranças e, até mesmo a grafia, tudo confirma ter sido ela quem se manifestou. Há, pois, a mais completa semelhança, a maior analogia entre essa comunicação dada pelo espírito de uma pessoa viva e as que todos os dias recebemos dos Espíritos que já viveram na Terra.

Deve ler também, na obra do sábio russo, os relatos da Sra. Adelina Von Vay, do Sr. Thomas Everitt, da Sra. Florence Marryat, da Srta. Blackwell, do Juiz Edmonds, quem deseje verificar que a comunicação dos Espíritos dos vivos, pela escrita mediúnica – se bem menos freqüente – é tão possível e tão normal quanto a dos mortos.130 A identidade desses seres invisíveis, mas ainda pertencentes ao nosso mundo, se estabelece da mesma maneira que a dos desencarnados.

Espíritos de vivos manifestando-se pela incorporação


A Sra. Hardinge Britten, escritora espírita bastante conhecida, em muitos artigos publicados pelo Banner of Light 131 “sobre os duplos”, refere um caso interessante ocorrido em casa do Sr. Cuttler, no ano de 1853: “Um médium feminino se pôs a falar alemão, embora desconhecesse completamente esse idioma. A individualidade que por ela se manifestava dava-se como mãe da Srta. Brant, jovem alemã que se achava presente.” Passado algum tempo, um amigo da família, vindo da Alemanha, trouxe a notícia de que a mãe da Srta. Brant, após séria enfermidade, em virtude da qual caíra em prolongado sono letárgico, declarara, ao despertar, ter visto a filha, que se encontrava na América. Disse que a vira num aposento espaçoso, em companhia de muitas pessoas, e que lhe falara. Ainda aí, é tão evidente a relação de causa e efeito, que não nos parece devamos insistir.

O Sr. Damiani,132 por seu lado, narra que nas sessões da baronesa Cerrapica, em Nápoles, receberam-se muitas vezes comunicações provindas de pessoas vivas. Diz, entre outras coisas:

“Há cerca de seis semanas, o Dr. Nehrer, nosso comum amigo, que vive na Hungria, seu país natal, se comunicou comigo por via do nosso médium, a baronesa. Não podia ser mais completa a personificação: com absoluta fidelidade o médium reproduzia os gestos, a voz, a pronúncia daquele amigo, de sorte a nos persuadirmos de que tínhamos em nossa presença o próprio Dr. Nehrer. Disse-nos que naquele momento cochilava um pouco, para repousar das fadigas do dia e nos comunicou diversos detalhes de ordem privada, que todos os assistentes ignoravam. No dia seguinte, escrevi ao doutor. Em sua resposta, ele afirmou exatos em todos os pontos os detalhes que a baronesa nos transmitira.”

Outras materializações de duplos de vivos


Passamos em revista diversas manifestações da alma momentaneamente desprendida do seu corpo material. Nas materializações, porém, é que a ação extracorpórea do homem alcança o mais alto ponto de objetividade, visto que se traduz por fenômenos intelectuais, físicos e plásticos.

Só o Espiritismo faculta a prova absoluta desses fenômenos. Não obstante todas as controvérsias, já agora está perfeitamente firmado que os irmãos Davenport não eram vulgares charlatães. Apenas, o que deu lugar a supor-se houvesse embuste da parte deles, foi que as manifestações se produziam, as mais das vezes, por meio de seus perispíritos materializados.133

Nas experiências levadas a efeito em presença do prof. Mapes, este, bem como sua filha, puderam comprovar o desdobramento dos braços e das mangas do médium.

Idênticas observações foram feitas na Inglaterra com outros médiuns. O Sr. Cox relata um caso em que as mais rigorosas condições de fiscalização foram postas em prática. Citemo-lo, segundo o Sr. Aksakof.

Trata-se de um médium de materialização, cuja presença no gabinete das experiências é garantida por uma corrente elétrica que lhe atravessa o corpo. Se o médium tentasse enganar, desligando-se, o embuste seria imediatamente denunciado pelo deslocamento instantâneo da agulha de um galvanômetro. Fala deste modo o Sr. Cox:134

“Em sua excelente descrição da sessão de que se trata, diz o Sr. Crookes que uma forma humana completa foi por mim vista, assim como por outras pessoas. É verdade. Quando me restituíam meu livro, a cortina se afastava bastante, para que se visse quem entregava. Era a forma da Sra. Fay, integral, com a sua cabeleira, seu porte, seu vestido de seda azul, seus braços nus até ao cotovelo, adornados com braceletes de finas pérolas. Nesse momento, o aparelho nenhuma interrupção registrou da corrente galvânica, o que inevitavelmente se teria dado, se a Sra. Fay houvesse soltado das mãos os fios condutores. O fantasma apareceu do lado da cortina oposto ao em que se encontrava a Sra. Fay e a uma distância de, pelo menos, oito pés da sua cadeira, de sorte que lhe fora impossível, de qualquer maneira, alcançar aquele livro na estante, sem se desprender dos fios condutores. Entretanto, repito, a corrente não sofreu a mínima interrupção.

Outra testemunha viu o vestido azul e os braceletes. Nenhum de nós comunicou o que vira aos demais, antes de acabada a sessão. As nossas impressões, por conseguinte, são absolutamente pessoais e independentes de qualquer influência.”

Estamos em presença de uma experiência concludente em absoluto, não só pela grande competência dos observadores, como também porque as precauções tomadas foram rigorosamente científicas. Tornado impossível o deslocamento do corpo, sem que fosse imediatamente denunciado pela variação da corrente elétrica, uma vez que a aparência da Sra. Fay se mostrou com bastante tangibilidade para tomar de um livro e entregá-lo a uma pessoa, é claro que houve desdobramento daquele médium, com inegável materialização.

Já vimos que os Anais Psíquicos, de setembro-outubro de 1898, trazem uma narrativa da qual consta que o duplo de uma senhora foi observado por mais de uma hora, numa igreja, tendo nas mãos um livro de orações.

Nas experiências feitas com Eusápia Paladino e em que muitos eram os observadores, foi possível comprovar-se materialmente o seu desdobramento. Na Revue Spirite de 1889, o Dr. Azevedo publicou o relato de uma experiência em que a mão fluídica de Eusápia produzira, à plena luz, a marca de três dedos.

O coronel de Rochas, em sua obra A exteriorização da motricidade,135 publica o fac-símile de uma moldagem da mão natural do médium, ao lado de uma fotografia dos braços deixados na argila. Notam-se as maiores analogias entre as duas impressões. Aos apresentados poderíamos juntar muitos outros documentos; preferimos, porém, aconselhar aos leitores que se reportem aos originais. Temos dito a respeito o bastante para que a convicção se imponha de que a ação física e psíquica do homem não se limita ao seu organismo material.

Como se produz esse estranho fenômeno? As narrativas anteriormente reproduzidas não no-lo dão a saber. Nelas, vemos perfeitamente a alma fora dos limites do organismo; porém, não assistimos à sua saída do invólucro corpóreo. As pesquisas do Sr. de Rochas lançaram forte luz sobre esses desdobramentos. Vamos, pois estudá-las.





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