Gabriel Delanne a alma e Imortal


Capítulo IV O desdobramento do ser humano



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Capítulo IV
O desdobramento do ser humano


A Sociedade de Pesquisas Psíquicas. – Aparição espontânea. – Goethe e seu amigo. – Aparições múltiplas do mesmo paciente. – Desdobramento involuntário, mas consciente. – Aparição tangível de um estudante. – Aparição tangível em momento de perigo. – Duplo materializado. – Aparição falante. – Algumas observações. – O Adivinho de Filadélfia. – Santo Afonso de Liguori.

Todas as teorias, por muito sedutoras que sejam, precisam apoiar-se em fenômenos físicos, sem o que não podem ser tidas senão como produtos brilhantes da imaginação, sem valor positivo.

Quando os espíritas proclamam que a alma está sempre revestida de um envoltório fluídico, tanto no curso da vida, como depois da morte, ficam no dever de provar que suas asserções têm fundamento. É por sentirmos imperiosamente essa necessidade que vamos expor certo número de casos de desdobramento do ser humano, extraídos do grande acervo que já eles constituem, mas que não podemos apresentar todo, dentro do quadro restrito que nos traçamos.

Em livro anterior a este,78 citamos alguns casos de bicorporeidade, mas, nessa matéria, não há que temer a multiplicação dos exemplos, a fim de impor a convicção. Ao demais, nessas narrativas, circunstâncias características se nos depararão, que evidenciam a imortalidade da alma e as propriedades desse corpo imponderável cujo estudo empreendemos.


A Sociedade de Pesquisas Psíquicas


O cepticismo contemporâneo foi violentamente abalado pela conversão dos mais consideráveis sábios da nossa época ao Espiritismo. A invasão do mundo terrestre pelos Espíritos se produziu mediante manifestações tão espantosas, realmente, para os incrédulos, que homens sérios se puseram a refletir e resolveram estudar por si mesmos os fatos anormais, como: a transmissão do pensamento a distância e sem contacto entre os operadores, a dupla vista, as aparições de vivos ou de mortos, fatos estes lançados, até então, ao rol das superstições populares.

Sob o influxo dessas idéias, fundou-se na Inglaterra uma Sociedade de Pesquisas Psíquicas,79 cujos trabalhos conquistaram para logo grande autoridade, justamente pela precisão, pelo escrúpulo e pelo método com que os pesquisadores se entregaram a essa grande investigação. Os principais resultados, obtidos desde há dez anos, foram consubstanciados pelos Srs. Myers, Gurney e Podmore em dois volumes intitulados: Phantasms of the Living (Fantasmas dos vivos) e as observações diariamente feitas são relatadas em resenhas que se publicam todos os meses, sob o nome de Proceedings.

Da Sociedade britânica brotaram um ramo americano e um francês. Na França, foram membros seus, correspondentes, notoriamente, os Senhores Baunis, Bernheim, Ferré, Pierre Janet, Liébault, Ribot e Richet. O Sr. Marillier, mestre de conferências na Escola de Altos Estudos, fez uma tradução resumida dos Phantasms of the Living, sob o título impróprio de As alucinações telepáticas. É a esse livro que vamos tomar a maior parte dos novos testemunhos que apresentaremos e que tornam evidente a dualidade do ser humano.80

Grande reconhecimento devem os espíritas aos membros da Sociedade de Pesquisas Psíquicas, porquanto longos anos passaram eles a colecionar observações, bem comprovadas, de aparições de todos os gêneros. Os casos todos foram submetidos a severos exames, tão completos quanto possível, certificados ou pelas testemunhas efetivas, ou pelos que deles se inteiravam por intermédio dessas testemunhas. Dados o alto valor dos investigadores, as precauções que tomaram para eliminar as causas de erros, achamo-nos em presença de considerável coletânea de documentos autênticos, sobre os quais podemos assentar os nossos estudos.

As experiências tiveram por objeto, primeiramente, verificar a possibilidade de duas inteligências transmitirem uma à outra seus pensamentos, sem qualquer sinal exterior. Obtiveram-se resultados notáveis 81 e essa ação de um espírito sobre outro, sem contacto perceptível, foi denominada telepatia. Mas, de pronto, o fenômeno assumiu outro aspecto: desenvolveu-se a tal ponto, que alguns operadores, em vez de apenas transmitirem seus pensamentos, se mostraram aos que tinham de recebê-los, havendo, pois, verdadeiras aparições.

Como poderiam tais fatos ser explicados? Não sendo espíritas, não admitindo a existência da alma qual a define o Espiritismo, viram-se constrangidos os experimentadores a formular uma hipótese. Adotaram esta: o paciente impressionado não tem uma visão real, mas apenas uma alucinação, isto é, imagina ver uma aparição, como se visse uma pessoa comum, não sendo exterior o fantasma, não existindo senão no cérebro do aludido paciente. A visão é subjetiva, ou seja, interna e não objetiva. Entretanto, essa ilusão psíquica coincide com um fato verdadeiro: a ação voluntária do operador. Daí o lhe chamarem alucinação verídica ou telepática.

Como se multiplicassem as observações, notaram em seguida que a vontade consciente do agente 82 não era necessária e que um indivíduo podia aparecer a outro, sem desígnio previamente determinado. São essas coincidências, entre uma visão e um acontecimento verídico ligado à mesma visão, que constituem a maioria dos depoimentos registrados nos Phantasms of the Living.

Se nos fosse possível passar em revista todos os fenômenos de ações telepáticas referidas nos dois livros citados e nos Proceedings, fácil nos seria demonstrar que a hipótese da alucinação não é absolutamente de molde a explicar todos os fatos. Podemos, com o grande naturalista Alfred Russel Wallace,83 destacar dessas narrativas cinco provas da objetividade de algumas de tais aparições:

1ª) a simultaneidade da percepção do fantasma por muitas pessoas;

2ª) ser, a aparição, vista por diversas testemunhas, como se ocupasse diferentes lugares, por efeito de um movimento aparente; ou, então, ser vista no mesmo lugar, sem embargo do deslocamento do observador;

3ª) as impressões que os fantasmas produzem nos animais;

4ª) os efeitos físicos que a visão produz;

5ª) poderem as aparições ser fotografadas, ou terem-no sido, quer fossem visíveis, quer não, às pessoas presentes.

A teoria da alucinação telepática, provocada ou espontânea, só foi imaginada, cremos, para não chocar muito de frente as idéias preconcebidas do público, ainda pouco familiarizado com esses fenômenos naturais, mas que apresentam um lado misterioso, devido a se produzirem de improviso e às circunstâncias graves em que geralmente se dão. Vejamos, com efeito, as reflexões do Sr. Gurney, redator dos Phantasms.84

“Perguntar-se-á, porventura, se nos assiste o direito de estabelecer qualquer ligação entre os resultados experimentais que temos discutido (transmissão de pensamento) nos precedentes capítulos e os fenômenos que acabamos de descrever (aparições de experimentadores). Já eu disse que eram fenômenos de transição, capazes de permitir se passe dos de transmissão experimental do pensamento aos casos de telepatia espontânea. Mas, poder-se-ia objetar que há um abismo intransponível entre os fenômenos ordinários de transmissão de pensamento e essas aparições do agente.85 A diferença radical consiste em que o objeto que aparece não é aquele sobre o qual se concentrara o pensamento do operador. Nos casos que vimos de estudar, o agente não pensava em si próprio, no seu contorno visível. O aspecto exterior de uma pessoa ocupa lugar relativamente pequeno na idéia que ela faz de si mesma; entretanto, o que o paciente percebe é somente esse aspecto exterior. Com essa mesma dificuldade, esbarraremos nos casos de telepatia espontânea; enquanto a impressão produzida no espírito do paciente for apenas a reprodução de uma imagem ou de uma idéia que exista no espírito do agente, pode-se conceber um fundamento fisiológico para os fenômenos de transmissão de pensamento. Mas, a interpretação dos fatos se torna muito mais difícil, quando o que aparece ao paciente já não é a imagem que o agente tem diante dos olhos.

A... morre e aparece a B... que se acha a grande distância dele. Não podemos descobrir nenhuma ligação entre esses dois fenômenos, pelo menos no domínio da consciência clara. Poderíamos, entretanto, conceber a ação do agente sobre o paciente, fazendo intervir os fenômenos inconscientes. Mas, talvez seja melhor reconhecer a dificuldade e dizer que, na aproximação que tentamos entre a transmissão experimental do pensamento e a telepatia espontânea, unicamente levamos em conta o aspecto fisiológico dos fenômenos.”

São de todo legítimos os escrúpulos do Sr. Gurney; a leitura dos Proceedings amplamente os justifica. A transmissão do pensamento, aliás, difícil de produzir-se, é um fato relativamente simples, em face do com que nos ocupamos. Pode-se, com efeito, verificar, em se procedendo a uma série longa de experiências, que, quase sempre, o número de vezes em que se obtém a adivinhação exata de um algarismo, pouco acima fica do que é indicado pelo cálculo das probabilidades. Uma figura geométrica ainda mais difícil é de ser percebida pelo paciente e, para que ordens mentais se cumpram, é preciso, as mais das vezes, que, como quando se trata da transmissão de sensações, as pessoas submetidas à experiência se achem mergulhadas em sono hipnótico.

Vê-se, pois, que há um abismo entre essas modalidades rudimentares de uma inteligência influenciada por outra e as aparições, fenômeno este complexo, que põe em jogo as faculdades do espírito.

Todavia, em certos casos, pode sustentar-se que a aparição é uma alucinação pura e simples, produzida pelo pensamento do agente. As circunstâncias que acompanham a visão é que devem servir de critério para julgar-se da objetividade da aparição.

Aliás, examinando os fatos, apreciaremos o fundamento da explicação alucinatória. Na impossibilidade de citar todos os casos, tomaremos um exemplo em cada classe de fenômenos, recomendando ao leitor, para mais amplas informações, os documentos originais.


Aparição espontânea


A Sra. Pole Carew, de Antony, Torpoint, Devonport, nos enviou o relato seguinte:86

“31 de dezembro de 1883

Em outubro de 1880, lorde e lady Waldgrave vieram com a sua criada de quarto, a escocesa Helena Alexander, passar alguns dias em nossa casa. (A narrativa diz como descobriram que Helena fora atacada de febre tifóide.) Ela, contudo, não parecia muito doente e, como ninguém julgasse haver qualquer perigo e lorde e lady Waldgrave tinham de partir no dia seguinte (quinta-feira) para uma longa viagem, resolveram deixá-la aos cuidados da amiga que os hospedara.

A enfermidade seguiu seu curso habitual e Helena parecia ir muito bem, até ao domingo da semana seguinte. O médico me disse então que a febre a deixara, mas que o seu estado de fraqueza o inquietava muito. Mandei vir imediatamente uma enfermeira, não obstante haver em casa a minha criada de quarto Reddell, que, muito dedicada a Helena, cuidara dela durante toda a enfermidade. Entretanto, como a enfermeira não pudesse vir no dia imediato, eu disse a Reddell que ainda por aquela noite tomasse conta de Helena, a fim de lhe administrar o remédio e os alimentos. Com efeito, era necessário alimentá-la freqüentemente.

Por volta das 4 horas e meia dessa noite, ou, antes, na madrugada de segunda-feira, Reddell consultou o relógio, deitou a poção num cálice e se debruçava sobre a cama de Helena para lhe dar o remédio, quando a campainha da porta de entrada tocou. Disse ela para consigo: “Lá está essa aborrecida campainha com os fios baralhados.” (Ao que parece, a campainha já tocara algumas vezes desse modo, sozinha.) No mesmo instante, porém, ouviu abrir-se a porta e, como lançasse o olhar em torno de si, viu entrar uma velha muito gorda, vestindo uma camisola de dormir e uma saia de flanela vermelha e trazendo na mão um castiçal de cobre, de modelo antigo, com uma vela acesa. Havia um buraco na saia da mulher. Esta entrou no quarto e fez menção de encaminhar-se para o toucador, a fim de colocar ali o castiçal. Era inteiramente desconhecida de Reddell que, todavia, pensou imediatamente fosse a mãe de Helena que vinha visitá-la. Notou que a velha tinha um ar de enfado, talvez porque não na houvessem prevenido mais cedo. Reddell deu a poção a Helena e, quando se voltou, a aparição se sumira, estando fechada a porta. Nesse meio tempo, o estado de Helena piorara muito e Reddell me foi chamar. Mandei buscar o médico e, enquanto o esperávamos, aplicamos cataplasmas quentes na enferma; mas... esta morreu, pouco antes de chegar o doutor. Meia hora antes de falecer, estava perfeitamente lúcida. Morta, parecia apenas adormecida.

Logo no começo da sua enfermidade, Helena escrevera a uma de suas irmãs. Dizia na carta não se sentir bem, mas sem insistir nisso. Como nunca falara senão de sua mãe, todos da nossa casa, para quem ela era inteiramente estranha, supunham que não tivesse outros parentes vivos. Reddell se lhe oferecia sempre para escrever em seu lugar; respondia que não precisava, que dentro de um ou dois dias escreveria com sua própria mão. Ninguém, pois, da sua família a sabia tão doente, pelo que é muito de notar-se que sua mãe, nada nervosa, haja dito aquela noite, quando se ia deitar: “Tenho a certeza de que Helena está muito doente.”

Reddell me falou da aparição, assim como à minha filha, cerca de uma hora após a morte de Helena. “Não sou supersticiosa, nem nervosa – disse-nos, ao principiar a narrativa do caso –, e não me assustei nem um pouquinho. O certo, porém, é que sua mãe veio aqui à noite passada.” E contou, então, toda a história, descrevendo com precisão a figura que vira.

Os parentes foram avisados, para que pudessem assistir aos funerais. Vieram a mãe e o pai, bem como a irmã, e Reddell reconheceu naquela a velha que lá estivera. Eu, a meu turno, a reconheci, tão exata fora a descrição feita, com a mesma expressão fisionômica que Reddell indicara, devida, não à inquietação, mas à surdez. Acharam todos que não se lhe devia falar do fato; mas, à irmã, Reddell referiu tudo, dizendo-lhe aquela que a sua descrição correspondia com muita exatidão às vestes que sua mãe teria posto, se levantasse durante a noite; que na sua casa havia um castiçal em tudo semelhante ao da aparição; que existia um buraco na saia de sua mãe, buraco esse devido à maneira pela qual ela punha aquela peça do vestuário. É curioso que nem Helena, nem sua mãe parecem ter-se apercebido da visita. Em todo caso, nenhuma jamais disse haver uma aparecido à outra, nem sequer em sonho.

F. A. Pole Carew.

Francis Reddell, cuja narrativa confirma a da Sra. Pole Carew, declara que jamais vira outra aparição. A Sra. Lyttleton, do Colégio Selwyn, Cambridge, que a conhece, diz que ela parece uma pessoa muito positiva (matter of fact) e que o que acima de tudo a impressionara fora o ter visto, na saia de flanela da mãe de Helena, um buraco feito pela barbatana do espartilho, buraco que notara na sala da aparição.

Aqui de novo se nos depara um caráter comum a todas as aparições de pessoas vivas e que temos assinalado nas descrições que de Espíritos os pacientes de Cahagnet hão feito, o de trazerem sempre um vestuário. Em face da dualidade do ser humano, pode-se admitir que a alma se desprende e atua longe do seu envoltório, mas não é evidente que as vestes tenham um forro fluídico e que se possam deslocar como o fantasma do vivo. Outro tanto ocorre dizer dos objetos que se apresentam ao mesmo tempo em que a aparição.

No relato acima, vemos a mãe de Helena vestida com uma saia vermelha, semelhante à que costumava usar e, ainda mais, trazendo na mão um castiçal de forma particular, cuja descrição a irmã da morta reconhece exata. Tem-se que procurar saber como é que o duplo humano opera para se mostrar e para fabricar suas vestes, bem como os utensílios de que se serve. Isto constituirá objeto de estudo especial, que faremos quando houvermos apreciado todos os casos.

A narração precedente nos coloca diante de um exemplo bem positivo de desdobramento. Reddell se acha completamente acordada; ouve tocar a campainha da entrada e a porta abrir-se; vê a mãe de Helena andar no quarto, dirigindo-se para o toucador. São fatos demonstrativos de que ela se encontra no seu estado normal, de que todos os seus sentidos funcionam como de ordinário e que não há cabimento, no caso, para uma alucinação. A aparição é tão real que a criada de quarto faz dela à sua ama uma descrição minuciosa, reconhecendo ambas, mais tarde, a mãe de Helena, a quem, antes, nunca tinham visto.

Que dizem de tal caso os redatores de Phantasms? Como se sabe, segundo a tese que eles adotaram, não há aparição, mas apenas visão interior, produzida pela sugestão de um ser vivo (chamado agente) sobre outra pessoa que experimenta a alucinação. Qual aqui o agente? Na edição francesa há a seguinte nota:

“Pode-se perguntar qual foi o agente verdadeiro. A mãe de Helena? Seu estado, porém, nada tinha de anormal; ela apenas sentia certa inquietação pela filha; não conhecia a Sra. Reddell. A única condição favorável é que os espíritos de ambas se preocupavam então com a mesma coisa. É também possível que o verdadeiro agente fosse Helena e que, durante a sua agonia, tenha tido diante dos olhos uma imagem viva de sua mãe.”

Afigura-se-nos que estas reflexões de maneira nenhuma se casam com as circunstâncias da narrativa. Para que uma alucinação se produza, necessário é que certa relação se estabeleça entre o agente e o percipiente, ou seja, aqui, entre Reddell e a mãe de Helena. Ora, afirma-se que elas absolutamente não se conhecem. Logo, a segunda não é o agente. Será Helena? Não, pois que a Sra. Pole Carew diz formalmente que a enferma não viu sua mãe. Aliás, como a imagem desta última teria podido abrir a porta da casa, fazendo tilintar a campainha, e abrir também a do quarto onde se achava a doente? As sensações auditivas não são mais alucinatórias do que as sensações visuais. Ora, a absoluta veracidade destas é reconhecida pela descrição exata da fisionomia da velha, pela da saia, com o buraco devido à barbatana, e pela do castiçal de forma singular. Não houve, pois, alucinação, mas aparição verdadeira.

Entende o redator que, para dar-se o desprendimento da alma, é necessário um acontecimento anormal. É uma opinião arriscada, porquanto, nos casos seguintes, veremos que o sono ordinário basta às vezes para permitir o desprendimento da alma.

Comprovaremos que o duplo é a reprodução exata do ser vivo; também notaremos que o corpo físico do agente se acha imerso em sono, durante a manifestação. Veremos que esse é o caso mais geral. A edição inglesa contém oitenta e três observações análogas.


Goethe e seu amigo


“Wolfgang Von Goethe, que por uma tarde chuvosa de verão saíra a passeio com seu amigo K..., voltava com ele do Belvedere, em Weimar. De repente, o poeta pára, como se estivesse diante de uma aparição, e se dispõe a falar-lhe. K... de nada se apercebera. Súbito, exclama o poeta: “Meu Deus! Se eu não tivesse a certeza de que neste momento o meu amigo Frederico está em Frankfurt, juraria que é ele!...” Em seguida, solta uma gargalhada: “Mas, é ele mesmo... o meu amigo Frederico!... Tu, aqui em Weimar?... Por Deus, meu caro, em que trajes te vejo... com o meu chambre... meu boné de dormir... calçando minhas chinelas... aqui em plena rua?...”

K..., Como ficou dito acima, nada absolutamente via de tudo aquilo e se espantou, crente de que o poeta fora atacado de repentina loucura. Goethe, porém, preocupado tão-só com a sua visão, exclama, abrindo os braços: “Frederico! Onde te meteste?... Grande Deus! Meu querido K... não viste onde se meteu a pessoa que acabamos de encontrar?” K..., estupefato, não respondeu. Então, o poeta, depois de dirigir o olhar para todos os lados, diz em tom de quem divaga: “Ah! Sim, compreendo... foi uma visão... Qual, no entanto, será a significação de tudo isto?... Teria o meu amigo morrido repentinamente?... Seria seu Espírito o que vi?...”

Dentro em pouco Goethe chegava a casa e lá encontrou Frederico... Os cabelos se lhe eriçaram: “Afasta-te, fantasma!” bradou, recuando, pálido como um cadáver. “Então, meu caro, é esse o acolhimento que dispensas ao teu mais fiel amigo?...” respondeu-lhe Frederico. “Ah! – exclamou o poeta a rir e a chorar ao mesmo tempo –, agora, sim, não é um Espírito, mas um ser de carne e osso.” E os dois se abraçaram efusivamente.

Frederico chegara todo molhado da chuva à casa de Goethe e vestira as roupas do amigo. A seguir, adormecera numa poltrona e sonhara que fora ao encontro do poeta e que este o interpelara assim: “Tu, aqui em Weimar?... Quê!... com o meu chambre... meu boné de dormir... e minhas chinelas, em plena rua?...” Desde esse dia, o grande poeta acreditou noutra vida após a terrena.” 87

Estamos aqui em presença de uma espécie de alucinação telepática, pois que somente Goethe vê o fantasma. Aquela imagem, porém, é exterior, não se lhe alojou no cérebro, como aconteceria, se se tratara de uma verdadeira alucinação, dado que, pelo testemunho de Frederico, este fora em sonho ao encontro do amigo. O que atesta que a sua exteriorização foi objetiva é que as palavras por ele ouvidas eram exatamente as que o ilustre escritor pronunciou. Vemos que o que Frederico toma por um sonho é a lembrança de um fato real, ocorrido durante o seu sono; sua alma se desprendeu, enquanto seu corpo repousava, ouviu e guardou as palavras de Goethe.

Façamos, a propósito, uma observação muito importante. Se Frederico não se lembrasse do que ocorrera enquanto ele dormitava, os membros da Sociedade de Pesquisas Psíquicas teriam concedido que houvera uma ação da consciência subliminal do mesmo Frederico, isto é, a intervenção de uma personalidade segunda desse paciente. Ora, parece evidente, aqui, que quem age é sempre a mesma personalidade, pois tem consciência do que se passou. Pode acontecer, entretanto, que nem sempre o agente se lembre do que fez, enquanto seu corpo repousava. Esta perda da lembrança não basta, porém, para autorizar os psicólogos, ingleses e franceses, que hão tratado dessas questões,88 a concluir que há em nós duas personalidades que coexistem, ignorando-se mutuamente.

A única indução que se nos afigura logicamente licita é a de admitir-se que a nossa personalidade ordinária – a do estado de vigília – é distinta da personalidade durante o sono, por uma certa categoria de lembranças que, ao despertar, deixam de ser conscientes. Não há duas individualidades no mesmo ser, mas apenas dois estados diferentes de uma mesma individualidade.

As narrativas que se seguem – extraídas do depoimento dado a 15 de maio de 1869 pelo Sr. Cromwel Varley, engenheiro-chefe das linhas telegráficas da Inglaterra, perante a Comissão da Sociedade Dialética de Londres – são típicas no máximo grau. Mostram as relações exatas que existem entre uma individualidade quando a dormir e quando desperta.


Depoimento de Cromwel Varley

Engenheiro-chefe das linhas telegráficas da Inglaterra


“Aqui está um quarto caso em que sou o ator principal.89 Tinha eu feito algumas experiências sobre a fabricação da faiança, e os vapores de ácido fluorídrico, empregado em larga escala, me haviam causado uma enfermidade da garganta. Fiquei seriamente doente, sucedendo-me amiúde ser despertado por espasmos da glote. Fora-me recomendado ter sempre à mão éter sulfúrico para aspirá-lo e obter alívio pronto. Seis ou oito vezes me vali desse recurso, mas, o odor dessa substância me era tão desagradável, que acabei por preferir o clorofórmio. Colocava-o ao lado da cama e, quando precisava servir-me dele, tomava no leito uma posição tal que, em sobrevindo a insensibilidade, eu caia para trás, enquanto a esponja rolava para o chão. Uma noite, porém, tombei de costas na cama, retendo a esponja, que se me conservou aplicada à boca.

A Sra. Varley estava noutro quarto por cima do meu, dando alimento a um filho enfermo. Ao cabo de alguns instantes, percebi a situação em que me achava: via minha mulher no aposento superior e me via a mim mesmo deitado de costas com a esponja sobre a boca e impossibilitado de fazer qualquer movimento. Empreguei toda a minha vontade em lhe fazer penetrar no espírito uma clara noção do perigo em que me encontrava. Ela despertou, desceu, afastou a esponja e ficou aterrada. Fiz os maiores esforços para lhe falar e disse: “Vou esquecer tudo isto e ignorarei o que se passou, se não mo recordares pela manhã. Não deixes, porém, de me dizer o que foi que te fez descer e, então, serei capaz de me lembrar de todos os pormenores.” Na manhã seguinte, ela fez o que lhe eu recomendara, mas, no primeiro momento, de nada me pude recordar. Entretanto, pelo dia todo empreguei os maiores esforços e cheguei, afinal, a me lembrar de uma parte do ocorrido e, mais tarde, da totalidade dos fatos. Meu Espírito se achava no quarto superior perto da Sra. Varley, quando a tornei consciente do perigo em que me via.

Este caso me facilitou compreender os meios de comunicação dos Espíritos. A Sra. Varley viu o que meu Espírito pedia e teve as mesmas impressões. Um dia, havendo caído em transe, disse-me ela: “Atualmente, não são os Espíritos que te falam: sou eu mesma e me sirvo do meu corpo de maneira idêntica à que os Espíritos empregam, quando falam pela minha boca.”

Em 1860, observei outro fato. Acabava eu de estender o primeiro cabo atlântico. Chegando a Halifax, meu nome foi telegrafado para Nova York. O Sr. Cyrus Fied transmite a notícia para St. John e para o Havre, de sorte que por toda parte fui cordialmente recebido e no Havre encontrei preparado um banquete. Pronunciaram-se muitos discursos, de modo que a festa se prolongou bastante. Eu tinha que tomar o vapor que partia na manhã seguinte e estava preocupado com a possibilidade de não despertar a tempo. Empreguei então um meio que sempre me dera bom resultado: o de formular energicamente, para comigo mesmo, a vontade de acordar com a necessária antecedência. Chegou a manhã e eu me via profundamente adormecido na cama.

Tentei despertar-me, mas não pude. Ao cabo de alguns instantes, estando a procurar os meios mais enérgicos de conseguir o que queria, dei com um pátio onde havia uma pilha de madeiras, da qual dois homens se aproximavam. Subiram na pilha e retiraram uma prancha pesada. Ocorreu-me então a idéia de provocar em mim mesmo o sonho de que uma bomba me fora lançada, a qual, depois de sibilar ao sair do canhão, estourava e me feria na face, no momento preciso em que os homens, de cima da pilha, atiravam ao chão a prancha que haviam apanhado. Isso me despertou, deixando-me a lembrança nítida dos dois atos, o primeiro dos quais consistindo na ação do meu ser intelectual a ordenar ao meu cérebro que acreditasse na realidade de ilusões ridículas, provocadas pelo poder da vontade da inteligência. Quanto ao outro ato, não perdi um segundo em saltar da cama, abrir a janela e verificar que o pátio, a pilha de madeiras e os dois homens eram tais quais o meu espírito os vira. Antes, nenhum conhecimento eu tinha do local; era noite quando, na véspera, cheguei àquela cidade e não sabia absolutamente que havia ali um pátio. É inegável que meu Espírito viu tudo isso, enquanto meu corpo jazia adormecido. Era-me impossível ver a pilha de madeiras sem abrir a janela.” 90

Em a narrativa a que passamos, temos uma mesma pessoa a se desdobrar em várias ocasiões, sem nenhuma participação sua consciente nos fatos.


Aparições múltiplas do mesmo paciente

Sra. Stone, Shute Haye, Waldich, Bridport.91


“Fui vista três vezes, quando em realidade não me achava presente, e de cada vez por pessoas diversas. Da primeira, foi minha cunhada quem me viu. Ela me velava o sono, após o nascimento de meu primeiro filho. Dirigindo o olhar para a cama onde eu dormia, viu-me distintamente e, ao mesmo tempo, o meu duplo. Viu, de um lado, o meu corpo natural e, de outro, a minha imagem espiritualizada e tênue. Fechou várias vezes os olhos; mas, reabrindo-os via sempre a mesma aparição. Ao cabo de algum tempo, dissipou-se a visão. Pensou fosse um sinal de minha morte próxima, pelo que só muitos meses depois vim a saber do fato.

A segunda visão teve-a uma sobrinha, que morava conosco em Dorchester. Era uma manhã de primavera. Abrindo a porta de seu quarto, ela me viu subindo a escada que lhe ficava em frente, com um vestido preto, de luto, uma gola branca e um gorro também branco. Era esse o meu traje habitual, por estar de luto de minha sogra. Ela não me falou, mas me viu e julgou que eu fosse ao quarto de meu filho. Ao almoço, disse ao tio: “Minha tia se levantou hoje muito cedo; eu a vi no quarto do filho.” Respondeu meu marido: “Oh! Não, Jane, ela não se sentia muito bem, tanto que vai almoçar no quarto, antes de descer.”

O terceiro caso foi o mais notável. Tínhamos uma casinha em Weymouth, aonde íamos de tempos a tempos gozar da vizinhança do mar. Quando lá estávamos, éramos servidos por uma certa Sra. Samways que, quando não estávamos, tomava conta da casa. Mulher agradável e calma, digna de toda confiança, era tia da nossa estimada e antiga criada Kitty Balston, então conosco em Dorchester. Kitty escrevera à tia na véspera da visão, comunicando-lhe o nascimento do meu filho mais moço e dizendo que eu ia bem.

Na noite seguinte, a Sra. Balston foi a uma “reunião de preces”, próximo a Clarence Buildings. Ela era batista. Antes de partir, fechou uma porta interior, que dava para uma pequena área atrás da casa; fechou também a porta da rua e levou no bolso as chaves. Ao regressar, abrindo a porta da rua, percebeu uma luz no extremo do corredor. Aproximando-se, viu que a porta da área estava aberta. A luz clareava todos os recantos da área e eu me achava no centro desta. Ela me reconheceu distintamente: estava eu vestida de branco, muito pálida e com semblante fatigado. Apavorada, deitou a correr para a casa de um vizinho (a do capitão Court) e desmaiou em caminho. Quando voltou a si, o capitão Court a acompanhou até a nossa casa, que se encontrava tal qual ela a deixara, com a porta da área hermeticamente fechada. Nessa ocasião, eu me achava muito fraca e passei várias semanas entre a vida e a morte.

X... 1883.

Da narrativa desta senhora, deduz-se que a sua saúde deixava muito a desejar e que era quando ela se achava de cama que sua alma se desprendia. Para que a hipótese da alucinação pudesse explicar essas aparições a três pessoas que se não conheciam umas às outras e em épocas diferentes, fora mister supor na Sra. Stone um poder alucinatório que ela exercia a seu mau grado; mas, ainda assim, não se compreenderia como a Sra. Balston, muito distante, pudera ser por ela influenciada. Parece-nos que o desdobramento explica mais claramente os fatos, pois que, noutra circunstância, sua cunhada lhe via muito distinta e simultaneamente o corpo material e o corpo fluídico.

Notemos também que a visão do duplo pela cunhada não é subjetiva, porquanto ela fecha os olhos repetida vezes, desaparecendo a visão nesses momentos, para se tornar de novo perceptível, logo que de novo os reabre.

Uma imagem alucinatória constituída no cérebro não lhe seria invisível quando estivesse com os olhos fechados.

Essas mesmas observações se aplicam às aparições daquela senhora: semelhança completa entre a forma física e o fantasma e repouso do organismo durante a manifestação.

Desdobramento involuntário, mas consciente


O paciente é um moço de cerca de trinta anos, talentoso artista gravador.92

“Há poucos dias, diz ele, entrava eu em casa, à noite, por volta das 10 horas, quando me senti presa de estranha lassidão, que não sabia explicar. Resolvido, entretanto, a não me deitar imediatamente, acendi o lampião e coloquei-o sobre a mesa-de-cabeceira, perto da cama. Tomei de um charuto, cheguei-lhe a chama do meu isqueiro e tirei algumas baforadas. Depois, estendi-me num canapé.

No momento em que, negligentemente, me deitava, procurando apoiar a cabeça na almofada do sofá, notei que os objetos em volta giravam. Experimentei um como atordoamento, um vazio. Em seguida, bruscamente, achei-me transportado ao meio do aposento. Surpreso com esse deslocamento, de que não tivera consciência, olhei ao meu derredor e o meu espanto então chegou ao auge.

Para logo, vi-me estendido no sofá, molemente, sem rigidez, apenas com a mão esquerda erguida acima de mim, com o cotovelo apoiado e segurando o charuto aceso, cuja claridade se percebia na penumbra produzida pelo quebra-luz da minha lâmpada. A primeira idéia que me veio foi a de que, sem dúvida, eu adormecera e que experimentava a sensação de um sonho. Contudo, reconhecia que nunca tivera sonho semelhante e que me parecesse tão intensivamente uma realidade. Direi mais: tinha a impressão de que jamais estivera tanto na realidade. Por isso, ao verificar que não podia tratar-se de um sonho, o segundo pensamento que se me apresentou de súbito à imaginação foi a de que morrera. Ao mesmo tempo, lembrei-me de ter ouvido dizer que há Espíritos e acudiu-me a idéia de que me tornara Espírito. Tudo o que eu pudera aprender a esse respeito longamente se desenrolou, diante da minha visão interior, mas em menos tempo do que é preciso para pensá-lo. Lembro-me muito bem de haver sido tomado de uma como angústia e de pesar pela falta de acabamento de algumas coisas. Minha vida se me apresentou como uma fórmula.

Aproximei-me de mim, ou, antes, do meu corpo, ou daquilo que eu supunha fosse o meu cadáver. Chamou-me de pronto a atenção um espetáculo que não compreendi: vi-me a respirar e, ainda mais, vi o interior do meu peito e o meu coração a pulsar lento, com pancadas fracas, mas com regularidade. Nesse momento, compreendi que devera ter tido uma sincope de gênero especial, a menos que os que têm sincopes, pensei de mim para mim, não se recordem, durante o desmaio, do que lhes sucedeu. Temi, então, não mais me lembrar de nada, quando recobrasse os sentidos...

Um pouco tranqüilizado, lancei o olhar ao meu derredor, procurando saber quanto tempo ia aquilo durar. Depois, não mais me ocupei com o meu corpo, com o outro eu que continuava em repouso. Atentei no lampião, que se mantinha aceso silenciosamente e fiz a reflexão de que, estando muito perto da cama, poderia incendiar os meus cortinados. Peguei a cabeça do parafuso da mecha, para apagá-la; porém, nova surpresa me esperava! Eu sentia perfeitamente o disco do parafuso, percebia-lhe, por assim dizer, todas as moléculas, mas, de nada servia torcê-lo com os dedos: somente estes executavam o movimento. Em vão me esforçava por atuar sobre o disco.

Examinei-me então e vi que, conquanto minha mão pudesse passar através de mim mesmo, eu sentia bem o meu corpo, que me pareceu, se não me falha a memória, vestido de branco. Coloquei-me em seguida diante do espelho defronte do fogão. Em vez de distinguir no vidro a minha imagem, verifiquei que meu olhar se distendia à minha vontade, de tal sorte que se me tornaram visíveis, primeiro, a parede, depois, a parte posterior dos quadros e dos móveis existentes no aposento do meu vizinho e, por fim, o interior desse apartamento todo. Percebi que não havia luz naquelas peças onde, entretanto, a minha visão distinguia tudo. Dei, então, com um raio luminoso que, partindo do meu epigástrio, clareava os objetos.

Veio-me a idéia de penetrar na casa do vizinho, a quem eu, aliás, não conhecia e que no momento se achava ausente de Paris. Mal se formou em mim o desejo de visitar a primeira sala, achei-me nela. Como? Não sei, mas, parece-me que atravessei a parede com tanta facilidade quanto tivera o meu olhar para transpô-la. Em suma, pela primeira vez na minha vida, achei-me na casa do meu vizinho. Inspecionei os quartos, gravei na memória o aspecto que apresentavam e me encaminhei para uma biblioteca, onde notei muito particularmente os títulos de diversas obras alinhadas numa das prateleiras à altura dos meus olhos.

Para mudar de lugar, não me era preciso mais do que querer. Estava imediatamente onde desejara ir.

A partir desse momento, muito confusas são as minhas lembranças. Sei que fui longe, muito longe, à Itália, creio, mas não me seria possível dizer como empreguei o meu tempo. Foi como se, não tendo mais o domínio de mim mesmo, não sendo mais senhor dos meus pensamentos, andasse levado para aqui e para ali, para onde estes se dirigiam. Ainda não os tendo submetido à minha vontade, eles como que me dispersavam, antes que eu houvesse podido prendê-los. A imaginação, naqueles instantes, carregava consigo, para onde entendia, a sua sede.

Por concluir, o que posso acrescentar é que despertei às cinco horas da madrugada, rígido, frio, no meu sofá, e conservando ainda entre os dedos o charuto não consumido. O lampião se apagara, depois de enfumaçar a manga de vidro. Atirei-me na cama e aí fiquei sem poder dormir e com um frêmito por todo o corpo. Afinal, peguei no sono. Era dia alto, quando acordei.

Por meio de inocente estratagema, induzi o encarregado da habitação a ir verificar se no apartamento do meu vizinho não haveria alguma coisa de anormal e, subindo com ele, dei com os quadros, os móveis que vira na noite precedente, assim como os livros de cujos títulos guardava lembrança.

Tive o cuidado de não falar de tudo isto a quem quer que fosse, temendo passar por louco ou alucinado.”

É eminentemente instrutivo este relato. Prova, primeiramente, que essa exteriorização da alma não resultou de uma alucinação, nem foi apenas um sonho, porquanto é inteiramente real a visão do apartamento vizinho, que o gravador não conhecia e no qual penetrara pela primeira vez enquanto estivera naquele estado particular. Em segundo lugar, faculta-nos comprovar que a alma, quando desprendida do corpo, possui uma forma definida e tem o poder de passar através dos obstáculos materiais, sem experimentar resistência, bastando a sua vontade para transportá-la ao sítio onde deseje achar-se. Em terceiro, demonstra que a alma, assim desprendida, tem uma vista mais penetrante do que no estado normal, pois que o moço via o seu próprio coração a bater, dentro do peito.93

A conservação da lembrança dos acontecimentos ocorridos durante o desdobramento é, neste caso, muito nítida; mas, pode, noutros, ser menos viva, de sorte que o agente, ao despertar, fique sem saber se sonhou, ou se, com efeito, sua alma abandonou temporariamente o envoltório físico. Enfim, as mais das vezes, o Espírito, voltando ao corpo, esquece o que ocorreu no curso do desprendimento. Devemos precatar-nos de concluir – como amiúde o fazem – que essas saídas são uma manifestação inconsciente da alma. A verdade é que apenas desaparece a memória do fenômeno, do qual, porém, a alma tinha conhecimento perfeito, enquanto ele se produzia.

Façamos uma última observação acerca da impossibilidade, em que se encontrou o moço gravador, para mover o disco do parafuso do seu lampião, a fim de abaixar a mecha e apagá-la, embora ele lhe percebesse a estrutura íntima. Essa impossibilidade, peculiar a todos os Espíritos no espaço, decorre da rarefação do perispírito. Entretanto, pode dar-se também que, graças a um afluxo de energia tomada ao corpo material, o envoltório fluídico adquira o poder de objetivação em grau suficiente para atuar sobre objetos materiais. A aparição da mãe de Helena 94 evidenciava essa substancialidade.

Até aqui, as aparições, qualificadas de telepáticas, das quais acabamos de falar, nada revelaram sobre a natureza íntima que lhes é própria. Não fossem os movimentos que executam, o abrirem e fecharem portas, como parece que o fazem, e elas poderiam ser tomadas por projeções do pensamento, por imagens, por simples aparências. Eis, porém, muitos casos em que a tangibilidade ainda mais se positiva.

Aparição tangível de um estudante


Diz o reverendo P. H. Newnham, Vicariato de Devonport:95

“No mês de março de 1856, estava eu em Oxford, fazendo o último ano do meu curso, e ocupava um quarto mobilado. Era sujeito a violentas dores de cabeça nevrálgicas, sobretudo enquanto dormia. Uma noite, por volta das nove horas, a dor se tornou insuportável; atirei-me na cama sem me despir e logo peguei no sono.

Tive então um sonho de nitidez e intensidade notáveis. Guardo ainda na memória, tão vivos como quando o estava tendo, todos os pormenores desse sonho. Sonhei que me achava em casa da família daquela que mais tarde se tornou minha mulher. Todos os rapazes e raparigas tinham ido deitar-se e eu ficara a conversar, de pé, junto ao fogão; depois, dei boa-noite aos que comigo conversavam, tomei da minha vela e fui também me deitar. Chegando ao vestíbulo, verifiquei que minha noiva ainda estava subindo para o andar superior e que no momento chegava ao topo da escada. Subi quatro a quatro a escada e, alcançando-a no último degrau, passei-lhe o braço pela cintura. Ao subir a escada, levava eu na mão esquerda o meu castiçal, o que, entretanto, no sonho, não me atrapalhava. Despertei então e quase de seguida um relógio da casa deu dez horas.

Foi tão forte a impressão em mim produzida por esse sonho, que no dia seguinte, pela manhã, escrevi à minha noiva, fazendo dele minuciosa narração. Recebi dela uma carta, porém não em resposta à minha, pois que as duas se cruzaram no caminho. Dizia assim: “Dar-se-á que você haja pensado em mim, de modo particular, ontem à noite, cerca das dez horas? Quando subia a escada para me ir deitar, ouvi distintamente seus passos atrás de mim e senti que você me passava o braço pela cintura.”

As duas cartas estão atualmente destruídas. Alguns anos, porém, depois dos fatos, recordamo-los, ao reler cartas antigas, antes de as destruirmos. Reconhecemos nessa ocasião que se conservavam muito fiéis as nossas lembranças pessoais. Esta narrativa pode, Portanto, ser aceita como perfeitamente exata.

P. H. Newnham.

É evidente, neste caso, a relação de causa e efeito. O sonho do moço estudante é reprodução da realidade. Durante o sono, a alma se lhe desprendeu do corpo e se transportou para junto de sua noiva. Foi tão intenso o desejo que experimentou de abraçá-la, que determinou a materialização parcial do perispírito, isto é, do seu duplo. O fato é positivo, pois a moça diz ter ouvido distintamente passos que subiam a escada e a sensação de um braço que a envolvia pela cintura é também positivamente afirmada. Estes pormenores, referidos de modo idêntico pelos dois protagonistas da cena, sem que tenha havido qualquer combinação entre eles ou qualquer previsão, afastam, evidentemente, toda idéia de alucinação.

Aparição objetiva em momento de perigo


Sra. Randolph Lichfield, Cross Deep, Twickenham:96

(Abreviamos um pouco a narração, suprimindo o que não era indispensável.)

“Achava-me eu, uma tarde, antes de me casar, no meu quarto, sentada perto de uma mesa-toucadora, sobre a qual depusera um livro que estava lendo. A mesa ficava a um canto do quarto e o grande espelho que lhe estava sobreposto chegava quase ao teto, de sorte que a imagem de qualquer pessoa que se encontrasse no quarto podia nele refletir-se inteira. O livro que eu lia não era de natureza a me afetar de modo algum os nervos, nem de me excitar a imaginação. Sentia-me de perfeita saúde, de bom humor e nada me acontecera, desde a hora em que, pela manhã, recebera minha correspondência, que me pudesse fazer pensar na pessoa a quem se refere a singular impressão, cuja narrativa me pedis.

Tinha os olhos no livro. De súbito, senti, mas sem o ver, que alguém entrava no meu quarto. Dirigi o olhar para o espelho, a fim de saber quem era, porém, não vi pessoa alguma. Supus então que o visitante, ao dar comigo absorvida na leitura, tornara a sair, quando, com vivo espanto, senti na fronte um beijo, longo e terno. Ergui a cabeça, sem nenhum terror, e vi meu noivo de pé por trás da minha cadeira, e inclinado, como para me beijar de novo. Trazia muito pálido o semblante e infinitamente triste. Muito surpreendida, levantei-me, mas, antes que houvesse articulado uma palavra, ele desapareceu, não sei como. De uma coisa apenas sei: que, por um instante, vi muito nitidamente todos os traços da sua fisionomia, seu porte alto, suas largas espáduas, como sempre as vira e que, um momento após, deixei de ver.

A princípio, fiquei apenas surpreendida, ou melhor, perplexa. Nenhum temor me assaltou. Nem por momentos imaginei que houvesse visto um Espírito. A sensação que em seguida experimentei foi a de ter qualquer coisa no cérebro e satisfeita me achava por não me haver isso acarretado uma visão terrível, em vez da que tivera e que me fora muito agradável.”

Diz depois a narradora que passou três dias sem notícias do noivo. Uma noite, julgou sentir-lhe a influência, mas não o viu, apesar da expectativa em que se encontrava. Afinal, veio a saber que ele fora vítima de um acidente, quando amestrava um cavalo fogoso. Seu pensamento voou imediatamente para a noiva, tendo dito, no momento em que perdia os sentidos: “May, minha Mayzinha, que eu não morra sem tornar a ver-te.” Foi na noite que se seguiu ao acidente que ele se debruçou sobre a moça e a osculou.

Também aqui, temos a aparição assemelhando-se, traço por traço, ao vivo, deslocando-se a grande distância e provando, de maneira positiva, a sua corporeidade, com o beijar a noiva. Qualquer que seja o papel que se queira atribuir à alucinação, parece-nos que ela se mostra incapaz de explicar o que se produziu.

Eis agora outro caso de materialização do envoltório fluídico:


Um duplo materializado


Os Anais Psíquicos, de setembro-outubro de 1896, sob o título: “Formação de um duplo”, página 263, narram o fato seguinte, traduzido do Borderland de abril de 1896.

O Sr. Stead refere que se dá muito com a Sra. A..., cujo estado de saúde, naquela época, lhe causava sérias inquietações. Conversando com ela, o Sr. Stead lhe recomendara que no domingo fosse assistir aos ofícios religiosos. A Sra. A..., porém, muito céptica, nada lhe respondera. Nesse ínterim, caiu ela seriamente enferma e se viu obrigada a não abandonar o leito.

No domingo seguinte, 13 de outubro, à noite, teve o Sr. Stead a surpresa de ver entrar no templo a Sra. A... e instalar-se num dos bancos. Havia luz bastante para que lhe fosse possível reconhecê-la bem. Um dos membros da congregação lhe ofereceu um livro de preces, que ela aceitou, mas não abriu. Então, uma vigilante lhe deu outro livro, que ela igualmente tomou com ar distraído e colocou sobre o banco. Conservou-se sentada durante todo o serviço até ao último hino, que ouviu de pé. Durante o segundo e terceiro hinos, ergueu por vezes o livro, mas, ao que parecia, sem cantar. Após o último atirou bruscamente o livro para o lado e, descendo rápido a nave, desapareceu.

Numerosas testemunhas afirmam ter visto a Sra. A... e tê-la perfeitamente reconhecido como sendo a pessoa que anteriormente ali fora. Seu vestuário elegante, mas excêntrico, chamava a atenção. No dia imediato, o Sr. Stead foi à casa da Sra. A..., que, ainda doente, se achava recostada num sofá. Afirmou-lhe ela que não saíra na véspera, afirmativa que o doutor, a criada de quarto e duas amigas corroboraram em absoluto. A distância que medeia entre a residência da Sra. A... e o templo é bastante considerável. Ora, confrontando-se o momento em que ela apareceu ali e o em que com ela estavam o médico e as amigas, verifica-se ter sido de todo impossível que a senhora houvesse feito aquele percurso em estado de sonambulismo, o que, aliás, a sua saúde não permitia.

Tem-se aí mais uma prova manifesta da ação tangível do corpo fluídico materializado. Um ponto a assinalar é a grande duração do fenômeno, de hora e meia.

Aparição falante


Desta vez, independentemente de outras circunstâncias típicas, temos o próprio duplo fluídico a falar:

Srta. Paget, 130, Fulham Road, S. W. Londres.97

17 de julho de 1885.

“Dou aqui a narração fiel de uma aparição curiosa, que tive, de um irmão. Estávamos em 1874 ou 1875. Meu irmão era terceiro oficial de um grande navio da Sociedade Wigram. Eu o sabia nas costas da Austrália; mas, que me lembre, não pensava nele no momento a que me refiro. Entretanto, como era o único irmão que eu tinha e fôssemos muito amigos um do outro, havia entre nós laços muito estreitos. Meu pai residia no campo. Uma noite, desci à cozinha, por volta das dez horas, em busca de água quente. Havia ali acesa uma grande lâmpada dúplex, de sorte que viva era a claridade. Achando-se já recolhidos os criados, coube-me a mim apagar a lâmpada. Enquanto apanhava a água quente, levantei os olhos e com grande surpresa vi meu irmão entrar na cozinha pela porta que abria para o exterior e encaminhar-se para o meu lado. Não reparei se a porta estava aberta, porque ficava num recanto e meu irmão já se encontrava no meio da cozinha. Separava-nos a mesa existente nessa dependência da casa e ele se sentou à cabeceira mais afastada de mim.

Notei que vestia o seu uniforme de marinheiro com uma blusa e que tanto esta como o boné estavam molhados. Exclamei: “Miles! donde vens?” Ele respondeu com o seu habitual tom de voz: “Pelo amor de Deus, não digas que estou aqui.” Isto se passou em breves segundos e, quando me lancei para abraçá-lo, desapareceu. Fiquei assustada, pois acreditava ter visto meu irmão em pessoa e só após o seu desaparecimento compreendi que apenas vira a sua sombra. Subi para o meu quarto e tomei nota da data numa folha de papel, que guardei na minha secretária, sem falar do incidente a pessoa alguma.

Cerca de três meses depois, meu irmão regressou a casa e, à noite, sentei-me ao seu lado na cozinha, estando ele ali a fumar. Perguntei-lhe, como por acaso, se não tivera alguma aventura. Disse em resposta: “Quase me afoguei em Melbourne.” E me contou que, tendo desembarcado sem licença, subia para bordo depois de meia-noite, quando escorregou do passadiço e caiu entre o cais e o navio. Sendo muito estreito o espaço, se não o houvessem retirado sem demora, infalivelmente se teria afogado.

Lembra-se de haver pensado que ia afogar-se e perdera os sentidos. Ninguém soube que descera à terra sem licença, de sorte que não incorreu na punição que esperava. Narrei-lhe então como ele me aparecera na cozinha e perguntei-lhe em que data se dera o fato de que me falava. Fácil lhe foi precisá-la, porque o navio deixara Melbourne na manhã seguinte. Era isso o que o fazia temer um castigo, visto que toda a equipagem tinha de pernoitar a bordo. As duas datas coincidiam, mas havia uma diferença quanto à hora: eu o vira pouco depois das dez horas da noite e o seu acidente ocorrera pouco depois da meia-noite. Não se recordava de haver pensado em mim naquele momento, mas ficou impressionado com a coincidência, da qual freqüentemente falava.”

Sempre o fantasma como sósia do vivo. Nenhuma alucinação aqui, porquanto a Srta. Paget vê a alma de seu irmão a mover-se na cozinha e verifica que as vestes da aparição estavam molhadas, circunstância que coincide de modo exato com o acidente sobrevindo ao marinheiro, que quase se afogara. A distância enorme entre Melbourne e a Inglaterra em nada influi sobre a intensidade do fenômeno de desdobramento, pois que o irmão fala à irmã, o que até então não havíamos comprovado.


Efeitos físicos produzidos por uma aparição


O Dr. Britten, no seu livro: Man and his relations, cita o caso seguinte:

“Um Sr. Wilson, residente em Toronto (Canadá), tendo adormecido no seu escritório, sonhou que se achava em Hamilton, cidade situada a 40 milhas inglesas a oeste de Toronto. Fez em sonho suas cobranças habituais e foi bater à porta de uma amiga, a Sra. D... Acudiu uma criada, que o informou de que sua patroa saíra. Apesar disso, ele entrou e bebeu um copo d’água, depois do que saiu, incumbindo a criada de apresentar seus cumprimentos àquela senhora. E o Sr. Wilson despertou após 40 minutos de sono.

Passados uns dias, uma Sra. G..., também residente em Toronto, recebe uma carta da Sra. D..., de Hamilton, contando que o Sr. Wilson fora a sua casa, bebera um copo d’água e partira, não mais voltando, o que a contrariara, porquanto teria gostado imensamente de o ver. O Sr. Wilson afirmou que, havia um mês, não ia a Hamilton; mas, recordando-se do sonho que tivera, pediu à Sra. G... que escrevesse à Sra. D..., rogando-lhe não falasse do incidente aos criados, a fim de verificar se estes, porventura, o reconheceriam. Foi então a Hamilton com alguns camaradas e todos juntos se apresentaram em casa da Sra. D... Duas das criadas reconheceram no Sr. Wilson a pessoa que lá fora, batera à porta, bebera um copo d’água e deixara recomendações para a Sra. D...”

Este caso nos apresenta a alma a realizar uma viagem durante o sono e lembrando-se, ao despertar, dos acontecimentos ocorridos no curso do desprendimento. O duplo se torna tão material, que bate à porta e bebe um copo d’água, é visto e reconhecido por estranhos. Claro que aqui já não se trata de telepatia; mas, sim, de bicorporeidade completa. A aparição, que anda, conversa, engole água, não pode ser uma imagem mental: é verdadeira materialização da alma de um vivo.


Algumas observações


Dentre os casos excessivamente numerosos, que a exigüidade do nosso quadro não nos permite reproduzir, referidos pelos autores ingleses, tomamos os que evidenciam a objetividade do fantasma vivo. Se, algumas vezes, possível se torna admitir a alucinação como causa do fenômeno, é, no entanto, fora de dúvida que não se pode compreender a maioria deles, sem que se admita a bicorporeidade do ser humano.

Suposto que os diferentes fatos que acabamos de enumerar são devidos à alucinação, somos forçados a fazer duas observações, muito importantes. Para que o cérebro do paciente seja impressionado, fora das condições habituais, necessário é que o agente exerça a distância uma ação de natureza especial, que não pode ser assimilada a nenhuma força conhecida.

Primeiramente, a distância não afeta o fenômeno. Esteja o agente em Melbourne e o paciente em Londres, a aparição se dá. Logo, a forma de energia que transmite o pensamento nada tem de comum com as ondas luminosas, sonoras, caloríficas, porquanto ela se propaga no espaço sem se enfraquecer e sem condução material. Ao demais, não se refrata em caminho; atravessando todos os obstáculos, alcança a meta que lhe está assinada.

Sabemos hoje que a eletricidade pode tomar a forma ondulatória e propagar-se sem condutor material. Poder-se-ia, pois, admitir que há uma semelhança entre a telegrafia sem fio e os fenômenos telepáticos. Evidentemente, se não houvesse mais do que uma simples transmissão de sensações, possível seria assimilar-se ao fluído elétrico o fluido que serve para transmitir o pensamento e, a um receptor telegráfico, o cérebro do paciente que vê. Mas, aqui, o fenômeno é muito mais complexo.

Se ponderarmos que o agente não teve vontade de se mostrar, torna-se difícil crer seja só o seu pensamento que, à sua revelia, disponha de tão singular poder. Se levarmos em conta que a imagem se materializa suficientemente para abrir ou fechar uma porta, para dar beijos, para segurar um livro de orações, para conversar, etc., teremos de admitir que em tais fatos há mais do que simples impressão mental do paciente. Melhor concebemos um desdobramento momentâneo do agente, que, voltando à vida ordinária, não conserva lembrança do ocorrido. Então, é a alma do próprio agente que se mostra e que se move no espaço, como o fazem os Espíritos desencarnados.

Precisamente por estar a causa do fenômeno no sair do corpo a alma é que geralmente não se conserva a lembrança desse êxodo, visto que o cérebro do agente não foi impressionado pelos acontecimentos que se deram sem participação sua. Para que houvesse lembrança, fora mister pôr o agente em estado de sonambulismo, isto é, num estado análogo ao em que ele se encontrava quando ocorreu o desdobramento.

Confrontando os caracteres diversos, peculiares a cada uma dessas aparições, podem formular-se observações gerais que nos instruam sobre tais manifestações da atividade psíquica, bem pouco conhecidas.

No curso da vida, a alma se acha intimamente unida ao corpo, do qual não se separa completamente, senão pela morte; mas, sob a ação de diversas influências: sono natural, sono provocado, perturbações patológicas ou forte emoção, é-lhe possível exteriorizar-se bastante para se transportar, quase instantaneamente, a determinado lugar e, lá chegando, tornar-se visível de maneira a ser reconhecida. Vimos dois casos de ação desse gênero: o do noivo da Sra. Randolph Lichfield e o do jovem marinheiro.

A lembrança das coisas percebidas nesse estado pode às vezes conservar-se, como sucedeu ao reverendo Newnham, ao gravador e a Varley. Para isso, faz-se mister seja muito viva a impressão experimentada. Também é possível que subsistam algumas reminiscências vagas; mas, em geral, ao despertar, aquele com quem se deu o fenômeno do desdobramento nenhuma consciência tem do que se passou.

Essa lacuna da vida mental assemelha-se ao esquecimento, por parte dos sonâmbulos, do que ocorreu enquanto estiveram em sono magnético. Desse fato apresentamos algures a explicação.98

Também pode acontecer que o desdobramento se produza sem que o tenha desejado a pessoa com quem ele se verifica. É o caso daquela senhora cujo duplo se mostrou em três ocasiões diferentes. Seu estado doentio faculta se suponha que a alma, por se achar menos fortemente ligada ao corpo, há podido desprender-se deste com facilidade. É uma possibilidade que, por muito freqüente, merece assinalada. Citemos alguns exemplos:

Refere Leuret 99 que um homem, convalescente de grave febre, se julgava formado de dois indivíduos, um dos quais se encontrava de cama, enquanto que o outro passeava. Embora lhe faltasse apetite, comia muito, porque tinha, dizia ele, dois corpos para alimentar.

Pariset, que fora atacado, quando muito jovem, de um tifo epidêmico, passou muitos dias num aniquilamento bem próximo da morte. Certa manhã despertou-se nele um sentimento mais distinto de si mesmo. Pensou e foi como que uma ressurreição; mas, coisa maravilhosa! naquele momento, tinha dois corpos, ou, pelo menos, julgava tê-los, e esses corpos lhe pareciam deitados em leitos diferentes. Estando sua alma num, ele se sentia curado e gozava de delicioso repouso. Quando se achava no outro, a alma sofria e ele dizia para consigo mesmo: “Como é que me sinto tão bem neste leito e tão mal, tão abatido no outro?” Essa idéia o preocupou por muito tempo e ele, tão perspicaz na análise psicológica, me relatou muitas vezes a história pormenorizada das impressões que então experimentava.100

Cahagnet, o célebre magnetizador, também relata o seguinte:101

“Conheci muitas pessoas com quem se deram fatos desses (desdobramentos) que, aliás, são muito freqüentes em estado de doença. O venerável padre Merice me assegurou que, durante uma febre muito forte de que fora acometido se vira por muitos dias separado de seu corpo, que lhe aparecia deitado a seu lado, por ele se interessando como por um amigo. O reverendo se apalpava e procurava certificar-se, por todos os meios capazes de produzir convicção, de que aquele era um corpo ponderável, se bem pudesse nutrir a mesma convicção relativamente ao seu corpo material.”

Vê-se, pois, que, de modo geral, para que a alma possa desprender-se, é preciso que o corpo esteja mergulhado em sono, ou que os laços que de ordinário a prendem ao corpo se hajam afrouxado por uma emoção forte, ou pela enfermidade. As práticas magnéticas ou os agentes anestésicos acarretam por vezes os mesmos resultados.102

Essa necessidade do sono durante o desdobramento se explica, primeiro, pelo fato de que a alma não pode estar simultaneamente em dois lugares diferentes; depois, a referida necessidade se pode compreender pela grande lei fisiológica do equilíbrio dos órgãos, segundo a qual todo desenvolvimento anormal de uma parte do corpo se opera em detrimento das outras. Se a quase totalidade da energia nervosa é empregada em produzir, no exterior, uma manifestação visível, o corpo, durante esse tempo, fica reduzido à vida vegetativa e orgânica; as funções de relação ficam temporariamente suspensas.

Pode-se mesmo, em certos casos, estabelecer uma relação direta entre a intensidade da ação perispiritual e o estado de prostração do corpo. A maior ou menor tangibilidade do fantasma se acha ligada, de maneira íntima, ao grau de energia moral do indivíduo, à tensão de seu espírito para determinado objetivo, à sua idade, à sua constituição física e, sem dúvida, à condição do meio exterior, que depois será preciso determinar.

Em todos os exemplos acima citados, a forma visível da alma é cópia absolutamente fiel do corpo terrestre. Há identidade completa entre uma pessoa e o seu duplo, podendo-se afirmar que esta semelhança não se limita à reprodução dos contornos exteriores do ser material, pois que alcança até a íntima estrutura perispirítica, ou, por outra: todos os órgãos do ser humano existem na sua reprodução fluídica.103

Notamos, em a narrativa concernente ao jovem marinheiro, que a aparição fala, o que faz supor tenha ela um órgão para produzir a palavra e uma força interior que põe em movimento esse aparelho. A máquina fonética é a mesma que a do corpo e a força é haurida no organismo vivo. No capítulo referente às materializações, veremos de que modo isso pode dar-se.

Assinalemos também, como um dos caracteres mais notáveis, o deslocamento quase instantâneo da aparição. Vimos que, na mesma noite, a alma do marinheiro, cujo corpo estava na Austrália, se manifestou à sua irmã na Inglaterra. Em todas as narrativas, a aparição viaja com vertiginosa rapidez; transporta-se, por assim dizer, instantaneamente ao lugar onde quer ir; parece deslocar-se tão depressa quanto a eletricidade. Essa velocidade considerável deriva da rarefação das moléculas que a formam, antes da materialização mais ou menos completa que ela opera para se tornar visível e tangível.

Encerraremos esta brevíssima exposição dos fatos com três casos típicos, em que se nos depararão reunidos todos os caracteres que até aqui temos observado isoladamente, nas aparições de vivos.


O adivinho de Filadélfia


O Sr. Dassier reproduz a seguinte história:104

“Stilling fornece pormenores interessantes sobre um homem que vivia em 1740 e que levava uma vida retirada, com singulares costumes, residindo nas cercanias de Filadélfia, Estados Unidos. Passava por possuir segredos extraordinários e por ser capaz de descobrir as coisas mais ocultas. Entre as provas mais notáveis que deu do seu poder, a que se segue Stilling a considerou bem verificada.

Um capitão de navio partira para longa viagem pela Europa e pela África. Bastante inquieta sobre a sua sorte, por não receber dele notícias desde muito tempo, sua mulher foi aconselhada a procurar o adivinho. Este pediu que ela o esperasse, enquanto ia colher informações acerca do viajante. Passou para um aposento ao lado e ela ficou à espera. Como sua ausência se prolongasse, a mulher se impacientou, julgando que fora esquecida. Aproximou-se devagarzinho da porta, espiou por uma fresta e ficou espantada de vê-lo estendido imóvel num sofá, como se estivesse morto. Achou que não devia perturbá-lo e sim aguardar que voltasse.

Reaparecendo, disse ele à mulher que seu marido estivera impossibilitado de lhe escrever, por estas e aquelas razões; que, no momento, se achava num café em Londres e que, dentro em pouco, estaria de regresso ao lar.

Esse regresso, de fato, se verificou, acordemente com o que fora assim anunciado e, como a mulher perguntasse ao marido quais os motivos do seu tão prolongado silêncio, declinou ele precisamente as razões que o adivinho havia apresentado. Veio-lhe então a ela um grande desejo de verificar o que mais houvesse a propósito daquelas indicações. Completa foi a sua satisfação a esse respeito, porquanto, mal seu marido se achou em presença do mágico, logo o reconheceu, por tê-lo visto certo dia num café de Londres, onde lhe dissera que sua mulher estava muito apreensiva com a falta de notícias suas, ao que o capitão respondera, explicando como ficara impossibilitado de escrever e acrescentando que o fato se dera nas vésperas de embarcar para a América. Em seguida, perdera de vista o estrangeiro que lhe falara, por se ter este metido na multidão, e nunca mais ouvira falar dele.”

Ainda aqui vemos desenrolar-se, mas, desta vez, voluntariamente, a série dos fenômenos já descritos: sono do paciente, separação entre seu corpo e sua alma, deslocamento rápido, materialização da aparição e lembrança ao despertar.

Na Revue Spirite de 1858, à pág. 328, encontra-se uma confirmação da possibilidade, que tem o espírito desprendido, de materializar bastante o seu envoltório, até torná-lo inteiramente semelhante ao corpo material. Aqui está o fato relatado naquela revista.

Uma viagem perispirítica


Um dos membros da Sociedade Espírita, residente em Boulogne-sur-Mer, a 2 de julho de 1856 escreveu a seguinte carta a Allan Kardec (Revue Spirite, 1858, p. 328)

“Meu filho, desde que, por ordem dos Espíritos, o magnetizei, se tornou um médium excepcional. Pelo menos, foi o que ele me revelou no estado sonambúlico em que o pus, a seu pedido, no dia 14 de maio último, e quatro ou cinco vezes depois.

Para mim, é fora de dúvida que, desperto, ele conversa livremente com os Espíritos, por intermédio do seu guia a quem chama familiarmente de seu amigo; que, em Espírito, se transporta à vontade para onde queira e vou citar-lhe um exemplo, cuja prova tenho escrita, em meu poder.

Faz hoje precisamente um mês, estávamos ambos na sala de jantar, achando-me eu a ler o curso de magnetismo do Sr. du Potet, quando ele me toma o livro e se põe a folheá-lo. Chegado a certo ponto, diz-lhe o seu guia: lê isso. Era a aventura, na América, de um doutor cujo Espírito visitara um amigo, enquanto este dormia, a quinze ou vinte léguas de distância. Concluída a leitura, diz meu filho:

– Eu desejara muito fazer uma viagem semelhante.

– Está bem! Onde queres ir? – pergunta-lhe o guia.

– A Londres, ver meus amigos – respondeu o rapaz e nomeou as pessoas que queria visitar.

– Amanhã é domingo – foi-lhe respondido. – Não és obrigado a levantar-te cedo para trabalhar. Dormirás às 8 horas e farás uma viagem a Londres até às 8 horas e meia. Na próxima sexta-feira, receberás de teus amigos uma carta, reprovando-te o teres passado com eles tão pouco tempo.

Efetivamente, no dia seguinte pela manhã, à hora indicada, ele caiu num sono de chumbo. Às 8 horas e meia, despertei-o. De nada se lembrava. Tive o cuidado de não lhe dizer palavra, aguardando o resultado.

Na sexta-feira seguinte, trabalhava eu com uma de minhas máquinas, como costumo, a fumar, pois que acabara de almoçar. Meu filho, olhando para a fumaça do meu cachimbo, diz:

– Espera! há uma carta nessa fumaça.

– Como podes tu enxergar uma carta na fumaça?

– Vais ver – replica ele –; aí está o carteiro que a traz.

Com efeito, pouco depois o carteiro entregava uma carta vinda de Londres, em que seus amigos lhe censuravam o haver estado naquela cidade no domingo precedente e não ter ido vê-los. Sabiam-no, porque uma pessoa das relações deles o havia encontrado. Possuo, como já lhe disse, essa carta, pela qual se prova que não estou inventando coisa alguma.”

Este relato mostra a possibilidade de produzir-se artificialmente o desdobramento do ser humano. Veremos mais longe que esse processo foi utilizado por alguns magnetizadores.

Eis aqui o terceiro fato, que tomamos aos anais da Igreja Católica.


Santo Afonso de Liguori


A história geral da Igreja, pelo barão Henrion (Paris, 1851, tomo II, pág. 272),105 narra do modo seguinte o fato miraculoso que se deu com Afonso de Liguori:

“Na manhã de 21 de setembro de 1774, Afonso, depois de haver dito missa, atirou-se num sofá. Estava abatido e taciturno. Ficou sem fazer o menor movimento, sem articular uma só palavra de qualquer oração e sem se dirigir a pessoa alguma e assim passou o dia todo e a noite que se lhe seguiu. Nenhum alimento ingeriu durante todo esse tempo e ninguém notou que manifestasse o desejo de que lhe dispensassem qualquer cuidado. Logo que se aperceberam da situação em que ele se encontrava, os criados se colocaram próximos do seu quarto, mas não ousaram entrar.

A 22, pela manhã, verificaram que Afonso não mudara de posição e não sabiam o que pensar disso. Temiam fosse mais do que um êxtase prolongado. Entretanto, quando o dia já ia alto, Liguori tocou a campainha, para anunciar que queria celebrar missa.

Ouvindo aquele sinal, não só o irmão leigo que lhe ajudava a missa, como todas as pessoas da casa e outras de fora acorreram pressurosas. Com ar de surpresa, pergunta o prelado por que tanta gente. Respondem-lhe que havia dois dias ele não falava, nem dava sinal de vida. “É verdade, replicou; mas, não sabíeis que eu fora assistir o papa que acaba de morrer?”

Uma pessoa que ouviu essa resposta, no mesmo dia, foi levá-la a Santa Ágata e a notícia ali se espalhou logo, como em Arienzo, onde Afonso residia. Julgaram que aquilo fora apenas um sonho; não tardou, porém, chegasse a notícia da morte de Clemente XIV, que a 22 de setembro passara a outra vida, precisamente às 7 horas da manhã, no momento mesmo em que Liguori recuperara os sentidos.”

O historiador dos papas, Novaes, faz menção desse milagre, ao narrar a morte de Clemente XIV. Diz que o soberano pontífice deixou de viver a 22 de setembro, às 7 horas da manhã (a décima terceira hora para os italianos), assistido pelos gerais dos Agostinhos, dos Dominicanos, dos Observantinos e dos Conventuais, e o que mais interessa, assistido miraculosamente pelo bem-aventurado Afonso de Liguori, se bem que desprendido de seu corpo, conforme resultou do processo jurídico do mesmo bem-aventurado, processo que a Sagrada Congregação dos Ritos aprovou.

Podem citar-se casos análogos ocorridos com Santo Antônio de Pádua, S. Francisco Xavier e, sobretudo, com Maria de Agreda, cujos desdobramentos se produziram durante muitos anos.




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