Gabriel Delanne a alma e Imortal


Introdução Demonstração experimental da imortalidade



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Introdução

Demonstração experimental da imortalidade


O Espiritismo projeta luz nova sobre o problema da natureza da alma. Fazendo que a experimentação interviesse na filosofia, isto é, numa ciência que, como instrumento de pesquisa, apenas empregava o senso íntimo, ele possibilitou que o Espírito seja visto de maneira efetiva e que todos se certifiquem de que até então o mesmo Espírito estivera muito mal conhecido.

O estudo do eu, isto é, do funcionamento da sensibilidade, da inteligência e da vontade, faz que se perceba a atividade da alma, no momento em que essa atividade se exerce, porém nada nos diz sobre o lugar onde se passam tais fenômenos, que não parecem guardar entre si outra relação, afora a da continuidade. Entretanto, os recentes progressos da psicologia fisiológica demonstraram que íntima dependência existe entre a vida psíquica e as condições orgânicas de suas manifestações. A todo estado da alma corresponde uma modificação molecular da substância cerebral e reciprocamente. Mas, param aí as observações e a ciência se revela incapaz de explicar por que a matéria que substitui a que é destruída pela usura vital conserva as impressões anteriores do espírito.

A ciência espírita se apresenta, justo, para preencher essa lacuna, provando que a alma não é uma entidade ideal, uma substância imaterial sem extensão e sim que é provida de um corpo sutil, onde se registram os fenômenos da vida mental e a que foi dado o nome de perispírito. Assim como, no homem vivo, importa distinguir do espírito a matéria que o incorpora, também não se deve confundir o perispírito com a alma. O eu pensante é inteiramente distinto do seu envoltório e não se poderia identificar com este, do mesmo modo que a veste não se identifica com o corpo físico. Todavia, entre o espírito e o perispírito existem as mais estreitas conexões, porquanto são inseparáveis um do outro, como mais tarde o veremos.

Quererá isto dizer que encontramos a verdadeira natureza da alma? Não, visto que esta se mantém inacessível, tanto quanto, aliás, a essência da matéria. Vemos, no entanto, descoberta uma condição, uma maneira de ser do espírito, que explica grande cópia de fenômenos, até então insolúveis.

Evolveram, com o correr das idades, as concepções sobre a natureza da alma, desde a mais grosseira materialidade, até a espiritualidade absoluta. Os trabalhos dos filósofos, tanto quanto os ensinos religiosos, nos habituaram a considerar a alma como pura essência, como uma chama imaterial. Tão diferentes formas de ver prendem-se à maneira pela qual se encara a alma. Se estudada objetivamente, fora do organismo humano, durante as aparições, ela às vezes se afigura tão material, quanto o corpo físico. Se observada em si mesma, parece que o pensamento é a sua característica única. Todas as observações da primeira categoria foram atiradas ao rol das superstições populares e prevaleceu a idéia de uma alma sem corpo. Nessas condições, impossível se tornava compreender por que processo podia essa entidade atuar sobre a matéria do corpo ou dele receber as impressões. Como se havia de imaginar que uma substância sem extensão e, conseguintemente, fora da extensão, pudesse atuar sobre a extensão, isto é, sobre corpos materiais?

Ao mesmo tempo em que nos ensinam a espiritualidade da alma, ensinam-nos a sua imortalidade. Como explicar, porém, que essa alma conserve suas lembranças? Neste mundo, temos um corpo definido pela sua forma de envoltório físico, um cérebro que se afigura o arquivo da nossa vida mental; mas, quando esse corpo morre, quando esse substrato físico é destruído, que sucede às lembranças da nossa existência atual? Onde se localizarão as aquisições da nossa atividade física, sem as quais não há possibilidade de vida intelectual? Estará a alma destinada a fundir-se na erraticidade, a se apagar no Grande Todo, perdendo a sua personalidade?

São rigorosas estas conseqüências, porquanto a alma não poderia subsistir sem uma forma que a individualizasse. No oceano, uma gota d’água não se pode distinguir das que a cercam, não se diferencia das outras partes do líquido, a não ser que se ache contida nalguma coisa que a delimite, ou que, isolada, tome a forma esférica, sem o que ela se perde na massa e já não tem existência distinta.

O Espiritismo nos leva a comprovar que a alma é sempre inseparável de uma certa substancialidade material, porém com uma modalidade especial, extremamente rarefeita, cujo estado físico procuraremos definir. Essa matéria possui formas variáveis, segundo o grau de evolução do espírito e conforme ele esteja na Terra ou no espaço. O caso mais geral é o da alma conservar temporariamente, após a morte, o tipo que tinha o corpo físico aqui na Terra. Esse ser invisível e imponderável pode, às vezes, em circunstâncias determinadas, assumir um caráter de objetividade, bastante para afetar os sentidos e impressionar a chapa fotográfica, deixando assim traços duráveis da sua ação, o que põe fora de causa toda tentativa de explicação desse fenômeno mediante a ilusão ou a alucinação.

O nosso objetivo neste volume é apresentar algumas das provas que já se possuem da existência de tal envoltório, a que foi dado o nome de perispírito (de peri, em torno, e spiritus, espírito).

Para essa demonstração, recorreremos não só aos espíritas propriamente ditos, mas também aos magnetizadores espiritualistas e aos sábios independentes que hão começado a explorar este domínio novo. Ao mesmo tempo, facultado nos será comprovar que a corporeidade da alma não é uma idéia nova, que teve numerosos partidários, desde que a humanidade entrou a preocupar-se com a natureza do princípio pensante.

Veremos, primeiro, que a antigüidade, quase toda ela, mais ou menos admitiu essa doutrina; eram, porém, vagos e incompletos os conhecimentos de então sobre o corpo etéreo. Depois, à medida que se foi cavando o fosso entre a alma e o corpo, que as duas substâncias mais e mais se diferençavam, uma imensidade de teorias procuraram explicar a ação recíproca que elas entre si exercem. Surgiram as almas mortais de Platão, as almas animais e vegetativas de Aristóteles, o ochema e o eidolon dos gregos, o nephesh dos hebreus, o baí dos egípcios, o corpo espiritual de São Paulo, os espíritos animais de Descartes, o mediador plástico de Cudworth, o organismo sutil de Leibnitz, ou a sua harmonia preestabelecida; o influxo físico de Euler, o arqueu de Van Helmont, o corpo aromal de Fourier, as idéias-força de Fouillée, etc. Todas essas hipóteses, que por alguns de seus lados roçam a realidade, carecem do cunho de certeza que o Espiritismo apresenta, porque não imagina, demonstra.

O espírito humano, pelo só esforço de suas especulações, jamais pode estar certo de haver chegado até aí. É-lhe necessário o auxílio da ciência, isto é, da observação e da experiência, para estabelecer as bases da sua certeza. Não é, pois, guiados por idéias preconcebidas que os espíritas proclamam a existência do perispírito: é, pura e simplesmente, porque essa existência resulta, para eles, da observação.

Os magnetizadores já haviam chegado, por outros métodos, ao mesmo resultado. Pela correspondência que permutaram Billot e Deleuze, bem como pelas pesquisas de Cahagnet, veremos que a alma, após a morte, conserva uma forma corporal que a identifica. Os médiuns, isto é, as pessoas que gozam – no estado normal – da faculdade de ver os Espíritos, confirmam, em absoluto, o testemunho dos sonâmbulos.

Essas narrativas, entretanto, constituem uma série de documentos de grande valor, mas ainda não nos dão uma prova material. Mostraremos, por isso, que os espíritas fizeram todos os esforços por oferecer a prova inatacável e que o conseguiram. As fotografias de Espíritos desencarnados, as impressões por estes deixadas em substâncias moles ou friáveis, as moldagens de formas perispirituais são outras tantas provas autênticas, absolutas, irrecusáveis da existência da alma unida ao perispírito e tão grande é hoje o número dessas provas, que impossível se tornou a dúvida.

Mas, se verdadeiramente a alma possui um envoltório, há de ser possível comprovar-se-lhe a realidade durante a vida terrena. É, com efeito, o que se dá. Abriram-nos o caminho os fenômenos de desdobramento do ser humano, denominados por vezes de bicorporeidade. Sabe-se em que eles consistem. Estando, por exemplo, em Paris um indivíduo, pode a sua imagem, o seu duplo mostrar-se noutra cidade, de maneira a ser ele reconhecido. Há, no atual momento, mais de dois mil fatos, bem verificados, de aparições de vivos. Veremos, no correr do nosso estudo, que não são alucinatórias essas visões e por que caracteres especiais podemos certificar-nos da objetividade de algumas de tão curiosas manifestações psíquicas.

Os pesquisadores não se limitaram, porém, à observação pura e simples de tais fenômenos, senão que também chegaram a reproduzi-los experimentalmente. Verificaremos, com o Sr. De Rochas, que a exteriorização da motricidade constitui, de certa forma, o esboço do que se produz completamente durante o desdobramento do ser humano. Chegaremos, afinal, à demonstração física da distinção existente entre a alma e o corpo: fotografando a alma de um vivo, fora dos limites do seu organismo material.

Para todo pesquisador imparcial, esse formidável conjunto de documentos estabelece solidamente a existência do perispírito. A isso, contudo, não deve limitar-se a nossa aspiração. Temos que perquirir de que matéria é formado esse corpo. Quanto a isso, todavia, estamos reduzidos a hipóteses; veremos, porém, estudando as circunstâncias que acompanham as aparições dos vivos e dos mortos, ser possível encontrarem-se, nas últimas descobertas científicas sobre a matéria radiante e os raios, preciosas analogias que nos permitirão compreender o estado dessa substância imponderável e invisível. Esperamos mostrar que nada se opõe, cientificamente, à concepção de semelhante invólucro da alma. Desde então, esse estudo entra no quadro das ciências ordinárias e não pode merecer a censura de se achar eivado de sobrenatural ou de maravilhoso.

Apoiar-nos-emos longamente na identidade dos fenômenos produzidos pela alma de um vivo, saída momentaneamente do seu corpo, e os que se observam operados pelos Espíritos. Veremos que eles se assemelham de tal sorte, que impossível se torna diferençá-los, a não ser por seus caracteres psíquicos. Logo, e é esse um dos pontos mais importantes, há continuidade real, absoluta, nas manifestações do Espírito, encarnado ou não, em um corpo terrestre. Inútil, portanto, atribuir os fatos espíritas a seres fictícios, a demônios, a elementais, cascas astrais, egrégoros, etc. Forçoso será reconhecer que os produzem as almas que viveram na Terra.

Estudando os altos fenômenos do Espiritismo, fácil se nos tornará demonstrar que o organismo fluídico contém todas as leis organogênicas segundo as quais o corpo se forma. Aqui, o Espiritismo faz surgir uma idéia nova, explicando como a forma típica do indivíduo pode manter-se durante a vida toda, sem embargo da renovação incessante de todas as partes do corpo. Simultaneamente, do ponto de vista psíquico, fácil se torna compreender onde e como se conservam as nossas aquisições intelectuais. Firmamos alhures 1 como concebemos o papel que o perispírito desempenha durante a encarnação; bastar-nos-á dizer agora que, graças à descoberta desse corpo fluídico, podemos explicar, cientificamente, de que maneira a alma conserva a sua identidade na imortalidade.

Possam estes primeiros esboços de uma fisiologia psicológica transcendental incitar os sábios a perscrutar tão maravilhoso domínio! Se os nossos trabalhos derem em resultado trazer para as nossas fileiras alguns espíritos independentes, não teremos perdido o nosso tempo; mas, qualquer que seja o resultado dos nossos esforços, estamos seguros de que vem próxima a época em que a ciência oficial, levada aos seus últimos redutos, se verá obrigada a ocupar-se com o assunto que faz objeto das nossas pesquisas. Nesse dia, o Espiritismo aparecerá qual realmente é: a Ciência do Futuro.

Gabriel Delanne

Primeira parte

A observação

Capítulo I


Golpe de vista histórico


Necessidade de um envoltório da alma. – As crenças antigas. – A Índia. – O Egito. – A China. – A Pérsia. – A Grécia. – Os primeiros cristãos. – A escola neoplatônica. – Os poetas. – Carlos Bonnet.

As crenças antigas


É-nos desconhecida a natureza íntima da alma. Dizendo-se que ela é imaterial, esta palavra deve ser entendida em sentido relativo e não absoluto, porquanto a imaterialidade completa seria o nada. Ora, a alma ou o espírito 2 é alguma coisa que pensa, sente e quer; tem-se, pois, que entender, quando a qualificamos de imaterial, que a sua essência difere tanto do que conhecemos fisicamente, que nenhuma analogia guarda com a matéria.

Não se pode conceber a alma, senão acompanhada de uma matéria qualquer que a individualize, visto que, sem isso, impossível lhe fora se pôr em relação com o mundo exterior. Na Terra, o corpo humano é o médium que nos põe em contacto com a Natureza; mas, após a morte, destruído que se acha o organismo vivo, mister se faz que a alma tenha outro envoltório para entrar em relações com o novo meio onde vai habitar. Desde todos os tempos, essa indução lógica foi fortemente sentida e tanto mais quanto as aparições de pessoas mortas, que se mostravam com a forma que tiveram na Terra, fundamentavam semelhante crença.

Quase sempre, o corpo espiritual reproduz o tipo que o Espírito tinha na sua última encarnação e, provavelmente, a essa semelhança da alma se devem as primeiras noções acerca da imortalidade.

Se também ponderarmos que, em sonho, muitas pessoas vêem parentes ou amigos que já morreram há longo tempo, que esses parentes e amigos conversam com elas, parecendo vivos como outrora, não nos será talvez difícil encontrar em tais fatos as causas da crença, generalizada entre os nossos ancestrais, numa outra vida.

Verifica-se, com efeito, que os homens da época pré-histórica, a que se deu o nome de megalítica, sepultavam os mortos, colocando-lhes nos túmulos armas e adornos. É, pois, de supor-se que essas populações primitivas tinham a intuição de uma existência segunda, sucessiva à existência terrena. Ora, se há uma concepção oposta ao testemunho dos sentidos, é precisamente a de uma vida futura. Quando se vê o corpo físico tornado insensível, inerte, malgrado a todos os estímulos que se empreguem; quando se observa que ele esfria, depois se decompõe, torna-se difícil imaginar que alguma coisa sobreviva a essa desagregação total. Não obstante, se apesar dessa destruição, se observa o reaparecimento completo do mesmo ser, se ele demonstra, por atos e palavras, que continua a viver, então, mesmo aos seres mais frustros se impõe, com grande autoridade, a conclusão de que o homem não morreu de todo. Só, provavelmente, após múltiplas observações desse gênero, foi que se estabeleceram o culto prestado aos despojos mortais e a crença numa outra vida em continuação da vida terrestre.

A Índia


Ainda nos dias atuais, as tribos mais selvagens crêem numa certa imortalidade do ser pensante 3 e as narrativas dos viajantes são concordes em atestar que, em todas as partes do globo, a sobrevivência é unanimemente afirmada. Remontando aos mais antigos testemunhos que possuímos, isto é, aos hinos do Rigveda, vemos que os homens que viviam nas faldas do Himalaia, no Sapta Sindhu (país dos sete rios), tinham intuições claras sobre o além da morte.

Baseando-se provavelmente nas aparições naturais e nas visões em sonho, foi que os sacerdotes, ao cabo de muitos séculos, lograram codificar a vida futura. Como será essa vida? Um poeta ária esboça assim, vigorosamente, o céu védico:

“Morada definitiva dos deuses imortais, sede da luz eterna, origem e base de tudo o que é, mansão de constante alegria, de prazeres infindos, onde os desejos se realizam mal surjam, onde o ária fiel viverá de eterna vida.”

Desde que o céu védico foi concebido qual morada divina habitável pelo ser humano, posta se achou a questão de saber-se como poderia o homem “elevar-se tão alto” e como, dotado de faculdades restritas, seria “capaz de viver uma vida celeste sem fim”. Fora possível que o corpo humano, tão fortemente ligado à terra, levantando vôo, tornado leve como uma nuvem, atravessasse o espaço para ir ter, por si mesmo, à maravilhosa cidade dos deuses? Necessário seria que um milagre se produzisse. Ora, esse milagre jamais visivelmente se produziu. Dar-se-ia, então, que a morada divina ainda estivesse sem habitantes? A não ser mediante um prodígio, que corpo físico pode perder o seu próprio peso? Desse mistério, desse pensamento vago, nasceu, de certo modo, a preocupação positiva dos destinos da matéria após a morte, da sobrevivência de uma parte do ser. Essa a mais antiga explicação que se conhece daquele misterioso além.

Abatido pela morte, o corpo humano se desfaz por inteiro nos elementos que participaram da sua formação. Os raios do olhar, matéria luminosa, o Sol os reabsorve; a respiração, tomada aos ares, a estes volve; o sangue, seiva universal, vai vivificar as plantas; os músculos e os ossos, reduzidos a pó, tornam-se húmus. “O olho volta para o Sol; o respiro volta para Vayú; o céu e a terra recebem o que lhes é devido; as águas e as plantas retomam as partes do corpo humano que lhes pertencem.” O cadáver do homem se dispersa. As matérias que compunham o corpo vivo, privadas do calor vital, restituídas ao Grande Todo, servirão à formação de outros corpos. Nada se perdeu, nada o céu tomou para si.

Entretanto, o ária que morreu santamente receberá sua recompensa: elevar-se-á às alturas inacessíveis; gozará da sua glorificação. Como será isso? Assim: a pele nada mais é do que o invólucro do corpo e, quando Agni, o deus quente,4 abandona o moribundo, respeita o invólucro corpóreo, pele e músculos. As carnes, debaixo da pele, são apenas matérias espessas, grosseiras, que constituem segundo envoltório destinado ao trabalho, sujeito a funções determinadas. Sob esse duplo envoltório, da pele e do corpo, há o homem verdadeiro, o homem puro, o homem propriamente dito, emanação divina, suscetível de voltar para os deuses, como o raio de luz volta para o Sol, a respiração para o ar, a carne para a terra. Depois da morte, essa alma, revestida de um novo corpo, luminosa névoa resplandecente, de forma brilhante, “cujo próprio brilho a furta à fraca visão dos vivos”, é transportada à morada divina.5

Se o deus ficou satisfeito com as oferendas do ária morto, vem, ele próprio, dar-lhe o “invólucro luminoso” com que a alma será transportada. Um hino exprime sumariamente a mesma idéia, sob a forma de uma prece:

“Desdobra, ó Deus, os teus esplendores e dá assim ao morto o novo corpo em que a alma será transportada, segundo a tua vontade.” 6

Se refletirmos que esses hinos estavam escritos, há cerca de 3.500 anos, na língua mais rica e mais harmoniosa que já existiu, ficamos sem poder calcular a que épocas recuadas remontam essas noções, tão precisas e quase justas, sobre a alma e o seu envoltório. Só mesmo toda a ignorância da nossa época grosseiramente materialista seria capaz de contestar uma verdade velha como o pensamento humano e que se nos depara em todos os povos. As nossas modernas experiências sobre os Espíritos, que se deixam fotografar ou se materializam momentaneamente, como veremos mais adiante, mostram que o perispírito é uma realidade física, tão inegável como o próprio corpo material. Já era essa a crença dos antigos habitantes da margem do Nilo e constitui fato digno de nota que, no alvorecer de todas as civilizações, topamos com crenças fundamentalmente semelhantes, quando quase nenhum meio de comunicação havia entre povos tão distanciados uns dos outros.

O Egito


Tão longe quanto possamos chegar interrogando os egípcios, ouvi-los-emos afirmar a sua fé numa segunda vida do homem, num lugar donde ninguém pode volver, onde habitam os antepassados. Imutável, essa idéia atravessa intacta todas as civilizações egípcias; nada consegue destruí-la. Ao contrário, apenas o que não resiste às influências diversas, vindas de todas as partes, é o “como” dessa imortalidade. Qual, no homem, a parte durável, que resiste à morte, ou que, revivificada, continua outra existência?

A mais antiga crença, a dos começos (5.000 anos a.C.), considerava a morte uma simples suspensão da vida. Depois de estar imóvel durante certo tempo, o corpo retomava o “sopro” e ia habitar muito longe, a oeste deste mundo. Em seguida, mas sempre muito remotamente, antes mesmo, talvez, das primeiras dinastias históricas, surgiu a idéia de que somente “uma parte do homem” ia viver segunda vida. Não era uma alma, era um corpo, diferente do primeiro, porém, proveniente deste, mais leve, menos material. Esse corpo, quase invisível, saído do primeiro corpo mumificado, estava sujeito a todos os reclamos da existência: era preciso alojá-lo, nutri-lo, vesti-lo. Sua forma, no outro mundo, reproduzia, pela semelhança, o primeiro corpo. É o ka, o duplo, ao qual, no antigo Império, se prestava o culto dos mortos. (5004-3064 a.C.)

Uma primeira modificação fez do “duplo” – do ka – um corpo menos grosseiro do que o era na concepção primitiva. Não passava o segundo corpo de uma “substância” – bi – de uma “essência” – baí – e, afinal, de um claror, de “uma parcela de chama”, de luz. Essa fórmula se generalizou nos templos e nas escolas. O povo, esse, se atinha à crença simples, original, do homem composto de duas partes: o corpo e a inteligência – khou – separáveis. Houve, pois, um instante, sobretudo nas proximidades da 18ª dinastia, em que coexistiam crenças diversas. Cria-se, ao mesmo tempo: no corpo duplo, ou ka; na substância luminosa, ou baí, ba; na inteligência, ou khou. Eram três almas.

Assim foi, sem nenhum mal, até ao momento em que, formado o corpo sacerdotal, este, sentindo a necessidade de uma doutrina, impondo-se-lhe uma escolha, teve que tomar uma decisão. Então, pelos fins da 18ª dinastia (3064-1703 a.C.), os sacerdotes muito habilmente, para não ferir nenhuma crença, para chamar a si todas as opiniões, conceberam um sistema em que coubessem todas as hipóteses.

A pessoa humana foi tida como composta de quatro partes: o corpo, o duplo (ka), a substância inteligente (khou) e a essência luminosa (ba ou baí). Mas, essas quatro partes se reduziam realmente a duas, no sentido de que o duplo, ou ka, era parte integrante do corpo durante a vida, como a essência luminosa, ou ba, se achava contida na substância inteligente, ou khou. Foi assim que, nos últimos tempos da 18ª dinastia, pela primeira vez, o Egito, embora sem lhe compreender a verdadeira teoria, teve, na realidade, a noção do ser humano composto de uma única alma e de um só corpo. A nova teoria se simplificou ainda mais, com o passarem o corpo e o seu duplo a ser tidos como permanecendo para sempre no túmulo, enquanto que a alma-inteligência, “servindo de corpo à essência luminosa”, ia viver com os deuses a segunda vida. A imortalidade da alma substituía desse modo à imortalidade do corpo, que fora a primeira concepção egípcia.7

A China


Porventura, em nenhum povo o sentimento da sobrevivência foi tão vivo quanto entre os chineses. O culto dos Espíritos se lhes impôs desde a mais remota antigüidade. Cria-se no Thian ou Chang-si, nomes dados indiferentemente ao céu; mas, sobretudo, prestavam-se honras aos Espíritos e às almas dos antepassados. Confúcio respeitou essas crenças antigas e certo dia, entre os que o cercavam, admirou umas máximas escritas havia mais de mil e quinhentos anos, sobre uma estátua de ouro, no Templo da Luz, sendo uma delas a seguinte:

“Falando ou agindo, não penses, embora te aches só, que não és visto, nem ouvido: os Espíritos são testemunhas de tudo.” 8

Vê-se que, no Celeste Império, os céus são povoados, como a Terra, não somente pelos gênios, mas também pelas almas dos homens que neste mundo viveram. A par do culto dos Espíritos, estava o dos antepassados.

“Tinha por objeto, além de conservar a preciosa lembrança dos avós e de os honrar, atrair a atenção deles para os seus descendentes, que lhes pediam conselhos em todas as circunstâncias importantes da vida e sobre os quais supunha-se que eles exerciam influência decisiva, aprovando-lhes ou lhes censurando o proceder.” 9

Nessas condições, é evidente que a natureza da alma tinha que ser bem conhecida dos chineses. Confúcio não concebia a existência de puros Espíritos; atribuía-lhes um envoltório semimaterial, um corpo aeriforme, como o prova esta citação do grande filósofo:

“Como são vastas e profundas as faculdades dos Koûci-Chin (Espíritos diversos)! A gente procura percebê-los e não os vê; procura ouvi-los e não os ouve. Identificados com a substância dos seres, não podem ser dela separados. Estão por toda parte, acima de nós, à nossa esquerda, à nossa direita; cercam-nos de todos os lados. Entretanto, por mais sutis e imperceptíveis que sejam, eles se manifestam pelas formas corpóreas dos seres; sendo real, verdadeira, a essência deles não pode deixar de manifestar-se sob uma forma qualquer.” 10

O budismo penetrou na China e lhe assimilou as antigas crenças. Continuou as relações estabelecidas com os mortos.

Aqui está um exemplo dessas evocações e da aparência que toma a alma para se tornar visível a olhos mortais.

O Sr. Estanislau Julien, que traduziu do chinês a história de Hiuen-Thsang, que viveu pelo ano 650 da nossa era, narra assim a aparição do Buda, devida a uma prece daquela santa personagem.

“Tendo penetrado na caverna onde, animado de fé profunda, vivera o grande iniciador, Hiuen-Thsang se acusou de seus pecados, com o coração transbordante de sinceridade. Recitou devotamente suas preces, prosternando-se a cada estrofe. Depois de fazer uma centena dessas reverências, viu surgir uma claridade na parede oriental da caverna.

Tomado de alegria e de dor, recomeçou ele as suas saudações reverentes e viu brilhar e apagar-se qual relâmpago uma luz do tamanho de uma salva. Então, num transporte de júbilo e amor, jurou que não deixaria aquele sítio sem ter visto a sombra augusta do Buda. Continuou a prestar-lhe suas homenagens e, ao cabo de duzentas saudações, teve de súbito inundada de luz toda a gruta e o Buda, em deslumbrante brancura, apareceu, desenhando-se-lhe majestosamente a figura sobre a muralha. Ofuscante fulgor iluminava os contornos da sua face divina. Hiuen-Thsang contemplou em êxtase, durante largo tempo, o objeto sublime e incomparável de sua admiração. Prosternou-se respeitosamente, celebrou os louvores do Buda e espalhou flores e perfumes, depois do que a luz se extinguiu. O brâmane que o acompanhara ficou tão encantado quanto maravilhado daquele espetáculo. “Mestre – disse ele –, sem a sinceridade da tua fé e o fervor dos teus votos, não terias presenciado tal prodígio.”

Essa aparição lembra a transfiguração de Jesus, quando se prostraram Moisés e Elias. Os Espíritos superiores têm um corpo de esplendor incomparável, por isso que a sua substância fluídica é mais luminosa do que as mais rápidas vibrações do éter, como poderemos verificar pelo que se segue.


A Pérsia


No antigo Irã, depara-se com uma concepção toda especial acerca da alma. Zoroastro pode reivindicar a paternidade da invenção do que hoje é chamado o eu superior, a consciência subliminal e, doutro ponto de vista, a paternidade da teoria dos anjos guardiães.

É conhecida a doutrina do grande legislador: abaixo do Ser Incriado, eterno, existem duas emanações opostas, tendo cada uma sua missão determinada: Ormuzd tem o encargo de criar e conservar o mundo; Arimã o de combater Ormuzd e destruir o mundo, se puder. Há, igualmente, dois gênios celestes, emanados do Eterno, para ajudar a Ormuzd no trabalho da criação; mas, há também uma série de Espíritos, de “gênios”, de ferúers, pelos quais pode o homem crer que tem em si algo de divino. O ferúer, inevitável para cada ser, dotado de inteligência, era, ao mesmo tempo, um inspirador e um vigia: inspirador, por insuflar o pensamento de Ormuzd no cérebro do homem; vigia, por ser guardião da criatura amada do deus. Parece que os ferúers imateriais existiam, por vontade divina, antes da criação do homem e que cada um deles sabia, de antemão, qual o corpo humano que lhe era destinado.11

A missão desse ferúer consistia em combater os maus gênios produzidos por Arimã, em conservar a humanidade.

Após a morte, o ferúer se conserva unido “à alma e à inteligência”, para sofrer um julgamento, receber a sua recompensa ou o seu castigo. Todo homem, todo Ized (gênio celeste) e o próprio Ormuzd tinham o seu ferúer, o seu frawaski, que por eles velava, que se devotava à sua conservação.12

De certas passagens do Avestá se há podido deduzir que, depois da morte do homem, o ferúer voltava ao céu, para desfrutar aí de um poder independente, mais ou menos extenso, conforme fora mais ou menos pura e virtuosa a criatura que lhe estivera confiada. De todo independente do corpo humano e da alma humana, o ferúer é um gênio imaterial, responsável e imortal. Todo ser teve ou terá o seu ferúer. Em tudo o que existe, há um ferúer certo, isto é, alguma coisa de divino. O Avestá invoca o ferúer dos santos, do fogo, da assembléia dos sacerdotes, de Ormuzd, dos amschaspands (anjos celestes), dos izeds, da “palavra excelente”, dos “seres puros”, da água, da terra, das árvores, dos rebanhos, do tourogérmen, de Zoroastro, “em quem, primeiro, Ormuzd pensou, a quem instruiu pelo ouvido e ao qual formou com grandeza, em meio das províncias do Irã”.13

Na Judéia, os hebreus, ao tempo de Moisés, desconheciam inteiramente qualquer idéia de alma.14 Foi preciso o cativeiro de Babilônia, para que esse povo bebesse, entre os seus vencedores, a idéia da imortalidade, ao mesmo tempo que a da verdadeira composição do homem. Os cabalistas, intérpretes do esoterismo judeu, chamam Nephesh ao corpo fluídico do Princípio pensante.


A Grécia


Os gregos, desde a mais alta antigüidade, estiveram na posse da verdade sobre o mundo espiritual. Em Homero, é freqüente os moribundos profetizarem e a alma de Pátroclo vem visitar Aquiles na sua tenda.

“Segundo a doutrina da maioria dos filósofos gregos, cada homem tem por guia um demônio particular (eles davam o nome de daimon aos Espíritos), que lhe personifica a individualidade moral.” 15

A generalidade dos humanos era guiada por Espíritos vulgares; os doutos mereciam visitados por Espíritos superiores (Id.). Thales, que viveu seis séculos e meio antes da nossa era, ensinava, tal qual na China, que o Universo era povoado de demônios e de gênios, testemunhas secretas das nossas ações, mesmo dos nossos pensamentos, sendo também nossos guias espirituais.16 Até, desse artigo, fazia um dos pontos capitais da sua moral, confessando que nada havia mais próprio a inspirar a cada homem a necessidade de exercer sobre si mesmo essa espécie de vigilância a que Pitágoras mais tarde chamou o sal da vida.17

Epimênides, contemporâneo de Sólon, era guiado pelos Espíritos e freqüentemente recebia inspirações divinas. Sustentava fortemente o dogma da metempsicose e, para convencer o povo, dizia que ressuscitara muitas vezes e que, particularmente, fora Éaco.18

Sócrates 19 e, sobretudo, Platão, como achassem excessivamente grande a distância entre Deus e o homem, enchiam-na de Espíritos, considerando-os gênios tutelares dos povos e dos indivíduos e os inspiradores dos oráculos. A alma preexistia ao corpo e chegava ao mundo dotada do conhecimento das idéias eternas. Semelhante à criança, que no dia seguinte há esquecido as coisas da véspera, esse conhecimento ficava nela amodorrado, pela sua união com o corpo, para despertar pouco a pouco, com o tempo, o trabalho, o uso da razão e dos sentidos. Aprender era lembrar-se; morrer era voltar ao ponto de partida e tornar ao primitivo estado: de felicidade, para os bons; de sofrimento, para os maus.

Cada alma possui um demônio, um Espírito familiar, que a inspira, com ela se comunica, lhe fala à consciência e a adverte do que tem que fazer ou que evitar. Firmemente convencido de que, por intermédio desses Espíritos, uma comunicação podia estabelecer-se entre o mundo dos vivos e os a quem chamamos mortos, Sócrates tinha um demônio, um Espírito familiar, que constantemente lhe falava e o guiava em todas as circunstâncias.20

“Sim – diz Lamartine – ele é inspirado, segundo o afirma e repete. Por que nos negaríamos a crer na palavra do homem que dava a vida por amor da verdade? Haverá muitos testemunhos que tenham o valor da palavra de Sócrates prestes a morrer? Sim, ele era inspirado... A verdade e a sabedoria não emanam de nós; descem do céu aos corações escolhidos, que Deus suscita, de acordo com as necessidades do tempo.” 21

O claro gênio dos gregos percebeu a necessidade de um intermediário entre a alma e o corpo. Para explicar a união da alma imaterial com o corpo terrestre, os filósofos da Hélade reconheceram a existência de uma substância mista, designada pelo nome de Ochema, que lhe servia de envoltório e que os oráculos denominavam o veículo leve, o corpo luminoso, o carro sutil. Falando daquilo que move a matéria, diz Hipócrates que o movimento é devido a uma força imortal, ignis, a que dá o nome de enormon, ou corpo fluídico.


Os primeiros cristãos


Foi à obrigação lógica de explicar a ação da alma sobre o invólucro físico que cederam os primeiros cristãos, acreditando na existência de uma substância mediadora. Aliás, não se compreende que o espírito seja puramente imaterial, porquanto, então, nenhum ponto de contacto o teria com a matéria física e não poderia existir, desde que deixasse de estar individualizado num corpo terrestre.

No conjunto das coisas, o indivíduo é sempre determinado pelas suas relações com outros seres; no espaço, pela forma corpórea; no tempo, pela memória.

O grande apóstolo S. Paulo fala várias vezes de um corpo espiritual,22 imponderável, incorruptível, e Orígenes, em seus Comentários sobre o Novo Testamento, afirma que esse corpo, dotado de uma virtude plástica, acompanha a alma em todas as suas existências e em todas as suas peregrinações, para penetrar e enformar os corpos mais ou menos grosseiros e materiais que ela reveste e que lhe são necessários no exercício de suas diversas vidas.

Eis aqui, segundo Pezzani, as opiniões de alguns pais da Igreja sobre essa questão.23

Orígenes e os pais alexandrinos, que sustentavam um a certeza, os outros a possibilidade de novas provas após a provação terrena, propunham a si mesmos a questão de saber qual o corpo que ressuscitaria no juízo final. Resolveram-na, atribuindo a ressurreição apenas ao corpo espiritual, como o fizeram S. Paulo e, mais tarde, o próprio Santo Agostinho, figurando como incorruptíveis, finos, tênues e soberanamente ágeis os corpos dos eleitos.24

Então, uma vez que esse corpo espiritual, companheiro inseparável da alma, representava, pela sua substância quintessenciada, todos os outros envoltórios grosseiros, que a alma pudera ter revestido temporariamente e que entregara ao apodrecimento e aos vermes nos mundos por onde passara; uma vez que esse corpo havia impregnado de sua energia todas as matérias para um uso limitado e transitório, o dogma da ressurreição da carne substancial recebia, dessa concepção sublime, brilhante confirmação. Concebido desse modo, o corpo espiritual representava todos os outros que somente mereciam o nome de corpo pela sua adjunção ao princípio vivificante da carne real, isto é, ao que os espíritas denominaram perispírito.25

Diz Tertuliano 26 que os anjos têm um corpo que lhes é próprio e que, como lhes é possível transfigurá-lo em carne humana, eles podem, por um certo tempo, fazer-se visíveis aos homens e comunicar-se com estes visivelmente. Da mesma maneira fala S. Basílio. Se bem haja ele dito algures que os anjos carecem de corpo, no tratado que escreveu sobre o Espírito Santo, avança que os anjos se tornam visíveis pela espécie de corpo que possuem, aparecendo aos que de tal coisa são dignos.

Nada há na criação, ensina Santo Hilário, que não seja corporal, quer se trate de coisas visíveis, quer de coisas invisíveis. As próprias almas, estejam ou não ligadas a um corpo, têm uma substância corpórea inerente à natureza delas, pela razão de que é necessário que toda coisa esteja nalguma coisa. Só Deus sendo incorpóreo, segundo S. Cirilo de Alexandria, só ele não pode estar circunscrito, enquanto que todas as criaturas o podem, ainda que seus corpos não se assemelhem aos nossos. Mesmo que os demônios sejam chamados animais aéreos, como lhes chama Apuleio, sê-lo-ão no sentido em que falava o grande bispo de Hipona, porque eles têm natureza corpórea, sendo uns e outros da mesma essência.27

S. Gregório, por seu lado, chama ao anjo um animal racional 28 e S. Bernardo nos dirige estas palavras: “Unicamente a Deus atribuamos a imortalidade, bem como a imaterialidade, porquanto só a sua natureza não precisa, nem para si mesma, nem para outrem, do auxílio de um instrumento corpóreo”.29 Essa era também, de certo modo, a opinião do grande Ambrósio de Milão, que a expunha nestes termos:

“Não imaginemos haja algum ser isento de matéria na sua composição, exceto, única e exclusivamente, a substância da adorável Trindade.” 30

O mestre das sentenças, Pedro Lombardo, deixava em aberto a questão; esposava, contudo, esta opinião de Santo Agostinho:

“Os anjos devem ter um corpo, ao qual, entretanto, não se acham sujeitos, corpo que eles, ao contrário, governam, por lhes estar submetido, transformando-o e imprimindo-lhe as formas que lhe queiram dar, para torná-lo apropriado aos atos deles.”


A escola neoplatônica


A escola neoplatônica de Alexandria foi notável de mais de um ponto de vista. Tentou a fusão dos filósofos do Oriente com a dos gregos e, dos trabalhos de Proclo, Plotino, Porfírio, Jâmblico, idéias novas surgiram sobre grande número de questões. Sem dúvida, a esses pesquisadores se pode reprochar uma tendência por demais excessiva para a misticidade; entretanto, mais do que quaisquer outros eles se aproximaram da verdade que hoje experimentalmente conhecemos.

As vidas sucessivas e o perispírito faziam parte do ensino deles. Em Plotino, como em Platão, à separação da alma e do corpo se achava ligada a idéia da metempsicose, ou metensomatose (pluralidade das vidas corpóreas).

“Perguntamos: qual é, nos animais, o princípio que os anima? Se é verdade, como dizem, que os corpos dos animais encerram almas humanas que pecaram, a parte dessas almas suscetível de separar-se não pertence intrinsecamente a tais corpos; assistindo-as, essa parte, a bem dizer, não lhes está presente. Neles, a sensação é comum à imagem da alma e ao corpo, mas, ao corpo, enquanto organizado e modelado pela imagem da alma. Quanto aos animais em cujos corpos não se haja introduzido uma alma humana, esses são engendrados por uma iluminação da alma universal.” 31

A passagem da alma humana pelos corpos dos seres inferiores é aqui apresentada sob forma dubitativa. Sabemos agora que nenhum recuo é possível na senda eterna do tornar-se, porquanto nenhum progresso seria real, se pudéssemos perder o que tenhamos adquirido pelo nosso esforço pessoal. A alma que chegou a vencer um vício, dele se libertou para sempre; é isso o que assegura a perfectibilidade do espírito e garante a felicidade futura para o ser que soube libertar-se das más paixões inerentes ao seu estado inferior. Plotino afirma claramente a reencarnação, isto é, a passagem da alma de um corpo humano para outros corpos.

“É crença universalmente admitida que a alma comete faltas, que as expia, que sofre punição nos infernos e passa em seguida por novos corpos.

Quando nos achamos na multiplicidade que o Universo encerra, somos punidos pelo nosso próprio desvio e pela seqüência de uma sorte menos feliz.

Os deuses dão a cada um a sorte que lhe convém, de harmonia com seus antecedentes, em suas sucessivas existências.” 32

Profundamente justo e verdadeiro é isto, porquanto, em nossas múltiplas vidas, defrontamos com dificuldades que temos de transpor, para chegarmos ao nosso melhoramento moral ou intelectual. Falso, porém, seria esse princípio, se o aplicássemos às condições sociais, porque, então, o rico teria merecido sê-lo e o pobre se acharia aqui em punição, o que é contrário ao que se observa cotidianamente, pois podemos comprovar que a virtude não constitui apanágio especial de nenhuma classe da sociedade.

“Há, para a alma – diz Porfírio –, duas maneiras de ser em um corpo: verifica-se uma delas quando a alma, já se encontrando num corpo celeste, sofre uma metamorfose, isto é, quando passa de um corpo aéreo ou ígneo a um corpo terrestre, migração a que de ordinário se chama metensomatose, porque não se vê donde vem a alma; a outra maneira se verifica quando a alma passa do estado incorpóreo a um corpo, seja qual for, e entra assim, pela primeira vez, em comunhão com o corpo. As almas descem do mundo inteligível ao primeiro céu; aí, tomam um corpo (espiritual) e, em virtude mesmo desse corpo, passam para corpos terrestres, segundo se distanciam mais ou menos do mundo inteligível.”

Esta doutrina Porfírio desenvolveu longamente em sua Teoria dos Inteligíveis, onde assim se exprime:

“Quando a alma sai do corpo sólido, não se separa do espírito que recebeu das esferas celestes.”

A mesma idéia se nos depara nos escritos de Proclo, que chama a esse espírito o veículo da alma.

De um estudo atento dessas doutrinas resulta que os neoplatônicos sentiram a necessidade de um invólucro sutil para a alma, em o qual se registram, se incorporam os estados do espírito. É, com efeito, indispensável que o espírito, através de suas vidas sucessivas, conserve os progressos que realizou, sem o que, a cada encarnação, ele se acharia como na primeira e recomeçaria perpetuamente a mesma vida.

Os poetas


A Idade Média herdou essas concepções, como se pode verificar pela seguinte passagem de A Divina Comédia:

“Logo que um sítio há sido assinado à alma (após a morte), sua faculdade positiva se lhe irradia em torno, do mesmo modo e tanto quanto o fazia, estando ela em seus membros vivos. Assim como a atmosfera, quando se acha bastante carregada de chuva e os raios vêm nela refletir-se, ornada se mostra de cores diversas, assim também o ar que a cerca toma a forma que a alma lhe imprime virtualmente, desde que nele se detém. Semelhante à chama que por toda parte acompanha o fogo, aonde quer que ele vá, essa forma nova acompanha a alma a todos os lugares. Porque daí tira ela a sua aparência, chamam-lhe sombra e ela, em seguida, organiza todos os sentidos, até o da vista.” 33

Unir o espírito à matéria constitui tanto uma obrigação para a inteligência, que os maiores poetas jamais a isso se furtaram; sempre revestiram de formas corpóreas os seres celestiais, cuja pura essência os órgãos dos sentidos não podem perceber. Milton, na Guerra dos Anjos, não hesitou em atribuir um corpo, ainda que sutil e aéreo, segundo entenderam de descrevê-lo, a esses seres extra-humanos que ele concebia como puramente espirituais por sua própria natureza. Eis como se exprime, em seu poema Paraíso Perdido, acerca dos anjos:

“Eles vivem inteiramente pelo coração, pela cabeça, pelo olho, pelo ouvido, pela inteligência, pelos sentidos; dão a si mesmos e a seu bel-prazer membros, e tomam a cor, a forma e a espessura, densa ou delgada, que prefiram.”

Também Ossian revestiu de formas sensíveis os espíritos aéreos, que ele cria ver nos vaporem da noite e nos bramidos da tempestade.

Klopstock, em sua Messíada, representou o corpo do Serafim Elohé como formado por um raio da manhã e o do anjo da morte como por uma vaga de chama numa nuvem tenebrosa. Precisou mais essa idéia na dissertação com que encabeçou o sexto livro da sua epopéia. Sustenta “ser muito verossímil que os Espíritos finitos, cuja ocupação habitual consiste em meditar sobre os corpos de que se compõe o mundo físico, são, também eles, revestidos de corpo” e que, em particular, se deve crer que os anjos, “de que Deus tão amiúde se serve para conduzir à felicidade os mortais, terão recebido qualquer espécie de corpo que corresponda aos dos eleitos, que o mesmo Deus chama a essa suprema felicidade”.

O penetrante gênio de Leibnitz não se enganou a esse respeito:

“Creio – diz ele –, com a maioria dos antigos, que todos os gênios, todas as almas, todas as substâncias simples criadas estão sempre juntas a um corpo e que não há almas destituídas jamais de um corpo... Acrescento que nenhum desarranjo dos órgãos visíveis será capaz de levar as coisas a uma inteira confusão no animal, ou a destruir todos os órgãos e privar a alma de todo o seu corpo orgânico e dos restos inapagáveis de todos os traços precedentes. Mas, a facilidade que houve em deixarem-se os corpos sutis com os anjos (que confundiam com a corporalidade dos próprios anjos) e a introdução de pseudo-inteligências separadas nas criaturas (para o que muito contribuíram as que fazem rolar os céus de Aristóteles) e, finalmente, a opinião mal-entendida, segundo a qual não se podiam conservar as almas dos animais, sem cair na metempsicose, fizeram, a meu ver, que se desprezasse o modo natural de explicar a conservação da alma.” 34

Mister se faz chegar até Carlos Bonnet 35 para se ter uma teoria que, conquanto não assente nos fatos, se aproxima singularmente da que o Espiritismo nos permitiu construir, baseada na experiência. Vamos citar livremente as passagens mais importantes de suas obras, relativas ao assunto. É de admirar-se a lógica potente desse pensador profundo que, há mais de cento e cinqüenta anos, encontrou as verdadeiras condições da imortalidade.

“Estudando com algum cuidado – diz ele – as faculdades do homem, observando-lhes as mútuas dependências ou a subordinação que as submete umas às outras e a seus objetos, logramos facilmente descobrir por que meios naturais elas se desenvolvem e aperfeiçoam neste mundo. Podemos, pois, conceber meios análogos mais eficazes, que levem essas faculdades a mais alto grau de perfeição.

O grau de perfeição que o homem neste mundo pode atingir está em relação com os meios que lhe são facultados para conhecer e agir. Também esses meios estão em relação direta com o mundo que ele atualmente habita.

Assim, uma vez que o homem era chamado a habitar sucessivamente dois mundos diferentes, sua constituição originária tinha que conter coisas relativas a esses dois mundos. O corpo animal tinha que estar em relação direta com o primeiro mundo, o corpo espiritual com o segundo.

Por dois meios principais poderão aperfeiçoar-se no mundo vindouro todas as faculdades do homem: mediante sentidos mais apurados e sentidos novos. Os sentidos são a fonte primária de todos os conhecimentos. As nossas idéias mais refletivas, mais abstratas derivam sempre das nossas idéias sensíveis.

O espírito nada cria, mas opera incessantemente sobre a multidão quase infinita de percepções diversas que ele adquire pelo ministério dos sentidos.

Dessas operações do espírito, que são sempre comparações, combinações, abstrações, nascem, por geração natural, todas as ciências e todas as artes.

Destinados a transmitir ao espírito as impressões dos objetos, os sentidos se acham em relação com estes. O olho está em relação com a luz, o ouvido com o som, etc.” 36

Quanto mais perfeitas, numerosas, diversas são as relações que os sentidos mantêm com os objetos, tanto mais qualidades destes elas manifestam ao espírito e, ainda, tanto mais claras, vivas e completas são as percepções dessas qualidades.

Quanto mais viva e completa é a idéia sensível que o espírito adquire de um objeto, tanto mais distinta é a idéia refletida que deste ele forma.

Concebemos, sem dificuldade, que os nossos sentidos atuais são suscetíveis de alcançar um grau de perfeição muito superior ao que lhes reconhecemos neste mundo e que nos espanta em certos indivíduos. Podemos mesmo formar idéia nítida desse acréscimo de perfeição, pelos prodigiosos efeitos dos instrumentos de óptica e de acústica.

Imagine-se Aristóteles a observar o microscópio, ou a contemplar Júpiter e suas luas com um telescópio. Quais não teriam sido a sua surpresa e o seu enlevo! Quais não serão também os nossos, quando, revestidos do nosso corpo espiritual, houverem ganho os nossos sentidos toda a perfeição que podem receber do benfazejo Autor do nosso ser!

Poderemos, se quisermos, imaginar que então os nossos olhos reunirão as vantagens do microscópio às do telescópio e que se ajustarão precisamente a todas as distâncias. Quão superiores serão as lentes dessas novas lunetas às de que a arte se gloria! Aos outros sentidos aplica-se o que acaba de ser dito do da vista. Quais não seriam os rápidos progressos das nossas ciências físico-matemáticas, se dado nos fosse descobrir os princípios primários dos corpos, quer fluidos, quer sólidos! Veríamos, então, por intuição, o que tentamos adivinhar com o auxílio de raciocínios e cálculos, tanto mais incertos, quanto mais imperfeito é o nosso conhecimento direto. Que infinidade de relações nos escapa, precisamente porque não podemos perceber a figura, as proporções, a disposição desses corpúsculos infinitamente pequenos sobre os quais, entretanto, repousa o grande edifício da natureza!

Muito difícil igualmente nos é conceber que o gérmen do corpo espiritual pode conter, desde já, os elementos orgânicos de novos sentidos, que somente na ressurreição se hão de desenvolver.37

Esses novos sentidos nos manifestarão nos corpos propriedades que neste mundo nos serão sempre desconhecidas. Que de qualidades sensíveis ainda ignoramos e que não descobriremos sem espanto! Não chegamos a conhecer as diferentes forças disseminadas na natureza, a não ser em relação aos diferentes sentidos sobre os quais elas exercem sua ação. Quantas forças, de que não suspeitamos sequer a existência, porque nenhuma relação existe entre as idéias que adquirimos com os nossos cinco sentidos e as que somente com outros sentidos poderemos adquirir! 38

Ergamos o olhar para a abóbada estrelada; contemplemos essa coleção imensa de sóis e de mundos pulverizados no espaço e admiremos que este vermezinho a que se dá o nome de homem tenha uma razão capaz de penetrar na existência desses mundos e de lançar-se assim até aos extremos da criação!

Insistindo logicamente no que para ele era uma hipótese, mas que para nós é uma certeza experimental, acrescenta aquele autor:

“Se o nosso conhecimento refletido deriva essencialmente do nosso conhecimento intuitivo; se as nossas riquezas intelectuais aumentam pelas comparações que estabelecemos entre as nossas idéias sensíveis de todo gênero; se quanto mais comparamos, tanto mais conhecemos; se, finalmente, a nossa inteligência se desenvolve e aperfeiçoa à medida que as nossas comparações se estendem, diversificam, multiplicam, quais não serão o acréscimo e o apuro dos nossos conhecimentos naturais, quando já não estivermos limitados a comparar indivíduos com indivíduos, espécies com espécies, reinos com reinos e nos for dado comparar os mundos com os mundos!

Se a Inteligência suprema variou neste mundo todas as suas obras; se não criou coisas idênticas; se harmônica progressão reina entre todos os seres terrenos; se uma mesma cadeia os prende a todos, como não há de ser provável que essa mesma cadeia maravilhosa se prolongue por todos os mundos planetários, que os una todos e que eles não sejam mais do que partes consecutivas e infinitesimais da mesma série.39

De que sentimento não se verá inundada nossa alma, quando, após haver estudado a fundo a economia de um mundo, voarmos para outro e compararmos entre si essas duas economias! Qual não será então a perfeição da nossa cosmologia! Quais não serão a generalização e a fecundidade dos nossos princípios, o encadeamento, a multidão e a justeza das nossas conseqüências. Que luz não se irradiará de tantos objetos diversos sobre os outros ramos dos nossos conhecimentos, sobre a nossa astronomia, sobre as nossas ciências racionais e, principalmente, sobre essa ciência divina, que se ocupa com o Ser dos seres!”

Estas induções, tão bem estabelecidas pelo raciocínio, se acham plenamente justificadas em nossa época. Já no organismo humano existe o corpo destinado a uma vida superior; desempenha aí um papel de primeira ordem e é graças a ele que podemos conservar o tesouro das nossas aquisições intelectuais. Mais adiante comprovaremos que o perispírito é uma realidade física tão certa quanto a do organismo material: ele é visto, tocado, fotografado. Numa palavra: o que não passava de teoria filosófica, grandiosa e consoladora, mas sempre negável, é exato, tornou-se um fato científico, que oferece àqueles remígios do espírito a consagração inatacável da experiência.




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