França 1940 a catástrofe



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França - 1940

A catástrofe

 

 



A queda da França foi uma das maiores catástrofes de nossa época. E surgiu da brecha entre o Mosa e as Ardenas quando o poderio blindado germânico rompeu as posições francesas mais vulneráveis, atingiu a Mancha e envolveu os exércitos aliados, destruindo sua capacidade combativa.

John Williams

 

A vitória mais fácil da História

 

A França caiu em pouco menos de seis semanas de iniciada a ofensiva alemã no Ocidente, a 10 de maio de 1940. Mas a questão já estava resolvida nos seis primeiros dias, e resultou numa guerra que durou seis anos, espalhou-se pelo mundo inteiro e teve efeitos importantes sobre incontável número de pessoas e conseqüências espantosas para muitos milhões.



 

Mas o sucesso inicial da Alemanha estava longe de ser inevitável, embora pudesse parecer assim depois dos acontecimentos. Na verdade, teria sido muito fácil impedi-lo.

 

A ninguém é lícito atribuir a vitória germânica a uma superioridade avassaladora de suas forças. A Alemanha não mobilizou tantos homens quanto seus adversários - à custa da produção de armas desses últimos. É verdade que os alemães conseguiram formar e equipar maior número de divisões que os franceses, mas, em relação a seus adversários todos, no Ocidente, não levava qualquer vantagem, numericamente falando. O que, afinal, não tinha grande importância, pois a questão na realidade foi decidida pela performance de uma elite de 8% do seu exército - as dez divisões blindadas - as Panzerdivisionen - antes que o grosso de suas forças armadas tivesse entrado em ação.



 

Superestimou-se muito o volume de blindados alemães, na época. Embora os franceses calculassem um total de 7 a 8 mil tanques, sabe-se que o Exército alemão tinha menos da metade desse número - menos de 2.600 foram usados na primeira fase, a decisiva da invasão. Os franceses tinham muito mais tanques, mas não eram tão móveis e a maior parte deles espalhava-se em pequenos grupos, e não se concentrava para um ataque poderoso. Os generais franceses ainda se apegavam à idéia corrente em 1918, de que os tanques eram auxiliares da infantaria. Hitler, ao contrário, dava ouvidos a Guderian, o líder da nova escola, para quem a divisão blindada devia ser a ponta de lança do exército.

 

Hitler também dava grande importância ao poderio aéreo, e sua superioridade em números era enorme - quase 3 para 1. Treinando os seus muitos bombardeiros de mergulho - Stukas - para o apoio ao trabalho dos tanques, colherem os germânicos excelentes resultados. Os chefes militares franceses negligenciaram o poderio aéreo, e só tarde demais tentaram remediar o mal.



 

Depois de terem cruzado o Mosa, os tanques avançaram pelas estradas que conduziam ao oeste, sem encontrar quase nenhuma oposição. Numa semana haviam atingido a costa do Canal da Mancha, a 250 km de distância, e isolado os exércitos aliados, na Bélgica. Os resultados foram a retirada de Dunquerque e a queda da França, a vitória mais fácil da História.

 

O ritmo verdadeiramente infernal da guerra - ritmo imposto pelos Panzer - como que paralisou o Estado-Maior francês, entregue ainda ao compasso de 1918. As ordens por ele emitidas poderiam terem sido eficazes, se não fossem sempre dadas 24 horas depois de terminada a situação que pretendiam enfrentar.



 

Outra razão para o desastre da França: a preocupação do Estado-Maior em montar contra-ataques maciços, em lugar de procurar rapidamente guarnecer as linhas de resistência. Vezes sem conta os alemães cruzavam essas linhas enquanto as reservas francesas se agrupavam gradativamente nos flancos. O Estado-Maior francês se contentava em obedecer a uma velha teoria ofensiva, independente do que estivesse ocorrendo na prática.

 

Os estadistas da França e Inglaterra haviam facilitado o caminho de Hitler, por não lograrem ver qual seria o resultado da sua política. Também os militares foram imprevidentes. O colapso de 1940 foi basicamente o resultado da maneira como a ortodoxia militar prevaleceu sobre as idéias modernas, não só naquele momento, como também nos 20 anos anteriores. Franceses e britânicos - excetuando-se pequeno grupo de estrategistas modernos, que pregavam a idéia da guerra mecanizada e altamente móvel - permaneceram muito conservadores, desde a vitória de 1918. Quanto aos alemães, desprezados pela derrota, revelaram-se progressistas. Esta é a chave do que aconteceu nos campos de batalha de 1940.



 

Neste livro, John Williams destroi muitos mitos. Ao mesmo tempo em que, com uma narrativa inteligente e esclarecedora, aprofunda um estudo dos dramáticos acontecimentos de 1940.

 

 

 



Os planos rivais

 

Na manhã tranqüila e clara de sexta-feira, 10 de maio de 1940, forças maciças da Alemanha de Hitler irromperam pelas fronteiras da Holanda, Bélgica e Luxemburgo para pôr fim à longa inércia da “guerra falsa” que, à parte a invasão da Noruega e Dinamarca, no mês anterior, vinha persistindo desde o começo da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939. Iniciava ali a grande Batalha do Ocidente.



 

Na França ainda não houvera invasão: os ataques limitavam-se a incursões de bombardeio que penetravam profundamente o território francês. No QG Supremo em Vincennes, a oeste de Paris, relatórios sobre as atividades inimigas estavam chegando desde a 1 hora da manhã. Cinco horas depois, dissipada qualquer possibilidade de ter havido alarme falso, o General Gamelin, Comandante-Chefe aliado, mandou dos seus escritórios, nas sombrias casamatas de Vincennes, a ordem histórica: “Holanda-Bélgica, manobra Dyle”, que poria em movimento a grande maquinaria avançada dos exércitos anglo-franceses para suas posições de batalha, previamente designadas, na Holanda e na Bélgica.

 

Chegado o momento, o General Maurice Gamelin, de 67 anos de idade e conhecido pela sua serenidade, parecia muito confiante. Um oficial do estado-maior que chegara a Vincennes nunca o vira tão alegre. De estatura baixa e atarracada, o general percorria o corredor do QG, “trauteando calmamente uma melodia marcial”. Mal saíra o sol naquela manhã, já ele expressava seu otimismo às tropas em sua primeira “Ordem do Dia”: “O ataque que prevíramos desde outubro foi desfechado esta manhã. A Alemanha inicia contra nós uma luta de vida ou morte. A senha para a França e seu aliados é: Coragem, energia e confiança. Como o Marechal Pétain disse, há 24 anos: nós os pegaremos”.



 

Não há dúvidas de que “coragem, energia e confiança” era excelente brado de guerra e que as perspetivas de ação, depois de meses de tédio e espera, eram um tônico para o moral dos franceses e britânicos ao se prepararem para sua movimentação rumo ao norte, onde enfrentariam o inimigo. Mas, enquanto a formidável máquina bélica alemã se avolumava nas fronteiras holandesa, belga e luxemburguesa, nas primeiras horas de 10 de maio, qual era exatamente o plano estratégico dos exércitos aliados?

 

Em setembro de 1939, os Estados-Maiores-Gerais aliados (anglo-franceses) haviam aperfeiçoado um plano conhecido como “Plano D” ou “Plano Dyle” (nome de um rio belga). Estruturado na suposição de que, como acontecera em 1914, os alemães avançariam pela Bélgica, quando atacassem no Ocidente, o plano especificava, como contra-ataque, um avanço anglo-francês que, partindo da fronteira francesa, penetraria na Bélgica para ocupar uma linha baseada no rio Dyle. Os planejadores estavam prejudicados pela atitude estritamente neutra dos belgas (e holandeses), que impediam a entrada de tropas aliadas em seus territórios antes de um ataque alemão. Contudo, o “Plano D” levava em conta a penetração de ambos os territórios.



 

Haveria cinco exércitos envolvidos no plano, do sul para o norte - o 9° exército francês, o 1° exército francês, a Força Expedicionária Britânica (FEB), o próprio exército belga e o 7° exército francês (que ocuparia a linha Breda-St Leonard, do outro lado da fronteira holandesa). Depois do ataque alemão inicial, essas tropas ocupariam as seguintes posições (com os belgas já no local) do sul para o norte: o 9° exército francês, Namur-Wavre; a FEB, Wavre-Louvain; o exército belga, Louvain-Antuérpia; o 7° exército francês, Turnhout-Breda (Ao norte do 7° exército, a Holanda seria protegida pelo exército holandês). Assim, juntamente com o exército belga, um exército britânico e três franceses confrontariam os alemães numa linha de 160 km, baseada em barreiras fluviais e enrijecida por fortificações que atravessavam toda a Bélgica, no sentido da largura, e penetravam na Holanda.

 

Ao preparar o “Plano D”, os encarregados de sua elaboração haviam admitido que o principal assalto alemão se daria nas planícies belgas ao norte de Namur, ignorando região ao sul de Namur - o terreno acidentado e boscoso das Ardenas e o rio Mosa com suas margens alcantiladas - por julgarem que ele não oferecia nenhuma ameaça séria. “Esse setor não é perigoso”, dissera o Marechal Pétain a uma Comissão do Exército, em 1934. Como resultado lógico desse raciocínio, a decisão do “Plano D” - tão fatídico para os aliados - foi colocar os dois mais poderosos exércitos franceses, os 7° e o 1°, ao norte de Namur, e o mais fraco ao sul.



 

Mas, durante os meses de trégua intranqüila no Ocidente, Hitler estivera fazendo seus planos. Na verdade, o plano original da invasão alemã previa um movimento desbordante pela Bélgica Central (seguindo as diretrizes do “Plano Schlieffen” de 1914), conforme estipulado na primeira versão do “Plano Amarelo” alemão, preparado em meados de outubro de 1939. Este plano especificava uma operação subsidiária pelas Ardenas. Mas um general alemão, Erich von Manstein - Chefe do Estado-Maior do General von Rundstedt, comandante do Grupo de Exércitos “A”, que fora destacado para a ação nas Ardenas - não aprovava esse plano. Prevendo que a Bélgica Central seria intensamente defendida, ele queria que o Grupo de Exércitos “A” desfechasse o ataque principal no setor menos protegido das Ardenas-Mosa. Mas, não seria para os tanques um obstáculo grave o terreno notoriamente difícil daquela região? Quanto a esse problema, Manstein consultou o perito em blindados, General Heinz Guderian, que, depois de cuidadoso estudo, considerou a operação viável.

 

O próprio Rundstedt já agora aceitava a proposição e, juntamente com Manstein, recomendaram-na ao OKH (o Alto-Comando do Exército alemão), mas sem êxito. A idéia teria sido totalmente abandonada, mas Manstein - transferido para outro lugar por ser incômodo ao OKH - por acaso jantou com Hitler em fevereiro, e na oportunidade explicou-lhe seu plano. O Fuhrer, que tinha dúvidas quanto ao esquema original, em parte porque fora revelado aos aliados, através de planos alemães capturados na Bélgica no mês anterior, (Em janeiro de 1940, dois oficiais alemães, portadores dos planos completos da invasão se perderam, com seu avião, na bruma, fazendo pouso forçado. Ao verificarem que se encontravam na Holanda, tentaram atear fogo aos planos, mas foram violentamente obstados por policiais que haviam acorrido numa viatura. Os planos foram revelados pelo governo holandês aos belgas, franceses e ingleses, mas, como sempre sucede, foram considerados um despistamento. Aos poucos a espionagem alemã foi verificando que as potências ameaçadas não tinham dado crédito à sua boa sorte, e Hitler decidiu manter os planos) ficou muito impressionado e adotou imediatamente o plano das Ardenas de Manstein, incorporando-o em sua Diretiva de Guerra n° 10, de 18 de fevereiro de 1940. Uma semana depois, promulgou-se o “Plano Amarelo”, em sua quinta e última forma, que dava ao Grupo de Exércitos “A” de Rundstedt o papel principal na próxima ofensiva. Aumentado para 44 divisões, 7 das quais blindadas, o grupo devia atravessar as Ardenas, cruzar o Mosa, entre Sedan (na França) e Dinant (na Bélgica), e estabelecer cabeças-de-ponte destinadas a avançar para o Canal da Mancha. Como já observamos, o mais fraco dos exércitos franceses é que se poria a essa força maciça. Assim - golpe fatídico do destino ou raciocínio brilhante de Manstein? - os planejadores franceses foram superados, assegurando-se virtualmente o envolvimento, na Bélgica, de grande parte dos exércitos aliados antes de iniciada a ofensiva.



 

Outros fatores, porém, pesavam contra a França, nesse crítico 10 de maio. Embora fisicamente mobilizado para a guerra, o país ressentia-se da falta da unidade e da determinação necessária para o duelo terrível. Além disso, a longa trégua da “guerra falsa” servira para eliminar o senso de urgência que a dominara em setembro de 1939 - e talvez tivesse criado um estado de falso otimismo e de confiança excessiva. Mas, por trás de tudo, inibindo esforços necessaríssimos na emergência, havia profunda aversão à guerra, criada pelos seus antigos conflitos com seu velho inimigo e vizinho mais poderoso, a Alemanha.

 

Derrotada na Guerra Franco-Prussiana de 1870 e sofrendo danos imensos nas mãos da Alemanha, na Primeira Guerra, a França desde então se preocupava com a segurança - que se expressava militarmente numa estratégia defensiva na construção da grande “Linha Maginot”- a barreira mágica que deteria o agressor alemão para sempre.



 

O raciocínio em que se basearam os idealizadores da “Linha Maginot” era lógico. No final da Primeira Guerra decidida a nunca mais sofrer invasão alemã, a França viu-se diante de um problema extra de defesa, a proteção das recém-recuperadas províncias da Alsácia-Lorena, que ela perdera como resultado da guerra de 1870. A região era vital para a França, por produzir carvão e potassa. Para evitar sua destruição, no caso de qualquer ataque da Alemanha, elas teriam de ser defendidas na fronteira. Até a chegada de tropas pela retaguarda, afirmava-se que o melhor meio de fazer uma defesa imediata era um sistema fortificado permanente. Do nome de um veterano de guerra, ferido no primeiro conflito mundial, natural da Lorena, André Maginot, saiu a sua denominação. Como Ministro da Guerra em 1922 convencido de que uma Alemanha pacífica e amistosa seria uma irrealidade, iniciou André Maginot campanha para que se providenciassem as defesas da Alsácia-Lorena. Durante toda a década de 1920, ele e seu sucessor, Paul Painlevé, trabalharam energicamente para que seu plano fosse posto em prática, enquanto que os mestres do Estado-Maior Geral ponderavam indecisamente sobre o tipo de defesa que se deveria construir, e sua extensão.

 

Dois grandes líderes franceses da Primeira Guerra contribuíram para a tomada da decisão: os Marechais Joffre e Pétain, cujas opiniões sobre a questão eram antagônicas. Joffre (Presidente da Comissão para Áreas Fortificadas no pós-guerra), propunha um série de fortificações separadas, desde o mar do Norte até a fronteira suíça, entre as quais se poderiam desfechar ataques em grande escala. Por outro lado, Pétain (Vice-Presidente do Conselho do Exército e Inspetor-Geral do Exército) optava por um sistema defensivo ininterrupto, para proteger somente a fronteira nordeste. O plano adotado em 1928, depois de muita discussão, foi um meio-termo. As regiões fortificadas sugeridas por Joffre seriam ligadas às defesas contínuas propostas por Pétain, num sistema que cobriria o Reno e a região nordeste. Assim, eliminado o conceito da “ofensiva” e aceito o sistema de defesas ininterruptas, predominavam as idéias de Pétain, que punha a defesa acima de todas as outras considerações (Henri Philippe Pétain - 1856-1951 - fora chamado ao comando do setor de Verdun em 1916, quando esta frente se rompeu catastroficamente pelo grande assalto de Falkenhayn, em fevereiro. A monstruosa hecatombe que se seguiu até outubro traumatizou o excelente homem e general, um dos poucos naquela guerra que não considerava seus soldados como simples estatísticas. E estes o sentiam: sabiam que o já velho Pétain procuraria sempre poupar suas vidas. Sua magnífica ação no domínio dos grandes motins do Exército francês, em 1917, com firmeza temperada com brandura, também não fora esquecida. O papel de Pétain à testa do governo francês de Vichy deve ser visto sob uma dupla luz: seu horror as mortíferas ofensivas, que o tornaram um conciliado e pacifista a todo o preço, e a confiança que inspirava à geração dos veteranos, transmitida também, por estes, às novas gerações. Tratava-se, porém, de um pobre velho já despido de resolução e raciocínio criativo).



 

A construção da “Linha Maginot” só terminou em 1938, devido a questões financeiras e outras dificuldades que atrasaram os trabalhos. A França tinha agora um grande bastião fortificado, de concreto e aço, a proteger (em diferentes profundidades e poderio) suas fronteiras norte e nordeste, da Basiléia a Montmédy. Não se planejou estender a linha para além de Montmédy porque, como se afirmava, a fronteira franco-belga estava muito próxima de centros vitais, como Lille, e porque o subsolo parecia inadequado para estrutura de concreto maciças. Além disso, as autoridades francesas receavam que o prolongamento da fortificação pudesse dar aos belgas a impressão de que a França seria indiferente a qualquer ataque desferido contra seu país.

 

Por mais valioso que fossem esses fatores, a fraqueza básica da “Linha Maginot” tornava-se patente agora. Por terminar em Montmédy, era uma linha da qual se poderia desviar, “perigoso compromisso, com uma ponta apoiada no vácuo”. Além disso, a estratégia defensiva de Pétain agora parecia ser fundamentalmente incoerente, porque criara uma linha híbrida de defesa, desde o Canal da Mancha até a Basiléia, dependendo de fortificações estáticas num trecho da sua extensão e, no outro, de mobilidade de tropas que só seria eficaz se tivesse a ponta-de-lança de uma arma específica. A formação desta arma, a força blindada, vinha sendo sistematicamente rejeitada pelo Parlamento e pelo Estado-Maior-Geral desde que fora sugerida, em 1934, por um militar de excelente formação profissional, o Tenente-Coronel Charles de Gaulle. Em lugar desta arma essencial para o tipo de guerra em que a França provavelmente seria envolvida por uma Alemanha agressiva, o exército francês admitia o emprego da mesma infantaria, dos mesmos processos vigentes na Primeira Guerra. Em outras palavras, quer os franceses planejassem ou não cruzar a fronteira e penetrar na Bélgica para contra-atacar um assalto alemão, eles estavam - do Canal da Mancha a Montmédy - comprometidos com uma guerra moderna de movimento, para a qual estavam totalmente despreparados.



 

Eram estas as deficiências provocadas pela dedicação da França à defesa passiva, e pela sua recusa em adotar técnicas ofensivas modernas. Ao mesmo tempo, ela era atribulada por problemas políticos, e carente de uma liderança vigorosa, cada vez mais sucumbia ao pacifismo e ao derrotismo. Tudo isso era mau presságio para sua capacidade bélica ao se confrontar novamente com a Alemanha em setembro de 1939.

 

Mas seus soldados haviam respondido à convocação com um senso sombrio de propósito: “Temos de acabar com isso”, era o brado. Os homens estavam “prontos para o heroísmo”, escreveu um correspondente, “mas não para fanfarronadas”. Mas, infelizmente para o exército francês, em vez de lutar, foi condenado a ficar na ociosidade, e numa rotina de tempo de paz, durante quase 8 meses de guerra. Seu espírito de luta foi gradativamente solapado pela ausência de ação, por falsas esperanças de que Hitler talvez não atacasse, pela propaganda que os alemães faziam, com panfletos e alto-falantes, das suas linhas e mesmo por palavras derrotistas na própria retaguarda francesa (Com a assinatura do acordo entre Hitler e Stalin, em 23 de agosto, 7 dias antes de iniciar a guerra com a invasão da Polônia, o Partido Comunista francês, como o dos outros países, cindiu-se. Mas aos poucos a “disciplina monolítica” de Moscou reafirmou-se. Era grande a influência comunista na França, recém-saída dos governos da Frente Popular. A “Linha do Partido” era o apoio à Alemanha e à propaganda pacifista. Em virtude do pacto que colocava os comunistas como aliados dos nazistas, o governo francês suspendeu os jornais comunistas desde 26 de agosto. No inicio, Moscou deixou os comunistas à vontade para agir, e os parlamentares comunistas aprovaram as medidas de guerra; o secretário-geral Thorez declarou: “O essencial é que a guerra se desfeche, sem tocar à Rússia”, frase reveladora. Quando, 20 dias depois, a Rússia invadiu e partilhou a Polônia com a Alemanha, os chefes comunistas não mais puderam abstrair a associação da sua “pátria socialista” com a Alemanha nazista, e isto coincidiu com as instruções recebidas de Moscou para desfechar grande campanha mundial pela paz. Com isto, a indignação e as rupturas foram profundas, inclusive da poderosa Confederação Geral do Trabalho - ate; então dominada pelos comunistas - que com muitos outros preferiu continuar a luta contra o nazismo a ter que seguir a trela de Moscou. Em 27 de setembro foi dissolvido na França o Partido Comunista e proibidas todas as suas atividades paralelas, com o afastamento de altos funcionários e parlamentares. A atitude geral dos comunistas franceses foi a da colaboração com os alemães, até o momento em que estes invadiram a “pátria do socialismo”, em junho de 1941. Mas a atuação comunista na França, desastrosa, por se considerarem aliados de Hitler, somou-se à atuação de grande número de partidos e grupos de pressão de direita, dos mais variados matizes).



 

Quando da mobilização, o exército de campanha francês tinha 2.776.000 homens e seu Exército do Interior 2.224.000 homens. O problema do Alto-Comando francês era como empregar essas forças imensas. As únicas possibilidades eram o treinamento e o trabalho de defesa: mas essas atividades foram seriamente prejudicadas pelo frio intenso do inverno 1939/40. Outra desvantagem era o moral e da disciplina ruins de muitas das tropas mais velhas de reservistas (que formavam quatro quintos do exército francês). Além disso, os oficiais de tropa e os graduados muitas vezes careciam de autoridade ou tinham pouca experiência. também as altas patentes careciam de vigor e élan, e esses defeitos atingiam até o QG Supremo onde o próprio General Gamelin não estava ciente de qualquer fraqueza no exército, conforme confessou.

 

Igualmente sério, durante os meses da “guerra falsa”, foi o fato de os franceses ignorarem as lições da recente campanha polonesa, na qual a Alemanha derrotou a Polônia em pouco menos de um mês. Embora fosse evidente, pelo exemplo dado pela Polônia, que os tanques dominavam o campo de batalha, o Alto-Comando francês ainda lhe conferia o papel de coadjuvante da infantaria na execução do “Plano D”. Embora a produção de tanques atingisse os 3.000 em maio de 1940 - mais ou menos igual à alemã - os tanques franceses eram mal adaptados para a moderna guerra móvel, pois eram lentos, pesados e desajeitados, em comparação com os tanques alemães, cuja blindagem e poder de fogo eram leves, e eram construídos apenas para obter velocidade e alcance. (Segundo o historiador militar Adolphe Goutard, em seu livro La Bataille de France, 1940, os tipos principais de tanques franceses eram os médio-leves R35 e H35, o médio-leve Somua 36 e os pesados B1 e B2, além dos H39 e R40. Os principais tipos alemães eram os PzKpfw I, II, III e IV).



 

Os franceses também não perceberam o importante papel ofensivo do avião, que a campanha da Polônia demonstrou. Enquanto os alemães tinham mais de 3.000 aviões em maio de 1940, incluindo 400 bombardeiros de mergulho Stuka, a França dispunha de uns 1.200 e não tinham nenhum outro bombardeiro de mergulho. Isto representava uma superioridade alemã de 3 para 1, embora o poderio de combate fosse mais ou menos igual, se os 130 caças britânicos que estariam nas bases da França em maio de 1940 fossem incluídos - um total de 800 aparelhos aliados, mais ou menos, em comparação com os 1.000 alemães. Mas, em velocidade, os alemães ficaram com a vantagem de seus Messerschmitts (Me 109 e Me 110) capazes de atingir 580 km/hora, em comparação com os 490 km/hora do Curtiss francês , os 480 km/hora do Potez e Morane e 573 km/hora dos Hurricanes que estavam em bases francesas. Em maio de1940, a França estaria muito inferiorizada em bombardeiros médios: apenas 150 contra os 1.470 da Alemanha.

 

Sua posição na artilharia não seria melhor - menos de 3.000 canhões antiaéreos, em comparação com os 9.300 da Alemanha; e a produção francesa de canhões antitanques, não mais de 8.000, estaria muito abaixo das necessidades. Só na artilharia de campanha - a arma de que se orgulhava - a França superaria a Alemanha; em maio ela disporia de mais de 11.000 canhões de todos os calibres, de 75mm a 280mm, em comparação com os 7.700 da Alemanha. Mas mesmo isto não era uma vantagem real, pois a maior parte da artilharia francesa era puxada a cavalos; portanto, inadequada para operações de alta mobilidade.



 

Era diante de todas essas fraquezas e deficiências que o General Gamelin trauteava satisfeito sua melodia marcial, nas casamatas de Vincennes, a 10 de maio. Mas se ele estava confiante na prontidão militar da França, seu governo tinha muito menos confiança nele. Paul Reynaud, que sucedera a Edouard Daladier como primeiro-ministro, em março de 1940, estava muito insatisfeito com a maneira como Gamelin cuidara da parte francesa na recente expedição aliada na Noruega, e resolvera destituí-lo do comando. Reynaud apresentou a questão ao Gabinete a 9 de maio - menos de 24 horas antes do ataque alemão. A maioria o apoiava, mas Daladier, o Ministro da Defesa Nacional e da Guerra, e o amigo mais firme de Gamelin, foi contrário. Numa atmosfera de crise, Reynaud decidiu renunciar, mas as notícias da ofensiva alemã fizeram-no mudar de idéia e reconsiderar sua atitude com relação a Gamelin. Enviou então, uma carta ao general em que frisava: “... apenas uma coisa é importante - a vitória”. Gamelin respondeu: “... só a França é importante”.

 




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