Foram três longos meses após a demissão para que (nome) entrasse no quarto completamente bêbado e começasse a redigir a carta



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Encontro02.07.2019
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O cuidador havia aprendido que não precisava esconder nada daquele homem após anos de conversa. Mas mesmo assim, falar do que aquelas conversas causavam não era papel que se dignasse a descrever a com palavras. Por isso mesmo optou pela verdade, achando que estaria enterrando ali, de vez, aqueles momentos mórbidos de esclarecimento.

  • Desde que começamos a nos falar eu venho... questionando. Minha vida inteira foi realmente muito simples, mas ainda assim eu tinha calma, eu tinha segurança. Agora que tenho a chance de um emprego melhor, que minhas crises internas foram resolvidas, bem, cada conversa com você traz uma dose forte de desconforto, de que tem algo errado no que eu to fazendo. Tem algo me pedindo mais. As pessoas têm sim perdido parte da graça delas, na mesmice das coisas atuais e você está sempre um passo à frente delas, me fazendo rir delas aqui mas me desesperar lá fora. E, bem, sinto mutio, mas não quero um cárcere desses para mim que tenho escolha.

  • Ah meu caro, sentirei sua falta aqui, mas não acho que será tão simples quanto você pensa.

  • O quê?

  • Você claramente veio aqui para esse local por um desprezo inconfesso pelas coisas ao redor e dentro de você há um desejo de mudança, uma mudança que seguirá as notas da sua sinfonia. Você é um artista, meu rapaz. Um artista que tem escrito uma obra fascinante ao meu lado. Mas ainda não vejo em você a capacidade de atingir as musas sem esse intermédio.

  • Muita arrogância de sua parte não?

  • Seria arrogância se não estivesse certo. Mas você não conseguirá dormir, não conseguirá acalmar as coisas que sempre traz para mim. Não vai conseguir entender o porque da sua recém descoberta frieza, distante de minha antiga chama. Meus desejos inconfessos por matar você, tão dedicado, tão ao alcance, denotam algo que você nunca entenderá plenamente, mas você se sentirá obrigado a entender. E sua solidão cobrará isso alto, pois você não abrirá isso com mais ninguém. E você vai me odiar, enquanto eu... vou te amar ainda mais.

O cuidador só podia rir ali, plenamente consciente de que suas ações jamais chegariam aquele patamar. O homem mexia com ele, mas agora que teria novo emprego, novos lugares, enterraria com segurança seu passado. E assim se despediu do paciente de cinco anos, seguro de si.

As cartas posteriores provavam novamente que o paciente acertara mais uma vez. O cuidador, no entanto, não queria dialogar mais cara a cara. Queria poder pensar com cautela em cada resposta. Faria o máximo possível para que cada palavra das cartas soassem como saídas de sua boca, mas deixaria claro que teve tempo de mastigar o que lhe era dito.

3

Cuidador



Cap. 1
Generosamente, enviei ao destinatário frutas de época. Estavam com mais uma carta.

21/10

Ana dormiu aqui novamente. Fico em êxtase com cada palavra da moça sobre mim, imaginando que agora que tenho meu curso superior sou de valor, ao menos o suficiente para ela. E ao menos até a próxima estação. Falando em estações, espero que goste dos cajus.

23/10

Ana é uma graça. Tão jovem, foi tão longe que nem viu o que deixou para trás na velocidade de meteoro que atingiu para ser a real menina dos olhos de seu pai. E acho engraçado esse sarcasmo em suas palavras, considerando que ela está bem acima na cadeia alimentar e que, enquanto isso era mais explícito, você caía de amores por ela. Aliás, lembro bem da moça ser causa de polução noturna sua.

O maldito não perdia um detalhe. Não quero nem imaginar quantas vezes o bastardo se masturbou com essa imagem na cabeça, se é que sobrou algum desejo sexual nele depois de tanto remédio, mas podia imaginar o homem saboreando sua visão vencedora. Ana Maria realmente era algo para causar polução noturna se você é assalariado e fodido sem tempo nem para foder e cansado demais pra se virar sozinho, mas o que importava ali era saber que ele estava de olho em meus passos, que gravava cada palavra minha, que vivia para me analisar desde que leu meu diário, guardando consigo escrito em punho as palavras daquele momento dos meus doze anos. Aquilo me amedrontava, mas agora me amedronta apenas como um cão olhando uma ave que não posso ver. Cinco anos, não era pouco o tempo de conversa acumulada para saber que o mundo daquele homem tinha bem menos perspectiva que o meu e que, oculto em sombras, eu poderia ver um aviário muito maior.


Cap. 2
Era importante que eu mantivesse o homem num estado em que os fatos não fossem verdadeiros. Era claro que Ana Maria nada tinha comigo naquele momento, apenas via a moça vez ou outra nas boates ou cafés da cidade, vivos até as mais altas horas, como a moça, que ficava viva à base de anfetaminas até tal horas.

Mas comecei a destilar um suposto relacionamento entre eu e Ana Maria que deveria ser mantido em segredo por motivos óbvios. O homem tinha todo o dinheiro do mundo, mas já estava há quase duas décadas com síndrome do pânico e seus nomes nas colunas sociais não surgiam nem mesmo para piada. Possivelmente já havia um óbito escrito para ele em algum jornal proeminente, esperando que aquele pilar de saúde e lucidez pudesse padecer de tédio modorrento (e começo a rir imaginando um legista atestando taedium como causa mortis)

Mas se queria que a impressão causada dos contatos permanecesse essa, acho que fui mal sucedido. O homem pouco falava dos meus fatos nas cartas e mesmo que só pudesse imaginar seu riso cínico por trás da caneta, ainda sentia uma admiração profunda que um homem tão dopado pudesse ser tão significativamente evoluído. E isso acabava respingando em minhas palavras presentes nas cartas. Não gostava, claro, mas nada podia fazer se queria deixar o homem à vontade.



01/11

Você é sempre tão... certo. Não imaginava isso para pessoas como você, mas nenhuma engrenagem parece escapar da sua visão. Achava que era prerrogativa da idade, mas a sua nem é das mais avançadas. Onde você achou tanta iluminação?

Obs: estive relendo você, não sei onde quer chegar, mas nunca tive tanta segurança da capacidade de alguém em conduzir uma vida.

03/11

Prerrogativa da idade? Prerrogativa da idade não é amadurecimento, é envelhecimento físico. O que sempre permeou minha cabeça foram problemas que precisavam ser resolvidos e eu creio ter chegado num ponto de resolução que me prendeu a esse estado atual. De que adiantou entender tanto se me levou ao cárcere da química dentro de mim mesmo, na busca pelo fim da capacidade de reconhecer algo em mim mais humano pois essa é a parte mais exorcizável de mim e de qualquer ser humano reconhecível?

Foi-se o meu tempo de ingenuidade com as constatações, sempre pavimentadas por fatos em minha vida. Somos criaturas predatórias, somos o ápice disso, e não por garras ou presas, mas por um aparato abstrato colossal. Mas esse abstrato vai contra a capacidade de permitir pacifismos, tolerâncias, bajulações judaico-cristãs dessa natureza. Não foi prerrogativa da idade notar que estamos andando contra nossas naturezas desde que inventamos essa noção hidra de lerna de sociedade. Se estou a década preso nessas barras é por entender que aquela criança que queria amizades não poderia experimentar altruísmo, que aquele jovem empreendedor não poderia sucumbir aos impulsos de sua natureza, que aquele homem predador da década passada estava atado ao peso de regras que iam contra o que de mais primal e libertador havia dentro dele.

Iluminação? Meramente juntei dois mais dois por mais de duas décadas, tudo recebido de bom grado da própria hidra de lerna. Somos todos doentes, nos mutilando das formas mais autênticas que nossas cabeças vazias nos permitem, a minha foi entender que não mais poderia jogar este jogo. E desde então não preciso desgastar minha cabeça, blindada pela química.

Obs: Não quero chegar a ponto algum. Já estou onde quero, você sim tem ambições, precisa apenas enxerga-las...

É claro que não era apenas a forma de dizer, que era o que era dito também que me fascinava. Era tão mastigado, tão suave, que por pior que fosse eu engolia facilmente, sem poder deixar de concordar quando vejo Ana predando o que de muitos seria por direito e esses mesmos aceitando que isso é tudo natural. Justiça seria uma justificativa social para o darwinismo, mas sempre pronta à se prostituir nos dias de hoje por quem está acima na cadeia predatória abstrata de tempos em que você vale por números abstratos, não pelo número de membros ou dentes. E aqueles tempos eram tempos naturais, enquanto que os de agora não. Droga, outra noite mal dormida.


Cap. 3
Sim, eu ouvia o que o destinatário falava com mais seriedade do que ouvia meu orientador. Mas o que esperar depois de ver as palavras dele sobre mim seguirem seu fluxo como ele mesmo diria q ocorreria. Como conseguir o que queria estava numa cartilha? Isso queria dizer que aquele homem sabia quais meus anseios, meus sonhos. E isso queria dizer que o que eu chamo agora de meu nem de perto é meu de verdade, pois dele não é. Ele só pretende não ser preso, mas sabe que eu sou um comum, um mundano, e a forma que joga isso na minha cara, minha trivialidade, aquilo sim me deprime.

No começo eu ficava simplesmente puto com a arrogância de um homem que achava que podia me prever como algum tipo de vidente, depois considerei que ele era um pensador de auto-ajuda às avessas até realizar que na verdade só tinha sacado como é fácil viver hoje em dia e como é insípido.

E confesso que durante um bom tempo procurei outros fatores em suas palavras sem notar que ele apenas me abria os olhos. Mas quanto mais abro, menos gratidão sinto? Então é isso? É apenas trotar na velocidade que seu pelotão é mandado, no meu caso o das aspirações medianas como um aluguel pra mim num local de fácil acesso ao trabalho, um trabalho que pague o básico e um pouco de bebedeira no fim de semana, e o táxi da volta já que posso ser preso se dirigir embriagado?



07/11

(...) Mas você está esquecendo que não é apenas isso. É também não saber disso. Certas coisas você não pode simplesmente esquecer. Você não vai mais perder a culpa de seus pecados quando comer a hóstia no domingo. Isso é, se ainda freqüenta a igreja.

Novamente, um passo à frente.


Cap. 4
O perene enganou-me por muito tempo. Era só pensar na possibilidade de eternidade das coisas que reservava meu tempo ao que julgava temporário, perecível, como eu era. Sabe, como quando uma criança pensa que o mundo não acaba na borda do horizonte, mas sabe que além daquela linha não vai. E a comparação com criança é mais que justa sendo esse um sentimento tão primal de... objetividade? Humildade? Ignorância? Segurança. E três grandes mais ou menos para as três palavras anteriores, mas que só trazem pedaços pequenos, como elementos periféricos de um quadro que justificam seu posicionamento. E conservam sua imagem, sem, contudo, carregar a relevância que a segurança conferia na pintura. É claro que há uma dose de objetividade em pensar em não pensar certas coisas, focar apenas no que posso manejar sem dar trabalho, no lugar comum, e hoje em dia há uma eternidade de efemeridades que podem completar a vida de bilhões sem que nunca se perguntem nada. E cada vez mais ao alcance de qualquer um. Ou seja, objetividade leva a um caminho tão amplo quanto, não há fuga. Mas por lidar com coisas que estão ao alcance do meu próximo passo, mesmo sendo tantas no espectro da visão, o eterno perecível me ilude. E essa foi a primeira ilusão.

Mas então tenho a dose de humildade, podando ainda mais a quantidade de coisas que devo pensar. Claro, se sou perecível, porque me meter com algo maior que eu que pode me devorar enquanto eu tento engolir pratos maiores que uma cidade de eus? Deixe que máquinas façam o trabalho de atingir os mistérios menores e maiores, mas ao menos perenes. Eu não preciso de mais do que uma hora de jornal de tv aberta de informações pra continuar vivendo, já que sou tão perecível quanto as palavras dos teleprompters que os âncoras recitam monocordicamente (ganham alguma notoriedade quando recitam com tons, o que é tão banal quanto, como tudo que é falado). Então não preciso de toda a efemeridade do mundo, só de um pedaço dela que, diferente da objetividade que coloca todas as coisas passageiras, sei que a humildade reduz apenas ao efêmero que seja consumível, adaptável, que surja e morra na mesa do almoço em família que não digeri desde o século passado, que era muito mais perene marcando sua presença todo dia. E que firmou essa idéia de engolir apenas as informações que entrassem no espaço que sobrasse na minha boca entre cada garfada, compartilhando algo tão tangível quanto um som, que não durava mais que as vibrações dos meus ossinhos.

E é certo que esses almoços ocorriam desde quando minha memória puxava perguntas maiores, e sempre lembravam de como havia um local onde coisas grandes podiam ser feitas. Mas eu já não podia viver com aquilo. Era complicado demais, precisava de mais simplificação que a humildade podia trazer, já que ela era para o presente. É então que vem a ignorância, deixando meu passado cada vez mais alienígena. Só de imaginar que eu me perguntasse sobre coisas grandes... como podia querer entender aquelas coisas? Muita arrogância, e arrogância é pecado. E lá vou eu domingo engolir minha hóstia e esquecer que quis aquilo, e lá vou eu beber no bar e deixar de lado a razão de querer saber qual o meu lugar aqui, e lá vou eu...

E lá vou eu, mais podado que nunca, exigir que o perene não exista em minha vida, que eu seja morredouro e ocasional como os insetos no pára-brisas de um carro em auto-estrada. Se eu mutilei minha visão com objetividade, se afoguei minha identidade em humildade e ateei fogo em minha capacidade de discernimento em nome da ignorância foi por medo. Medo de ter medo. E quanto mais sabia, mais temia e mais, muito mais, precisava masturbar minha segurança para sentir o orgasmo dela, passageiro, me dizendo quem eu era (nada), o que era o resto (nada) e o que guardar disso (nada). E me livrei do medo, pois não restou mais nada em mim que possa ser ameaça.

Chegar nessas conclusões, porém, demandou que saísse da mesa onde comia, que me afastasse das coisas ao redor, que não precisasse da hóstia, demandou um esforço de entender o banal de uma forma que, bem, saísse a ignorância. Dança das cadeiras? Quem tocou a música? Nem lembro agora, se fui eu ou o destinatário, mas tive que sair do meu emprego, e só com meses de muito nada contemplativo eu pude arrancar a humildade para saber que estava cercado de tantas cenas de efemeridade quanto haviam pessoas, cada uma vivendo segundo respostas que não eram suas mas que achavam, no extremo de suas solidões não enxergadas, que eram suas particularidades. E enxergar tudo isso foi como implodir os alicerces da minha objetividade, pois cada caso precisava ser visto. Mas cada caso não era um em uma eternidade de efemeridades? Com um pouco de esforço não. E tudo é substituível. E dá medo.



15/11

Por sua culpa agora eu me sinto nu, me sinto pequeno, me sinto desprotegido, me sinto alarmado, não durmo, não agüento mais muito tempo no emprego, não sei o que fazer com a minha vida particular, mas tenho sempre a segurança em você. Isso é um tanto injusto considerando que perdi a segurança que tinha antes por sua causa.

17/11

Bela segurança a sua, que não sobreviveu aos diálogos com um lunático, um monstro segundo suas próprias palavras. Minhas mãos podem estar limpas de sangue por mero acaso se, apesar de ímpetos, sonhos e fantasias particulares, ter amado a obra de meus irmãos de genes. Você com seu ódio estava apenas clamando por um pouco de compreensão. E sua criação católica não pôde lidar com as informações da sua escolinha, dos amigos, dos bares, da televisão e da internet que incutiram esse sentimento, muito mais monstruoso. Injusto é conceder o crédito a mim por tal feito.

...

Cap 5.
Ana Maria me procurou, disse que o destinatário procurou-a para relatar a falta que sentia de mim e como nas férias de Dezembro o spa fica com menos pessoal ela poderia pagar mais para que eu trabalhasse de férias. Antes eu era um voluntário, agora serei mais bem remunerado que as pessoas que estão lá a alguns anos porque aquele homem está carente.

Já imaginava que ele devia ter pesadelos com meu período de folga onde eu acharia coisas que me satisfizessem mais que as palavras amargas de suas cartas sobre o caos urbano ao meu redor, pois sei que ele sabe como é delicioso esse caos. Ao menos delicioso para quem não liga de estar na névoa. Mas quando você sabe como eletricidade vira imagem, a tv perde uma boa parte de sua magia.



19/11

Vou trabalhar para o spa sim, mas não para você, que fique bem claro.

21/11

Como quiser, mas acho que você nunca realmente saiu desse quarto. E no fundo também enxerga isso. Por isso guardo suas cartas comigo, em casa.

Cap. 6
22/11



Sonhei que matava alguém. E esse alguém era você. Mas eu não te odeio e cada vez mais eu sinto que preciso de você. Única pessoa capaz de me ajudar. Mas preciso que pare de me torturar com as idéias e ameaças.

24/11

Não ameaço você. Você é uma pintura que apenas revela as cores que o meu pincel sem tinta alguma toca. Mas se você se sente inseguro a ponto de desejar minha extinção assim, não sei se poderemos nos corresponder mais.

E foi assim que o procurei e consegui visitá-lo, com o consentimento de Ana Maria. Não havia motivo de medo dele, havia sobrado apenas o fascínio. A morte dele no meu sonho era um pedido de freio, estava indo rápido demais com aquilo, estava olhando coisas que antes nunca olhava e acabava perdendo de vista uma boa parte do que ocorria por falta de uma ferramenta melhor de capacitação. E assim o convenci a não pedir o cancelamento de minha ida, talvez ele não tenha acreditado que era meramente ansiedade, mas ao menos acreditou na minha entrega à ele, sem com isso ter notado que ele era veículo e eu motorista. Nada além disso.


Cap. 7
Ana Maria continuou vindo até minha casa, agora com pretextos menores. Encontro-a na rua vez ou outra, saindo suada de suas noites e ela nunca me reconhece, mas atualmente podia ver algo de novo em seus olhares. Eram vazios, a moça era um autômato. Sabe, a forma de falar, o jeito como conta seu dia a dia no spa e os pedidos que faz, tudo é antecipável, como se a mulher a quem todos respeitam estivesse cumprindo um papel que você pode desde o começo adivinhar. Como se as coisas que a formassem, e não o físico, mas o abstrato, fossem traçados para ela, que nascida de quem era não poderia ser diferente, e isso fizesse tudo muito automático, sem vida.

Rica, bonita, bem sucedida, ainda assim vazia. Antes era tudo o que eu queria ao meu lado, agora era uma figura a mais, como tantas outras do meu dia a dia. E o filho da puta morreria de felicidade se soubesse disso. Por isso mesmo ainda busco a moça constantemente, à espera de que algo mude, de que os olhos dela brilhem novamente, mas sinto que... aliás... eu sei que nunca entrarei dentro dela e farei seus olhos se incendiarem como eles deveriam. Com a ingenuidade indo embora antes que as pessoas tenham dois dígitos de idade seria também muita prepotência de minha parte desejar isso. Estou começando a pensar que deveria ter recusado o emprego. O cara vai notar que nada há entre eu e ela e muito possivelmente notará minha indiferença. E isso é péssimo.

Cap. 8
29/11



Estou ansioso pela sua vinda dia 01. Espero que esteja pronto.
4

Hospital.

Ou

Dezembro.


Cap. 1
Comecei a trabalhar hoje e Ana Maria me recepcionou mais efusivamente do que esperava, o que me empolgou. Mas fiquei meu período integral de meras 4 horas no quarto do destinatário, aparentemente ele pagaria o salário extra que receberia nesse Dezembro para ter tal folga.

Foi tão trivial, o costume pesou um pouco e o afastamento deixou marcas que não sumiram com facilidade, mas que com o tempo devem sumir, algumas já foram. Longos momentos de silêncio, frases soltas, aquilo não combinava com aquele homem. Sei que ele me lê em cada respiração, mas não quero que me leia o suficiente. Apenas guardei a idéia dele de que Ana Maria é minha obra.


  • Minha obra?

  • Sua obra, você realmente a ama mais do que ela a você. Não fique doído, você apenas não sabe que é capaz de amar mais que ela jamais será e isso é culpa minha. Você é obra do meu encanto e isso te torna mais intenso que ela, que é obra dela mesma. Mas ninguém é capaz de se criar inteiro, por mais que isso seja o comum nos dias de hoje. Me agradeça por ter te olhado com carinho, você está agora um passo à frente dela.

  • Ela está sempre comigo, sei dela melhor que você.

  • Isso saberemos a nosso tempo.

Tenho certeza agora que ele sabe que nada há entre eu e ela. Desde quando não sei, mas ao menos ele quer me ajudar a conquista-la. Um bom presente de natal, por mais que o meu encanto tenha sumido. Mas é bom que essa parte ele não capte.

Cap. 2
Andando pelas ruas, tomei um café da manhã no meio da madrugada. Tenho perdido peso nesses dias de Dezembro com a rotina meio fora de ordem, acabo comendo fora de hora, acabo fumando muito e perdendo a fome, acabo me ocupando de idéias que antes não tinha. Mas agora eu quero apenas descansar a cabeça da cena que vi.

Ana Maria fumando enquanto andava com seus cães pela rua.

Quem diria que a moça saúde do spa, que não permitia o fumo mesmo nos terrenos abertos, agora estava entregue ao vício. Como é fácil mudar o ponto de vista de alguém com um pouco de convívio, aposto que as noites nas boates trouxeram esse hábito para ela. Os problemas que ela confidenciava para mim pareciam tão pequenos, não mudariam o medo que anos de faculdade de saúde incutiram nela.

Cap. 3
O destinatário continuou conversando comigo sobre minha nova e recém descoberta depressão com o que parecia ser uma dose de... culpa. Como ele conseguia ter os mesmos pensamentos e ainda assim ter construído algo. A única vontade que tenho é de destruir tudo isso que parece tão errado, não posso conviver com tantas equações de respostas negativas.

Claro que ao dialogar com ele é tudo sensato, mas ao pegar o carro e sair de lá para minha casa, esquentar a comida no microondas e falar ao telefone com a família, parece tudo angustiantemente preso, fadado ao status quo de uma colméia desorganizada que tende ao caos. E não tenho o dinheiro necessário para me trancar com valium em minha própria inércia.

Não há maço que suture as sensações novas que tenho ao andar pelas ruas nas insônias, mesmo que eles suturem minha pele ao apaga-los em meu corpo buscando por um pouco de controle enquanto ondas de desespero me tragam profundamente. Metade de Dezembro passou, a inquietação permaneceu enquanto Ana Maria começava a falar de suas férias distantes e eu mantinha o ar de interesse necessário para que nada soasse estranho ao destinatário que ouvia tudo atento.enquanto se perguntava o porque das cicatrizes sem poder falar em voz alta na frente de Ana Maria, que ouvia a resposta trivial (acidente com cigarro) e tentava me convencer a parar, sem que soubesse que eu sabia que ela própria tinha começado.

Ele me deve uma muito grande por me colocar nesse estado.


Cap. 4
Vou tentar relembrar de cada palavra, mas acho impossível.


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