Five monethy street 07 horas e 39 minutos



Baixar 177.3 Kb.
Página3/3
Encontro11.06.2018
Tamanho177.3 Kb.
1   2   3

CAPÍTULO 4



Um plano quase perfeito.
O carro onde estava Max e Mona atravessou a Central Avenue, dobrando em uma via um tanto menos movimentada que o habitual. Ao fundo da rua, uma das mais antigas igrejas de Nova York surgiu como uma imponência escultural à parte, com seu teto abobadado e sinetes de pedestais de prata que reluziam com a lua que resplandecia no céu vistoso. A noite estava fria.

- Aqui é um local discreto – disse Mona, descendo do banco do carona. – Vamos entrar para evitar que sejamos vistos juntos.

Max forçou um sorriso aparentemente cansado.

- Tudo bem – ela assentiu. – É só estacionar o carro no beco mais adiante e vir comigo.

O automóvel circulou o alabastro monumental e adentrou silenciosamente numa ruela, sendo consumido pela escuridão que se formava pelos grandes prédios em volta. Max Payne se certificou de todos os cuidados possíveis. Ele estava surpreso demais com as revelações assombrosas sobre o destino cruel de sua família – uma mudança de rumos desenhada pela covardia de homens sem compaixão.

Compaixão. Essa era a palavra que Max mais ironizou em sua vida, talvez a abominara de vez de um vocabulário de ódio e indignações profundas que fazem de qualquer homem um ser absolutamente vingativo.

‘Eu acredito que o que não nos mata, apenas nos torna mais cruéis.’

Em passos firmes, Payne entrou na igreja e caminhou até onde estava Mona, próximo ao altar e o conjunto de bancos de genuflexório. Ela parecia um pouco apreensiva, os olhos cheios de expectativas e planos.

- Vamos ver até onde caminha a inteligência do Wooden – ela pegou do bolso o aparelho celular. – Está pronto para a surpreendente estratégia?

Ele não compreendeu coisa alguma que ouviu. Silêncio.

Mona Sax digitou freneticamente os números, completando a chamada. Em segundos, uma voz abafada reverberou no aparelho.

- E então, Wooden... – a voz dela soou computadorizada. – Tenho aqui comigo um presente indesejável para você.

O interlocutor não sabia sobre o que ela comentava ao telefone.

- Como o quê, cara? – ela fez voz de brava, piscando o olho para Max. – Estou falando do Max Payne! Morto!

O queixo do detetive caiu com aquela mentira. Mona Sax escutava gritarias no fone do aparelho. O interlocutor estava num mar em fúria.

- Deu tudo errado – ela disse igualmente dura. – Quando cheguei lá para espionar os dados da missão que me incumbiu, Max estava lá caído no chão, todo cheio de sangue. O que eu podia fazer? – ela escutou. – Eu sei, Wooden! Não sei como aconteceu, mas foi a Detetive Winterson quem o matou.

Max sentou-se na elevação do altar, completamente embasbacado com o que estava escutando. ‘Ela só pode ser maluca!’

- Estou levando o corpo até você – completou, escutando outra série de gritos do mandante. – Então, prefere que eu o deixe aqui à míngua? Vai ferrar tudo, Wooden! Com o cadáver em mãos, Vladmir não vai demorar muito para juntar os pontos e chegar à conclusão de que você armou para mata-lo.

(...)
- Mas nem morto que eu vou tomar isso daí – disse Max, trêmulo quando viu a seringa com o líquido verde. – Quer me matar de verdade?

O medicamento intravenoso era Savonarolla – um concentrado medicinal de extratos naturais de ervas das montanhas. No organismo, o líquido seguiria junto com a corrente sanguínea, relaxando os músculos e quase anulando as tensões cardíacas, tornando a respiração menos ofegante.

Uma dosagem apropriada do Savonarolla desencadearia numa série de reações e complicações anatômicas, ou seja, a pessoa praticamente teria um tipo de enfarte espontâneo e seria declarada morta pelas perdas funcionais.

- Ora, Max – replicou Mona. – Isso é bastante natural, eu garanto! Como se fosse a Valquíria sendo aplicada em suas veias. É a única maneira de dar o prosseguimento ideal ao nosso plano.

O detetive estava com um pé atrás. Não sabia mais em quem confiar.

- Pelo amor de Deus – ela continuou –, tudo só vai durar por alguns minutos. Sabe de uma coisa? Quando te contei que o Vladmir arquitetou todo o assassinato de sua família, não fui totalmente honesta com você.

Ele voltou-se para ela, tirando o braço da direção da agulha.

- Do que está falando?

Mona fez perder a vista na ampla fileira de automóveis ao longe, um caos incessante de homens e máquinas domesticadas.

- Michele foi alvo de um projeto que pretendia interconectar a explicação de um fracasso promovido pela Aesir com o uso da droga Valquíria em novos protótipos militares. Só que tudo foi por água abaixo.

- Isso eu já sei.

- No entanto, tudo se mostra muito mais sutil do que aparenta ser. Era somente isso que eu acreditava representar a causa do assassinato, mas nada é menos do que representa.

O detetive se perdeu na conversa confusa de Mona Sax.

- Sem arrodeios, por favor.

- Está bem – ela disse finalmente. – Sabe o que a sua Michele sabia de verdade? Cogita-se seriamente que ela descobriu os documentos que levam às organizações e corporações secretas da Aesir na cidade. Melhor dizendo, um conjunto de empresas camufladas que trabalhavam conjuntamente para Nicole Horne. Uma grandiosidade inteira.

- Camuflagem? – Max se perdeu na própria questão fundamental. Era a fachada inicial que Nicole pretendia para implantar toda a distribuição da droga Valquíria pela região e avantajar os lucros com o negócio sujo.

- Isso mesmo – confirmou, pegando o braço dele novamente. – Michele não só descobriu o projeto oculto da Aesir, como também um outro muito mais importante para os fornecedores e para Nicole. Algo que protegiam até com a própria vida se fosse preciso.

Max Payne franziu o cenho, a adrenalina percorrendo todo o corpo.

- Do que se trata?

- Uma SENHA – ela soletrou a palavra. – Uma senha que dá acesso à grande operação que a Aesir, o bar Vodka e outros executores das vendas da droga tentam esconder. Consegue fazer uma associação exata das coisas? – Max arregalou os olhos. – Vladmir como sendo dono do bar ajudava a distribuir fielmente a droga pela região. Ele quem mandava naquilo tudo e você melhor que ninguém sabe que ele tem clientes poderosos. E se ele ainda a negocia?

Max levantou-se, cambaleando até Mona. Não podia acreditar naquelas implicações convenientes que escutara ainda pouco.

- Eles mataram a minha família!

- Sim... – respondeu Mona Sax. – E então, depois da descoberta por sua Michele, uma conspiração foi planejada para assassina-la, juntamente com a sua filha, Payne. Comenta-se também que outro parceiro poderoso de Nicole pode estar envolvido nas mortes, sem sombra de dúvidas, só que ninguém ainda conhece ao certo a sua identidade. Apostaria minhas fichas no Wooden, com certeza. Ele quer te ver longe do esquema, assim como todos. Já pensou numa razão óbvia para ele me contratar para tirar sua vida?

- O Wooden?

- Outro nome não soaria mais estranho – ela respondeu, certa em suas convicções. – Precisamos encontrar a SENHA que prova a ligação entre eles. Só assim teremos provas concretas do envolvimento nos assassinatos. Para isso, vamos ter que ser mais espertos, fazer com que se entreguem uns aos outros. Com toda a documentação que Michele sabia nas mãos, estamos em vantagem.

- E por que ele matou minha família? – Max questionou, horrorizado.

Mona tornou a voltar-se para ele, o olhar enigmático que o detetive não conseguiu definir com muita precisão.

- Só saberemos quando a SENHA for encontrada. Por isso mesmo que eu preciso que você colabore com as iniciativas – ela mostrou a seringa. – Vamos, me dê o seu braço e logo acabaremos com isto!

Max Payne encontrou-se no caminho mais complicado de sua vida. O desejo ardente de vingança ovacionava os seus instintos mais primitivos. A SENHA provavelmente desvendaria um patamar mais ilimitado de dúvidas que pareciam assombrar a mente do detetive todos os dias. Porém, que identidade secreta era essa que escondia tantas ligações?

Uma dor excruciante no braço o fez voltar dos devaneios incessantes, do borrão que sua cabeça projetava. A seringa agora estava vazia. Estava feito, e teria que confiar em Mona Sax e em sua insanidade.


  • E por que você quer me ajudar nisso? – questionou Max. Nenhuma resposta por enquanto.

A vermelhidão na pele já queimava o corpo lentamente e tudo parecia anormal aos olhos. Sentiu que mergulhava na inconsciência, uma sensação estranha de simular a própria morte. Talvez tivesse sucesso, disso ele ainda não sabia ao certo, mas preferia arriscar.

Sua última visão foi a menos clara possível – a mulher que estava ao lado caminhou pela passarela dos bancos e sumiu de vista.


(...)
01 hora e 06 minutos
A residência de Alfred Wooden situava-se exatamente em uma extensa elevação quase fora das dependências da cidade de Nova York. Naquela madrugada inacabável, ele estava sentado no seu amplo sofá de veludo verde, completamente absorvido pelas preocupações excessivas.

A ligação de Mona Sax o deixara tonto com as implicações inesperadas. Agora, teria que optar por um outro novo caminho, talvez o mais complicado de seguir. Max Payne estava morto, imerso em sua própria sede de vingança.

Wooden parecia inconsolado com as conclusões trágicas. Não era para ser assim. Se Vladmir ao menos desconfia das minhas espionagens recentes, estou perdido! Ele bebeu o primeiro longo gole de conhaque, sentindo o líquido quente expurgar o corpo cansado. Fez careta. A bebida desceu cortante.

Um barulho de um carro estacionar logo abaixo se ouviu. Mona havia chegado com o cadáver do detetive Payne. Chegara a hora – o momento que Wooden desejou que nunca acontecesse. Não naquelas circunstâncias. E não tinha mais para onde correr. Virou mais uma vez o copo, desta vez, engolindo o que sobrara da bebida. Em seguida, ele foi sozinho ao estacionamento.

A descida foi difícil, os diversos degraus incontáveis em cascata pareciam submergir das sombras e novamente desaparecer no espaço. Wooden sentia uma sufocante falta de ar enquanto ainda descia lentamente. Então, chegara ao térreo.

- Estamos ferrados, Wooden – a voz de Mona cortou o silêncio. – O Max está morto! O que faremos, agora?

O homem pareceu não escutar o que ela dizia. Nada respondeu de início.

- O Vladmir vai nos entregar – continuou, parecendo nervosa. – Ele sabe que eu invadi as dependências do bar. Na certa, já deve desconfiar que matei a detetive Winterson também.

Os olhos de Wooden voltaram-se para ela, a expressão cinzenta.

- Você matou a esposa do Vlad?

- O que eu podia fazer? – ela explicou. – Era caso de vida ou morte. Uma de nós duas tinha que morrer. Necessariamente, esse alguém não seria eu. Ela parecia uma assombração. Apareceu do nada e atirou no Max Payne!

As veias da testa de Alfred Wooden apareceram.

- Idiota! – ele socou o carro ao lado com força. – Na certa, como Vlad poderia saber que Max iria até lá justo hoje? Alguém traiu nossa confiança e não estou disposto a perdoar quem fez isto!

- O Jim Bravura... – pontuou Mona. – Somente ele sabia dos seus planos, cara. Pense junto comigo. Jim tem todos os motivos para lhe denunciar, pois ele deve achar que você pretende passar a perna nele primeiro. O que mais iria pensar? Com a SENHA nas mãos, Wooden, você tem poderes ilimitados. Tem a carta branca na manga.

- A SENHA? – Alfred apelou. – O que Bravura poderia querer com esses documentos que eu tenho comigo? Um conjunto de papéis bem antigos que a senhora Horne escondia e que, por sorte, acabou em minhas mãos. Material que você mesma me entregou, Mona. Não se esqueça disso!

Ela suspirou, profundamente impassível.

- Eu sei disso, Wooden! Mas, não esqueça de que foi você quem me deu a incumbência do trabalho, lembra? Que escolha eu tinha, a não ser invadir o apartamento do Max para roubar a SENHA da Michele?

- Se Michele desse a audiência pública para mostrar os documentos, nós estaríamos sem chão nesse momento – ele fez uma pausa, voltando-se para ela. – Essa história você já conhece bem. Não vamos ficar remoendo algo que já está morto e enterrado. Bem, alguma evidência de responsabilidade? Sabe que não posso ser tido como suspeito.

Ela caminhou até ele calmamente.

- Relaxa, cara – disse, concisa. – A única pista que te denunciaria seria o corpo do Max Payne ser deixado lá, mas isso eu não permitiria. Temos maiores problemas para nos preocupar, como por exemplo: o que vamos fazer com esse cadáver? E o Jim Bravura? Pretende esquecer da hipótese de traição?

- Do Bravura, eu cuido depois.

- Só uma coisinha que ultimamente vem martelando minha mente – Mona estudou com cuidado as suas próximas palavras. – Por que você queria tanto aqueles documentos que Michele encontrou no prédio da Aesir? O que tinha de tão importante neles?

Alfred Wooden baixou a cabeça. Tinha que pensar em uma forma exata de informar o conteúdo. Será que ela não havia visto os documentos e estava tentando descobrir alguma façanha secreta?

- Você sabe que eu sou dos The Skulls?

- Uma antiga fraternidade? – Mona repetiu para si mesma. – Sim, eu sei. Qual o propósito da sua pergunta, Wooden? Eu não compreendo.

- Nossa Ordem também mantinha um acordo secreto com Nicole Horne... – ele não foi capaz de esconder o próprio desapontamento. – A Valquíria era a droga que estava em ascensão na época. Há exatamente dois anos atrás, nossa fraternidade enfrentou uma grande crise interna, as novas adesões não andavam bem e estávamos predestinados ao fim. Não poderíamos deixar que isso acontecesse, ainda mais em uma sociedade que existe há séculos, uma longa tradição de costumes e lendas que não deixaríamos morrer.

- E com isso The Skulls também patrocinavam o negócio de Nicole e dividia parte dos lucros?

- Não exatamente – respondeu Wooden. – Nós não patrocinávamos as pesquisas e negociações da Aesir. The Skulls era mais uma das organizações que ajudavam na distribuição da droga. Precisávamos nos reestruturar. As vendas e todo trabalho de divulgação aos próprios membros da fraternidade nos rendeu uma posição de destaque com Nicole Horne. Nossa Ordem produzia literalmente uma grande quantidade de dólares para a Aesir e, com isso, o nosso contrato continuava garantido.

- Por isso que quando Michele...

- Quando a descoberta de Michele sobre a SENHA – Wooden interrompeu – veio à tona, todos nós não podíamos deixar que os nossos nomes fossem anunciados. O projeto inicial seria testar a Valquíria nos militares e observar os limites de guerra deles, mas não tivemos muitos sucessos. Todos os cientistas e pesquisadores envolvidos no Valhalla confirmaram que os erros poderiam ser catastróficos, mas Nicole Horne não quis saber de perdas e danos. Por isso, ela logo conseguiu uma reunião secreta com as corporações, inclusive nós, para discutir os novos rumos da droga. Comercialização. Daí, tudo não passou apenas de fachada.

- E mataram a coitada para que seus nomes não viessem à tona também?

Alfred Wooden tentou não confundir ainda mais as coisas na mente de Mona Sax. Ela precisava entender muita coisa, inclusive porque ela mesma fora chamada para muitas das missões secretas que envolviam noções que nem a mesma sabia ao certo.

- Esse é o problema em questão... – ele disse, desconcertado. – Nós não assassinamos Michele nem a filha do detetive Max Payne, embora tivéssemos em mente seqüestrá-las por um tempo até que uma solução fosse encontrada. Só que de uma hora para outra recebemos a notícia de que estavam mortas! Não matamos a família do Max, e sim outro alguém que Nicole nunca queria revelar nos encontros. Alguém que ela confiava muito, pelo visto. Alguém que planejou tudo sozinho, mas contou com possível ajuda do Vlad e Jack Lupino.

Antes mesmo de pronunciar qualquer outra nova palavra, um bater de palmas reverberou por trás dos automóveis, soando cada vez mais próximo deles. Os dois já iam virando-se para ver quem era, mas foram surpreendidos com a reluzência da arma apontada para onde estava Mona Sax e Wooden. Era Vladmir Lem, o russo.

- Surpreendente revelação, Alfred – disse, a arma em riste. – Para onde pensa em fugir agora? Pensou que eu não iria descobrir que você e sua equipe secreta planejavam algo grande contra mim?

Wooden estava perplexo com o aparecimento repentino.

- Aparentemente parece que você perdeu a língua – continuou –, junto com a sua dignidade. Então, todo esse tempo a SENHA estava em suas mãos. Exatamente como eu havia imaginado.

- O que está fazendo aqui, Vlad? – a voz de Mona cortou a tensão.

- Vim trazer a paz para sua alma – ela arregalou os olhos. – Lembra dessa mesma frase? Sente-se feliz agora, depois de ter ajudado a assassinar a minha Winterson? Mas, você é o menor dos meus problemas.

Vladmir Lem rodou o corpo, caminhando em direção a Wooden. A arma estava em posição certeira em sua cabeça.

- Ainda continua achando que eu tenho culpa na morte da Michele e da criança indefesa? – Lem perguntou. – Isso é um ultraje! Ainda mais quando se tem outra identidade secreta envolvida nos planos de Nicole Horne que ainda não sabemos exatamente quem seria. E o Max Payne? Onde ele está? Estou à procura do detetive heróico da cidade.

Mona começou a rir decididamente. Não tinha como segurar a intenção prática que Vladmir buscava encontrar ali naquele estacionamento. Ele nunca saberia onde Max Payne está, mesmo que o cadáver estivesse mais próximo do que ele imaginasse. Adormecido, em um automóvel há poucos metros.

- Do que está rindo, vadia? – Lem questionou, com ódio no semblante. – Por acaso esconde algo? Você invadiu o meu bar sem o meu consentimento, sem ser convidada e sem anunciações formais. Junto com o seu namoradinho metralhou todos os meus homens. O que você estava procurando lá a pedido de Wooden?

- Para um homem poderoso você faz perguntas demais... – Mona caçoou. – Perguntas das quais nunca saberá a resposta. Não adianta! Ninguém sabe de nada além do que você também tem conhecimento. Não sabemos quem é o outro responsável pelo trabalho da Nicole se é isto que quer saber.

- Abusadinha como sempre – lembrou Lem. – No entanto, não me interessa a identidade secreta que a senhora Horne escondia com ela. Estou em busca de explicações simples, satisfações que não me foram comunicadas com perfeita antecedência.

- O que quer, Vlad? – Dessa vez, Wooden quebrou a linha de raciocínio.

- Nada além do que você acabou de confessar. The Skulls devem estar orgulhosos agora. Simplesmente você jogou fora sua única chance de obter a barganha com a nossa fraternidade. Sabe o que eu pretendo fazer com essas valiosas informações?

- O mesmo que Michele queria com a SENHA – disse Mona.

Vladmir Lem sentiu uma fúria incontida dentro de si. Não podia permitir que Mona Sax caçoasse de suas estratégias com tamanho afinco. Ela não tinha nem mesmo a permissão de um simples comentário. Estava sem saída, sem Max Payne, sem argumentos, sem nada.

Decididamente, quis dar um basta naquela situação e seria ali mesmo, diante de nenhuma testemunha que pudesse levantar sequer acusações.



Seria mais que perfeito.

- Eu preferia fazer isso sem você – disse Lem, mirando em Mona –, mas o destino quis que estivesse aqui para pagar com sua vida, o que é uma pena dar cabo de uma mulher tão cheia de virtudes. Tudo por estar no lugar errado, na hora errada.

Sem mais pensar, Vladmir sorriu, sentindo a maior satisfação pessoal de sua vida. Olhou mais uma vez para a jovem a sua frente, sem medo algum, e apertou o gatilho da arma. Um pipoco estourou junto aos seus ouvidos, e Lem só teve o tempo de cerrar os olhos e avistar Mona caindo de joelhos, as mãos na barriga ensangüentada.

Ela ergueu a cabeça para cima, o rosto impassível. Depois, em um longo voto de perdição, o corpo tombou contra a capota do automóvel atrás de si. Dessa vez, estava finalmente morta. O segundo fantasma de Mona Sax não mais o atormentaria como da vez anterior. Nem mesmo com a bala na cabeça, retirada dias depois que saiu do coma, a moça descansara. Isso só aumentou a sua retaliação mortal – homens foram assassinados, locais foram devastados e a quantidade de corpos só aumentava quantitativamente.



Mona Sax estava morta. Vladmir tornou a olhar para Wooden, notando o seu pavor crescente. O homem tremia, emoldurado pela madrugada fria que só adentrava no estacionamento quase vazio e silencioso.

- Onde está Max Payne, Alfred? – Lem perguntou outra vez, com toda a seriedade nas palavras. – Me diga onde ele está?

Wooden apontou para a mala do carro. Ele está lá dentro morto! Todos estão mortos! Eu estou vivo.

- Obrigado – agradeceu Vladmir. – Até aqui, escondi muito bem tudo em que participamos, sem que ninguém soubesse. Porém, visando não ter a minha cabeça entregue aos inimigos, sinto dizer que daqui tu também não passarás. The Skulls continuarão firmes e fortes, só que sem você.

E atirou na cabeça de Alfred Wooden, recebendo respingos de sangue contra o terno preto que comprara logo cedo. Agora, só restava ver o cadáver de Max Payne, mas ele muito, muito próximo. Colocando a arma de volta na bainha da calça, o russo caminhou rapidamente até a mala do carro.

Sentindo um arrepio familiar, ele sorriu outra vez. Com força, pressionou o botão de trava e ao ouvir o eco característico no interior da mala, ele levantou a carcaça metálica. Na hora, uma onda de tensão apoderou-se de Lem.

Dentro só havia um pano manchado com pouco sangue e algumas marcas de pegadas de uma bota sintética, o que dificultaria estudos periciais das evidências.

- Desgraçado! – gritou, sem saber como proceder à situação complexa.

Certificou-se novamente do espaço do carro vazio.

Max Payne havia sumido.




CAPÍTULO 5
O assalto ao Central Robbery Corporation.
Era exatamente 1 hora e 24 minutos da madrugada. Os seguranças que se encarregavam das demarcações do prédio da Companhia passeavam de um lado a outro, checando as localidades em busca do barulho que ressoou há poucos minutos na parte externa.

Por volta daquele mesmo horário, todos os dias, os funcionários chegavam ao final do expediente extremo de trabalho. Depois de um dia longo e exaustivo de centenas de clientes nervosos, a madrugada servia para fazer a contabilidade dos serviços. Não menos que isso, os documentos das vendas e milhares de promissórias de negociação eram faturadas no sistema interno que possuíam para eventualidades manuais.

Não tinham muito com o que se preocupar, pois o sistema de alarmes e seguranças era sempre reforçado com câmeras de alta definição, aliado à tecnologia refinada de computadores de sensor calorífico. Bastava a tentativa de roubo ou sequer a entrada forçada que tudo cairia no caos dos alarmes. O número particular da polícia era rapidamente acionado e, em poucos minutos, tudo estaria resolvido. Porém, depois do barulho que parecia um baque lá fora, nada aconteceu.

Os membros da segurança também não deram sinal de vida. Com isso, os funcionários se entregaram aos espasmos do pânico. No mesmo mês, todos sofreram psicologicamente com uma tentativa de roubo sem sucesso. Por sorte, somente alguns reféns foram torturados pelos assaltantes e só.

Tudo estava silencioso no interior do Robbery Corporation, exceto pelo vento frio que rugia acima. De repente, um novo baque se escutou um tanto mais próximo. Alguém havia entrado por trás da companhia. Onde estão os nossos seguranças? Os alarmes irromperam em uma longa acústica estridente num rompante, assustando a todos os presentes. O que antes parecia um mar de calmarias se tornou uma turba crescente de espanto e terror.

Os funcionários, aos gritos, corriam para a saída ao mesmo tempo. As esculturas diante deles emparreiravam a passagem estreita para a porta e só foi preciso alguns segundos para que as pessoas esbarrassem contra elas, espatifando-as completamente no chão. Cacos cortantes de mármore se espalharam no piso regular do prédio, enquanto que os funcionários aos berros batiam uns nos outros e, ao mesmo tempo, tombavam sobre o mármore.

Sangue e suor se misturavam nas faces aterrorizadas. As travas das duas portas estavam lacradas. A corrente elétrica automática cerrou a saída. Estavam encurralados como animais em via de sacrifício.

Os computadores estavam em estática de transmissão, as luzes refletiam as expressões terríveis abaixo, chamuscando com a tensão de eletricidade. Provavelmente, algum tipo de aparelho moderno estaria interrompendo toda a velocidade das transmissões de segurança, desordenando o sistema completo.

Rapidamente, ouviram vozes de homens acima do teto. Homens vestidos de preto, com capuzes sobre as cabeças. Pretendiam descer por cordas que eram jogadas para baixo, pendendo do alto. Depois, veio o silêncio absoluto. As luzes se apagaram, imergindo o Robbery na completa escuridão.

Um a um os assaltantes foram descendo pelas longas cordas, deslizando agilmente até o chão. Estavam armados. Todos eles.

A chefe de operações e vendas – Martha Advance – foi chamada por um dos homens. Como podiam saber meu nome?

- Quero que permaneçam deitados no chão, com as mãos sobre a cabeça – disse um dos assaltantes encapuzados. – E é bom ninguém tentar nenhuma gracinha, senão morre com um tiro na testa.

- Onde está Martha Advance? – gritou o outro, mostrando o cano da arma.

Os reféns sussurravam baixo, o rosto voltado para o nada, para o piso.

- Tudo bem – ele levantou a arma metálica e preparou o gatilho. – Se a Martha não aparecer agora, vou começar a estourar os miolos de vocês. Um por um. A começar por aquele senhor que está de casaco branco.

O velho tremia com aquelas palavras. Podia sentir a morte espreitando sua aura emocional, esguia, letal. Onde está a Martha, droga!

- Tudo bem, então - ele caminhou até o velho e segurou seu pescoço, levantando-o com força. – Não quero ser forçado a matar ninguém, mas Martha Advance não me deixa outra escolha.

O bandido estava preste a pressionar o gatilho quando uma voz feminina surgiu às suas costas. A altitude do som foi tão repentina que ele se assustou com o eco, derrubando o senhor que quase caiu de mau jeito. E, enquanto despencava para o chão, sem querer, o pobre coitado segurou a arma para não se espatifar, acionando o comando automático. Uma saraivada de balas ricocheteou nas paredes, um som perturbador que ecoou lá dentro. Todos os funcionários gritavam, as mãos cobrindo os olhos dos estilhaços.

Com um gesto na engrenagem, tudo parou. Agora, quem estava fora do Central Robbery Corporation certamente havia escutado o barulho. Logo, tudo se associaria à escuridão que o prédio se imergira, o que para os moradores das proximidades era estranho. A polícia seria chamada e estavam perdidos.

- O que vocês querem? – a voz de Martha estava trêmula.

- Não temos mais tempo a perder – o homem colocou a arma em volta do corpo, presa a uma baionilha de borracha. – Onde fica a sala do diretor do Robbery?

A sala do diretor? Achei que procuravam o cofre com o dinheiro!

- Venha comigo – ela disse, pressionando uma máquina com números. Em seguida, digitou uma senha. A porta abriu com um silvo. – Vou levar você até a sala do Albert, mas não há nada de valor lá a não ser os quadros de vários pintores famosos.

- Não quero saber de quadros, engraçadinha – ele disse, segurando o braço dela para apressa-la. – Ninguém sai daqui, entendido?

Os dois atravessaram um corredor acinzentado, logo entrando em uma sala espaçosa. E acima da mesa de cetro, ele viu o que procurava: uma CPU de computador conectada aos fios e cabos de fibra ótica.

O homem aproximou-se do equipamento, desligando todas as tomadas laterais da placa central. Com força, segurou a central de processamento com as duas mãos e ergueu-a para junto do peito e saiu.

- Para que o senhor precisa dessa CPU? – Martha perguntou, curiosa. – Eu posso garantir que aí só constam dados de formulários de vendas e planilhas semestrais.

- Tem certeza de que é somente isto, senhora? – o homem olhou por cima dos ombros.

Ela percebeu seriedade na expressão do assaltante. Não respondeu, pois agora não tinha mais certeza do conteúdo da central de processamento.

Na entrada, as portas traseiras já estavam sendo abertas novamente. Os homens encapuzados se dirigiram para a saída, as armas ainda apontando para os funcionários deitados no chão.

- Ninguém levanta a cabeça ainda até eu mandar, estão ouvindo?

Os sons de vários passos apressados foram se distanciando aos poucos até finalmente sumirem. Quando o velho levantou a cabeça para se certificar do que ouvia, o prédio já estava vazio outra vez. Haviam ido embora, levando uma das fontes mais valiosas que escondia, em chips de rede, informações que levariam ao projeto secreto que se viesse à descoberta poderia abalar os pilares de toda a cidade de Nova York e de pessoas envolvidas.
(...)
O som de celular se fechado num estalo reverberou no estacionamento da residência do falecido Alfred Wooden. O russo Vladmir Lem estava um pouco satisfeito com o sucesso do roubo ao Central Corporation. Tudo que queria para provar suspeitas ainda inexplicáveis estava na CPU de Albert – um dos “cabeças” da operação Valhalla, distribuidor da droga na porção sul da cidade.

Albert Fiorese era descendente de italiano que cresceu economicamente às custas de Nicole Horne. Sua inteligência e astúcia para os negócios não eram um mérito para poucos. Sua ampla visão impressionava até mesmo os chefões da máfia que hora ou outra tentavam desafiar a sua imponência, nunca alcançando o sucesso. Fiorese era dono da maior corporação de empréstimo dos Estados Unidos, o que lhe rendia um crédito especial nas negociações.

Vladmir Lem tivera a sorte de encontrar Albert somente duas vezes, na reunião que Nicole Horne encomendara em curto prazo para discutirem a fachada da Valquíria. Apesar de ser um empresário aparentemente simpático, a intimidade com a dona da Aesir rendeu uma certa desconfiança no russo, a ponto de faze-lo pensar que o italiano seria a identidade secreta de Horne, mas logo ele soube que estava errado.

Não tinha mais o que pensar. Aquela CPU escondia nomes importantes do projeto. Nomes que Vladmir pretendia conhecer muito bem quando todos os dados fossem exibidos em seu monitor portátil.



O cadáver de Max Payne que espere! Tenho assuntos mais urgentes para tratar nesse momento.

Atravessando os carros, Lem caminhou um pouco mais até sumir de vez na escuridão da casa do homem que há poucos minutos ele assassinara.

Chegara a hora de experimentar a aventura mais radical que ele passou em toda a sua vida. Só não saberia ao certo como isto chegaria ao fim. Morte ou a chance de uma nova vida de redenção, logo ele saberia.

CAPÍTULO 6
O início de uma perseguição surpreendente.
- Socorro! – gritou um homem fora da Boate Ragnarok – Venham aqui! O Martin está ficando louco!

A situação em que se encontrava o segurança do russo Vladmir Lem fora da boate era bastante extrema. Há poucos minutos, o chefe tinha chegado ao local e entrado com uma CPU na mão. Estava trancado a sete chaves dentro da sala particular, apenas com mais dois outros homens de confiança. O que eles faziam lá dentro, ninguém sabia ao certo, somente podiam registrar uma movimentação inexplicável. Lem estava apressado.

- Acudam, pelo amor de Deus! – o guarda ainda chamava por alguém.

O segurança parecia estar experimentando a loucura. Logo que chegara a parte exterior da boate, um deles viu o cenário terrível que se descrevia. Um dos amigos tinha ingerido frascos de Valquíria – dois potes de vidro estavam junto a ele, no chão – e havia se esparramado de vez. Não menos que isso, em um momento de atenção brusca, o viciado quebrou o recipiente e com a parte irregular, ele passou a riscar forte a própria pele, cortando-a verticalmente em pedaços. Poucos segundos depois, o sangue começou a escorrer. Olhava para o céu como se estivesse enxergando uma abominação.

- Ele está atrás de mim – dizia, tremendo com a perda de sangue. – O guerreiro, o símbolo.

- Onde está a droga do pessoal que não aparece para me ajudar?

Sem mais pensar, ele decidiu deixa-lo sozinho por um tempo enquanto entrou no Ragnarok para procurar alguém. Levou também consigo os cacos de vidro que estavam com o segurança drogado para que não se cortasse mais, nem se envolvesse em autocarnificina. Mesmo estando com a visão enevoada, Martin conseguiu sentir uma presença viva se aproximando dele, uma pessoa que não conseguiu reconhecer por hora.

- Parece que andou ingerindo Valquíria, amigo – o guarda cerrou os olhos –, e se cortou todo. Queria mesmo morrer? Vou te dar uma nova oportunidade de escolher o seu caminho.

Martin logo se reergueu quando finalmente reconheceu a voz distante. Nunca a esqueceria desde a última vez. Pensou em gritar pelos companheiros, mas uma mão pesada foi fortemente pressionada contra sua boca e, depois, ele sentiu algum líquido ser injetado em seu pescoço. Uma dor aguda o tomou de imediato.

- Ainda lembra-se de mim, Martin? – o desconhecido continuou. – Já faz um bom tempo desde o nosso último encontro, mas tenho certeza de que você recorda muito bem.

O homem tentava ainda gritar, mas apenas um murmúrio longo e abafado se ouvia em seus próprios ouvidos. Sua mente começou a girar e notou que os seus sentidos aguçavam-se, seus movimentos tornaram-se agora imprecisos. Era como se ele fosse comandado por uma máquina, fazendo apenas o que o ordenavam a fazer. Um robô facilmente manipulável.

Enquanto o desconhecido indultava no corpo de Martin um aparelho, ele teve de tirar a mão da boca do refém, pois sabia que o medicamento já fazia efeito nas cordas vocais, entorpecendo-as de forma a não produzir som – ou seja, ele não podia falar ou gritar. Estava sem voz por alguns segundos.

- Escute bem o que eu vou te falar agora – disse o estranho. – E não tente nenhuma gracinha, pois sobrará primeiramente para você mesmo.

Então, calmamente, o homem explicou o que o segurança de Vladmir Lem deveria fazer lá dentro.


(...)
O russo estava diante do monitor, perplexo todos os documentos que acabara de ver nos arquivos mortos de Albert. Mais comprometedor ainda eram os vídeos que denunciavam a verdadeira identidade secreta que Nicole Horne escondia. Então, esse tempo todo era você? Exatamente como ele já desconfiava há algum tempo. Para ele, o detetive Max Payne morrera sem ao menos saber das assombrosas revelações que cairiam sobre sua cabeça como uma pedra mortal.

Os outros homens em volta estavam embasbacados com as cenas. Eram coisas que nunca imaginariam. A identidade secreta era alguém que ninguém nunca desconfiaria. Uma pessoa cheia de escrúpulos que escondia o grande mistério do assassinato da família de Payne. Como eles desejaram o detetive estar vivo agora para ter a necessidade de ver a sua expressão surpresa.



O que o novo herói de Nova York faria? Por tudo isto, muita gente pagaria muito caro para ver esse combate final onde duas pessoas tão fortes lutariam pelo predomínio da vantagem, mas nada seria possível no momento. A morte era o empecilho para ambos, já que estavam separados em planos totalmente distintos, e só Deus sabia onde. Vladmir Lem imprimiu os arquivos e gravou os vídeos em seu aparelho celular. Agora, tinha o poder em mãos – a SENHA não representava mais nada, não mais.

Alguém batia à porta insistentemente. Ao abrir, o segurança Martin entrou quase que exclusivamente. Ele estava coberto de sangue e tremia ao pé da pintura modernista de Carlos Batanesse: Os Encorajados. Os demais guardas aproximaram-se para ampara-lo, mas foram repelidos com precisão.

- Não me toquem, por favor – Martin ainda sentia a voz voltar aos poucos. – Não cheguem muito próximo.

- Qual é, cara – disse um dos guardas. – Está nos estranhando? Somos nós! Bem que eu disse que a droga o deixou maluco mais do que já é.

Vladmir voltou-se para o segurança pessoal, sem compreender nada. O homem parecia estar se afastando mais e mais de todos.

- O que está acontecendo, Martin?

- Ele está aqui – respondeu, tremendo. – Tudo vai pelos ares! Tudo vai explodir a qualquer momento.

- Do que você está falando, cara? – o outro tentou toca-lo no ombro, mas Martin caminhou para o lado com pressa.

O refém levantou a camisa que estava usando e mostrou o equipamento quase amarrado em volta da cintura. Ao ver o dispositivo, todos eles recuaram, os olhos esbugalhados. Era uma espécie de bomba com detonador automático que era sensível ao toque, uma tecnologia americana recente. Quilotons de dispersão.

- Uma bomba! – os gritos foram inevitáveis.

O Ragnarok irrompeu-se num caos iminente em contagem regressiva. Milésimos de segundos separavam o dia e noite, o céu e inferno, bem e o mal. Todos berravam aflitos com a emboscada. Martin ainda exclamava estático a mesma frase que pronunciava enquanto ninguém queria escutar;

- Max Payne fez isso comigo! O fantasma está vivo!

O russo Vladmir Lem entrava em seu automóvel quando ouviu em alto e bom tom o nome que ele menos esperava: Max Payne está de volta. Não podia ser possível o acontecimento. Por hora, desejou ardentemente vê-lo frente a frente, mas a inesquecível vingança do detetive o obrigava a esquecer o velho amigo.

A essa altura, ele deveria estar querendo a sua cabeça como troféu de honra. Pisou fundo no acelerador, o envelope no banco do carona. Ali, estava sua salvação. Quando já se distanciava da boate, pelo espelho retrovisor, Lem viu seu maior investimento cair por terra.

Uma tremenda explosão caiu sobre o Ragnarok, as bolas enormes de fogo e fumaça consumindo tudo que encontrava como se alimentassem da matéria humana e de concreto dentro do local. Tudo ia caindo com o impacto, a sustentação estrutural partindo em pedaços, as paredes sendo arremessadas para longe, quebrando tudo em volta, o chão tremendo como terremoto. Toda a sua guarda pessoal fora carbonizada com a explosão inexplicável.

No entanto, ele só podia explicar uma coisa: a forma que precisava buscar para fugir para longe, quem sabe um outro mundo, outro planeta talvez. Porém, não seria tão simples quando imaginava. Um pouco atrás, há poucos metros de distância, um veículo vermelho o seguia com mesma velocidade. Era o detetive Max Payne querendo um confronto direto de manobras e habilidades em um carro policial.


(...)
Os pneus rodopiavam no asfalto, seguindo o mesmo direcionamento. O veículo de Vladmir Lem já se distanciava da visão de Max. Sem obedecer ao limite de velocidade, o automóvel fez um arco forçado numa esquina quase batendo no poste central do paço. Muitas pessoas instintivamente se jogaram para os lados tentando não serem atingidas pela dianteira. A rua estava sem o movimento alarmante, mas o caminho era conhecido. As estradas externas que davam acesso ao viaduto separavam os estreitos baixos de uma ponte que suspendia cabos metálicos e o próprio caminho de concreto.

Os automóveis avançaram com maior velocidade - ambos lado a lado -, para tentar fechar o caminho de fuga. Ficaram próximos, de forma que o carro do russo ocupou a posição central, tendo apenas todo caminho retilíneo para escapar. Os vidros enegrecidos dificultavam a pressa. Na precisão acurada, os freios foram acionados bruscamente e o asfalto foi riscado por uma mancha escura dos pneus.

Ambos adiantaram, mas logo se encontraram mais à frente.

Embaixo da ponte extensa, Payne também retomou a dianteira. Todavia, Vladmir encostou-se no vão das estruturas, obrigando a viatura policial a riscar a parede pelo seu lado esquerdo. O retrovisor cedeu ao forte impacto e as faíscas nasceram dos metais de formação. Logo, uma outra rua se formou adiante, muito mais movimentada. Era o local onde os vários bares formigavam de pessoas, ainda ao longe.

O detetive percebeu que o vidro da porta foi baixando lentamente, e uma mão surgiu portando uma pistola reluzente. Um clarão foi visto e a bala tiniu na dianteira da viatura, adentrando no vão interno. Outro disparo assomou-se do cano. Os veículos serpentearam por toda a rua. Outros projéteis riscaram o ar, imprecisos, sem ao menos chegar a atingir Max de frente. Ele estremeceu.

Obedeceram aos movimentos. Payne estava boquiaberto com a astúcia e habilidade na condução de Lem. Mas, não tinham tempo para admiração, pois o perpetrador já se aproximava do movimento nas calçadas cheias de mesas repletas de bebidas sortidas e alimentos variados.

Ninguém havia notado o perigo do outro lado.

Os dois carros novamente se encostaram. O detetive tinha que tomar uma precaução urgente, pois a loucura daqueles movimentos podia causar um acidente. E foi o que realmente aconteceu. Percebendo a posição de contato entre os veículos, Vladmir rodou o volante para adentrar numa outra ruela, mas perdeu o controle quando bateu a traseira. Na velocidade em que vinha, não pôde recuperar a postura, tombando no meio-fio do calçamento mais elevado.

O grande veículo saiu capotando pela rua, fazendo as ferragens serem destroçadas com o atrito do chão plano e avançando em direção a um dos bares lotados. Ali, todos conteram um grito de horror ao ver o objeto metálico rodopiando na rápida aceleração impulsionada antes do percurso acidental.

As pessoas rapidamente se espalharam, derrubando todas as mesas e cadeiras numa turba estridente. As mulheres seguravam os filhos, arrastando-os para longe dos escombros. Os garçons foram esparramados pela calçada, mas salvar alguns foi impossível. O automóvel foi violentamente lançado contra as vidas sem chance de fuga, levando-as em um impacto estrondoso que, no último momento, se chocou com as vitrines de bebidas causando explosão de vidros.

Todos foram ao chão enquanto os cacos cortavam-lhes a pele sensível. A consumação do ato aconteceu. O sangue espalhado, pessoas horrorizadas, cinco cadáveres e gente cercando o perímetro.

Max Payne não se conformava. Assim que notou o carro tombar, freou a viatura onde estava e saiu pela rua a correr apressado em direção ao atentado fatal. Entrou no bar, onde o que restou do veículo de Vladmir jazia recoberto de vidros.

Com o olhar semicerrado, aproximou-se um pouco, e parou perplexo com o que estava vendo a sua frente. Cambaleando pelo corredor do bar, o detetive sentou-se sobre uma cadeira, completamente perdido. Parece que tudo virara de cabeça para baixo. O russo chamou Payne baixinho, a voz quase não saia.

- Tome – ele disse, à beira da morte. – Não queria que a nossa amizade fosse comprometida com a culpa que nunca foi minha. Veja esses documentos próximos de você.

Max pegou o envelope respingado de sangue e o abriu. De dentro tirou alguns papéis e arquivos contendo a contabilidade das corporações. Com eles, havia formulários com nomes, exatamente um nome que ele não esperava ver inscrito ali.

- Aqui está a prova maior do assassinato da Michele e sua filha – Lem continuou, entregando-lhe o celular no link de vídeos. Uma imagem foi exibida na tela do aparelho. – Eu não tive culpa pelas suas perdas, cara. Queria que soubesse disto...

Payne não acreditava no que estava vendo. Parecia insanidade. No vídeo, uma mulher que ele conhecia muito, muito bem estava invadindo sua casa com uma arma na mão. Um clarão se fez no monitor. Michele estava morta agora. Sua filha também tomara o mesmo destino da mãe.

- Então foi a Mona? – O detetive caiu de joelhos, incrédulo. – Todo esse tempo ela apenas usava da influência conosco para nos manipular. Tudo agora faz sentido, pois consigo fazer ligações. Ela era a identidade secreta que Nicole Horne escondia. Mona assassinou a minha família!

- Vá, Max – disse Vlad, em suas últimas palavras – Vá e faça justiça, nem que seja com as próprias mãos! Eu sei que ela não está morta, pois o tiro deve ter pegado de raspão, tenho certeza.

E seu olhar vazio se perdeu no horizonte da rua. Lem não podia fazer mais nada. O detetive ouviu a sua própria voz reverberar pelo bar, as pessoas juntando em volta para ver o que havia acontecido ao motorista do carro que se estilhaçou. Ao erguer os olhos, Max exibia uma fúria na expressão.

Sem perder tempo, levantou-se e saiu correndo em direção a viatura, nem se importando em bater contra as pessoas junto dele. O barman ainda tentou chamá-lo para entregar o envelope que havia caído no chão, mas ele já estava longe com o celular nas mãos.

CAPÍTULO 7
A invasão que terminara em dois assassinatos.
Smonkains Street – 14 horas e 09 minutos, há dois anos.
Michele – a esposa de Max Payne – ouviu a porta traseira de sua casa ser arrombada e percebeu que eram homens provavelmente em busca da droga Valquíria. Ela estava assustada, pior ainda era estar sozinha com a pequena filha que dormia no quarto no andar acima.

Os viciados entraram vasculhando todos os espaços, quebrando tudo que encontraram em volta. Todos pareciam insanos, em busca de algo que não tinham como saber se havia ou não ali dentro.

- Sabemos que você os esconde aqui – disse um deles, abrindo uma gaveta. – Você a roubou de nós, desgraçada!

- Não tem nada escondido – respondeu Michele, cambaleando de medo. –Por favor, a minha filha está dormindo.

Os homens subiam rapidamente as escadas, uma algazarra incontrolável que Michele tentava conter de todas as formas possíveis, mas apenas uma porção de insultos chulos era profanada. Quando entraram no quarto do casal, a criança acordara assustada, aos choros, sua mente em formação procurando entender o que acontecia.

A pequena olhava para os invasores e depois para mãe, continuando a chorar comedidamente. Eles não pareciam se importar com nada, nem mesmo com as palavras de Michele que ainda insistia em dizer que não havia nada ali. Na verdade, nem ela mesma sabia o que procuravam.

- Onde está a SENHA? – gritou um deles, segurando o pescoço da filha. A menininha se esperneou, aflita, sem fôlego. – Não brinque comigo!

- Eu não sei do que estão falando – ela levantou as mãos, implorando. – Pelo amor de Deus, largue minha filha.

Um homem corpulento entrou no quarto, ordenando algo para os demais. Michele logo reconheceu aquele grande porte musculoso, cheio de tatuagens de símbolos nórdicos envolvendo a pele branca. Era Jack Lupino, o capanga que sempre andava com Nicole Horne.

Entretanto, não foi a presença de Lupino que impressionou Michele, mas sim a de uma mulher que também surgiu por entre os homens. Ela tinha altura, cabelos longos e ruivos e um corpo quase escultural.

- Você? – sussurrou a mulher de Max Payne, boquiaberta.

Mona Sax estava enfurecida com os invasores. Como uma rainha, ela já entrara dando ordens severas e contidas.

- Idiotas! – olhou para todos. – Será que não sabem fazer nada sozinhos? A droga que dei já corroeu o cérebro mole de vocês? Eu não preciso mais de nenhuma SENHA, pois já tenho comigo!

Michele voltou-se para Mona, tentando compreender bem o que acabara de escutar. Há alguns dias, alguém havia invadido a casa enquanto ela, Max e a filha jantavam em um restaurante chinês no Brooklyn. Nem sinal de pistas ou evidências. Alguém roubara uma porção de documentos que ela tinha consigo, papéis que pretendia mostrar a toda a cidade no dia seguinte e desmascarar os planos de Nicole Horne e seus acobertados.

- Você roubou os arquivos? – a esposa de Max continha sua raiva.

- Não tenho tempo para explicações, Michele – disse Mona Sax. – Não poderia correr o risco de ter meu nome nesse envolvimento. Com a SENHA nas mãos, você não terá como provar absolutamente nada.

Estavam tão acobertados pela situação que nem chegaram a notar que um dos invasores filmava tudo em uma microcâmera instalada no chapéu. Ele olhava para onde as duas mulheres permaneciam às vésperas de briga.

- Então pensamos – prosseguiu, tirando uma beretta de dentro da bota – no que poderíamos fazer para que Michele não abrisse o seu bico e causasse ainda mais investigações dos tiras? Decidimos então calar a sua boca de vez!

Na câmera, o primeiro disparo foi registrado sem muitas complicações. Michele Payne caiu sem vida sobre a cama. O segundo momento, aquele que ninguém ali esperava, também foi filmado.

O resultado do trabalho da exuberante Mona Sax cairia bem depois nas mãos do homem que ela não imaginava. Isso seria revelado mais tarde.



CAPÍTULO 8
A grande operação policial.
No departamento de Jim Bravura, um conjunto de policiais corria para suas viaturas. O destino novo era prédio Sander’s Corporation. Lá, a operação Valhalla ainda estava vivo, executado às escondidas sob comandos de Mona Sax.

Os documentos e arquivos mortos da Central Robbery continham muitas planilhas que explicava negociações com a nova empresa recém-descoberta. Uma lavagem de dinheiro e investimentos vultosos, algo exagerado para os lucros simples de uma corporação de medicamentos e drogas farmacêuticas. Obviamente, a Sander’s representava a fonte produtora da droga pronta para a distribuição e aplicação no projeto sem sucesso dos militares.

Max Payne ainda estava conversando pelo celular com Jim Bravura, com as explicações dos últimos acontecimentos. Muita gente já estava morta e uma assassina perigosa comandava os serviços secretos de Nicole Horne agora. E como todos acreditavam que tudo havia acabado, a operação Valhalla ainda progredia em passos lentos, mas graduais.

- Não estou acreditando que tudo terminou assim – disse Bravura, ainda sem entender bem o que Max contava. – A operação ainda não acabou? Com essa informação, nosso pessoal poderá agir com mais cautela.



- Isso não me interessa, Jim – Payne determinou, com ódio na voz. – Só quero saber de Mona e de como vou fazer picadinho dela! Aquela desgraçada me enganou direitinho, achando que vai sair vitoriosa. Não, eu não costumo perder feio assim, e não será justamente para a famosa Sax.

- Você ao menos sabe onde a Mona está? – perguntou Jim. – Na certa, ela vai tentar de todas as formas ficar na defensiva. Acho que não deve saber sobre as suas descobertas recentes. Seja esperto e a faça cair no seu jogo.

- E o que você pensa em fazer para impedir o progresso da Valhalla? – Max indagou, querendo saber dos planos. – Se a cretina estiver por lá, você me avisa que eu mesmo faço estrago, sem nenhuma piedade ou clemência.

- Essas são palavras que não combinam com a sua personalidade, como nós sabemos, Max. Porém, eu acredito que a justiça pode ser feita. Sua mulher e sua filha foram assassinadas cruelmente, portanto faça vingança!

A ligação ficou muda.
(...)
O alto prédio da Sander’s Corporation estava fervilhando em atividade, os diversos cientistas com seus tubos de ensaios, estudando formas de chegar ao novo composto que visavam produzir – uma centrifugação da Valquíria, um composto mais eficaz para uso em protótipos de militares para testes.

Mona Sax havia acabado de chegar, sangrando, as mãos cobrindo a lateral do abdômen. Ela manquejava, as botas pretas quicando pelo laboratório de pesquisas experimentais, fazendo-a cambalear.

Uma mulher do corpo de cientistas aproximou-se de Mona, preocupada, mas ao mesmo tempo aparentemente com uma expressão de quem tinha boas notícias para oferecer. A moça tinha em suas mãos, um erlenmeyer cheio de líquido azulado.

- Você está bem? – a moça perguntou, levantando o recipiente, os olhos brilhando como petróleo. – Tivemos sucesso hoje, Mona. A Valquíria Gama já foi desenvolvida. E sabe os benefícios experimentais.

Todos abriram um sorriso nos lábios, inclusive Mona. Por hora, esqueceu até mesmo do leve ferimento. Aquilo podia ser superado, pois uma notícia que eles esperavam por anos acabara de ser anunciada no melhor dos momentos. Os cientistas vibravam com a descoberta, uma nova droga que atrairia uma rede mais lucrativa de negócios.

- Sem erros fisiológicos e colaterais dessa vez – continuou a cientista em explanação. – Melhor potencial ofensivo, maior reflexo dos movimentos, maior êxtase, praticamente um analgésico para as alucinações.

- E como ela se comporta contra heróis enfurecidos? – Mona brincou.

- Acho que deve funcionar.

Todos riram, satisfeitos com o resultado positivo de um conjunto cheio de mentes brilhantes da ciência. Dois homens cuidavam do ferimento à bala, enfaixando o local com cuidado. Éter e mercúrio concentrado curariam até um defunto à beira da morte.

- Comemorem muito enquanto podem – ela disse, ajeitando suas botas de cano alto. – Tenho informações de que o herói da cidade já sabe dos nossos avanços, de uns assuntos pessoais e pretende acertar as contas comigo.

Os presentes demonstraram certa insegurança, temendo a fúria cruel que todos conheciam. Um único homem que destruiu a Aesir inteira e ainda muito facilmente derrubou o helicóptero de Nicole Horne. A vida dela foi um peão de sua própria traição. O que o impediria de chegar a Sander’s?

- Relaxem – prosseguiu Mona com uma calma arrepiante. – Mesmo que ele quisesse algo, seria impossível chegar a localização do nosso prédio. Eu trabalhei duro para que meu nome não fosse associado a esta corporação. A SENHA é a única forma de revelação, mas eu a tenho em mãos.

- Ou seja – completou outro cientista –, o detetive Max Payne não pode fazer absolutamente nada, então.

Ela assentiu, voltando-se para um dos seguranças pessoais.

- Por via de dúvidas seria bom que a “nossa maior arma” esteja preparada para o caso de acontecer alguma eventualidade. Concluindo: o Payne não tem para onde correr, muito menos nos destruir. Sabem por quê? Porque temos uma isca perfeita, algo que ele nem sonha encontrar.

Nem foi preciso perguntas, pois sabiam muito bem à que ela se referia. Um escudo de proteção poderoso na qual Max Payne não podia competir.

No prédio em frente a Sander’s Corporation, na luxuosa sala de cobertura, Jim Bravura e seus homens observavam com binóculos de visão extensiva cada movimento realizado pelos cientistas que apressados caminhavam de um lado a outro do laboratório.

Abaixo, no térreo, policiais altamente armados estavam posicionados em volta do prédio, cuidando de todos os espaços desde o estacionamento até a entrada oficial. Ninguém sairia ou entraria sem a permissão de Jim, que tinha uma declaração de invasão da presidência central da cidade.

Tudo era apenas uma fachada, os cientistas com expressões indefesas escondiam uma parede praticamente impenetrável de guardas treinados para situações de risco. Ainda olhando para a sacada, Bravura viu a silhueta rápida de Mona Sax. Então, você está aí? Bastava uma simples ligação, e tudo seria resolvido sem muitos problemas. E ele assim o fez.
(...)
Max Payne entrou no prédio onde estava Mona Sax, com pressa cada vez maior. Tinha contas a acertar. O térreo estava limpo, sem muitos seguranças ou ocultos pelo menos naquela parte, alguns em que ele mesmo teve que usar da força para elimina-los sem dificuldades. Dessa vez, usava uma arma conexa com um silenciador metálico.

Jim Bravura comunicava-se com ele através de um fone colocado sobre o seu ouvido esqueço, um dispositivo quase invisível. O colega dizia algo, dando as coordenadas que eram vistas na sacada, onde cientistas conversavam. Não tinham saída, pois o Sander’s agora era uma bem suprida fortaleza, cheia de policiais, viaturas e depois helicópteros de munição prolongada.

Essa seria a operação de risco, inteligência e sem conhecimento do fim.

O detetive Payne subia as escadas em cascata, segurando pelo corrimão até atravessar andar por andar, tendo que continuar a seguir instruções de Jim. Acontece que naquele dia, não estava disposto a receber ordens. Ele queria quebrar suas principais regras pessoas e seus limites. Matar a Mona Sax. Era o pensamento que assomava sua mente vingativa. Matar e comer a sua carne.

No andar onde todos se encontravam, uma comemoração ainda se ouvia, os pesquisadores brindando o sucesso da Valquíria Gama, o fator primordial de uma chuva de dinheiro e lucros. Não teve muito tempo, pois Max Payne surgiu como um fantasma iniludível, já segurando uma cientista e colocando o cano frio da arma em sua cabeça. Tudo parou na hora.

- Enfim nos encontramos novamente, Max – disse Mona Sax, uma taça de champanha borbulhando. – Achei que você fosse um tanto mais rápido. Qual o problema? Está se achando velho demais para o serviço?

O detetive encolheu os ombros, logo pegando o envelope meio amassado de dentro da camisa e jogou para ela. Calmamente, a jovem mulher baixou e o segurou com tranqüilidade. Abrindo, leu os documentos. Sorriu para ele.

- Então, foi assim que descobriu? – ela perguntou, colocando a taça sobre a mesa. Olhou para os cientistas. – Vejam como Max é esperto!

Payne pressionou fortemente a arma contra a cabeça da pesquisadora. Ela derrubou a taça no chão, quebrando-a em vários pedaços. As lágrimas já corriam pelos olhos amedrontados.

- Não é ela quem você procura, cara – disse Mona, confiante.

- Eu poderia estourar os miolos dela e fazer você comer aqui mesmo se eu quisesse – Max gritou, olhando para as grandes janelas. – Mas eu não farei, isto, pois não quero repetir o mesmo erro que você. Matar duas pessoas que significavam muito para mim, pessoas inocentes.

Ela girou com o calcanhar a perna, voltando-se para o detetive.

- Ora, ora. Será que estou notando compaixão em seu rosto, Max. O que é? – atiçou o emocional dele. – Todos estão esperando o grande ato heróico que comentam em toda a cidade. Queremos que você puxe o gatilho e a mate, não é, pessoal?

Os cientistas assentiram. Max suou frio, não esperando a reação. De uma hora para outra, todos pareciam querer a morte da própria colega de equipe. Não fazia sentido o joguinho que estavam tentando coloca-lo.

- Vamos, Max! – um dos homens falou. – Atire!

Ele continuou impassível, a severidade estampada.

Nesse momento, o barulho das hélices de um helicóptero assomou fora das janelas. Outro, e outro. Agora já eram três. No interior dos HP-2010, muitos policiais seguravam armas metralhadoras, apontando para dentro. Bastava um simples comando, e tudo aconteceria ao seu tempo. Estavam encurralados.

- Esse é o seu problema – Mona brincou, uma sobriedade notável na sua expressão. – Nunca consegue fazer nada sozinho. Sempre seguido por seus peixes miúdos. Mas, a batalha nunca é menos do que aparenta.

Bastou um gesto dela para que incontáveis seguranças aparecessem por todos os lados, repletos de armamentos de ponta, inclusive um canhão de alta precisão e milimetragem. Um ataque qualquer, o estrago seria enorme.

Max caminhou para mais próximo da janela, levando consigo a cientista trêmula. Mona não estava brincando. O temperamento dela sempre era gostar de ver o circo pegando muito fogo. As primeiras atitudes sempre saíam de suas idéias. Era sempre assim, e naquele dia não seria diferente.

No primeiro ato estranho que percebeu, os seguranças atiraram contra Max e a janela, os helicópteros se afastando, desviando das balas. O detetive caiu para o lado, tomando a pesquisadora como escudo e logo sumiu de vista. No meio da turba violenta, um tiro do canhão se escutou. Max instintivamente baixou a cabeça, sem ao menos conseguir ver nada, somente algo zarpando rápido ao lado dele e explodir na parede próxima. A potente esfera atravessou-a, lançando pedaços de concretos para os lados.

Outra explosão se ouviu, dessa vez, tinindo em metais resistentes. Mona gritou radiante, sabendo que acertara o alvo. Quando Payne levantou a vista, um helicóptero rodopiava no ar, riscando uma nuvem de fumaça atrás de si, um ronco do motor infernal assustadoramente junto do prédio. O HP-2010 quicou nas janelas, os vidros das plexiglas rachando e caindo para baixo. Foi, então, que o helicóptero tombou finalmente, entrando no laboratório, a hélice partindo tudo em volta.

A organização formal do espaço logo se transformou numa espatifaria de vidros, líquidos e pessoas em pânico no chão, tentando salvar do aparelho que penetrava ainda mais o espaço até parar definitivamente. Os policias talvez não resistiram ao tremendo impacto, algumas gotas de gasolina derramando do tanque sem que ninguém ainda percebesse.

- Onde está Max Payne? – Mona gritou, levantando-se. – Já está morto?

O detetive apareceu por trás da parede meio partida, puxando a refém para junto do seu corpo.

Os homens de Bravura derrubaram a porta principal, logo entrando em contato com a mira da infinidade de armas dos seguranças. Todos tentavam se proteger dos disparos iminentes. Qualquer movimento, a chuva de projéteis. Mona Sax percebeu o disparate ocasional, pois estava em menor número. Sua isca secreta foi chamada e o homem a trouxe, surgindo junto das duas janelas quebradas. Max Payne esbugalhou os olhos, deixando a arma cair na hora.

- Não pode ser verdade.

Mona aproximou-se de ambos, tomando a menina para ela. Uma criança que chorava, desprotegida do ar forte que entrava pela janela. Uma pequena criança que o detetive conhecia muito bem. Não pode ser verdade.

- Filha? o detetive tremia, as lembranças voltando como tormento cruel.

- Pelo visto, acertei em cheio sua veia não é? – ela apertou o braço da criança. A menininha chorou alto, agoniada. – Achou que eu não teria a arma à altura para faze-lo cair. Achou que sua filha estava mesmo morta? – Max deu um passo, logo parando quando viu Mona se aproximar mais da janela.

- É isso que mentes inteligentes fazem – continuou. – Elas buscam uma saída sem volta, um poço sem fim. Uma dose de Savonarolla em seu sangue para que a menina “morresse” por algum tempo. O tempo do seu enterro e do roubo do corpo. Recebendo cuidados aqui, ela permaneceu secretamente.

- Você é louca! – disse Jim Bravura, incrédulo com o que via.

Mona Sax gargalhou alto, assustando a pobre criança. A menina sentia o vento frio que ressequia sua pele sensível.

- Bastou apenas que eu comprasse alguns médicos que cuidavam dos exames pós-morte, de uma dose certa de Savonarolla, um corte que se parecia com um tiro e maquilagem. Somente com isso, eu enganei o herói da cidade.

Os cientistas estavam estáticos em meio à turbulência de arma e miras quase certeiras. A nova droga estava derramada sobre o chão, um cheio acre e forte impregnava o local, logo se homogeneizando com a gasolina que descia do helicóptero tombado ao lado.

- Você não quer fazer isso, Mona – disse Max, levantando a mão. – Ela é apenas uma criança que nem ao menos sabe direito do que aconteceu. Eu me entrego e pode fazer comigo o que você quiser. Mas, por favor, deixe a minha filha livre disso!

Max quase enlouqueceu ao ver o novo movimento da moça que segurava a sua filha. Tentou correr, mas estava impossibilitado pela inércia.

- Acha mesmo que eu vou cair nesse seu joguinho estúpido – ela segurou uma das pernas da criança, deixando de cabeça para baixo. – Esse caminho não tem mais volta, cara. Você e seu bando destruíram meu trabalho, anos de pesquisas e sonhos. Tudo escorrido pelo ralo.

- Mais um motivo para descontar tudo às minhas costas – ele disse. – Você sabe que eu sou um homem de palavras.

- Agora é tarde, Max. Não tem mais nenhuma volta – gritou. – Não sou burra para não perceber sua intenção. Acontece que eu prefiro morrer a ter que deixa-la viva. E é isso que eu vou fazer, assim como fiz com Michelle.

A mulher preparava-se para soltar a perna da criança, mas Max gritou mais alto, sendo muito rápido.

- Vai ter coragem de matar a sua própria filha? – a mulher estremeceu. – Ela não é filha da Michelle, mas sim a nossa filha. Aquela que você sempre acreditou que havia perdido.

Foi nesse momento que um silêncio pousou sobre o laboratório. Mona Sax sentiu o próprio mundo particular cair sobre sua cabeça. As antigas e impiedosas lembranças vieram naturalmente. Há algum tempo, ela tivera uma criança – do sexo feminino – e enquanto a felicidade ainda durava como sonho, ela recebeu a notícia da morte por parada cardíaca congênita da filha. O corpo nunca vira ao certo, pois Max encarregara-se de todos os preparativos e a convenceu pela incineração, para que o enterro não causasse sofrimentos.

Dias depois, o casal Payne adotara a criança como filha. Na época, a Michelle ainda não trabalhava para a Aesir, mas para outra empresa. Foi fácil assinar o seu contrato com Nicole Horne e logo ganhar uma falsa licença maternidade, o tempo necessário para que todos acostumassem com a idéia de que a menina era filha legítima de Max, e certamente era. Uma criança que o detetive anunciou a esposa como sendo um desejo antigo de adoção, já que Michelle Payne era estéril. Logo, veio à dádiva.

- Nossa menina? – Mona ergueu os olhos para ele, segurando-a de forma correta. Ela a abraçou, chorando – Nossa menina, Max!

Ele assentiu, sem ter reação no momento. A jovem estava aparentemente emocionada, o rosto benevolente mostrando-se mais perceptível. Mona sabia que não podia fazer mal a filha. Era verdade. Com um pesar profundo por ter ferido o próprio sangue, ela colocou a menina no chão e a viu afastar-se por alguns metros.

Depois, tornou a olhar para o ex-amante. A expressão dele mudou como se fosse um aparate, uma sombra passageira de dúvidas atravessando seus sentidos mais recônditos. O detetive deu passos curtos. A sensação parecia a mais estranha. Foi aí que Mona teve a aterradora conclusão, ao mesmo tempo se precipitando.

- Você só pode estar mentindo – ia dizendo enquanto se preparava para outra vez pegar a menina para joga-la pela janela. – Nossa filha está morta! Você está mentindo para mim...

Dessa vez, ele foi mais rápido. O instinto de pai falou mais alto quando, sem nem pensar no que estava fazendo, o impulso o levou a correr até Mona para empurra-la e, junto com ela, se jogou para baixo. Jim gritou, inconsolado.

Os policiais logo tomaram o controle da situação, rendendo os seguranças e tomando as armas. Tudo estava aparentemente resolvido. A criança chorou.

Jim Bravura ficou rente a janela, o vento quase o empurrando para trás, olhando para o fundo onde duas pessoas estavam mortas lá embaixo, com os policiais em volta.

- Pobre Max – disse Bravura. – Foi vencido pelo próprio segredo que ele mesmo preferiu esconder até o último momento de sua vida.



E lamentou a perda de um homem sem limitações. A operação acabara da forma mais trágica, levando Max Payne para longe, sabe-se lá para onde. A Valquíria agora era um reduto de pó.
(...)
Eu não acredito no paraíso. Minha religiosidade anda em baixa. Em poucos anos, minha vida mudou radicalmente. Estar nesse lugar que eu não conheço não é como um processo de libertação pessoal, as chamas corroem as minhas culpas. Acredito no que posso fazer as pessoas. Acredito no mal que posso causar a elas. Acredito no inferno, o local em que eu busquei sem reclamar por toda a vida. Vidas importantes para mim foram separadas pelo estupor de muitas armas. Agora, o destino cruel nos une pela última vez. Aqui é o inferno”.
NOTA DOS AUTORES
PRODUÇÃO do Jogo:
RockStar Games.
Remedy.
3d Realms.
Os diálogos são meramente ilustrativos e não expressam as opiniões e desfecho do jogo desenvolvido, as frases pessoais de Max Payne colocadas nos inícios dos capítulos são uma tradução literal dos momentos do game, conseguidas por Renato Duarte na versão posterior ao lançamento.

Conto – incluindo os personagens – baseado no jogo de tiro em terceira pessoa, produzido em 3D pela empresa finlandesa Remedy Entertainment, nas versões Max Payne e Max Payne 2: The Fall of Max Payne.


Toda história é meramente descritiva, usando os nomes dos personagens. A trama apresentada difere da versão original dos seus produtores. Somos fãs de Max Payne e não queremos de maneira alguma deturpar as fases. O final do conto completo é uma opinião inédita dos autores.


1   2   3


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal