Five monethy street 07 horas e 39 minutos



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PRÓLOGO
FIVE MONETHY STREET - 07 horas e 39 minutos.
Quando chega a hora definitiva da nossa morte, tudo se torna muito mais compreensível. Esse era o pensamento cruel e intempestivo que perpassava a mente aterrorizada de Bobby Smith naquele início de noite fria de Nova York.

O jovem atravessou correndo a extensa calçada em direção ao primeiro beco mais próximo que encontrou diante de seus olhos trêmulos. Por um breve momento de fôlego, ele olhou os lados e não viu mais nada a não ser a própria escuridão intensa que limitava as delimitações. As pessoas haviam evaporado para os confins como em um passe de mágica. Sumiram.

Bobby continuou sua romaria, sabendo que deveria prosseguir pela sua vida e para proteger os frascos com líquido azulado que escondia dentro dos bolsos da longa camisa preta de tweed. Certamente, o incansável inimigo o seguia em busca da Valquíria que tinha com ele. – uma espécie de droga experimental que conhecera ainda há dois dias e não mais conseguira largar, sempre abordado pelo vício insustentável.

Naquela noite o rapaz ingerira três pequenos recipientes, esvaziando-os com tamanha precisão e gosto. Estava cheio dos problemas com o trabalho, pelo menos por hoje. Estava cansado, consumido por uma enfadonha vida de melancolias e aparatos pessoais. Estava cheio de preconceitos.

Enquanto a Valquíria se misturava ao seu sangue, uma ânsia enorme de satisfação o tomou instantaneamente como se quisesse apoderar-se do seu corpo. Um demônio interno que não resistia ao desejo. A sensação era boa, um tanto diferente da primeira vez. A noite tornou-se dia para ele.

Bobby sentia um grande alívio momentâneo, um sentimento de paz que nem ele mesmo conseguia definir com precisão. Porém, tudo se dissipou quando uma visão estonteante juntou-se à realidade. O que ele viu a frente não era definitivamente humano, e sim o resultado de sua loucura. Foi então que o Smith começou a correr.

Finalmente, o beco tão procurado surgiu e ele entrou sozinho, o passo cada vez mais largo e voluntário. Encostou-se à parede lodosa, o cheio de lama impregnando o espaço. Por hora, pareceu que seu coração iria saltar pela boca. A adrenalina estava no ápice da circulação. O barulho incessante passou por ele como se fosse uma ventania. ‘Eu estou morto!’

Escuridão parcial, apenas feixes de luz assomava-se no lastro.

O jovem rapidamente pegou os frascos de Valquíria e ficou por um bom tempo que mais pareceu uma eternidade a olha-los com tremor. O rigor azulado do líquido incidia sobre sua pele. Ele não sentia mais os movimentos. Estava imóvel, estático.

Vozes dúbias reverberaram pelo beco solitário. Seres invisíveis pareciam profanar as próprias abominações sobre Bobby.



- Este é o símbolo do guerreiro antigo – as vozes diziam acima dele. – Tu carregas o símbolo dos heróis.

Sua visão ficou ofuscada, a respiração mais ofegante que o normal. Um tremor intenso percorreu o seu corpo, e ele caiu para o lado como se estivesse sendo possuído pelo escárnio invisível. Mas, definitivamente Bobby sabia que era tarde demais.

E então, a luz encobriu-o acima, um manto divino que não pôde definir bem, mas notava algo ao seu lado. ‘É o Demônio!’ Quis gritar, mas apenas o silêncio arrepiante foi sua resposta.

Quando tornou a abrir os olhos, ele viu o inimigo se aproximando de seu corpo estendido sobre o chão, junto a uma poça de água. Algo que parecia um grande pássaro abria as asas cheias de penas negras para ele, envolvendo-o totalmente. Era meio-humano e meio-pássaro, ao mesmo tempo. No abdômen, uma simbologia nórdica desenhada com perfeição, uma tatuagem escura que se mexia com os movimentos do pássaro. ‘Estou sonhando’ – pensou.

Num rompante, as largas asas o envolveram, tirando-lhe o fôlego. Uma dor excruciante atravessou cada parte vital que possuía. Gritos ecoaram pelo beco, enquanto as pessoas se aproximavam apavoradas para ver o que acontecia ao homem caído no chão.

De repente, Bobby se remexeu fortemente, sentindo a entidade nórdica penetrar sua carne fria. Ele fechou os olhos de dor, e tudo parou por segundos. Um silêncio rápido caiu sobre eles.

- Ele está tendo uma alucinação, mamãe? – perguntou uma criança, assustada com a cena terrível.

- Ninguém sabe... – outra voz surgiu mais próxima. – Ele ingeriu Valquíria.

- O que é isso? – a criança estava curiosa.

Antes mesmo que a resposta viesse naturalmente, Bobby Smith gritou ainda mais alto, levantando-se rapidamente numa agilidade impressionante. Os seus olhos estavam brancos como a neve. Todos recuaram, embasbacados.

A cena não durou um minuto sequer. No último gesto do rapaz possuído, um barulho estrondou pelo beco, e ele caiu sem vida para o lado.

Agora, estava morto.



CAPÍTULO 1



Os anos perdidos
Eu não acredito no paraíso. Minha religiosidade anda em baixa. Em pouco mais de três anos, minha vida mudou radicalmente. Estar nessa cadeia é como um processo de libertação pessoal. Acredito no que posso fazer. Acredito no inferno. Aqui é inferno”.
O som estridente da sirene ecoara há pouco. Max levantou-se da péssima cama e dirigiu-se a um pequeno lavatório para recompor-se e molhar o rosto.

‘Mais alguns anos e estarei longe daqui’ – pensou consigo.

Com o segundo toque da sirene, as grades se abriram. Era hora de sair para o café. No caminho ao refeitório, Max era cumprimentado por demais presos. Era respeitado. Estranho o fato: um ex-policial sendo respeitado numa cadeia. O mais curioso era que muitos dos presentes naquela unidade haviam sido mandados para lá pelo Detetive Max Payne. Seria comum quererem sua cabeça. Porém, depois de Max acabar sozinho com a Aesir – empresa de Nicole Horne – e um louco ocultista chamado Jack Lupino, não havia na cadeia – e até na cidade – alguém para atravessar o seu caminho.

Palavras de Gognitti aos Finitto antes de morrer: “o Max vem vindo aí... ele está com sangue nos olhos! Não vai sobrar ninguém para contar a história. Acabei de passar pela estação da Rua Roscoe. Tem corpos, tripas e sangue para todos os lados!” Alguém se atreve?


(...)
Sempre após o café, é horário do banho de sol. Os detentos dirigiram-se ao pátio central e ficavam sob a mira de policiais nas guarnições. Fuzis de alta precisão e longo alcance. Toda a prisão era cercada por altas paredes. Todas envoltas por cercas de alta-tensão. Não havia como entrar telefones celulares na cadeia. Nas paredes, encontravam-se aparelhos bloqueadores do sinal, o que podia interromper inclusive até mesmo os aparelhos móveis dos diretores. Quem entrava, quem saía era vistoriado através de uma máquina de raios-X.

Níveis e sub-níveis determinavam onde se encontrar cada tipo de preso, de acordo com o crime cometido. A ‘chacina’ cometida por Max valia-lhe um quarto isolado. Por se tratar de uma pessoa sem nenhum antecedente criminal, formado em Direito e, ainda mais, um policial – fora de atividade – e psicologicamente capaz, ele foi recolhido em um nível com outros criminosos sem perversos crimes em suas fichas.

Como os outros o denominavam, era absolutamente “inofensivo”.

Max recolhia-se ao quarto, ao ouvir o terceiro sinal. Antes, porém, pôde ouvir pelo seu nome, sendo gritado por um dos oficiais.

- Max Payne! Max Payne!

- Sim.


- O Diretor Steve Allen quer conversar.

- Não fiz nada de errado dessa vez... – replicou Max, voltando-se para ele.

- Por favor, conhece o procedimento. Vire-se de costas para algemá-lo.

Mesmo sabendo do procedimento, Max ainda ficava incomodado com as algemas. O oficial Frazzer conduzia-o através das galerias.Nível após outro, as trancas das grades eram destravadas e Max sentia uma estranha sensação de liberdade, um ar diferente que flamejava em seus pulmões vigorosos.

Na ante-sala, o secretário pegou o telefone e anunciou a presença de Payne. O diretor autorizou sua entrada. Ainda algemado, Frazzer dirigiu-se à porta. Max viu a placa na mesma onde dizia:

DIRETOR STEVE ALLEN

- Por favor, senhor Payne, sente-se.

Max foi até à cadeira e sentou-se. O diretor fez um sinal para que o oficial Frazzer saísse. O homem obedeceu piamente, trancando a porta atrás de si.

- Max, quanto tempo de prisão você ainda tem para cumprir?

- Cumpri dois anos, senhor – ele olhou para o diretor. – Ainda tenho outros noventa e oito pela frente...

- Vou direto ao assunto: conhece Alfred Wooden? – Perguntou o diretor. Naquele exato momento, Max adotou uma postura severamente mais fechada. Um silêncio desconfortável pousou sobre eles.

- Então Max – inquiriu novamente. – Perdeu o dom da voz? Responda a minha pergunta, homem!

- Reservo-me ao direito de permanecer em silêncio.

- Max... – explicou –, aqui entre nós, Alfred Wooden foi quem lhe indicou a Aesir e sua dona, Nicole Horne, como principais assassinos de sua família. Toda a empresa dela era somente uma grande fachada para implantarem um negócio muito, muito sujo: a droga Valquíria. O projeto Valhalla. O nome Aesir. Tudo leva a indícios de Mitologia Nórdica. Região natal de Nicole Horne. Você conhece isso melhor que eu, tenho certeza.

- Como sabe disso? – Foi a vez de Max perguntar, incrédulo.

- Mandei que o vigiasse, Max – o tom do diretor soou meio ameaçador. – Você deve me entender. Não poderia deixá-lo receber qualquer pacote sem que antes a direção da penitenciária soubesse exatamente do que se tratava. Você sempre recebia livros sobre o tema.

- Sempre achei que violação de correspondência fosse tida como crime pelo Código Processual... – brincou Max, um tímido sorriso brotando no canto da boca.

- Não aqui Max, você sabe disso.

- Aonde quer chegar sobre o Wooden?

- Bem... – ele suspirou fundo. – O Wooden tinha um plano de vingança contra a senhora Horne, só não tinha como pô-lo em prática. Ele deu-lhe todas as indicações de como chegar à Aesir. E sabia que você, guiado por vingança, daria cabo de seus desejos mais íntimos. Há mais um nome na jogada: alguém que lhe forneceu o armamento pesado para seu trabalho. Alfred e eu achamos que se trata de algum soviético... Mais precisamente um russo.

Max olhava cético para Allen. Ele precisava informações sempre certeiras. ‘Como ele poderia saber sobre o russo?’ Ainda meio tonto, resolveu arriscar:

- Fiz um benefício à sociedade de Nova Iorque. Tirei de circulação uma droga que, a princípio, seria apenas destinado aos soldados, o que por si só já era um absurdo. O projeto vazou e isso acabou servindo aos viciados de toda a cidade... Como se já não bastasse a cocaína, heroína entre outras... A Valquíria nas ruas seria um verdadeiro inferno aos cidadãos de bem. Já tomou conhecimento dos efeitos que a droga causa no corpo? Não faz a menor idéia!

- Blá, blá, blá... Max! Sei que Alfred disse-lhe que se acabasse com a Aesir, você deveria se entregar sem reclamar, que ele limparia sua ficha. Jim Bravura também sabe desse acordo. Nós três participamos de uma mesma Sociedade Secreta – Max ergueu os olhos para o diretor. – A mesma de sua faculdade, que no passado você também fez parte. Não esconda a caveira no seu pulso esquerdo... – ele meneou a cabeça. – Somos todos de uma mesma família.

Outra vez, Max olhou perdidamente para Allen, confuso. Sua mente era um borrão de pensamento, e só.

Realmente, The Skulls era conhecida dentro do campus e fora também. Estavam em todos os lugares. Desde a polícia, até a política. Passando por diversas esferas de poder. Exemplo: o Ex-presidente foi um Skull. Antes, o pai, também Ex-presidente havia sido. Max sabia que tinham algo em mente. Precisava saber o que era e o que planejavam para o seu destino.


(...)
- Quer o nome do russo que me forneceu as armas? – Perguntou Max.

- Exatamente – assentiu com a cabeça. – Em troca disso, facilitaremos seu processo de saída, e você sabe que conseguimos isso. Você sairia como o herói que mencionou há pouco. Esqueceríamos todas as fortes acusações que pendem contra você e o incidente com a Aesir. Faríamos de seu talento um luminar das pessoas. Parece tentador, não é?

Max levantou-se. Ainda igualmente tonto diante das várias informações que haviam sido expostas de modo tão ameaçador, ele dirigiu-se à caixa de charutos de Allen que estava sobre a mesa.

- Charutos custam dinheiro Allen – ele tocava a caixa de charutos.

- O que quer dizer com isso, Max?

- Sairei daqui como um herói, certo? – Allen fez um sinal que sim com a cabeça. – É uma das minhas condições. Tudo significa uma questão prática de boas visões. Afinal de contas, somos todos uma família.

O diretor gargalhou, achando graça do que acabara de escutar.

- Precisarei de algum dinheiro para me manter vivo – ele continuou, impassível. – Charutos custam caro. Heróis não ganham salários.

- E você quer trabalhar onde? Podemos arranjar qualquer lugar.

- Qualquer mesmo? – Interessou-se, cheio de expectativas.

- Não vai me arranjar problemas, cara. Onde está pensando?

- Quero voltar ao que eu sei, Allen – impôs. – Quero voltar a ser detetive. E mais. Quero voltar a trabalhar com o Jim.

Bastante surpreso, Allen levanta-se de sua cadeira. As ofertas propostas lhe pareciam bem saudáveis à primeira vista. Ele poderia arriscar. Após dar um telefonema a Alfred Wooden, ele voltou-se para Max.

- E o nome do tal russo? Quero o nome, agora!

- Lem – repetiu precisamente. – Seu nome é Vladmir Lem.

- Faça suas malas – Allen sorriu, satisfeito. – Amanhã, logo cedo, você sairá daqui.

O oficial Frazzer entrou novamente na sala. Tomou o braço do detetive Payne e conduziu-o à sua cela. Max começou a organizar tudo. Pensou no recomeço de sua carreira. Vladmir era um homem astuto. A uma altura dessas, já deveria ter mudado de nome. Não havia muito com o que se preocupar. Ele fizera sua parte. Era um bom amigo.

Que os Skulls fizessem a parte que lhes caberia.


(...)
O sol do novo dia entrava pela pequena janela superior da detenção. “O sol da liberdade” – pensou Max.

Vestido com seu sobretudo, pegou as roupas e livros. Frazzer acompanhou-o desde a cela até o portão. Max gostava da companhia daquele oficial. Sempre correto, lembrava a si mesmo ainda em início de carreira.

A pick-up Landstalker de Alfred Wooden já parava em frente à extensa penitenciária. O motorista descia e abria a porta para Max. Antes de entrar, cumprimentou Frazzer. Ainda olhou para cima e viu Steve Allen na janela de seu escritório. “Dias novos me esperam”. Novos sonhos. Reencontrar Mona Sax. Não acreditava que ela estivesse morta. Velhos pesadelos. Michele...

Balançou a cabeça e procurou se concentrar para o que vinha ao seu encontro. Dois anos perdidos deveriam ficar para trás!


Eu não sei quanto aos anjos, mas é o medo que dá asas aos homens”.



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