Experiencia religiosa e processo migratório



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A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA NO PROCESSO MIGRATORIO


Pesquisa “ Religião vivida, espaço e poder”

Universidade da Flórida

Lucia Ribeiro




Rio de Janeiro, Julho de 2006

RESUMO
O trabalho tem por objetivo compreender como se dá a experiência religiosa na vida dos migrantes, analisando-a sob uma dupla perspectiva: enquanto vivência pessoal e enquanto participação na comunidade religiosa.

Baseia-se na pesquisa realizada entre migrantes brasileiros com filiação religiosa, vivendo no sul da Flórida - EUA, entre 2002 e 2004.

Neste grupo, observou-se uma tendência à intensificação da religiosidade no contexto migratório. A vivência da fé se expressa em todas as fases: ao influenciar, na etapa inicial, a própria decisão de migrar, e, já no país receptor, ao dar um sentido à sua maneira de ser e de atuar no dia-a-dia.

A participação na comunidade religiosa, por sua vez, responde não só à necessidade de ter apoio religioso, social e emocional, mas também de ter acesso à informação e a todo tipo de ajuda e assistência, a partir de um grupo marcado pela identidade brasileira. As igrejas jogam também um papel simbólico, na medida em que teriam, no imaginário de seus fiéis, uma missão a cumprir, pela qual estes se sentem pessoalmente responsáveis; tal percepção aumenta sua auto-estima e colabora para seu “empoderamento.”

A relevância deste papel social das igrejas se reafirma, em uma região onde a migração brasileira é relativamente recente e onde praticamente não existem outras organizações civis que congreguem os brasileiros.

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INDICE
Introdução
1) Situando a comunidade brasileira

2) A relação entre experiência religiosa e condição migratória

3) O condicionamento da experiência anterior
Experiência religiosa como vivência pessoal
1) Vivência da Fé no processo migratório inicial

2) Vivência da Fé na vida cotidiana


Experiência religiosa como participação na comunidade
1) Participação na comunidade enquanto grupo religioso e social
2) Participação na comunidade enquanto espaço de assistência e ajuda.
3) Participação na comunidade enquanto afirmação da identidade brasileira

A importância de um espaço brasileiro

Risco do gueto

Articulação das Igrejas brasileiras com a cultura americana

4) Participação na comunidade enquanto portadora de uma “missão sagrada”


Considerações finais

A experiência religiosa no processo migratório1




Introdução

Compreender como se dá a experiência religiosa na vida dos migrantes e de que forma o contexto migratório a condiciona é o objetivo do nosso trabalho, no presente texto.

Tomada em um sentido amplo, a experiência religiosa caracteriza-se pela busca de encontrar um sentido para a vida, abrindo-se para a dimensão do sagrado.2 Tal busca se concretiza na vivência pessoal do dia-a-dia e, neste nível, não implica necessariamente a participação em uma comunidade religiosa; por sua vez, tal participação nem sempre reflete uma busca de espiritualidade ( no caso dos migrantes, pode se dar por outras razões, como veremos à frente. ) Entretanto, apesar desta relativa autonomia, as duas dimensões normalmente se articulam e se complementam na prática.

Levar em conta esta dupla vertente nos parece uma chave importante para entender a experiência religiosa dos migrantes: é o que fazemos no trabalho a seguir que, seguindo este critério, se divide em duas partes, analisando a experiência religiosa enquanto vivência pessoal e enquanto participação na comunidade. Inclui, além disso, uma breve introdução sobre as características do grupo estudado e sobre a relação entre religião e migração.

Nossa análise se centra na experiência de migrantes brasileiros no sul da Flórida - EUA, nas cidades de Deerfield Beach e Pompano Beach e se fundamenta em suas próprias representações, a partir do trabalho de campo realizado durante os anos de 2002 a 2004.3 Os entrevistados eram migrantes brasileiros que declararam ter uma filiação religiosa, incluindo católicos, evangélicos e espíritas.

1) Situando a comunidade brasileira


A migração brasileira para o sul da Flórida é um fenômeno relativamente recente, que se inicia no final dos anos 80 e que, desde então, cresce rapidamente.

É quase impossível ter uma idéia precisa de seu tamanho, já que a comunidade brasileira é considerada “invisível”: seu número não é adequadamente computado nem pelo censo americano nem pelo Consulado brasileiro, e a principal razão para tanto é a situação de indocumentação da maior parte dos migrantes.

Nas duas cidades estudadas, a estimativa usualmente aceita oscila entre 25.000 e 30.000 habitantes, havendo um certo equilíbrio entre o número de homens e mulheres.

O perfil dos migrantes pode ser delineado a partir dos resultados do “survey”, realizado em 2004, no âmbito da pesquisa acima mencionada. 4

Trata-se de uma população relativamente jovem: pouco mais da metade (55%) encontra-se na faixa de 20 a 39 anos, e menos de 3% se declaram maiores de 60 anos.

Quanto ao estado civil, a maioria se encontra casada ( 57%), mas a proporção de homens solteiros (36.5%) é praticamente o dobro da de mulheres solteiras (18,5%). Há também um grupo não desprezível de separados e divorciados, sobretudo entre as mulheres.

Quase a totalidade dos que se encontram casados ( cerca de 90%) o fez com um cônjuge brasileiro; tal tendência se afirma sobretudo entre os homens, enquanto uma proporção um pouco maior de mulheres ( 15%) está casada com não-brasileiros.

A maioria (69%) tem filhos, e entre estes mais da metade (54%) afirma ter dois filhos ou mais. Mas é significativa a proporção dos que não têm filhos (31%), entre a qual sobressaem os homens ( 40%) .

Com respeito ao lugar de origem, os brasileiros provêm basicamente de dois estados: Minas Gerais ( 28,1 %) e Rio de Janeiro (23%), seguindo o mesmo padrão dos fluxos migratórios anteriores para Boston e New York. Seguem-se os migrantes provenientes de S. Paulo (11%), Goiás (8,4%) e Bahia ( 6%). No total, 13 estados da federação foram mencionados, indicando uma diversificação da migração brasileira para o sul da Flórida.

O nível educacional é relativamente elevado: 85% dos brasileiros declara ter pelo menos 8 anos de estudo, enquanto cerca de 40% declaram ter mais de 11 anos de estudo e uma minoria atinge o nível superior. Reproduzindo o padrão que se verifica hoje no Brasil, as mulheres têm um nível de educação formal superior ao dos homens: cerca de 8% delas declaram ter 16 anos de educação, enquanto apenas 1% dos homens se encontra neste nível.

A maioria dos entrevistados (68%) se auto-identifica como branca, mas uma proporção razoável (25%) se declara parda, de acordo com a classificação do FIBGE. Entretanto, este padrão contrasta com a realidade brasileira atual, onde uma proporção muito maior se declara negra ou parda.

A dedicação ao trabalho ocupa a maior parte do tempo; sua intensidade pode ser medida pelas horas trabalhadas por semana: quase a metade dos brasileiros trabalha de 24 a 40 horas, mas 47,5% trabalha mais de 40 horas. 87% dos migrantes declara trabalhar todos os meses do ano, sem tirar férias.

Há um contraste agudo entre o tipo de ocupação que nossos informantes tinham no Brasil e o tipo de trabalho que realizam, em Pompano e Deerfield Beach. Cerca de 40% dos entrevistados tinham trabalhos no Brasil que exigiam uma razoável qualificação (eram advogados, dentistas, médicos, técnicos, administradores ou professores.) Apenas 29,4% se classificavam como trabalhadores não-qualificados. Já no sul da Flórida, a porcentagem de brasileiros em ocupações qualificadas se reduz a 4%, enquanto a porcentagem de não-qualificados sobe para 68,3%. Com efeito, os brasileiros na região concentram-se fundamentalmente na industria da construção e no setor de serviços, trabalhando em restaurantes, limpeza de casas, “landscape” e transporte.

Entretanto, se o trabalho é muito mais intenso e muito menos qualificado do que o que os migrantes tinham no Brasil, o rendimento que auferem é sensivelmente superior, em comparação à sua situação no país de origem.

A maioria – 42% - encontra-se na faixa de US$1.400,00 a US$2.000,00 por mês, o que corresponderia de 10 a 14 vezes o atual salário mínimo no Brasil.(R$350,00, equivalente a US$159,00). Entretanto, 18% ganham apenas entre US$720,00 e US$1.200,00, ou seja entre US$8.640 e US$14.400,00 por ano, o que estaria na faixa do salario mínimo norte-americano ( US$10.712,00). Na outra extremidade, 17% dos entrevistados ganham US$36.000,00 ou mais por ano, o que cai dentro da faixa de renda da classe média americana. Ou seja, pode-se dizer que há uma relativa heterogeneidade socio-econômica entre os brasileiros.

O perfil acima delineado ajuda a entender a situação dos migrantes brasileiros, nesta região. Para isto, há que acrescentar também uma rápida visão da cartografia urbana na qual os migrantes se inserem, já que esta condiciona fortemente suas necessidades, tipos de vida associativa e o papel que joga a religião.

Trata-se de uma região urbana cuja lógica de distribuição do espaço difere bastante da existente no Brasil. No condado de Broward – onde se situam as cidades estudadas - os brasileiros encontram-se espalhados ao longo de uma ecologia urbana descentrada, delineada por um longo corredor que se estende de Boca Raton a Holywood. Largas avenidas, ausência de calçadas, grandes shoppings e “ malls”, prédios construídos de forma a manter a distância entre si, casas isoladas por jardins, são algumas de suas características. A estas se soma um sistema de transporte público muito limitado; não existe metrô e as linhas de ônibus são escassas. Tudo isto faz com que a necessidade de possuir um veículo próprio seja algo imprescindível, apesar da dificuldade de obter e renovar carteiras de motorista, no caso dos migrantes indocumentados.

Os espaços públicos de encontro, para os brasileiros, limitam-se, por sua vez, a algumas lojas comerciais e particularmente a restaurantes e bares, de propriedade de conterrâneos. Mesmo as praias que - como convém ao “Sunshine state” - poderiam ser amplos lugares de encontro, possuem áreas privatizadas por condomínios e residências, que limitam as áreas públicas, únicas frequentadas pelos brasileiros.

As organizações civis brasileiras são praticamente inexistentes, o que poderia se justificar – pelo menos parcialmente – pela relativa “novidade” do processo migratório.

Neste quadro, as igrejas e grupos religiosos, enquanto espaços abertos ao encontro, ganham especial importância. Mais que isso, a experiência religiosa – em seu sentido mais amplo – marca a experiência cotidiana de muitos migrantes.


2) A relação entre experiência religiosa e condição migratória


O processo migratório se caracteriza pela saída do país de origem, o que se traduz, para o migrante5, em mudanças radicais.

Ao cruzar o espaço indefinido da fronteira - entendida não tanto em termos geográficos, mas em termos simbólicos, culturais e até psíquicos – o migrante vê “sua identidade ameaçada, questionada, fragmentada. ...A partir desse não-lugar, é levado a se interrogar sobre o próprio destino. As certezas e referências se desfazem e o perigo da solidão, da anomia e do desespero ronda a porta”. 6 Poderia esta situação ter como conseqüência a necessidade de buscar segurança no nível religioso? Para alguns estudiosos da questão, a importância da religião para os imigrantes é inegável 7. Já Paul Freston, levanta outras hipóteses: por um lado, admite que a condição migratória tenderia a diminuir a religiosidade, em função de problemas inerentes a tal condição, tais como o ritmo intensivo de trabalho, a dispersão geográfica, a provisoriedade da vida migrante; por outro lado, entretanto, este autor questiona se a migração não poderia também “acentuar a religiosidade como uma forma de defesa cultural.” 8

Certamente, não se trata aqui de estabelecer uma determinação mecânica e linear. Nosso trabalho, ao incluir apenas a análise das representações de migrantes que declararam possuir uma filiação religiosa, não pretende ser exaustivo; mas descobre, neste grupo, uma tendência de intensificação da religiosidade no contexto migratório.

Tal hipótese parece encontrar confirmação entre alguns líderes religiosos que, a partir do trabalho com os migrantes, partilham sua experiência; é o caso de Milesi, que afirma: “fora do Brasil, o cristão que não costumava comparecer às Celebrações retoma sua espiritualidade com mais afinco”. 9

A percepção de alguns entrevistados também parece apontar nesta direção:

Quando você é imigrante ou quando você está num país que não é o seu, tenho a impressão que Deus se torna mais forte também.

(Ângela, mulher católica, 2003)10

Crer em uma presença divina é visto como algo que dá segurança e estabilidade, particularmente em situações de vulnerabilidade. Esta associação parece evidente para alguns entrevistados: uma mulher evangélica – que não tinha religião no Brasil e se converteu aqui – assim se expressa:

Você desce no aeroporto de Miami e você é obrigado a conhecer Jesus. Parece que você fica mais sensível, porque você está exposto, frágil.

(Teresa, Grupo Focal de evangélicos, 2004)

Outra entrevistada enfatiza a necessidade de ter alguma referência, particularmente em uma situação de instabilidade:

Você tem que ter um ponto quando você está fora do seu país, fora do seu lugar. A vida aqui é diferente, a cultura é diferente, tudo é diferente e você tem que ter uma referência.

(Ângela, mulher católica, 2003)

Mas não se trata apenas de conviver com diferenças. Sair de seu país implica múltiplas perdas, desde as relações pessoais até o contexto sócio-cultural mais amplo. Neste sentido, o processo migratório pode representar uma experiência extremamente difícil, particularmente para os que migram sós, sem o apoio da família. A etapa inicial, sobretudo, na qual os que chegam se vêm privados das referências anteriores, representa um processo de massificação e uniformização: “aqui você não é nada, quando você chega”. Entretanto, este “rito de passagem” , embora extremamente doloroso, pode representar também a oportunidade de reconstruir a própria identidade. Na percepção de um entrevistado:

Isso tudo quebra a pessoa... e como ela é quebrada, começa a abrir a mente, para ver o que tem além daquilo e então começa a procurar alguma coisa. (Mauro, homem evangélico, 2004)

É neste momento que pode se dar também uma abertura para a dimensão religiosa: quando você não tem ninguém mesmo é para Deus que você corre, afirma um evangélico.

Também um pastor evangélico observa esta relação:

As pessoas que vêm para cá se sentem muito sós. Por mais que estejam com brasileiros, por mais coisas que tenham para fazer, elas não estão no ambiente natural delas e se sentem sós; e nesse momento há que manter uma atividade espiritual para compensar isso; porque somente Jesus traz vida para essas pessoas que estão na solidão.

A experiência de sentir-se só leva a buscar alternativas diversas. Para alguns, tentar associar a lembrança dos que ficaram longe com uma imagem religiosa pode apontar uma saída. Assim, por exemplo, estabelecer uma associação entre a figura paterna e a imagem divina é uma forma de continuar se sentindo protegido pelo pai e de encontrar forças para seguir em frente. É o que parece indicar o seguinte depoimento:



Lá no Brasil tinha o meu pai que sempre que eu precisava eu podia correr para ele. Mas aqui sou eu e eu. Eu não tenho um lugar para correr, sou eu que tenho que fazer. Então, interpreto dessa forma: eu sou eu e meu pai é Deus.

( Grupo Focal de evangélicos, 2004)

Tentando distinguir etapas sucessivas, um entrevistado católico se expressa da seguinte forma:

Depois que a pessoa passa por esse processo, começa a buscar algo maior. De onde vem, pra onde vai, o que vai fazer da sua vida. E quando passa a descobrir quem é, o valor que ela tem perante Deus, aí as coisas mudam. Aí começa a descobrir o valor de viver, de ter amigos, de ter Deus, de ter paz no coração. (Bernardo, homem católico, 2004)

O caso de Bernardo é significativo, ao apontar como esta “passagem pelos desertos” , longe de seu país de origem, propiciou o que ele denomina seu “resgate religioso”:



Eu não tinha mais ninguém a quem apelar, amigos de infância, família, a segurança de estar no meu país. Bom, pensei, agora é com Deus que eu tenho que me apegar, tenho que me agarrar Nele pra poder conseguir seguir em frente. Então uma vez que eu me vi sozinho num oceano, só eu - o náufrago - e Ele, Ele foi a minha única tábua de salvação.

(Bernardo, homem católico, 2004)


Em outros casos, para os que tinham um objetivo fundamentalmente material, ao migrar para os EUA, a descoberta religiosa pode inclusive ser uma experiência totalmente inesperada. Assim, ao deparar-se com uma destas situações, um pastor evangélico observa:



Há muitos que dizem: eu vim para esse país aqui para fazer a vida, para ganhar dinheiro mas encontrei algo muito melhor do que o dinheiro, encontrei Jesus.

O quadro traçado aqui indica como o processo migratório oferece condições favoráveis para a descoberta e a intensificação de uma dimensão religiosa.

Nossos dados não abordaram outras situações – já que trabalhamos apenas com migrantes que declararam ter uma afiliação religiosa - mas sabemos que em contextos diferentes o processo migratório pode também colocar obstáculos a esta experiência. 11

3) O condicionamento da experiência anterior


A forma como a experiência religiosa é vivida pelos migrantes, no país receptor, depende também de sua experiência anterior: os que já participavam ativamente em comunidades religiosas, no Brasil, costumam descobrir, com relativa facilidade, novas formas para dar continuidade a esta vivência, embora tal condicionamento não seja determinante.



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