ExortaçÃo apostólica



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No Novo Testamento, para falar de conversão é utilizada a palavra metanoia, que significa mudança de mentalidade. Não se trata só de um distinto modo de pensar a nível intelectual, mas da revisão à luz dos critérios evangélicos das próprias convicções vitais. A este respeito, S. Paulo fala de « fé que opera pela caridade » (Gal 5, 6). Por isso, a autêntica conversão deve ser preparada e cultivada através da piedosa leitura da Sagrada Escritura e da prática dos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia. A conversão leva à comunhão fraterna, porque permite compreender que Cristo é a cabeça da Igreja, seu místico corpo; impele à solidariedade, por conscientizar que o que fazemos pelos demais, mormente pelos mais necessitados, é feito a Cristo. Ela favorece, portanto, uma vida nova, na qual não haja separação entre fé e obras na resposta diária à chamada universal à santidade. É indispensável superar a fratura entre a fé e a vida, para que realmente se possa falar de conversão. Com efeito, a presença desta divisão faz do cristianismo um fato puramente nominal. Para ser verdadeiro discípulo do Senhor, o fiel deve ser testemunha da própria fé e « a testemunha, não só com palavras mas com a própria vida ». (68) Devemos ter presente as palavras de Jesus: « Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus » (Mt 7, 21). A abertura à vontade do Pai supõe uma total disponibilidade, que não exclua sequer o dom da vida: « O máximo testemunho é o martírio ». (69)

Dimensão social da conversão

27. Porém, a conversão não é completa se falta a consciência das exigências da vida cristã e se não nos esforçamos por cumpri-las. Os Padres Sinodais, a este respeito, assinalaram que infelizmente « existem grandes lacunas de ordem pessoal e comunitária tanto por uma conversão mais profunda, quanto nas relações entre os ambientes, as instituições e grupos na Igreja ». (70) « Aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê » (1 Jo 4, 20).

A caridade fraterna implica desvelo por todas as necessidades do próximo. « Quem possuir bens deste mundo, e vir o seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu coração, como pode estar nele o amor de Deus? » (1 Jo 3, 17). Por isso, a conversão ao Evangelho, para o Povo cristão que vive na América, significa rever « todos os ambientes e dimensões da vida, especialmente tudo o que diz respeito à ordem social e consecução do bem comum ».(71) Em particular, caberá « cultivar e fazer crescer a consciência social da dignidade da pessoa e, portanto, promover na comunidade a sensibilidade do dever de participar da ação política segundo o Evangelho ».(72) De fato, é claro que a atividade política também pertence à vocação e a ação dos fiéis leigos.(73)

No entanto, a este respeito, é de grande importância, sobretudo numa sociedade pluralista, ter uma justa visão das relações entre a comunidade política e a Igreja, e uma clara distinção entre as ações que os fiéis, individualmente ou em grupo, realizam em nome próprio, como cidadãos, guiados pela própria consciência cristã, e as ações que eles realizam em nome da Igreja em comunhão com os seus Pastores. A Igreja que, pela sua missão e competência, de modo algum confunde-se com a comunidade política e não está ligada a qualquer sistema político, é, ao mesmo tempo, o sinal e salvaguarda do carácter transcendente da pessoa humana. (74)

Conversão permanente

28. A conversão neste mundo é uma meta nunca plenamente alcançada: no caminho que o discípulo é chamado a percorrer seguindo as pegadas de Cristo, aquela é um compromisso de toda a vida. Por outro lado, enquanto vivemos neste mundo, nosso propósito de conversão está sempre sujeito às tentações. Visto que « ninguém pode servir a dois senhores » (Mt 6, 24), a mudança de mentalidade (metanoia) consiste no esforço de assimilar os valores evangélicos, que contrastam com as tendências dominantes no mundo. Portanto, é necessário renovar constantemente « o encontro com Jesus Cristo vivo », caminho este que, como foi posto em evidência pelos Padres Sinodais, « nos conduz à conversão permanente ». (75)

A chamada universal à conversão ganha perfis particulares para a Igreja que está na América, também ela comprometida na renovação da própria fé. Foi assim que os Padres Sinodais formularam este compromisso concreto e exigente: « Esta conversão exige, especialmente de nós, Bispos, uma autêntica identificação com o estilo pessoal de Jesus Cristo, que nos leva à simplicidade, à pobreza, a fazer-nos encontradiços, à renúncia as vantagens, para que, como Ele, sem depositarmos nossa confiança nos meios humanos, retiremos da força do Espírito e da Palavra toda a eficácia do Evangelho, permanecendo abertos primariamente aos mais abandonados e excluídos ». (76) Para ser Pastores segundo o coração de Deus (cf. Jer 3, 15), é indispensável assumir o modo de viver que se pareça com Aquele que disse de Si próprio: « Eu sou o bom pastor » (Jo 10, 11), e que S. Paulo põe em evidência quando escreve: « Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo » (1 Cor 11, 1).

Guiados pelo Espírito Santo a um novo estilo de vida

29. Esta proposta de um novo estilo de vida não é só para os Pastores, mas para todos os cristãos que vivem na América. Se lhes pede de aprofundar e assumir a autêntica espiritualidade cristã. « De fato, por espiritualidade entende-se um estilo e forma de vida conforme as exigências cristãs. Espiritualidade é “vida em Cristo” e “no Espírito”, que se aceita na fé, se exprime no amor e, repleta de esperança, se traduz na vida quotidiana da comunidade eclesial ». (77) Neste sentido, por espiritualidade, que é a meta à qual conduz a conversão, entende-se, não « uma parte da vida, mas a vida inteira guiada pelo Espírito Santo ».(78) Entre os elementos de espiritualidade que todo cristão deve fazer próprios, ressalta a oração. Esta o « levará, aos poucos, a ver a realidade com um olhar contemplativo, que lhe permitirá reconhecer a Deus em cada instante e em todas as coisas; de contemplá-Lo em cada pessoa; de procurar cumprir sua vontade nos acontecimentos ».(79)

A oração, tanto pessoal como litúrgica, é dever de cada cristão. « Jesus Cristo, evangelho do Pai, nos avisa que sem Ele nada podemos fazer (cf. Jo 15, 5). Ele mesmo, nos momentos decisivos da sua vida, antes de agir, Se retirava num lugar solitário para dedicar-Se à oração e à contemplação, e pediu aos Apóstolos que também o fizessem ».(80) A seus discípulos, sem excepção, lembra-lhes: « Entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo » (Mt 6, 6). Esta intensa vida de oração deve adaptar-se às capacidades e condições de cada cristão, para que cada um, nas distintas circunstâncias da vida, possa saciar-se « na fonte do seu encontro com Cristo, para embeber-se do único Espírito (cf. 1 Cor 12, 13) ».(81) Neste sentido, a dimensão contemplativa não é um privilégio reservado somente para uns poucos; pelo contrário, nas paróquias, nas comunidades e no âmbito dos movimentos, seja promovida uma espiritualidade aberta e orientada à contemplação das verdades fundamentais da fé: os mistérios da Trindade, da Encarnação do Verbo, da Redenção dos homens, e as demais grandes obras salvíficas de Deus.(82)

Os homens e as mulheres dedicados exclusivamente à contemplação desempenham uma missão fundamental na Igreja que está na América. Eles constituem, segundo a expressão do Concílio Vaticano II, « uma glória para a Igreja e uma fonte de graças celestiais ».(83) Por isso, os mosteiros espalhados em todas as partes do Continente devem ser « objeto de especial atenção por parte dos Pastores, que devem estar plenamente convencidos de que as almas dedicadas à vida contemplativa obtêm graças abundantes, mediante a oração, a penitência e a contemplação, às quais consagram a vida inteira. Os contemplativos devem conscientizar-se que estão inseridos na missão da Igreja destes tempos e que, com o testemunho da própria vida, cooperam para o bem espiritual dos fiéis ajudando-os a procurar o rosto de Deus na vida quotidiana ». (84)

A espiritualidade cristã alimenta-se, sobretudo, por uma constante vida sacramental, pois os Sacramentos são fonte e raiz inexaurível da graça de Deus necessária para amparar o fiel na sua peregrinação terrena. Tal vida deve ser integrada com os valores da piedade popular, valores estes que, por sua vez, serão enriquecidos pela vida sacramental e preservados do perigo de degenerar em hábitos rotineiros. Além disso, deve-se lembrar que esta espiritualidade não se opõe à dimensão social do compromisso cristão. Pelo contrário, pelo próprio caminho de oração, o fiel faz--se mais consciente das exigências do Evangelho e dos seus deveres para com os irmãos, alcançando a força da graça indispensável para perseverar no bem. Para amadurecer espiritualmente, convem que o cristão recorra ao conselho dos ministros sagrados ou de pessoas esclarecidas neste campo, através da direção espiritual, prática tradicionalmente presente na Igreja. Os Padres Sinodais consideraram necessário recomendar aos sacerdotes este ministério tão importante. (85)

Vocação universal à santidade

30. « Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo » (Lv 19, 2). A Assembléia Especial do Sínodo dos Bispos para a América quis lembrar vigorosamente a todos os cristãos a importância da doutrina da vocação universal à santidade na Igreja. (86) Trata-se de um dos pontos centrais da Constituição dogmática sobre a Igreja, do Concílio Vaticano II. (87) A santidade é a meta do caminho de conversão, visto que esta « não é fim por si própria, mas itinerário para Deus, que é santo. Ser santo significa imitar a Deus e glorificar o seu nome pelas obras que realizamos em nossa vida (cf. Mt 5, 16) ». (88) No caminho da santidade, Jesus Cristo é o ponto de referência e o modelo a ser imitado: Ele é « o Santo de Deus e assim foi reconhecido (cf. Mc 1, 24). Ele próprio nos ensina que o núcleo da santidade é o amor, que leva a dar a vida pelos demais (cf. Jo 15, 13). Por isto, imitar a santidade de Deus, tal como foi manifestada em Jesus Cristo, seu Filho, nada mais é senão prolongar o seu amor na história, especialmente em respeito aos pobres, aos enfermos, aos indigentes (cf. Lc 10, 25ss) ». (89)

Jesus, único caminho para a santidade

31. « Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida » (Jo 14, 6). Com estas palavras, Jesus mostra-se como o único caminho que conduz à santidade. Mas o conhecimento concreto deste itinerário se dá principalmente mediante a Palavra de Deus, que a Igreja proclama com a sua pregação. Por isto, a Igreja na América « deve dar clara prioridade à reflexão piedosa da Sagrada Escritura, por parte de todos os fiéis ».(90) Esta leitura da Bíblia, acompanhada pela oração, é conhecida na tradição da Igreja com o nome de Lectio divina, prática que deve ser estimulada entre todos os cristãos. Para os presbíteros, ela deve constituir um elemento fundamental na preparação das suas homilias, especialmente dos domingos. (91)

Penitência e reconciliação

32. A conversão (metanoia), para a qual todo ser humano é chamado, leva a aceitar e assumir a nova mentalidade proposta pelo Evangelho. Isto exige rejeitar o modo de pensar e de agir mundano que, freqüentemente, condiciona profundamente a existência. Como recorda a Sagrada Escritura, é necessário que morra o homem velho e nasça o homem novo, isto é, que todo o ser humano se renove « à imagem dAquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento » (Col 3, 10). Neste caminho de conversão e busca da santidade, « devem ser recomendados os meios ascéticos sempre presentes na praxe da Igreja, que culminam no Sacramento do perdão, recebido e celebrado com as devidas disposições ». (92) Só quem se reconciliou com Deus, é protagonista de autêntica reconciliação com e entre os irmãos.

A crise atual do sacramento da Penitência, da qual não está isenta a Igreja na América e sobre a qual expressei a minha preocupação desde o início do meu Pontificado, (93) poderá ser superada graças também a uma ação pastoral assídua e paciente.

A este respeito, os Padres Sinodais pedem justamente « que os sacerdotes dediquem o devido tempo à celebração do sacramento da Penitência, e convidem com insistência e vigor os fiéis a recebê-lo, sem deixar eles próprios de recorrer pessoalmente e com frequência à confissão ». (94) Os Bispos e os sacerdotes experimentam pessoalmente o misterioso encontro com Cristo que perdoa no sacramento da Penitência, e são testemunhas privilegiadas do seu amor misericordioso.

A Igreja Católica, que abraça homens e mulheres « de toda nação, tribo, povo e língua » (Ap 7, 9), está chamada a ser, « num mundo caracterizado por divisões ideológicas, étnicas, econômicas e culturais », o « sinal vivo da unidade da família humana ». (95) A América, quer na complexa realidade de cada uma das suas nações e na variedade dos distintos grupos étnicos, quer nos traços que caracterizam o inteiro Continente, apresenta muitas diferenças que não podem ser ignoradas e às quais é necessário prestar atenção. Graças a uma eficaz obra de integração entre os membros do Povo de Deus dentro de cada país e entre os membros das Igrejas particulares das diversas nações, as diferenças atuais podem ser fonte de mútuo enriquecimento. Como justamente afirmam os Padres Sinodais, « é muito importante que a Igreja em toda a América seja sinal vivo de comunhão reconciliada, apelo permanente de solidariedade, testemunho sempre presente em nossos diversos sistemas políticos, econômicos e sociais ». (96) Esta constitui uma significativa contribuição que os fiéis podem oferecer para a unidade do Continente americano.
CAPÍTULO IV

CAMINHO PARA A COMUNHÃO


« Para que todos sejam um, assim como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti » (Jo 17, 21)

A Igreja, sacramento de comunhão

33. « Diante de um mundo dividido e desejoso de unidade, é necessário proclamar com alegria e firmeza de fé que Deus é comunhão, Pai, Filho e Espírito Santo, unidade na distinção, o qual chama todos os homens a participar da mesma comunhão trinitária. É necessário proclamar que esta comunhão é o esplêndido projeto de Deus [Pai]; que Jesus Cristo, feito homem, é o centro desta mesma comunhão, e que o Espírito Santo age constantemente para criar a comunhão e reconstitui-la quando se rompe. É necessário proclamar que a Igreja é sinal e instrumento da comunhão querida por Deus, iniciada no tempo e destinada à perfeição na plenitude do Reino ». (97) A Igreja é sinal de comunhão porque os seus membros, como os ramos, participam da mesma vida de Cristo, a verdadeira videira (cf. Jo 15, 5). Com efeito, mediante a comunhão com Cristo, Cabeça do Corpo místico, entramos em viva comunhão com todos os crentes.

Esta comunhão, existente na Igreja e essencial à sua natureza, (98) deve manifestar-se por sinais concretos, « como poderiam ser: a oração comunitária de uns pelos outros, o impulso ao relacionamento das Conferências Episcopais entre si, os contatos entre os Bispos, as relações fraternas entre as dioceses e as paróquias, e a mútua comunicação entre agentes de pastoral para atividades missionárias específicas ». (99) A referida comunhão requer que se conserve o depósito da fé na sua pureza e integridade, bem como a unidade de todo o Colégio episcopal sob a autoridade do Sucessor de Pedro. Neste contexto, os Padres Sinodais declararam que « o fortalecimento do ministério petrino é fundamental para a preservação da unidade da Igreja », e que « o exercício pleno do primado de Pedro é fundamental para a identidade e vitalidade da Igreja na América ». (100) A Pedro e aos seus sucessores compete, por mandato do Senhor, a tarefa de confirmar na fé os irmãos (cf. Lc 22, 32) e de apascentar o inteiro rebanho de Cristo (cf. Jo 21, 15-17). Da mesma forma, o Sucessor do Príncipe dos Apóstolos é chamado a ser a pedra sobre a qual a Igreja está edificada, e a exercer o ministério devido ao fato de ser ele depositário das chaves do Reino (cf. Mt 16, 18-19). O Vigário de Cristo é, com efeito, « o perpétuo princípio de [...] unidade e o fundamento visível » da Igreja. (101)

Iniciação cristã e comunhão

34. A comunhão de vida na Igreja obtem-se mediante os sacramentos da iniciação cristã: Batismo, Confirmação e Eucaristia. O Batismo é a « porta de ingresso da vida espiritual; através dele, nos tornamos membros de Cristo e começamos a pertencer ao corpo da Igreja ». (102) Os batizados, ao receberem a Confirmação, « são mais perfeitamente vinculados à Igreja, enriquecidos com uma força especial do Espírito Santo e deste modo ficam obrigados a difundir e defender a fé por palavras e obras como verdadeiras testemunhas de Cristo ». (103) O itinerário da iniciação cristã alcança o seu coroamento e o seu ápice com a Eucaristia, pela qual o batizado insere-se plenamente no Corpo de Cristo. (104)

« Estes sacramentos são uma excelente oportunidade para uma boa evangelização e catequese, quando a sua preparação é confiada a agentes dotados de fé e competência ». (105) Apesar de haver nas diversas Dioceses da América um inegável progresso na preparação aos Sacramentos da iniciação cristã, os Padres Sinodais lamentaram que ainda « são muitos os que os recebem sem a suficiente formação ». (106) Por sua vez, no caso do Batismo das crianças, não se deve omitir um esforço catequístico dirigido aos pais e aos padrinhos.

A Eucaristia, centro de comunhão com Deus e com os irmãos

35. A realidade da Eucaristia não se esgota no fato de ser o Sacramento cume da iniciação cristã. Se o Batismo e a Confirmação têm a função de iniciar e introduzir na mesma vida da Igreja, e não são reiteráveis, (107) a Eucaristia constitui o centro vivo e permanente, em volta do qual se congrega a inteira comunidade eclesial. (108) Os diversos aspectos deste Sacramento refletem sua riqueza inesgotável: ele é, ao mesmo tempo, Sacramento-sacrifício, Sacramento-comunhão, Sacramento-presença. (109)

A Eucaristia é o lugar privilegiado para o encontro com Cristo vivo. Por isso, os Pastores do Povo de Deus na América, mediante a pregação e a catequese, devem esforçar-se em « dar à celebração eucarística dominical uma nova força, como fonte e cume da vida da Igreja, garantia da comunhão no Corpo de Cristo e convite à solidariedade como expressão do mandato do Senhor: “Como Eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13, 34) ». (110) Como sugerem os Padres Sinodais, tal esforço deve levar em consideração várias dimensões fundamentais. Primeiramente, é necessário despertar nos fiéis a consciência de que a Eucaristia é um dom imenso: isto os levará a fazer de tudo para participar nela, ativa e dignamente, pelo menos no domingo e nos dias de festa. Ao mesmo tempo, devem ser estimulados « os esforços dos sacerdotes para facilitar esta participação e torná-la possível às comunidades mais distantes ». (111) É necessário recordar aos fiéis que « a participação plena, consciente e ativa, apesar de essencialmente distinta do ofício do sacerdote ordenado, é uma atuação do sacerdócio comum recebido no Batismo ». (112)

A necessidade de que os fiéis participem na Eucaristia e as dificuldades ligadas à escassez de sacerdotes manifestam a urgência de promover as vocações sacerdotais. (113) É preciso também lembrar a toda a Igreja na América « o nexo existente entre a Eucaristia e a caridade », (114) nexo que a Igreja primitiva exprimia unindo o ágape com a Ceia eucarística. (115) A participação na Eucaristia deve levar a uma mais intensa ação caridosa, como fruto da graça recebida neste sacramento.

Os Bispos, promotores de comunhão

36. A comunhão na Igreja, precisamente por ser sinal de vida, deve crescer continuamente. Consequentemente, os Bispos, lembrando que « cada um deles é princípio e fundamento visível da unidade nas suas respectivas Igrejas », (116) devem sentir-se comprometidos a promover a comunhão nas suas Dioceses, para que seja mais eficaz o esforço da nova evangelização na América. A dimensão comunitária fica favorecida pelos organismos previstos pelo Concílio Vaticano II em apoio da atividade do Bispo diocesano, organismos que a legislação pós-conciliar especificou mais detalhadamente. (117) « Compete ao Bispo, com a cooperação dos sacerdotes, diáconos, consagrados e leigos [...], realizar um plano de ação pastoral coordenada, que seja orgânico e compartilhado e que alcance todos os membros da Igreja e suscite neles a consciência missionária ». (118)

Cada Ordinário não deixará de promover nos sacerdotes e nos fiéis a consciência de que a diocese é a expressão visível da comunhão eclesial, que se forma na mesa da Palavra e da Eucaristia em torno ao Bispo, unido com o Colégio episcopal e sob a sua Cabeça, o Romano Pontífice. Aquela, como Igreja particular, tem a missão de iniciar e incrementar o encontro de todos os membros do Povo de Deus com Jesus Cristo, (119) através do respeito e da promoção daquela pluralidade e diversificação que não impedem a unidade, mas lhe conferem o carácter de comunhão. (120) O espírito de participação e de corresponsabilidade na vida dos organismos diocesanos será certamente favorecido por um conhecimento mais profundo da natureza da Igreja particular. (121)

Uma comunhão mais intensa entre as Igrejas particulares

37. A Assembléia Especial para a América do Sínodo dos Bispos, a primeira na história que reuniu Bispos de todo o Continente, foi por todos sentida como uma graça especial do Senhor à Igreja peregrina na América. Aquela reforçou a comunhão que deve haver entre as Comunidades eclesiais do Continente, deixando transparecer a todos a urgência de aumentá-la ainda mais. As experiências de comunhão episcopal, assíduas sobretudo após o Concílio Vaticano II por causa da consolidação e difusão das Conferências Episcopais, devem ser entendidas como encontros com Cristo vivo, presente nos irmãos reunidos em seu nome (cf. Mt 18, 20).

A experiência sinodal mostrou, também, as riquezas de uma comunhão que se estende para além do âmbito de cada Conferência Episcopal. Apesar de já existirem formas de diálogo que superam tais limites, os Padres Sinodais assinalaram a conveniência de intensificar as reuniões inter-americanas, já promovidas pelas Conferências Episcopais das diversas Nações americanas, como expressão de efetiva solidariedade e como lugar de encontro e estudo dos comuns desafios para a evangelização da América. (122) Será também oportuno definir com precisão o carácter de tais encontros, de maneira que constituam, sempre mais, expressão de comunhão entre todos os Pastores. Além destas reuniões mais amplas, pode ser útil, quando exigidas pelas circunstâncias, criar comissões específicas para aprofundar os temas comuns que se refiram a toda a América. Setores nos quais parece particularmente necessário « que se estimule a cooperação, são as mútuas comunicações pastorais, a cooperação missionária, a educação, as migrações, o ecumenismo ». (123)

Os Bispos, aos quais cabe o dever de promover a comunhão entre as suas Igrejas particulares, estimularão os fiéis a viver sempre mais a dimensão comunitária, assumindo « a responsabilidade de estreitar os laços de comunhão com as Igrejas locais em outras zonas da América mediante a educação, a mútua comunicação, a fraterna união entre paróquias e dioceses, projetos de cooperação e de prevenção comum em temas de maior relevo, sobretudo naqueles que se referem aos pobres ». (124)

Comunhão fraterna com as Igrejas católicas orientais

38. O recente fenômeno da instalação e do crescimento na América de Igrejas particulares católicas orientais, dotadas de hierarquia própria, foi objeto de especial atenção por parte de alguns Padres Sinodais. Um desejo sincero de abraçar cordial e eficazmente estes irmãos na fé e na comunhão hierárquica, sob a autoridade do Sucessor de Pedro, levou a Assembléia Sinodal a propor iniciativas concretas de fraterna ajuda por parte das Igrejas particulares latinas, respeito àquelas católicas orientais presentes no Continente. Assim, por exemplo, foi sugerida a hipótese que os sacerdotes de rito latino, sobretudo quando de origem oriental, possam oferecer sua cooperação litúrgica às comunidades orientais, carentes de um número suficiente de presbíteros. Igualmente, quanto aos edifícios sagrados, os fiéis orientais poderão utilizar, nos casos considerados convenientes, as igrejas de rito latino.




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