Eventos de Software Livre



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Encontro02.04.2019
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Eventos de software livre. Qual é o foco?
Eventos, não importa de que natureza, são fonte de conhecimento e possibilitam a aproximação de profissionais do mesmo segmento. Além disso, atraem outros setores na promoção de negócios e parcerias. Mas e no caso do software livre? Qual o motivo para a realização de tantos encontros, quais os seus objetivos e que resultados deles se obtêm?
Mesmo um esforço pequeno de memória faz recordar uma série desses eventos: fisl, Latinoware, PyCon, Maratona How To, Conisli e LinuxWorld. Além de encontros promovidos por grupos como Fenadados, Linuxchix, UniRio e a Prefeitura Municipal de Rio das Ostras. Por fim, há exemplos no exterior, como Encontro Solar e Encontro de Rosário, ambos realizados na Argentina.
Cada qual com suas características e público, as iniciativas citadas buscam ampliar a participação dos softwares de código aberto junto à parcela da população que faz uso da informática. Em mais de uma oportunidade, o InfomediaTV abriu espaço para essas realizações.
Mas apresentar as ferramentas não basta. É necessário espaço para a realização de negócios, para divulgação das inovações, para aproximação das partes que fazem crescer a cadeia produtiva onde está inserido o software de código aberto. E por que isso não acontece?
Em primeiríssimo lugar, devido a uma realidade que contrasta com a alardeada capacidade nacional para o desenvolvimento de código e soluções. Por mais que se afirme e reafirme por representantes e integrantes dessa comunidade que o papel brasileiro é de grande importância, é, notoriamente, a mesma dúzia de palestrantes que se desloca pelo país alimentando o interesse de platéias a respeito do tema.
Isso demonstra uma situação paradoxal. Se a comunidade tem capacidade, se os desenvolvedores existem, onde eles estão, que não auxiliando a expansão dessa comunidade? Talvez eles não se importam com os eventos. Ou quem sabe o grupo relativamente pequeno que gere essas iniciativas não conheça tanto assim o universo que se propõe orientar.
As duas posições levam para o mesmo ponto. Os eventos de software livre podem estar perdendo a credibilidade. E isso se deve à partidarização da tecnologia. Melhor dizendo, à politização da tecnologia. Ainda que se encontrem argumentos para defender o ponto de vista que nega a tomada do software de código aberto pelo Partido dos Trabalhadores, por exemplo, não se pode ignorar a essencial importância do patrocínio público para realização desses encontros. Ora, se as ferramentas de código aberto estão ganhando o mercado, e estão, porque isso não se reflete nos eventos. Por que é a Caixa Econômica Federal e não a Sun que patrocina? Por que é o Ministério do Planejamento e não a Red Hat? Por que são os Correios e não a HP? Propositadamente citadas, todas essas empresas já foram patrocinadoras, mas a quais cabe a parcela mais substancial de recursos?
Tão criteriosa no patrulhamento de algumas atividades, a comunidade parece pouco rigorosa no entendimento desse aspecto fundamental de sua sobrevivência.

Um exemplo

Durante o governo Olívio Dutra no Rio Grande do Sul (1999-2002) foi criado o Fórum Internacional Software Livre (fisl). A organização partia da Companhia de Processamento de Dados do Estado (PROCERGS), já estabelecida como feudo petista, algo da natureza perversa da política brasileira, que privilegia a vinculação partidária em detrimento da competência. Nesse período também foi criada a Rede Livre (www.redeescolarlivre.rs.gov.br). Isso abriu espaço para que os gestores da PROCERGS e da PROCEMPA, a Companhia de Processamento de Dados de Porto Alegre, sob adminitração do PT até 2004, adequassem seus discursos às necessidades do software livre, visando sua apropriação. Atualmente, o projeto está desativado.


Com o fim do governo do PT no estado, o fisl transfere para Brasília, a partir de 2003, suas necessidades de caixa e apoio político. Nesse período, com Sérgio Amadeu da Silveira à frente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação e José Dirceu na Casa Civil, sobram recursos. Com o afastamento de Dirceu, Sérgio Amadeu mudou o discurso de forma rápida: o que até então era uma guerra com muitos triunfos, passou a ser uma ação incompreendida pelo governo federal. O governo, que era grande entusiasta do uso de tecnologias livres, passou a ser qualificado como vendido por Sérgio Amadeu, e ele se desligou. Injusto seria não comentar o fato de que a SLTI (a secretaria mais atacada por Sérgio Amadeu) e a Caixa Econômica Federal continuam tocando projetos com open source de forma clara e objetiva.

E as empresas

Empresas como IBM, HP, Sun e Google aparecem com suas logomarcas nas páginas do fisl, porém só a IBM trabalhou patrocínio, escasseando sua participação. As demais empresas apenas recebem o logotipo na página em troca de enviarem seus profissionais e arcarem com estes custos, sem desembolso de dinheiro.


Um caso curioso no tratamento de empresas por parte da organização do fisl é o da Solis. A Cooperativa de Soluções Livres foi responsável por toda a infraestrutura técnica do fisl. Em outras palavras, a transmissão de palestras, o funcionamento da rede, os sistemas no ar, são resultado do seu trabalho. Como pagamento por isso, receberam espaço em um estande que equivalia a cota de patrocínio avaliada em R$ 50.000.
O Infomedia tem informações, que não conseguiu confirmar devido ao silêncio tanto da organização do fisl quando da PROCEMPA, que os valores pagos à companhias públicas era muito superior aos R$ 50.000 investidos em 2006.

Os encontros e grupos de usuários

Os grupos de usuários que formam a base da cadeia colaborativa são os participantes mais importantes do fisl. Em todas as edições eles sofrem com espaços precários. São baias de meio metro para grupos com mais de 10 pessoas. Não é difícil ver pessoas espalhadas pelo chão, sem cadeiras, sem máquinas e sem reconhecimento pelo trabalho de divulgação que realizam com esforço.


Os desenvolvedores que deveriam ser tratados como foco do evento dão lugar ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e suas Sementes Livres, membros de partidos políticos, ministros, governadores etc.
Claudio Matsuoka, Helio Castro, Leonardo Vaz, Augusto Campos, Piter Punk, Carlos E. Morimoto e os usuários do Slackware foram rotulados de “grupo rebelde” no último fisl. Há 3 anos a organização sonha com a extinção destes grupos do evento.

Prestação de contas

O InfomediaTV antecipa qualquer resposta que venha a obter por este texto afirmando que o melhor conteúdo que poderia receber é uma prestação de contas por parte da organização do Fórum Internacional Software Livre e da PROCEMPA. Ambos foram procurados e não dera resposta por mais de uma semana. Considerando a onipresença de empresas públicas na tramitação desses recursos, seria um esclarecimento bem vindo.


Ao menos, pelo bem da credibilidade de uma série de organizações que emprestam seu nome e competência para que tal encontro seja possível, e em respeito aos usuários, que em caravanas pagas do próprio bolso, concedem ao fisl o seu verdadeiro valor.

Fonte

INFOMEDIATV. Eventos de software livre. Qual é o foco? Disponível em: . Acesso em: 30 nov. 2006.








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