Eu penso na ressurreição do homem



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Eu penso na ressurreição do homem”: o elemento platônico no discurso de Guimarães Rosa sobre o compromisso político dos escritores

Marcela Macedo Diniz Mapurunga1



RESUMO

Neste artigo, analisaremos a presença de elementos da filosofia platônica no discurso do escritor brasileiro João Guimarães Rosa que, durante entrevista concedida ao crítico alemão, Günter Lorenz, falou, entre outros pontos, sobre o “compromisso político” dos escritores como algo que ultrapassa o sentido imediato da expressão e remete à uma missão maior: a edificação da alma humana.



Palavras-chave: Guimarães Rosa; Platão; literatura e filosofia; arte e conhecimento.

1 Apresentação
Para que serve a literatura? Qual o papel do escritor na sociedade? Deve ele atuar politicamente? Neste artigo, analisaremos as respostas que foram dadas por um dos grandes nomes da literatura universal, o escritor João Guimarães Rosa (1908-1967) que, mais que uma “utilidade”, atribuía à literatura (e aos escritores) uma missão: agir em benefício do homem, edificando sua alma e proporcionando-lhe a renovação da própria vida. Empreitada ambiciosa, difícil, talvez utópica, mas que, em sua essência, revela uma preocupação filosófica, um compromisso ético do artista com sua obra e seu público. Nas palavras do próprio Guimarães Rosa, “um compromisso do coração”.

Acreditamos que as convicções expressas pelo autor mineiro possuem um elemento platônico, e é o que tentaremos provar nos próximos dois tópicos. No primeiro, trataremos das declarações de Rosa a respeito do compromisso político do escritor; e, no segundo, do que acreditamos ser reflexos da filosofia de Platão nesse discurso do autor mineiro.



2 A missão do escritor, segundo Rosa
Um dos debates promovidos durante o Congresso de Escritores Latino-Americanos, em Gênova, na Itália, em 1965, foi sobre o compromisso político do escritor. Guimarães Rosa, a certa altura, deixou a sala onde ocorriam as discussões, ato que chamou a atenção do crítico literário alemão, Günter Lorenz, que, no dia seguinte, faria uma longa entrevista com o autor brasileiro – ou teria com ele uma longa conversa, como preferiu definir Rosa, avesso a entrevistas. O diálogo começaria, justamente, com o questionamento sobre o motivo que teria levado um “escritor, diplomata e político”2 como ele a abandonar um debate político. A resposta de Rosa a essa pergunta, bem como as reflexões feitas por ele nas provocações seguintes, revelam suas convicções sobre o papel da Literatura e dos escritores na sociedade:
Embora eu veja o escritor como um homem que assume uma grande responsabilidade, creio entretanto que não deveria se ocupar de política, não desta forma de política. Sua missão é muito mais importante: é o próprio homem. Por isso a política nos toma um tempo valioso. Quando os escritores levam a sério o seu compromisso, a política se torna supérflua. (ROSA apud LORENZ, 2009, v. 1, p. XXXI)

Em seguida, Rosa critica o que chama de “falta de coerência” de alguns colegas mais devotados às discussões de cunho político, argumentando que eles não expressavam em seus livros as mesmas ideias que defendiam entre seus pares: “Nota a falta de coerência entre suas obras e suas opiniões”3. Também critica o excesso de discursos que servem mais para “alguns deles poderem se confirmar a si próprios sua importância e poderem assim se desligar de sua responsabilidade sem peso de consciência”4 e acusa a maioria de não examinar “o verdadeiro sentido de suas palavras antes de pronunciá-las”5.


Lorenz entende a opinião expressa por Guimarães Rosa como uma manifestação apolítica, hipótese que o autor mineiro afasta rapidamente, dizendo que ele está do lado dos que “arcam com a responsabilidade, e não dos que a negam” 6. Rosa esclarece que, ao defender a abstenção de uma certa forma de política, ele não quer dizer que o escritor deva ser apolítico, mas, sim, que deveria deixar de lado “as ninharias do dia-a-dia político”7 para dedicar-se à sua missão em prol do homem. Por outro lado, Rosa fala do “perigo” de se pensar “ideologicamente”, ao comentar o engajamento político de dois colegas8; engajamento que, na opinião de Rosa, também significaria um caminho desviante da verdadeira missão do escritor.
Ao assinalar contradições entre a obra e o discurso de alguns escritores e ao tecer críticas tanto à falta de compromisso do escritor dito apolítico, quanto ao excesso de engajamento de certos escritores, Guimarães Rosa, longe de afastar a política de sua fala (e, talvez, contra sua vontade, naquela ocasião, já que em certa altura da entrevista ele defende a abolição da política9), acaba por defender uma outra forma de política, menos preocupada com as “ninharias” e mais devotada a seu objeto principal:
Talvez eu seja um político, mas desses que só jogam xadrez, quando podem fazê-lo a favor do homem. Ao contrário dos ‘legítimos’ políticos, acredito no homem e lhe desejo um futuro. Sou escritor e penso em eternidades. O político pensa apenas em minutos. Eu penso na ressurreição do homem. (ROSA apud LORENZ, 2009, v. 1, p. XLVI)

Portanto, se há uma ideia de política defendida aqui por Guimarães Rosa, ela se define enquanto ação em benefício do homem; e o escritor, na visão do autor mineiro, deve pensar além do quadro político imediato e almejar algo mais significativo e duradouro: a renovação da própria vida ou, na fala de Rosa, a ressurreição do homem, expressão de forte sentido religioso10 e simbólico, pois traz em si a ideia de que o homem está “morto”, carente de vida, de alma. E, aí, entraria a nobre missão da Literatura: devolver ao homem sua vida11.


Questionado por Lorenz sobre o “credo” pelo qual escrevia, Guimarães Rosa responde dizendo acreditar que cada homem tem uma certa tarefa no mundo e que ela “consiste em preencher seu lugar, em servir à verdade e aos homens”12. E, no que tange à sua tarefa pessoal, ele faz uma verdadeira profissão de :

Conheço meu lugar e minha tarefa. (...) Por isso, tudo é muito simples, e só espero fazer justiça a esse lugar e a essa tarefa. Veja como meu credo é simples. Mas quero ainda ressaltar que credo e poética são uma mesma coisa. Não deve haver nenhuma diferença entre homens e escritores (...) A vida deve fazer justiça à obra, e a obra à vida. Um escritor que não se atém a esta regra, não vale nada nem como homem nem como escritor. Ele está face a face com o infinito e é responsável perante o homem e perante si mesmo. Para ele não existe uma instância superior. Para que você não tenha de me interrogar a esse respeito, gostaria de explicar meu compromisso, meu compromisso de coração, e que considero o maior compromisso possível, o mais importante, o mais humano e acima de tudo o único sincero. Outras regras que não sejam este credo, esta poética e este compromisso não existem para mim, não as reconheço. Estas são as leis da minha vida, de meu trabalho, de minha responsabilidade. A elas me sinto obrigado, por elas me guio, para elas vivo. (ROSA apud LORENZ, 2009, v. 1, p. XLII)


Em seu lugar de escritor, Rosa atribui a si uma tarefa que envolve estar a serviço da verdade e dos homens, tarefa que, no seu entendimento, não deve estar apartada de sua própria existência como homem. Então, seu ofício deve corresponder à sua vida, assim como esse credo deve equivaler à sua poética. O autor reafirma, assim, que em seu projeto de escrita não cabe a incoerência entre obra e opinião (como aquela notada por ele em alguns de seus colegas), o que significaria um descompromisso, um desvio das “leis” que regem sua vida. O “compromisso do coração” é, portanto, a razão de sua vida como homem/escritor.
Nesta declaração do autor mineiro sobre aquilo em que ele acredita, também há a reafirmação de que o escritor possui uma responsabilidade perante o homem e perante si mesmo, sem haver nessa relação uma terceira parte, “instância superior”. O escritor está, portanto, diante de sua própria consciência e de seu público e a eles deve prestar contas sobre a sua obra/vida. O agir “em favor” do homem, para Guimarães Rosa, é nada mais, nada menos, que auxiliar na construção de sua alma: “o escritor, o bom escritor, é um arquiteto da alma”13, diz ele, não deixando dúvidas sobre a seriedade com que o autor encarava seu ofício e o grau de exigência que impunha sobre si e sobre os demais escritores. Um alto nível de exigência para a alta tarefa de agir em benefício da alma humana.


3 O elemento platônico na fala de Rosa
O filósofo grego Platão (428-347 a. C.) é reiteradamente citado nas narrativas rosianas e apontado por Guimarães Rosa como uma de suas influências importantes14. Acreditamos haver reflexos dessa influência nas declarações do autor mineiro sobre o papel da Literatura e do escritor. Mesmo antes de dar essas declarações, ao abandonar o debate político que acontecia no Congresso de escritores, Rosa já demonstra a sua convicção de que a política feita ali não estava à altura da missão do escritor, que é agir em prol do homem. Nunes (2000), no estudo introdutório da República, interpreta a elaboração do diálogo como o movimento filosófico de “saída” de Platão do debate político que acontecia em sua época, em Atenas – debate que, para o filósofo, valorizava mais a retórica dos sofista do que a busca pela verdade; mais o benefício privado dos governantes do que o público, dos governados - para a elaboração de um projeto reformador que culminasse no estabelecimento de uma forma ideal de Estado justo que garantisse a felicidade, a realização plena (eudaimonia) de todos:
A atitude de Platão, (...) que deixa de prestar adesão à cidade tal como ela se tornara, a fim de concebê-la tal como deveria ser equivale a uma experiência da própria Filosofia, que transfere a possibilidade de ação ao empenho da construção de uma nova Pólis, em nome de uma outra política. Afastando-se da ágora, dos pleitos dos tribunais e das disputas das assembléias, os filósofos afirmam sua identidade à medida que se apartam dos sofistas. (NUNES, 2000, p. 07)

No gesto simbólico de deixar a sala de debates, Guimarães Rosa também assume a postura de quem não concorda com a prática política de sua comunidade e se retira dela. E, nas declarações dadas no dia seguinte a Lorenz (as críticas aos colegas que buscam no discurso político uma afirmação de sua importância e uma fuga de suas responsabilidades; o alerta sobre o perigo das ideologias e sobre as incoerências entre os discursos políticos e a obras literárias de alguns escritores; a defesa das responsabilidades do escritor na sociedade) demonstram que Rosa está interessado na relação entre literatura e política, desde que ela não reproduza a forma corrente de se fazer política: dizer uma coisa e fazer outra; preocupar-se com projetos pessoais acima do bem global ou, alegando preocupação com o bem global, impor um determinado projeto de poder. Os escritores, no entendimento do autor, deveriam servir à “verdade” e aos “homens” e, por isso, deveriam refletir “sobre o verdadeiro sentido de suas palavras” e fazer com que suas obras e seus discursos fossem coerentes entre si. Atitudes de um verdadeiro filósofo, de acordo com a caracterização de “filósofo” que encontramos ao longo dos Diálogos platônicos, na figura exemplar de Sócrates.



Na República, Platão ultrapassa o panorama político vivido em seu tempo e propõe novas bases para um Estado que garanta a plena realização coletiva. A visão de Rosa em suas declarações a Lorenz também procura ir além do quadro político imediato e vislumbrar uma atuação mais importante para os escritores: a ação em prol dos homens, a ajuda na “arquitetura” da alma humana.
3.1 – O lugar e a tarefa do escritor
Quando o autor mineiro fala sobre o lugar e a tarefa que cabe a cada um desempenhar na vida, podemos lembrar, também, da República, 370b-c, quando Platão discorre sobre as diferentes naturezas dos homens e defende que o equilíbrio do Estado é garantido quando cada um desempenha a tarefa para a qual possui melhor aptidão, sem perder tempo com outras e sem considerar o seu ofício como passatempo. Uma “regra” platônica que visa o benefício não de um só indivíduo, mas tem um aspecto social, uma vez que “cada membro da comunidade faz o que é seu, oferecendo assim uma contribuição que corresponde do melhor modo possível para uma comunidade.” (ERLER, 2013, p. 283) Guimarães Rosa acredita que as “ninharias” políticas roubam do escritor um precioso tempo que seria melhor empregado se ele se dedicasse a seu ofício, seu “lugar”, a tarefa para a qual ele tem mais aptidão e por meio da qual ele poderia melhor beneficiar a todos. Da mesma forma, a adoção de um discurso ideológico ou partidário é um “perigo”, pois desloca o escritor de seu “lugar” e “tarefa” naturais e o transporta para o “lugar” e para a “tarefa” que são próprias dos políticos. Em Górgias, 503a-b, Platão distingue o discurso político verdadeiro do falso dizendo que o verdadeiro se preocupa com a edificação da alma do homem (como Rosa defende que o bom escritor é um “arquiteto da alma”), enquanto o falso não se importa com isso. Estando deslocado do “lugar” de sua aptidão verdadeira, poderia o escritor que se transformou em político dedicar-se a discursos políticos verdadeiro? A mera hipótese de se poder responder essa questão com um “não” já explica por que Rosa, platonicamente, considera um “perigo” a adesão do escritor a uma determinada ideologia ou partido político.
Por outro lado, a negação total da política por parte do escritor também não é vista com bons olhos por Guimarães Rosa, pois corresponderia a uma “total falta de consciência da responsabilidade.” (ROSA apud LORENZ, 2009, v. 1, p. XXXII), o que nos leva a entender que, para Rosa, o “lugar” e a “tarefa” que cada homem deve cumprir já é, por “natureza”, uma tarefa política, mas política no sentido platônico, ou seja, indiferenciada da ética. Como assinala Erler (2013), Platão não utiliza nenhum conceito específico de “ética”, mas investiga sempre o modo correto de ação do homem no mundo e, em sua doutrina filosófica, “a política – que só é considerada como disciplina própria a partir de Aristóteles – é por assim dizer idêntica com a ética”15 e está intimamente ligada a questões ontológicas, epistemológicas e cosmológicas:
Isso fica claro quando nos primeiros diálogos se investigam questões sobre o modo correto de o indivíduo viver com o auxílio do método socrático, e este método é considerado como verdadeira política e, assim, Sócrates como um verdadeiro político; isso fica claro também quando a busca pela justiça, na República, começa inicialmente com uma pessoa singular e se concentra na alma (442d-443a), mas depois se amplia para a questão do homem na sociedade e pela felicidade do ser humano na sociedade. A questão platônica sobre a vida correta ultrapassa a ética tradicional, coimplica psicologia e política, mas também epistemologia e ontologia, na medida em que estão em questão critérios objetivos para um comportamento reto, buscando reconhecer a possibilidade de como se comportar de modo correto. (ERLER, 2013, p. 268)
Quando Guimarães Rosa admite que talvez seja uma espécie de político, daqueles que “jogam xadrez” somente quando podem fazê-lo em benefício do homem, é possível que ele esteja se referindo a esse sentido ético da política, do entendimento da política de forma ampla como aparece no pensamento platônico, “não uma atividade específica e restrita como nas sociedades modernas, mas a forma da atividade humana, qualificadora da ação individual”16.

3.2 – O escritor como “arquiteto da alma”
A alma é, na filosofia platônica, o elemento imortal do homem e, como tal, é para ela que os cuidados maiores devem se voltar17. É por meio da atividade anímica, que comanda o pensamento racional, que o filósofo tem a possibilidade de contemplar realidades suprassensíveis e pode ajudar os outros homens a progredir no caminho do conhecimento da verdade. Essa contemplação do inteligível equivale à visão das realidades imutáveis (Ideias) que são os paradigmas eternos de nosso mundo mutável e temporal e, no Livro VII da República18, é ilustrado pela alegoria da caverna. O filósofo “sai da caverna” e vai, paulatinamente, adquirindo mais discernimento da realidade. Ele deve, no entanto, “voltar para a caverna” e compartilhar sua experiência com os outros homens, servindo-lhes de guia.
Por duas vezes na entrevista com Günter Lorenz, Guimarães Rosa fala do escritor – do bom escritor, aquele que atua como um verdadeiro “arquiteto da alma” – como se fosse de um homem que não está preso a este nosso cotidiano comum. Na primeira delas, Rosa – que se coloca no grupo dos verdadeiros escritores – diz que pensa “em eternidades”, ao contrário do político que pensa “em minutos”; na segunda, o autor afirma que o escritor “está face a face com o infinito”. Essas colocações misteriosas podem ter uma interpretação baseada, mais uma vez, na filosofia platônica: o político, na visão de Rosa, tem o pensamento voltado para o aqui e agora do mundo sensível temporal (daí, ele pensar “em minutos”), enquanto o escritor que, como o filósofo, serve “à verdade e aos homens”, volta seu pensamento para as Ideias eternas e infinitas, retornando “à caverna” para cumprir sua missão de guiar outros homens para “fora”. Nas palavras de Guimarães Rosa, o escritor, em seu ofício, atua na “ressurreição do homem”, que pode ser entendida como sua libertação de um estado de inércia ou uma privação de atividade da alma ou, também, como uma renovação da vida, por meio da poética que o escritor mineiro definiu como sendo a lei que guia a sua vida e a sua obra.
4 Conclusão
A presença da filosofia platônica na obra de João Guimarães Rosa pode ser sentida em diversos níveis: desde as citações diretas de trechos dos Diálogos ou do aproveitamento de temas platônicos em suas narrativas; passando pelas revelações feitas em correspondência com seu tradutor; até, como tentamos comprovar neste artigo, no próprio delineamento de uma missão do escritor na sociedade e do papel ético da literatura como instrumento de edificação da alma humana. Rosa propõe o afastamento dos escritores das ninharias do cotidiano político e dos discursos irrefletidos e incoerentes para que eles possam, de fato, se dedicar àquilo que caracteriza seu lugar e sua tarefa no mundo: a escrita. É por meio da sua obra que o bom escritor atua como “arquiteto” da alma.
Nas declarações feitas a Günter Lorenz, Rosa entende que essa missão tem um caráter político, mas não relativo ao debate político limitado pela defesa de interesses pessoais, de uma determinada ideologia ou de determinado partido político; e sim a política entendida de forma ampla, como ação do homem em prol do homem, tarefa que, no discurso de Rosa, se confunde com a nobre missão do filósofo como guia para fora da caverna.
5 Referências bibliográficas
BIZARRI, Edoardo. J. Guimarães Rosa: correspondência com seu tradutor italiano Edoardo Bizarri. 2. ed. São Paulo: T. A. Queiroz: Instituto Cultural Ítalo-brasileiro, 1980.
ERLER, Michael. Platão. Tradução de Enio Paulo Giachini. Revisão de Gilmário Guerreiro da Costa e Gabriele Cornelli. São Paulo: Annablume Clássica. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2013.
LORENZ, Günter. Diálogo com Guimarães Rosa. In: ROSA, J. G. Ficção completa. v. 1. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009.
NUNES, Benedito. Introdução. In: PLATÃO. A República. Trad. Carlos Alberto Nunes. 3. ed. Belém: EDUFPA, 2000. p. 07.
PLATÃO. A República. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Prefácio e introdução de Benedito Nunes. 3. ed. Belém: EDUFPA, 2000.
______. Górgias (ou a Oratória). Tradução, apresentação e notas Jaime Bruna. Pequena biblioteca Difel. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1970.
ROSA, João Guimarães. Estas estórias. In: ROSA, J. G. Ficção completa. v. 2. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009.
_____. Sagarana. In: ROSA, J. G. Ficção completa. v. 1. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009.
____. Tutaméia. In: ROSA, J. G. Ficção completa. v. 2. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009.

1 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Metafísica, da Universidade de Brasília – UnB.

2 LORENZ, 2009, v. 1, p. XXXI.

3 Idem, p. XXXII.

4 Ibidem.

5 ROSA apud LORENZ, 2009, v. 1, p. XXXIII.

6 Idem, p. XXII. Lorenz e Rosa retomam o imbróglio entre o guatemalteco, Miguel Ángel Asturias (1899-1974), e o argentino, Jorge Luis Borges (1899-1986), ocorrido em um congresso de escritores que foi realizado em Berlim, em 1964. No evento, Borges teria criticado a literatura de compromisso na América Latina, o que levou Lorenz a aproximar a opinião de Rosa com o “testemunho apolítico” de Borges. Rosa diz que, neste episódio, fica do lado de Asturias e não concorda com o que foi dito por Borges.

7 Idem, p. XXXII.

8 Os colegas em questão são Asturias e o brasileiro, Jorge Amado (1912-2001). Apesar de reconhecer a genialidade do primeiro, Rosa revela mais simpatia pela forma como o conterrâneo expressa seus ideais políticos: “Asturias tem algo do distanciamento incorruptível de um sumo-sacerdote; (...) isto é admirável, mas não encanta. (...) Amado é um menino que ainda crê no Bem, na vitória do Bem; defende a ideologia menos ideológica e mais amável que já conheci.” (ROSA apud LORENZ, 2009, v. 1, p. XLV)

9 “A política é desumana, porque dá ao homem o mesmo valor que uma vírgula em uma conta. Eu não sou um homem político, justamente porque eu amo o homem. Deveríamos abolir a política.” (idem, p. XLV)

10 Em correspondência ao tradutor de uma de suas obras, Edoardo Bizzarri, Rosa se diz “profundamente, essencialmente religioso, ainda que fora do rótulo estricto e das fileiras de qualquer confissão ou seita. (...) E especulativo, demais. Daí, todas as minhas constantes preocupações religiosas, metafísicas, embeberem meus livros. Talvez meio existencialista-cristão (alguns me classificam assim), meio neoplatônico (outros me carimbam disso), e sempre impregnado de hinduísmo (conforme terceiros). Os livros são como eu sou.” (ROSA apud BIZZARRI, 1980, p. 57) Observe-se que, nesta carta, escrita em 1963 (portanto, dois anos antes da entrevista que ora analisamos), ao afirmar a identificação entre sua obra e ele próprio, Rosa mostra coerência com o que ele diz a Lorenz, quando critica a falta de congruência entre as opiniões de alguns colegas e os livros publicados por eles.

11 Mais adiante, nesta mesma entrevista, Rosa elogia um trecho da crítica feita por Lorenz sobre o romance Grande Sertão: Veredas (1956), no qual se afirma que o livro buscava liberar o homem do peso da temporalidade. Rosa aprova a análise e diz que sua intenção foi a de “libertar o homem desse peso, devolver-lhe a vida em sua forma original”. (ROSA apud LORENZ, 2009, v. 1, p. LII)

12 ROSA apud LORENZ, 2009, v. 1, p. XLII.

13 Idem, p. XLIV.

14 Nas narrativas, podemos citar como exemplos: duas notas de rodapé da novela “Cara-de-Bronze”, da obra Corpo de Baile (1956) que, conforme esclarece Moraes Augusto (2011), remetem ao Livro XII das Leis, 954a-8, e ao Filebo, 45a-4: “A moça Nhorinhá era linda - feito nôiva nua, toda pratas-e-ouros - e para ele sorriu, com os olhos da vida. Mas ele espiava em redor, e não recebeu aviso das coisas: não teve os pontos do buzo, de perder ou ganhar. [N. “Tà sesêmasména kaì tà asémanta”, Plat.] Ele seguiu seu caminho avã, que era de roteiro; deixou para trás o que assim asinha podia bem-colher. [N. “Hai prókheiroi hêdonái”, Plat.]” (ROSA, 2009, vol. 1, p. 529, notas do autor); as menções ao filósofo no prefácio “Aletria e hermenêutica”, de Tutaméia (1967): primeiro, invocando a alegoria da caverna para dizer que só lemos a vida “por tortas linhas” (ROSA, 2009, v. 2, p. 529) e, depois, contrapondo Platão e o sofista Protágoras para refletir sobre o valor do erro na busca pela verdade: “ ‘O erro não existe: pois que enganar-se seria pensar ou dizer o que não é, isto é: não pensar nada, não dizer nada’ – proclama genial Protágoras; nisto, Platão é do contra, querendo que o erro seja coisa positiva; aqui, porém, sejamos amigos de Platão, mas ainda mais amigos da verdade; pela qual, aliás, diga-se, luta-se ainda e muito, no pensamento grego.” (ROSA, 2009, v. 2, p. 532); e a epígrafe do conto “Páramo”, da obra Estas estórias (1969), que traz um trecho do Górgias, 493e: “Não me surpreenderia, com efeito, fosse verdade o que disse Eurípedes: Quem sabe a vida é uma morte, e a morte uma vida?” (ROSA, 2009, v. 2, p. 849). Além dessas citações diretas nas narrativas, Guimarães Rosa também assinala a influência de Platão na sua obra em uma correspondência trocada com o tradutor de Corpo de baile para o italiano, Edoardo Bizzarri, na qual explica que as novelas que compõem o livro “desenvolvem temas que poderiam filiar-se, de algum modo, aos ‘Diálogos’” e onde afirma: “Quero ficar com o Tao, com os Vedas e Upanixades, com os Evangelistas e São Paulo, com Platão, com Plotino, com Bergson, com Berdiaeff - com Cristo, principalmente.” (ROSA apud BIZARRI, 1980, p. 58)

15 Erler, 2013, p. 268.

16 NUNES, 2000, p. 06.

17 O cuidado com o corpo, decerto, não é esquecido, como desde cedo a criança do Estado idealizado na República deve ser educada tanto na música quanto na educação física.

18 514a-ss.





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