Estudos da Anatomia Vegetal com ênfase em estruturas secretoras, de plantas com potencial Medicinal e Farmacológico”



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e-book : Produtos Naturais Bioativos


  1. Aplicações biológicas, farmacológicas, microbiológicas e aplicação clínica humana veterinária.

Capítulo:


 "Estudos da Anatomia Vegetal com ênfase em estruturas secretoras, de plantas com potencial Medicinal e Farmacológico”
Profa. Dra. Maria Bernadete Gonçalves Martins1

Profa. Dra. Selma Dzimidas Rodrigues1

As espécies vegetais contendo substâncias bioativas têm cada vez mais se tornado objeto de pesquisas, levando a busca alternativa para tratamentos terapêuticos ou revelando substâncias que em um momento posterior possam ser exploradas, com o intuito de produzir fármacos, cosméticos e agroquímicos (FABRICANT & FARNSWORTH, 2001).

O estudo de plantas medicinais é vasto e cada vez mais tem atraído à atenção de botânicos, farmacêuticos e biotecnologistas. Estudos multidisciplinares complementares são de grande necessidade em razão do vasto número de metabólitos secundários que podem ser encontrados em plantas (VICTÓRIO, 2011).

No Brasil, 20% da população consomem 63 % de medicamentos alopáticos, o restante encontra nos produtos de origem natural especialmente nas plantas, uma fonte alternativa de medicação. Dentre os fatores que têm contribuído para um aumento nas pesquisas está a comprovada eficácia de substâncias originadas de espécies vegetais como os alcalóides da vinca, com atividade antileucêmica, ou do jaborandi, com atividade antiglaucoma, ambos ainda considerados indispensáveis para o tratamento e por muitas plantas serem matéria-prima para a síntese de fármacos (FOGLIO et al., 2006).

As plantas constituem uma importante fonte de produtos naturais biologicamente ativos, muitos dos quais constituem modelos para síntese de um grande número de fármacos. Pesquisadores da área de produtos naturais mostraram-se impressionados pelo fato desses produtos encontrados na natureza revelarem uma gama de diversidade, em termos de estrutura e de propriedades físico-químicas e biológicas (WALL & WANI, 1996). Apesar do aumento de estudos nessa área, os dados disponíveis revelaram que apenas 15 a 17% das plantas foram estudadas quanto ao seu potencial medicinal (SOEJARTO, 1996).

Grande parte das plantas nativas brasileiras ainda não foi estudada farmacologicamente e muitas espécies são usadas empiricamente, sem respaldo cientifico quanto à eficácia e segurança, o que demonstra que em um país como o Brasil, com enorme biodiversidade, existe uma enorme lacuna entre a oferta de plantas e poucas pesquisas comprovadas, sendo o reino vegetal, um vasto celeiro de moléculas a serem descobertas. As plantas, além de seu uso na medicina popular com finalidades terapêuticas, têm contribuído, ao longo dos anos, para a obtenção de vários fármacos, até hoje amplamente utilizados na clínica, como a emetina, a vincristina, a colchicina, a rutina e outros. A cada momento são relacionadas na literatura novas moléculas, algumas de relevante ação farmacológica como a forscolina, o taxol e a artemisinina (CECHINEL FILHO & YUNES, 1998).

Até meados do século XX, as plantas medicinais e seus derivados constituíam a base da terapêutica medicamentosa, quando a síntese química, que teve início no final do século XIX, iniciou uma fase de desenvolvimento vertiginoso. Atualmente cerca de 50% dos medicamentos utilizados são de origem sintética e cerca de 30% são de origem vegetal, isolados ou produzidos por semi-síntese (CALIXTO, 2000).

Estudos recentes demonstram que a chamada megabiodiversidade, representada por países como a Austrália, Brasil, China, Colômbia, Equador, Índia, Indonésia, Madagascar, Malásia, México, Peru e Zaire, estão seriamente ameaçados, o que justificaria a utilização das plantas de forma sustentável, para conservação e reparação das áreas degradadas (NODARI & GUERRA, 1999).

Recentemente, o Ministério da Saúde brasileiro divulgou uma lista de plantas medicinais aprovadas para uso da população, sendo que a última atualização contou com 71 exemplares, pertencentes a diversas famílias, como por exemplo, as plantas da família Plantaginaceae (Plantago major), Fabaceae (Erythrina mulungu), Malvaceae (Malva sylvestris), entre outros exemplares. Todas estas espécies de plantas são autorizadas ao consumo pela Agência Nacional de vigilância Sanitária (BRASIL, 2010).
Estruturas Secretoras:

As estruturas secretoras dos vegetais são compartimentos especiais que sintetizam e /ou armazenam substâncias que conferem propriedades medicinais ao vegetal. É o termo geral empregado para células ou conjunto de células envolvidas na secreção de substâncias, como por exemplo, óleos essenciais, mucilagens, resinas, flavonóides, compostos fenólicos, etc.

As células secretoras podem estar individualizadas constituindo os idioblastos ou serem encontradas constituindo estruturas multicelulares de formas muito variadas que são os tricomas, emergências, cavidades ou bolsas e ductos ou canais. De um modo geral, todos esses tipos morfológicos são designados por estruturas secretoras.

As secreções são de um modo geral complexas, sendo o exsudado constituído por muitos compostos químicos, e apesar de haver mistura (goma-resina), há predominância de um composto ou grupo de compostos, sugerindo especificidade na atividade das células secretoras.

A grande diversidade de tipos morfológicos de estruturas secretoras que ocorrem nas plantas despertou, desde muito cedo nos botânicos, um enorme interesse pelo seu valor adaptativo e taxonômico. A morfologia, distribuição e freqüência dos tricomas glandulares e a classe química dos compostos secretados têm sido empregados como caracteres discriminativos em nível de subfamília ou em táxons inferiores à família (EL GAZZAR & WATSON, 1970; ABU-ASABU & CANTINO, 1987; CANTINO, 1990).

Nos animais se distingue os termos excreção (eliminação de resíduos que não participam mais do metabolismo) e secreção (produção de substâncias que podem participar de processos metabólicos). Nas plantas não se pode fazer uma distinção entre os dois processos, e usa-se o termo secreção no sentido amplo.

Para os vegetais, a secreção compreende os complexos processos de formação (podendo incluir a síntese) e de isolamento de substâncias específicas em compartimentos do protoplasto da célula secretora e posterior liberação para espaços extracelulares no interior dos órgãos ou para a superfície externa do vegetal; processos de reabsorção de materiais secretados também já foram registrados para plantas (CASTRO & MACHADO, 2006).

Vários tipos de classificação das estruturas secretoras já foram propostas, tomando-se por base a posição que as estruturas ocupam no corpo do vegetal (ESAU, 2002; CUTTER, 1986), a natureza química da substância secretada (LÜTTGE, 1971) ou ainda, o trabalho celular envolvido neste processo (FAHN, 1979).

Há tricomas de vários tipos morfológicos, denominados de secretores ou glandulares (capitados e peltados) e tricomas não secretores denominados de tectores. Na Figura 1 (A-F), evidencia-se através de micrografia eletrônica de varredura a folha de Brugmansia suaveolens (Solanaceae), popularmente chamada de sete-saias ou trombeteira, a presença de tricomas tectores e glandulares do tipo capitado e peltado. Na Figura 2 A, pode-se observar em detalhe o tricoma peltado, na folha de Jacaranda puberula (Bignoniaceae), popularmente chamado de carobinha; a Figura 2 B, exibe o tricoma capitado de Tetradenia riparia (Lamiaceae), ou pluma-de-névoa,
limonete, pau-de-incenso, falsa-mirra e na Figura 2 C verifica-se em Plantago major (Plantaginaceae), chamada popularmente de tanchagem, o tricoma capitado com a célula apical da glândula, constituída por duas células secretoras. A Figura 4 A, evidencia através de microscopia de luz, a nervura central da folha de Schinus terebinthifolius (Anacardiaceae), evidenciando três canais secretores, ao redor dos feixes vasculares. A Figura 4 B, evidencia o tricoma capitado e o tricoma tector do tipo estrelado na folha de Malva sylvestris (Malvaceae).

As estruturas secretoras são separadas em duas categorias, segundo (FAHN, 1979):



- As substâncias eliminadas podem ou não serem modificadas, sendo as estruturas supridas direta ou indiretamente pelo sistema vascular (Hidatódios – servem à gutação; Glândulas de sal - armazenam e exsudam sal; e nectários – auxiliam na polinização).

2º -As estruturas sintetizam as substâncias secretadas: (tecidos secretores de mucilagem- babosa, guaco), células de mirosina (idioblastos contendo a enzima mirosinase que ocorrem em Brassicaceae, Capparaceae etc, glândulas digestivas de plantas insetívoras (plantas com sistema radicular pouco desenvolvido que crescem em solos pobres), tricomas de defesa ocorrem em Urticaceae, Euphorbiaceae, etc, tricomas secretores de substâncias lipofílicas - estão associados: à resistência genética, ao ataque de pragas, neste caso, os terpenos representam o grupo mais importante de substâncias químicas secretadas e que fornecem matéria prima para indústrias, como: resinas para papéis e têxteis, aglutinantes para papéis e tecidos, cola para preparo de inseticidas, antissépticos, produtos farmacêuticos, perfumes e condimentos; laticíferos e hidropótios).
Na 1a Categoria: Estruturas Secretoras supridas direta ou indiretamente pelo sistema vascular:

Hidatódios:

De acordo com Pimenta (2008), quando as condições ambientais não permitem transpiração, ou seja, alta umidade relativa do ar, mas existe pressão de raiz atuando na planta, o conteúdo do xilema, principalmente água e sais minerais são extravasados na forma líquida, através de estruturas encontradas nas margens das folhas, os hidatódios, no processo denominado gutação. Este é um líquido de composição variável desde água pura até soluções diluídas de solutos orgânicos e inorgânicos na forma de íons (NH4+, K+, Mg2+, Ca2+, PO3-, Cl-, NO-3). Os hidatódios são caracterizados pela presença de bainha do feixe aberta; elementos de condução exclusivamente xilemáticos; epitema (parênquima de paredes finas, geralmente destituídas de cloroplastos) e poros aqüíferos semelhantes a estômatos modificados com câmaras aqüíferas. As traqueídes terminais liberam a solução nos espaços intercelulares do epitema. O exsudado é liberado para fora da planta através de poros aqüíferos.



Glândulas de sal:

De acordo com Perazzolo & Pinheiro (1991) muitas halófitas apresentam estrutura de secreção de sal como glândulas ou micropêlos, os quais eliminam sais ativamente; estes podem ser íons (Na+ , K+ , Mg2+ , Ca2+ , Cl- , SO42- , NO3-, PO43- , HCO3- ) ou carbonatos (CaCO3 , MgCO3). A estrutura e função das glândulas de sal foram estudadas para o gênero Spartina por Fahn nos anos 1980. A análise da ultra-estrutura da glândula de sal foi realizada por outros autores que registraram a presença de membranas divisórias na célula basal e relacionou a eficiência da secreção de sal (com tipos de glândulas de posição emergentes, semi-emergentes e aprofundadas na epiderme foliar), havendo um mecanismo para explicar a secreção de sal, baseado na existência de três tipos morfológicos de micropêlos: cloridóide, panicóide e enapogóide. Estas glândulas são formadas por duas células, uma grande interna, célula basal, e outra pequena, célula apical. A célula basal aparece em contato com o clorênquima e células epidérmicas adjacentes. A porção superior da célula basal, que está em contato com a célula apical, apresenta um estreitamento que se assemelha a um "pescoço", região onde se pode observar citoplasma extremamente denso na glândula de sal e células do mesofilo que a rodeiam. A célula apical apresenta parede celular mais espessa que a parede da célula basal, enquanto que a cutícula que recobre a glândula é delgada, diferenciando-se em espessura da cutícula que recobre as células epidérmicas. A Figura 3 (A-B) evidencia a glândula de sal de Avicennia schaueriana (Aviceniaceae) através de MEV, onde em (3A) observa-se a epiderme adaxial com glândulas de sal esparsas, e (3 B) a superfície abaxial, com inúmeras glândulas de sal recobrindo a epiderme . As células secretoras morrem em decorrência dos níveis elevados de íons em seu vacúolo, como nas espécies de Atriplex (glândula holócrina), ou permanecem vivas em decorrência dos íons serem liberados do protoplasto da célula secretora por microvesículas (processo de exocitose) e da cutícula para o exterior via microporos, como em espécies de Spartina e de Avicennia (CASTRO & MACHADO, 2006).



Nectários:

De acordo com Raven et al. (2007), os estames nas famílias mais primitivas desempenharam o papel óbvio de atração de polinizadores, no entanto em outras se tornaram estéreis, passando a exercer outras funções, sendo uma delas a de nectários, ou seja, glândulas que secretam néctar, um líquido açucarado que atrai polinizadores e fornece alimento a eles. Assim, conforme Castro & Machado (2006), os principais componentes do néctar são sacarose, glicose e frutose; outros mono (galactose), di (maltose e melobiose) e trissacarídeos (rafinose) também podem ser encontrados, além de íons minerais, fosfatos, aminoácidos, proteínas, vitaminas, mucilagem, lipídios, ácidos orgânicos e alguns tipos de enzimas (sacarose transglicosidase, transfrutosidase-oxidade e tirosinase). A fonte do material a ser secretado é proveniente do floema e do xilema. Estudos auto-radiográficos revelaram que as células nectaríferas são capazes de reabsorver o néctar não coletado pelos visitantes. No decorrer da filogênese outras partes do corpo da planta passaram a exibir estas esututas e assim tem-se os nectários florais e os extra-florais (NEF). Nectários extraflorais são bastante diversos quanto à morfologia e localização, e amplamente distribuídos em representantes de 113 famílias de Angiospermas. Considerando Paiva & Machado (2006), os NEFs estão distribuídos por todo o limbo, sendo mais concentrados nos terços basal e médio de limbo. Estes nectários são embutidos no mesofilo, apresentam tecido secretor envolvido por uma endoderme e são vascularizados por xilema e floema. Leitão et al. (2002) relatam que os nectários iniciam o seu desenvolvimento precocemente, com o surgimento de uma concavidade voltada para a face adaxial. Posteriormente, células protodérmicas dão origem a tricomas nectaríferos clavados e subjacente se desenvolve um parênquima nectarífero vascularizado por floema e xilema, características comuns em nectários. As células da “cabeça” dos tricomas nectaríferos apresentam vacúolos com compostos fenólicos, que possivelmente desempenham papel ecológico. Plastídios não ocorrem nos tricomas e são inconspícuos no parênquima nectarífero, o que possivelmente indica a sua importância secundária na secreção do néctar. A epiderme nectarífera é constituída por células de formato retangular ou em paliçada, sem tricomas ou com tricomas uni ou multicelulares. Abaixo da epiderme nectarífera, o parênquima especializado (nectarífero) é constituído por células pequenas, de paredes finas e protoplastos denso. As terminações vasculares liberam as seivas floemática e xilemática no parênquima nectarífero; a seiva floemática é translocada através do parênquima nectarífero, célula a célula, via simplasto e modificada de pré-nectar a néctar no protoplasto das células nectaríferas. O néctar pode ser liberado de diferentes maneiras: diretamente das células nectaríferas para o exterior por meio de estômatos modificados; por exocitose, do protoplasto das células nectaríferas para o espaço periplasmático, atravessando a parede celular, sendo acumulado temporariamente no espaço subcuticular e liberado para o exterior; por microporos; ou por rompimento da cutícula (CASTRO & MACHADO, 2006). Além disto Gershenzo & Engelbrth (2010) referem que flavonas e flavonóides são encontrados em flores, e como os insetos enxergam na faixa extrema do ultravioleta, percebem os padrões de deposição destes aromáticos, como listas, pontos ou círculos concênricos chamados guias de nectários, que acredita-se auxiliar os polinizadores a localizar o néctar e o pólen.
Hidropótios:

Quando se considera plantas aquáticas, a parede externa da epiderme mostra muito pouco ou escassa formação da cutícula. Toda a superfície é capaz de absorver água, nutrientes e gases dissolvidos a partir da água que rodeia a planta. As folhas de plantas submersas não apresentam estômatos, e no caso de plantas flutuantes, os estômatos se encontram na superfície adaxial. Os minerais são absorvidos por meio de certas estruturas na epiderme como os hidropótios, pêlos mucilaginosos e glândulas complexas. Em geral, o xilema que normalmente transporta água desde as raízes, não é bem desenvolvido, ou está ausente. Em algumas espécies, o floema encontra-se mais desenvolvido que o xilema. As raízes são reduzidas e sua função principal é a fixação e não, a absorção de nutrientes e água. Os pêlos das raízes estão ausentes. Lara & Andreo (2006) fizeram estas observações em Egeria, uma Hydrocharitaceae e outros autores referem para Nymphaceaea.



Na 2a Categoria: As estruturas secretoras sintetizam as substâncias secretadas:

Estruturas que secretam mucilagem e ou goma:

Também chamadas de glândulas peroladas, são tricomas secretores bicelulares, constituídos por uma célula basal e por uma célula apical grande, de forma semi-globóide à espatulada, com cutícula espessa, de superfície ondulada e parede péctico-celulósica delgada, relatam Silva & Machado (1999). Durante o processo de secreção, o material, mucilagem e, ou goma que são polímeros complexos de polissacarídeos ácidos ou neutros de elevado peso molecular, se acumulam entre a parede e a cutícula da célula apical, levando à distensão da cutícula e à formação de um espaço conspícuo. Ocorrem em Piperaceae, Rubiaceae e outras; com o acúmulo progressivo da secreção, a cutícula se rompe e libera a secreção mucilaginosa translúcida, que recobre a superfície das estruturas foliares em desenvolvimento. Além disto, Martins et al. (2010) referem autores para denominar estas estruturas como coléter, termo de origem grego kolla e que teria sido introduzido por Hanstein em 1848, referindo-se à secreção pegajosa produzida por esta estrutura. A secreção liberada pelo coléter pode ser composta apenas por mucilagem ou por uma mistura de substâncias lipofílicas e hidrofílicas. Os autores verificaram que os coléteres calicinais possuem um núcleo central de células parenquimáticas, epiderme secretora em paliçada uniestratificada, cutícula delgada e são sésseis; o eixo parenquimático destes coléteres é destituído de vascularização e os laticíferos observados são de pequeno calibre. A mucilagem foi detectada tanto na secreção dos coléteres foliares quanto dos calicinais.


Glândulas digestivas de plantas insetívoras:
Guimarães et al. (2003) relatam que o mecanismo de atração das vítimas se faz de duas maneiras: através de estímulos visuais e de estímulos olfativos. No primeiro caso, os padrões de coloração característicos das armadilhas resultam de pigmentos diversos, como flavonóides, naftoquinonas e antocianinas, os quais, aos olhos humanos, mostram-se em tonalidades de púrpura e vermelho; além disso, a superfície exposta de muitas armadilhas exibe padrões de absorção de raios ultravioleta, plenamente percebidos pelos insetos. No segundo caso, o odor exalado pelas plantas, adocicados ou putrefatos, deve-se a substâncias voláteis detectáveis pelos insetos a longas distâncias; o odor de matéria orgânica em decomposição, de especial eficácia para atrair moscas e escaravelhos, verifica-se de modo mais conspícuo nas folhas maduras de Sarracenia e Nepenthes. Ao chegarem os insetos, o néctar exsudado pelas armadilhas os orienta através de trilhas estrategicamente dispostas (caminhos nectaríferos), conduzindo-os aos locais mais favoráveis para serem aprisionados.

As armadilhas apresentam caracteres morfológicos peculiares a cada espécie, mas a princípio consideram-se quatro tipos básicos: urnas ou ascídias (Brocchinia, Catopsis, Cephalotus, Darlingtonia, Heliamphora, Nepenthes e Sarracenia); tentáculos adesivos ou mucilaginosos (Drosera, Drosophyllum, Ibicella, Pinguicula e Triphyophyllum); folhas preênseis móveis (Aldrovanda e Dionaea); e vesículas de sucção (Utricularia).

As espécies do gênero Drosera, possuem lâminas foliares profusamente cobertas de pêlos glandulares semelhantes a tentáculos, constituídos de um pedúnculo longo de ápice dilatado revestido de duas camadas epidérmicas externas, separadas da camada interna por outra intermediária. Entre o ápice dilatado e a base do tentáculo há células diferenciadas que, sob estímulos mecânicos, exsudam água a fim de diluir o líquido viscoso originário da capa secretora e cujo odor se assemelha ao do mel. As glândulas digestivas situam-se na lâmina foliar e na base dos tentáculos. As presas, em geral moscas e formigas, atraídas pelo colorido e odor, tocam os tentáculos que prontamente se curvam sobre as mesmas, as quais, por sua vez, passam a se debater, estimulando a liberação de enzimas digestivas. As plantas do gênero Drosera levam cerca de cinco dias para efetuar seu processo digestivo. Conforme Castro & Machado (2006), as enzimas digestivas são produzidas por tricomas glandulares em Dionaea, Drosophyllum, Pinguicula e Nepenthes e por emergências vascularizadas em Drosera, sendo que esterases, fosfatases ácidas e proteases predominam sobre as peroxidases, amilases, lípases e invertases.
Tricomas de defesa:

A síndrome do carnivorismo, (GUIMARÃES et al., 2003) evidencia-se através de caracteres anatomo-morfológicos encontrados nas armadilhas, que, todavia, se tomados isoladamente, de modo algum constituem exclusividade de plantas carnívoras. Existem muitas outras plantas que, se não chegaram ao estágio de digerir e absorver o conteúdo de suas presas, ao menos possui dispositivos similares que lhes proporcionam certo proveito: Passiflora adenopoda apresenta na superfície de suas folhas, tricomas agudos e curvados capazes de puncionar as resistentes couraças de besouros fitófagos, os quais morrem pelo total extravazamento de seu conteúdo líquido; espécies do gênero Nicotiana tabacum produzem alcalóides letais para afídeos sugadores (pulgões); muitas espécies do gênero Solanum são dotadas de pêlos glandulares tetra-lobados que, ao serem rompidos pelos movimentos dos afídeos, derramam dois componentes distintos que se combinam para formar uma substância adesiva que fixa inexoravelmente esses insetos à superfície foliar; espécies do gênero Roridula, originárias do sul da África, possuem tricomas mucilaginosos estruturalmente idênticos aos das espécies de Drosera , portanto, capazes de capturar e matar insetos , mas não estão bem aparelhadas para absorver o conteúdo de suas vítimas. Além disto, há os tricomas presentes em plantas pertencentes à Euphorbiaceae como em espécies do gênero Croton (SECCO, 2009 ; GUIMARÃES & SECCO, 2010), Hydrophyllaceae onde Santana & Oyama (1994), encontraram tricomas urticantes em Wigandia urens; em Loasaceae, Bovini & Giordano (2005) verificaram que algumas espécies do gênero Loasa apresentavam tricomas glandulares nos ramos e nas folhas, causando sensação pegajosa e urticante, enquanto que as Urticaceae produzem uma secreção que causa reação alérgica. O tricoma é formado por uma única célula vesiculosa na base e ligeiramente afilada em direção ao ápice. Quando o tricoma é tocado, rompe-se o ápice ao longo de uma linha predeterminada e o líquido que está sob pressão no seu interior é introduzido, esse mecanismo constitui elemento de defesa dessas plantas contra predadores (ROMANIUC-NETO et al., 2009).

Laticíferos

De acordo com Lewinsohn & Vasconcellos-Neto (2000), látex significa fluido em latim, sendo uma suspensão ou emulsão aquosa de substâncias químicas variadas, produzidas por células especializadas; o que o distingue de outras secreções não é a composição química, mas o fato de ser mantido em estruturas vivas e ativas, capazes de regular sua produção. Tais estruturas originam-se a partir do meristema fundamental ou do procâmbio, já estão em fase secretora desde o início de sua formação nos diferentes órgãos, constituindo um sistema ramificado e só liberam o látex se a planta for injuriada, referem (RIO et al., 2005; DEMARCO et al., 2006). Os autores relatam que as paredes dos laticíferos são exclusivamente pectocelulósicas e suas características químicas provavelmente se alteram durante o seu desenvolvimento. Os laticíferos dos órgãos vegetativos ocorrem em todos os tecidos do caule e da folha, com exceção da epiderme e do parênquima medular. Na flor, eles são encontrados em todas as peças florais, exceto no parênquima medular do pedicelo e nos óvulos. O látex tem função de proteção contra a herbivoria e infecções microbianas e propicia o sucesso das espécies em diferentes ambientes. Lewinsohn & Vasconcellos-Neto (2000), referem que tais ductos podem ser lineares ou formarem redes, com distribuição diversificada na planta. Sua aparência geralmente é leitosa e entre os compostos mais comuns encontram-se terpenos, carboidratos, resinas, óleos essenciais, alcalóides, ceras, proteínas, enzimas proteolíticas, cristais, taninos, amido, cardenolidas e outras. Muitas das substâncias do látex são instáveis, uma vez um laticífero rompido, o látex exsuda, aumenta de viscosidade e densidade em contato com o ar e termina se solidificando.





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