Estudo da prevalência de variaçÕes anatômicas na artéria cerebral posterior



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ESTUDO DA PREVALÊNCIA DE VARIAÇÕES ANATÔMICAS NA ARTÉRIA CEREBRAL POSTERIOR

Aderaldo Costa Alves Júnior (1)

Ana Karine Farias da Trindade(2)

Eliane Marques Duarte de Sousa (3)


(1) Monitor Bolsista do Componente Curricular Neuroanatomia
(2) ) Professora orientadora da Unidade Curricular

(3) Coordenador do Programa Acadêmico de Monitoria em Anatomia.

Departamento de Morfologia

Programa de Monitoria

Resumo

Objetivo: Definir a prevalência de variações na ACP em nossa população.Material e Métodos: Foram analisadas cinco imagens de Angiografia Digital Cerebral para estudo da anatomia das artérias: ACP e artéria comunicante posterior (AComP). Três configurações anatômicas distintas da ACP foram buscadas: padrão adulto, quando a primeira porção da ACP (P1) fosse maior que a AComP; padrão fetal, quando P1 fosse menor que a AComP; e padrão de transição, quando os dois calibres fossem iguais.Resultados: Foram encontradas nove ACP com padrão normal, uma ACP com padrão fetal e nenhuma com padrão de transição. Observou-se prevalência de 10% de variações anatômicas no nosso estudo, condizente com o encontrado na literatura. Um estudo realizado no Nepal em 2010 encontrou freqüência de 8,6%, corroborando nosso achado. Outros autores encontraram valores diferentes, alguns chegando a até 40%, sugerindo fatores genéticos envolvidos nas diferentes etnias, que são determinantes na angiogênese e assim no desenvolvimento de configurações anatômicas distintas dos padrões normais conhecidos.Conclusão:O estudo das variações anatômicas na ACP é de grande importância clínica devido ao papel protetor dessa anormalidade no desenvolvimento de aneurismas cerebrais no sistema carotídeo distal, sugerido e pesquisado por outros autores. Nossa amostra, entretanto, foi pequena e pode não ser representativa de nossa população. Dessa forma, sugerimos novas pesquisas que complementem nossos achados. Ainda assim, nosso estudo tem grande importância para a ampliação dos conhecimentos científicos em Morfologia no meio acadêmico.

Palavras-chave: Artéria cerebral posterior; variações anatômicas; círculo arterial do cérebro.



Introdução

O círculo arterial do cérebro é uma anastomose arterial de forma poligonal, inicialmente descrito pelo anatomista e fisiologista inglês Thomas Willis em 1664 (donde seu epônimo: polígono de Willis), que se situa na base do crânio e relaciona-se anatomicamente ao túber cinéreo e ao quiasma óptico, circundando-os (MACHADO, 1998). Ele é formado por artérias cujo sangue provém da A. carótida interna (sistema carotídeo) ou das Aa. vertebrais e basilar (sistema vertebrobasilar). Os dois sistemas são interligados anatomicamente por meio das intensas anastomoses entre as artérias que compõem o círculo arterial do cérebro, garantindo assim um fluxo sanguíneo adequado para as regiões do cérebro mesmo em condições de suprimento sanguíneo deficiente, sendo essa sua grande importância fisiológica na manutenção de uma adequada perfusão ao tecido cerebral. Assim sendo, a falta de irrigação de determinada área devido a uma oclusão arterial é compensada por outro vaso com fluxo íntegro que alcança essa área devido às anastomoses existentes.

Fazem parte desse círculo as artérias: A. comunicante anterior, Aa. cerebrais anteriores, Aa. cerebrais médias, Aa. carótidas internas, Aa. comunicantes posteriores, Aa. cerebrais posteriores e A. basilar. Essa conformação normal, com todas essas artérias, é vista em apenas 40% dos casos; nos demais, alguma variação anatômica está presente (SCHÜNKE et al., 2007

O estudo das variações anatômicas no círculo arterial do cérebro é de grande importância para a prática médica. A literatura apresenta sua relação de causa-efeito com as doenças cerebrovasculares. No que se refere aos aneurismas cerebrais, autores sugerem que as alterações hemodinâmicas provocadas pelas conformações arteriais diferentes, aliadas a fatores estruturais locais, justificam o desenvolvimento dos mesmos (KAYEMBE et al., 1984). Quanto ao risco de acidente vascular encefálico, está bem definido que a presença de circulação colateral (portanto, de determinadas variações anatômicas) está associada a uma menor incidência de eventos isquêmicos (HENDERSON et al., 2000). As doenças supracitadas são uma questão de saúde pública no Brasil, não somente por causar mortes e pelos custos com internações hospitalares, mas também pelos seus efeitos tardios de graves morbidades, como deficiência motora, depressão e perda de função cogntiva (ABE et al., 2010). Conhecer as possíveis variações anatômicas nas artérias cerebrais, portanto, permite ampliar os conhecimentos científicos não só para a Morfologia, mas também para as diversas áreas médicas e afins.



Metodologia

Inicialmente os pesquisadores pretendiam formar sua base de dados por meio de dissecções de cadáveres e posterior análise minuciosa da anatomia da ACP no laboratório de Anatomia Humana do Departamento de Morfologia da UFPB, em parceria com o Serviço de Verificação de Óbitos da Paraíba. Entretanto, devido às dificuldades encontradas em obter consentimento livre e esclarecido por parte dos familiares para acessar as artérias cerebrais, foi solicitada e aprovada modificação do projeto de pesquisa junto ao Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da UFPB, sendo encontrada nova forma de estudar a anatomia das artérias em questão.

Os pesquisadores, então, foram em busca de exames de Angiografia Digital Cerebral, exame de imagem contrastado que permite facilmente o estudo morfológico dos vasos do círculo arterial cerebral. As imagens foram criteriosamente estudadas de modo a identificar aprimeira porção da A. cerebral posterior (P1) e a A. comunicante posterior (AComP), estimar seus calibres e compará-los. Com base na definição de outros autores previamente apresentada, três possíveis padrões da ACP foram procurados, de acordo com os valores de calibre encontrados: padrão adulto, quando P1 fosse maior que a AComP; padrão fetal, quando P1 fosse menor que a AComP; e padrão de transição, quando os dois calibres fossem iguais.Os dados foram compilados e analisados quanto às suas freqüências com o auxílio do software Microsoft Office Excel 2007. Todas as imagens foram documentadas e armazenadas. Posteriormente, os resultados finais foram comparados a achados prévios por outros autores na literatura.

Resultados e Discussão

A frequência de variações anatômicas na artéria cerebral posterior (ACP) não é consenso na literatura. Alguns autores encontraram uma freqüência de 8,6%, outros, de até 40% (POUDEL et al., 2010; SILVA et al., 2009).Em nossa pesquisa, foram estudados cinco exames de Angiografia Digital Cerebral, totalizando 10 artérias cerebrais posteriores analisadas. Em nove delas, observou-se o padrão normal (adulto), no qual o calibre da primeira porção da ACP (P1) era maior que o da artéria comunicante posterior (AComP). Em apenas um caso foi observado calibre da AComP maior que de P1, configurando o padrão fetal (Fig. 1). A prevalência total de variações na ACP no nosso estudo foi, portanto, de 10% (Tab. 1).



Tabela 1 – Frequência de casos de padrões Adulto, Fetal e de Transição.

PADRÃO ANATÔMICO

FREQUÊNCIA

n

%

Adulto

9

90,0

Fetal

1

10,0

Transição

0

0,0

Total

10

100,0

Fonte: Pesquisa Direta, 2013.

Nossos resultados são condizentes com o estudo realizado por Poudel e Bhattarai em 2010 no Nepal. Esses autores estudaram 35 círculos arteriais cerebrais e encontraram variações em 8,6% dos casos, valor próximo dos 10% da nossa pesquisa(POUDEL et al., 2010). Sabe-se que variações anatômicas na conformação dos vasos do círculo arterial cerebral são muito freqüentes e sua prevalência varia bastante na literatura, sendo essas divergências sugestivas de fatores genéticos envolvidos nas diversas etnias. Para constatar essas diferenças, um estudo realizado em cadáveres no Sri Lanka comparou seus resultados a pesquisas feitas em outros países, como França, Marrocos, Irã e Estados Unidos. Os autores perceberam que os perfis de apresentação dos vasos do círculo arterial do cérebro nas populações do Irã, França e Sri Lanka eram parecidos, enquanto que os de um estudo dos Estados Unidos diferiram consideravelmente (SILVA et al., 2011). Isso sugere influências genéticas e fatores ambientais envolvidos na angiogênese dos vasos, contribuindo para que se encontrem diferenças nos padrões apresentados a depender da população estudada. Isso justifica, ainda, as divergências encontradas na literatura quanto à freqüência de variações na ACP.



Figura 1- Angiografia Digital Cerebral demonstrando padrão fetal da ACP: à direita, AComP com aneurisma cerebral e calibre dominante, configurando a variação anatômica.

As diferenças nos padrões que a ACP apresenta possuem grande importância clínica. Um estudo angiográfico demonstrou que o padrão fetal da ACP exercia papel importante no surgimento de aneurismas na A. carótida interna, devido às alterações hemodinâmicas e estruturais provocadas pelas conformações arteriais distintas (HORIKOSHI et al., 2002). Autores brasileiros também estudaram o assunto em 2012, e observaram uma baixa incidência de ACP do padrão fetal em pacientes com aneurismas de A. comunicante anterior, estatisticamente significativa. Eles justificaram o achado explicando que o padrão fetal da ACP está associado a altas taxas de fluxo no sistema carotídeo, e baixo fluxo na artéria basilar, protegendo os pacientes portadores da variação da formação de aneurismas na parte distal do sistema carotídeo, como o complexo comunicante anterior (SILVA NETO et al., 2012). Tais evidências já haviam sido estudadas e publicadas no periódico Radiology em 2005 pelo radiologista holandês Hendrikse (HENDRIKSE et al., 2005). Os achados desses autores reforçam a importância do estudo das variações anatômicas no círculo arterial cerebral, no caso, demonstrando que uma variação é considerada fator protetor para o desenvolvimento de uma grave condição com conseqüências catastróficas: aneurismas cerebrais.



Conclusões

Apesar da ampla divergência encontrada na literatura quanto à frequência de variações na A. cerebral posterior, nossa pesquisa encontrou valores semelhantes aos de outros autores. Nossa amostra, entretanto, é pequena e pode não ser representativa de nossa população. Dessa forma, sugerimos novas pesquisas que complementem nossos achados.



Referências

MACHADO, A. B. M. Neuroanatomia Funcional. 2ª ed. São Paulo: Atheneu, 1998. 363 p.

SHÜNCKE, M.; SCHULTE, E.; SHUMACHER, U. Prometheus, Atlas de Anatomia: Cabeça e Neuroanatomia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2007. 401 p.

SILVA, K. R. D.; SILVA, T. R. N.; GUNASEKERA, W. S. L.; JAYESEKERA, R. W. Variation in the origin of the posterior cerebral artery in adult Sri Lankans. Neurology India, Hyderabad, v. 57, n. 1, p. 46-49, 2009.

POUDEL, P. P.; BHATTARAI, C. Anomalous formation of the circulousarteriosus and its clinico-anatomical significance. Nepal Med. Coll. J., Kathmandu, v. 12, v. 2, p. 72-75, jun. 2010.

KAYEMBE, K. N.; SASAHARA, M. HAZAMA, F. Cerebral aneurysms and variations in the circle of Willis.Stroke, Dallas, v. 15, n. 5, p. 846-850, set./out. 1984.

HENDERSON, R.D. et al. Angiographically defined collateral circulation and risk of stroke in patients with severe carotid artery stenosis: North American Symptomatic Carotid Endarterectomy Trial (NASCET) Group. Stroke, Dallas, v. 31, p. 128-132, 2000.

ABE, I. M.; GOULART, A. C.; SANTOS JÚNIOR, W. R.; LOTUFO, P. A.; BANSEÑOR, I. M. Validation of a stroke symptom questionnaire for epidemiological surveys. São Paulo Medical Journal, São Paulo, v. 128, n. 4, p. 225-231, jul. 2010.

SILVA, K. R. D.; SILVA, R.; AMARATUNGA, D.; GUNASEKERA, W. S. L.; JAYESEKERA, R. W. Types of the cerebral arterial cicle (circle of Willis) in a Sri Lankan Population. BMC Neurology, London, v. 11, n. 5, jan 2011.

HORIKOSHI, T.; AKIYAMA, I.; YAMAGATA, Z.; SUGITA, M.; NUKUI, H. Magnetic resonance angiographic evidence of sex-linked variations in the circle of Willis and the occurrence of cerebral aneurysms. JournalofNeurosurgery, Charlottesville, v. 96, n. 4, p. 697-703, abr. 2002



.SILVA NETO, A.; CÂMARA, R. L. B.; VALENÇA, M. M. Carotid siphon geometry and variants of the circle of Willis in the origin of carotid aneurysms. Arq. Neuro-Psiquiatr., São Paulo, v. 70, n. 12, dez. 2012.

HENDRIKSE, J.; van RAAMT, A. F.; van der GRAAF, Y.; et al. Distribution of cerebral blood flow in the circle of Willis. Radiology, , v. 235, n. 1, p. 184-189, mar. 2005.
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