Estratégias de inclusão digital, a batalha das práticas culturais



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Práticas culturais e Inclusão digital

PRÁTICAS CULTURAIS E INCLUSÃO DIGITAL

Nilton Bahlis dos Santos nilton-santos@cict.fiocruz.br

Doutor em Ciência da Informação

Pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Comunicação e Saúde do Cict-Fiocruz


Introdução

Todos conhecemos as preocupações da Sociedade de Informação criar uma nova divisão, a “Digital”, e que devemos fazer um esforço para “Inclusão Digital” de amplas parcelas marginalizadas da população. Mas não temos consenso sobre como fazê-lo e as políticas e prática de muitas organizações se concentram apenas nos aspectos mais evidentes.

Algumas se dedicam a cursos de informática. Outras dão importância para a regulação ou para a questão econômica. Outras ainda, se preocupam com o acesso às máquinas1, softwares e a Internet. Surgem assim as políticas de software livre e outras cuja preocupação é o acesso físico, como por exemplo, o programa “PC Conectado2” ou a criação de Tele-centros, que buscam democratizar o acesso às novas tecnologias.

Sem desprezar estes aspectos, fundamentais sem dúvida, por outro lado existe a questão cultural. A batalha pela inclusão digital deve se dar em todos aspectos, mas o mais importante para o seu sucesso está ligado ao que se pode chamar de práticas culturais, isto é, as relações e modo de proceder que precisam ser estabelecidos para operar estas tecnologias. Se não construirmos estratégias que dêem sentido e viabilizem alternativas práticas de utilização para os setores que pretende integrar, os resultados serão muito precários. As experiências mostram que a inclusão digital só se verifica onde estas tecnologias aparecem como instrumentos do cotidiano e vem associadas a criação de uma vida comunitária, cooperação e solidariedade, instrumentos fundamentais para sua viabilidade.

O que nos propomos debater neste artigo são as estratégias de Inclusão Digital, a luz dos primeiros esforços empreendidos.

Uma rápida visão sobre a atividade de Inclusão Digital

Governantes, legisladores, profissionais, Organizações da Sociedade Civil, enfim, distintos setores da sociedade manifestam hoje preocupações quanto a necessidade de Inclusão Digital de setores populares de nossa sociedade e desenvolvem atividades neste sentido.



Vejamos algumas das atividades principais:

Informática nas Comunidades. A mais importante atividade deste tipo, no Brasil, é a do Comitê para Democratização da Informática (CDI) que recupera computadores utilizados colocando-os nas comunidades e dando cursos de informática. Estas atividades servem para aproximar jovens do mercado de trabalho dando-lhe uma formação técnica de informática, o que lhes abre a possibilidade de oferecer serviços de manutenção de computadores e elaboração de pequenos programas. O que vem facilitar o acesso a funções e empregos que exigem a manipulação de programas do tipo planilhas, banco de dados, editores de texto e utilização da Internet.

PC Conectado e o Laptop de 200 dólares. Programas que respondem a questão do acesso econômico como o PC Conectado e o Laptop de 200 dólares ainda engatinham, mas tem também sua importância, pois viabilizam o uso dos recursos da informática com pouco investimento. Mas mesmo a baixo preço e financiado, isto só é viável se o usuário encontrar formas de retorno financeiro, de aumento da rentabilidade, ou formação e laser que compensem o investimento. Por essa razão a possibilidade de acesso intensivo à Internet tende a ser crucial para o sucesso deste projeto, já que é ela que pode viabilizar retorno para uma massa mais ampla de usuários em termos de serviços, formação, informação, comunicação, etc... Sem se preocupar com isto o programa não terá nenhum sentido, já que a rentabilidade financeira direta do equipamento tenderá a ser marginal, inviabilizando sua expansão.

Software Livre. O Movimento Software Livre é outro esforço que contribui à inclusão digital. Em primeiro lugar por razões econômicas, na medida em que viabilizará ao usuário o acesso a programas e manter-se atualizado em relação aos aplicativos que podem servir ao aumento de eficiência, em toda uma diversidade de atividades, o que pode contribuir decisivamente para a “inclusão digital”. Apesar de sua importância, porém, este movimento tem ainda algumas debilidades. Em primeiro lugar, sua origem entre programadores e informáticos, faz com que a cultura do movimento ainda seja em grande parte a cultura deste meio, o que dificulta a sua expansão para o usuário comum. Estas dificuldades aparecem particularmente no seu ainda limitado desenvolvimento das interfaces gráficas e serviços de suportes aos usuários finais. A determinação governamental de obrigatoriedade de utilização de software livre na administração pública tende a oferecer um grande impulso para este movimento, ao oferecer a oportunidade de criar uma aproximação “compulsória” de uma grande massa de usuários, o que, por sua vez, obrigará a um esforço no sentido da usabilidade destes softwares. Por um lado dos funcionários públicos que deverão aprender a usá-los para exercer suas funções. Por outro, porque o aumento da demanda estimulará que profissionais respondam aperfeiçoando programas e oferecendo serviços. A reflexão sobre este aspecto, cultural, do problema, tem sido pouco observada e talvez ainda não esteja bem equacionada, o que pode nos levar a que se viva alguns momentos de caos quando esta obrigatoriedade seja efetivada,. Mas do caos virá à luz, já que gerada a massa crítica necessária, teremos condições objetivas para a radicalização destas políticas.

Cabines Internet e Tele-centros. Podemos dizer que, ainda que semelhantes, temos aqui dois tipos de atividade diferentes. Por um lado equipamentos começam a aparecer em locais públicos, como correio, bancos, centros culturais, eventos, etc. que permitem as primeiras experiências de uma multidão de pessoas que passam por estes locais. Por outro lado temos os Tele-centros que tem a particularidade e a virtude de servir para reunião de comunidades de usuários que terminam por estabelecer verdadeiras organizações de jovens em torno de seu espaço e atividades. A criação e manutenção dos Tele-centros é sem dúvida a mais importante das atividades de “inclusão digital” que vem sendo implementada. Sua importância, no entanto, está muito mais ligada ao processo cultural que os Tele-centros colocam em marcha, do que por viabilizar o acesso físico à Internet. Porque independentemente da consciência que possam ter seus impulsionadores, quando se começa a colocar em pé um Tele-centro, esta questão cai em nosso colo.

Sem desprezar o grande esforço que vem sendo desenvolvido, fundamental sem dúvida e que muito contribui para a “Inclusão Digital”, existe por outro lado uma questão que nem sempre é levada em conta com a devida importância. A batalha pela inclusão digital deve se dar em todos os aspectos, mas o mais importante para o seu sucesso está ligado ao que poderíamos chamar de práticas culturais, isto é, a maneira de proceder e o tipo de relações sociais e organizacionais que precisam ser estabelecidas para que estas novas tecnologias possam ser operacionalizadas com sucesso.

As práticas culturais se enraízam na memória dos homens, na sociedade e na ecologia. Elas têm sua base na experiência cotidiana, nos instrumentos e tecnologias usados, na tradição, enfim no dia a dia. E ao estabelecerem-se elas criam uma aderência que dificulta a introdução de novas tecnologias, com lógicas e maneiras distintas de operar. E a experiência diz, que é mais fácil trocar máquinas do que hábitos culturais...

Um problema suplementar em nosso caso é que não estamos frente a uma mudança de tecnologia qualquer, mas de uma muito especial. Estamos em face da superação (não obrigatoriamente no sentido de exclusão) de uma “tecnologia de inteligência”, para usar a expressão de Levy (1993). E a tecnologia anterior se confunde com a própria espécie humana ao dotar-lhe, ao mesmo tempo, de sua particularidade e transformar-se em elemento chave de sua relação com o mundo. De um certo modo as tecnologias de inteligência que criamos até aqui, construíram o nosso mundo...



Da Cultura do Livro à Cultura da Internet

O impacto das novas tecnologias na vida cotidiana e na sociedade é cada vez mais evidente. Mas mesmo entre os que reconhecem a sua importância, em geral, o que lhes chama a atenção, são muito mais características quantitativas do processo em curso (o número de pessoas e máquinas envolvidas, a ampliação da abrangência de suas atividades, seu caráter global, os valores econômicos envolvidos, etc.), do que as características e dinâmicas específicas que estas novas tecnologias implementam ao nível de nosso processo cognitivo e da própria prática educativa.

E se é verdade que os computadores e a Internet aos poucos vão deixando de ser objetos estranhos e as novas tecnologias de comunicação, lentamente, vem se integrando as atividades cotidianas, as novas tecnologias são usadas para fazer as mesmas coisas e da mesma maneira que já vinham sendo feitas até aqui. Acontece, no entanto que os processos e as práticas que trazem as novas tecnologias, tem dinâmicas contraditórias com a natureza das atividades tradicionais.

O radicalismo das transformações em curso3 está associado às características gerativas, particulares das tecnologias4 que estão sendo construídas. Como a escrita (e em particular a imprensa) estava no centro de um processo que gerou o que podemos caracterizar como a “Ordem do Livro”, as novas tecnologias de informação e em particular a Internet estão gerando o que podemos chamar de “Ordem da Web”. As transformações que estamos vivendo envolvem processos cognitivos, práticas educativas, aparatos de cultura, dispositivos de interação, suportes técnicos, estruturas comunicativas, enfim, envolvem um conjunto de dinâmicas específicas e em profunda relação e sincronia com as características de tecnologias determinadas.

A comunicação oral, a escrita e a impressa podem ser relacionadas a fases de um processo de especialização pelo qual passou o aparato cognitivo da espécie humana. A escrita e a tecnologia de imprensa favoreceram uma leitura linear, predeterminada pelo autor. Um livro ou um texto qualquer para ser “compreendido”, em princípio deve ser lido do início ao fim, palavra por palavra, parágrafo por parágrafo e página por página, uma depois das outras. A predisposição inicial, quando alguém lê algo, é tentar entender o que quis dizer o autor. Está subentendido que a formação de um ponto de vista próprio, em princípio, só deveria ocorrer, ou não, no momento posterior a leitura global.

As tecnologias de escrita e impressão consolidaram esses modelos narrativos seqüenciais e com eles uma série de características que se constituíram no processo cognitivo de nossa espécie5. A organização da informação em blocos estruturados por um determinado ponto de vista e pela narrativa que lhe estrutura e representa, origina uma separação de papéis entre os agentes da comunicação, dividindo-os em autor e leitor (professor e aluno no caso da educação), constituindo-se um processo unidirecional: um fluxo a cada momento e em um único sentido, viabilizado através de um sistema de e “permissões” e “interdições”, “ações” e “interrupções” que por sua vez se desdobram em uma relação hierárquica.

Apesar da precária interatividade, estes mecanismos tiveram grande utilidade por possibilitarem a criação de cadeias causais, viabilizando a organização e coordenação de esforços de grupos de homens para intervenção na natureza. Eles viabilizaram a transmissão de experiência como um pacote fechado (educação/instruções/orientações) que possibilitam, através de uma cadeia de relações hierárquicas, a articulação de múltiplas pessoas em processos de grande extensão6.

Deste processo “se depreende um dispositivo cognitivo baseado sobre uma ordenação do texto literário (a fila indiana de caracteres) e hierarquizado (organização de capítulos, parágrafos, etc.) que favorece uma leitura analítica e discursiva, assim como um modo de aprendizagem e conhecimento mais ‘de cima para baixo’ do que interativo e participativo” (Bazin. 2000).

Este modo de organizar a informação, e a capacidade limitada de seu “transporte” e deslocamento7, tem uma conseqüência inequívoca: a separação entre “autor” e “leitor”, “emissor” e “receptor”, “educador” e “educando”, obscurecendo o processo de interação existente entre esses diferentes agentes e criando a impressão de que o processo de comunicação e educação se desenvolveria em um único sentido. As relações sociais hierarquizadas, no início apoiada em mecanismos coercitivos e repressivos e mais tarde apoiadas em hegemonias ideológicas (autoridade da “experiência” e da “sapiência”, sistemas de “aferição de conhecimento”, etc.), reproduzem esta percepção, produzindo e reproduzindo cotidianamente relações hierárquicas e assimétricas.

O surgimento e consolidação da Internet (ao criar um sistema capaz de universalizar registros e o acesso a eles, em uma comunicação em tempo real, ao promover uma interatividade exacerbada e ao viabilizar o processamento de informações em número infinito), criou uma série de problemas novos, ao mesmo tempo em que possibilitou (e em um certo sentido exige) novos tipos de práticas cognitivas.

A diferença fundamental entre a Ordem do Livro e a Ordem da Web é que a primeira é expressão de um sistema que trabalha com um número finito de informações, enquanto a segunda viabiliza o processamento em um número infinito. É importante que se esclareça que entre ambos sistemas a diferença não é quantitativa, numérica. A diferença entre ambos sistemas é que o primeiro trabalha com as informações separadas em compartimentos estanques (em pacotes de número finito de elementos), enquanto que o segundo viabiliza o estabelecimento de relação de qualquer tipo, entre todo o tipo de informação.

Ao estabelecer um formato universal no qual pode se expressar qualquer tipo de informação, o digital, e, com a criação da Internet, com seus protocolos universais viabilizando o estabelecimento de relações de qualquer coisa com qualquer outra, rompem-se definitivamente as comportas e surge um sistema capaz de processar um número infinito de informações.

Quais são as diferentes características destes dois tipos de sistemas?

Em um sistema de carência de informações, ou com um número finito delas (de “relações estabelecidas”), o problema central é obter e preservá-las: “a informação vale ouro” diz o dito popular. Conforme o volume cresce, o problema se desloca para localizá-la. Mas em ambos os casos o valor ainda está na “informação” entendida como relação estabelecida, como unidade de saber, como expressão e representação da “verdade”. O valor ainda é o que normalmente se chama de “conteúdo”, que seria igual à informação. A estrutura e os instrumentos para seu processamento são coisas exteriores a ela. O sistema deve ser capaz de “organizar” a informação como forma de preservar, acessar e dispor dela.

Em um sistema de abastança de informações, ao contrário, o problema se desloca para o potencial de relação entre os elementos, o valor não está nos elementos em si e nas relações já estabelecidas, mas na infinidade de relações possíveis de se realisarem. Neste sentido o chamado “conteúdo” perde valor e o importante passa a ser a capacidade de descobrir e estabelecer relações novas e de todo o tipo.

O que procuramos até aqui foi caracterizar o radicalismo do processo em curso e esboçar algumas diferenças básicas entre os dois tipos de sistemas. A ordem do livro se estrutura de maneira hierárquica, através de uma cadeia de relações, onde as estruturas superiores organizam e controlam as estruturas inferiores. A “interação” é linear e segue esta hierarquia. O processo de informação e comunicação ocorre como um processo de “transmissão”, onde quem “transmite” tem o controle. Existe uma “verdade”. As coisas têm uma maneira de serem feitas e cabe apenas aprender a fazê-las; jamais inventá-las. Cada um tem suas idéias e projetos, mas o que se realiza são os projetos daqueles que conseguem impor sua força e consegue usar a seu favor as relações hierárquicas e estabelecidas em cadeias.

Na Ordem da Web as interações são múltiplas, diversas e sem um sentido único, ocorrendo em tempos e espaços diversos. Nela tudo é relativo e o próprio mundo é o resultado desta interação. Nesse mundo não existe uma maneira apenas de fazer as coisas, mas tantas maneiras, quanto coisas existem a serem feitas... Cabe a cada um inventá-las a seu bel prazer, claro, mas isso só pode ser feito a partir das relações com os outros.

Enquanto na ordem anterior a hierarquia é que assegurava a estabilidade do sistema, a Ordem da Web só se estabiliza mediante uma constante negociação que promova a sincronização de seus diversos elementos, e isso a cada momento. O processo de criação e de conhecimento que na ordem anterior tentava se passar como resultado de uma ação individual, aparece agora claramente como coletivo. Cada um tem e constrói suas idéias e projetos, mas, para realizá-las terá de negociar intensamente e se sincronizar com os outros. Qualquer tentativa de se impor unilateralmente, com o tempo, tenderá a se dissipar8...

As observações que fizemos até aqui, ainda que rapidamente e de maneira superficial, já nos permitem entender que quando falamos em Inclusão Digital não estamos tratando de acesso a máquinas e tecnologias, mas de inclusão em uma nova cultura no próprio processo em que ela se constrói. Como tal, não são apenas os rotos e excluídos, mas toda a nossa sociedade social que necessitará passará por este processo de Inclusão Digital que criará uma nova cultura.

Precisaríamos então repensar se existe sentido na preocupação sobre a possibilidade de, neste processo, se aprofundar a divisão social, e sobre outras questões ligadas à justiça social.

Isto mereceria um artigo específico para tratar o tema, já que em um sistema complexo as coisas não podem ser respondidas por sim ou não. Mas podemos adiantar que a luta pela justiça social se coloca de outra maneira, já que em situações de complexidade o sistema nunca assume uma forma definitiva e se re-configura-se a cada momento. A maneira de como se desenvolverá este processo de inclusão/construção de uma nova cultura, definirá as próprias características do sistema a cada momento. Neste sentido uma inclusão de camadas excluídas socialmente desde o primeiro momento tenderá a facilitar que interesses mais amplos e diversos de uma ecologia humana sejam resguardados. Mas cabe ressaltar que isto não esta ligado ao acesso físico ou não à Internet, mas a capacidade de cada setor de utilizá-la e se incorporar e garantir nela suas particularidades.

Algumas observações sobre Estratégias de Inclusão

Podemos considerar que existem diferentes níveis de política de inclusão que devem ser levadas em consideração.

Existem políticas que não estão diretamente dirigidas aos setores populares, mas tem o papel de criar um ambiente geral na sociedade que favorece a inclusão digital. Uma série de iniciativas contribuem decisivamente neste sentido: políticas de E-Governo, como acesso a serviços do Estado, oferecidos pela Internet (informações sobre FGTS, acesso a serviços de saúde e requisição de direitos, Imposto de Renda, etc.); a informatização do processo eleitoral; a incorporação da educação à distância, de bibliotecas e serviços de informação digitais as políticas do MEC, a massificação de serviços bancários e outras iniciativas que massificam a utilização de recursos das novas tecnologias, e em particular da Internet. Além, é claro, de políticas e programas que procuram tornar acessivos, maciçamente, equipamentos e softwares (como os programas de Software Livre, “PC Conectado”, e “Laptop a 100 dólares” para estudantes), citados anteriormente, ajudam a criar uma massa crítica que favorece este processo.

Mas é preciso pensar em estratégias, iniciativas e instrumentos que favoreçam a incorporação de hábitos e práticas culturais ligadas às dinâmicas das novas tecnologias. Algumas questões podem ser avançadas como contribuição neste sentido. Citaremos quatro das mais importantes delas:



1 - Diminuir a dificuldade e aumentar a rentabilidade - É importante que estabeleçamos estratégias que dêem sentido e associem a utilização das novas tecnologias a resultados práticos para os setores que pretende integrar. Se não somos capazes de incorporar as novas tecnologias ao cotidiano da população os resultados serão lentos e muito precários. As experiências começam a nos mostrar que a inclusão digital só se verifica onde estas tecnologias aparecem como instrumentos do cotidiano e quando vêm associadas à vida comunitária, à cooperação e à solidariedade como instrumentos fundamentais para sua viabilização. Existe uma relação custo X benefício que deve ser pensada no processo de incorporação de qualquer tecnologia. No caso esta relação aparece entre dificuldade de acesso X rentabilidade da utilização (não obrigatoriamente econômica). Aumentar a rentabilidade e reduzir as dificuldades da utilização destas tecnologias é decisivo para a inclusão digital. A ampliação de serviços oferecidos pelo estado (em particular de educação à distância) e de outros serviços favorecem a rentabilidade e ajudam neste sentido. O cuidado com a acessibilidade destes serviços através da simplificação de seu uso, do melhoramento das “Ajudas” e FAQs, dos serviços de apoio e suportes técnicos (utilizando chats, tutoriais, ajudas, atendimento por email, etc), podem servir em muito a afugentar o temor do desconhecido e reduzir as dificuldades;

2 - Atenção aos jovens e crianças, elas não tem compromissos com a cultura do passado - Quando falamos que estamos construindo uma nova cultura, cabe perguntar se não somos hoje, como imigrantes recém-chegados a uma terra estrangeira9. Tradicionalmente, no processo de imigração, as crianças é que aprendem primeiro a língua, os hábitos e os códigos do novo mundo. Elas é que ajudam os pais na exploração do que para eles é terra incógnita e para as crianças já é seu ambiente. Rushkoff (1997) inventou o termo "screenagers'', para ilustrar que as mudanças dos tempos tenham talvez produzido, quase por evolução darwiniana, uma nova geração adaptada às mudanças tecnológicas. Os jogos, os videogames, o papo furado em chats, os blogs, muitas vezes considerado por pais e educadores como “alienação”, são verdadeiras escolas para estas novas tecnologias. Investimentos como a política de dar um laptop para cada estudante (como é o objetivo do “Laptop à 100 dólares”) tem um efeito multiplicador não só porque as crianças aprendem mais rápido, mas porque elas terminam por ser propagadoras e “educadores”, aproximando pais e familiares mais velhos dessas novas tecnologias, como nos círculos de imigrantes em relação ao idioma.

3 - Comunidades territoriais e Virtuais criam um ambiente favorável - O processo de construção coletiva do conhecimento já foi ressaltado por Vygotsky (1987) na educação, descrevendo, nas interações de um grupo, como se desenvolve um processo de conhecimento coletivo no qual as diferentes experiências criam um rico material de aprendizado. Segundo ele é mais fácil para o estudante “entender” determinada questão quando ela é apresentada por um igual, por alguém que se situa em uma situação de proximidade e que tem experiências similares às suas. Neste sentido é que apontamos a importância de políticas do tipo dos Tele-centros que criam em seu entorno “comunidades territoriais”, em geral agrupamentos de jovens associados ao cotidiano do lugar, que favorecem a colaboração e o aprendizado coletivo. Se isto ocorre em qualquer grupo, mesmo que isolado e limitado, quando temos pessoas e grupos associados em rede isto se potencializa. É o que vemos também nas comunidades virtuais que se transformam em verdadeiros espaços educativos apoiados na experiência coletiva, onde os diferentes membros do grupo, mesmo que não se expressem, acompanham o processo de amadurecimento das idéias e as experiências trabalhadas. Além do mais as comunidades mais desenvolvidas se dotam de verdadeira memória coletiva, com repositórios de texto e instrumentos que automatizam as atividades ampliando sua eficiência e reduzindo os esforços que precisam ser aplicados para sua utilização.

Trabalhar a partir de grupos mais sensíveis – Uma das características dos sistemas complexos é que o processo de irradiação de práticas e hábitos, em seu interior, se desenvolve em progressão geométrica. Na Internet esses processos assumem o que poderíamos chamar de “caráter virótico”. Iniciativas localizadas que se mostram vitoriosas tendem a servir de exemplo propagados extensamente em razão da rapidez e facilidade de comunicação. Uma estratégia que se mostra eficiente, a partir destas características é a de procurar aqueles elementos mais sensíveis, intervir e dar-lhes suporte para que desenvolvam suas experiências e, ao mesmo tempo, contribuir para sua irradiação. Esta estratégia se mostra ainda mais eficiente quando ocorre no interior de redes e organizações pré-existentes, como organizações de massa, organismos de cultura (rede escolar, Centros Culturais, Bibliotecas, etc.) e em Organizações da Sociedade Civil. A aglutinação de pequenos grupos “digitais” no interior dessas organizações e de seu entorno político, podem ser detonador de amplos processos de inclusão de parcelas mais amplas no interior das organizações de massa e da população.

Quando apontamos estes rudimentos de estratégia não visamos responder a imensidão de tarefas e problemas que temos pela frente para desenvolver um processo de inclusão digital à altura do necessário. Mas que talvez sirvam para ampliar a discussão da questão da Inclusão Digital para mais além das iniciativas localizadas e do acesso físico e econômico às novas tecnologias e contribuir para que pensemos em estratégias vinculadas às suas características particulares.



Bibliografia

BAZIN, Patrick. Bibliothèques Publiques et Revolution Numérique. Disponível em: http://www.iplb.pt/pls/diplb/html_utils.get_file?xcode=3174708&xcolumnnam e =content&xtablename=cm_document. Acesso em 10 de janeiro de 2005.

CALLIGARIS, Contardo. Tocando o Futuro: `Screenagers' encaram o caos. Folha de São Paulo, 6 de outubro de 1996.

LÉVY, Pierre. As tecnologias de inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993. 208 p]

LUCENA, C.; FUKS, H., SANTOS, Nilton. Professores e Aprendizes na Web: a educação na erada internet. Rio de Janeiro: Clube do futuro, 2000.

MATURANA H. e VARELA F. El Árbol del Conocimiento. Santiago de Chile: Programa de Comunicación Transcultural/OEA, 1984.

MORIN, E. Epistemologia da Complexidade. In: Dora Fried Schnitman (org.) Novos Paradigmas, Cultura e Subjetividade. Porto Alegre: Ed. Artes Médicas Sul LTDA, 1994. p.274-289.

NAVARRO, Pablo. Información, comunicación, conocimiento y agencia en la era de la socialidad artificial, in Mas allá de la modernidad? Madrid: CIS Cetro de Investigaciones Sociológicas, 2002.

RUSHKOFF, Douglas. Um jogo chamado futuro: como a cultura dos garotos pode nos ensinar a sobreviver na Era do Caos. Rio de Janeiro: Editora Revan, 1997. 260 pp.

SANTOS, Nilton. E também lhes ensine a ler: A experiência da Cruzada Nacional de Alfabetização da Nicarágua. Rio de Janeiro: Ayuri Editorial, 1987.

SANTOS, Nilton. A Informação e o Paradigma Holográfico: a Utopia de Vannevar Bush. Revista de Ciência da Informação. V. 3. n. 6, dezembro de 2002. Disponível em http://www.dgz.org.br/dez02/Art_06.htm. Acesso em 10 de janeiro de 2005.

TORLÀ, Carles Bellver, Leer y escribir después de los libros (1996). Disponível em: http://nti.uji.es/docs/nti/net/despues/index.html. Acesso em 29 de novembro de 2004.

Vygotsky, L.S. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes Editora. 1987.


1 Pelas características do artigo trataremos aqui as políticas voltadas ao acesso relativas aos usuários. Evidentemente que existem discussões mais gerais ligadas a Propriedade industrial, infra-estrutura e governo da Internet, entre outras, primordiais para a “Inclusão Digital” já que elas criam a bases para a expansão de equipamentos e sistema. Temos aqui políticas muito interessantes como a experiência de acesso via rádio ligando comunidades isoladas do norte do país à Internet que, entre outras.

2 Computadores e acesso à Internet subsidiados e financiados pelo governo para que cheguem a grandes parcelas da população.

3“A revolução informacional seria em realidade muito pouco se não implicasse em si mesmo, por um lado em uma revolução comunicativa - como em geral é assumida -; mas também, por outro, por uma radical transformação na cognição social e na própria estrutura da agencia que é própria de nossa espécie” (Navarro, 2002).

4 Levy ressalta o fato de se tratarem de “tecnologias de inteligência” (Levy, 1993). Navarro fala das características “originárias” da Internet, como tecnologia que vai além dos objetivos que se propunha:

A Internet – assim como a escrita – foi e segue sendo o que poderíamos chamar de uma invenção tecnológica originaria: um artefato que, em lugar de ser uma resposta mais o menos previsível a uma demanda social preexistente, gera um espaço de possibilidades inteiramente novo, no qual devem recriar-se -mais que traduzir-se-as demandas sociais. O telefone e, em outro terreno, a aspirina, são exemplos de invenções tecnológicas não originárias, mas subsidiárias, no sentido de que se limitam a potenciar a satisfação de demandas sociais preexistentes. As invenções originárias, pelo contrário, se bem podem ter seu ponto de partida em propósitos concretos de alguns indivíduos e grupos, tendem a se desvincular rapidamente destes, e impor sua própria dinâmica expansiva, forçando uma renovação profunda na própria estrutura das demandas sociais” (Navarro, 2002).



5 href="/~cbellver/"MACROBUTTON, fala que os pensamentos "estão escritos deste modo (seqüencial e com um fio condutor) e é assim que se compreende o que dizem. Se os lemos de outra maneira, por exemplo saltando de um fragmento a outro, para frente e para trás, o mais provável é que captemos somente parte do sentido e, no melhor dos casos, apenas sob um determinado ponto de vista. No entanto, a leitura fragmentária, inclusive aleatória, é uma prática corrente não só do leitor acidental, mas também e sobretudo do ‘connaisseur’ que já sabe de antemão o que busca no texto. Os avanços sucessivos da tecnologia do livro, por exemplo, têm como objetivo possibilitar ao leitor ir diretamente aonde quer, ao capítulo ou à passagem do texto que fala do tema que lhe interessa, ou a outros textos vinculados com aquele. São modos de leitura habituais e muitas vezes indispensáveis, ainda que rudimentares. Uma referência a outro artigo em uma página de uma enciclopédia nos exige voltar a buscar, talvez, em outro volume. Do mesmo modo, uma nota de pé de página nos obrigará a voltar à biblioteca ou à livraria, e pode ser que tenhamos que esperar dias ou meses para receber o outro texto (Torlá, 2004)”.

6 Não é esta a natureza do processo industrial?

7 Limitadas quanto ao volume e velocidade de emissão, transmissão e assimilação pelas características das tecnologias utilizadas.

8 Alguns já devem estar pensando: mais um utópico otimista da Internet. Na realidade não estamos manifestando otimismo pelo que está por vir. Estamos falando das características de um sistema complexo que é o tipo de modelo que pode nos permitir entender o mundo em que vivemos hoje. Muitas das teorias do “Grande Irmão” que vem uma sociedade completamente controlada por algumas pessoas ou pequenos grupos projetam no futuro as relações que se estabelecem no passado. Ocorre que se em um sistema simples, com carência de informação, é possível que estas relações hierárquicas mantenham a estabilidade do sistema (ainda que para o “mal”), nos sistemas complexos, no entanto, isto é inviável visto a complexidade dos interesses presentes. Qualquer agente que seja capaz de impor seus interesses e monopólio pelos clássicos artifícios (poder econômico, político ou militar), rapidamente se torna em um elemento de distúrbio do sistema, entrando em contradição e provocando a reação dos outros agentes. Este processo, em uma situação de grande circulação de informação (outra característica dos sistemas complexos) faz com que se dissipe esta ação por mais que pareça, num primeiro momento, que ela conseguiria impor sua vontade.

Quando falei que isto não significa otimismo foi porque se por um lado as dinâmicas do sistema podem ser vistas como “democráticas”, o que nos deixaria otimista, por outro as tentativas de controle, mesmo que não consigam se impor, podem provocar grandes destruições...




9 Esta hipótese foi apresentada por Douglas Rushkoff (1997) no livro "Playing the Future":

E se nossas indignações não passam de lamentos de um mundo que já era? Os adolescentes nos parecem sem rumo? Mas o mundo não parece também sem rumo? Não será o caso de pensar que suas condutas estão inventando modos possíveis de viver neste mundo sem rumo?". Ruhkoff (...) "compara os comportamentos não-lineares dos adolescentes com o surgimento de modelos matemáticos não-lineares (os fractais) para descrever realidades caóticas e nelas encontrar recorrências. (...) O surfe, primeiro exemplo de Rushkoff, é de fato um esporte para o qual é vital a capacidade de entender e antever este elemento tão complexo e caótico que é uma onda. Do mesmo jeito, o skateboard verdadeiro, de rua, é um exercício de conquista do terreno urbano que resiste à linearidade dos percursos. Idem para o snowboard, que não consiste, à diferença do esqui, em traçar trajetórias elegantes na neve, mas em deixar de uma certa forma o elemento neve decidir as evoluções. Mais eloqüente ainda: a nova geração, treinada na leitura rapidez da linguagem icônica e reduzida dos quadrinhos, talvez tenha elaborado, ou darwinianamente produzido, uma capacidade de leitura das imagens muito mais rápida do que a nossa. Por isso, ela não se satisfaria com a contemplação passiva de um programa de televisão, preferindo o ritmo da MTV ou então surfando na massa de informação proposta pela TV, de imagem a imagem. Ela não é pouco atenta ou incapaz de concentração, mas possuiria um tipo próprio de concentração, que corresponde adequadamente à circulação de informação de nossos tempos. Enfim, a Internet (...) é de fato o lugar virtual aonde aos poucos vem se reconstituindo uma comunidade perdida e a globalização não é só um projeto econômico multinacional. (...) Por isso mesmo, Rushkoff escolheu chamar os adolescentes (teenagers) de "screenagers'' (de "screen", tela): os jovens da época da tela (da TV e do computador)" (Calligaris, 1996).




Nilton Bahlis dos Santos – Pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Comunicação e Saúde do Cict-Fiocruz.






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