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"Chique-chique é pau de espinho,

Umburana é pau de abeia,

Gravata de boi é canga,

Paletó de negro e pci . a. 11

Também se diz em Pernambuco, por debique ao preto:

"Negro de luva é sinal de chuva."

Pereira da Costa já registrara em Pernambuco:11

"Bacalhau é comer de negro

Negro é conter de onça."

E o Professor Artur Ramos colheu na Bahia:9

"Negro nagô quando morre

Vai na tumba de bangüê."

0 leitor, se já tem mais de cinqüenta anos, lembra-se de que,

no seu tempo de menino, nas zonas brasileiras de localização

mais espessa de população negra, fazia juntar gente e provocava

pateada de muleque a preta que atravessasse a rua de chapéu de

senhora branca na cabeça-aqueles chapéus de senhora cheios

de flores, de fitas, de plumas que se usavam há quarenta anos.

E recoidemos mais uma vez que chapéu-de-sol, a negra ou quase

negra só podia gozar dele e de sua pompa, pelo camàval: ch~péu-

-de-sol grande, vasto, mais bonito que qualquer guarda-chuva

burguês. 0 chapéu-de-sol vermelho e às vezes com franjas de ouro

das rainhas de maracatu.

Outros traços e usos tornaram-se peculiares-já o destacamos

noutra passagem deste estudo-ao preto, ligados ao seu físico, e,

or essa ligação, ridicularizados pelo mulato e não apenas pelo

ranco pobre: o palito de dente enfiado no pixaim, por exem-

plo; o vício de mascar fumo em contraste com o aristocrático

dos brancos, de tomar rapé. Nem todos os vícios dos negros

foram adotados pelos mulatos e pelos brancos pobres como o da

maconha, Vícios de indivíduos ou subgiupos sem desejo ou ânsia

de ascensão social. Conformados com o status baixo.

já contra o mulato, não: o folclore não acusa o mesmo des-

prezo; nem ridiculariza do mesmo modo suas afirmações de as-

censão ou vitória social. lleferímo-nos, é evidente, ao mulato

mais claro: a situação do mais escuro, quando a seu favor não

#

---- .- %L.Lr-



intervenham motivos especialíssimos, é quase igual à do negro.

E é certo que contra todo mulato-mesmo claro-repontam do

folclore insinuações de que é falso, inconstante, leviano. 0 mu-

lato é aí objeto tanto do despeito do negro e do caboclo como

de sentimentos de rivalidade do branco, tocado pelo triunfador

ou pelo arrivista em privilégios antes de casta ou de classe do

que de raça.

Nos antigos álbuns de família do tempo do Império, não é

raro deparar a gente com essas figuras de triunfadores: às vezes

mulato claro, de sobrecasaca, anel grande e vistoso no dedo, cor-

rente de ouro, cartola ou guarda-sol de lado-todas as insígnias

de aristocrata branco; ou então, alguma mulatona de vestido de

seda preta, a saia cheia de refolhos, o cabelo ajeitado em tufos

um tanto extra-europeus, muita jóia, o ar perfeito da grande se-

nhora. 0 Conde de Gobineau escreveu ter visto entre as damas

de honra da Imperatriz três mulatas evidentes, citando uma delas

pelo nome: Dona Josefina da Fonseca Costa. Aliás, exagerando

um tanto, escreveu o arianista francês que falar de brasileiro

era o mesmo que falar de homem de cor. Raríssimas as exceções.

0 sangue negro ou índio corria pelas melhores famílias. 0 Mi-

nistro dos Estran

,giros do seu tempo de representante diplo-

i

mático no Rio a irma Cobineau que era mulato: o Barão de



Cotegipe. Mulatos, alguns senadores. Nas famílias mais ilustres

se encontravam tipos amulatados. Das tais damas de honra mu-

latas, uma era "marron", outra "chocolat clair", a terceira "vio-

letW.10 Eminente historiador, já falecido, informou-nos, a este

respeito, ter encontrado na França, entre papeis intimos do Im-

erador Dom Pedro II, uma lista de mulatos ilustres, trabalho

o próprio punho de Dom Pedro, que talvez tivesse servido a

Gobineau para sua generalização.

Numa época como foi o século XIX, entre nós, de grande mor-

talidade não só de crianças como de senhoras, e em que só o

marido vivia, de ordinário, patriarcalmente, até idade provecta,

de ois de ter casado sucessivamente com três, quatro mulheres

e Se cada uma ter tido cinco, seis, oito filhos; numa época como

foi entre nós o século XIX, não deviam ser raros os casos de irmãos

por parte de pai que fossem, uns brancos, outros negróides, outros

acaboclados. Sob o mesmo nome patriarcal de família, os três

sangues. Brancos puros com irmão ou irmã mulata. Indivíduos

louros, ruivos até, com irmão ou irmã de cabelo encarapinhado

e beiços grossos. Esses casos de três mulheres ara um marido

tornam difíceis generalizações sobre certas faMias. Vê-se como

era fácil, debaixo do mesmo teto de casa-grande ou de sobrado,

ou do mesmo nome de família-Cavalcanti, Argolo, Albuquerque,

Breves, Wanderley-liaver irmãos diversos na raça, na cor, nos

traços, na qualidade do cabelo, no próprio teor de sangue.

#

Resultavam, na verdade, desse fato, ou da circunstância de



ser mulata a mãe ou a avó da casa, situações muitas vezes dra

máticas, de que vamos encontrar o reflexo em alguns romances

e contos brasileiros. Indivíduos alourados evitando que as visitas

lhes vissem a avó ou a mãe, mulata vasta e culatrona. Outros

escondendo o irmão ou a irmã escura, o "tira-teima" da família,

o tal ou a tal em quem se revelassem com toda a nitidez de

traços, a cor ou a origem menos nobre ou menos ariana de todos.

Ainda outros, ostentando com a ênfase de brancos-novos-espécie

de cristãos-novos da cor ortodoxa e socialmente dominante-não

so as Jolas, o chapeu-de-sol, as polainas, a bengala, o dente de

ouro, o anel de diamantes, outrora proibidos por lei ou pelo

costume, aos pretos e mulatos escuros, como idéias e escrúpulos

de branquidade exaferadamente arianos. Isto, os mais sofisti

cados; os1, es fingindo não tolerar catinga de negro;

simulando horror físico aos pretos e procurando requintar-se no

uso daqueles acessórios de toílette que o negro é, pela sua con

dição física, incapaz de usar sem ridículo ou incômodo evidente:

o pince-nez, por exemplo. E certas formas de penteado e de barba.

Referimo-nos ao arrivismo de brancos-novos. Só, ou associado

a outras formas de arrivismo-a de novo-culto, a de novo-poderoso,

a de novo-rico, e, ao nosso ver, igualmente social na sua origem

e nos seus motivos-encontramo-lo em alguns dos nossos mulatos

mais notáveis que, pela ascensão econômica ou intelectual, torna-

ram-se oficialmente brancos. Mas não se encontra nem sombra dele

em Machado de Assis, por exemplo: a sobriedade, o equilíbrio, a

reticência desse mulato pálido, alcunhado de "mulato inglês", já

se tornaram clássicos. Nem no Barão de Cotegipe-tão fino, tão

malicioso, tão sutil, incapaz do menor gesto ou sinal de arrivismo.

Nem em Gonçalves Dias, Juliano Moreira, Domício da Gama,

Dom Silvério Gomes Pimenta. Nem mesmo nesse outro bispo,

mulatão gordo e cor-de-rosa, doido por feijoada e por abacaxi,

ue, menino ainda conhecemos quando ele, no fim da vida, ro-

ava de carro pelas ruas do Recife: Dom Luís Raimundo da

Silva Brito. Entretanto o arrivismo de mulato, com todo o seu

"complexo de inferioridade", ligado ao arrivismo de novo-culto,

esplende de modo tão forte que dói na vista, na grande figura

de Tobías Barreto: mulato quase de genio que para compensar-se

de sua condição de negróide em face de brasileiros, portugueses,

franceses ou afrancesados, requintou-se no germanismo, no ale-

manismo, no culto de uma ciência de brancos-os alemães-mais

brancos que os franceses. Em Nilo Peçanha, porém, o arrivismo

de novo-poderoso deixou-se adoçar por uma simpatia que é um

#

~~.At


dos- melhores caraterísticos do mulato brasileiro, quando )'à triun-

fante ou a caminho certo do triunfo. o caso, também, e Fran-

cisco Glycerio.

A simpatia à brasileira-o homem simpático de que tanto se

fala entre nós, o homem "feio, sim, mas simpático" e até "ruim

ou safado, é verdade, mas muito simpático"; o "homern cordial"

a olue se referem os Srs. Ribeiro Couto e Sérgio Buarque de

H anda"-essa simpatia e essa cordialidade, transbordam prin-

cipalmente do mulato. Não tanto do retraído e pálido como do

cor-de-rosa, do marrom, do alaranjado. Ninguém como eles é

tão amável; nem tem um riso tão bom; uma maneira mais cordial

de oferecer ao estranho a clássica xicrinha de café; a casa; os

préstimos. Nem modo mais carinhoso de abraçar e de transfor-

mar esse rito como já dissemos orientalmente apolíneo de ami-

zade entre homens em expansão carateristicamente brasileira, dio-

nisiacamente mulata, de cordialidade. 0 próprio Conde de Go-

bineau ue todo o tempo se sentiu contrafeito ou mal entre os

súditos S Pedro II, vendo em todos uns decadentes por efeito

da misci enação, reconheceu, no brasileiro, o supremo homem

cordial: 'três poli, três aecueillant, três aimable . Evidentemente,

o brasileiro12 que tem sua pinta de sangue africano ou alguma

coisa de africano na formação de sua pessoa; não o branco

ou o "europeu" puro, às vezes cheio de reservas; nem o caboclo,

de ordinário, desconfiado e que ri pouco.

Essa simpatia do brasileiro-evidentemente maior no mulato

"em quem a linfa ariana" --- escreve o Professor Gilberto Amado-

'.não dissolveu ainda a abundância animal do temperamento ne-

gro"-não nos parece ter origem principalmente étnica." Não nos

parece que se derive da pura "alegria carnal das primeiras afri-

canas que riam com os seus belos dentes e se espanejavam con-

tentes na doçura das novas senzalas onde os senhores iam pro-

curá-las com o seu

amor". "0 riso abundante , que o Professor

Amado salienta no mulato brasileiro, cremos que é antes um

desenvolvimento social; e estamos de inteiro acordo com o emi-

nente ensaísta quando escreve dos mulatos risonhos: 11 o que lhes

resta do hábito de servir, adquirido na longa passividade da

~scravidão, dá-lhes um caráter prestativo e obsequioso", certa

mole doçura que opõem aos obstáculos". Naquele "riso abun-

dante" haverá extroversão africana; talvez maior plasticidade de

músculos da face do que no branco. Mas o que ele exprime pa-

rece que é principalmente um desenvolvimento ou uma especia-

lização social. Terá se desenvolvido principalmente-como já nos

aventuramos a sugerir-dentro das condições de ascensão social

do mulato: condições de ascensão através da vida livre e não

apenas nas senzalas e nos haréns dos engenhos; mas tendo por

pontos de partida essas senzalas e esses haréns.

#

0 mulato formado, em competição com o advogado branco,



com o médico, com o político, procurou vencer o competidor,

agradando, mais do que eles, aos clientes, ao público, ao eleito-

rado, ao "Povo"; e em seu auxílio moveram-se, sem dúvida mais

facilmente do que no branco, os músculos do rosto negróide.

Seu riso foi não só um dos elementos, como um dos instrumentos

mais poderosos de ascensão ~rofissional, política, econômica; uma

das eyressoes mais carateristicas de sua lasticidade, na tran-

c

sição o estado servil para o de mando ou %omínio ou, pelo me-



nos, de igualdade com o dominador branco, outrora sozinho, único.

Na passagem não só de uma raça para a outra como de uma

classe para outra.

Alguns deles-mulatos triunfantes-no meado do século XIX,

já se sentiam mais "celtas" ou mais europeus na aparéncia-e não

apenas na cultura de bacharéis ou doutores-do que brancos há

longo tempo fixados no Brasil. A 19 de fevereiro de 1859 co-

mentava um colaborador do Diário de Pernambuco, escondido

~ob a inicial W., o fato de haver publicado 0 Liberal Pernambu-

cano, de 6 de setembro de 1856, este trecho que W. considerava

.1 pedacinho d'ouro": "[ .... 1 Temos visto netos de Africanos, cru-

zados com Europeus, tão claros e com o oval da face tão per-

feito como os iáviduos do puro tipo céltico. Ao contrario, aque-

les cujas famílias demoram no Brasil de mais longa data, vão

tomando mais pronunciadamente o tipo colonial, vão perdendo

o oval da face (ficando assim com um queijo do sertão) como

acontece especialmente para o Norte do Imperio e vão tomando

· tipo trigueiro."

Interpretava o colaborador do Diário que, assim se expressando,

· redator-chefe d0 Liberal-mestiço ilustre-pretendia provar que

era "branco e não mestiço". E procurando atingir em sua con-

dição de mestiços os homens d0 Liberal chamava-os W. a todos,

grosseiramente, "miseraveis fundibularios desse novo Catucá".

Simplismo ou má-fé de W. 0 que 0 Liberal Pernambucano

desinteressadamente ou pro domo sua procurava salientar era,

ao nosso ver, a ação do meio cultural sobre o indivíduo: sobre

o físico do mestiço que, indeciso, às vezes, entre rigens contra-

ditórias, pendia ? ara a origem socialmente nobre ~ando a favor

o

dela agiam influencias sociais e de cultura. Cuida os com a pele



e com o cabelo que acentuavam aquela origem. Alimentação que,

aceitas as conclusões das famosas pes uisas de Boas, influiria,

com outras forças do ambiente, s, lorma de cabeça e o oval

da face de adventícios, desprestigiando a suposta fixidez abso-

luta de tais caraterísticos de raça.: modos de.andar, de falar, de

1 1 1


I

#

gesticular, de rir, antes de "celta" que de "africano". Ou "ceita-



mente" africanos.

Ao mesmo tempo que fácil no risoum riso, não já servil, como

o do preto, mas quando muito, obsequioso e, sobretudo, criador

de intimidade-tomou-se o mulato brasileiro, quando extrover-

tido, como Nilo Peçanha, transbordante no uso do diminutivo

-outro criador de intimidade. 0 "desejo de estabelecer intimi-

dade", que o ensaísta Sérgio Buarque de Holanda considera tão

caraterístico do brasileiro, e ao qual associa aquele endor, tão

nosso, para o emprego dos diminutivos-que serve, ZZI ele, para

"familiarizar-nos com os objetos".14

Podemos acrescentar que serve principalmente para familiari-

zar-nos com as pessoas-principalmente com as pessoas socialmente

mais importantes: "sinhozinho", "doutorzinho", "capitãozinho",'

11 padrinho", "fradinho", "ioiozinho", "seu Pedrinho", "Zezinho",

"Machadinho", "Sousinha", "Goizinho", "Manezinho", "o Peque-

nininho", "o Velhinho", "o GordinW, "o Amarelinho", "o Bran-

quinho". E esse desejo de intimidade com as pessoas nos parece

vir, não só de condições comuns a todo povo ainda novo, para

quem o contato humano tende a reduzir-se à maior pureza de

expressão, como, particularmente, de condições peculiares ao pe-

ríodo de rápida ascensão de um grupo numeroso, da população

-o grupo mulato-ansioso de encurtar, elos meios mais doces,

a distância social entre ele e o grupo Aminante.

No uso brasileiro de diminutivo, uso um tanto dengoso, nin-

uem excede ao mulato. Ele foi pelo menos quem deu mais

orça e nitidez a esse nosso pendor; quem mais o enriqueceu de

tendências e de significados sociais pa rticularm ente brasileiros.

Para os seus interesses, para as suas dificuldades de indivíduo em

transição de uma classe para outra, quase de uma raça para outra,

o diminutivo, adoçando as palavras, representava a maneira de

ser ainda respeitoso, sendo já íntimo, dos antigos senhores e

também dos assuntos, outrora distantes e nos quais só os brancos

tocavam.

Essas alidades e esses recursos plásticos de mulato em ascen-

são parat`anco, e de filho ou neto de escravo, em ascensão para

senhor, encamou-as Nilo Peçanha do modo mais expressivo. Quase

ninguém se lembra de o ter visto senão sorrindo ou então rindo,

os dentes cordialmente de fora. E sua conversa dizem que era

das que logo estabelecem intimidade entre as pessoas e em tomo

dos assuntos, pelo uso exuberantemente brasileiro de diminutivos.

No que, aliás, se requintava-por mulatismo moral, é claro-o seu

antecessor no Itamarat; o teuto-catarinense Lauro INItiller. Filho

doutor e militar de imigrante alemão com uma distància social

a vencer entre ele e o grupo politicamente dominante, semelhante

à distância social , entre o bacharel mulato e o branco.

Essa exuberância de diminutivos, indo até à denguice, no trato

social como na literatura, em muitos casos se apresenta ligada,

no mulato em ascensão, a extremos no sentido oposto, que vem

#

a ser o uso imoderado de termos difíceis, de palavras solenes,



de expressões de alta cerimônia, o Vossa Excelência pra cá, Vossa

Excelência pra lá, que Sylvio Romero já observava em alguns

mulatos do seu tempo. É talvez a expressão mais comum de arri-

vismo não só intelectual como social, no mulato. Expressão, po-

rém, de cunho social, e não reveladora, como pretendem inter-

pretar alguns , de incapacidade de assimilação intelectual do mes-

tiço, sempre ~;ais próximo da raça negra ou parda, do que da

branca. Também a surpreendemos no adolescente, no seu pe-

ríodo de arrivismo intelectual e social; no meninote que aos pri-

meiros sinais de homem, aos primeiros estudos de curso superior,

dá para falar difícil e solene ao mesmo tempo que-e em contra-

dição com esse pendor-para empregar expressões de intimidade

com os adultos. Arrivismo ue se observa não só no adolescente

sernibacharel ou no bacharelando branco como na mulher bacha-

rela. Não há que estranhá-lo no bacharel mulato.

A denguice do mulato, é certo que vai às vezes ao extremo da

molície-certas ternuras de moça, certos modos doces, gestos qua-

se de mulher agradando homem, em torno do branco socialmente

dominante. Alguma coisa também do adolescente diante do ho-

mem sexual e socialmente maduro, o homem completo e triun-

fante que ele, adolescente, no íntimo quer exceder; que imita,

exagerando-lhe os caraterísticos de adulto-a voz grossa, a força,

a superioridade intelectual e física; e junto a quem se extrema

em afrados e festas, em desejos de intimidade. Socialmente in-

x

X

corrip eto, o mulato procura completar-SC por esse esforço doce,



oleoso, um tanto feminino. Até que atingida a madureza social,

pelo menos nas suas qualidades e condições exteriores, ele se

torna muitas vezes o arrivista, o rastaqüera, o novo-culto, extre-

mando-se alguns naquela "hiperestesia do arrivismo" a que se

refere um publicista hispano-americano.

Mas não é daí-desse arrivismo a ue seria difícil dar inter-

pretação biológica-que se pode concluir pela incapacidade do

mulato para estabilizar-se num tipo igual do branco, social e inte-

lectualmente completo. De capacidade intelectual, o mulato tem

dado, no Brasil como noutros países de miscigenação, quase tôdas

as evidências, chegando mesmo, com Machado de Assis e Cote-

gipe, ao mais alto "humour"-"humour" puro e não fingido-com

Auta de Sousa à mais elevada espiritualidade poética e com Lívio

#

01~to



de Castro à capacidade para a análise sociológica, depois dele

revelada por outros negióides de alta inteligência em nosso País.

Faltam-nos tests, segundo a técnica mais recente, que nos ha-

bilitem a falar sobre base mais segura e com referência, não já

a homens notáveis e sós, mas a grupos inteiros-grupos verda-

deiramente representativos-acerca das diferenças mentais que

os três grupos apresentem porventura entre nós. Remexendo-se

velhos relatórios de mestres dos primeiros tempos do Império-

alguns meticulosos, indicando com todo o cuidado o aproveita-

mento de alunos classificados pela cor: brancos, pardos e pretos,

um ou outro índio-encontram-se evidências, não de inferioridade

intelectual do mestiço-que seria tanto o mulato como o cafuzo

e o curiboca, mas principalmente o mulato-mas de sua aptidão

para os estudos. Dois desses relatórios, sobre grupos mais repre-

sentativos de pardos, comparados com brancos e pretos, publi-

caremos em volume de documentos correspondente a este ensaio,

por nos parecerem tais relatórios expressivos ou típicos da si-

tuação de aproveitamento escolar de Cardos e pretos com relação

a brancos, em área, também típica, de convivência patriarcal.

A mesma aptidão fora encontrada em meninos e adolescentes

de sangue afficano, como vimos, pelos mestres Beneditinos dos

tempos coloniais. E se essa aptidão revelava-se mais fraca no

preto, convém não nos esquecermos do mais fácil acesso dos

mulatos mais claros às situações e aos contatos sociais favoráveis

ao desenvolvimento da sua inteligência e à expansão de sua

personalidade.

Na resistência a doenças, no que essa resistência pode depender

da alimentação e das condições de vida, é que o mulato livre, mas

pobre, do tem 0 da escravidão, morador de casa de porta-e-

-janela de cidaXé no Brasil do século XIX, teria contra si desvan-

tagens, em comparação com o escravo preto ou ardo, melhor

alimentado e nutrido nas senzalas das casas-granNes e dos so-

brados. Na resistência a doenças e na longeVidade.

0 médico Luís Robalinbo Cavalcanti, assistente do Professor

Antônio Austregésilo, em estatística procedida no Hospital de

Psicopatas do Rio de janeiro, em 1.198 doentes, acima de cin-

qüenta anos, verificou maior longe-vidade nos brancos e nos pre-

tos do que nos pardos (mestiços de branco x negro, branco x

índio, índio x negro, ou do intercruzamento). Para explicar os

resultados da pesquisa, valeu-lhe em parte a sugestão do Pro-

fessor Roquette-Pinto: a desigualdade de garantias sociais de

longevidade entre mulatos e brancos brasileiros.- Mas entre mu-

latos e pretos? Talvez a melhor adaptação do negro ao meio

tropical. Não nos esquecarnos,iaior iniportância que

, poieni-por ri

se atribua a essa nicIlior adaptação-da difeiença de condições

6u,-~ ~A . DOS E IV, UCA'MBOS - 1" " OMO

#

~A,e



sociais, sob o regime patriarcal de escravidão, entre negros es-

cravos e grande número de pardos livres e desamparados. Dife-

rença cujos efeitos talvez repercutam ainda vantajosamente sobre

os negros de idades quase bíblicas que todos conhecemos. os

pretos velhos que ostentam setenta, oitenta e até noventa anos,

sobre pés ainda capazes de dançar seu batuque ou seu xangô.

Observa-se, entretanto, nas gerações mais novas de brasileiros

-gerações menos atingidas por aquela diferença de garantias

sociais-a ascensão do mulato não só mais claro como mais es-

curo, entre os atletas, os nadadores, os jogadores de foot-ball,




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