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desenvolvera-se, Ós vezes quase como outn> itccmt, . sit.an,r

rival do dominante, a miscige.naþão.

Aos brancos da terra, seguiam-se os rnulatos c musti,a. IþÀs-

tiþos Ós vezes quase brancos ou "sÙmibrancos" C'()I11(7 t.'r:rr:: s wi.,:;

chamados.

"A tercer.a classe dos habitantes do ^taranh:ir, r cla' 1lT,r o-

raþão n³sturada, proveniente ou cIe um I;arr,l:,crt rv ;rn r m ,;ra,

ou de um Europeu e uma india", notava Ã:av:sr. h a. i''rmt.,\'l:

"Os da primeira filiaþão se chamarn rnul,atos; rr; c.;,r .. "'mi..r fi-

liaþão são chamados mestiþos. io princilW u cla ccrrul.rst`, do

Sosnvos E MUc.u..rsos - 2.░ Tosso 633

Novo ?viundo, todas as cortes da Europa procuraram fazer uma

s¾ naþão entre os seus novos, e antigos vassallos, promovendo

os casamentos dos Europeus estabelecidos na America com os

naturaes do paiz. Estas allianþas se praticaram logo que o Ma-

ranhão principÝou a sahir do poder dos seus primeÝros habi-

tantes; porÚm talvez que a lassidão dos costumes, e ardencia do

clima fossem os motivos principaes que produziram esta classe

de habitantes, atÚ o ponto de a constituir uma parte consideravel

da sua populaþão. Os portuguezes, e os mesmos hespanhoes dis-

tinguem com differentes nomes todos os graos desta filiaþão, e

todas as variedades da especie desde o negro da Costa d'Africa,

transplantado para a America, e a cor bronzeada do Americano,

atÚ a alvura do Europeu."

E ostentando certa erudiþão, reparava o mesmo Gayoso: "Ro-

bertson, na sua historia da America, diz que na primeira geraþão,

os mestiþos, os mulatos, são reputados como indios, ou como

negros; na terceira-que a cor primitiva, e distinetiva do indio

fica extineta, e na quinta a cor do negro se desvaneceu de tal

sorte, que o nacional proveniente desta mistura, jß se não distingue

do Europeu, e participa de todos os privile ios deste. Ob.servo no

guia do commercio da America uma tabua a onde se acham mais

especÝficadas essas gradaþÓes.

TABUADA DAS ltTISTURAS

PARA FICAR BRANCO

1 branco com uma negrcc produz mulato

#

hfetnde branco, metade preto.



1 branco com uma mu ata produz puartão

Trez guarto.s branco, e um uarto negro.

1 branco com uma uartão pro uz out´´o

7/8 brnnco e 1/8 negro.

1 branco corn uma outona produz brnco

Inteiramente branco.

TABUADA DAS TISTURAS

PARA FICAR NEGRO

1 negro com uma branca produz rrwlnto

bietacle ncgro, e metade branco.

1 ne;ro corn unn rntilnta prodz quartão

3/4 negro, e 1/4 brnnco.

1 nero com uma gtcnrtão produz ot.itão

7/8 ncro, e IlS branco.

1 ne.,rn com 2mn.n oTtonn produz negro

Inleirarnente nc,gro."

fi34 (:m.ar:tzrc> I m:, .:.r:

A sistemßtica de Ilobertson, jnntm';I  i:lwose c>Iuscrrvaþ',es snbre

a situaþão brasileira, em par³cular, Iri.;þÀ;u!;ls em s. .i intimo

conhecimento do ilaranhÓo:

"As misturas cle llln mLllatn co·il mo:1 cí!!arta>À oul Iznl; outona,

prOdLlZlraO OlltrdS C'OI-('S, (lllt' S(' ',11):'i´,\:!!,.it';tÝ) (1(> I)I';LII;.'(/, 11L1 d0

negro, na prollorþo dsl pro~rnssÔr, arim:: Ia.<',ii.lr!..i. I'; 1'olntuclo

eStd CldSSC d8 h,ll)ltlltltt'S, Cilt.l (OI v t , ( y t 71!,t i) ll;Wit2l, a

qlle eXerClta t0d115 aS alrtE'S ttlÃ'(ll,IW "., tt f:7(I,l.. ,ts W u'tt'i;t(oeS

t

da sociedade cue rerluerrnl at'tm nl ! 1 ( 11!lÝ.' a;rl :;('nl! cl 1?,lbi-



tantes das classes sulacrÝoras c3csí1I';.'i³:.:: P 1 ,'.nl,.,; -sw in. ':';I,, nrLis

por vaidade do dluÀ or hreyuca. on t.,''wÀ:.. !a,r ,;In;' f, ;.:ntra."

Quanto aos negros cicnliav'mu t ct! af t I,w u v it.,!,it:l;ltes".

E quanto Ó "classe clos inclic,S" t),.I o ( vt.,.a t,t'a ul:fr', i'.!.i (IIIdIltO

as outras na sociedade do 11 ua, n ,c ;f>,t ' í,{"'r, n`!,1r(.'ewt.:Riva

da soeiedade ou da econc,nlal í,utri;:rc'..! liu r;!:.lil>; Ii;l:tf.v ':1;1 l3ra-

sil-cue ude.sse ser consictc t ol 1 c l,w , c;l, um n f 1 n 1 t

F''Ol t3'eZ GayOSO (IUtÀIIl tf'llt1111 (..ll :O.l³:r (,-1 I,. 1 7 tr;.,",lr uma

sistemßtica da misci~cllalþao nci liras;l I,:ltri,mc-':³ c ,`;'lrli!,.Uriarcal.

E tentou-a submc'tencio as catþorÝ>ri:lÀ .?, r;tc,m , :;h,-1-:I,.Is Ós cle

CldSSeS e SLlbCl.lSSf'S. ii0 (1l7e S(.'rlFt ;1C`WtW o,.io1',;tc¤o y':;!,rit, ;,tt,S c.le-

pois por Abreu e Linla rluþÀ rÀIt;r<`tocl;; m tir'.!l,!;.,ri:,l. u;:, l.'StIIIIO

sobre o I3rasil publicaclci rÀm 1S r.>, ,;rJ li'³ (I(` ): ll II , ! i' .'11'!t(1 sOl)

critÚrio duase marxistas: s:³irrlt;.;rlrl,:1 t;'; ., i: .. y ,  ,. .,.....,ili Ý`VlÚlS

1

"raÃaS" Oll "CIaSStS", f'SSalS `S;:i7-r tt t t ! 1 , 1111Ia



das outras. "A nossa polil.lla.:t:i .se (lm,cl,., r", l:ll t, . i tl ,. í)('S(,;1$

IlVreS e I?eSSOaS C'SC'rIt':1S lli.f' tl('(.'('.'t;i ?t;i:) "1)1-;'..';:t;;!tt t-;it7Clf.'

affinidade. Tc´davia feliz clo o³s < I t , í?:1:À1 li4´(À Ia;,c' lunno-

enea e e.ncontrasse concli'I;as cllÀ litli,a I,lofl'it;, ("'ml!:.!.oleÀ-.."

Em vez disso, Abreu e Lima r:orl;i(lr:m:; :l .wli;'.!isil!i;.!.1 ;;;, c{uatro

famllldS dlStlntdS e tti0 ()h(i>t;iS Ã' iillil)1'..':1i I;!,i;, u ". ?!It!'..lS (.'!'nI0

aS dlldS randeS UCCþ(1Os ft' , S;: tl; u li,.,'(Àa,, ,;;.:) t , liÀÀ'reS,

branCOS IIatOS e bttltlC'(1S allc)tl''Ý>´, St'tll ,-ml...,l ?i'., Ý!1'j!1>;, 17r1i- fle

tambÚm consideraclr.,s "F;lrnili;l" ciu "r;t<³, rm "I i,lsU" :'I Ii.l;vtcÀ. I-:r::tm

todos rivais uns dos cn.ltros a:I Iirull"r: n;, ,:;Ý :r,,,.; "!v,slic'c'f.vns

classes", escrevÝd Abrfru cÀ L.il;la i 1>;Ýir:;i ;i!) il;ul!n'o smu cols,lio.

Que os mulatos nãc> toler;.lsseÀrn, cln,m.iu livrc'À;, s:pr'ririri(l.ldes da

parte dos brancos, parc`cia jasto c1 :11r1.;, , 4,: 1, r c :lm llriln

OOmO OS br2ll7COS, IldSClClOS I¤O tllt`i;TlO W im tÀ' -;tt:'tlnl('lltfl Tl;ltrlRT'CAI

a favor dn ilaldac3e cle raþas c soll ru :;s.-...-`I illnr; c;,' rnt<os l,rc:-

prios paes". Dc modo c111e colnr, "Ii'lu,s ;, ) !I!. ,rraa; t,;.lr ;.' tinllam

os mesmos dircitos clr.m: os hratll.'1,;; f)S Il;as?r?.r, c!:II it;r, clo,e r1s

demaÝs brasileiros natf;s; I.rs nusmi,,s ,Imitr,s ,:tnr r" 11<'!;.lis hra-

sileiros livres.

Dd neaþão-Ãllle dll:I´ I11.111(:';1 ()I Slst,`il'I;,ltll';! Ill> li:';1`À,'i -(lf'SSC'S

direitoS tl I7ardos c)U Irf1ll7.lt(JS livri rr.....,yt,;r,y,, ,.,y 1",..s,) I;ItS,

Soaxnos E Mvcenssos - 2.░ Toaso H35

agitaþÓes de sentÝdo social, disfarþado Ós vezes em po´Ýtico. Tam-

bÚm aspectos mais ostensivos do que alguns consideram pato-

logia da mÝscigenaþão, dando ao diagn¾stico carßter nitidamente

biol¾gico, quando essa patologia parece ter resultado, princÝpal-

#

mente, de circunstÔncias sociais desfavorßveis, em numerosos



casos, ao desenvolvimento normal dos mulatos ou pardos.

Na Africa do Sul-ßrea que hoje se apresenta semelhante ao

Brasil jß mestÝþo e ainda patriarcal e etnicamente hierßrquico dos

sÚculos coloniais-os estudiosos da miscigenaþão vÛm reconhe-

cendo-como em comentßrio a um livro de Ray PhÝllips, o crÝtico

do jcurnal o f the Af rican Saciety-que os resultados da mÝscige-

naþão se apresentam desfavorßveis em conseq³Úncia de "causas

sociais"1 que teriam de ser reconhecidas, antes de podermos en-

carar o problema biol¾gico na sua pureza. O verdadeiro mal

estaria nas "illiczt connections" que eonstituem lß, eomo nos autros

paÝses de populaþão meio-sangue, a grande porcentagem das

uniÓes de brancos com negras. A união ilicita cria por si s¾ uma

situaþão de nÝtida inferioridade para o bastardo, inferiorzdade

ue se torna maior, tratando-se de bastardo mestiþo. Isto na

q rica, como nos Estados Unidos.

Tal o caso, tambÚm, dos eurasißticos-hÝbridos de europeus

com hindus, renegados por ingleses e hindus e que constituem

hoje uma das populaþÓes maÝs melanc¾licas do mundo. Um meio-

-termo doentio, menos entre duas raþas que entre duas civili-

zaþÓes hirtas. O caso Ú ·nico porque nenhuma das duas raþas

-nem a imperial nem a atÚ hß pouco sujeita ou dominada-e

nenhuma das duas cÝvÝlizaþÓes-nem mesmo a cristã, dos con-

quistadores, tão cheia de humildade e de doura na sua dou-

trina-se rebaixa para absorvÛ-los ou se contrai para tolerß-los.

Cada qual se conserva mais alta e mais rÝgida dÝante deles. E

o estigma que os marca Ú para uma, como para a outra civi-

lizaþÔo, o do coito danado que os trouxe ao mundo. O destino

das mulheres eurasißticas-este quase não se afasta do de pros-

titutas para os brancos. Os homens, por muito favor, vÚm che-

gando a funcionßrios p·blicos subalternos. Mas a populaþão Ýn-

teira Ú-ou tem sido por longo tempo-de ÝndivÝduos socialmente

doentes. Gente m¾rbÝda pela pressão das circunstÔncÝas sobre o

desenvolvimento dos indivÝduos. A "patologia da miscigenaþão"

se apresenta nesse grupo tristonho e sofredor de hÝbridos nos

seus traþos mais grossos e mais salientes. Talvez na sua expressão

nais dramßtica. Neles Ú ue melhor se sente e se vÚ o problema

sacial dos renegados ao qlado do biol¾gico, dos meio-sangues. O

nnlato norte-americano tem onde se acolher: a sombra cada dia

ma: poderosa da raþa "negra", da qual mais de um terþo sÔo

mesaþos. O eurasißtico não tem sombra nenhuma onde se refugiar

636 GrLflBRTO FfIEYRE

da claridade que o dia inteiro lhes denuncia a "origem infame".

A sombra da noite Ú a ·nica que lhe permite confraternizar com

os indivÝduos de raþa pura: mas s¾ nos reyueimes do gcrzo fÝsico.

Não Ú de estranhar num grupo de renegados desses, a infe-

' rioridade fÝsica-que faz deles uma populaþÓo tão fraca. 'Tão mo-

fina. Tão sensual-mesmo para o Oriente. O fato se observa nas

populaþÓes mestiþas em geral, ao que harece, por motivos prin-

cipalmente sociais.

Sem ser preciso negar-se ou descvnhecer-se a tendÛncia de

certas raþas para certos estados m¾rbidos-o urwk por exemplo-

que alguns associam de modo absoluto a grupos Útnicos, outros

a climas, precisamos de estar atentos Ós poderosas influÛncias

sociais que parecem favorecer o desenvolvirnento da tul>erculose

e de certas formas de doenþas mentais entre as populaþÓes mes-

tiþas. Sabe-se que o negro, em regra-pelo menos o norte-arne-

ricano, mais estudado que o de outras regiÓes-c menos predis-

posto que o branco a doenþas de espinha, Ó obesidacle, Ó surdc:z,

Ós doenþas dos olhos, das fossas nasais e da garanta, a uma

sÚrie de outros males. Menos suscetÝvel Ó febre tif¾ide, Ó malßria,

Ó bexiga, ao cÔncer. O mulato tambÚm apresenta rßrias dcasas

felizes predisposiþÓes do negro, mas se excede extraorclinaria-

mente ao branco nas estatÝsticas de tuberculose e de doenþas ve-

nÚreas. A tuberculose parece ser, não s¾ entre os mulatos norte-

-americanos como entre os mestiþos, em geral, o traþo mais comum

de fraqueza fÝsica. Davenport salienta que talvez nesse traþo per-

sista a falta de resistÛncia a doenþas de civilizados herclada de

uma raza primitiva, em contato com os portadores eurc;peus da

doenþa.

#

Mas alÚm dessa possÝvel persistÛncia, deve-se ter sempre em



vista o ambiente social-incluÝda a situaþão econ¶mica-do mu-

lato, do mesmo modo que a do negro, transplantado para as AmÚ-

ricas. Jß no caso do raquitismo-tão comum entre os negros das

cidades norte-americanas-o estudo do arnbiente socÝai do negro

urbano, nos Estados Unidos das sombras enormes que erwolvem

os cortiþos e "quadros" de Nova Iorque e de outras cidades du-

rante os dias de inverno, o pouco sol, o ar viciado, a alimE:ntaþão

deficiente, tudo agindo sobre a possÝvel suscetibilidade especial

do preto Ó doenþa, veio esclarecer a freq³Ûncia cla deformaþão

de corpo entre os meninos de cor. O maior inimio dos nenÛs,

seja qual for a sua cor, Ú a "pobreza", a yue o Professor Reuter

dß todo o relevo no seu estudo sobre a saude c)o negro e do

mulato nos Estados Unidos.3

As variaþÓes regionais de mortalidade por hrberci.Ilusf, nos

Estados Unidos parecem indicar a forþa com clue atnaIn subre

a doena as influÞncias de natureza social e d:e 1;7s<' ccan.;Inica:

SosHAnos E Mvce:zsos - 2.░ Tosso 837

a tuberculose, embora em declÝnio, ainda se apresenta preeminente-

mente urbana. Doenþa de cortiþo, de "quadro', de "slum". E quem

tiver visitado um dia os cortiþos negros ou os bairros pretos mais

miseIßveis de certas cidades norte-americanas-Waco, Texas, por

exemplo-não acharß exagero nenhum no quase lirismo com que

uma vez se referiu aos mucambos do Recife o General Clement

de Grandprey. E depois dele, o escritor Ribeiro Couto. Os 20.0Ë0

mucambos dos pretos, dos pardos, dos mulatos de Afogados, do

Pina, dÞ Santana de Dentro, do Oiteiro, de Motocolomb¾, que

são os mais tÝpicos do Brasil. Desses 20.000 mucambo os levan-

, tados no chão seco, na terra enxuta, não podem horrorizar a nin-

guÚm pelo fato de serem de palha. O sol entra por eles, como

um amigo rico e generoso da casa. Do ponto de vista da defesa

ou do resguardo do homem contra a tuberculose, a ,palha Ú exce-

lente material de construþão pobre para os tr¾picos; de habitaþão

para grande parte das populaþÓes proletßrias.

I Hß-como recordamos em capÝtulo anterior-os mucambos cons-

truÝdos dentro da lama. Uns, mais felizes, trepados em pernas

í de pau sobre os alagadiþos e os mangues tÛm atÚ um ar doce de

alhoþas lacustres: guardam uma distÔncia higiÛnica do chão

umido ou da ßgua podre. Mas outros deixam-se ficar bem dentro

da podridão, os moradores numa intimidade doentia com a lama:

tais os mucambos de Joaneiro dentro da pr¾pria ßrea do Recife.

O problema Ú o ecol¾gico, de distribuiþão humana desigual, o

rico a estender-se pelo solo bom e seco, o pobre-ordinariamente

mestiþo, mulato ou negro-ensardinhado angustiosamente na lama.

As populaþÓÚs miserßveis em luta com a lama muitas vezes aca-

bam saneando o chão. Mas o chão enxuto e saneado Ú espaþo

aristocratizado: o mucambeiro Ú enxotado dele; e vÛm então ricos

que levantam casas de pedra-e-cal. Casas de eira e beira. Os mu-

cambos vão aparecer mais adiante, noutros trechos de lama, den-

tro doutros mangues. Uma reportagem em forma de romance

feta hß anos, no Recife, pelo Sr. Chagas Ribeiro revelou um caso

desses com luxo de pormenores.

i O mesmo se dß nos morros do Rio de Janeiro com as chamadas

favelas que sÔo como certos "ranchos" que conhecemos em 1939

, no Rio Grande do Sul e desde então estudados pelo Professor

Tales de Azevedo-conjuntos de casebres mais anti-higiÛnicos que

os mucambos das cidades do Norte. Casebres de tßbuas podres

e de folhas-de-flandres. Casebres quase tão abafadas, durante as

noites ·midas, como os "quadros" e "cortiþos" onde se apertam

quase sem ar e sem sol-esse ar e esse sol que são luxo fßcil dos

moradores de mucambos-outras camadas de populaþão pobre

das cidades brasileiras. Populaþão, em grande parte negra e mu-

lata. No Rio Grande do Sul, porÚm, menos negr¾ide que india-

GILHERTO FREYRE

n¾ide ou branc¾ide. O estado de extrema misÚria fÝsica de ga·-

chos moradores de "ranchos" equivalentes dos mucambos cre-

mos ter sido o prÝmeiro a salientar, depois de uma viagem (1939)

Óquela ßrea, durante a qual observamos ser mito ou lenda o re-

trato convencional do ga·cho como homem sempre forte, rosado

e sadio em contraste com o "amarelinho" do Norte.

#

Sendo a tuberculose como Ú, doenþa que se aproveita das con-



diþces precßrias de vida, inclusive, como salienta o mÚdico filvaro

de Faria, o "deficit no balanþo nutrÝtivo", não Ú de espantar

que a nossa populaþão mulata e negra, mal abngada e mal nu-

trida, ofereþa aos cemitÚrios tão grande massa de tuberculosos.

E, ainda, porque os pretos nÔo "tÛm a defesa especÝfica que os

brancos vÛm acumulando hß sÚculos de convfvio com doentes

da peste branca", sendo, ao contrßrio, "terreno ainda virgem"

para a infecþão, a tão falada suscetibilidade do negro e do mu-

Iato Ó tuberculose Ú quase um aspecto desrrezivel no confronto

da resistÛncia ou do vigor fÝsico dos branc‗s com os pretos, dos

brancos com os mulatos. A verdade Ú que trazido da ├frica para

o "ambiente diferente, tão cheio de agressores sociais e orgß-

nicos"' a que se refere o mÚdico Alvaro de Faria, o negro, no

Brasil, e o mulato mais escuro, tendo nestes quatro sÚculos "pro-

duzido mais do que consumido das riquezas sociais", se apresen-

tam, hoje, cheios não s¾ de possibilidades como de afirmaþÓes de

vigor ffsico e de capacidade intelectual.

Destaque-se, porÚm, ainda uma vez que essas afirmaþÓes e

possibilidades re·ne-as hoje, no Brasil, mais o mulato que o ne-

gro puro, hß quase meio sÚculo-o perÝodo de mais constante

ascensão do homem de cor entre n¾s-tão raro entre n¾s. Alißs

na pr¾pria Rep·blica norte-americana, os especialistas no estudo

do negro como o Professor M. J. Herskovits salientam o fato do

negro puro constituir provavelmente menos de um duarto da

massa de cor, os outros trÛs quartos sendo de mulatos. DaÝ, para

o Professor Herskovits, o erro do Professor Reuter que, preten-

dendo demonstrar a superioridade do mulato sobre o negro puro,

se esquece de que este quase não existe em n·mero que permita

o justo confronto.s

As mesmas influÛncias de ambiente social invocadas no caso

da tuberculose, da sua generalizaþão entre populaþÓes mestiþas,

devem ser tomadas em conta na interpretaþão das doenþas men-

tais entre pretos e mulatos. Ulisses Pernambucano de Melo em

Pernambuco, constatou em estatÝstica levantada entre os doen-

tes da Tamarineira que no grupo das psicoses t¾xicas e infecciosas

domina, entre os negros, o alcoolismo, que determina 11,81 dos

internamentos, enquanto os brancos e mestiþos doentes de alcoolis-

mo sÔo apenas 7,019.░ E o Professor Cunlia Lopes verificou no

Sosxanos E Mvcrsos - 2.░ Torso 639

Rio de Janeiro a "habitual alcoolizaþão das mulheres negras ou

sua pouca resistÛncia Ós bebidas alco¾licas", enquanto "o fen¾-

tipo mestiþo comeþa de divergir da raþa negra, visto que a mulher

mulata jß revela atenuado o referido fen¶meno em face do grande

t¾xico social". Nessa linha descendente de alcoolismo da mulher

preta-due Ú socialmente a mais degradada, a prostituta de beco,

a fÚmea .le soldado de policia ou de marinheiro bÚbado-para

a branca, que Ú a mulher socialmente mais fina, taIvez se reflita

a influÛncia do fator social, de modo mais poderoso que qualquer

outra. São tambÚm as mulheres de cor do Rio de Janeiro que

mais avultam no quadro da sÝfilis cerebral. Cunha Lopes verificou

ainda o excesso de negros entre os indivÝduos compreendidos

na idiotia e imbecilidade mental, concluindo dessa e doutras obser-

vaþÓes que, em face da psicopatoloia, o mestiþo,, o mulato bra-

sileiro, vem assimilando constantemente as qualidades do tipo

branco. O mesmo que se dß antropologiramente, segundo as indi-

caþ¶es das pesquisas do Professor Roquette-Pinto.

Divergirnos de L'lisses Pernambucano de Melo quando afirma

que as condiþÓes de vÝda dos negros não diferem, sob qualquer

outro ponto de vista, da dos brancos e mestiþos das classes po-

bres-a maicria dos doentes por ele examinados. Quer nos parecer

que mesmo entre as classes pobres atuam Ós vezes influÛncias

desfavorßveis aos negros-desfavorßveis ao seu sueesso ou triunfo

social e sentimental no amor, por exemplo. InfluÛncias que podem

muito bem intervir na sua sa·de mental e na sua normalidade

social de vida.

Ao Congresso Afro-BrasÝleiro do Recife, de 1934, dois velhos

folcloristas o alagoano Alfredo Brandão e o paraibano Rodrigues

de Carvalho apresentaram uma massa considerßvel de trovas,

glosas e ditados que acusam o desprezo ao preto retinto, mesmo

#

da parte dos seus iguais, ou quase iguais em candiþÓes cultural



ou economicamente rasteÝras de vida-mulatos, caboclos, cafuzos.

TambÚm Ú desprezado ou ridicularizado no folclore brasileiro 0

caboclo do mato ou da roþa pelo mulato da cidade que ostenta

sua maior proxÝmidade de sangue e de civilizaþão do branco-

inclusive o fato de calþar sapato:

"Mulato Ú f ilho de brunco

Branco Ú filho de rei

Caboclo eu lcÝ não sei

Por ser um filho do mato

Ele não calþa saputo

Não fala senão asnefra."T

Mas o negro Ú que Ú o mais duramente atingido pela sßtira,

na qual se exprÝme o desprezo social por ele, da parte dos mu-

e4O GILBERTO FREYRE

latos e dos brancos das classes pobres. Isto atravÚs de numerosos

ditados: "Negro quando não suja na entrada suja na saÝda."

"Negro de pÚ Ú um toco, deitado Ú um porco." "Negro s6 nasceu

para espoleta dos brancos." Ou nas cantorias de feira:

"Negro velho quando morre

Tem catinga de xezÚu,

Permita Nossa Senhora

Que negro nÔo vß ao cÚu."

E ainda;

"O branco come na sala

Caboclo no corredor

O mulato na cozÝnha

O negro rw cagador.

O branco bebe champagne

Caboclo vinho do Porto

Mulato bebe aguardente

E negro mijo de porco."

O negro Ú ridicularizado e desprezado não s¾ pelas suas dife-

renþas somßticas-a venta chata, o beiþo grosso, o cabelo pixaim,

a bunda grande, de alguns-e pelo seu "cheiro de xexÚu", suz

"catinga de sovaco", seu "budum" ou sua "inhaca", como por aces-

s¾rios e formas de cultura africana que, no BrasÝl, se conservaram

peculiares do preto e nÔo foram assimiladas pelos mestiþos nem

pelos brancos. O berimbau, por exemplo:

"Sua mãe Ú uma coruja

Que mora no oro de um pau

Seu pai um negro d'Angola

Tocador de berimbau."

TambÚm o preto Ú ridicularizado no folclore brasileiro e des-

prezado pelos seus iguais em condiþÓes sociais, pelo uso daqueles

artigos de vestußrio que tomaram entre n¾s-corno jß recordamos

em capÝtulo anterior-um sentido de quase caraterÝsticos de raþa

e prineipalmente de classe: o sapato, o chapÚu alto, o chapÚu

de mulher, o chapÚu-de-sol, as luvas, o anel com brilhante, a

bengala, a sobrecasaca e mesmo o palet¾. Nos tempos coloniais

jß vimos que foi a pr¾prÝa lei que chegou a proibir ao negro, o

uso de j¾ias de espada, de punhal. Em velha cantiga do Norte se

caþoa muÝto do "negro de chapÚu-de-sol". O maÝor absurdo: negro

SOBRADOS E IMUCAMBOS - 2.` Tomo

641


de chapéu-de-sol. E em livro recente, Suor, o escritor Jorge Ama-

do recolheu na Bahia esta trova bem caraterística:




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