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' ; "  ; Dißrvo do Maranhão de 26 de fevereiro de 1856, que tambÚm se

refere ß "exageraþão de idÚias romÔnticas atuadas por uma paixão

amorosa mal sucedida", como a causa da desgra.þa. O objeto da

paixão constava ao jornal que fora uma "beleza africana░.

A Úpoca que marca mais decisiva ou incisivamente a desinte-

graþão da ortodoxia patriarcal nas ßreas social e culturalmente

mais importantes do Brasil-a segunda metade do sÚculo XVIII

!I e a primeira do sÚculo XIX-foi, entre n¾s, de aparecimento de

idÚias romÔnticas" não s¾ a respeito das relaþÓes de amor ou

de sexo entre indivÝduos como no tocante Ós relaþÓes de subor-

dinaþão de filhos a pais, de s·ditos a reis, de cristãos aos bispos

ou padres da Igreja. E maÝs de uma vez umas relaþÓes foram per-

turbadas por outras, atravÚs de atitudes romÔnticas de indivÝduos

mais arrojados. TÝpico ou representativo pode ser considerado 0

caso de Silva Alvarenga: "alto, afamado, de cor parda", era filho

" de pequeno lavrador que vivia tambÚm de tocar rabeca e flauta

i . em festas de igreja e de famÝlia; e cuja habitaþão pÚrto de Vila

i ftica era a "casa de triste aparÛncia" a que se refere Moreira de

i Azevedo em uma de suas "cr¶nicas dos sÚculos XVIII e XIX".s5

Fez questão o pobre homem morador de "casa de triste apa-

rÛncia", de doutorar o filho de cor: de fazÛ-lo "vestir gabinardo

em Coimbra". O que fez que uns murmurassem na povoaþÔo:

Sosnos E MvcaMsos - 2.░ ToMo

"Mas não serß o orgulho que insufla o desejo que tem o Alva-

renga do -filho ser doutor, para desse modo elevß-lo acima das

outras pessoas do lugar?" E que outros dissessem: "E que tem

isso, quer dar ao filho a supremacia do saber que não ofende e

pode tornß-lo ·til a todos n¾s." Venceram estes porque o pa-

drinho rico do menino abriu subscriþão entre os amigos, assi-

nando ele a maior soma e levantando o bastante, em cruzados,

para a educaþão do mineirinho de cor no Rio de Janeiro e em

Coimbra.

No Rio de Janeiro, estavam então em modß os outeiros, prin-

cipalmente os das freiras do Convento de Ajuda na Úpoca de

Reis: ficavam elas por trßs das grades enquanto junto aos muros

do convento estudantes e poetas jß feitos improvisavam glosas

com os motes que as monjas Ihes davam. Foi nesses outeiros que

comeþou a destacar-se o talento poÚtico de Silva Alvarenga, ta-

lento acentuado por seu "vulto alto e corpulento" de mulato ou

pardo eugÛnico. Glosando um mote de freira romÔntica ( talvez

vÝtima de pai autoritßrio e recolhida ao convento por amor ou

paixão por esse mesmo pai julgada ultrajante para a famÝlia),

"Quem tem presa a liberdade

Não pode sentir prazer"

o estudante mulato de Minas teve este primeiro rompante peri-

gosamente romÔntico, do ponto de vista da ordem estabelecida,

que era antes a patriarcal q·e a monßrquica:

"Que para f eliz viver

Mui livre se deve ser."

Noutra reuniÔo, cercado por muitas moþas, Silva Alvarenga se

apaixonara por certa iaiß da sua idade e, talvez, de casta superior

Ô sua; mas cujo amor parece ter sobrevivido Ó ausÛncia do poeta

em Coimbra, donde voltou ao Bra'sil formado em Leis ou Direito.

O que, segundo Moreira de Azevedo, afastou a moþa do bacharel

mulato foi ter sabido por um frade, talvez inimio de Alvarenga,

que este era "um revolucionßrio", "um jacobino que "ofendera

a Deus tramando contra o governo de el-rei nosso senhor. .." Ser

jacobino e ateu era, para a gente patriarcalmente religiosa, pior

que ser mulato. Laura s¾ então teria repudiado o mulato. E cor-

tado os cabelos, desprezado os vestidos enfeitados, envolvido 0

rosto em mantilha preta, voltando-se toda para a Igreja, os terþos,

as novenas, as ladainhas de SÔo JosÚ, do Rosßrio e da Mãe dos

#

Homens, como faziam naquela Úpoca as solteironas deixadas pelo



ritmo da vida patriarcal em situaþÔo de estranhas ao sistema de

orgar³zaþão de famÝlia: um sistema baseado , principalmente na

GILHERTO FREYRE

glorificaþÔo do "ventre gerador" branco ou negro, aristocrßtico

ou plebeu. O que Ú interessante no caso Laura-Alvarenga Ú a con-

fusão de romantismos vßrios e contradit¾rios que se reuniram

para aproximar e, ao mesmo tempo, separar dois indivÝdurs, sobre

os quais o sistema patriarcal, aliado antes da Santa Madre Igreja

e do ftei, Nosso Pai e Senhor supremo, que da Raþa puramente

brJnca, acabaria triunfante.

I ß se achava o sistema ferido de morte em algumas das suas

raÝzes. jß comeþara a desintegrar-se em ßreas como a fluminense.

Mas continuava a ser o centro da vida brasileira-admitida, Ú

claro, a ascensÔo do mestiþo e do bacharel como uma influÛncia

revolucionariamente poderosa no sentido daquela desintegraþão.

Não negamos que contra a ascensão do mestiþo e no resguardo

da ortodoxia patriarcal agissem preconceitos de origem irracional.

i

Mas evidentemente entre o sistema patriarcal e a ascensão da-



quele elemento sob a figura nÔo s¾ de bacharel e de militar como,

principalmente, de mecanico e de mestre artesÔo, senhor de es-

cravos e lavrador e mineiro, tambÚm senhor de escravos e de

terras e nÔo apenas empregado de senhores brancos, havia incom-

patibilidade d ordem econ8mica que ilustre historiador mineiro,

o Sr. João Dornas Filho, em pequeno e sugestivo ensaio, "O Po-

pulßrio do Negro Brasileiro",se soube surpreender, ao sugerir:

. . . não sendo [o mulato e o negro forro] escravns, teriam de ser

remunerados e a remuneraþão era il¾gica pela existÛncia do tra-

balho servil". A prop¾sito do que transcreve interessantes do-

cumentos coloniais como a carta que a 17 de marþo de 1732 Dom

Lourenþo de Almeida escrevia a Ant¶nio do Vale Melo: "Esta mß

casta de gente tem sido de gravissimos prejuizos em todas estas

Mi.nas, principalmente nesta Comarca do Serro do frio, porque

as negras forras, com suas vendas e tavernas e com as mancebias

com os negros captivos erão causa de que estes furtavão os dia-

mantes que tiravÔo e lhos dessem a ellas não os dando aos seus

senhores, e alem desta razão, furtavão tão bem a seus senhores

diamantes para forrarem negros, por cuja causa repetidas vezes

os MineÝros me requererão, que deitasse fora dessa Comarca todas

as negras forras, e negros, e mulatos forros, porque estes erão os

que por outros caminhos se farião senhores dos diamantes que

tiravão os negros captivos..

Enquanto BasÝlio Teixeira de Sß Vedra, na sua "Informaþão da

Capitania de Minas Geraes", datada de Sabarß em 30 de marþo

de 1805, dizia: "Os casamentos, e mais ainda as mancebias dos

proprietarios com mulheres pretas, e mulatas tem feito de tres

partes do povo de gente liberta, sem creaþão nem meios de ali-

mentar-se, sem costumes, e com a louca opinião de que a gente

forra não deve trabalhar; tal he a mania, qu induz a vista da

Sosx.snos E Mvc,.a.rsos - 2.░ ToMo 619

escravatura, dos vicios mencionados." E mais adiante: "Eu quizera

que huma Ley prohibisse aos mulatos a successÔo legitima dos

brancos; e que aquelles ß maneira dos espurios s¾ obtivessem

destes alimentos, e mais algumas precauþÓes suaves para o pas-

sado a este respeito; Eu quizera que fosse assignada certa porþão

de terreno, certo numero de datas, para que elles não pudessem

possuir maior extensÔo; quizera que muitos delles fossem obri-

gados a se empregar nos officios e artes liberaes para o que

costumÔo ter muita habilidade; quizera com elles muita attenþão,

emquanto esta pode ser empregada utilmente, e alguma tão bem

com os pretos forros, filhos do Paiz, chamados crioulos, que não

são tão bem boa fazenda; e principalmente, prohibir que huns

pretos possão ter outros em escravidão, nem huns mulatos a outros

mulatos, e menos que mulatos sejão escravos de negros; em cujo

artigo tem chegado o abuso a haver filhos de que comprão seus

Pais, irmãos e irmãs, e que Ihes não deixão goai plena liberdade,

cujas cautelas me parecem todas necessarias para maior seguranþa

desta conquista...

Insistindo em realizar com escravos, o que outros sistemas eco-

#

n8micos comeþavam a realizar com mßquinas e não apenas com



animais, o sistema patriarcal brasileiro viu no mestiþo impregnado

de ingresias ou francesias um revolucionßrio a abafar ou reprimir.

Tarefa difÝcil dado o sucesso alcanþado desde a primeira metade

do sÚculo XIX, por numerosos mestiþos em especialidades neces-

sßrias, não diremos ao desenvolvimento, mas Ó salvaþão do Brasil

do perigo de estagnar-se Úm subnaþão tristonhamente arcaica.

De Filipe Nery Colaþo, nascido em Pernambuco em 1813, e

formado em Direito pela Faculdade do Recife, se sabe que, ho-

mem de cor, distinguiu-se menos por suas francesias de bacharel

em Direito que por suas ingresias de curioso da engenharia: foi

lente de lÝngua inglesa do Ginßsio Pernambucano e salientou-se

lo ░gabinete tÚcnico de engenharia" que estabeleceu na capital

pa Promncia.s7 Ora Nery Colaþo foi apenas um caso tÝpico. Como

ele surgiram, na primeira metade do sÚculo passado, numerosos

mestiþos hßbeis, cujas qualidades foram sendo estudadas e apro-

veitadas-como se assinala noutra passagem deste ensaio-por mes-

tres avanþados nas idÚias como os Beneditinos.

Não foram, porÚm, os Beneditinos os ·nicos a estudar nos dias

da escravidão os efeitos do ambiente ou do meio brasileiro sobre

os negros vindos da ┴frica; ou as conseq³Ûncias do cruzamento

de sangue ou de raþa sobre os mestiþos. TambÚm mÚdicos como

Tiburtino Moreira Prates de quem Ú uma das teses mais inte-

ressantes apresentadas na primeira metade do sÚculo XIX Ó Fa-

culdade de Medicina da I3abia: Identidnde cia EspÚcie Humnna.sA

O GILBERTO FRExRE

I

; Af sustentava o autor, baseado em observaþÓes.feitas entre n¾s



ainda na primeira metade do sÚculo XIX: "Todo o mundo sabe

que os creoulos negros do Brasil differem muito dos Africanos,

de que descendem, tanto em seos characteres physicos como nas

suas faculdades intellectuaes:' E de acordo com D'Orbigny: "Na

indagaþÔo que temos feito temos encontrado nesta provincia tres

familias descendentes de Africanos que teem chegado sem se cru-

zarem atÚ a 3.À geraþÔo; estes individuos não são mais tÔo negros

como seos progenitores e por seos characteres não differem de

zambros ou cabras: o que jß não he pequena modificaþão:'░s Ia

alÚm Prates: antecipava-se aos cultnralistas modernos ao afirmar,

baseado em seus estudos na Bahia, que os homens de todas as

raþas "se mostrão aptos a receber a cultura que desenvolve as

faculdades do espirito, a conformar-se com as praticas da religião,

com os habitos da vida civilisada; todos teem, em huma palavra,

a mesma natureza mental [ . . . . ]. Os homens da raþa ethiopica,

que se consideram como os mais degradados, podem, entretanto,

manifÚstar as mais excellentes virtudes e elevar-se ß altura das

sciencias:' Era o que sucedia jß no Brasil: "Todo o mundo co-

nhece os obstaculos que se oppÓem ao negro que intenta dedi-

car-se ß carreira das lettras ainda sem falar da falta de meios

pecuniarios, pois que he esta rßþa a mais pobre de nosso povo;

mas a pezar disto temos muitos exemplos de negros que se teem

mostrado muito aptos para a cultura das sciencias, das lettras e

das bellas-artes; temos visto em concursos publicos disputarem e

obterem a coroa do professorado . . . "7░ O mesmo com relaþão

aos mulatos: "Huma outra classe ludibriada atÚ pelos seos pro-

prios progenitores he a dos mulatos cuja intelligencia tem sido

muitas vezes amesquinhada por homens dominados por precon-

ceitos. . ." Mas vinha se acentuando cada dia mais a intel gÛncia

do mulato brasileiro: "Apezar de alguma rivalidade que ha ainda

entre os brancos e os mulatos, estes, ou pela grande parte que

tiverão na luta da nossa independencia ou por seo numero predo-

minante, ou por o que quer que fosse, no Brasil gosão de consi-

deraþÔo; e podem e evar-se a altos logares, quando a fortuna os

ajuda." Especialmente na ProvÝncia da Bahia: "Huma prova in-

concussa da grande intelligencia dos mulatos pode ser tirada da

estatistica desta provincia: aqui he com effeito raro que se encon-

trem homens, ainda tidos por brancos, que não te hão tido em

seos av¾s huma tal ou qual mistura de sangue ethiope; e com

tudo os Bahianos são distinctos por seos talentos e por seo amor

ßs lettras e ßs sciencias e nenhuma outra provincia Brasilena tem

dado hum tÔo grande numero de sabios:'71 E particularmente na

#

Faculdade de Medicina: "Mais de cem estudantes frequentão a



T'.scl ola de Medicina desta cidade: a metade são incontestavel-

Sosxanos E MvceMsos - 2.░ ToMo 621

mente mulatos; dos outros sabemos que muitos são quintãos, ou

desertores ( brancos da terra ); de outros ignoramos a genealogia;

e assim os que sÔo incontestavelmente da raþa caucasica pura não

passão de vinte:'

Em igual sentido manifestava-se, na mesma Úpoca, M. P. A.

de Lisboa em suas "Notes sur la Race Noire et la Race MulÔtre

au BrÚsil", publicadas em Paris, em 1847:72 ". . . il est permis de

conclure gue l'af faiblissement d'intelligene: parmi les nÞgres afr

cains dÚrive des imperfections de l'Útat social dans leguel ils vivent

en Afrigue, plut¶t gue d'une dif ference importante d'organisation".

E quanto aos mulatos: "Au BrÚsil, dans toutes les classes de la

sociÚtÚ, parmi les jurisconsultes ainsi que parmi les mÚdecins,

chez les hommes qui s'occupent de la politigue du pays comme

chez les hommes de lettre, on remarque des mulÔtres d un talent,

d'un esprit, d'une perspicacitÚ Út d'une instruction gui leur don-

nent beaucoup d'importance et d'ascendant".

E não nos esqueþamos de outro depoimento importante, Ûste

de europeu, sobre a situaþão da "classe' ou da "raþa" mulata no

Brasil do sÚculo XIX: o depoimento de ElisÚe Reclus em estudo

publicado na ftevue des Deux Mondes, sob o tÝtulo "Le BrÚsil

et la Colonisation, Les Provinces du Littoral, les Noirs et les Co-

lonies Allemandes". Depois de salientar nÔo haver no Brasil lei

que se interpusesse entre o pai e o filho para impedir o primeiro

de reconhecer seu pr¾prio sangue-o que vinha favorecendo a

emancipaþão do mulato-escrevia o ge¾grafo francÛs: ". . . on peut

prÚvozr le jour prochain o³ le sang des anciens esclaves coulera

dans les veines de tout BrÚsilien". E ainda: "Les fils de noirs

emancipÚs deviennent citoyens; ils entrent dans l'armÚe de terre et

de mer (....] et peuvent au mÛme titre gue leurs compagnons

d'armes de race caucasigue parler de la cau.se de la patrie et de

l'honneur du drapeau. Quelgues-uns montent de grade en grade

et commandent d des blanes restÚs leurs infÚrieurs; d'autres

s'adonnent aux professions lßberales et deviEnnent avocats, mÚ-

decins, pro f esse³rs, artistes." E acentuando o que poderÝamos de-

nominar a predominÔncia do carßter sociol¾gico da branquidade

sobre o biol¾gico, no Brasil da primeira metade do sÚculo XIX:

"Il est vrai gue la loi n'accorde pas aux nÞres le droit d'entrer

dans la classe des Úlecteurs ni dans celle des Úligibles; mais les

employÚs dont la peau est plus ou moins ombrÚe ne font aucune

dif ficultÚ de reconna´tre comme blanes totis ceux gu´ veulent bien

se dire tel.s et ils leur dÚlivrent les pnpiers nÚcessnires pour Úta-

blir lÚnlement et d'une maniÞre incontestable la puretÚ de leur

origine."73

O que aqui se destacava era a tendÛncia, jß entÔo antiga no

Brasil, do documento ou da declaraþão biologicamente vßlida

622 GII.BERTp FREYRE

³

fazer as vezes da realidade biol¾gica, ou superß-la, quanto Ó raþa



,

de indivÝduos. Ten'dÛncia que teria servos passivos não sb em

' papÚis escritos como na pintura, no retrato a ¾leo e na r¾pria

fotografia colorida. Foram "documentos" postos a serviþo a aria-

nizaþão de superfÝcie de quantos fossem "brancos" pela situaþão

social, equivalente Ó de brancos.

A fase de transiþão de sede de poder.das casas-grandes rurais

para os sobrados urbanos, ou suburbanos, marcou tambÚm, entre

n¾s, a transiþão do retrato pintado por artista para o daguerre¾tipo

e a fotografia. Esta por algum tempo primou pela exatfdão: o

feio aparecia feio mesmo que fosse rico ou poderoso o retratado.

Tornou-se depois a fotografia velhacamente comercial e interes-

sadamente "colorida". Nos Estados Unidos esecialistas em cores

' angelicamente n¾rdicas requintaram-se, nos ultimos decÛnÝos do

sÚculo XIX, em amaciar em louros e r¾seos, novos-ricos, novos-

poderosos e novos-cultos sararßs, alaranjados ou mesmo pardos

do Brasil e de outros paÝses da AmÚrica do Sul. Mas não nos ante-

cipemos neste particular. Recordemos que em 1818, a Idade d'Ouro

do Brazil, de 3 de julho, anunciava estar em Salvador certo pintor

#

de miniaturas, Letanneur, chegado de Paris, cujo forte era a "per-



í feita semelhanþa".

Em 1848, jornais como o Dißrio de Pernambuco ainda traziam

! '  an·ncios de retratistas romanticamente a pincel como Cincinato

Mavignier. Fazia Mavignier constar ao "respeitavel publico", pela'

ediþão de 12 de outubro do mesmo jornal. que recebera da Franþa,

no seu sobrado da Travessa do Carmo n.░ 1, no Recife, "completo

' ' sortimento de finissimas tintas para retractos, optimos marfins, pa-

pel de desenho ete. etc." As pessoas que se quisessem retratar com

esse mestre ficariam "possuindo um verdadeiro exemplar da sua

physionomia", em "bel as tintas".

Essas "bellas tintas" se tornavam, talvez, mais belas quando 0

retratado ou a retratada era pessoa de importÔncia; e podiam, como

mais tarde as cores das fotografias comercialmente coloridas, ama-

ciar em cor-de-rosa, pardos e amarelos de pele, em louro puro e

sedoso, o alaranjado de cabelos zangados ou encarapinhados. São,

entretanto, desta fase, retratos notßveis de sinhßs, de meninos e

mesmo de homens. Entre outros o da Alves da Silva, tida por inspi-

radora dos versos cÚlebres de Maciel Monteiro:

"Formosa gual pincel em tela f ina

Debuxar jamais p¶de ou nunca ousara".

Note-se, porÚm, que desde 1843 apareciam an·ncios nos jornais

brasileiros de "artistas no Daguerreotypo". Mr. Evan, por exemplo,

que dizia pelo Dißrio de Pernambuco de 16 de maio daquele ano

Sosxnos E MvcaNrsos - 2.░ Toxso 623

aþa

em

"tirar retratos admiraveis e perfeitos". Com ele podiam os brasi-



leiros obter "uma copia fiel de si mesmos ou uma segunda imagem

e semelhanþa". E o Sr. SÝlvio da Cunha, em artigo publicado em

Letras e Artes ( Rio de Janeiro ) de 9 de novembro de 1947 sobre

"Os Primeiros Fot¾grafos no Brasil", recorda outra figura de pio-

neiro: o irlandÛs Frederic Walter, tambÚm artista do daguerre¾tipo.

Artista ou tÚcnico.

Artista de daguerre¾tipo= `daguerreotypo colorido e fixo, pelos

ultimos descobrimentos"-era, tambÚm, o Carlos D. Fredrick que

aparece no Dißrio de Pernambuco de 8 de marþo de 1849, anun-

ciando ter recebido dos Estados Unidos "bello sortimento de objec-

tos para retratos". E como devesse seguir breve para a Bahia con-

vidava as pessoas que precisassem dos seus serviþos a aprovei-

tarem "a occasião presente". Seus retratos não deviam ser confun-

didos com "os de fumaþa" que se tiraram "anteriormente". Os re-

tratos "coloridos e fixos"-os do seu processo-não eram "capazes

de sumir-se nunca". As horas mais pr¾prias para "tirar estes re-

tratos", informava o retratista que eram das 9 horas da manhã ßs

duas da tarde. . . ' Noutro dos seus an·ncios-de 26 de agosto de

1847-Fredrick dissera pelo mesmo Dißrio que tirava tambÚm re-

tratos copiados e "para medalhas e alfinetes". S¾ na cidade do

Maranhão-de onde se retirara hß trÛs meses-tirara mais de trÛs

mil retratos.

No Rio de Janeiro, jß se faziam então pelo processo do daguer-

re¾tipo retratos que, segundo an·ncio no ]ornal do Commercio de

3 de junho de 1850 eram "verdadeiros dcaenhos que se enxergão

em qualquer posiþão, quando collocados neste ou naquelle logar".

Retratos de que se tirava "um numero infinito de copias" e que

eram "inalteraveis, coloridos e a fumo". E pelo mesmo jornal de

24 de julho do mesmo ano Guilherme Telfer anunciava poder pro-

duzir em daguerre¾tipo "umas sombras na pintura, do modo mais

delecado possivel, ao mesmo tempo dando uma expressÔo tão na-

tural aos olhos que nenhum artista tem podido atÚ hoje rivalisar".

Era a competiþão do daguerre¾tipo com a pintura a ¾leo; da tÚc-

nica com a arte do retrato. Do alto do seu sobrado Ó Rua do Ouvi-

dor n.░ 126, Telfer procurava seduzir os ricos, os fidalgos, os mes-

tiþos em ascensão social para as delicadezas de sua tÚcnica de fixar

fisionomias: delicadezas de que não eram capazes os simples

artistas.

Note-se que dez anos antes, um "retratista chegado da Franþa"

anunciara pelo Dißrio de Pernambuco-de 24 de agosto de 1840-

retratar "fielmente a oleo, e a miniatura". Dava liþes de "Desenho

Historico, Paysagem e Architectura a Oleo e miniatura.. " Desse

#

francÛs e de Fredrick devem ser muitos dos retratos dc  grandes



III

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I

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I

GILBERTO FREYRE



do ImpÚrio tirados no Norte ainda na primeira metade do sÚ-

culo XIX.

O daguerre¾tipo nos deu dos primeiros grandes do Xm Úrio-ho-

mens, senhoras e mesmo meninos-Ýmagens, na verda e, exatas,

em contraste com vßrios dos retratos ou das pÝnturas dos sÚculos

coloniais. Nestas a exatidão de traþos e de cores terß sido por

vezes hßbil ou ostensivamente sacrificada ao desejo ou Ó conve-

niÛncia e atÚ ß necessidade do artista servil agradar o pacÝente-ou

impaciente-senhoril.

O mesmo aconteceria, não por servilismo mas por coznercialismo

dos tÚcnicos, com as fotograf as coloridas ou "made in America",

de mestiþos brasÝleiros, feitas nos ·ltimos decÛnios de patriarcado

não s¾ rural como urbano entre n¾s; e de ascensão franca de mu-

latos ou mestiþos sob a forma de bacharÚis, mÚdicos, engenheiros,

militares, industriais. Novos-poderosos, novos-cultos ou novos-ricos

que podiam dar-se ao luxo de fotografias ampliadas ou coloridas

no estrangeiro de acordo com as informaþ¶es que os prbprios inte-

ressados fornecessem de suas cores: da pele, do cabelo, dos olhos,




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