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escravocrático entre nós - não se limitou ao Norte ou ao

Nordeste do Brasil, ou ao que o Professor Donald Pierson cha-

ma pitorescamente a "área Recif e-Olinda", mas teve no Rio de

Janeiro uma de suas mais ricas e vigorosas expressÓ , es; e em

vários pontos do Sul e do Centro do Brasil numerosas ilhas ou

ilhotas, sociologicamente parentas do sistema que os observa-

dores superficiais supÓem ter se limitado ao "Norte" ou ao

"Nordeste". A verdade é que foi o sistema patriarcal-escra-

vocrático, ou tutelar-escravocrático, que, de suas hi7ses de Rdo

Vicente, do Rio de Janeiro, do Recôncavo, de Pernambuco e

do Maranhão e através daquelas ilhas ou ilhotas, primeiro deu

efetivo significado econômico e importância política ao Brasil,

identificado principalmente com o açúcar aqui produzido. Foi

o sistema patriarca l-escravo crá tico que se tornou a base prin-

cipal da cultura diferenciada da de Portugal que foi aqui se

desenvolvendo.

para essa cultura diferenciada da reinol, o Bandeirismo con-

tribuiu grandemente, é certo. Mas sem dar às suas conquis-

tas de ordem material ou imaterial a solidez necessária à sua

#

consolidação: solidez que esses valores diferenciados dos me-



tropolitanos só viriam a ter à sombra das casas-grandes e dos

sobrados patriarcais, de cujos terraços, varandas e até quartos

de hóspedes as redes imitadas dos ameríndios tornaram-se tão

caraterísticas quanto das cozinhas senhoriais as vasilhas de

barro, de fabrico ou f eitio principalmente indígena. Igual-

mente foram as cozinhas também patriarcais invadidas, tanto

quanto as boticas domésticas, pelos legumes e ervas da terra,

para não falarmos da mandioca, de que os senhores de enge-

nho, e não apenas os Bandeirantes, aprenderam a se servir

com os indígenas.

0 sistema patriarcal inteiro absorveu dos indígenas valores

que adotados apenas por mamelucos andejos e quase sem eira

nem beira talvez nunca se tivessem solidificado ou consoli-

dado. Esse processo de consolidação é inseparável do sistema

representado por casas-grandes e sobrados, sistema cujas zo-

nas de concentração não nos devem iludir sobre o fato de que

foi um sistema transregional. Tanto que dele se encontram

manifestaçÓes não apenas no Norte ou no Nordeste como em

Sdo Vicente e no Rio de Janeiro; não apenas no Recôncavo

baiano ou no Maranhão como, difusas e menos ostensivas, no

Paraná, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul, em Mato

Grosso, no Pará. Já vimos que Euclydes da Cunha encontrou-

as no próprio Amazonas sob a forma de souradÓes que lhe pa-

receram verdadeiros palácios perdidos no meio do mato tropi-

cal. MansÓes de patriarcas a seu modo escravocratas que

pretendiam firmar-se sobre a base precária da borracha como

outros haviam se firmado sobre o açúcar, o café, o cacau, o ga-

do, o ouro. 0 mesmo sistema - repita-se - embora com con-

teúdo diverso. 0 mesmo processo de consolidação sob aspecto

geográfica e etnograficamente distinto do tradicional, ligado

pelos estudiosos superficiais à paisagem dominada pelo ca-

navial.


Empenhados em a estreito espaco físico, po; ~^7es

arbitrariamente fixado, a validez dos estudos por nós inícia-

dos com Casa-Grande & Senzala e continuados ent Sobrados

e Mucambos, alguns críticos têm pretendido que só a pequeno

trecho do Brasil se aplicariam nossas gentralizaçÓes: ao "Nor-

deste" ou à "área Recíf e-Olinda". E já houve quem insinuas-

se que só dessa área, ou subárea, tínhamos qualquer conhe-

cimento.


#

LXXXII


GILBER~o FmYRE

Engano que somos obrigado um tanto imodestamente a re-

tificar. Nossas viagens de estudo pelo Brasil, para efeito de

comparação sociológica de regiÓes, ou sub-regiÓes, diversas,

estão longe de nos satisfazer: muito nos falta ainda conhecer,

ou simplesmente ver, do posso país. Não nos sentimos, ainda,

autorizado a atribuir a todas as nossas sugestÓes, com preten-

sÓes a transregionais, a desejada generalidade. Mas se os

bons aristarcos que , nos acusam de conhecer só a área "Recife-

Olinda" se dessem ao trabalho de nos acompanhar a vida de

estudo, desde a publicação daqueles nossos primeiros traba-

lhos, moderariam, talvez, a ênfase com que nos acusam de co-

nhecer apenas o Nordeste agrário - centro do sistema pa-

triarcal-escravocrático em cuja análise e interpretação pro-

curamos, é certo, desde moço nos especializar; e saberiam que

nossas viagens por terra - de trem, de carro, de automóvel,

a cavalo, a pé - ou pelas águas do litoral brasileiro - de re-

bocador, lancha, jangada e barcaça - com o fim de procurar-

mos reconhecer semelhanças e diferenças entre as áreas mais

caraterísticas do Brasil já nos levaram não só a Campos, Vas-

souras e Angra dos Reis como a outros pontos de interesse so-

ciológico, e não apenas paisagístico, do litoral e do interior do

Rio de Janeiro; e, mais de uma vez, ao velho interior agrário

de São Paulo e ao seu litoral povoado de antigos sobrados pa-

triarcais de que raros estudiosos modernos do Brasil, mesmo

paulistas, se têm aproximado. Também a trechos do litoral

e do interior do Paraná, de Santa Catarina, do Rio Grande do

Sul, de Sergipe, da Bahia, do Pará, do Piauí, do Ceará marca-

dos por traços de semelhança ou de contraste com os da área

agrária ou açucareira do Nordeste. E a Minas Gerais, área

de que percorremos de automóvel largos trechos dentre os

mais assinalados pela presença de antigos sobrados e casas-

grandes, outrora centros de residência ou de domínio de fa-

mílias tutelares. Viagem feita na companhia do erudito mi-

neiro Sr. Afonso Arinos de Melo Franco e tendo, às vezes, por

orientador de nossos contatos com os arquivos o sagaz conhe-

cedor do passado daquela vasta e profunda província que era

Luís Camilo de Oliveira. Com o Maranhão é que os nos-

sos contatos até hoje foram tão breves que é quase como se

o desconhecêssemos tanto quanto desconhecemos o Mato Gros-

so, Goiás, o Amazonas: conhecido apenas do alto e por alto,

isto é, do alto de um avião.

Vasto como é o Brasil - o geográfico e etnográfico e não

tanto o histórico-sociológico - compreende-se a relutância

dos estudiosos mais conscienciosos do passado ou da realidade

brasileiraem aceitarem interpretaçÓes, como a oferecida pela

INTRODI;(;~O ~ SEGUNDA EDI(;,~O LXXXIII

#

nossa caraterização desse passado e dessa realidade sob a for-



ma de expressão sociológica de familismo patriarcal ou tute-

la~-, comuns às varias regiÓes geo-econômicas do país. Exigem

- e com razão - tais estudiosos, obras minuciosas de con-

firmação sub-regional das sugestÓes esboçadas por nós para

regiÓes ou para o todo brasileiro.

Não é por outro motivo que se insurge contra a idéia de

que os binômios casa-grande-senzala e sobrado-mucambo fo-

ram, no BÈqpil, complexos transregionais, e não apenas re-

gionais, que dominaram, como complexos transregionais, es-

?aços sociais transbordantes de quantos espaços físicos se têm

inventado para contê-los, o jovem e já notável crítico brasilei-

ro, Sr. Wilson Martins. Em'recente estudo sobre ',Um Tema

de Sociologia Brasileira%, salienta ele a presença, no Brasil

meridional, de "idéias e gostob que não são puramente nacio-

nais". Com o que não há estudioso de Sociologia do Brasil que

não se encontre de perfeito acordo. No BraAl Central e no Se-

tentrional também se encon4ram' , 'idéias e gostos" que não são

típuramente nacionais" - os de indígenas ainda mal assimi-

lados ao atual sistema brasileiro de convivência e de cultura,

por exemplo - compreendido por "nacional" aquele comple-

xo de gostos e idéias predominantemente lusitanos, ou mes-

tiços de lusitano e ameríndio ou de lusitano e africano, tam-

bém chamado "brasileiro".

Quando, porém, o jovem crítico pretende negar o que há

de transregional - no sentido de superação da região natural

ou da área geográfica por consideraçÓes de espaço social -

em nossos estudos sobre a sociedade patriarcal do Brasil -

nossa sociedade básica, quer no Sul, quer no Norte, quer no

Centro, e não apenas no Nordeste da cana-do-açúcar - ale-

gando que os mesmos estudos, "embora estruturados sobre

uma base científica que deve ser a mesma para os estudos da

Sociologia em qualquer região [ .... ] prendem-se a trechos

muito caraterizados do país, não servindo senão em escala

muito reduzida, para outros que também apresentam caráter

próprio, como é o caso dos Estados meridionais", parece-nos

que resvala, tanto quanto os já mestres ilustres que são os

Professores F. Braudel, Sérgio Milliet e Donald Pierson, no

erro de confundir a, forma sociológica com o conteúdo etno-

gráfico, etnológico, étnico, econômico ou geográfico.

Aliás, vários desses conteúdos, examinados de perto, não

em zonas de infiltração estrangeira mais recente - que devem

ser consideradas antes manchas de exceção, talvez transitória,

que típicas, do Brasil meridional - mas nas áreas de for-

mação social mais antiga---quenão foram descaraterizadas

#

LXXXIV


CILBERTO FPFI'RE

sob o impacto dos adventícios - apresentam-se com semelhan-

ças numerosas, quando comparados com os conteúdos do Nor-

deste ou do Centro do Brasil. É o que indicam estudos pro-

fundos ou meticulosos sobre a formação não só social, em ge-

ral, como literária, ou política, em particular, do Rio Grande

do Sul: de todos os estados meridionais do Brasil o que tem si-

do objeto de melhores estudos desse gênero. Estudos como

os de Rubens de Barcelos e de Salis Goulart e os de João

Pinto da Silva, Moisés Vellinho, Augusto Meyer, Coelho de

Sousa, Dante de Laytano, Viana Moog, Manuel Duarte, Wal-

ter Spalding, Carlos Legori. 0 que o Sr. Atos Damasceno, por

exemplo, evoca, em páginas sugestivas, não só do passado re-

moto como recente de Porto Alegre, quase se confunde com as

evocaçÓes do Recife por Mário Sette. Da autobiografia de

João Daudt de Oliveira, rio-grandense-do-sul descendente de

alemão e há pouco falecido em idade avançadíssima, constam

episódios de meninice, relaçÓes de menino com bá, que não se

distinguem das experiências de meninos do Rio de Janeiro; de

São Paulo, de Minas Gerais ou do Norte, nas suas zonas mais

carateristicamente patriarcais: experiências recordadas nou-

tras autobiografias ou biografias do século XIX como a. de

Cristiano Ottoni, a do Barão de Goiana, a de Veridiana Prado,

a de Paulino de Sousa, a de Félix Cavalcanti de Albuquerque.

E o mesmo se poderia dizer do estudo qu,-. vem escreven-

do, dentro de critério histórico-sociológico, sobre a cidade

do Rio Pardo, um dos mestres rio-grandenses-do -sul dos estu-

dos de história regional: o Professor Dante de Laytano.

Repare-se no sabor "nacional" destes pedaços de passado

ainda recente do Brasil meridional (passado que continua a

ser o básico ou fundamental da região e com o qual acabam

transigindo numerosos adventícios ou neobrasileiros) recons-

tituídos pelo bom historiador de Rio Pardo: "A vida da cida-

de" - escreve o Sr. Dante de Laytano, referindo-se à cidade

do Rio Pardo não de há duzentos mas de há cem anos - "afo_

ra festas de igrejas nas praças e as procissÓes ou um ou outro

desfile militar, reduzia-se aos salÓes familiares, bailes nas va-

randas dos sobrados e de casas assobradadas[ .... ]. Nas fa-

mílias, quase todas numerosas, como a de uma Almeida que

casou três vezes, tendo de cada matrimônio dez ou quinze fi-

lhos, as pessoas, nesses bons tempos, não se chamavam Tomás,

mas Dadaio, Francisca, mas Chicuta, Antônio mas Tonico, Je-

rônimo mas Nonô, etc. [ .... 1 não faltavam as boas mesas de

doces, os licores e refrescos de receitas domésticas muito apre-

ciadas, e, -mais do que isso, guardadas em completo segredo;

7nas a arte de doçaria e de coZinhase desenvolveria melhor nas

INTRODUÇÃO À SEGUNDA EDIÇÃO LXXXV

#

fazendas, onde as donas de casa instruíam as filhas casadou-



ras e o ambiente social era maior com visitas, piqueniques, ba-

tizados, etc. Quase todos os estancieiros passavam o rigor do

inverno na cidade, quando continuavam a cultivar os mesmos

hábitos e pequeno exército de quituteiras, caseiras, cozinhei-

ras africanas, algumas vezes índias, acompanhavam os pa-

trÓes para o regalo da mesa, onde sempre sentavam muitos

parentes e convidados. As famílias eram sempre grandes ou,

por menor que fosse, entrelaçavam-se com parentes e amigos.

Acrescentem-se as mulheres alemãs que começaram a entrar

no Rio Grande com os colonos, logo depois da independência

do Brasil, e teremos uma contribuição notável para a arte de

fazer doces entre nós."

Quase tudo que vem aqui transcrito de recente estudo de

historiador escrupuloso e meticuloso, sobre o Rio Grande do

Sul, poderia ter sido escrito sobre Alagoas ou Pernambuco,

sobre a Bahia ou Sergipe, sobre o Rio de Janeiro ou São Paulo,

sobre o Pará ou o Maranhão, considerados nas formas ou esti-

los de sua formação social que foi, em todas essas províncias

mais antigas, a patriarcal, a escravocrática, a de raizes prin-

cipalmente lusitanas ou açorianas. De modo que quando o Sr.

Wilson Martins, cujo conhecimento do Brasil meridional pa-

rece quase limitar-se, no que se refere à culinária, às áreas de

cultura neobrasileira, escreve que "nenhuma daquelas comi-

das de que fala o Sr. Gilberto Freyre, por exemplo, como sendo

genuinamente nacionais, comparece nos menus sulinos, a não

ser como exotismo", vê-se que lhe falta ainda o contato com as

mesas, tocadas de reminiscências patriarcais, do Rio Grande

do Sul e de Santa Catarina onde se come tão boa feijoada

quanto no Norte, em Minas, em São Paulo ou no Rio de Janei-

ro; onde o mocotó chamado de colher pode ter outro nome mas

é o mesmo de Alagoas e de Pervambuco; onde, à sobremesa. o

doce-com-queijo - combi-naçÓo absurda aos olhos europeus ou

neobrasileiros ainda estranhos ao Brasil - aparece com a

mesma naturalidade que -nas mesas do Ceará ou da Paraíba.

Que existem no Brasil consideráveis diferenças de região

para região e até de sub-região para sub-região ou de provín-

cia para província, nenhum estudioso de Ciência Social , fami-

liarizado com a situação do nosso país é capaz de negar. So-

mos, há anos, dos que vêm procurando pôr em destaque não

só tais diferenças como a conveniência de as conservarmos, em

vez de nos submetermos a qualquer espécie de nacionalismo

anti-regional que tenda a esmagá-las ou anulá-las. Mas o es-

tudo das diferenças não nos deve fazer esquecer o das seme-

lhanças. Nem o critério do espaço físico nos deve fazer aban-

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LXXXVI GICLIBERTO FR.EYRE INTRODLI(;;iO I SEGUNDA EDP;;0 LXXXVII



donar, em estudos sociais, o do espaço social, dentro do qual

podem estender-se complexos sociais, ou de cultura, de confi-

guração própria e até caprichosa. Daí grupos humanos fisi-

camente distantes um do outro como o situado em Rio Pardo

,'Rio Grande do Sul) e o situado em Penedo (Alagoas), por

exemplo, poderem apresentar maiores semelhanças entre si,

que Rio Pardo (Rio Grande do Sul) com São Leopoldo (Rio

Grande do Sul); ou Penedo (Alagoas) com Palmeira dos in-

dios (Alagoas). Daí o Rio de Janeiro ser província muito

mais semelhante a Pernambuco agrário, a despeito da distân-

cia física que separa uma da outra, que o Rio de Janeiro, da

província vizinha, do Espírito Santo; ou Pernambuco agrário,

do Ceará, província também vizinha.

0 sistema patriarcal não só de economia como de organi-

zação de família, onde teve por base a grande lavoura traba-

lhada principalmente por mão de escravo africano e fundada

por europeus de origem aristocrática ou semi-aristocrática,

criou dessas semelhanças: semelhanças entre os seus pontos

de maior concentração de capital e de mão-de-obra e de maior

intensificação de riqueza e do que Veblen denomina ostenta-

ção de riqueza, ou seja, "conspicuous waste". Por isto, quem

se ocupa de tal sistema, isto é, de suas formas sociológicas,

não faz obra de geografia econômica ou cultural, mas de so-

ciologia regional, ou transregional, que é um estudo antes de

espaços sociais que de espaços físicos.

Se algumas das generalizaçÓes conseguidas sob tal critério

de estudo , não são válidas, no Brasil, sendo para certos espaços

físicos, podem outras generalizaçÓes alcançar, em sua trans-

regionalidade, áreas do próprio Paraná, cuja configurqção

exótica no meio da sociedade brasileira de formação basica-

mente patriarcal, o Sr. Wilson Martins parece, às vezes, exa-

gerar. Quem lê, por exemplo, biografias de paranaenses tí-

picos como o velho Jesuíno Marcondes - e as biografias ten-

dem a acentuar os traços particulares com prejuízo dos ge-

rais - tem a impressão de estar lendo a biografia de filho de

senhor de engenho baiano ou pernambucano educado na Euro-

pa. Ou seja a biografia de filho de casa-grande patriarcal, na

fase de transição do patriarcalismo ortodoxo para o já desfi-

gurado pela ascensão dos bacharéis e pelo desenvolvimento

das cidades; ou pelo que Moíses Marcondes, em Pai e Patrono

(Rio de Janeiro, s.d.), chama de "passagem da fazenda à mais

modesta condição de chácara". Passagem caraterizada pela

subdivisão do domínio maciçamente patriarcal - equivalente

de-uma sesmaria de engenho antigo do Norte - em sítios ou

pequenas fazendas para "constituição de novos nÚcleos fami-

liares", correspondentes aos doze , filhos ou herdeiros do Te-

nente Manuel José de Araújo (falecido em 1825) e de sua

mulher Ana Maria da Conceição de Sã (falecida em 1816).

#

Um desses filhos - precisamente Jesuíno - resolvera o



pai que seria bacharel formado; e que estudaria Direito, co-

mo outros paranaenses da época, em Olinda. Outra evidência

de que o sistema patriarcal no Brasil teve suas constantes

transregionais como o hábito de estudarem os filhos das gran-

des famílias patriarcais, das várias regiÓes, em escolas onde

confraternizavam; e onde o seu pensamento e o seu comporta-

mento de algum modo se unificavam. Coimbra, Montpellier,

Olinda, São Paulo, o Rio de Janeiro, a Bahia foram esses cen-

tros principais de unificação de pensamento e de comporta-

mento de moços que, em alguns casos, voltaram aos remotos

domínios paternos, constituindo-se em fazendeiros ou senho-

res de engenho de um novo tipo: os fazendeiros-doutores. Os

senhores de engenh~-bacharéis. Homens que instalavam-se

em casas-grandes depois de conhecerem a Corte, Olinda, São

Paulo, Bahia, às vezes Paris, Londres, a Europa; que várias

vezes assobradavam as casas de ordinário chatas ou as euro-

peizavam. em chalés suíços também assobradados; que povoa-

vam essas casas, de livros e revistas novas; que ao gosto pelos

cavalos, pelas mulatas, pelos cafezais, pelos bois, pelos cana-

viais juntavam a nostalgia de atrizes louras, de francesas ele-

gantes, alguns não se contendo, e fazendo vir da Europa go-

vernantes ou institutrices para os filhos, nas quais se prolon-

gassem aquelas imagens européias de mulheres. Governantes

ou institutrices que às vezes foram amantes se não carnais.

platônicas, menos dos adolescentes que dos pais meio sofisti-

cados, saudosos das metrópoles, das grandes cidades, das al-

tas civilizaçÓes.

0 historiador Dante de Laytano salienta que desde os co-

meços do século XIX começou a fazer-se sentir na culinária

do Rio Grande do Sul mais antigo - culinária ortodoxamente

lusitana ou açoriana, embora com salpicos nada desprezíveis

de influência ameríndia e de influência africana que, desde

os primeiros dias, foram aproximando aquele como anexo, da

culinária caraterística do já bem estabelecido complexo pa-

triarcal escravocrático - a presença de influências alemãs

as quais se juntariam mais tarde as italianas. Um elemento

herético, luterano - digamos simbolicamente assim - con-

trário à ortodoxia dominante nos fornos e nos fogÓes mais

solidamente patriarcais.

Nas casas-grandes e sobrados mais , fartos do Brasil, reco-

lheram os f ornos e f ogÓes, desde os pri)neiros dias da coloniza-

#

LXXXVIii



CIL13ERTo FREYRE:

ção, a herança dos mosteiros e solares portugueses, amplian-

do-a, acrescentando-lhe valores adquiridos das mulheres da

terra e das negras preferidas para o serviço doméstico. Essa

relativa ortodoxia da culinária patriarcal - expressiva das

demais ortodoxias - é que seria quebrada pela presença das

mulheres alemãs que, independente o Brasil, principiaram a

ser admitidas, em número considerável, ao sul do Império,

como mães ou filhas de famílias de colonos ou imigrantes po-

bres. Algumas das adventícias se incorporaram ao serviço

doméstico das famílias de origem portuguesa já antigas, ou já

ricas, realizando, através do serviço doméstico, revoluçÓes me-

nos em copos de água que em panelas de cozinha com as quais

se foram alterando não só os alimentos cotidianos nas casas

nobres como as próprias relaçÓes entre senhores e servos, en-

tre a sala de jantar e a cozinha. Com as quais se f oram

reeuropeizando vários aspectos da convivência patriarcal no

Brasil; e não apenas o seu sistema de alimentação.

RevoluçÓes semelhantes ocorreram no Norte, ainda mais

ortodoxamente patriarcal, do Império, desde os começos da

Independência alterado em seus estilos de convivência e de

cultura, pela presença de europeus chegados aqui menos como

senhores, para competir com os senhores, do que como técni-

cos, peritos, artesãos, mecânicos, para superarem os artesãos

da terra, na sua maioria escravos. 0 que nos faz voltar às

governantes e institutrices para acentuar que também elas, na

p~eira metade do século passado talvez mais numerosas nas

casas-grandes e nos sobrados patriarcais do Norte do que nos

do Sul, exerceram uma ação revolucionária que não deve de

modo nenhum ser esquecida ou desprezada. Também elas al-

teraram a culinária patriarcal da região, acrescentando-lhe

delicados sabores do Norte da Europa. Também elas altera-

ram o sistema de relaçÓes entre senhores e servos sendo, como




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