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esse desenvolvimento no sentido de revolta precoce e a Ûsmo.

No sentido, atÚ certo ponto, anti-social-a travessura, o roubo

de fruta dos sftios dos lordes, o furto de doce e de bolo dos tabu-

#

leiros das "baianas" e das quitandas dos portugueses, as pedradas



nas vidraþas dos sobrados, a caricatura de muro e de parede,

onde era, muitas vezes, o mulatinho, mais afoito que o preto,

quem riscava a carvão ou mesmo a piche safadezas, desenhos de

¾rgãos sexuais,.calungas obscenos, palavrÓes. Os muros das casas-

608 Gs.sExro FxnE

I  ³  -grandes de sÝtio, as paredes dos sobrados, ficavam Ós vezes imun-

" " das de porcarias riscadas por esses caricaturistas mulatos e pretos

dos mucambos, cuja raiva, consciente ou não, þlas casas lordes

tambÚm se exprimia no hßbito de muleques, mendigos e malan-

dros, de fazerem .dos umbrais de portÓes ilustres, das esquinas

de sobrados ricos, dos cantos de muros patriarcais, mict¾rios e

Ós vezes atÚ latrinas. Os donos de alguns sobrados viram-se mesmo

obrigados a colocar semicÝrculos .de ferro com espigÓes, em torno

;' dos umbrais de portÓes, espigÓes que completavam os muros

¾uriþados de cacos de vidro como defesa da casa nobre contra

a plebe da rua, da habitaþÔo patriarcal contra os desrespeitos ou

os rancores do indivfduo sem eira nem beira.

O mulato livre de cidade, geralmente filho de imigrante por-

tuguÛs ou de imigrante italißno, crescia nesse ambiente de maior

antagonismo entre mucambo ou casebre de palha e sobrado gran-

de, entre cortiþo e casa assobradada de chßcara-ambiente que

mal chegava a conhecer, na meninice, o mulato de enSenho ou

de fazenda, tão beneficiado, quando n¾ serviþo domÚstico, por

! uma mais doce confraternizaþÔo entre os dois extremos: os se-

nhores e escravos. Beneficiados pela seleþão de cor e de traþos

pela qual se aristocratizavam desde pequenos os escravos mais

jeitosos, mais vivos, mais inteligentes, mesmo quando não eram

filhos de senhores: os mulatinhos que se tornavam ciscÝpulos dos

padres capelães e atÚ dos mestres-rÚgios, dos seminßrios, das fa-

culdades, as despesas correndo por conta dos senhores brancos.''

De modo que foi ao acentuar-se a predominÔncia, na paisagem

brasileira, do contraste de sobrados com mucambos, que se acen-

tuou, entre n¾s, a presenþa de negros e pardos como inimigos

de brancos.

Impressionado com o n·mero de negros e pardos no Brasil

-principalmente nas cidades-e com a possibilidade dos brasileiros

I natos, irritados com a Metr¾pole, se aliarem com eles, negros,

sobrepondo assim-pode-se hoje observar-o sentimento de região

ao de raþa e mesmo ao de classe, Ú que Ara·jo Carneiro obser-

vava em 1822 . . . a critica situaþão do Brazil com a immensidade

de Negro que ali abunda", pois "huma vez irritados os Brazi-

leiros" poderiam "por ultimo e desesperado recurso chamal-os

[aos Negros] a seu soccorro, e redusir-se aquelle vasto e rico

paiz ao estado da ilha de S. Domingos". Esse reparo, fÛ-lo H. J.

d'Ara·jo Carneiro, no seu Brazil e Portugal ou fte f lexÓes sobre o

i Estado Actual do Brazil, publicado em 1822.'g

Do assunto jß se ocupara Francisco Soares Franco em Ensaio

snbre os Melhoramentos de Port'ugal e do Brazil publicado em

1821, onde reconhecera: "A casta preta, he hoje a dominante no

Brazil",'s isto Ú, dominante pelo n·mero. DaÝ sua sugestão para

SosRxnos E Mvcsos - 2.░ ToMo 609

que se estimulasse a mestiþagem e se favorecesse o mestiþo, desen-

volvendo-se a emigraþÔo de europeus e proibindo-se a impor-

taþão de negros. Os brancos substituiriam os negros nas cidades

marÝtimas, jß nos ofÝcios, jß no serviþo domÚstico, enquanto os

pretos se concentrariam nos sertÓes nos trabalhos de minas e plan-

taþÓes. Apelava para o legislador no sentido de que os mestiþos

não pudessem legalmente casar senão com indivÝduos de "casta

branca ou India", promovendo-se assim o "baldeamento" dos mes-

tiþos na "raþa branca". No Brasil, pensava ainda Franco que não

se devia consentir "tão grande numero de celibatarios", pois o sol-

teiro era em geral-escreveu Ó pßgina 19 daquele seu ensaio-indi-

vÝduo "desprezado dos vinculos saciaes". AlÚm do que todos de-

viam contr buir legalmente para q·e os descendentes de africanos

se baldeassem na raþa branca.

TambÚm noutro ensaio da Úpoca, Portugal e o Brazil, escre-

vera Francisco d'Alpuim de Meneses que o brasileiro, "despro-

vido de machinas para o penoso serviþo de seus engenhos, esta-

belecimento primordial do seu paiz", vira-se na necessidade de

#

"se fazer servir por escravos, inim´gos Ýmplacaveis do seu senhor".



E superiores ao n·mero de senhores, numa proorþÔo, pelo me-

nos, de seis para um. Sendo assim, era impossmel ao brasileiro

viver independente de "uma Potencia europea que lhe afianþasse

a obediencia destes escravos".bo

Foi, assim, de pavor a atitude de grande parte de brancos-prin-

cipalmente europeus-no Brasil da Úpoca em que se processou a

independÛncia polÝtica da atÚ entãQ col¶nia portuguesa. Conside-

ravam alguns impossÝvel essa independÛncia se nÔo se cuidasse de

conseguÝr, contra o elemento africano, a proteþão de uma otÛncia

europeia, ou de assegurar-se, no novo Estado, a preponder ncia do

elemento europeu. No desenvolvimento de novo elemento que não

fosse nem africano nem europeu mas a combinaþão dos doÝs e

de mais um terceiro, o indÝgena-numa palavra, o mestiþo-Ú que

estava, porventura, a soluþão, alißs entrevista não s¾ pelos homens

do gÛnio de JosÚ Bonifßcio como pelo bom senso dos simples Soa-

res Franco. Soluþão para a qual vinham, alißs, concorrendo desde

remotos anos a lÝtica social da Metr¾pole e a da pr¾pria Igreja

 ,


com exceþão, talvez, dos JesuÝtas. A esse respeito são significativas

ocorrÛncias como aquelas que se encontram em velhos cronistas

do Brasil ainda colonial.

Refere, por exemplo, Melo Morais Filho, ter sido nomeado para

comandar a milÝcia de pardos, no Rio de Janeiro colonial, certo

portuguÛs branco, contra quem manifestou-se o batalhão pelo fato

de ser o nomeado, branco e europeu. Ao ter ciÛncia dessa atitude

dos seus comandados, o portuguÛs reuniu, em banquete, a oficia-

lidade, e, em discurso eloq³ente, declarou-se descendente de afri-

Sosr.snos E Mvc.saos - 2.░ ToMo 611

canos l Parece ter bastado tal declaraþão para tornß-lo pardo para

o efeito de merecer a confianþa dos comandados. De modo que

não era s¾ de "raþa parda" que se passava arbitrariamente Ó

"branca"; tambÚm da branca se passava do mesmo modo, Ó "parda",

contanto que o deslocamento correspondesse Ó conveniÛncia, para

o indivÝduo, de interesse polÝtÝco ou social de domÝnio.

Pardo por natureza, o Pedroso que pela sua condiþão prestigiosa

de "comandante das armas", desejoso de napoleonicamente empol-

gar todo o poder-e não apenas o militar-tornou-se lÝder da insur-

reiþão de pardos e pretos na cidade do Recife em 1823, não neces-

sitou de declarar-se "descendente de africanos" para merecer a

confianþa daquela parte considerßvel e trepidante da populaþÔo.

Sua situaþão de pardo claro, com prestÝgio militar, permitia-Ihe

pender para qualquer dos extremos: para a "classe branca" e domi-

nadora e para a "classe parda e preta", que, dominada, estava

então s8frega para se impor pelo n·mero como o verdadeiro Brasil

independente. O ms., que se encontra na Biblioteca Nacional, do

traslado da devassa daquela insurreiþão, conhecida por "motins

de fevereÝro", indica quanto era forte nos insurretos o ßnimo de

raþa oprimida, nem sempre fßcil de separar-se do de classe ou

regiÔo explorada.

Com efeito, chegaram os insurretos a faltar com o "respeito a

mulheres brancas", como consta da pßgina 22 do traslado da de-

vassa. A prender numerosos europeus. A gritar que "toda esta

terra pertencia mais a elles pretos e pardos do que aos brancos".

Claras manifestaþ¶es de sentimento nÔo s¾ de raþa como de classe

e de região revoltadas. Pois o que estß implicado em tais atitudes

e declaraþÓes Ú que a pretos e pardos devia pertencer a terra

brasileira; e não a brancos, muito menos a europeus, isto Ú, bran-

cos de outra região. A um dos revoltosos ouvira uma das teste-

munhas, cujo depoimento aparece ß pßgina 30 do traslado, que

"prezentemente negro nem mulato não era CÝdadão que o havia

de ser". A Pedroso aclamaram os insurretos "Pai da Patria". Pai

de uma pßtria de que negros e mulatos fossem cidadãos. Mas pai:

paternalismo. Patriarcalismo. A forma patriarcal dominante na

organizaþão da vida brasileira era forte demais para que a des-

prezassem insurretos como os congregados durante dias, Ó sombra

dos sobrados senhoriais do Recife, em redor da figura, ao mesmo

tempo revolucionßria e patriarcal, do pardo Pedroso-militar na-

pole¾nico de quem um dos mais "intimos conselheiros" exa certo

bacharel de ¾culos, ao que parece pardo como ele: "hum tal

#

Advogado dos Oculos chamado Jacintho Surianno Moreira da



Cunha". A verdade, entretanto, Ú que para muitos daqueles

pretos e pardos revoltosos, os, pais biol¾gicos eram seres desco-

812 GII.BERTO FREYRE

nheþidos, sociologicamente superados por "tios" e "pais" fictfcios;

e as mães, as realidades.

Referimo-nos na introduþão a este ensaio ao maternalismo como

traþo caraterÝstico da formaþão social e da formaþão do carßter

("ethos") do brasileiro. Devemos aqui acentuar: do brasileiro

de mucambo ou de senzala e não apenas do de sobrado ou casa-

-grande, isto Ú, de z‗nas socialmente marcadas pelo poder quase

absoluto do pai biol¾gico alongado em pai sociol¾gico.

Naquelas outras zonas (mucambos e senzalas) caraterizadas mui-

tas vezes pelo desconhecimento do pai biol¾gico, a figura domi-

nante como poder familial e, atÚ certo ponto, polÝtico, foi a do

"pai" ou do "tio", isto Ú, do tio sociol¾gico, sem que essa expressão

patriarcalista prejudicasse o culto da figura materna encarnad

na mÔe bi‗l¾gica, em alguns casos alongada em substituto de

pai, isto Ú, de provedor das necessidades de alimento, vestußrio

,

educaþão, ete., do filho ou dos filhos de pai desconhecido ou



ausente e de "tio"-tio sociol¾ ico-apenas p at¶nico ou para efei-

tos, quase sempre vagos ou g' usos, de centro de solidariedade

familial segundo modelo ou ins iraþÔo africana. O historiador

Rocha Pombo, em sua Hist¾ria  Brasil, recorda que, entre ne-

gros livres de cidades brasileiras, ou negros, na sua maioria,

de mucambos, vigorou esse tipo de patriarcado de inspiraþão

¾u modelo africano, em que o negro mais velho da coznunidade

tomava o nome de "pai" e os apenas idosos, os nomes de "tios"

sendo os indivÝduos da mesma idade, "irmÔos" ou "malungos".62

L. Couty, no seu L'Esclavage au BrÚstl, registra o carßter ma-

ternal de famÝlias que conheceu no Brasil, entre as mesmas ca-

madas de populaþão: filhos que s¾ conheciam a mãe, Ýgnorando

os pais biol¾gicos.sg Eram criados pela mÔe. De algumas dessas

se sabe que fizeram dos filhos doutores ou bacharÚis; e o con-

seguiram vendÞndo doces ou frutas em tabuleiro ou quitanda,

cozinhando em casas ou sobrados de ricos, ou, menos puritana-

mente, aceitando o amor de brancos opulentos que as enchiam

de regalos. Parte desses regalos Ú que as mais profundamente

maternais souberam destinar ß educaþão de filhos, principalmente

daqueles mais brancos que elas, mães. Esses filhos mais brancos

que as mÔes, Wetherell, na cidade de Salvador, notou serem objeto

de orgulho materno das negras.

Tais contradiþÓes entre maternalismo-que nÔo deve ser nunca

confundido com matriarcalismo propriamente dito (Ó maneira do

que faz, a nosso ver, distinto ensaÝsta e pesquisador brasileiro,

o Sr. Joaquim Ribeiro)-e patriarcalismo, foram freq³entes na

formaþão social do Brasil, colorida em suas intimidades por mais

de uma sobrevivÛncia africana que aqui se comportou como uma

espÚcie de adjetivo com relaþão ao substantivo, ou de conte·do

SosRnos E MvceHssos - 2.░ ToMo 813

etnol¾gico-facilmente perecÝvel-com relaþão Ó forma sociol¾-

gica-perdurßvel ou constante. Esta foi sempre no Brasil escra-

vocrßtico o poder patriarcal, mesmo quando exercido por mulher:

mulher-homem ou mulher substituto de homem. Dessexualizada,

portanto.

DaÝ os africanismos desse gÛnero-isto Ú, relacionados com a

organizaþão familial-surpreendidos, entre n¾s, pelo olhar arguto

de um dos maiores africanologistas do nosso tempo, o Professor

M. J. Herskovits, que defende com vigor a tese de sobrevivÛncias

africanas em ritos de união de sexos e de organizaþÔo de famÝlia

no Brasils' contra o igualmente notßvel africanologista norte-ame-

ricano que Ú o Professor F. Frazier.¾¾ Para o Professor Frazier

aqueles ritos dissolveram-se todos no Brasil nos ritos europeus.

No Recife, o africanologista brasileiro Professor RenÚ Ribeiro, em

pesquisa sobre amasiados= On the Amaziado Relationship and

Other Aspects of the Family in Recife, Brazil"se-encontrou ele-

mentos favorßveis Ó tese Herskovits, isto Ú, a de que o concu-

binato entre gente de cor constitui, de ordinßrio, famÝlia estßvel,

distinguindo-se assim do concubinato europeu. Tese tambÚm

#

apoiada pelo soci¾logo francÛs, jß tão familiarizado com assuntos



brasileiros, em geral e afro-brasileiros, em particular, que Ú o

Professor Roger Bastide. Para o Professor Roger Bastide-e este

Ú o ponto que espe.cialmente nos interessa-o negro livre, isto Ú,

o negro, quase sempre, de mucambo, ao deixar as senzalas rurais

pelas cidades, inclinou-se a refazer a "grande famÝlia" de estilo

africano, com as classes por idade de indivÝduos: "grande famÝlia"

cuja existÛncia em cidades carateristicamente brasileiras foi recor-

dada, como jß vimos e como assinala o pr¾prio Professor Roger

Bastide, pelo istoriador Rocha Pombo. Para o l·cido soci¾logo

francÛs o que devemos admitir Ú que a famÝlia afro-brasileirß, ao

refazer-se nas cidades-isto Ú, nos mucambos e casas tÚrreas de

negros livres, artesãos, 'operßrios, quitandeiros, etc.-reviveu-os-

aos ritos africanos de relaþ¶es sofais de filhos com "mÔes", " ais",

"tios", "irmÔos,",-reinterpretados em "termos europeus".  ß tese

que o Professor Roger Bastide defende no seu recente estudo

Dans les AmÚriques Noires: Afrique ou Europe?"57

Foi, talvez, no sistema ao mesmo tempo patriarcal, maternal

e fraternal de "grande famÝlia", africano, com "pais" e "tios" in-

vestidos de poderes de direþão decorrentes da idade, da expe-

riÛncia ou da sabedoria adquirida com o temp.o-e não da con-

diþão econ¶mica-e irmãos ou "malungos" unidos por solidarie-

dade de idade ativa-e não por serem filhos biol¾gicss do mesmo

pai ou mÔe comum, ou de ambos-que se inspirou, por um lado,

o movimento conhecido por insurreiþão ou revoluþão dos "alfaia-

tes" ou dos "pardos" que, no fim do sÚculo XVIII, pretenderam

614 Gff.sExTo FxExx

fundar no Brasil a "Republica Bahinense". Movimento, por oubrn

lado, inspirado em idÚias igualitßrias e republicanas-fraternalistas,

em uma palavra-francesas, a ponto de se ter tornado notßvel

como expressão ░de "francezia". Com efeito, do depoimento de

um dos conspiradores, o pardo JosÚ FÚlix, consta que "a cauza

de quererem reduzida a Republica este continente era para evitar

o grande furto que o Principe faz a Praþa desta Cidade", defi-

niþão de um dos principais do movimento, que tambÚm dissera

i a revolu ão " ara res irarmos livres: ois

a Fehx ser necessßr a þ p p p

vivemos sujeitos, e por sermos pardos não somos admittidos a

accesso algum e sendo Aepublica ha egualdade entre todos". De-

poimento incluÝdo nas "devassas e sequestros" da "Inconfidencia

da Bahia em 1798", publicados nos Anais da Biblioteca Nacional

do Rio de Janeiro.¾8

De outro insurreto ou conspirador, João de Deos, "pardo alfaiate

com loja na rua direita de Palacio",6s se sabe que usava, para se

distinguir dos opressores portugueses e contrariß-los no trajo e não

apenas nas idÚias, "huns chinelins com bico muito cumprido e

a entrada muito baixa, e calþoens tão apertados que vinha muito

descomposto"; e quando alguÚm estranhara seu modo de trajar

respondera: "calle a boca, este trajar he Francez, muito breve-

mente verß vossa merce tudo Francez". Tão ostensivamente fran-

cÛs era nas idÚias e no trajo esse revolucionßrio antiportu uÛs que

Ana Romana Lopes do Nascimento, mulher parda forra e quem

joÔo fora amigo, ao perguntar a causa da sua prs¾ão, soubera que

' por estar mettido em historias de Francezia . De modo que

o movimento foi complexo como complexa seria a chamada Re-

volta Praieira na cidade do Recife, meio sÚculo depois: ambos

fraternalistas no sentido de terem sido movimentos de oposiþão

ao poder absoluto de autocratas que, para indignaþão dos homens

obrigados a andar a pÚ, na Bahia do sÚculo XVIII, se faziam

conduzir em palanquins dourados e, no Pernambuco da primeira

metade do sÚculo XIX, em carruagens com lanternas de prata;

ambos antilusitanos ou antieuropeus-exceþão feita na Franþa da

═' RevoluþÔo, considerada messiÔnica, e idealizada em pßtria uni-

versal dos insurretos a ponto de atÚ pardos se dizerem `francezes"

;

í;



ambos solidaristas ou, a seu modo, socialistas, no sentÝdo de aspi-

rarem a "e aldade geral" dos homens: "a chimerica doutrina

da egualda Ú geral sem distincþão de cores", como vem dito no

"termo da conclusÔo" contra os inconfidentes baianos.sl

#

i Era -aspiraþão dos mesmos insurretos ou conspiradores verem



' os comandos das tropas de linha e, naturalmente, outros postos

de direþão, preenchidos nÔo exclusivamente por pretos ou par-

dos mas "sem distincþão de qualidade e sim de capacidade", como

se lÛ na "denuncia publica jurada e necessaria, que dß o CapitÔo

Sosxanos E Moearisos - 2.░ ToMo 815

do Regimento Auxiliar dos homens pretos Joaquim Joze de Santa

Anna cazado morador na rua de João Pereira com loja de cabel-

leleiro na rua do Corpo Santo de fuã,o homem pardo com tenda

de alfaiate na rua direita de Palacio e de todos os mais partici-

pantes da confederßþão por ella projectada".s2 Desejavam os "re-

publicanos" baianos que nem a raþa nem a classe nem a região

de origem que davam "qualidade" ao indivÝduo, no Brasil, fossem

condiþÓes dc sua ascensão aos postos e situaþÓes importantes e

sim sua "capacidade". Apressavam-se em ver realizado no PaÝs

o que lentamente vinha jß acontecendo, que era ßquela ascensão

de valores por meio da capacidade, isto Ú, da inteligÛncia, do

saber, da bravura dos indivÝduos, a despeito de sua raþa, de sua

classe e de sua região de origem tenderem para a sua estagnaþão

entre os elementos servis ou secundßrios da sociedade.

"

Quando a origem, as alianþas, as riquezas ou o mÚrito pessoal



permitem a um mulato ambicionar um lugar"-escreveu Rugen-

das-"Ú muito raro, e pode-se mesmo dizer que não ocorre nunca,

que sua cor ou a mistura do seu sangue se tornem um obstßculo

para ele. Seja ele embora muito escuro Ú registrado como branco

e nesta qualidade figura em todos os seus papÚis, em quaisquer

negociaþÓes e estß apto a ocupar qualquer emprego".s3 E jß escre-

vera: "Existem, no Brasil, regimentos de milÝcia inteiramente for-

mados de mulatos e nos quais não são os brancos recebidos; em

compensaþão a lei impede que se admita um mulato nos regi-

mentos de linha. Mas os motivos que expusemos acima fazem

com que muitos mulatos se introduzam neles, mesmo entre os ofi-

ciais, o que acontece tanto mais freq³entemente quando são pre-

cisamente as famÝlias ricas, as cons deradas, as que se acham no

Brasil hß mais ternpo, as que mais se misturaram; sem que a cir-

cunstÔncia tenha prejudicado de modo aigum sua nobreza, sua

dignidade e suas pretensÓes aos cargos militares." Pois os casa-

mentos de brancos com mulheres de cor, "comuns nas classes

mÚdias e inferiores", observavam-se algumas vezes "nas classes

mais elevadas". Quando mulher branca de famÝlia rica e consi-

derada, desposava homem de cor muito escura, havia algum escÔn-

dalo: porÚm "espanto" mais do que "censura". E Rugendas gene-

raliza, numa exata compreensão da superaþão do sentimento de

raþa pelo de classe e pelo de região: "Em igualdade de condiþÓes

a cor escura e o sangue africano são preteridas mas um branco

das classes mais elevadas tampouco se uniria a uma mulher branca

de baixa categoria."s'

Se os "rapazes europeus, quando agradßveis de aspecto e com

alguma prßtica de comÚrcio", conseguiam facilmnte os "ricos

casamentos com mulheres de cor", a que se refere ainda Rugen-

das, Ú que os europeus formavam uma "classe", no Brasil colonial

GILHERTO FREYPE

e dos prÝmeiros anos da IndependÛncia, que se julgava suerior,

i i " por ser composta de europeus do Reino ou da Metr¾pole senti-

 ' f mento de "região" e não apenas de "raþa"), a brancos nascidos

no Brasil-simples col¶nia-mesmo quando econ¶mica, cultural e

socialmente superiores, estes brasileiros natos, Óqueles adventÝcios.

Pretensão a que desde os dias coloniais resistiram brancos, nas-

cidos jß no Brasil, opondo aos adventÝcios seu tradicional desdÚm

,

por "marinheiros'.



Se Ú certo que a "arianizaþÔo"-como diria um discÝpulo mais

retardado do soci¾logo Oliveira Viana-daquela parte da socie-

!:═ dade brasileira de ori em, em parte, africana ou negra, verificou-

-se principalmente pe a união do mestiþo claro e valorizado pela

cultura intelectual ou pela bravura militar, com a moþa branca

I,. . ,


ou do homem branco com a mestiþa clara e valorizada pela beleza

ou pela riqueza, tambÚm sucedeu qne, "por exageraþão de idÚias

#

ro.nÔnticas', brancos se ligassem com crÝaturas escandalosamente



escuras ou mesmo pretas. Ou que se dramatizassem situaþÓes de

apaixonados, pertencentes a raþas ou classes diversas, a ponto de

terminarem seus amores avermelhados pelo sangue do assassÝnio

ou do suicÝdio. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Fernando

Brßs Tinoco da Silva que, em 1856, suicidou-se na Fazenda de

Santa Cruz, no Maranhão, tendo apenas 18 anos de idade. Era

moþo "de talento e estudioso", diz a notÝcia do seu suicÝdio no




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