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e o diÔmetro bicristiliaco (Ýndice radiopÚlvico de Lapicque) de

vßrios grupos de nossa populaþão, recolhidos pelos Professores

( Roquette-Pinto e Froes da Fonseca, Bastos de ┴vila e Ermiro

´.

` Lima.


Os cabeleireiros e barbeiros foram outros que nem sempre con-

seguiram dar Ó barba e ao penteado dos bacharÚis mulatos Ó

'! cabeleira crespa ou mesmo um tanto zangada das sinhß-donas

uadraronas-ßs vezes noras

q de mscondes-as mesmas flexÓes e as

mesmas formas que Ó barba loura, que ao cabelo ruivo, que ao

bigode castanho ou preto, mas d¾cil ao pente, dos brancos e dos

 I ''. quase-brancos. AtravÚs de retratos e daguerre¾tipos do sÚculo

XIX, quase se pode afirmar dos cabeleireiros e barbeiros fran-

; '. ceses-que desde o comeþo do sÚculo foram aparecendo com lojas

i elegantes no Rio de Janeiro, no Recife e na ca ital da Bahia-que

#

! desenvolveram, no Brasil, composiþÓes de penteados de mulher



e feitios de corte de barba de homem adaptadas Ó situaþão antro-

pol¾gica dos mestiþos de indÝgena e mesmo de africano que, sob

, o reinado de Dom Pedro II, jß tinham se tornado numerosos

I ,' na melhor sociedade. Algumas fotografias da Úpoca Ú o que pa-

recem indicar, sendo curioso que em certos retratos de mulher

o penteado de cabelo evidentemente amerÝndio Ú composto mais

k

Ó espanhola do que Ó francesa; ou mais Ó oriental do que Ó



i

europÚia. São sinhß-moþas que nos surgem das fotografias e dos

daguerre¾tipos com um ar chinÛs ou malaio acentuado pela forma

do cabelo: não tÛm que ver mulheres polinÚsias, o penteado

parecendo combinar, numas com o oblÝquo dos olhos, em outras

com certo arregalado do olhar que o sangue ßrabe ou norte-

-africano, reunido ao mdio ou ao branco, ou aos dois, parece dar

a algumas fisionomias brasileiras. Alißs o historiador paulista J. F.

de Almeida Prado surpreendeu alguma coisa de vagamente ma-

laio, como a acusar sangue mdio, embora remoto, na fotografia

de sinhß-dona pernambucana (Wanderley de 1870) que publi-

camos em ensaio anterior.gs

Diante de muitos dos antigos retratos de sinhß-donas e sinhß-

-moþas de casa-grande ou de sobrad¾ brasileiro Ú vivÝssima a

impressão de estarmos em face não de europÚias, mas de ti os

pol nÚsios, melanÚsios, malaios, hispano-ßrabes e indianos de mu-

lheres ou de moþas de classe ou casta alta. Impressão que nos

comunica não s¾ a forma dos olhos, o pr¾prio modo de olhar-tão

pronto a acusar mestiþagens-como o trajo-e nÔo foi pequeno 0

n·mero de vestidos do Oriente importados pelo Brasil durante

a primeira metade do sÚculo XIX, como jß destacamos em capÝ-

SosRnos s MvceMsos - 2.░ ToMo fi01

tulo anterior-a armaþão ou a disposiþão oriental ou semi-oriental

do cabelo. No que talvez interviesse a arte do cabeleireiro francÛs,

tirando partido de elementos um tanto rebeldes a estilos europeus

de penteado e proc·rando harmonizar o cabelo com o rosto. Va-

lendo-se ßs vezes da Asia para contemporizar com a Africa.

A mulata ao natural, ou enfeitada e artificializada pela arte do

cabeleireiro francÛs, do sapateiro inglÛs, da modista parisiense, do

perfumista europeu-e cremos que povo nenhum no mundo che-

ou a abusar tanto de perfumÚs europeus como o mulato brasi-

eiro, talvez para combater a chamada inhaca ou o odor de negro,

alißs apreciado por eertos brancos voluptuosos-sempre teve o seu

q·indim para o branco.

TambÚm o teve para a mulher branca o mulato brasileiro,

se não ao natural-a tradiþÔo guarda a lembranþa de crimes raros

mas terrÝveis causados por sinhßs brancas que em momentos de

grande ardor se entregaram a escravos mulatos-quando aristo-

cratizado pela educaþão, sobretudo a educaþão na Europa, como

no caso do Dr. Raimundo do romance de AluÝsio. A moda euro-

pÚia de pentear-se, de calþar-se e vestir-se, acentuaria no mes-

tiþo a esquisita seduþão que a AluÝsio' Azevedo pareceu ter sua

sede nos olhos e que para outros estß sobretudo nesse modo de

sorrir, agradando aos outros, tão do mulato; tÔo do "brasileiro

simpßtico" de que fala o Professor ilberto Amado. Tão do servo,

em eral, com relaþão ao senhor, nos sistemas escravocrßticos bem

equgibrados pela acomodaþão entre os seus vßrios elementos.

O mando desenvolve n¾s senhores vozes altas e nos servos falas

brandas e atÚ macias quase sempre acompanhadas de sornsos

tambÚm doces.8' Alißs, tanto com relaþÔo ao sorriso como Ó fala

e ao gesto, o sistema patriarcal de escravidão, dominante l¾ngo

tem no Brasil, parece ter desenvolvido no escravo e, por inter-

mÚd o deste, no descendente mulato, modos agradßveis que vi-

nham do desejo dos servos de se insinuarem Ó simpatia, quando

não ao amor, dos senhores. Assunto por n¾s versado noutro dos

nossos ensaios.gs Aqui apenas recordaremos que o abraþo, hoje tÔo

do ritual brasileiro da arpizade entre homens, e de origem, ao

que parece, oriental ou indiana, quando acompanhado pelas pal-

madinhas convencionais nas costas, tomou entre n¾s calor, passou

de gesto apolÝneo a dionisÝaco, por influÛncia do mulato: da sxu-

berÔncia de sua cordialidade.

#

A mulata, pela sugestÔo sexual nÔo s¾ dos olhos como do modo



de andar e do jeito de sorrir, alguns acham atÚ que dos pÚs,

porventura mais nervosos que os das brancas e os das negras;

dos dedos da mão, mais sßbios que os das brancas, tanto nos

cafunÚs e nas extraþÓes de bichos-de-pÚ nos sinh8-moþos como

no·tros agrados afrodisÝacos; do sexo, dizem que em geral mais

602 G.saxro FxzxnE

adstringente que o da branca; do cheiro de carne, afirmam cÚt'tos

volutuosos que todo especial na sua provocaþão-Ó mulata, por

todos esses motivos, jß se tem atribuÝdo, um tanto precipitada-

mente e em nome de ciÛncia ainda tão verde e em comeþo como

a sexologia, uma como permanente "superexcitaþão sexual", que

faria dela uma anormal; e do ponto de vista da moral europÚia

e Cat¾lica, uma grande e perigosa amoral. No que chegaram a

acreditar entre n¾s dois homens ser³ssimos, um de ciÛncia, outro

de letras: Nina Rodrigues e JosÚ VerÝssimo. O bom senso popular,

a sabedoria folcl¾rica, tantas vezes cheia de intuiþÓes felizes, mas

outras vezes convicta de inverdades profundas-de que a terra

Ú chata e fixa, por exemplo; o bom senso popular e a sabedoria

folcl¾rica continuam a acreditar na mulata diab¾lica, superexci-

tada por natureza; e não pelas circunstÔncias sociais que quase

sempre a rodeiam, estimulando-a ßs aventuras do amor fÝsico

c,omo a nenhuma mulher de raþa pura-melhor defendida de tais

excitaþ¶es pela pr¾pria fixidez de sua situaþão social, decorrente

da de raþa, tambÚm mais estßvel.

Por essa superexcitaþÔo, verdadeira ou não, de sexo, a mulata

Ú procurada pelos que desejam colher do amor ffsico os extremos

de gozo, e não apenas o comum. De modo que tambÚm esse

aspecto psicol¾gico nas relaþ¶es entre os homens de raþa pura e

as mulheres de meio-sangue, deve ser destacado como elemento,

em alguns casos, de ascensão social da mulata. Talvez tenha sido

o fator de alguns casamentos de brancos jß idosos, cinq³ent¶es

de famÝlia ilustre-filhos de barÓes e bem situados na vida-com

mulatas, quadrarunas e octorunas bonitas vestindo-se com jeito

de brancas mas com a aparÛncia ou a aura de ardÛncia sexual

fora do comum que lhes dß a circunstÔncia de serem mestiþas.

Esses casos se tÛm verificado em nosso meio e talvez neles, ou

em al ns deles, estivesse pensando Bryce quando comparou o

escÔn ßlo social causado entre n¾s pelo casamento de senhor

fino e branco com moþa não de todo branca, sua pinta de sangue

negro acusando-se nas feiþÓes, no cabelo ou na cor, com o escÔn-

dalo que provoca na Inglaterra o casamento de um gentleman

com simples criada.ss Surpresa a princÝpio, mas depois acomoda-

þão Ó união desigual não s¾ pela diferenþa de idade como de

situaþão social entre os c8njuges.

Apenas no Brasil, sendo a mestiþa clara e vestindo-se bem,

' comportando-se como gente fina, torna-se branca para todos os

efeitos sociais. Sernpre, entretanto, ou quase sempre, porÚm,

acompanha-a a aura de mulher mais quente que as outras-que

as brancas finas, principalmente-expondo-a a maiores audßcias

do donjuanismo elegante e a maiores riscos de conduta nas suas

relaþÓes com os homens.

Sosn.snos E Mvceasaos - 2.░ Tohso 603

A mesma aura cerca a figura do mulato: o "cabra sarado" do

folclore, o "mulato bamba", o "mulato escovado", o "mulato sa-

cudido", o "mulato bicho-cacau". Correm boatos sobre vantagens

de ordem fÝsica que ' fariam dele ou do negro o superior do

branco puro e louro no ato do amor. Vantagens ainda mais con-

cretas que as de natureza prißpica atribuÝdas Ó mulata, em com-

paraþão com a branca fina, considerada mulher mais fria.

Se Ú certo que Hrdlicka, em estudo de antropologia compa

rada, atribui ao negro, em geral, superioridade no : amanho dos

¾rgãos sexuais, essa superioridade nem sempre se tem verificaa,

nas pesquisas regionais empreendidas entre grupos de indivÝduos

de raþa preta comparados com os de raþa branca. Ao contrßrio:

hß quem pense de modo diverso sobre esse aspecto 3e comra-

raþão de raþas de cor ou primitivas com a branca ou civilizada.'░

LÚon Pales, depois de investigaþão realizada na Africa Francesa

e resumida no seu trabalho "Contribution ß I'Etude Anthropoiv-

gique du Noir en Afrique Equatoriale Franþaise", em m' nero

#

recente de L'Anthropologie ( tomo XLIV ), contesta as alegaþÓes



de Prumer Bey ( 1860 ), Duckworth ( 1904 ) e Kopernicki ( 1871 ),

talvez os autores que mais contribufram para a lenda "d'une grarr

deur ext'raordinaire, desmesurÚe, du penis chez le nÞgre". Pales

enconÓou realmente negros de "penis volumineux, h¾rs des pro-

portions habituelles", mas sem constitufrem a mÚdia, o tÝpico, o

normal dos homens de sua cor, tanto mais quanto-lembra o

pesquisador-"il y a des blancs qui n'ont rien Ó leur envier sous

ce rapport". Davenport no estudo comparativo de pretos e par-

dos com brancos, que realizou na Jamaica, não se ocupou infeliz-

mente do assunto, talvez por p·ndonor anglo-saxanio; entre n¾s,

um mÚdico do tempo do ImpÚrio voltado para estudos desse

gÚnero chegou, talvez precipitadamente, Ó conclusão de ser ░o

penis do af icano [ . . . . ] geralmente voiumoso, pesado, quando

em placidez; ganhando pouco em dimensÓes quando em orgasmo ,

sem atingir a "completa rigidez". DaÝ "a fecundaþão quase impro-

vßvel do negro coabitando com a mulher de raþa branca..."4'

Entretanto baseia-se em parte na crenþa na superioridade fÝsica

do macho, acrescida de certo gosto pelo diferente, pelo bizarro

atÚ, o interesse sexual da mulher branca pelo mulato e mesmo

pelo ne ro. Crenþa que vem de longe. No primeiro capÝtulo das

Mil e ma Noites-recordava hß anos em The Spectator'z Owen

Berkeley Hill-jß se encontra um caso nÝtido de atraþão sexual

exercida sobre mulher fina por homem de raþa primitiva e escura.

E o Tenente-Coronel Berkeley Hill salienta o fato de o negro

desempenhar papel saliente na vida sexual dos turcos, dos per

sas, dos hindus, dos parisienses, como que atraÝdos por indivÝduos

de raþa mais escura e porventura mais elementar nas suas reaþÓes

804 Gn.sExTo FxxxE

 o nervosas e mais vigorosa fisicamente que a sua. O mesmo papel

desempenhara o negro, segundo SÛneca, em carta a LucÝlio, na

vida dos romanos antigos, jß muito chegados, os homens, ao culto

da VÛnus fusca, as mulhÞres, Ó admiraþão volutuosa pelos ma-

chos de cor. De onde o grande n·mero de negros de um e outro

sexo introduzidos em Roma.

Para Berkeley Hill arece evidente que tanto o homem como

a mulher, mas esecia ente a mulher, a branca e fina, a fÛmea

que ele chama tipo racialmente superior" ("a racially superior

type) Ú "suscetÝvel de tornar-se presa da mais forte atraþÔo sexual

por indivÝduo de tipo racialmente mais primitivo". DaÝ, furioso

ci·me ou inveja sexual do macho de raþa adiantada com relaþão

ao de raþa primitiva, que explicaria, junto com motivos de ordem

econ¶mica, oertos ¾dios de raþa. Principalmente da parte do ma-

cho branco com relaþão ao macho de cor. Para contrariar o en-

canto do macho negro sobre a mulher branca, o branco civilizado

teria procurado desenvolver uma aura de ridÝculo e de grotesco

em volta do preto e da sua primitividade e-pode-se acrescentar-

uma aura de antipatia em torno do mulato, tÔo acusado de falso

ou inconstante na afeiþão, de incapaz de igualar-se ao branco

em verdadeiro cavalheirismo e na autÛntica elegÔncia masculina;

para não falar na inteligÛncia, no seu sentido mais nobre e com

todas as suas qualidades mais s¾lidas de equilÝbrio, de discÚrni-

mento e de poder de concentraþão, que seriam-para os crÝticos

do mulatismo-raramente atingidos pelos meio-sangues, ou pelos

" negros puros: Os meio-sangues apresentariam sobre estes apenas

a vantagem de um brilho mais fßcil na expressão verbal e talvez

! na plßstica.

; Esta não foi, entretanto, a observaþão dos Beneditinos, frades

argutos que, no Brasil, andaram sempre a fazer experiÛncias de

genÚtica com os seus escravos para chegarem ß conclusÔo, no

sÚculo XVIII, de que os melhores, os mais dotados de inteligÛncia

e de talento, eram os mulat¾s. Sir George Stauton, que aqui pas-

sou com Lord Macartney a caminho da China, nos meados da-

quele sÚculo, ouviu dos frades do Mosteiro do Rio de Janeiro

os maiores elogios ß inteligÛncia dos mulatos por eles ÝnstruÝdos

nas pr¾prias artes hberais. E citavam-Ihe o exemplo de um mu-

lato que acabara de ser escolhido para reger importante cadeira

em Lisboa.'g

Os JesuÝtas tambÚm estimularam o cruzamento nas senzalas

de suas fazendas. Cruzamento de caboclo com escravo. De Ýndio

#

com negro: Nas fazendas loyolistas-salienta o historiadar Ribeiro



' Lamego-"deu-se o cruzamento mais intenso de etÝopes e amerÝn-

í

dios, tÔo difÝcil, dada a repulsa destes por aqueles".'4 Nesses cru-



zamentos que encheram as senzalas dos JesuÝtas de cafuzos e

i

SosRnos s MvceMsos - 2.░ ToMo 605



curibocas, alguns crÝticos da obra dos padres julgam encontrar

a intenþão mal dissimulada de aumentarem a massa escrava pela

absorþÔo do sangue Ýndio-sendo o Ýndio um elemento mais fßcil

dos padres adquirirem do que o negro e menos comercializado.

O que Ú certo Ú que não se encontra evidÛncia nenhuma de inte-

resse dos JesuÝtas pela elevaþão intelectual ou social do negro

e do mulato, que os adres parece terem quase sempre evitado

nos seus colÚgios e ate nas suas senzalas. Interesse demonstrado,

entretanto, pelos Beneditinos.

A estes repita-se.-devemos no Brasil experiÛncias de genÚtica,

cujos resultados tÛm tido as interpretaþ¶es mais diversas. Se no

fim do sÚculo XVIII, Stauton, baseado nas informaþ¶es dos pr¾-

prios padres, destacava nos mulatos dos mosteiros-alguns dos

quais os religiosos fizeram subir das senzalas a cßtedras e a res-

ponsabilidades intelectuais na pr¾pria Metr¾pole-inteligÛncia

igual ß dos brancos, anos depois, agitado entre os mÚdicos do

ImpÚrio o problema da mestiþagem, um deles, e dos mais sßbios,

o Dr. Nicolau Joaquim Moreira, em trßbalho sobre o cruzamento

das raþas encarado ao mesmo tempo pelo lado antropol¾gico e

pelo Útico, invocaria a favor da degradaþÔo do mulato o exemplo

da fazenda de Campos, tambÚm dos Beneditinos-de proliferaþão

mista pouco extensa -em contraste com outra fazenda dos mes-

mos padres, a de Camorim, "fundada hß quase trÛs sÚculos",

escrevia o mÚdico em 1870, e ainda com "uma populaþão negra,

homogÛnea e vigorosa, aumentando de inteligÛncia e modificando

seu crÔnio que se aproxima hoje ao da raþa caucßsica".''s

A experiÛncia referida-a conservaþão, pelos frades, de escra-

varia negra, tanto quanto possÝvel pura, numa das suas grandes

fßzendas, em contraste com as outras, onde se estimulou o cruza-

mento do branco com o preto-Ú das mais interessantes, sugerindo-

-nos a conveniÛncia de se tentar o estudo dos remanescentes de

populaþ¶es negras, ainda em 1870 consideradas tão homogÛneas.

E ^digno da maior atenþão Ú o reparo do Dr. Moreira quanto ao

cranio vir se modificando em populaþão apresentada como tÔo

pura e homogÛnea. No que talvez se antecipasse numa das pos-

smeis interpretaþÓes dos resultados das experiÛncias de Franz

Boas com imigrantes europeus nos Estados Unidos.

Quanto ao aumento de inteligÛncia", Ú provßvel que resultasse

de estÝmulos sociais a que os negros teriam sido submetidos de

modo todo particular na fazenda dos Beneditinos, talvez os mais

doces senhores de escravos que teve o nosso PaÝs. Fora casos par-

ticularÝssimos como o da experiÛncia beneditina, a esses estÝmulos

foram expostos mais largamente, no Brasil escravocrßtico, os

mulatos mais claros que os negros mais escuros. DaÝ-em grande

parte, pelo menos-a fama que criaram os mulatos, de mais inte-

GILHERTO FREYRE

I ' u ligentes-embora mais cheios de defeitos morais-do que os pretos.

Aqui como nos Estados Unidos verificou-se não s¾ a ascensÔo do

mulato escravo, dentro das cßsas-grandes, onde eram os prefe-

ridos para pajens e mucamas, como do mulato livre, nas cidades

e na Corte. Sua urbanizaþão foi mais rßpida que a do negro livre,

em conseq³Ûncia da seleþÔo social se dirigir sempre no sentido

não s¾ do indivÝduo de pele mais clara e de aparÛncia mais euroÀ

pÚia, como de formaþão ou traquejo tambÚm mais europeu.

Ainda que alguns senhores-isto desde o tempo de Pombal-

conservassem em casa escravos mais brancos do que eles, repita-

-se que a tendÛncia no Brasil foi no sentido de se favorecer a

alforria dos indivÝduos de formas mais caucßsicas e de pele mais

clara e cabelo mais pr¾ximo do castanho ou do louro. Alguns

indivÝduos de origem escrava, assim favorecidos, não raro con-

seguiram passax, em cidades distantes da sua, por brancos de

ascendentes livres. Os an·ncios de negros fugidos constantemente

referem casos de escravos mulatos "muito poetas no falar", "pa-

#

cholas", "ret¾ricos", "cabelo cortado Ó francesa", ou então "capa-



' d¾cios e polfticosp, cuja ast·cia estava sobretudo em se fazerem

passar por livres. Os de pele mais clara e traþos, vamos dizer,

mais "arianos", mais finos, indivÝduos criados na maior intimidade

dos brancos nas casas-grandes e nos sobrados, melhor simulavam

a condiþão de livres. No trajo, tambÚm, al ns não tinham que

" ver brancos: chapÚus europeus, botinas, coete e atÚ guarda-sol,

insÝgnia burguesa de autoridade. Não Ú de admirar que vßrios

desses ex-escravos tivessem encontrado oportunidade de rßpida

ascensã‗ social, alguns tornando-se brancos para todos os efeitos.

Com o sÚculo XIX, e o desenvolvimento das cidades, as ci-

dades maiores tornaram-se o "paraÝso dos mulatos" a que jß se

referira um cronista do sÚculo XVIII. Os meios ou ambientes

I ideais para a ascensão rßpida dos mais simpßticos e mais hßbeis,

principalmente quando valorizados pelo saber tÚcnico ou acadÛ-

mico. Fato semelhante jß acontecera com os judeus em cidades

! como o Rio de Janeiro: entrÚ eles e os cristãos-velhos desde o

sÚculo XVIII quase se acabara a antiga distinþÔo, lembra Gastão

I

Cruls Ó pßgina 304 do volume I do seu AparÛnciu do Rio de



Janeiro ( Rio de aneiro, 1949 ) .

O mulato brasi eiro, dizia D'Assier em 1867 que era mais um

produto das cidades e das fazendas do litoral que do interior mais

afastado ou do sertÔo.'s E suas funþÓes, aquelas que o Ýndio não

desempenhava, por ser muito indolente, o negro por não ter a

i precisa inteligÛncia, o branco para não descer da sua dignidade.

'. i Assim ele era principalmente o soldado, o alfaiate, o pedreiro.

Os mulatos desde o comeþo do sÚculo comeþaram a sair em

grande n·mero dos "quadros", dos "cortiþos" e dos "mucambos ,

Sosx.nos E Mvc.ssos - 2 ░ Tobro 80?

onde imigrantes portugueses e italianos mais pobres foram se

amigando com pretas ou pardas. Não s¾ por nenhuma repugnÔncia

sexual desses europeus pelas negras, ou pardas, ao contrßrio,

talvez por encontrarem nelas algum pegajento encanto sexual,

como pelo fato-jß salientado neste ensaio-das pretas, principal-

mente as Minas, representarem considerßvel valor econ8mico:

mãos de lavadeira, de boleira, de doceira, de cozinheira, de fabri-

1 cante de bonecas de pano, capazes de os auxiliar nas suas pri-

meiras lutas de imigrantes pobres. Os imigrantes portugueses e

italianos, tÔo numerosos nos meados do sÚculo XIX, sobretudo nas

cidades, tornaram-se, assim, grandes procriadores de mulatos.

Esses mulatos foram os de vida mais difÝcil, os que, muitas

vezes, se esterilizaram em capad¾cios, tocadores de violão, va-

lentÓes de bairro, capangas de chefes polÝticos, malandros de

beira de cais, as mulheres, em prostitutas, faltando-lhes as faci-

lidades que amaciaram os esforþos de ascensão intelectual e social

de muitos dos mulatos de origem rural com sangue aristocrßtico

nas veias. Sobre eles, mulatos nascidos e criados em mucambos

` e cortiþos, agiu poderosamente o desfavor das circunstÔncias so-

ciais, predispondo-os ao estado de flutuaþão e de inadaptaþão

aos quadros normais de vida e de profissão, ao de inconstÔncia

no trabalho, ao de rebeldia a esmo-estados, todos esses, social-

mente patol¾gicos, que tantos associam ao processo biol¾gico de

miscigenaþão. Nesses mulatos, a mß orIgem era completa e para

todos os efeitos sociais: ilÝcita a união de que resultavam; social-

mente desprezfveis os pais; socialmente inferior o meio em que

nasciam e se criavam-cortiþos, "cuadros", mucambos. De um

desses meios-o cortiþo-deixou Almsio Azevedo no seu Q Cortiþo

um retrato disfarþado em romance que Ú menos ficþão literßria

que documentaþão sociol¾gica de uma fase e de um aspecto

caracterÝsticos da formaþão brasileira.

╔ verdade que o meio urbano mais trepidante-"a rua"-com

que desde cedo se punham em Ýntimo contato os muleques-mu-

leques ainda mais drferenciados de meninos brancos dos sobrados

que os das bagaceiras dos engenhos, dos sinhozinhos das casas-

-grandes; Ú verdade que o meio urbano mais trepidante acelerava

neles o desenvolvimento de certos aspectos da inteligÛncia. Mas




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