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n¾rdicos em sua configuraþão intelectual e no seu pr¾prio htcmour.

AluÝsio Azevedo deixou-nos em romance- verdadeiro "documento

humano" recortado da vida provinciana do seu tempo, segundo

a tÚcnica realista que foi um dos primeiros a seguir entre n¾s-

meticuloso retrato de bacharel mulato educado na Europa. De

volta ao Maranhão, "o mulato" desperta um grande amor em

moþa branca. Moþa de sobrado. Moþa de famÝlia cheia de precon-

ceitos de branquidade. A familia queria que a moþa se casasse

com portuguÛs-jß estando escolhido um, branco feio e cujo tipo

contrastava com o fino, eugÛnico e asseado do mulato. Este não

era, alißs, nenhum pobretão. Herdara do pai e pudera vÝajar pela

Europa depois de formado. Dß-se, entretanto, o choque desse

amor romßntico com os preconceitos sociais-talvez não tanto pro-

vocados pela cor do bacharel como pelo fato de ser ele filho de

escrava, negra de engenho. Negra que ainda vivia, embora maluca,

mulambenta, vagando pelo mato.

Os preconceitos de branquidade, de sangue limpo-o fato teria

ocorrido no meado do sÚc lo XIX-quem os tinha mais vivos na

famÝlÝa, era a av¾ da moþa, senhora de formaþão ainda colonial.

"Pois olha"-diz ela Ó moþa= `se tivesse de assistir ao teu casa-

mento com um cabra, juro-te por esta luz que estß nos iluminando

que te preferia uma boa morte, minha neta! porque serias a pri-

meira que na familia suja o sangue!" E para o genro: "Mas creia,

seu Manuel, que se tamanha desgraþa viesse a suceder, s¾ a vocÛ

a deverÝamos, porque no fim de contas, a qnem lemhra meter em

casa um cabra tão cheio de fumaþas como o taI doutor das d·-

Sosnxvos a Mvc.amos - 2.░ Toaso 593

zias?. . . Eles hoje em dia são todos assiml Dß-se-lhes o pÚ e tomam

a mãol Jß não conhecem o seu lugar, tratantesl Oh, meu tempo,

meu tempol que não era preciso estar cß com discuss¶es e polf-

ticasl Fez-se de besta?-Rua! A porta da rua Ú a serventia da

casal E Ú o que vocÛ deve fazer, seu Manuel. Não seja pamonhal

#

despeþa-o por uma vez para o sul, com todos os diabos do in-



fernol e trate de casar sua filha com um branco como elal"22

Se em sociedade, o bacharel mulato, retratado no romance de

Alufsio, era por todas as famflias ilustres da capital do Maranhão

recebido com constrangimento, com frieza atÚ, em particular "via-

-se provocado por vßrias damas solteiras, casadas e vi·vas, cuja

leviandade chegava ao ponto de mandarem-lhe flores e recados".23

A atraþão sexual do mulato exercendo-se sobre as brancas mais

finas do lugar, a despeito dos escr·pulos de branquidade contra

ele. Atraþão de que se conhecÚm vßrios exemplos no Brasil, em

circunstÔncias semelhantes, famos dizendo idÛnticas, ßs do romance

de AluÝsio.

Era de fato um mulatão bonito o Dr. Raimundo, her¾i do ro-

mance. Alto, cabelo um tanto crespo, mas de um preto lustroso;

a pele amulatada, mas fina; os olhos, grandes e azuis-azul que

uxara do pai; o nariz direito; a fronte espaþosa; o pescoþo largo;

dentes claros que reluziam sob a nerura do bigode". Para ser

completo o perfil antropol¾gico que ai se traþa de mulato eugÛ-

nico-corpo com todo o chamado "vigor do hÝbrido"-falta refe-

rÛncia Ós orelhas, que não se diz se eram pequenas e bem-feitas;

e aos beiþos, que ficamos sem saber se seriam grossos. Falta

tambÚm referÛncia aos pÚs e ßs mÔos; e Ó proporþão dos braþos

e das pernas com relaþão ao corpo. O que sabemos Ú que nesse

mulato fino, por quem se apaixonaram , tantas. senhoras brancas

,

talvez enjoadas dos maridos alvos ou pßlidos, a quem se entre-



gavam jß sem gosto, no silÛncio das noites quentes do MaranhÔo,

sobre as enormes camas de jacarandß das alcovas dos sobrados,

os traþos mais caraterfsticos da fisionomia eram os olhos: gran-

des, ramalhudos, cheios de sombras azuis: pestanas eriþadas e

negras, pßlpebras de um roxo vaporoso e ·mido, as sobrancelhas

muito desenhadas no rosto, como a nanquim.. "2''

Pelo perfil psicol¾gico que dele se traþa-e diz-se que AluÝsio

não inventou o seu Dr. Raimundo, mas fotografou-o do vivo,

quase sem retoques, segundo o seu mÚtodo e o da sua escola-

não era nenhum novo-culto ou arrivista intelectual, querendo bri-

lhar todo o tempo, como tantas vezes o bacharel mulato, por mo-

tivos, talvez, sociais, como adiante havemos de sugerir. Ao con-

trßrio: homem de gestos s¾brios, a voz baixa, vestindo-se com

sobriedade e bom gosto, amando as ciÛncias, a literatura e, um

pouco menos, a polÝtica. No comportamento, quase um mulato

5s4 czo F

 IM

Ó Machado de Assis-menos o acanhamento doentio, excessivo;



ou então Ó DomÝcio da Gama-o "mulato cor-de-rosa", como na

u

intimidade chamava o Eþa de Queiroz ao discreto e polido diplo-



mata brasileiro.

Esses mulatos cor-de-rosa, alguns louros, olhos azuis, podendo

passar por brancos em lugares onde nÔo soubessem direito sua

origem, nÔo foram raros no Brasil do sÚculo XIX. A favor da trans-

ferÛncia deles do n·mero dos, escravos para o dos livres ou da

sua ascensÔo social, de "pretos" pßra░' brancos", houve sempre

poderosa corrente de o inião, ou antes, de sentimento. Isto desde

o sÚculo XVIII. Em 17p3 jß um alvarß del-Rei de Portugal falava

de pessoas "tão faltas de sentimento de Humanidade e de Reli-

gião" que guardavam, nas suas casas, escravos mais brancos do

que elas, com os nomes de pretos e de negros. Walsh ficou im-

pressionado com os escravos louros e de olhos azuis que viu no

Brasil nos princÝpios do sÚculo XIX-alguns deles bastardos, filhos

' de senhores estrangeiros que os vendiam por excelentes preþos.25

E PerdigÔo Malheiro, no seu ensaio sobre a escravidão no Brasil

,

destaca a tendÛncia, que foi se acentuando entre os senhores. de



escravos mais liberais, para alforriarem de preferÛncia os mulatos

mais claros,2e que eram tambÚm os escolhidos para o serviþo do-

mÚstico mais fino e mais delicado. Os mais beneficiados pelo

contato civilizador e aristocratizante com os sinh8s e as sirihßs.

DaÝ, talvez, o n·mero considerßvel de mulatos eugÛnicos-ou,

" principalmente, eutÛnicos-e bonitos, de rosto e de corpo, valori-

#

zadÝssimos pelos senhores, que se encontram nos testamentos e



inventßrios do sÚculo XIX. Ou que passam pelos an·ncios de

escravos fugidos, nas gazetas coloniais e do tempo do ImpÚrio.27

í

Uns de "ar alegre", outros com ░physionomia de quem soffre░



;

ou então, como a estranha Joana, de um an·ncio de 1835, no

Dißrio de Pernambuco, "bem alva; cabellos soltos, jß asseme-

lhando-se a branca"-com alguma coisa de misterioso no seu

passado que o anunciante não 'ousava dizer de p·blico: s¾ em

particular Ó pessoa que a conservasse em casa. Vßrios os mulatos

e ßs mulatas alvas e bonitas, de estatura alta, de dentes perfeitos,

mãos e pÚs bem-feitos, mas "os braþos compridos". Talvez com-

pridos demais em relaþão ao corpo, o que viria comprovar a idÚia

de assimetria do mestiþo, particularmente do mulato, sustentada

por alguns antrop¾logos, entre outros Davenport.2s Um desses

mulatos claros, quase brancos, encontramos, adolescente de de-

zoito anos, alvo, de estatura alta, os tais braþos compridos, ca-

', belos corridos e pretos, mãQs e pÚs bem-feitos e cavados, olhos

pardos e bonitos, sobrance¤has pretas e grossas, de "dedos finos

e grandes, sendo os dois mÝnimus do pÚ bastante curtos e finos".

Vßrios altos, bem-feitos de corpo, mas os pÚs, ao que parece exa-

Sosnos E Mocasaos - 2 ░ ToMo 595

geradamente compridos; e os dedos da mão, tambÚm. Algumas

mulatas puxando a sararß, cabelo carapinho e ruþo, cor alvacenta,

todos os dentes, o corpo regular, pernas e mãos muito finas. 

considerßvel o n·mero de sararßs, cabras, cafuzos, mulatos de

cabelo liso ou cacheado ou encarapinhado, mas ruþo e atÚ arrui-

vado ou vermelho, cue passam pe os an·ncios de jornais, da pri-

meira metade do seculo XIX. E se alguns sÔo mulatos doentes,

³pos cacogÛnicos-mulatas com "boubas nas partes occultas", ca-

bras com sÝfilis, pardos eom dentes podres, mulecotes com peitos

de pombo, sararßs com os ombros arqueados dos tuberculosos-a

maioria dos mestiþos que se deixam identificar pelos traþos, tão

realistas, de escravos fugidos-ßs vezes verdadeiros perfis antro-

pol¾gicos e psicol¾gicos-sÔo figuras eugÛnicas ou eutÛnicas: ho-

mens e mulheres altos, bem-feitos de"corpo, os dentes bons, aluns,

como "o mulato por nome Vicente , que aparece num anuncio

do Dtßrio de Pernambuco, do meado do sÚculo XIX, francamente

atlÚticos: boa estatura, rosto comprido, nariz mediano, as ventas

um tanto arregaþadas, espada·dos, faltando-Ihes apenas um dente

ou marcando-os apenas uma "coroa" de carregar peso ß cabeþa.

Não Ú raro destacar-se nos mulatos fugidos o tronco grosso

como o da maioria dos negros, em contraste com os pÚs pequenos

e os dedos da mÔo finos e compridos, como os de quase todos

os senhores. Dedos compridos como a pedirem anÚis de doutor ou

bacharel. Como a pedirem penas de escrivÔo, de burocrata e atÚ

de jornalista, punhos de espada de oficial, agulhas de costureiro

e de alfaiate, as cordas de boas violas de acompanhar modinhas,

espingarda de passarinhar, as rÚdeas de bom carro de cavalo.

Of cios e especializaþÓes a que alguns deles conseguiram subir,

não s¾ pelo prestÝgio da inteligÛncia-mais plßstica e ßgil que a

dos negros de naþão, perdidos, no Brasil, em meios tão diversos

da rifrica, onde nasceram e se criaram-e das feiþÓes do rosto-

mais pr¾ximas das dos brancos-como por essas suas mãos de

dedos finos e compridos. Mãos mais aptas que as abrutalhadas e

r·sticas, da maioria dos negros, para os ofÝcios civis, polidos, urba-

nos. Para as tarefas delicadas.

Os pÚs, tambÚm, foram para o mulato um elemento de ascensão

social: pÚs compridos, bem-feitos, finos, "nervudos"-diz-se de

alguns que passam aristocraticamente pelos an·ncios, em forte

contraste com os pÚs de grande n·mero dos negros: esparramados,

espalhados, apapagaiados, de alguns repontando calombos, joa-

netes, dedos grandes separados; noutros, faltando o dedo min-

dinho ou o grande, talvez comido pelo ainhum; vßrios com aristim.

Os pÚs negros deviam ser particularmente rebeldes aos sapatos

e ßs botinas de molde europeu; Ós pr¾prias chinelinhas em que se

especializou, entre n¾s, o pÚ da mulata, o pr¾prio pÚ do mulato

598 Gu.szxro FxzxxE

I H

#

capoeira que teve sempre alguma coisa de danþarino e atÚ de



mulher. Quando o uso dos sapatos e das botinas-a princÝpio

elegÔncia quase somente de rein¾is-generalizou-se entre a aristo-

; cracia brasileira de homens e mulheres de pÚ pequeno, com-

preende-se a dificuldade dos pretos da Africa chamados boþais

para se acomodarem, quando pajens, ou mucamas, a esse ele-

mento aristocratizante e europeizante, tão contrßrio Ó configu-

raþão dos seus pÚs largos e chatos. Os mulatos, não; bem-feitos

de pÚ pelo critÚrio europeu-os pÚs finos e compridos-puderam

adaptar-se mais facilmente ao uso dos sapatos, que mais de um

I observador europeu repara ter se constituÝdo no BrasÝl do sÚculo

XIX num dos sinais de distinþão de classe: o indivÝduo calþado

em contraste com o descalþo ou de pÚ no chão.2s Pode-se acres-

centar tambÚm que num sinal de distinþão de raþa. Os pr¾prios

pretos bonitos, eIevados a pajens no serviþo domÚstico dos sobra-

dos ricos e vestidos pelos donos a rigor-chapÚu de oleado com

pluma, librÚ toda enfeitada de dourado, as mãos enormes cal-

þadas de luvas-andavam pela rua e dentro de casa, descalþos,

os grandes pÚs inteiramente nus. Descalþos, embora vestidos dos

pÚs para cima, Ú como os retrata Koster, num dos seus flagrantes

de rua colonial. Viu-os o inglÛs nas ruas do Recife, carregando

palanquins de brancas finas, das tais que quando mostravam a

j ponta do pÚ era um pezinho de nada, de menina pequena. Quase

um pÚ de chinesa. Quanto menor o pÚ, e mais fino, mais aristo-

cracia. Parece que não s¾ os escravos negros, como nem mesmo

i, ,, os portugueses de origem baixa e mÚdia, podiam rivalizar com os

senhores finos da terra no tamanho do Ú. Donde alcunhas

p que

Ihes foram dadas, aludindo ao abrutalhado dos pÚs, algumas das



quais por n¾s jß referidas-datam, talvez dos dias da guerra

chamada dos Mascates, entre a nobreza de Olinda e os mercadores

portugueses do Recife: "Marinheiros pÚ de chumbo", "calcanhares

"' de frigideira", uns; e outros, "pÚs rapados" ou "pÚs de cabra".

Quando a arte de sapateiro deixou de ser no Brasil uma indus-

triazinha semidomÚstica, das muitas que quando saÝram da som-

bra das casas- randes foi para florescer em patamar ou ao pÚ-de-

-escada de so rados, quase medievalmente; quando a arte de

sapateiro tornou-se uma ind·stria de fßbrica, e o fabrico, euro-

peu-a princÝpio, prÝncipalmente inglÛs-deve ter sido uma difi-

culdade considerßvel para os fabricantes, a falta de um pÚ mÚdio

' , brasileiro. ╔ verdade que por essa Úpoca o pÚ que se calþava

Ó botina era quase exclusivamente o pÚ fidalgo de casa-grande

ou o de doutor, bacharel ou burguÛs mais fino de sobrado-o pÚ

comprido e pequeno, que foi se tornando mais numeroso com a

ascensão social do mulato. Os portugueses de venda, de quitanda,

de loja pequena preferiam a comodidade dos tamancos; e jß alu-

Sosx.nos E Mvc.rssos - 2.░ Ton.ro 597

dimos a "marinheiros" que, por conveniÛncia do comÚrcio de escra-

vos, ou por outro qualquer motivo, tornaram-se senhores de enge-

nho e que atÚ a cavalo andavam de tamancos. A hist¾ria ane-

d¾tica do ImpÚrio fala mÞsmo de "barÓes de tamancos". Em con-

traste com os aristocratas de pÚs de moþa que atÚ decadentes e

andando dentro de casa de ceroulas e nus da cintura para cima,

conservavam as botas de montar a cavalo. Ou então as botinas

inglesas. Tal o caso-que outra vez recordamos-do velho Casusa

S8, de Pernambuco. Wanderley, gordo mas de pÚs pequenos; e

sempre metidos nas suas botas pretas de montar a cavalo, as

esporas de prata tilintando dentro de casa.s░

Nas gazetas dos tempos coloniais que examinamos jß comeþam

a aparecer an·ncios de sapatos estrangeiros. Sapatos ingleses e

franceses. Mas foi em 1822 que James Clark, dono, juntameirte

com o irmão, de uma fßbrica de calþado na Esc¾cia, montou na

Rua do Ouvidor sua loja de sapato, para vender no Brasil os pro-

dutos daquela fßbrica.gl O calþado escocÛs ganhou fama. Foi-se

tornando o calþado da gente mais polida-magistrados, advogados,

estudantes e tambÚm dos militares e atÚ de senhores ga·chos

,

homens pouco burgueses e muito r·sticos no trajo e no gosto



,

mas uns cavalheiros e atÚ uns fidalgos em questÔo de calþado.

#

Tanto que anos depois instalavam-se filiais no Rio Grande do



Sul-especializando-se, naturalmente, em botas de montar a ca-

valo-e não apenas na Bahia, em São Paulo e no Recife: as cidades

por excelÛncia dos doutores, dos bacharÚis, dos acadÛmicos, dos

senhores de terras mais aristocrßticos e mais cavalheirescos.

Faltam-nos elementos para julgar a orientaþão tÚcnica no fa-

brico de calþados adotada pelos escoceses da Clark com relaþão

ao Brasil, Ó medida que aumentou entre n¾s o uso de sapatos

depois do meado do sÚculo XIX. Vßrias devem ter sido as alte-

raþÓes de estilo ou de forma europÚia adotadas por eles para seu

calþado corresponder aos exageros de pÚ pequeno e de pe grande

entre n¾s; de pÚ aristocrßtico e de pÚ de negro-Ó roporþão que

foi sendo necessßrio calþar o negro soldado de exercito, soldado

de polÝcia, marinheiro, bombeiro, fuzileiro naval. O mais que

conseguimos saber em 1935, atravÚs de sondagem jnnto aos tÚc-

nicos da Clark, na qual nos auxiliou gentilmente o Professor Fer-

nando de Azevedo, Ú que se fabricava então um sapato de pouca

altura, de maior consumo entre as populaþÓes negr¾ides do I toral

do Norte. Gente de pÚ mais chato. Mais recentemente, porÚm,

apuramos que os mesmos tÚcnicos, baseados na ex riÛncia se-

cular da fßbrica paulista e certos de que "o calþado Úve ser bas-

tante flexÝvel para acompanhar a curva e o movimento dos pÚs

resolveram fabricar "atÚ 36 alturas e tamanhos diferentes para

um s¾ modelo", criando, ao mesmo tempo, para serviþo das lojas

I

1



sss cRTo F

da mesma fßbrica, um tipo de auxiliares especializados em tomar

"as medidas anat¶micas" dos pÚs dos fregueses para calþß-los na

sua largura e na sua altura exatas. Largura e altura variadÝssimas,

entre n¾s: desde que a meia-raþa foi se tornando classe mÚdia

obrigada a andar calþada, cresceu a necessidade de fabricar-se

sapato variadÝssimo na altura e largura.

Por o·tro lado, com a incorporaþÔo Ó burguesia e ao proleta-

riado brasileiros, de alemães, portugueses, italianos, espanh¾is

-gente de pÚ grande, mas de altura considerßvel-o pÚ brasileiro

deve vir se aproximando do standard de calþado europeu, em

vßrÝas zonas do litoral. O pÚ carateristicamente brasileiro pode-se

entretanto dizer que continua, em largos trechos do PaÝs, o pÚ

pequeno que o mulato tem certo garbo em contrastar com o gran-

da hão, do portuguÛs, do inglÛs, do negro, do alemão. O pÚ ßgil

mas delicado do capoeira, do danþarino de samba, do jogador

de f oot-batl pela tÚcnica brasileira antes de danþa dionisiaca do

que de jogo britanicamente apolineo.32

O chapÚu, tambÚm deve ter sofrido entre n¾s, quando sua indus-

trializaþão exigiu , padrÓes nacionais de tamanho, de forma e de

estilo e a populaþÔo consumidora deixou de ser apenas a reduzida

Úlite de senhores e burgueses finos, adaptaþão em mais de um

sentÝdo. No da predominÔncia de braquicÚfalos em certas ßreas;

no do grande n·mero de d¾licos, noutras ßreas. No meado do

sÚculo XIX jß havia negros, mestres de meninos, padres, enge-

nheiros, mÚdicos, sangradores-para não falar nos boleeiros e

nos pajens, aos quais os donos obrigavam a usar chapÚu alto ou

de oleado-que não dispensavam a cartola ou o chapÚu de feltro

dos brancos. Mas foi prÝncipalmente pela aþão do mulato que o

chapÚu deixou de ser privilÚgio do aristocrata ou do burguÛs

branco. Com o mulato bacharel Ú que se generalizou, entre n¾s,

o uso do chapÚu alto e de feltro da burguesia europÚia, a prin-

cÝpio s¾ dos brancos afrancesados ou dos brancos apenas tocados

de sangue indÝgena que trajavam pelos modelos europeus. O mu-

lato bacharel cgmeþou a esmerar-se ou requintar-se mais que o

branco em tralar-se ortodoxamente ß europÚia.

Alfred Mars aÝnda conheceu um Brasil onde o chapÚu de palha

"manilha" e a roupa de pano nanquim, feita em casa, eram de

uso corrente entre os grandes da terra mais independentes das

modas ÚuropÚias.33 Tendo se desembaraþado dos veludos e das

sedas dos primeiros sÚculos coloniais esses aristoeratas r·sticos

vinham se adaptando por inteligÛncia ou por intuiþão Ós condi-

þÓes de clima quente e de vida nos tr¾picos. Com a ascensÔo

do bacharel e do mulato, interrompeu-se a adaptaþão. O trajo

#

reeuropeizou-se segundo estilos mais burgueses e mais urbanos.



Roupas, como chapÚus e calþados, passaram a ser importados da

SosRnos  Mvc.rssos - 2.░ Torso 599

Europa para crescente n·mero de europeizados, acentuando-se

a tendÛncia para os senhores da terra abandonarem o artigo

oriental e mesmo o indÝgena, pelo europeu. Os an·ncios de jor-

nais nos permitem acompanhar o aumento de tais importaþÓes

em face do crescimento do n·mero de europeizados: mestiþos e

não ßpenas brancos e quase-brancos a se vestirem como euro-

peus. Mestiþos a se esmÚrarem mais que os brancos nesse euro-

pefsmo de trajo, de calþado e de chapÚu.

Foi quando apareceram lojas como a do velho Armada, no

Rio de Janeiro, com chapÚus importados da Europa que foram

substituindo os de "manilha", de fabricaþão indÝgena e atÚ do-

mÚstica. ChapÚus europeus de todos os estilos e do material mais

diverso: de pel·cia, de seda, de castor, de fi═¾, de feltro, de

veludo, de cetim, de palha inglesa, de palha da Itßlia, de palha

de arroz. 0 pr¾prio Armada, entretanto, foi transigindo com as

condiþÓes do meio. Nos chapÚus do seu fabrico procurou adaptar

o estilo europeu ao clima brasileiro. E entre outras adaptaþÓes

Ihe atribuem a da guarniþão da carneira tubular no chapÚu de

seda de copa alta-o chapÚu tfpico do bacharel mulato e cujo

maior defeito er aquecer terrivelmente a cabeþa. Foi esse de-

feito atenuado pela penetraþão do ar, atravÚs da carneira do novo

tipo: um brasi eirismo. Atenuado tambÚm o excesso do peso do

chapÚu europeu pelo emprego de matÚria-prima mais leve e

mais de acordo com o clima a Outro brasileirismo:

Iria alÚm mestre Armada: iniciou o fabrico de chapÚus de

palha para o verão e para o campo, com a tibra de palmeira

do Parß. Esse reabrasi eiramento de material, tipo e forma do

chapÚu eur¾peu-sobretudo da cartola de bacharel como o abra-

sileiramento do-tipo e da forma da botina e do sapato burguÛs,

coincidiria com a maior ascensÔo do mestiþo, do mulato, do quase-

-negro e atÚ do negro em nosso meio social. Suas formas de

cabeþa e de pÚ foram encontrando maior facilidßde em suprir-se

de artigos europeus jß abrasileirados. Ou exigiram mesmo, mais

que as formas de cabeþa e de pÚ dos brancos, alguns desses abra-

sileiramentos. Ou brasileirismos.

TambÚm as alfaiatarias modificaram estilos e medidas euro-

ias de corte de fraque, 'de calþas e de croisÚs burgueses para

charÚis e doutores mulatos e atÚ negros. Para alguns, pelo me-

nos-certo que entre os nossos mestiþos e fulos aristocratizados

lo ambiente fino se notavam, alÚm de exuberÔncias de nßdegas

,

ÚsproporþÓes de comprimento e de grossura de braþos ou pernas



com relaþão ao corpo, que os an·ncios de escravos fugidos acusam

para numerosos mulatos, talvez inferiorizados pela situaþão social

de escravos. Dessas desproporþÓes, como efeito inevitßvel de hi-

bridizaþão-negadas por uns antrop¾logos, embora sustentadas por

I

soo GILBERTO FREYRE



outros como Davenport-ainda nÔo se fez entre n¾s nenhum

cuidadoso estudo antropomÚtrico. Apenas possuÝmos dados-e estes

interessantÝssimos-sobre a relaþão entre o comprimento do rßdio




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