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farnÝlias de engenho. Os desejados agora-mesmo com risco da

economia patriarcal, de que alguns genros se tornariam puros

parasitas, e da pureza de raþa das famÝlias matutas, que outros

genros maculariam-eram bacharÚis e doutores, nem sempre fa-

zendo-se questão fechada do sangue rigorosamente limpo. Sa-

liente-se, entretanto que a ascensão social do bacharel, quando

mulato evidente, s¾ raramente ocorreu de modo menos dramßtico.

4

Em mais de um caso de bacharel casado em famÝlia rica o·



poderosa-sobretudo famÝlia poderosa, de engenho ou de fazenda-

ele Ú que se tornou o nervo polÝtico da famÝlia. No caso de João

Alfredo Correia de Oliveira em relaþão com o sogro, o BarÔo de

Goiana, sente-se essa ascendÛncia polÝtica do genro bacharel sobre

o patriarca senhor de engenho. Ao que tudo faz supor,  no inte-

resse da carreira polÝtica do genro bacharel Ú que a pr¾pria sede

da famÝlia transferiu-se de casa-grande de Goiana para sobrado,

tambÚm grande, do Recife, onde o sogro, belo, alto, olhos azuis,

mas um tanto amatutado, se tornaria figura secundßria ao lado

do bacharel de croisÚ bem-feito e modos urbanos, que guardava

no rosto de mestiþo traþos de linda e agreste amerÝndia que, na

meninice, ganhara o apelido de Maria Salta Riacho. Apenas o

neto de Ýndia agreste tornou-se ministro do ImpÚrio aos vinte

e tantos anos.

Tempos depois, jß tendo experimentado desenganos polÝticos,

JoÔo Alfredo lamentaria ter deixado a sombra da casa-grande de

engenho pelo sobrado de azulejo que ainda hoje brilha ao sol do

Recife ¾nde agasalha uma tristonha repartiþão militar. Mas era

tarde. ConvÚm, entretanto, não nos esquecermos que houve ba-

charÚis formados na Europa que, de volta ao Brasil, preferiram

a casa-grande de engenho do pai ou do sogro Ó vida na Corte

ou nas grandes cidades do litoral. O caso do Dr. Ant¶nio de

SosRanos E Mvcaos - 2.░ ToMo 585

Morais Silva, que sendo do Rio de Janeiro morreu senhor de

engenho em Pernambuco.

A ascensão polÝtica dos bacharÚis dentro das famÝlias, não foi

s¾ de genros: foi principalmente de filhos, como indicamos em

capÝtulo anterior. Se destacamos aqui a ascensÔo dos genros Ú

que nela se acentuou com maior nitidez o fen8meno da transfe-

rÛncia de poder, ou de parte considerßvel do poder, da nobreza

rural para a aristocracia ou a burguesia intelectual. Das casas-

-grandes dos engenhos para os sobrados das cidades.

O jß citado Professor Gilberto Amado, noutra de suas pßginas

inteli entes, refere-se Ó influÛncia que alcanþou na segunda me-

tade o sÚculo XIX, a "fulgurante plebe intelectual, dos doutores

pobres, jornalistas, oradores que de todos os pontos do Pafs sur-

giam com a pena, com a palavra e com a aþÔo, em nome do

pensamento liberal, para dominar a opinião". E acresoenta que

eles Ú que no eclipse das grandes famÝlias arruinadas em conse-

q³Ûncia da extinþão do trßfico e de outras causas acumuladas,

substituem aos poucos nos prÚlios partidßrios, os filhos dos se-

nhores de engenho, os viscondes, marqueses e bar¶es, aarecendo

no centro da arena Ó primeira luz da ribalta politica".

Jß aqui se assinala fen8meno um tanto diverso do que procura-

mos fixar. Diverso e mais recente: o da geraþão saÝda das Escolas

#

)ß para fazer a Aboliþão e a Rep·blica. Mas essa geraþão de



bacharÚis foi um prolongamento da outra: acentuou a substituiþão

do senhor rural da casa-grande, nÔo jß pelo filho doutor, nem

mesmo pelo genro de origem humilde, mas pelo bacharel estranho

que se foi impondo de modo mais violento: atravÚs de choques

e atritos com o velho patriciado rural e com a pr¾pria burguesia

afidalgada dos sobrados. Entretanto, a geraþão que fez a Rep·-

blica teve seus meios-termos burgueses entre a velha ordem eco-

n8mica e a nova. Mesmo alguns dos bacharÚis mais evidente-

mente mulatos e de origem mais rasgadamente plebÚia, como Nilo

Peþanha, representaram a acomodaþão entre os dois regimes.

Ne,n todos se extremaram em radicalismos, embora alguns viessem

a ostentar idÚias anticlericais e outros, certo republicanismo jaco-

bino, mais de rua do que de prßtica domÚstica. Mais de palavras,

nos discursos, do que de atos ou trajos cotidianos.

Nilo Peþanha ficaria a dever a alfaiate do Recife do seu tempo

de estudante, fraque ou sobrecasaca fina como qualquer moþo

fidalgo. Lopes Trovão se tornaria cÚlebre pelos seus discursos

jacobinamente republicanos mas tambÚm pela sua elegÔncia de

trajo e de aparÛncia: era de fraque e de mon¾culo que discursava

contra os autocratas do ImpÚrio. Joaquim Nabuco hegaria quase

ao socialismo, depois de se haver extremado no anticlericalismo e

roþado pelo pr¾prio republicanismo sem deixar nunca de ser nos

588 Gu.sxxTo FxExx

atos e-com alguns deslizes-no trajo, o mais fidalgo dos reci-

 fenses de sobrado, o mais elegante dos pernambucanos de casa-

-grande.


Jß Sylvio Romero escrevera que depois dos primeiros trinta

anos do ImpÚrio, durante os quais o Brasil-jß paÝs de mestiþos-

fora governado por um resto de Úlite de brancos= resto de gente

vßlida", diz ele, identificando como qualquer lapougiano a supe-

rioridade moral e o senso de administraþão e de governo com a

raþa branca-as condiþÓes se foram modificando com "as centenas

de bacharÚis e doutores de raþa cruzada",12 atirados no PaÝs pelas

academias: a do Recife, a de São Paulo, a da Bahia, a do Rio

de Janeiro. Mais tarde, pela Escola Militar, pela PolitÚcnica.

; O sagaz sergipano parece ter compreendido, tanto quanto 0

Professor Gilberto Amado, o fen¶meno que nestas pßginas pro

curamos associar ao declÝnio do patriarcado rural no Brasil a

transferÛncia de poder, ou de soma considerßvel de poder, da

═  aristocracia rural, quase sempre branca, não s6 para o burguÛs

intelectual-o bacharel ou doutor ßs vezes mulato-como para o

militar-o bacharel da Escola Militar e da PolitÚcnica, em vßrios

casos, negr¾ide. Mas aqui jß se toca noutro aspecto do problema

que foge um pouco aos limites deste estudo: a farda do ExÚrcito,

os gal¶es de oficial, a cultura tÚcnica do soldado, a carreira mi-

! litar-sobretudo a hÝbrida de militar-bacharel-foi outro meio de

acesso social do mulato brasileiro. E Ú possÝvel que se possa

ampliar a sugestão: a atividade polÝtica, no sentido revolucionßrio,

das milÝcias ou do ExÚrcito Brasileiro-ExÚrcito ou milÝcias sem-

pre um tanto inquietos e trepidantes desde os dias de Silva Pe-

droso, mas, principalmente, desde a Guerra do Paraguai-talvez

venha sendo, em parte, outra expressão de descontentamento ou

insatisfaþão do mulato mais inteligente e sensitivo, ainda mal-

-ajustado ao meio.

A Marinha que, atÚ recentemente, atravÚs de dissimulaþÓes, de

pretextos de ordem tÚcnica os maÝs sutis, conservou fechados de

modo quase absoluto, ao mulato e mesmo ao caboclo mais escuro,

os postos de direþão, sua aristocracia de oficiais formando talvez

a nossa mais perfeita seleþÔo de quase-arianos, tem sido, como

, se sabe, o oposto do ExÚrcito. Dominada ainda mais do que a

Igreja-entre n¾s tambÚm trabalhada, embora não tanto como no

MÚxico, pela insatisfaþão do padre pobre e do padre mestiþo

contra o padre rico ou o padre fidalgo-pelo espÝrito de confor-

midade social, ou pela mÝstica de respeito Ó autoridade, sua ·nica

revoluþão foi, na verdade, uma contra-revoluþão. O her¾i do mo-

vimento, um dos brasileiros mais brancos e mais fidalgos do seu

tempo: Saldanha da Gama. Enquanto do lado oposto, um oficial

do ExÚrcito, tipo do caboclo sonso e desconfiado, cÚiebre por

Sosx.nos s Mvc.sos - 2.░ Toa.zo 587

#

seu trajar amatutado e pelos chinelos tambÚm de matuto com



que descansava os pÚs das botas militares, foi quem encarnou a

nova ordem polÝtica estabelecida por bacharÚis e doutores unidos

a majores e capitães, não tendo sido poucos, nesse grupo revolu-

cionßrio, os hÝbridos não s¾ de sangue como de vocaþão: os ca-

pitães-doutores, os majores-doutores, os coronÚis-doutores. Os

bacharÚis-militares.

 fßcil de compreender a atraþão do mestiþo pela farda cheia

de dourados de oficial do ExÚrcito. Farda agradßvel ß sua vai-

dade de igualar-se ao branco pelas insÝgnias de autoridadÞ e

de mando e, ao mesmo tempo, instrumento de poder e elemento

de forþa nas suas mãos inquietas. São insÝgnias que desde os pri-

meiros anos do sÚculo XIX passam pelos an·ncios de jornal com

brilhos ou cintilaþÓes sedutoras para os olhos dos indivÝduos so-

ciologicamente meninos ou mulheres que se tornam ßs vezes os

mestiþos na fase de ascensÔo para os postos de autoridade ou

comando conservados por brancos ou quase-brancos como privi-

lÚgie de casta superior identificada com raþa pura.

O Conde de Valadares, em Minas, organizara ainda na era co-

lonial regimentos de homens de cor com oficiais mulatos e pretos.la

Um desprestÝgio para a melhor aristocracia da terra. A1 ßs, nos

tempos coloniais, chegara a haver sargento-mor e atÚ capitão-mor

mulato; mulato escuro, atÚ, como o que Koster conheceu em Per-

nambuco. Mas esses poucos mulatos que chegaram a exercer, nos

tempos coloniais, postos de senhores, quando aristocratizados em

capitães-mores, tornavam-se oficialmente brancos, tendo atingido

a posiþão de mando por alguma qualidade ou circunstÔncia excep-

cional. Talvez ato de heroÝsmo, aþão brava contra rebeldes. Tal-

vez grande fort³na herdada de algum padrinho vigßrio. Quando

o inglÛs perguntou, em Pernambuco, se o tal capitão-mor era

mulato-o que, alißs, saltava aos olhos-em vez de lhe respon-

derem que sim, perguntaram-Ihe "se era possÝvel um capitão-mor

ser mulato'.14

O tÝtulo de capitão-mor arianizava os pr¾prios mulatos es-

curos poder mßgico que não chegaram a ter tão grande as cartas

de bacharel transformadas em cartas de branquidade; nem mesmo

as coroas de visconde e de barão que Sua Majestade o Imperador

colocaria sobre cabeþas nem sempre revestidas de macio cabelo

louro ou mesmo castanho. Sobre cabeþas cujas origens foram Ós

vÛzes mais do que plebÚias. De um desses nobres chegou-se a

dizer que nascera de mulher de cor, alcunhada-jß o recordamos-

Mariu-vocÛ-me-mata, pÚla ardÛncia em que, nos seus dias de

moþa, fizera os homens seus amantes se extremarem no gozo

do sexo.l¾

588 Gu.szxro Fxxz

Verificaram-se casos semelhantes nos Estados Unidos. Em certo

velho burgo do Estado de . .. . nos foi um dia apontado-isto jß

hß largos anos-indivfduo ilustre admitidn e atÚ cortejado na

sociedade branca mais fina e mais exclusivista do lugar, e de

quem entretanto se sabia ter ascendente africano, embora remoto.

Numa terra em que a simples suspeita de tal ascendÛncia basta

para determinar o mais cruel ostracismo social, o caso nos pa-

receu espantoso. Esclareceram-nos, porÚm, que o indivÝduo em

questÔo tivera outro ascenderite-ou seria o mesmo negr¾ide?-

entre os her¾is mais gloriosos da guerra da IndependÛncia. O que

lhe arianizara a raþa e Ihe aristocratizara o sangue.

Que autros mestiþos no Brasil, semi-aristocratizados pelo posto

militar, não se sentiram tão confortavelmente brancos como 0

capitÔo-mor conhecido de Koster, prova-o o caso de Pedroso,

comandante de armas no Recife, em 1823, a quem mais de uma

vez nos referimos no correr deste ensaio. Pedroso fez da espada

de defensor da Ordem e do ImpÚrio instrumento rÚvolucionßrio.

E instrumento revolucionßrio, não a serviþo de alguma causa po-

lÝtica ou de simples levante de quartel, mas de um dos m_ovi-

mentos mais nÝtidos de insatisfaþão social de gente de cor qne'

jß ocorreram entre n¾s. Pedroso andava pelos mucambos, confra-

ternizando com os negros e os mulatos, bebendo e comendo com

eles. E por alguns dias não se cantou no Recife senão a quadrinha:

"Marinheiros e caindos

Todos deuem. se acabar

#

Porque s¾ pretos e pardos



O paÝs hão de habitar."

Nem se falou senão do Rei Crist¾vão e da Revolta de São Do-

mingos.ls

Esse mesmo sentimento de insatisfaþÔo talvez esclareþa, por

outro lado, a presenþa de bacharÚis mulatos, como Natividade

Saldanha, em movimentos revolucionßrios que talvez tenham cor-

respondido menos ao seu idealismo afrancesado de doutores e

de patriotas, que ao seu mal-estar quase fÝsico e certamente psÝ-

quico de mulatos; Ó sua insatisfaþão de indivÝduos mal ajustados

ß ordem social então predominante, com a Úlite branca, do tipo

encarnado por Guedes Aranha e Ant¶nio Carlos, querendo go-

vernar sozinha. Por outro lado, talvez, explique tambÚm a nota,

nÔo de clara revolta social, mas aparentemente de simples ressen-

timento mal dissimulado em tristeza romÔntica, em mßgoa indi-

vidual, em dor abafada de namorado infeliz, que se encontra em

alguns dos nossos maiores poetas do sÚculo XIX. Mulatos que

tendo se bacharelado em Coimbra ou nas Academias do ImpÚrio

Sosunos s Muc,sos - 2.░ ToMo

foram indivÝduos que nunca se sentiram perfeitamente ajustados

Ó sociedade da Úpoca: aos seus preconceitos de branquidade, mais

suaves que noutros pafses, porÚm não de todo inofensivos.

Tal o caso do grande poeta maranhense Dr. AntBnio Gonþalves

Dias. O tipo de bacharel  `mulato ou moreno . Filho de por-

tuguÛs com cafuza, Gonþalves Dias foi a vida inteira um inadap-

tado tristonho Ó ordem social ainda dominante num Brasil mal

safdo da condiþão de col6nia, quando a governadores do tipo

do Conde de Valadares, que se extremavam em presti ißr mu-

latos contra brancos da terra, se opunham capitães do geitio do

MarquÛs de Lavradio, que rebaixou de posto certo miliciano fndio

por ter casaßo com negra z O poeta caluzo loi uma erida sem-

pre sangrando embora escondida pelo croisÚ de doutor. SensÝvel

Ó inferioridade de sua oxigem, ao estigma de sua cor, aos traþos

uej¾ides ,ritado le semÚ d es'elfi0`. 1Q'Ztlb'ta e ge 5

mulatol" Pior, para a Úpoca e para o meio, do que ser mortal

para o triunfador romano. Ao oetanoobas¾O¾³

a imortß i ade literßria: seu desejo era tciuofa.c ta,mbÚm, Como

qualp ei mortai de pele branca, na socied.a.d.e, e,eanQ L  seu

tem o


' O indianismo literßrio que Gonþalves Dias parece ter adotado

como uma cabeleira ou uma dentadura postiþa, mal disfarþa essa

!

sua dor enorme de ser mulato ou amulatado: uma dorKquente



mas abafada, que Sylvio Romero atribuiu erradamente ao sangue

de Ýndio", isto Ú, ao fato biol¾gico da origem amerindia do poeta.

O sangue de indio per se seria, porÚm, o menor responsßvel por

aquela tristeza. toda do bacharel maranhense; e o maior respon-

sßvel, a consciencia do sangue negro da mãe. A sensibilidade

aos reflexos sociais dessa origem.

Em Marabß talvez haja alguma coisa de freudianamente auto-

bio rßfico quanto ß situaþão flutuante do mulato romantizado

na igura da mameluca de olhos verdes, de quem diziam os ho-

mens de raþa pura:

"Tu Ús Marabß!n

ou então, guardando distÔncia:

"Mas Ús Marabß!"

E na poesia O Tempo a mesma consciÛncia aparece, sem disfarce

algum a romantizß- a, numa explosão ainda mais autobiogrßfica;

"(. . . . J Por que assim choro?

E direi eu por guÛP Antes meu berþo

Que vagidos d'in f ante vividoiro

Os sons f inais dum moribundo ouvisse."

580 G.anxro FxExxa

n ,u i

fl

Não somos n¾s, agora, o primeiro a associar a tristeza de Gon-



þalves Dias Ó consciÛncia de sua origem: filho de escrava e ca-

fuza. Foi um seu colega de Coimbra e, mais do que isso, pessoa

de sua maior intimidade-Rodrigues Cordeiro-que escrevendo em

1872, deu seu depoimento: a consciÛncia de filho de mulher de

#

cor amigada com portuguÚs era o que em Gonþalves Dias "nas



noites de ins¶nia lhe cobria o coraþão de nuvens", rebentando em

poemas como O Tempo.lg

Não importa que noutros poemas, em torno de assuntos mais

Puramente africanos como Escrava, Gonþalves Dias se conservasse

a distÔncia do ne ro, sem fazer de sua fala aportuguesadß de

bacharel de Coimra, a voz clara e franca da raþa degradada

pela escravidão da qual nascera tão tragicamente perto. Roþando

pelos seus horrores.

Mesmo porque sua consciÛncia não era, nem podia ser, entre

n¾s ( PaÝs onde o negro cuase nunca foi "quem escapa de branco",

como no ditado antigo- quem escapa de branco, negro Ú"-depois

substituÝdo pelo mais brasileiro-"quem escapa de negro, branco

Ú" ) ls a consciÛncia de negro ou a consciÛncia de africano que,

noutros paises, absorve a consciÛncia do mulato, mesmo clarÓ. O 

ressentÝmento nele foi, carateristicamente, o do mulato ou "mo-

reno", sensÝvel ao lado socialmente inferior de sua origem, embora

gozasse, pela sua qualidade de bacharel, vantagens de braaco.

O romantismo literßrio no Brasil-vozes de homens gemendo e

se lamuriando atÚ parecerem Ós vezes vozes de mulher-nem sem-

pre foi o mesmo que outros romantismos: aquela "revolta do Indi-

viduo" contra o Todo-sociedade, Úpoca, espÚcie-de que fala o

crÝtico francÛs. Em alguns casos, parece ter sido menos expressÔo

de indivÝduos revoltados que de homens de meia-raþa sentindo,

como os de meio-sexo, a distÔncia social, e talvez psÝquica entre

eles e a raþa definidamente branca ou pura; ou o sexo defÝni-

damente masculino e dominador.

E o que se observa tambÚm-a revolta do homem de meia-raþa

consciente, como o de meio-sexo, da distÔncia social entre ele e

a normalidade social do seu meio-no artista extraordinßrio que

foi o Aleijadinho. O escultor mulato das Ýgre) as de Minas. Nesse

mulato doente-distanciado socialmente dos dominadores brancos

não s¾ pela cor e pela origem como pela doenþa que foi Ihe

comendo o corpo e Ihe secando os dedos atÚ s¾ deixar vivo um

resto ou retalho de homem e de sexo-o ressentimento tomou a

expressão de revolta social, de vinganþa de sub-raþa aprimida, de

sexo insatisfeito, do donjuanismo inacabado. De modo que na

escultura do Aleijadinho, as figuras de "brancos", de "senhores",

de "capitães romanos", aparecem deformados menos por devoþão

a Nosso Sennor Jesus Cristo e ¾dio religioso aos seus inimigos,

Soax.snos z Moc..mos - 2.░ ToMo 59I

que por aquela sua raiva de ser mulato e de ser doente; por

aque a sua revolta contra os dominadores brancos da col¶nia, a

um dos quais retratou, ou antes, caricaturou ou deformou com

intenþão artÝstica e ao mesmo tempo mÝstica-pois foi uma espÚcie

de El Greco mulato2░ em figura terrivelmente feia, exagerando

principalmente o nariz: o maior ponto de contraste somßtico ou

plßstico entre oprimidos e opressores, no Brasil do tempo do Alei-

jadinho. Alißs todas as figuras de capitães e mesmo de soldados

romanos, para não falar nas de judeus, que se vÛem nos "passos"

de Congonhas do Campo, se apresentam com narizes caricatures-

cos, a forma ou o tamanho dos narizes semitas e caucßsicos exa-

gerado ao ponto do ridÝculo.

O sentido brasileiro, nitidamente brasileiro, ou pelo menos extra-

-europeu e-Deus nos perdoe-atÚ extra-Cat¾lico, da obra do Alei-

jadinho, nÔo passou de todo desapercebido, embora sob outro

aspecto, aos crÝticos mais recentes do escultor mulato. Entre

outros, o Sr. Manuel Bandeira e Mßrio de Andrade. O aspecto

revolucionßrio, salientou-o o Professor Afonso Arinos de Melo

Franco, em artigo sobre a viagem que fizemos juntos a Minas

Gerais, em 1934.21 O mesmo aspecto procuramos fixar, ao nosso

jeito, imediatamente depois daquela viagem, em trabalho apre-

sentado, de colaboraþão com o pintor CÝcero Dias, ao Congresso

Afro-Brasileiro do Recife, tambÚm em 1934, sobre reminiscÛncias

africanas na arte popular do Brasil. IncluÝda a arte das promessas

e dos ex-votos, a arte dos santeiros cujos santonofres e Nossas

Senhoras de cajß, Ós vezes nÔo tÛm que ver iansãs e orixßs. O

caso, em ponto grande, grandi¾so mesmo, do Aleijadinho, em.

cujas figuras cristãs hß evidente deformaþão em sentido extra-

-europeu, extra-greco-romano, embora não se possa dizer que em

#

sentido carateristicamente africano. Marginalmente africano, ape-



nas. Carateristicamente brasileiro, isto Ú, mestiþo; ou cultural-

mente plural.

Esse sentido e essa expressão artÝstica extra-europÚia dos san-

teiros e dos pintores de promessas", sentido e expressão que,

por meio do mulato, foram tambÚm ganhando a m·sica brasileira

e, por intermÚdio dele e do negro, a culinßria, hoje tÔo pouco

europÚia nos seus quitutes mais carateristicamente nacionais; esse

sentido e essa expressão custaram a se fazer notar nas artes

menos espontÓneas e mais dirigidas, mais oficiais, digamns assim,

de tal modo ia lhes quebrando a espontaneidade a tractiþÔo v aca-

dÛmica europÚia, greco-romana, latina, francesa, de pintura,  de

escultura de poesia, de arquitetura.

╔ verdade que na poesia uma convenþão nÔo resistiu Ó in-

fluÛncia dos alongamentos ou das sugestÓes extra-europÚias que

a miscigenaþão foi criando para o lirismo brasileiro: a convenþÔo

592 Gu.sExTo Frxxz

p dl,

' do tipo louro ou alvo da mulher. A influÛncia de sugestÓes extra-



-europÚias nesse sentido jß se fizera sentÝr no sÚculo XVII, em

' "Romances", de Greg¾rio de Matos, atravÚs dos disfarces freu-

i;

dianos indicados recentemente pelo Professor Renato Mendonþa.



Rebentou depois mais livre na poesia do povo, onde tanto se

exalta o quindim da mulata ou o dengue da moreninha; e no pr¾-

prio lirismo dos bacharÚis, em cujos versos e romances comeþaram

a aparecer mais moreninhas dengosas do que virgens louras. Mo-

reninhas que em tantos casos eram tipos de quadrarunas ou octo-

runas idealizadas naquele disfarce delicado.

Pela beleza fÝsica e pela atraþão sexual exercida sobre o braneo

do sexo oposto Ú que, em grande n·mero de casos, se elevou

socialmente o tipo mulato em nosso meio pelo prestÝgio puro

dessa beleza ou por esse prestÝgio acrescido de atrativos intelec-

tuaÝs, ganhos pelo homem na Europa ou, mesmo, em Olinda, em

São Paulo, na Bahia, ou no Rio de Janeiro. O caso de tantos

bacharÚis mulatos-ret¾ricos e afetados no trajo, uns, outros tão

Ó vontade nas sobrecasacas e nas idÚias francesas e inglesas, como

se tivessem nascido dentro delas. Alguns quase helÚnicos ou quase




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