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de Polidez", Rev. do Arq. Municipal de São Paulo, setembro-outUbro, 1944.

TambÚm o estudo, ainda em ms., do Professor Felte Bezerra, sobre a for-

maþão social de Sergipe, onde destaca, baseado no estudo das populaþ¶es

sergipanas: "Talvez pela condiþão de liberdade que o calþado expressava

nos tempos da escravidão [ . . . . ] tenha o seu uso passado a indicar alto status

social . . ."

Sosnanos E Mvc.ssos - 2.░ ToMo 559

azEu,b op. cit., pßg. 275.

Debret, op. cit., I, pßg. 91.

aIbid., I, pßg. 91.

aalbid., I, pßg. 91.

adlbid., I, pÔg. 91.

67$ão numerosos, nos jornais dos primeiros decÚnios do sÚculo XIX, os

an·ncios de sapatos inglÚses. Sebastião Ferreira Soares, em suas Notas

Estatisticas Svbre a Produþão AgrÝcola e Carestia dos GÚneros AlimentÝcios

no ImpÚrio do Brasil ( R´o de Janeiro, 1860 ) refere-se ao fato da larga

quantidade de calþados e chapÚus importados da Europa na primeira metade

do sÚculo XIX ter feito definhar a ind·stria brasileira, ao seu ver, desde o

sÚculo XVIII, jß adiantada com relaþão a sapatos, m¾veis, j¾ias, etc.

( pßg. 270 ) .

aBHoraee Say, Histotre des RelatÝons Commerciales entre la France et

le BrÚstl, et ConsidÚrations gÚnÚrales sur les Monnates, les Cjsanges, les

Banques et 1e Commerce ExtÚrieur, Paris, 1839, pßg. 25.

aaPires de Almeida, Homossexualismo ( A Libertinagem no Rio de ]a-

neiro), Rio de Janeiro, 1908, pßg. 148,

Alberto da Cunha, ObsessÓes, Rio de Janeiro, 1898, pßg. 15.

dlElÝsio de Ara·jo, op. c³., pßg. 55.

d2jbjd., pßg. 58.

dslbid,, pßg. 57. Da comunicaþão, ainda inÚdita, sobre "Capoeira e

Capoeiragem", feita Ó Comissão Nacional de Folclore, do Instituto Brasileiro

de Educaþão, CiÚncia e Cultura-comissÔo dirigida pelo erudito folclorista

Renato Almeida-pelo Sr. Lufs R. de Almeida, da Subcomissão Baiana de

Folclore, são as seguintes e interessantes informaþÓes:

"O termo `capoeira' Ú indÝgena; vem de `caß'-mato, e 'puerß -que foi

mato. Jogo atlÚtico regional; indivÝduo que se entrega so jogo atlÚtico

da capoeira, tambÚm chamado `capoeirista'.

"'Capoeiragem'-Sistema de luta dos capoeiras. Essa luta não Ú indl-

gena, nasceu de uma danþa africana de escravos negros nas `capoeiras' ou

roþados. Diz Rugendas o seguinte: `Os negros tÛm ainda outro folguedo

guerreiro muito mais violento: a `capoeirß , que consiste em dois contendo-

res se jogarem um contra o outro, como dois bodes, procurando dar mar-

rada no peito do adversßrio, para derrubß-lo. Neutralizam o ataque por

meio de paradas, ou fogem-Ihe com o corpo em hßbeis saltos. Por vezes,

#

entretanto, acontece chocarem-se terrivelmente as cabeþas e, não raro, a



brincadeira degenera em conflito sangrento'.

"Em algum tempo, portanto, a capoeira foi uma danþa. Virou luta depois,

mas as suas demonstraþÓes eram acompanhadas por uma orquestra de m·sicos

africanos chamados 'agog8s' ( na Bahia ), composta de 'berimbau ; `ganzß'

S6O Gn.BEBTO FBEYxE

e pandeiro. E necessßrio não confundir o 'berimba³ de capoeira com um

p outro instrumento de sopro. O `berimbau de capoeira' Ú um grande arco,

instrumento usado exclusivamente para acompanhar a luta nacional por ex-

celÛncia. O `ganz Ú uma caixa de folha-de-flandres, munido de cabo e

com seixinhos, a qual, produzindo som quando agitada, serve de instru-

mento musical. Hoje, usa-se, apenas, o ¾erimbau' nas liþÓes de capoeira

do mestre Bimba.

"Entre as nossas classes populares, a dos capoeiras awltou sempre neste

PaÝs, assinalando nos primeiros tempos costumes de uma torrente de imi-

' ' graþão africana e depoÝs uma heranþa da mestiþagem no conflito de raþas.

O capoeira não Ú nada mais nem nada menos do que o homem que entre

10 e 12 anos comeþou a educar-se na capoeiragem, que pÓe em contribui-

þão Ó forþa muscular, a flexibilidade das articulaþÓes e a rapidez dos mo-

vimentos-uma ginßstica degenerada em poderosos recursos de agressão e

pasmosos auxÝlios de desafronta. O capoeira gosta da ociosidade, e, en-

tretanto, trabalha. A segunda-feira Ú para ele um prolongamento do do.

rningo. Quando se dedica a alguÚm Ú incapaz de uma traiþão, de uma

' deslealdade.

I

"O seu trajar Ú caraterÝstico: calþas largas, palet¾ desabotoado, camisa



de cor, gravata de manta e anel corrediþo, colete sem gola, botinas de

═' bico estreito e revirado, e chapÚu de feltro.

"Seu andar Ú oscilante, gingando; e na conversa com os companheiros

ou estranhos, guarda distÔncia, como em posiþão de defesa.

"Se acontece ser acometido, quando desarmado, machuca o chapÚu ao

comprido, e nas evoluþÓes costumadas desvia com ele golpes certeiros.

"Um bom capoeira, entrando na luta vestido de branco, sai dela tão

limpo e engomado como entrou, a ·nica peþa do vestußrio machucada Ú

o chapÚu . . .

I

"O capoeira antigo tinha seus bairros, o ponto de reunião das mulatas;



suas escolas eram as praþas, as ruas, os corredores. O seu pessoal era com-

posto de africanos, que tinham como distintivos as cores e o modo de botar

a carapuþa, ou de mestiþos ( alfaiates ou charuteiros ) que se davam a

conhecer entre si pelos chapÚus de palha ou de feltro, cujas abas reviravam,

segundo a convenþão.

"A categoria de chefe da malta s¾ atingia aquele cuja valentia o tor-

nava inexcedÝvel, e de chefe dos chefes, o mais afoito de entre estes, mais

refletido e prudente.

"Os capoeiras, atÚ 80 anos passados, prestavßm juramento solene, e o

lugar escolhido para isso eram as torres das igrejas.

"As questÓes de freguesia ou de bairro não os desligavam, quando as

circunstÔncias exigiam desagravo comum; por exemplo: `um senhor, por

Sosx.xnos s Mucaa.mos - 2 ░ Too 581

motivo de capoeiragem, vendia para as fazendas um escravo filiado a qual-

quer malta; eles reuniam-se e designavam o que havia de vingß-l¾ .

"No tempo em cue os enterramentos faziam-se nas igrejas e que as

festas religiosas amiudavam-se, as tortes pnchiam-se de capoeiras, famosos

sineiros que, montados nas cabeþas dos sinos, acompanhavam toda a im-

pulsão dos dobres, abenþoando o povo que admirava, apinhado nas praþas

e nas ruas.

"A capoeiragem antiga e a moderna tgm a sua gfrIa, a sua maneira

de expressão, que varia um pouco de Estado para Estado:

'Rabo de arraiß -Consiste em firmar um pÚ sobre o solo e, na rotaþão

instantãnea da perna livre varrendo a horizontal, de sorte que a parte dorsal

do pÚ vß bater no flanco do rnntendor, seguindo-se ap¾s a 'cabeþada' ou a

'rasteirß , infalfveis corolßrios da iniciaþão do combate.

`Escorã¾ -Amparar inesperadamente, com o pb de encontro ao ventre,

o adversßrio, o que Ú um subterf·gio.

'PÚ de panzinß -E o mesmo que o 'escorão', mas não como defesa. Dß

o mesmo resultado, mas deixando Ó desßeza tempo de varrã-lo.

`Passo a dois' ( giria modema )-E um sapateado rßpido que anteorde

Ó cabeþada ou Ó rasteira, do qual o acometido se llvra armando o 'Clube

X', isto Ú, o afastamento completo das tfbias e união dos joelhos que, for-

#

mando larga base, estabelecem equilfbrio, recebendo no embate o satto



da botina, que sinda ofende o adversßrio.

Tombo de ladeira'-Tocar no ar, com o pÚ, o individuo que pula.

'Rasteira a caþador-E o meio ginßsHco de que se servem para, dei-

xando-se cair sobre as costas, ao mesmo tempo que firmam-se nas mãos,

derrubarem o contrßrIo, imprimindo-lhe com o pÚ violenta pancada na

articulaþÔo tfbio-tarsiana.

'Tronco, Raiz e Fedegoso=Talvez o lance mais feliz do fogo, vlsto do-

pender de umß agilidade incrivel e oonsiderßvel solidez muscular, forma a

slntese dos arriscados estudos de capoeiragem.

"Talvez seja a Bahia onde meThor se pratIque hoje a capoeira em todo

o Brasil. O Conesso Afro-Brasileiro de 1937, reunido na cidade do Salva-

dor, cuidou muito de que não morresse por falta de estfmulo a luta dos

negros e dos mulatos, a luta da agilidade, onde pouco vale a forþa bruta,

a luta que veio de uma danþa e sinda conserva o seu ritmo.

"Eis aqui uma amostns do folclore baiano:

'Negro, o que vende at

- Vendo arroz de camarßo,

Sinliß mandou oendes

Na coua de Salomdo.'

'Cnmaradinha, ehJ

Camaradin³o,

Camarada . . .'

se2 c.sTo

"E a luta comeþa. Vão lutando e cantando. E como um desafio. Cada

capoeira tem seus versos pr¾prios alÚm daqueles que jß perderam os direi-

tos autorais e são propriedade de todos. Alguns com forte acento negro:

'Volta do mundo, eh!

Volta do mundo, ahl

Aiuna Ú mandingueira

Quando estß no bebedor . .

Ela Ú muito sagonha

Capoetra pegou ela

E matou...

"Vejamos, agora, no Rio de Janeiro:

"O tocador de berimbau segurava o instrumento com a mão esquerda

e na direita trazia pequena cesta rnntendo calhaus, chamada 'gongo', alÚm

de um cip¾ fino com o qual feria a corda, produzindo o som. Depois entoava

esta cantiga:

`Ttririca' Ú faca de cotß,

'iacatimba' muleque de sinhß,

`Subiava' ni fundo de quintß.

AtoanguÚ, acaba de matß,

AloanguÛ.

Marimbondo, dono do mato,

Carrapato, dono de f ota,

Todo mundo bebe caxaxa,

Negro Angola s6 leva fama.

AloanguÛ, Som Bento tß me chamando

AloanguÚ.

CachimbÛre nã f ica sem f ogo,

Sinhß vÚia não Ú mai do mundo,

Doenþa que tem nã Ú boa

Nã Ú cousa de fazÚ zombaria.

CORO


AloanguÚ, Som Bento tß me chamando

AloanguÛ.

Pade Inganga fechou coroa

Hade morÛ

Parente, não me caba de mntrf-

Sosrunos E Mvc.ssos - 2.░ ToMo S6g

CORO

AloanguÚ, Som Bento td me chamando



ALoanguÚ.

Aloangu4.

Camarada, toma stntido

Capoera lein jundamento.

CORO

AloanguÚ, Som Bento tß me chamando



Aloangud, caba de mat¾

#

Aloangu.'



E sobre curiosa figura de sobrevtvente baiano dos grandes dias da

capoeiragem:

"O ·nico profissional de capoe.ira, aqui na Bahia, Ú mestre Bimba,

todos os demais sÔo amadores, o que não quer dizer que sejam inferiores,

que não levem a sÚrio a 'arte'.

"Mestre Bimba tem tido discfpulos que honram o mestre. Prefere-os

jovens e ßgeis. A forþa bruta, a estatura e a dificuldade de movimentos

nada valem contra um bom capoeirista. A prova disto Ú o que se estß dando

em São Paulo. Rapazes de 17, 18, 19 anos, franzinos, mas treinados no

jogo da capoeira, vencendo boseadores profissionais, lutadores de toda

classe, verdadeiros atletas, nos ringues da terra bandeirante.

"Mestre Bimba quase nunca aceita desafios; para derrubar gigantes, confia

nos seus discfpulos. Uma vez, num desafio de um atleta lusitano, escolheu

para lutar com ele o seu discfpulo predileto: um pretinho pequeno e fran-

no. Comeþou a luta, e depois do portuguÛs ter tomado vßrlos pontapÚs

no rosto e estßr sangrando, consegue pegar o rapaz a jeito e dar-llze um

tronrn. Passaram-se alguns segundos e, como o pretinho não se mezesse,

pergunta mestre Bimba:

- Vai ficar assim ainda muito tempo?

- Não SinhB, responde o menino, e, ato contfnuo, dß um balÔ¾ naquela

montanha de carne e de m·sculos que se estatela num chÔo de cimento

completamente fora de combate." Sobre a capoeira no Brasil, veja-se tam-

bÚm o recente ensaio de Iamartine Pereira da Costa, Capoetragem (A Aste

da DefeBa Pessoal Brastleir).

aElÝsio de Ara·jo, op. cit., pßg. 84. Sobre o assunto veja-se tambÚm a

obra de Melo Barreto Filho e Hermeto Lima, Hfst¾rta da PolÝcia no Rfo

de Janetso, Rio de Janeiro, s. d., II.

eaAra·jo, op. cft., pßg. 58. Veja-se tambÚm a obra, jß citada, de Carmo

Neto, "O Intendente Aragão", notando-se que Carmo Neto consldera Ara·jo

"em matÚria de hist¾ria da polÝcia dþsta Capital [. . , . j uma espÚcie de

doctor unius Iibst...' (pßg, 14).

esl., pßg. 58.

584 Gn.swro FnEx

 r a7lbid., pßg. 58.

aslbtd., pßg. 58.

asIbid., pßg. 81. Veja-se tambÚm o capÝtulo XXVIII, do estudo de

Emile Allain, Rio-de-Janeiro, Quetques DonnÚes sur la Capvtele et sur

l'Administration du BrÚstl, 2  ed., Paris-Rio de Janeiro, 188e.

7eMs., Arquivo P·blico Nacional, cit, por Ara·jo, op. cit., pßg. 115.

Franþa ordena af ao Comandante da Imperial Guarda da PolÝcia fazer "re-

forþar as patruthas nos largos e praþas da cidade, de sorte a evitar o ajun-

tamento de negros capoeiras . . . Veja-se tambÚm a seþão "Posturas e In-

fraþão de Posturas' do Arquivo Geral da Prefeitura do Distrito Federal,

seþão que o ilustre historiador Noronha Santos destaca como fonte "do

maior apreþo" ou "cabedal informativo digno de grande interessÚ' ("Rese-

nha AnalÝtica de Livros e Documentos do Arquivo Geral da Prefeitura Ela-

borada pelo Historiador Noronha Santos", Rio de Janeiro, 1949, pßg. 15).

7lDÝßrio do Rio de ]aneiro, 28 de novembro de 1821. Sobre a polÝcia

do Rio de Janeiro nos primeiros anos do ImpÚrio, veja-se a obra jß citada

de Carmo Neto, "O Intendente Aragão".

72Drio do Rio de ]aneiro, 3 de janeiro de 1825. Era "depois das dez

, horas da noite no verão e das nove no inverno, atÚ ß alvoradß' que nin-

guÚm, no Rio de Janeiro dos primeiros anos do ImpÚrio, estava "isento de

ser apalpado e corrido pelos Patrulhas da Polfciß '. Os escravos, porÚm,

poderÝam ser apalpados a quaIquer hora.

Carmo Neto recorda a observaþão de van Bloen de que, por essa Úpoca,

rondavam freq³entemente as ruas da cidade do Rto de Janeiro "patrulhas

a cavalo e a pÚ" ( op. cit., pßg. 15 ) .

7sJ. M. Pereira da SÝlva, Segundo Per;odo do Reinado de D. Pedro 1

no Brasil, Rio de Janeiro, 1871, pßg. 287.

TPertence ao arquivo do Instituto Hist¾rico e Geogrßfico Brasileiro in-

teressante aut¾grafo, em alemão, assinado por D. Pedro I e dirigido a seu

"caro Schaeffer", onde se diz: "Muito lhe agradeþo a boa gente que tem

mandado para soldados. w'A Imperatriz jß Ihe mandou, da minha parte,

encommendar mais 800 homens; agora eu lhe peþo que, em logar de colonos

casados, mande mais 3.000 solteiros, tambÚm para soldados, alÚm dos 800.

O MÝnÝstro dos Neg¾cios Estrangeiros lhe mandou dizer que não mandasse

mais, mas eu quero que mande os que por esta Ihe encommendo, e faþa

de conta que não recebeu ordem para não mandar. Mande, mande e man-

#

de, pois lhe ordenna quem o hß de desculpar e premiar pois Ú~seu Impera-



dor. Boa Vista, em 13 de Junho de 1824." Desde 1823, recorda Carmo

Neto, Jorge Ant¾nÝo de Schaeffer, "a serviþo do ExÚrcito brasileiro", fora

encarregado pelo Governo do Brasil de contratar colonos na Alemanha e,

ao mesmo tempo, engajar aÝ "soldados estrangeiros para servirem em nossas

fileiras, como se vÛ da portaria de 4 de dezembro de 1824 ( Coleþão Na-

buco )" ( op. cit., pßg. 13 ) . Com esses estrangeiros contratados, formaram-

-se os trÛs batalhÓes cuja revolta foi sufocada com o auxÝlio de capoeiras:

Sosaenos E Moc.u..tsos - 2.░ ToMo 565

"o de irlandeses aquartelado no Campo de Santana e os dois de alemães,

aquartelados um no Campo de São Crist¾vão e outro na Praia Vermelha".

7bsabre os motins do Recife em 1823-os menos conhecid¾s dos mo-

vimentos de rebeldia da gente de cor no Brasil patriarcal-veja-se Alfredo

de Carvalho, Estudos Pernambucanos, Recife, 1907.

7sH. Cancio, D. ]oão VI, Bahia, 1909, pßg. 21.

77Ajfredo de Carvalho, op. cit.

780 historiador baÝano Afonso Ruy que estudou minuciosamente o assun.

to em seu ensaio Primeira RevoluþÔo Social Brasileira ( São Paulo, 1942 ),

diz que o fato de alguns historiadores atribuÝrem ao jovem conspirador a

idade de 17 anos resulta da "declaraþÔo que esse rÚu fizera aos juÝzes pro-

cessantes com o prop¾sito de beneficiar-se com o tratamento dado pelas

ordenaþÓes aos delinq³entes de menor idade . . . ' ( Hist¾ria PolÝtica e Admi-

nistrativa da Cidade do Salvador, Bahia, 1949, pßg. 321, nota). Recorda

o mesmo historiador que ao movimento dos fins do sÚculo XVIII precederam

vßrias agitaþÓes na Bahia contra atos reais considerados nocivos aos colonos:

. . . mais das vezes, tais movimentos tinham como inspirador o Juiz do

Povo, que, valendo-se das vantagens do seu cargo, em vez de ter uma

atuaþão ponderada e ordeira era quem arrastava os munÝcipes dos agitados

comÝcios da praþa p·blica para a sala de reunião do Senado da CÔmara.

E assim como o vimos encabeþar o protesto contra o monop¾lio de sal,

que culminou no tumulto de 1711, vamos encontrar esse representante dos

Mestres a incitar os comerciantes a deporem o Governador se este não

aprestasse a esquadra libertadora do Rio de Janeiro, então atacado pelos

franceses. Não foi senão um juiz do povo que, em 1711, iniciou a campa-

nha contra o Conselho Ultramarino acusado de afastar os brasileiros do

desembargo da Relaþão da Col¶nia, e que ainda nesse mesmo ano se re-

cusou a auxiliar o Juiz de Fora a arrecadar a contribuiþão anual para paga-

mento do dote da princesa consorte de Carlos I:, da Inglaterra, e dos en-

cargos da paz da Holanda" ( op. cit., pßg. 272 ). Evidentemente a insur-

reiþÔo de 1798, na Bahia, inspirou-se numa tradiþão de vitalidade popular

afirmada mais de uma vez por palavras e atos do "representante dos Mes-

tres", isto Ú, dos mecÔnicos, ou "Juiz do Povo", juizado extinto em 1713

sem que a carta rÚgia, extinguindo 0 ¾rgão, tivesse feito desaparecer a cor-

rente de sentimentos e interesses que por ele vinham se exprimindo.

Datam, com efeito, dos primeiros anos de organizaþão civil e polÝtica

da capital da Bahia, e, primeira, do Brasil e que, em contraste com Olinda,

cidade quase exclusivamente aristocrßtica, nasceu e desenvolveu-se, ao mes-

mo tempo, aristocrßtica e popular-combinaþão verificada depois na cidade

do Recife-expressÓes claras do poder dos mecÔnicos, zelosos em reclamar

para si direitos e vigilantes na defesa de prerrogativas por eles jß conquis-

tadas no Reino. Os "juÝzes dos misteres", aos quais encontramos numero-

sas referÛncias nos atos da CÔmara dÚ Salvador que vÛm sendo publicadas

na Bahia, eram, como repara o historiador baiano Afonso Ruy, "ligaþÓes

r

GiLHEtiTO FPEYRE



do poder da comuna com as classes proletßrias" ( op. c#., pßg. I20 ). Como

desde o sÚculo XVI, na Bahia como, ao que parece, noutras ßreas do Brasil,

os mulatos Ú que "propendiam para as artes e ofÝcios" ( Teodoro Sampaio,

Hist¾ria da Fundaþão da Cidade de Salvador, Bahia, 1949, pßg. 280), os

mecßnicos, em suas afirmaþÓes de poder, vÛm exprimindo no nosso Pafs,

desde dias remotos, direitos ao mesmo tempo de classe e de raþa da parte

daqueles artesãos, artÝfices e operßrios menos  dispostos a se confundirem

com escravos ou animais de carga.

7eKoster, op. cit., pßg. 443.

gEm Minas GeraÝs, o cientista francÚs conversou com um negro numa

palhoþa ou mucambo perto de plantaþão de milho. E foi este o dißlogo:

"-Vow 4tes de la c8te d'Afrtque; ne regrettez-oous pas quelquefois

votse pays?"

`-Non: celut-ci oaut mieux; fe n'avais pas encore de barbe lorsque j'y

sui,s venu; fe me suis accoutumÚ d la vÝe que j'y mÛ."

#

"-Mais Ýci vous Útes esclave; vous ne pouvez famais faire votre volontÚ:'



"-Cela est dÚsagrÚable, i1 est vrai; mais mon ma´tre est bon, i1 me

donne bien d manger, il ne m'a pas battu six fois depuis qri i1 m'a achetÚ,

et Ýl me laisse cultiver un petit champ. Je travaille pour moi Ie dimanche;

fe plante du mais et des mandubis . . , cela me donne un peu d'argent"

,

Auguste de Saint-Hilaire, Voyages dans PlntÚrieur du BrÚsil. Partie I. Lea



Provinces de Rio de Janeiro et de Minas Cerais, ParÝs, 1830, I, pßgs. 98-99.

siKoster, op. c#., pßg. 390.

82Sobre negros africanos comparados com os "crioulos", veja-se Saint-

-Hilaire, op. cit., II, pßg. 294.

BsCharles Wiener, 333 Jours au BrÚsil, Paris, s. d., pßg. 23.

8'tR. Walsh, Notices of Brazil in 1828 and 1829, Boston, 1831, II, pßg.

78. Deve-se notar que os an³ncios de mßquinas e instrumentos europeus,

tanto quanto a eficiÛncia de algumas dessas mßquinas e instrumentos, insta-

lados ou postos a funcionar no Rio de Janeiro, na Bahia e em Pernambuco,

acabaram convencendo muito brasileiro dos primeiros decÛnios do sÚculo

XIX que os fabricantes, donos ou maquinistas daquelas mßquinas eram

todos uma espÚcie de novos messias ou novos bruxos; que com suas inven-

þ¶es mecÔnicas seriam capazes de realizar maravilhas. Um novo sebastia-

nismo ou messianismo formou-se então no Brasil: em torno das mßquinas

inglesas e francesas. Daf um brasileiro desses ter procurado Mr. Duval,

pouco depois da chegada desse ÝnglÛs ao Rio. Sabendo que Duval vinha

se entregar, no Brasil, a neg¾cios de mineraþÔo, desejava saber por meio

de que maravilhoso instrumento se orientava ele no sentido de descobrir

ouro sem ter que cavar a terra. Devia haver um instrumento inglÛs para

esse fim. Talvez um vÝdro-esse vidro tão associado Ó chegada dos ingleses

no Brasil e Ó sua presenþa entre os nossos antepassados mal saÝdos da som-

bra das gelosias-por meio do qual fosse possÝvel ao minerador ver atravÚs

da terra. Talvez um ferro que possufsse a faculdade mßgica de indicar a

Sosxnnos E Mvcsos - 2.░ ToMo 567

presenþa do ouro. Estava certo, tal brasileiro tÝpico, de que Mr. Duval, sem

rnntar com o auxÝlio de um instrumento desses, nÔo se teria largado da In-

glaterra para o Brasil onde tantos brasileiros procuravam inutilmente ouro

pelos meios jß conhecidos. O que fez o Itev. Walsh, amigo de Mr. Duval,

filosofar sobre o fato: o de muitos brasileiros associarem ao nome e Ó figura

dos ingleses, processos sumßrios e mßgicos de se descobrirem, por meio de

vidro ou ferro-duas grandes expressÓes, ao lado do carvão, do poder econ8-

mico e tÚcnico dos ingleses-tesouros ou riquezas; e atribuÝrem Ós mßquiuas

britÔnicas poderes miraculosos. Sobre o assunto veja-se o capftulo "Aven-

tura, ComÚrcio e TÚcnicß', do nosso Ingleses no Brasil, Rio de Janeiro,

1948, pßg. 49.

s¾Mawe, op. cit., pßg. 191.

eolbid., pßg. 192.

8?Ibid., pßg. 192.

88Walsh, op. cit., II, pßg. 40.

e9l¾td., II, pßg. 213.

solbid., II, pßg. 131.

alMawe, op. cit., pßg. 217.

szlbid., pßg. 66. .

salbid., pßg. 77.

94 jbid., pßg. 193.

sslbid, pßg. 370.

soKoster, op. ctt., pßg. 393.

s7Debret, op. cit., II, pßg. 19.

salbid., II, pßg. 101.

solbvl., II, pßg. 101.

looA, Ferreira Moutinho, NotÝcia Hist¾rica e Descritiva da Provúrw^ia




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