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Brasil, a vitória sobre o patriarcalismo rústico, encarnado nos

homens de mais de sessenta anos-raramente atingidos pelo mal-

do capitalismo ou do tecnicismo burguês representado principal-

mente por estrangeiros ainda jovens: por ingleses, franceses) por-

tugueses de sobrado ou de loja; e por um ou outro Mauá brasi-

leiro. Ou o triunfo, porventura menos difícil, do liberalismo dos

bacharéis e dos doutores de vinte e tantos, trinta anos, sobre a

rotina conservadora do maior numero dos senhores de mais de

sessenta.

Há ate uem atribua à febre amarela a função patriótica de

ter uardaão o Império da cobiça européia ou britânica. E na

'r

vérZe parece ter ela impedido a desnacionalização do Brasil



sob a influência de uma transferência, demasiadamente rápida,

de dorninio econômico, das mãos dos senhores de escravos e dos

traficantes de negros ara as dos senhores de bancos e dos trafi-

cantes de máquinas 9é ferro ou a vapor. Das mãos dos velhos

das casas-grandes prra as dos senhores moços dos sobrados.

0 certo, porém, é que, sob o estímulo dos dois flagelos, pare-

cem ter melhorado não só as condições de higiene e de vida

nas principais cidades do Império como nas senzalas, nas casas-

-grandes, nas fazendas do interior alcançadas tanto pelo mal asiá-

#

tico como yela "febre de gringos", isto é, de estrangeiros, de in-



1

J

gleses, de ranceses, de alemães, de suíços, de italianos. À febre



amarela pode-se, na verdade, atribuir uma série de aperfeiçoa-

mentos técnicos ou mecânicos na vida das cidades brasileiras.

Entre eles, a construção de cemitérios publicos e a generalização

do hábito de residência nobre ou burguesa nos subúrbios, ou nas

ruas afastadas do centro, deixando-se os sobrados dos centros

urbanos para funções exclusivamente comerciais ou burocráticas.

Ou parabordéis e cortiços, para repartições públicas e armazéns.

NOTAS AO CAPITULO X

'Walter Colton, Deck and PorÇ, Nova lorque, 1850, pág. 43. Note-se

que cabra foi e é, ainda, expressão que, no Brasil, tem, como negro, duas

acepções: a elogiosa e a depreciativa. Tanto se diz da pessoa que é "cabra"

Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a

intenþão de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma

manifestaþão do pensamento humano..

552 GQ,sExxro FxExtm

no sentido de ser criatura inferior e desprezÝvel, como no sentido, lembra-

do por Pereira da Costa no seu Vocabulßrio Pernambucano (Recife, 1937),

de ser excepcionalmente boa: "cabra Ós direitas". O pesquisador uruguaio

Buenaventura Caviglia ( hijo ) que se especializou no estudo do assunto

lembra outras acepþÓes em que cabra deixa de ser "tftulo malsinante"

para tornar-se elogio: "cabra-mach¾', "cabra danad¾', "cabra topetudo",

"cabra-bamba". Por outro lado, recorda o ditado:

"Quando cabra bicho Ú

yue dirß cabrfnha gente."

( "Indios y Esclavos `Cabras"', Boletin de FilologÝa, MontevidÚu, 1940, tomo

III, n.a 13-14, pßgs. 33-34).

Esqueceu-se, porÚm, o ilustre pesquisador, da personalizaþão da cabra-

-bicho, no Brasil, sob a forma de "comadre cabra", expressiva da tendÓncia,

tÔo do patriarcalismo brasileiro na sua fase mais caraterÝstica de fazer de

escravos e atÚ de animais utilizados no seu serviþo mais intimo ou mais

delicado, uma espÚcie de pessoas de casa ou de membros da famÝlia, que

não se confundiam com os "bichos do mato" nem com os "negros do eit¾'

ou os animais empregados em serviþos vis.

Joaquim Nabuco teve de fato a intuiþão so esctever em Mtnha Forsna-

þão, no capÝtulo XX, que no Norte do aþ·car "uma longa hereditariedade

de relaþÓes fixas entre o senhor e os escravos' como que fizera de uns e

outros "uma espÚcie de tribo patriarcal isolada do mundti'. AproHmaþão

"impossÝvel nas novas e ricas fazendas do Sul, onde o escravo desconhecido

do proprietßrio, era somente um instrumento de colheita". ╔ que os "en-

genhos do Norte eram pela maior parte pobres exploraþÓes industriais" e

"existiam apenas para a conservaþão do estado do senhor, cuja importÔncia

e posiþão avaliava-se pelo n·mero de seus escravos'. Havis entre esses

senhores "um pudor, um resguardo em questÓes de lucro, pr¾prio das clas-

ses que nÔo traficam". Entre alguns, era um fato esse pudor. Noutros jß

vimos que o an·ncio do neg¾cio - e neg¾cio nem sempre limpo - nÔo era

inferior ao dos homens de cidade e de fßbrica.

ZLefebvre des NoÙttes, L'Attelage, le Cheval de Selle d tlavers les Ages

- Contribution d l'Histoire de 1'Esclavage, Paris, 1931, I, pßg. 257. Veja-se

tambÚm Menessier de La Lance, Essai de Bibliographie Htppique, donnan:

la Description DÚtaillÚe des Ouvrages PubliÚs ou Tradutts en Latin et en

Franþais sur le Cheval et Ia Cavalerie, Paris, 1915-1921.

sLfvio de Castro, A Mulher e a Sociogenia (obra p¾stuma), Rio, s. d.,

pßg. 350. Acrescentava LÝvio de Castro em pßgÝna escrita cerca de 1870:

. . . o industrialismo aÝ vem. A mecÔnica aproxima-se para o advento da

emancipaþão humana". E mais concreto: "O cavalo-vapor [ . . . . ] vale

mais do que vinte homens".

4Lefebvre des NoÙttes, op. cit., I, pßg. 257.

¾lbid., I, pßg. 128.

Sosxnos E Mvc.a.mos - 2.░ Toa.so 553

eEra o,que recomendava obra do sÚculo XVIII que deve ter tido divul-

gaþão nos meios nobres do Brasil, pois era recomendada pelo Bispo de

Pernambuco: Manefo Real, Escola Moderna da Cavallarfa da Brida, etc.,

por JosÚ de Barros Paiva e Moraes Pona, Lisboa, M.DCC.LXII, pßg. 10.

7L. de NoÙttes, op. ck., I, pßg. 188.

3lbid., I, pßg. IV.

sPrÝncipe Maximiliano, Souvenirs de Ma Vse (trad. por Jules Gaillard),

Paris, 1888, pßgs. 193-194.

lolbid., pßg. 195.

llgidder, op. c³., pßg. 21.

lzlbid., pßg. 26.

l3Golton, op. cit., pßg. 62.

1'Ibid., pßg. 48.

lsdder, op. cit., pßg. 97.

loSabe-se que sobre o carro de boi no Brasil vinha preparando minucio-

so estudo o pesquisador baiano Bernardino de Sousa, infelizmente falecido

em 1948.


l7Um Engenhetro FrancÚs no Brastl, Rio de Janeiro, 1940, especialmente

o capÝtulo "Efeitos Sociais do Sistema de Estradas Estabelecido por

Vauthier". A mais recente ediþão de Um Engenheiro FrancÚs no Brasil Ú

a de 1960.

lBGostume tanto no Sul como no Norte do Brasil patriarcal. Com

relaþão ao Sul, veja-se o estudo de AntBnio EgÝdio Martins, São Paulo

Antigo (1554 a 1910), I, Rio de Janeiro-SÔo Paulo-Belo Horizonte, 1911,

pßg. 68, destacado, como fonte de informaþão sobre este ponto, pelo pes-

#

quisador paulista ErnÔni Silva Bruno no seu bem documentado e inteligente



ensaio, Hist¾ria e TradiþÓes da Cidade de São Paulo, Rio de Janeiro, 1953,

que, por gentileza do autor, tivemos o gosto de ler aindß em ms. Recorda

o mesmo pesquisador: "Parece que atÚ o ano de 1867 os carros de boi

hafegavam pelas ruas da cidade da mesma forma que circulavam pelas

estradas dos sÝtios e das fazendas: puxados por grandes juntas vagarosas

embaladas pela m·sica dos eixos em que se prendiam as rodas maciþas. S¾

naquele ano a CÔmara Municipal editou uma postura proibindo que eles

chiassem transitando pela cidade."

lsLisboa, 1848. Existe uma ediþão brasileira de 1942 que se deve ao

Estado de Pernambuco.

2oEdiþão de 1942, I, pßg. 232.

2lhqaria Grahßm, op. cft., pßg. i61.

22Jhn Codman, Ten Months in Brazil, Londres, 1870, pßg. 60.

23Charles Wilkes, Narrative of .the United States Exploring Expedition

During the Years 1838, 1839, 1840, 1841, 1842, Londres, 1852, I, pßg. 19.

2H. J. do Carmo Neto, "O Intendente Aragão" ( Separata do Boletim

Poltcial, XI), Rio de Janeiro, 1913, pßg. 6.

2sNote-se que as ruas dÚ São Paulo - onde no meado do sÚculo XIX,

,

segundo um cronista da Úpoca recordado pelo Sr. ErnÔni Silva Bruno, "o



554 GQ.swro Fxxu

rodar de uma carruagem era coisa que ainda chamava atenþão", apare-

cendo "gente nas janelas para ver de quem era o trem que passavß'-por

serem "retas e largas", em comparaþão com as orientalmente estreitas do

Rio de Janeiro, de Salvador e do Recife, tornaram fßcil "a circuJaþão de

veÝculos ", quando estes comeþaram a substituir redes e bang³Ûs. Foi obser-

vaþão feita por Spix e Martius (Vtagem pelo Brasfl, I, pßg. 204) e Saint-

-Hilaire (Viagem pela ProoÝrwta de São Pauto, pßg. 173), conforme lembra

o Sr. EmÔni Silva Bruno no seu abalho ms., jß citado. O mesmo parece

ter ocorrido em BelÚm do Parß que, favorecida por outras circunstÔncias,

antecipou-se, no meado do sÚculo XIX, a cidades então mais iyportantes

do ImpÚrio, no n·mero de carruagens que rodavam pelas suas ruas: cerca de

cinq³enta carruagens fabricadas em Newark e em Boston, alÚm de leves

cabriolÚs de fabricaþÔo local, conforme notaram-ainda recordado pelo pes-

quisador ErnÔni Silva Bruno-D. P. Kidder e J. C. Fletcher ( O Bratsl e os

Brasiletros, II, pßg. 298 ) e Henry Walter Bates ( O Natusalista no Rto

Amazonas, II, pßg. 394).

ZeSchaeffer, op. c#., pßg. 15.

27`go Neto, op. c#., pßg. 7.

28Jgb ygn Boelen, Viageru nat Costoa Ortental e Ocidental da AmÚ-

rica do Sul (1828). I, PßgsÀ 77-84, apud Carmo Neto, op. c#., pßg. 7.

2aWes, vp. c#., pÚg. 21.

aoSseffer, op. ctt., pßg. 15.

alTfpico dos numerosos sn·ncios de negros com "coroas" ß cabeþa Ú

o que se encontra no DiBrio de Pernambuco de 23 de novembro de 1836:

"No dia 14 de Junho do anno p. p. fugio hum preto por nome João por

alcunha ladino de naþão cambinda 38 annos de edade, estatura regular,

magro, tem huma coroa pelo uzo de carregar peso, pouca barba, olhos

grandes, e perna direita hum tanto arqueada, anda e falla muito apressado,

gagueja e tem o costume de tremer os beiþos . . .'

a2VValsh, op. ctt., II, pßg. 199.

aaJ, J. Sturz, A Revtew, Finnnctal, Stattsticol lr Commercicil, of the

Emptre oj Brazfl and #t Resouces; Together w#h a Suggestlon of the Ez-

pediency and Mode of Adm#ting Brazilian and Othet Foreipn Sugars into

Great Br#ais for Refintng and Ezportation, Londres, 1837, pßg. 113. Veja-se

tambÚm o estudo do ProfÚssor Alfredo Ellis J·nior, "O Ciclo do Muar",

separata da Revfsta dt Hfst¾ria, n ░ 1, São Paulo, 1950.

aH. M. Brackenridge, Voyage to Buenoe AyreJ Performed in the

1'eass 1817 and 1818 by Order of the Amerlcan Government, Londres,

1820, pÔg. 20.

asA identificaþßo de São Jorge com Ogum verificou-se principalmente

no Rio de Janeiro. Vejam-se sobre o assunto os magistrais estudos do Pro-

fessor Artur Ramos. TambÚm o estudo do Sr. Edson Carneiro, CandomhlÚs,

Bahia, 1948, onde se destaca que, na Bahia, "o deus da guerra, Ogum, se

representa pela sua ferramenta - um feixe de pequenos instrumentos de

SosRnnos E MuceMsos - 2.░ Tonao 555

lavoura, machado, foice, enxada, pß, picareta, e se identifica com Santo

AntAnio que na Bahia Ú capitÔo do ExÚrcito naeional". Exu Ú "considerado

seu escravti'. Surge sempre de espada na mão e "danþa como que duelan-

#

do". Sua cor 6 "o azul profundo". E "o patrono das artes manuais" ( pßg.



44). Na Bahia, encontra sÝmile em SÔo Jorge, Oxasse, "deus da car,ß' que

chega a ser "representado nos candomblÚs, pela imagem Cat¾lica do santo,

de armadura e lanþa em punho, combatendo o dragÔo [....]. Veste-se

principescamente, de manto aos ombros" ( pßg. 43 ) . Thomas Ewbank, em

seu Life tn Braztl; or a )ournal of a Vistt to the Land of the Cocoa and the

Palm ( Nova Iorque, 1858 ), acentua o carßter militarista ao mesmo tempo

que nacionalista do culto de São Jorge no Brasil: "San lorge, Defensor do

Impetfo [.. .] armed cap-s-pie, a baton in his hand and a falchion by his

side, he leads the emperor and the court, the national troops, the Church's

statf, and an army of lay people through the streets in triumph" (pßg. 254).

ssCarmo Neto, op. ctt., pßg. 9.

87jb., pßg. 9.

88jb., pßg. 8.

89lnteressantissimo, a esse respeito, Ú o depoimento de Vigneron Jous-

selandiÞre, que residiu largos anos no Brasil e recordou suas experiÛncias no

Hvro Novo Manuat Prßtico ds Agrtcultura Intertroptcal, Rio de Janeiro,

1880. "Todos os dias" - destaca ele - "presenciam-se desgraþas pesando

sobre famÝlias inteiras, e as autoridades cruzam os braþos, o que faz com

que os desgraþados partidos politicos que dividem o BrasÝl acusem-se reci-

procamente de vinganþas, s6 pr¾prias das sociedades secretas estabelecidas

entre os negros. Se o governo nÔo tomar providÛncias, acabarß isso por

causar grandÚs desgraþas. Eu mesmo fui por muitas vezes vÝtima dessas

torpezas; por essas raz¶es desde 1835 tornei-me mÚdico' e com isso aproÀei-

tei muÝto atÚ 1856 em que foi preciso vender por todo o preþo ou antes

queimar tudo quanto possuia e retirar-me para a Corte" (pßg. 175). O

mÚdico fora vencido, no interior, pela "peste chatnada pangau d'Atzica que

a populaþão chama feitiþaria, cujos capatazes não sÔo mais que envenena-

dores" ( pßg. 175 ).

oRelatorio do Estado Sanitario da Provtncia de Pernambuco no Anno

de 1856, Apresentado pela Commissão de Hygiene Publica da Mesma, Per-

nambuco, 1857, pßgs. 88-95. ConcluÝa o Presidente da Comissão, o mÚdico

Cosme de Sß Pereira, procurando justificar as deficiÛneias dos mÚdicos de

forsnaþão europÚia em face de noenþas e condiþÓes exÓa-europÚias: "Os

estudos das sciencÝas physicas não estão plantados nesta cÝdade, os medicos

aqui residentes sabem estudar as mudanþas que se effectuam nos elemen-

tos estentes, ou na superficie da terra, ou nas correntes serias mas haven-

do falta de instrumentos proprios perdem-se ainda por isso os resultados

hÀanscendentes que se poderia obter das observaþ¶es meteorologicas: po-

SS6 GILHERTO FREY└E

rÚm com a organizaþão maritima espero que codos os annos se poderão

noticiar as occorrencias que forem apparecendo" ( pßgs. 94-9S ) .

41"Manifesto do Dr. Joaquim d'Aquino Fonseca sobre a sua Retirada da

Commissão de Hygiene Publica', Dißrio de Pernambuco de 29 de feve-

reiro de 1856.

42jbid.

4g"Analyse dos Motivos Apresentados no Manifesto do Dr. J. A. Fonseca



pelo Dr. C. S. Pereira, Presidente da CommissÔo de Hygiene Publica",

Dißrio de Pernambuco, Documento n ░ 6 do Relatorio do Estado Sanitario

da Provincia de Pernambuco, cit., pßg. 118.

44"Informaþão que o Conselheiro Dr. JosÚ Bento da Cunha e Figuei-

redo dera ao En. Ministro do Imperio por Occasião de ter sido Denun-

ciado de ter Autorisado o Exercicio Medico a Pessoas não Iiabilitadas.

Juizo que o En. Ministro do Imperio Fizera da Denuncia, e da Informa-

þãti', Documentos n. 7 e 8, do Relatorio do Estado Sanitario da Provincia

de Pernambuco, cit.; pßg. 225.

Sobre a medicina popular no Brasil, em face da acadÛmica, vejam-se

o sugestivo estudo do mÚdico Pedro Nava, "Introduþão ao Estudo da Hist¾-

ria da Medicina Popular no Brasil", CapÝtulos da Hist¾riu da Medicina no

BrasiL, Rio de Janeiro, 1949, O Culto de São Cosme e São Damião e7n

PortugaL e no BrasiL, por Augusto da Silva Carvalho, Coimbra, 1928 e

Namoros com a Medfcina, por Mßrio de Andrade, Porto Alegre, 1939.

46"Tendo chegado de Alagoas noticias de que as dozes homeopathicas

estavam fazendo ali in´lagres contra o cholera morbus, especuladores cuida-

ram de aproveitar-se da quadra, e munidos de carteiras, espalharam-se pela

provincia. Em Santo AntÔo o delegado capitaneando os homeopathos, se-

gundo se diz, fez crer a populaþão que não havia melhor remedio contra

a epidemia do que os giobulos, e tal foi a habilidade que os especuladores

empregaram que conseguiram seduzil-a regeitando ella, por suggest¶es suas,

os soccorros medicos que lhe eram ministrados por pessoas competentes.

#

Os facultativos que ß cidade da Victoria foram por ordem de S. Excia. [o



Presidente da Provincia] soffreram insultos, viram-se apedrejados, e tiveram

de retirar-se . . . ' ( Dr. Joaquim de Aquino Fonseca, art. cit., Dfßrfo de

Pernambuco, 29 de fevereiro de 1856). Deve-se atentar não s¾ no fato de

que havia, então, considerßvel hostilidade, da parte de grande n·mero de

senhores e de escravos, nos meios rurais, e ao mesmo tempo patriarcais,

aos mÚdicos de formaþão europÚia, principalmente quando "mÚdicos p·bli-

cos", ou do Governo, como no de que eram poucos os mÚdicos titulados.

O que tornou impossÝvel maior rigorismo das autoridades imperiais com

relaþÔo Ó prßtica da medicina ou da "arte de curar", pelos não titulados.

Essa tolerÔncÝa, justificava-a sensatamente outro mÚdico da Úpoca: "Me-

dicos titulados, nÔo os ha; aos curiosos Ú prohibido por lei o exarcicio da

medicina; logo não se deve consentir que curem aquelles que nestes logares

povoados se dedicam por genio a observaþão das molestias, e dos seus do-

SosRxnos E Mvc..rsos - 2 ░ Ton.so 557

mesticos remedios, no que adquirem muita pratica? ( Documento n ░ 8

,

Relatorto, cit., pßg. 109). As dificuldades e debates surgidos no meado



do sÚculo XIX tanto em Pernambuco como noutras das provÝncias brasi-

1C12&S tt8lS 8,nfigaS e mais s¾iicias no se pazia:calismo al, em omo ‗a

questão do exercÝcio da medicina s¾ por mÚdicos titulados, revelam uma

das zonas mais delicadas de transiþão do sistema patriarcal-do rural, e

mesmo do urbano-com sua medicina principahnente domÚstica, para o

sistema de famÝlia pequena, conformada a renunciar vßrias de suas respon-

sabilidades de domÝnio ou tutela social nas mÔos de mÚdicos p·blicos, pro-

fess8res p·blicos, repartiþÓes p·blicas.

leJ. Arago, Promenade Autour du Monde, cit., I, pßg. 59.

'rrAo arguto observador Charles Wilkes, que esteve no Brasil na primeira

metade do sÚculo XIX, não escapou o fato de estar a sociedade escrava no

Brasil dividida em numerosos subgrupos. Os pr¾prios Minas, notou Ûle que

eram uma variedade de "naþÓes", e de subgrupos ling³Ýsticos: . . . Though

o f various nations and languages have yet a general likeness, which stansps

them as one race. In Brazil to-day they are known under the name of

Mtnas" (Narrative of the United States Explortng Expedition, cit., I, pßg. 21).

Dai o seu reparo de que s¾ na ProvÝncia da Bahia os escravos se apresen-

tavam, pela sua maior homogeneidade, perigosos: "The slaves of the other

provtnces are o f mixed character, tncapable o f organization and more or less

hostile to each other" ( I, pßg. 33 ) . As diferenþas de lÝngua e de cultura

entre os escravos de procedÛncia africana-pode-se concluir das observaþÓes

tanto de Wilkes como de outros estrangeiros ilustres que visitaram o Brasil

na primeira metade do sÚculo XIX-anulavam, entre os mesmos escravos, a

consciÛncia de raþa-"raþa africana-diante dos seus dominadores de "raþa"

mais ou menos branca. As influÛncias no sentido da coesão dos escravos

foram antes as que decorreram de semelhanþa de status ou de situaþão

social no meio brasileiro, do que as etnocÛntricas.

'sHenry Koster, op. cit., pßg. 357.

'sMs., Col. Pereira da Costa, SeþÔo de Mss. da Biblioteca do Estado

de Pernambuco.

60Ca de JosÚ VenÔncio de Seixas para D. Rodrigo de Sousa Coutinho

em que Ihe participa ter chegado Ó Bahia e ter tomado posse do lugar de

Provedor da Casa da Moeda, etc., Bahia, 20 de outubro de 1798. Ms. no

Arquivo Hist¾rico Colonial de Lisboa. Pertence ao n·mero de mss. refe-

ridos no Inventßrso dos Documentos Relativos ao Brasil ExÝstentes no Ar-

quivo de Marinha e Ultramar de Lisboa Organizado para a Biblioteca Na-

cional do Rio de ]aneiro, por Eduardo de Castro e Almeida, Rio de Janeiro,

1914. Diz a carta: "Huma das novidades inesperadas que aqui achei foi a do

perigo em que estiverão os habitantes desta cidade com huma associaþÔo

sediciosa de mulatos que não podia deixar de ter perniciosas consequencias,

sem embargo de ser projectada por pessoas insignificantes; porque para se

fortificarem lhes bastavam os escravos domesticos inimigos inconciliaveis de

558 GILBERTO FREYRE

seus senhores, cujo jugo por mais leve que seja Ihes he insupportavel. Foi

Deos servido descobrir por hum modo bem singular a ponta desta meada

ao fim da qual julgo se tem chegado sem que nella se ache embaraþada

pessoa de estado decente. Creio que V. Excia. receberß nesta occasião

huma conta muito circumstanciada deste caso que ensina a desconfiar para

o futuro. Eu não posso deixar de me lembrar nesta occasião que todas

as ordens antigas dirigidas ao Brazil a respeito de mulatos os fazia con-

servar em hum certo abatimento, prohibindo-lhes a entrada em qualquer

officio publico ou posto militar, inhibiþão que era ampliada ainda mesmo

#

aos brancos casados com mulatas.



"A carta regia de 1766 foi segundo me parece hum erro de politica

em administraþão de colonias, porque deixando formar corpos milicianos

desta qualidade de-individuos, se viram condecorados com postos de coroneis

e outros semelhantes com que esta gente, naturalmente persuadida, adean-

tou consideravelmente as suas ideias vaidosas, o que junto ao espirito do

seculo os faz romper em toda a qualidade de excessos.

"Esta materia me conduz a p¶r na prezenþa de V. Excia. outra em que

me parece indispensavel que V. Excia. dÛ as mais promptas e positivas or-

dens. Ha alguns annos se tem formado acima da Villa da Cachoeira hum

Quilombo de negros fugidos e ultimamente se forma outro ainda mais pe-

rigoso a 5 ou 8 legoas de distancia desta cidade."

Sobre a insurreiþão não s6 de homens de cor mas tambÚm de brancos

desajustados, na Bahia, em 1798, veja-se o estudo do Sr. Afonso Ruy, Pn-

meira Revoluþão Social Brasileira, São Paulo, 1942. TambÚm devem ser

lidas as interessantes pßginas que o mesmo historiador baiano consagra ao

assunto na sua Hist¾rsa PolÝtica e Administrataa da Cidade do Salvador,

Bahia, 1949, onde considera o movimento "vma das mais importantes ma-

nifestaþ¶es nativistas, radicalmente reformadora da nossa situaþão polÝtica

e da estrutura social da col¶nia pela pretendida proclamaþão da rep·b³ca

e aboliþão da escravatura". Ao seu ver, sobreviveram aos mßrtires de

1798, homens que "mais tarde comporiam a primeira estacada da defesa

da independÛnciß' (pßg. 321).

alGomes Freire de Andrada, "Instruþão e Norma, ete." Rev. Inst. Hist.

Geog. Br., Rio de Janeiro, 1849, 3.a sÚrie, pßg. 374. Sobre o uso dos sapatos

por indivÝduos de cor; como "prova de alforria"-fen¶meno, principalmente,

do sÚculo XIX-veja-se o estudo do Professor Roger Bastide, "Cerimonial




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