Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a



Baixar 10.37 Mb.
Página81/110
Encontro18.09.2019
Tamanho10.37 Mb.
1   ...   77   78   79   80   81   82   83   84   ...   110

esamento de maneiras e de hábitos da gente rica ou nobre dos

Cbrados e dos próprios senhores das casas-grandes mais em con-

tato com as cidades. Em 1830, Denis já considerava um salão de

casa elegante do Rio de janeiro ou da Bahia bem pouco diferente

de um salão de Paris. 132 E ele próprio julgava a imitação, pelos

brasileiros, de modas inglesas, prejudicial à "manifestação e ao

desenvolvimento das disposições naturais" de um ovo "meri-

133 indo ao extremo de regozijar-se, como, a *ás, Debret

dionar, 1%~

e outros europeus da época cuja sensibilidade artística não se

deixou dominar pelo interesse econômico de franceses ou in-

gleses imperiais em face de povos coloniais, com o fato de que

continuava a haver, no Brasil, gente conservadora dos velhos

hábitos: dos antigos alimentos, substituídos, entre os ricos (mais

#

depressa aburguesados por imitações de europeus do Norte), pela



#

544 GILBERTO FREYRE SOBRADOS E MucAmBos - 2,0 Tomo 545

comida francesa ou italiana; das antigas esteiras feitas por ne-

Fos' das antigas redes de estilo indígena; dos antigos canapés

orr~dos de pele de boi; de renda feita em casa pelas senhoras,

como no século XVI; do modo de andar-"todo orientar', diz

ele-das mulheres, que os mestres de dança francesa ainda não

haviam conseguido alterar.

Não se pense que fosse unânime, entre os brasileiros esclare-

cidos da primeira metade do século XIX, a idéia de que con-

vinha ao Brasil, por motivos não só econômicos como sociais, não

só técnicos como culturais, ir substituindo o braço do escravo pelo

dente da maTima, o cavalo de carne pelo cavalo chamado de

o

ferro, o lav or ou o operário de cor pelo branco ou louro. Na



mesma época em que aparecia na Bahia a memória de Rebêlo,

surgia no Rio de janeiro a Memoria sobre o Commercio dos

Escravos em que se Pretende Mostrar que Este Trafico he para

Elles antes hum Bem do que hum Mal, Escripta por XXX. Natural

dos Campos dos Goitacazes. "Sem a escravatura, o que seria na

America o seu cominercio de exportação?" perguntava o escra-

voerata, autor da mernOria. Quem trabalharia nas minas? Na

lavoura? Nas embarcações de cabotagem?134 E ferindo o assunto

Jue aqui nos interessa versar: "Geralmente se diz que a intro-

ucção das machinas no Brasil deve cerrar a precisão de maior

numero de braços. Nos paizes manufactureiros, não duvido que

as machinas diminuirão consideravelmente o numero dos traba-

lhadores; mas não acontece o mesmo nos paízes agricultores de

assucar ou de café. Por exemplo, nas fabricas de assucar, as ma-

chinas que mais lhes çonvem são as de vapor ou agua, as quaes

ara fazermos hum serviço regular e correspondente a taes fa-

Ericas, exigem, pelo menos, duzentos trabalhadores; e qual sera,

o proprietario que, no estado actual da população, possa ajustar

duzentos jornaleiros para trabalharem em huma fabrica de assu-

car? No caso mesmo que fosse possível achar tal numero, não os

oderia ajustar por menos de 20$00 rs. mensais, o que produz

Euma somina de 48:000$000 arimiaes. Supponhamos por hum

momento que os podesse ajustar or metade: 24:000$000 junto

ás mais despezas indispensave - Se huma destas fabricas, não

deixarão de arruinar a mais rendosa e deixal-a desde o nnineiro

anno sem meios de poder continuar, e cahirá infalliveli~ente".

Admitia o escravocrata a necessidade da introdução de colonos.

Mas pela pura repercussão econômica do fato: "[ .... 1 afim de

que tenhamos hum rapido augmento na nossa população, porque

só assim poderão baixar de preço os jornalei;os e então serão

emp~eg~dos em nossas fabricas e lavouras ao menos em alguns

serviços .135Não lhe ocorria a possibilidade de vários agricultores

se agruparem em torno de engenhos centrais que a todos eles

servissem com suas máquinas poderosas e sua economia de bra-

ços para o fabrico do açúcar. Nem a necessidade de, na lavoura,

#

irem os agricultores da terra aprendendo com europeus do Norte



métodos também mais econômicos de produção. Mais econômicos

e menos perigosos para a saúde das populações.

Pois uma das descobertas mais importantes dos higienistas ou

dos sanitaristas brasileiios da primeira metade do século XIX foi

a de que "a destruição da vegetação dos mangues" e a "extensão

das auehnadas" estavam alterando alarmantemente as condições

de vida humana no País. Na verdade, estavam alterando as con-

dições de vida humana menos em tomo das casas-grandes e das

senzalas de fazendas ou engenhos que iam se deslocando para

unto do mato virgem e abandonando como ruinas, terras vio-

em=ente desvirgiriadas, do que para as populações de cidades

do interior, mais próximas das plantações antigas ou abandonadas.

Essas devastações deviam ser, em grande parte, responsabili-

zadas por epidemias novas e por doenças outrora desconhecidas

entre as mesmas populações. Assim, foi considerada a chamada

`epidemia de Macaci no Rio de janeiro, em 1828, que invadiu

Magé, Guapi, Porto de Estrela, Pilar, Iguaçu e Irajá.186 Os higie-

nistas chamados a estudá-la fizeram obra inteligente de ecologia,

para concluírem que as alterações sofridas por aquela área, sob

o sistema de exploração desbragada do solo, vinham concorrendo

para torná-la. insalubre quase ao ponto de inabitável.

Mas não eram só os higienistas: também dos homens enten-

didos em plantas e em agricultura, alguns, como Theodoro Peckolt,

autor da História das Plantas Alimentares e de Cozo do Brasil,

Contendo Generalidades Sobre a Agricultura do Brasil, etc .137

aram atrair a atenção dos brasileiros do meado do s~culo

ara o perigo das derrubadas com a sua "conseqüência na-

de "aumento tanto do calor como da sequidão do clima".138

Para Peckolt "a causa fundamental do nosso proceder a este res-

peito e de tantos outros males" era "a escravidão". Era o trabalho

escravo. E explicava: "Calculando-se o valor das terras, o ca-

bedal empregado para compra dos escravos, o sustento, vestuário

a as perdas infalíveis, por moléstias, mortes, etc., o lucro, mau

grado a fertilidade do terreno, é pequeno. Por isso o cultivador

procura esgotar as terras o mais de ressa possivel; para laboriosa

estrumação faltam-lhe braços; Pre7ere a estrumação unicamente

pelas cinzas; demais não faltam matas virgens para sustentá-lo, a

seus filhos e netos".139

A superstição de que o cafeeiro só produzia bem em terreno

de mato virgem é que vinha reduzindo o clima do Rio de janeiro

a um clima na lin%agen da época, chamado "bastardo" e o

abandono de terras nadas Pgr fazendeiros sempre à procura

#

w GiL~To FB~ SoB~9 E MucAmBode terrenos de mato virgem deixava principalmente exXostas a



-ões t

demias e doenças, favorecidas pelas novas condiç e s61o e

Yei clima, as populações mais ou menos inermes ãas cidades e

vilas mais óXimas das fazendas abandonadas. Daí o mau estado

sanitário ler cidades do interior que tendo chegado a se tomar

famosas cor seus sobrados, depressa se arruinaram. Que tendo

se tornago famosas por seus pianos de cauda, acabaram triste-

mente celebres por suas febres perniciosas. Daí, também, o número

sempre crescente de indivíduos de famílias de cidades do interior

que foram se refugiando nas ca itais; de província e na do Im-

ério; que foram trocando --- Sos em cidades outrora salubres

o interior e do litoral por casas térreas nas capitais e na Corte.

Casas de porta-e-janela onde às vezes antigos moradores de so-

brados passaram à categoria de indivíduos quase sem eira nem

beira.

A despeito da má orientação das ruas e das insuficientes valas



de esgoto no centro das mesmas ruas, as capitais-a Corte e as

capitais das províncias mais opulentas-passaram a ser ainda na

primeira metade do século XIX, mais higiênicas do que muitas

cidades pequenas do interior. 0 que se deve atribuir, principal-

mente, a alterações de técnica sanitária e de sistema de alimen-

tação, de muitas das quais foram campeões, ingleses e franceses,

desejosos de introduzirem aquí~ com seus capitais, seus apare-

lhos, suas máquinas, seus canos de água e de esgoto, seus novos

processos de pavimentação de ruas e de iluminação de ruas e de

casas, seus processos, su eríores aos nossos, de fabricação de

manteiga. Os capitais ingCes particularmente, desempenharam

papel importante nessas alterações de sentido urbano por que

passaram a vida, a paisagem e a cultura brasileiras, não faltando

razões ao anglófilo José da Silva Lisboa para escrever à página

84, parte II, ae sua Memoria dos Beneficios Politicos do Governo

de EI-Rey Nosso Senhor 1). João VI publicada no Rio de janeiro

em 1818 que ao "activo e vasto Í , mercantil depois que se

formarão as relações conimerciaes FosoInglezes no Brasfi" devia-

-se, em grande parte, -a edificação da Cidade" e "a elegancia

e formosura dos edifícios urbanos e Casas de Campo".

Depois de 1808 e, principalmente, de 1835 a 1850, melhora-

mentos ou inovações notáveis de técnica sanitária e de trans orte,

de iluminação e de arborização de ruas foram aparecenTo na

cidade do Rio de janeiro, na do Recife, na de São Paulo e até

em Rio Grande, em Pelotas, em Porto Alegre, em Belém. Sal-

vador e Ouro Preto é que se retardaram em vários desses me-

lhorainentos,

No Rio de janeiro, começou-se a levantar quanto possível o solo

da cidade, aterrando-se lugares baixos e paludosos. Cuidou-se

do calçamento das ruas e, ao mesmo tempo, de facilítar-se o escoa-

mento das águas de chuva nas mesmas ruas. Abriram-se novas

#

ruas. Construíram-se novos sobrados e novas casas. Iniciou-se o



aterro do grande mangue chamado da Cidade Nova. Deu-se co-

meço ao encanamento das águas da Tijuca para abastecimento da

população que crescia não só pela imigração estrangeira, nume-

rosa desde 1808, como' pela introdução de escravos clandestinos.

Deu-se começo ao encanamento de gás. Aumentou-se a área

urbana cuja população até 1836 a lomerava-se no imetro

indicado por uma linha que partindo Se um dos pontos o litoral,

Praia Formosa, e seguindo pelas Ruas do Aterrado e São Cris-

t6vão, ia terminar na Praia do Botafogo, havendo em muitos tre-

chos terrenos sem nenhuma edíficação, em ruas que meio século

depois seriam consideradas centrais.140

Foi ainda da primeira metade do século a medida que Pereira

Rego salienta ter sido uma das mais reclamadas ara o Rio de

Janeiro-e para as demais cidades grandes do Bral-pela "huma-

nidadi e pela "ciencia": "a cessação dos enterramentos nas igre-

jas, tendo sido já removidos do Cemitério da Misericórdia graças

à atividade e energia do Conselheiro José Clemente Pereira". A

própria ca ital. da Bahia moveu-se neste particular: das suas pos-

turas de N dej nho de 1844 consta absoluta proibição de "enter-

UI

rar-se corpos entro das Igrejas e nos seus adros".



Removeram-se, na Corte, os presos do Calabouço para a Casa

de Correção, "retirando-se do centro da cidade o escindalo de

andarem homens seminus e acorrentados pelas ruas" e de serem

alguns castigados aos olhos do público: açoites com azorrague

de quatro a cinco pontas de couro trançado, ensopadas em areia.

Outra granà~_ alteração da época, esta considerada de iiiipor-

tincia tanto para a saúde ública como para a segurança de vida

na capital, foi a remoção EU Matadouro da Praia de Santa Luzia

para ponto mais reservado. É que vinham se repetindo "cenas

desagradáveis de fugas de animais bravios", que corriam furiosos

pelas ruas da cidade.141 A fúria desses animais teria que aumentar

diante de máquinas, para eles tão fantásticas quanto para os ho-

mens da roça: máquinas de que foram se enchendo as cidades.

Os próprios cavalos vindos do interior espantavam-se com as in-

gresias triunfantes nas cidades. Com os trens de ferro, com os

cavalos-a-vapor, com os carros em disparada. Também em Sal-

vador, stura do referido ano de 1844 proibiu "o andar solto

dentro Nao Cidade gado vaccum, cavallar e lanigero~, cuja criação

só se permitia "debaixo de cercas". Enquanto os animais daninhos

e? andassem dispersos pelas ruas, assim como os cães que, por

riosos ou danados, ameaçasseM "atropellar ao Povo", estes po-

#

m p artio rze e no% o o



1 es-a,,t~ para inna;na, 1 caleira papa piano, 3

mobilia de junco pru t3 com palhinha 130 encoet,-,

com 1 e, fá. 1 ia , (Inif-ira e 2 corpri,lom com pe-

piras, 2 cadeiras de bviços o 12 de gnaruiçAti. 1

Popregniçadei, i (obaioe lotiv,F), 2 railtiras -te ba-

lanço, 1 ineia redonda propria pn,& 1 es,

. 1 1

eRt,tc,neira, 1 ozag, r, 2 linstoe, 2 jarros, 2 UJ, 5



catadifi,os com torci 'na tré,dondoe, 2 pina,troti, 2

cpindelabrom de hr, nz,, 2 almoNdam, 1 -gi,ellio

com moldutra matiEpípin, 1 rei, gio roxo pentínia.

1 apitaute para livrop, 1 Ispeio para at fo, 1 tape

te gran,119 tio manilha, forr,) d'nma @da grand~.

Uma jArdineira de itica,an44 com tampo de

pedra, 1 metia re(lonita com maIroperola ertitivV-

do, 2ditas redondas de f-r- o. 1 porta joins , ; por

ta ca,tões, 1 poria charutos, 1 lindo p rtit-joiam

elpietr-pi.te, 2 jarrop, 1 qundriv, 1 porta-pspeis.

7 lanças o cortinados para porta o janélhis 1 ai-

bom pa a retires, o, 2 pannos (lu er.esa

QUARTO DE TOILLUT

Um guarda ve5tidO ti, 1PRO0119- 1 OPelho glftll"

(11% 1 guarda-roirppa, 2 lavatodop, cotumoda e, m

pedrs a espelho, 1 poria torilho, 1 meita de coa

tara o 1 tapete forro tio quarto

GABINETE DE LEITUBA

Uma et-t,te envidraca,15 de nogueira, 1 8.cre-

triria. 1 121achiun, de cosima, 1 ch,1,1ra de roces

para a mesma, 1 esc,ivaidrilia, 1 porta-chapp608,

1 tinteiro, 1 transp,,re1210 o 1 tapete forro de

BALA DE JANTAR

Um guarda-lonça envidraçado e 1 apparodor

com potra (ignaes), 1 m,,ea eNstica, 1 gnarda-

,comida, 1 inesa pinadintia, 1 Brfá, 2 consulos, 6

cad- ivas de guipittiçAo, 2 panuo8 para meta, 1 ap-

Par,lho de pooplinna br,,nça pnr-, jantar, 1 dito

po a chá, 1 prelog~o de parada, 1 1,orta-quipijo, 1

portop-gelo, 1 galh,icei,e, copos, pirilices, garri,fas,

compotitirae, bandejas, descanç. s (te facas, talhe-

res, eln?eirot-, porta-pRiteie, e, atas pora pio, à

filtro.

BALA DO ENGOMMAU



Urna jardineira, 1 e,tiza parK gelog 1 machina

PRta engoirimar, 2 mesrta a 1 taboa de !~gom-.

mar, 1 matibi-m para lavar roupa e caudiem 1 a

g,. Z.


DISPENSA

Uina balança, 1 eptnnte paya Rarrafas, 1 ma-

ch .

#

iria papa cortar legnme-f,, flanires, pottite, treo cozinha e trem (10 jar Itro.



SOTÃO

Dua9 carnes (Ia ferro com lastros de arame e

molas, 2 mespis Ae cama, 1 gitrir,la-vestido, 1 com-

Moda,1 c,pellio, 1 1-v-torio, 1 anarniÇA0, 1 por-

ta-loniba, camas & lona o 1 cama de ferro ce.

licita de arame o mola o coliões.

OBJECTOS AVUI,808

Trez e@piDgardas, sen-lo 1 de '1 cannopp, 1 re.

V-1ver o pertenceR, 1 m, bilipt dejavprandá, 1 apo

rador com pc Ira, 2 glisr(las-1-~riça a 1 crea

,,~-A-tra d6 aprirado a,

De bons moveis, finos

erystacs, poi-cellanas,

objectos de electro pia

te, espelhos o tapetes

para fôrro de sala e

quarto.

A SABER:


U i fo d W Snuvd13erliin

r.

LUZ



E

=DIAMANTE

em LUMMAM & MARTINEZ.

Li=deExrAtipsÁtio, F.ert.,çcidáoCheiro ~

A v~ria nw todo, os

11111111


---earmairir-- ele se~os e

M1111! ti 62r11 512 03 cÓ 1-C

ANéNCIOS DE JORNAIS BRASILEMOS DO MEADO E DO FI1X1 DA ERA imPERiAL relativo,

a estilos de convivència ainda p~itriarcal e já urbana em ai , gumas cla~ então prine

pais áreas do País (Bahia, Rio de janeiro, Pernambuco, E. G. do Sul). Grupo X1

SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.' Tomo

549

deriam ser 1anceados por qualqr. pessoa e enterrados, ou levados



ao mar a custa dos seus donos. .."

É do maior interesse para a compreensão do período de tran-

sição que foi, nas principais áreas do nosso País, a primeira

metade do século XIX, destacar-se que várias das modificaçoes

que sofreram entato paisagens e instituições ligam-se direta ou

indiretamente à cessação do tráfico legal de escravos, cujo volume

#

o clandestino nem sempre conseguiu suprir; nem pôde manter.



os capitais foram tomando, assim, outros rumos. Deixando de con-

centrar-se no comercio de escravos, tomaram-se disponíveis para

os melhoramentos mecânicos, para as compras de máquinas ou

simplesmente de cavalos e de vacas de leite, superiores ou de raça,

para a construção de sobrados de luxo. Por longos anos, vinham

afluindo os capitais à praça, sem terem aí emprego suficiente. Eram

limitadas as transações. Acanhado o giro do dinheiro. As maiores

fortunas móveis do Império em grande parte se achavam em mãos

de traficantes de escravos; e estes so as aplicavam com escravos.

Com a cessação do tráfico é que o emprego dos mesmos capitais

reverteu para os melhoramentos materiais do PaÍs-especialmente

na Corte. 142 Uns, ativando as construções urbanas, dando-lhes o

que os higienistas da época consideravam "melhores e mais salu-

tares condições"; outros convergindo para empresas de viação

urbana, criação de gado de leite que substituísse as já escassas

cabras-gente, mecanização de serviços publicos ou particulares

até então movidos por braço escravo.

É certo que a adaptação de capitais, concentrados em escravos,

a máquinas, fábricas, animais de tração e de leite e prédios urba-

nos, não se fez docemente mas através de crises profundas 143

que em áreas como a do Rio de janeiro, a da Bahia, a de Pernam-

buco, a do Maranhão afetaram a sociedade em costumes ou esti-

los de vida; e não apenas a economia brasileira. É que a cessação

do tráfico de escravos africanos foi como que o golpe de morte

-mas não ainda o de misericórdia-numa forma, já então arcaica,

de economia e de sociedade, a um tempo feridalista e capitalista;

e esse golpe doeu não só nos capitalistas, negociantes de "folegos

vivos" , e nos senhores, ainda feudais, de terras (senhores para

uem esses fôle os vivos eram a própria vida) como na população

as próprias cildes, em grande parte dependente de condições

de existência criadas pelo mesmo sistema, por longo tempo mori-

bundo: lento em deixar de existir e de influir sobre o ambiente

ou sobre o meio.

A simples, transferência de ca itais, outrora concentrados em

escravos, para a criação ou a exploração de gado-fato, aparente-

mente sem importância, e cuja dramática repercussão sobre a

ecologia social do Império parece ter escapado aos que, como

#

550



i

i

i



I

I

i



GrLBEiRTo FREYM

Vitor Viana, Roberto Simonsen e os Srs. Afonso Arinos de Melo

Franco e Caio Prado Júnior, se têm ocupado da história eco-

nômica ou financeira do Brasil em sugestivos estudos especiali-

zados, bastaria para ter resultado em crise profunda. Em 1858,

respondendo aos quesitos que aviso imperial de 9 de outubro

do ano anterior distribuíra entre os presidentes de Província, re

lativos à alarmante carestia de gêneros re ondia a Comissão

c

c

nomeada pelo Presidente da Provincia do 2eará para estudar



o assunto, atribuindo a escassez de carne a secas e epizootias,

mas, principalmente, à "existência de forte companhia na pro-

víncia de Minas que há poucos anos a esta Zarte emprega

grandes somas em compras de gado no Piauí... 144 0 mesmo

se verificava no Rio Grande do Norte, segundo informação do

Presidente dessa Província ao Governo Imperial: "[ .... ] concor-

rência do gado desta para os mercados de outras provincias".145

E fenômeno idêntico-a transferência de capitais, concentrados em

escravos, para animais de corte ou de transporte-se observava

na Província de Santa Catarina, cujo Presidente queixava-se ao

Governo Imperial da "vida errante- a que vinha se entregando

grande parte da população seduzida pelo "comércio de animais

muares e cavalares ".148

Esse comércio se fazia princiCalmente com a Corte, do mesmo

modo que a -forte companhia da Provincia de Minas visava

abastecer de animais de corte, de leite e de tração as populações

da área metropolitana e das áreas vizinhas à Corte, no benefi-

ciamento das quais foi se esmerando o ca *t li mo outrora espe-

a Via s

r

cializado, na importação de escravos d ica para o Brasil, e,



por consepinte, no beneficiamento das áreas mais feudalmente

agrárias do País. Vinha-se desenvolvendo, assim, uma revolução

ecológica, e não apenas tecnológica, com a transferência de ca-

pitais, de escravos para animais e, até certo ponto, para máquinas,

#

ao lado do deslocamento de prestigio político do Norte açuca-



reiro, e necessitado de escravos para a sua economia, ainda pre-

dominantemente açucareira e ortodoxamente patriarcal, para o

Sul cafeeiro, e menos patriarcal que comercial, em cuja economia

agrária, seria mais fácil a substituição do escravo elo colono

europeu e, na urbana, a substituição do negro pSa máquina

também européia.

Ao golpe de morte na escravidão que foi a cessação do tráfico

regular, sucedeu-se outro: a epidemia de cólera-morbo, ou cólera

asiática, que devastou como uma praga do Velho Testamento sen-

zalas de casas-grandes de engenhos e de fazendas persistente-

mente patriarcais e até feudais em sua organização social. Não

só senzalas: também mucambos de pretos e de pardos nos arre-

dores dos sobrados a ponto de parecer a epidemia a alguns deles,

S~Anos E MucAmBos ~ 2.0 Tomo

551

pretos e pardos, arte diabólica de brancos para acabar com a



gente de cor.

Mas por uma como compensação biológica e não apenas socio-

o

lógic~, quase - ao mesmo tempo em que a cflera asiática devastava



principalmente a população africana e escrava das senzalas e dos

mucambos, a febre amarela aparecia, para especializar-se em

matar europeu ou branco puro, fino, vigoroso, entre os dezesseis

e os trinta anos. 147 Principalmente branco de sobrado. Foi como

se a febre amarela tivesse tomado a si a tarefa de retardar, no




1   ...   77   78   79   80   81   82   83   84   ...   110


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal