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teve nas casas-grandes e nos sobrados também grandes das

cidades seus centros de domínio, criou entre nós uma ar-

quitetura representativa ou caraterística do seu poder.

Daí não serem todos os entusiastas da antiga arquitetura

de residências patriarcais, ou tutelares, do Brasil, simples

ou perversos amadores do arcaico, apegados com ternuras de

antiquários às relíquias do sistema social que se exprimiu

naquelas casas às vezes feias e, ao mesmo tempo, fortes, como

suas mães portuguesas; porém com qualidades que, nas ca-

sas, como nas mulheres, suprem, às vezes, a ausência da pu-

ra beleza física: a doçura acolhedora, a honestidade, a dig-

nidade temperada pela simplicidade, por exemplo.

É claro que, morto o sistema, seu tipo de residência não

deve ser caprichosa ou arbitrariamente perpetuado numa so-

ciedade que se coletiviza, por um lado, e por outro se indivi-

dualiza, em oposição ao privativismo da economia ou da orga-

nização patriarcal, a um tempo personalista e solidarista, da-

da a absorção do indivíduo pela família e a subordinação do

Estado à pessoa nobre. Mas nem por isso se deve deixar de

reconhecer no sobrado, como na casa-grande patriarcal bra-

sileira, fontes de sugestÓes valiosas para o arquiteto que de-

seje fazer arquitetura coletivista, que seja também persona-

lista, no Brasil, dentro das liçÓes da experiência brasileira;

e não, por paixão Política ou sectarismo estético, sistematica-

mente contrária à mesma experiéncia; ou no vácuo.

#

Pois o que, no Brasil, se exprimiu em tipos de residência



harmonizados com a terra e com o meio como a casa-grande,

o sobrado ou o próprio mucambo, vão foi apenas um sistema

de economia ou de família ou de cultura: foi também o ho-

mem brasileiro, isto é, o homem de vijrias origens que aqui

precisou de vencer a hos~ do trópico àquelas formas já

altas de civilização cri;~. e de civilização muçulmana trazi-

das para a colônia am e,;-i -,ona de Portugal, não só por euro-

peus como, em muito escala, por africanos. Essas for-

mas já altas de civilização aqui se amoleceram, é certo, ou se

deturparam. Mas é extraordinário que tantas delas tenham

se generalizado, mesmo amolecidas ou impuras, sobre espaço

fisicamente tão extenso e socialmente tão árido como o Bra-

sil dós primeiros tempos de colonização.

Dessa disseminação de formas altas de civilização em tão

vasta terra tropical, resultou a primeira grande civilização

moderna nos trópicos: a brasileira. E imensa como foi a obra

dos missionários carmelitaâ, beneditinos, jesuítas, francisca-

nos e dos agentes da Coroa ou do Governo, a verdade é que

essa disseminação parece que se fez, principalmente, atra-

vés das casas patriart,cis ou tutelares e de suas capelas; e

não tanto através dos paros conventos ou das puras catedrais,

nem das fortalezas ou estabelecimentos del-Rei ou, já inde-

pendente o Brasil, de S. M. o Imperador.

Ainda hoje, quem viaja pelo interior do Brasil ou mesmo

ao-longo do litoral encontra constantemente nomes de povoa-

dos ou cidades, cheios de recordaçÓes patriarcais ou da arqui-

tetura caraterístíca do domínio da família patriarcal ou tu-

telar sobre a paisagem ou o espaço brasileiro: Casa Grande,

Casa Branca, Casa Amarela, Casa Nova, Casa de Pedra, Ca-

sa Verde, Casa-Forte, Sobrado, Sobrado Grande, Sobrado de

Cima, Sobrado de Baixo, Sobradinho. Só Pernambuco che-

gou a ter oito lugarejos, engenhos e fazendas chamados So-

brado; e três ou quatro denominados Sobradinho. Isto. sem

nos referirmos a nomes que, de propriedades particulares do-

minadas por casas-grandes ou sobrados, passaram a povoa-

dos, vilas, cidades, bairros: Pesqueira, Dois Irmãos, Pieda-

de, Tôrre, Salgueiro, Surubim, Timbáuba, Gravatá. Nem aos

nomes de senhores ou de famílias patriarcais, ou tutelares, que

passaram a designar as zonas de influência de seus engenhos,

de suas casas, de seu sobrados, de seus passos (armazéns de

açúcar), de suas pontes , particulares tornadas públicas: Praia

dos Carneiros, Ponte d'Uchoa, Cais do Ramos, Guarita de

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LXXIV GILBERTO FREYEE INTIAGDOC;-~( 1~ ,3LGONDA F LXXV



João Albuquerque, Ilha de Joana Bezerra, Sítio dos Coelhos,

Sítio do Carvalho, Passo do Fidalgo, Olho-d'Água de Luís

João, Olho-d'Água do Góis, Estância de Nuno de Melo, Pe-

res, Sousa, Madalena, Vicência, Cavalcanti, Caxa~igá, Cor-

deiro, Feitosa, Mariava, João de Barros, Manuel Alves.

Maria Simplícia, Cos?,re Velho.

Por onde se vê que o famÍlismo ou o personalismo decor-

rente do sistema patriarcal inundou, no Brasil, espaços imen-

sos, de nomes de famílias e de pessoas,- de marcas de influên-

cia dessas famílias ou dessas pessoas ~,utelares e de suas fa-

zendas, de seus engenhos, de seus currais, de seus armazéns,

de suas casas-grandes, de seus sobrados.

Com ou sem favor do Estado ou da Igreja - com os quais

entrou mais de uma vez em conflito - esse sistema foi a mais

constante e a mais generalizada predominância de poder ou

de influência - influência econômica, política, moral, social

- em nossa formação. Numas áreas tal influência ou tal

poder culminou em castelos opulentamente feudais ou quase

feudais, como a casa-grande da Torre, na Bahia, ou a de Me-

gaípe, em Pernambuco; noutras, como em São Salvador dos

Campos dos Goitacases, por longo tempo as casas-grandes

mal chegaram a distinguir-se do melhor tipo de mucambos;

e os -sobrados mal ultrapassaram as dimensÓes de sobra-

dinhos.


Diferenças de intensidade, mas xão de qualidade de in-

fluência: a da pessoa, a da família, a da casa maior, mais no-

bre ou mais rica, sobre as demais. Diferenças de conteúdo

mas não de forma de domínio social: sempre o domínio da

família, da economia, da organização patriarcal que rara-

mente teve outro tipo de família, de economia ou de organi-

zação que lhe disputasse a predominância sobre a formação

brasileira.

Houve Palmares, é certo: mas foi vencido. Vencidas pelo

sistema patriarcal brasileiro, ou pelo familísmo turbulento

dos paulistas e dos maranhenses e paraenses, * foram as redu-

çÓes jesuíticas, o sistema jesuítico de organização ou econo-

mia paternalista-coletivista. Um Palmares teocrático. Um

Quilombo teologicamente organizado. Vencidas foram ou-

tras erupçÓes de caráter se não coletivista, antipatriarcalis-

ta: a Balaiada, no Maranhão, a Revolta Praieira, em Per-

nambuco.

E não se diga do extremo Sul ou do extremo Norte do Brr-

sil que foram, nos séculos coloniais e no dezenove, exceçÓes

ostensivas ao sistema patriarcal dominante nas demais áreas

da Amérira Portuguesa; c culminante, do século XVI à pri-

meira metade do XIX, nas áreas do aç~',car. Po~s mesmo nes-

ses extremos apareceu, no século X1,III, marcando a paisa-

gem com sinais de domínio ou formas de w quitetura patriar-

#

cais - a casa-grande, o sobrado, a senzala, a capela, o cru-



zeiro, o cercado - e como que alusitanando ou abrasileirando

definitivamente espaços por algum tempo indecisos entre as

duas coroas ibéricas---ade Espanha e a de Portugal - o

sistema patriarcal já desenvolvido nas áreas mais antigas de

colonização agrária e pastoril do país.

Euclydes da Cunha, numa de suas páginas incisivas de

A Margem da História, recorda de Alexandre Rodrigues Fer-

reira esta observação interessantíssima: viajando o sábio,

nos fins do século XVIII, pelo grande rio, dera com a

"imagem" ou "símbolo" do "progresso tipicamente amazô-

nico"; certo "palácio [ .... 1 amplíssimo, monumental, im-

ponente - e coberto de sapé!" Mais de um século depois

de Alexandre Rodrigues Ferreira, Euclydes surpreenderia, à

margem do Purus, a transformação de barracÓes cobertos

de folhas de ubuçu - mucambos em ponto grande - "vi-

vendas regulares, ou amplos sobrados" que lhe pareceram,

estes sim, a imagem material do domínio e da posse definiti-

-va da terra pelo homem, do ermo pelo europeu. Mas tudo in-

dica que esse domínio ou essa posse já viesse sendo realizada

por aqueles próprios sobrados ou casas-grandes cobertas de

sapé, como o foram, aliás, nos primeiros anos de colonização,

igrejas e casas patriarcais nas próprias áreas onde madru-

gou o fabrico do açúcar. Em São Paulo, por exemplo. Afinal,

a coberta de sapé é, num prédio monumental, o inverso da

grandeza de pés de barro. 0 extremo de precariedade teria

sido o de um prédio que pretendesse ser sinal ou expressão de

domínio de um indivíduo, de uma família, de um sistema

tutelar, sobre algum espaço ainda virgem ou selvagem, e éujos

fundamentos não correspondessem às dimensÓes ou preten-

sÓes da. superestrutura. E isto raramente aconteceu com as

construçÓes mais carateristicamente patriarcais no Brasil

que, no Norte como no Sul, deixaram ruínas em que se pode,

ainda hoje, reconhecer a solidez de suas raízes ou de seus

alicerces.

É natural que a u* Alexandre 7?odrigues Ferreira, eu) . o

desejo era ver o Brasil desenvolver-se harmoniosamente, re-

pugnassem palácios de residência, na área amazônica, cober-

tos de sapé ou não, quando tanto lhe parecia dever ser feito,

na mesma área, antes de se levantarem tais palácios. 0 na-

turalista Rodrigues Ferreira era um homem terrivelmente

lógico: não podia contemporizar com o que não parecesse de,

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LXXVI GtLi3Fi-io FREYPE ls;,rROL)u~O ~ SEGUNDA Emg;iio LXXV11



acordo com a lógica. FÁ também ele que desaprovou as pri-

meiras tentativas de cultivo do chá-da-índia no nosso país.

Não porque fosse inimigo do chá mas por lhe parecer que

primeiro se devia cuidar do pido. Antes de casas-grandes opu-

lentas, parecia-lhe, decerto, que devia haver na Amazônia,

casas simplesmente médias. Entretanto, o que se verifi-

cou foi, ainda no século XVIII, o aparecimento de casas-

grandes ou sobradÓes opulentamente patriarcais em plena

área amazônica: a extensão do sistema, já triunfante nas

áreas do açúcar, àquelas terras mais cruamente tropicais.

0 mesmo no Rio Grande do Sul. Também a essa área ex-

trema, em trechos de colonização açoriana dirigida, isto é,

orientada e protegida pelo Estado, ou de população mestiça

ou indígena ou de origem castelhana e impregnada de recor-

daçÓes do coletivismo paternalista dos padres da Companhia,

ou ainda, primeiro povoados por soldados e aventureiros, não

tardou a estender-se o privativismo patriarcal, o familis-

mo tutelar, dominante nas áreas mais antigas da Amé-

rica Portuguesa. E o resultado foi a forma patriarcal de ca-

sa nobre, quer de campo, quer de cidade, ter aparecido tam-

bém no Rio Grande do Sul, juntamente com a senzala e com

o rancho, integrando-se, por esse meio, aquela área, ou gran-

de parte dela, no complexo patriarcal brasileiro. Não im-

porta que o conteúdo ou a substância econômica sobre a qual

desenvolveu-se tal forma de hierarquia social ou de convi-

vência humana tenha sido, no Rio Grande do Sul, principal-

mente o gado ou a banha. Ao intérprete do desenvolvimen-

to ou da formação brasileira cujo critério dominante de in-

terpretação for o sociológico, o que principalmente interessa

é descobrir e revelar sob que predominâncias de forma ou de

processo se realizou tal desenvolvimento; e não, que dife-

renças de substância econômica ou de composição étnica ou

de conteúdo cultural separam uns grupos dos outros para

efeito de outros estudos ou de outras consideraçÓes de ordem

prática, administrativa ou estatística.

A nós, parece, hoje, evidente - depois de estudos já lon-

gos da formação brasileira - que o Brasil teve no complexo

ou sistema patriarcal, ou tutelar, de família, de economia, de

organização social, na forma patriarcal de habitação - a ca-

sa-grande completada simbioticamente pela senzala, o sobra-

do em oposição extrema ao mucambo, à palhoça ou ao rancho

- e na forma patriarcal de devoção religiosa, de assistência

social e de ação política , seu principal elemento sociológico

de unidade. Mais do que a própria Igreja, considerada ele-

mento independente da Família e do Estado, foi a família pa-

triarcal ou tutelar o principal elemento sociológico de unida-

de brasileira. Daí nos parecer aquele complexo, de todas as

chaves de interpretação com que possa um sociólogo aproxi-

#

mar-se do passado ou do caráter brasileiro, a capaz de abrir



maior número de portas; a capaz de articular maior número

de passados regionais brasileiros num passado compreensiva-

mente nacional: carateristicamente luso-afro-ameríndio em

seus traços principais - e não únicos - de composição cul-

tural e de expressão social.

Não descobrimos ainda passado regional brasileiro, de sig-

nificado histórico, inteiramente rebelde à definição socioló-

gica pelo domínio ou pela presença do complexo patriarcal,

em que a unidade de forma de convivência humana - a hie-

rarquia patriarcal revelada principalmente nos estilos sociais

de habitação - sirva de elemento de superação aos contras-

tes que ofereçam as várias subtâncias que constituem o Bra-

sil étnico, o Brasil etnográfico, o próprio Brasil geo-econô-

mico. A não ser aqueles passados regionais apenas naturais

-- como o de grupos indígenas - e não históricos. À gene-

ralização não escapa o próprio passado Bandeirante. Pois o

Bandeirante, aparentemente desprendido de formas patriar-

cais de hierarquia, foi um portador e um disseminador de va-

lores rusticamente patriarcais ou de tendências elementar-

mente tutelares de organização de vida ou de família, esbo-

çadas no próprio caciquismo tutelar de João Ramalho.

Um jovem e lúcido pesquisador piauiense, o Sr. R. P. Cas-~

telo Branco, pretendeu, em ensaio sobre o que chamou "a ci-

vilização do couro", abrir exceção para o seu Estado. Zona

por excelência do boi, teria tido uma formação sociologica-

mente única no Brasil, dissentindo da ortodoxia patriarcal

- interpretemos assim a pretendida divergência - como

uma seita protestante, da Igreja Católica de Roma. Mas ele

próprio se contradiz ao descrever a figura do latifundiá-

rio piauiense, criador de gado nas velhas sesmarias, em tra-

ços que, na sua realidade de forma sociológica, são brasilei-

ros e não unicamente piauienses: "Nestas verdadeiras ilhas

humanas, encravadas no deserto, onde era impossível se exer-

cer a autoridade dos poderes estaduais ou federais, cedo se

formou um regime social peculiar em moldes nitidamente

feudais. 0 coronel é o nobiliarca. Proprietário secular dos

campos, através das famosas sesmarias, reúne, nos dilatados

latifúndios, algumas dúzias de "agregados" a quem permite

o usufruto de pequenos tratos de terra para roçado e facili-

ta o material para a construção das palhoças." Mais: o pes-

quisador piauiense fixa ele próprio a hierarquia social que

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LXXV111

GiLBERro FREYRE

no seu Estado, como no Brasil inteiro alcançado com maior

ou menor intensidade pelo complexo patriarcal ou tutelar de

família, se vem revelando nos tipos de casa, em grandes ex-

tensÓes brasileiras, designados por casa-grande e senzala, so-

brado e mucambo. E recorda que, no Piauí, a casa do gran-

de proprietário de terra e de gado é conhecida por casa-de-te-

lha: "designação esplendidamente descritiva que vale por

uma designação de classe. Porque a casa-de-telha, no Piauí,

tem a mesma expressão histórico-social da casa-grande de

Pernambuco... Dela o coronel exerce os seus poderes de ár-

bitro absoluto de todo o latifúndio em cujas casas-de-palha

habitam os agregados. Nas relaçÓes desses dois elementos

humanos, o coronel desempenha poderes patriarcais!'

Está reconhecida nestas palavras de um pesquisador ho-

nesto do passado piauiense, a semelhança sociológica, isto é,

de forma, de função e de processo, do sistema de relaçÓes so-

ciais dominante na formação pastoril do seu Estado com

o sistema dominante na formação agrária das áreas ou sub-

áreas mais ortodoxamente patriarcais: a do Rio de Janeiro,

a do Maranhdo, a de Pernambuco, a de Alagoas, a de Sergipe,

a do Recôncavo da Bahia, a de Minas, a de São Paulo; e,

principalmente, com o sistema dominante na formação pas-

toril do Ceará, de Goiás, do Rio Grande do Sul, do Rio Gran-

de do Norte, da Paraíba. A diferença entre essas áreas ou

subáreas e a do Piauí não dá Para fazer do piauiense um

herege em face da ortodoxia patriarcal brasileira: ele será

quando muito um Maronita em relação com a Igreja de Roma.

Do ponto de vista sociológico, pouco importa que variem

não só designaçÓes como dimensÓes de casas nobres; ou o

material, quase sempre precário, de construção das casas dos

servos. Pouco importa que estes - os servos - fossem afri-

canos ou indígenas, escravos ou "agregados" reduzidos à con-

dição de servos. Ou mesmo que, -em algumas áreas, chegas-

se a haver confraternização tal entre senhores de casas-de-

telha e agregados de casas-de-palha que o caráter patriarcal

das relaçÓes entre tais elementos deixasse de parecer "patri-

arcal" ou "feudal" para parecer - sem realmente ser - "de-

mocrático" e até "coletivista", como em certos trechos dos

sertÓes pastoris e do Rio Grande do Sul.

Da denominação ou mesmo da condição específica de "es-

cravo", em oposição a "senhor", seria um erro fazer condi-

ção indispensável à existência de um sistema sociologicamen-

te patrtarcal-feudal, isto é, patríarcal-feudal em suas formas

e seus processos principais de relaçÓes entre dominadores e

dominados: a domivação, a subordivaçôo, a acomodação.

INTRODUÇÃO À SEGUNDA EDIÇÃO LXXIX

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0 sistema pqde existir ou funcionar sob aparências as mais



suaves: simples "coronel" ou "major", o senhor; "mora-

dor", o servo. É o que parece ter sucedido em grande parte

do Piauí, do Ceará, da área do São Francisco e do Rio Gran-

de do Sul dando a esses Estados ou a essas áreas aparência

de exceçÓes puras e completas à predominância do sistema

patiiarcal-feudal, ou familial-tutelar, caraterístico da forma-

ção do Brasil em suas principais áreas de colonização mais

antiga.


0 Sr. Castelo Branco, no sugestivo ensaio já referido, sa-

lienta que os "coronéis" do seu Estado não foram nunca "apo-

logistas da escravidão% procurando sempre servir-se, em

suas fazendas de criação, de indígenas, mamelucos e brancos.

0 que atribui principalmente ao fato das secas não,tornarem

fáceis as senzalas. 0 "agregado" nada custando ao "coronel",

não era capital que, desaparecendo, representasse prejuízo

para o dono da fazenda. Já vimos, porém, que segundo o de-

poimento do esclarecido pesquisador, a escassez não só de afri-

canos como de escravos, no Piauí, não impediu que o latifun-

diário fosse ali um autêntico patriarca, cujo domínio sobre os

agregados aparentemente livres tivesse caraterísticos de do-

mínio de senhor feudal sobre seus servos e vassalos.

E é o que igualmente indica o estudo da arquitetura do

Piauí realizado pelo arquiteto Paulo Barreto e resumido em

interessante ensaio publicado em 1938 no n.O 2 da Revista do

Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional. Verifi-

cou o arquiteto que naquela subárea pastoril domina a chama-

da morada inteira do Maranhão, isto é, um tipo de casa impor-

tado de subárea carateristicamente patriarcal-f eudal em sua

formação e "adaptado às exigências e recursos do Piauí".

Dessa adaptação da casa maranhense ao Piauí teria resultado

uma habitação de "cômodos maiores" e "paredes mais gros-

sas" que a original. Mais acachapada, também, ou achatada.

Pois a morada inteira no Maranhão é vertical; no Piauí tor-

nou-se horizontal.

A casa patriarcal do Maranhão não teria perdido, assim, no

Piauí pastoril, nenhum dos seus caraterísticos mais senhorial-

mente patriarcais senão a verticalidade. Não diminuiu: au-

mentou para os lados. Esparramou-se. 0 que nos faz pensar

nas famílias numerosíssimas que tornaram célebre a forma-

ção patriarcal brasileira em áreas como o Piauí e o Ceará e

que talvez representassem, em terras particularmente sujeitas

aos horrores das secas, a compensação à escassez do número

de escravos - capital precário - pelo número exagerado de

filhos que os patriarcas foram acomodando menos no interior

I

#

LXXX GILBERTO FREYRE INTRODUÇÃO À SEGUNDA EDIÇÃO LXXX1



de andares superiores de casas assobradadas - como a da

Fazenda do Brejo, em zona pastoril da Bahia - do que em

quartos e salas térreas de casas achatadas, com extensas va-

randas ou alpendres hospitaleiros. Não sentiam tais patriar-

cas a mesma necessidade que os senhores das zonas de abun-

dante escravaria africana, de distanciarem os dormitórios dos

filhos e, principalmente, as camarinhas das filhas, das senza-

las de escravos. É uma das explicaçÓes que nos ocorrem da

quase ausência de casas rurais assobradadas em subáreas co-

mo o Piauí ou o Ceará. Outra estaria no fato de que raramen-

te os fundadores de fazendas de gado foram, no Brasil, ho-

mens de recursos tão amplos ou de origens sociais tão eleva-

das como os fundadores dos engenhos de açúcar: os engenhos

mais feudais e não apenas mais capitalistas em seus carate-

rísticos. A verdade, porém, é que superiores a esses altos e

baixos econômicos e etnográficos parecem ter sido sempre_as

semelhanças de formas sociológicas entre as várias expressoes

de família patriarcal.ou de família tutelar, com as quais se

organizou a sociedade brasileira nas diferentes áreas do Bra-

sil historicamente significativas.

Daí não nos parecer justa a observação, a respeito da parte

até hoje publicada do nosso trabalho, de eminente crítico fran-

cês, o Professor F. Braudel, para quem nosso estudo seria vá-

lido apenas para uma região brasileira - região de sentido

geográfico; e não para o Brasil. Pretendendo que o mesmo

estudo seja válido não vagamente, para o Brasil, mas para a

inteira sociedade patriarcal formada, nesta parte da América,

pelos portugueses, temos em vista o fato de que a própria área

do açúcar - primeiro conteúdo decisivo do sistema patriarcal-




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