Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a



Baixar 10.37 Mb.
Página79/110
Encontro18.09.2019
Tamanho10.37 Mb.
1   ...   75   76   77   78   79   80   81   82   ...   110

status, aproximando-se da situação social do técnico ou do mecâ-

nico estrangeiro e tornando-se necessário aos brancos da terra

pelo conhecimento daquelas ingresias em que senhores e escra-

vos evitavam aprofundar-se, temendo que elas viessem quebrar

sua rotina de vida e de trabalho; seu sistema de relações pa-

triarcais.

Walsh notou em Minas Gerais que a introdução de numero

considerável de estrangeiros, isto é, de ingleses, como técnicos

e operários de mineração, num país em que a preponderância de

gente preta se tornara, segundo ele, "alarmante", era aconteci-

mento de importância; e essa importância tendia a crescer com

o aumento da população adventícia. Pois os instrumentos aper-

feiçoados de toJa espécie que esses brancos traziam, as maqumías

que punham em movimento, sua extrema habilidade manual como

maquinistas, a redução de trabalho que realizavam as máquinas

por eles dirigidas, eram "lições do maior valor para os nativos"."9

já observara o padre inglês que no próprio interior do Brasil-e

não apenas nas cidades-havia muito quem acreditasse em pro-

cessos sumários e até mágicos pelos quais os ingleses consegui-

riam descobrir no País tesouros que os brasileiros eram incapazes

de encontrar. Isto porque as maquinas inglesas supunham eles

que iam ao extremo de transferir rios das planícies para as mon-

tanhas e "outras maravilhas de igual caráter miraculoso".90

Aliás, já Mawe, em Minas Gerais, surpreendido com "a apatia

dos habitantes" pensara nas vantagens que haveria em introdu-

zirem-se entre eles métodos ingleses de cuidar da terra e dos

animais. 0 exemplo de uma única fazenda à inglesa supunha

Mawe que muito poderia fazer no sentido de despertar gente

tão apática, do seu marasmo.91 0 mesmo ele pensara ao atravessar

Santa Catarina: terra capaz de se tornar "perfeito paraiso" nas

mãos de ingleses .92 E em Curitiba, o que mais o impressionara

fora ver uma região capaz de produzir trigo do melhor, acompa-

nhar as terras do Norte na cultura da mandioca, alimento inferior

ao trigo. 0 que atribuiu ao fato do trigo exigir do produtor uma

série ~áe preparações mecânicas, inclusive moinhos e fornos; en-

uanto a mandioca, uma vez madura, odia ser convertid?àrinha em meia hora e a farinha comiSac sem ter o seu fabrico

93

exgdo complicações de máquinas. Outra vez, o horror ao tra-



. 1o mecanizado, à máquina, ao arado, ao moinho, sempre que

era possível depender da simples técnica do indígena e do fácil

braço do escravo para a produção de alimentos e de comodidades.

Com relação à mineração-atividade que em certas áreas con-

noutras a plantação de açúcar, de café

#

feria ao minerador, como



e de algodão ao senhor de engenho ou de fazenda, prestígio

social superior ao que derivava um lavradoi da sinles cultura

i,umes chamada "agricultura comum -notava-se

de cereais e de leg-

também atraso técnico no Brasil dos primeiros anos do século

Xa Mawe presenteou o Capitão Ferreira com o desenho de

um aparel~o de 94 lavar cascalho, superior ao ralmente empre-

gado na colônia. E além de procurar ensinar rgente do interior

métodos adiantados de fazer manteiga e fabricar queijo, a muitos

roceiros impressionou com o estilo, para eles novo, da sela in-

TIlesa em que viajou pelo Brasil. Aliás é de Mawe a observação

e que as selas inglesas para senhoras, introduzidas no Distrito

Diamantino, vinham resultando na substituição do hábito das

mulheres da classe alta só saírem de casa para a missa, em cadei-

rinhas revestidas de cortinas e conduzidas or dois escravos, pelo

saudável costume de assearem a cavalo. F5

Referimo-nos já ao ~ato do negro e do mulato livres terem sido

auxiliares poderosos de técnicos e mecânicos ingleses, franceses

e de outros países da Europa, na obra de mecanização da técnica

de produção é de transporte entre nós; e também na de sanea-

mento dos sobrados ou das casas urbanas. E atribuímos o apel

desempenhado por esses negros e mulatos livres na rev ção

técnica por que passou o nosso Pais desde os primeiros anos do

século XIX à circunstância de oferecer o domínio da máquina a

homens como os livres, de cor, que eram então a parte mais

inquieta da população, oportunidades de se elevarem socialmente

por meio do exercício de artes mecânicas diferentes das antigas.

As antigas significavam trabalho inteira ou quase inteiramente

manual: justamente o tipo ou espécie,de trabalho degradado pela

escravidão. As novas significavam o manejo de instrumentos e

de aparelhos que vinham sendo revelados ao Brasil por brancos,

por europeus, por homens livres, por misters cujas mãos de ho-

mens superiores aos portugueses dirigiam senhorilmente as má-

quinas e dominavam como novos São Jorges os cavalos-a-vapor.

Koster notou em Pernambuco-o Pernambuco ainda colonial

mas *à cheio de novidades inglesas e francesas que ele conheceu

a

em duas via ens memoráveis, a imeira em 1809, a segunda em



1811-que "t e maior part the Velst mechanics"-"a maior parte

dos melhores mecânicos"-eram "mestiços": "of mixed blood".96

Destes, vários já eram decerto mecânicos do novo tipo, isto é,

maquinistas, cujo número cresceu rapidamente naquela área, sa-

bido, como é, que Pernambuco foi um dos primeiros yontos do

Brasil onde se estabeleceram oficinas e fundições inglesas, com

capatazes e numerosos operários europeus. Oficinas contemporâ-

#

530



GELBERTo FREYRE

neas das que começaram a florescer junto às companhias 6 mi-

neração em Minas Gerais e anteriores às do Rio Grande do Sul

e de SãQ Paulo. Esses tecnicos e operários europeus, à medida

que se foram valorizando socialmente pelo fato de sua ca acidade

técnica os engrandecer e até enobrecer aos olhos de P sil

bra eiros

de cidades do interior e do litoral, para quem as máquinas se tor-

naram alguma coisa de sobrenatural, foram transmitindo seu co-

nhecimento de máquinas, de aparelhos, de instrumentos, de in-

ventos novos, de ingresias, enfim, a auxiliares negros e principal-

mente mestiços. Mestiços inteligentes e sôfregos de ascensão

social. Isto ocorreu tanto em Minas Gerais como em Pemambuco,

que foram talvez os dois principais focos da revolução ao mesmo

tempo social e técnica ocorrida no Brasil nos primeiros decênios

do século XIX devido à introdução de máquinas industriais por

ingleses.

Ocorreu também no Rio de janeiro: outra área onde essa revo-

lução se fez sentir poderosamente nos primeiros decênios do sé-

culo passado, alterando estilos de vida e relações entre classes e

raças, entre senhores e servos, entre homens e animais. É de

Debret-que residiu então na capital do Brasil-a observação de

que era o que ele chama a "classe mulátre" que fornecia "Ia ma-

feure partie des ouvriers recherchés pour leur habilité".97 Ante-

cipou-se o francês a outros observadores na anotação do fato de

que foram prmcyalmente os brasileiros dessa "classe mulâtre "que

e

e

com maior . ez apreenderam de mecânicos europeus do novo



tipo suas técnicas ou artes. Dos sapateiros franceses e alemães,

por exemplo, os aprendizes de cor, no Rio de janeiro, cedo

assimilaram as novas técnicas, tornando-se rivais dos mestres:

"[ .... 1 rivaux de leurs nwitres".98 De modistas ou costureiras

francesas, mulheres de cor rapidamente adquiriram, como a ren-

dizes, não só as técnicas como a graça de maneiras, t E-se,

depois de valorizadas técnica e socialmente por esse aprendizado,

modistas e costureiras ilustres. Delas Debret pôde escrever que

"avec leur talenC, levavam dos nwgasins franceses para o inte-

rior das casas, Vimitation très-bien singée des manières françaises,

sous une míse rechercUe et un exterieur très-décent".99

Note-se, ainda, que várias mulatas ou negras livres e até es-

cravas valorizaram-se técnica e socialmente como amantes de téc-

nicos, operários ou mascates europeus- ara cujas fortunas, aliás,

concorreram com seu trabalho-tornanão-se algumas, depois da

morte ou da ausência dos "amigos" conhecidas pelo fato de terem

sido companheiras e aprendizes de mestres afamados em várias

especialidades. A. Ferreira Moutinho refere-se aos euro eus que,

na cidade ainda pequena que era a capital de Mato Rosso no

#

meado do século XIX, logo depois de instalados, "tratavam de na-



SOBRADOS E MucAmBos - 2.1 Tomo

531


moricar as crioulas que lhes levavam pratos de comida em troco

de muitos agrados e promessas de alforria"; e às quais abando-

navam, depois de lhes explorarem o trabalho e a ternura, seguindo

para a Europa com . meia dúzia de contos de réis" e "rindo das

~obres negras".100

Mas nem todas as crioulas ou mulatas, casadas ou amigadas

com estrangeiros, ficaram, por morte ou ausência deles, em situa-

ção de merecer pena ou piedade. Em estudo anterior,101 já salien-

tamos o fato de aparecerem nos anuncios de jornais da primeira

metade do seculo XIX, figuras de viúvas de cozinheiros e paste-

leiros europeus que se valiam dessa condição para se valorizarem

como quituteiras requintadas. Tal o caso de Joana Francisca do

Rosário-o nome sugere preta ou mulata-que aparece num jornal

da época como -viuva do francês mestre Simão" e capaz de

"preparar comida e mandar a qualquer casa estrangeira. . .".

Debret lembra que vários artesãos franceses, voltando à França,

deram liberdade aos mais hábeis dos seus escravos assim como

a negras encarregadas de trabalhos doniesticos. E observa que

4'f~s avec plus de douceur et dintelligence comme ouvriers et

domestiques, ces nègres, à peine libres, étaient recherchés et assi-

milés aux blancs pour de salaire".102 Até senhoras de sobrados

tomaram-se algumas mulatas, valorizadas por seus amantes e

mestres europeus de ofício.

Se o manejo de novas máquinas e técnicas valorizava negros

e mulatos aos quais; eram as técnicas transmitidas por maquinistas

e artesãos europeus, criava também para esses europeus situa-

ções de prestígio que lhes ermitiram às vezes ligar-se com

famílias da terra aristocratizagas pela condição, de proprietárias

de terras, de escravos ou de minas. Aristocratização que nem sem-

pre coincidia com a pureza de sangue europeu embora fossem

àuase sempre, esses aristocratas, brancos, quase-brancos ou toca-

uos só de sangue indígena, do qual alguns até se orgulhavam.

Burton, já na segunda metade do século XIX, notaria que, em

Minas Gerais, mecânicos e simples empregados de escritório das

companhias inglesas de mineração ali estabelecidas desde os pri-

meiros anos do mesmo século, gente de origem social modesta,

vinham-se ligando, pelo casamento, com algumas das "primeiras

família? da terra. 0 que o faria concluir que num Império demo-

crático como o do Brasil todos os brancos eram iguais. A cor da

Sele formava, por si só, em presença de uma "raça inferior" ou

e uma "casta servir, uma como aristocracia: a aristocracia dos

brancos. E a essa aristocracia ou casta podia ter fácil acesso qual-

luer inglês, mesmo simples operário ou caixeiro de companhia

e mineração.

#

532 Gn.BwTo FREym SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.' Tomo 533



É possivel, porém, que, em alguns casos, os pais das moças

de famílias importantes da terra, ou elas proprias, julgassem en-

contrar em europeus alvos e louros como os mecânicos ingleses,

que, afinal, não eram simples mecânicos de trabalharem com as

mãos à maneira dos negros ou dos escravos, porém mecânicos

finos, superiores, ca azes de dirigir máquinas ou dar vida a ins-

trumentos quase mT~icos de criar riqueza, a necessária garantia

contra o espantalho do filho saltatrds. 0 filho que pela cor escura

revivesse o sangue africano de alguma negra ou mulata, bela

ou rica, com quem se tivesse casado avô já remoto, branco pobre

necessitado de fortuna ou português vencido pelo quindim de

alguma Vênus fosca. Pois Minas Gerais era então província famosa

Nelo muito sangue africano que corria nas veias de parte consi-

erável de sua população: resultado, talvez, da segregação em

que vivera, durante o século XVIII, penetrada quase exclusiva-

mente por europeus solteiros ou celibatários que se viam obri-

gados a se juntarem com mulheres de cor. Situação que no século

XIX se repetiu em área parenta da mineira-a goiana-quando

para ali começaram a afluir aventureiros europeus e Bandeirantes

em busca de ouro. "Todos os proprietários"-escreve dos novos mi-

neiros, na sua "Corografia", Cunha Matos-"erarri brancos ameri-

canos ou europeus, celibatários e mui raras vezes entrou na pro-

víncia alguma mulher de sua cor [ .... 1. Alguns celibatários ti-

nham de portas a dentro escravas africanas ou índias, com quem

reproduziram a sua espécie. .." E embora os brancos se retirassem

ricos, dentre os pardos que ficaram na terra e herdaram parte dos

seus bens, vários foram se distinguindo e até adquirindo opu-

lência.103

Por todo o interior do Brasil, e nas cidades pequenas, pareceu

a Burton-na segunda metade do século XIX-ser lácil ao técnico

ou ao operário europeu, "whatever be his speciality or trick",

fazer rápida carreira, já dificultada nas cidades grandes pela anti-

patia que nelas se vinha desenvolvendo contra os artífices e ne-

gOciantes estrangeiros. É que, nas cidades grandes, considerável

numero de brasileiros natos, ou mulatos, já sabendo manejar má-

qu~nas ou ingresias, foram-se julgando com o direito de ser os

Únicos senhores das novidades técnicas. Não enxergavam nos

técnicos estrangeiros capazes de competir com eles, ou superá-los

no trato com as máquinas, senão intrusos. Eles, mestiços livres,

deviam ser agora os unicos maquinistas mecânicos; os exclusivos

senhores das oficinas; os São Jorges fuscos dos cavalos-a-vapor.

Se houve a princípio relutância da parte dos brasileiros pobres

e livres-na maioria mestiços-em se empregarem nas oficinas e

nos serviços mecânicos das primeiras companhias de estradas de

ferro, fundadas no Brasil, não tardaram eles em se apaixonar

Ctal trabalho, que de mestiços se encheu tanto quanto o tra-

01o das minas e das fundições. Depois de anos de atividades

no Brasil como superintendente de estrada de ferro, J. J. Aubertin

#

salientava que era do que não se podia queixar: da falta de tra-



balhadores brasileiros, aos quaís os serviços ferroviários vinham

dando "sustento e independência".104 Donde Burton ter reparado

ue a mineração e a estrada de ferro estavam criando no Brasil

9a' race of skilled and practiced hands..."101 Tamb6m uma nova

camada deSopulação: a de homens livres, na sua maioria mestiços,

o

o



engrandeci os ou valorizados pelo fato de saberem dominar ou

manejar maquinas ou motores, importados da Europa. Máquinas

que substituiam o trabalho lento de animais e escravos, com um

poder, uma velocidade e um rendimento a que não podiam chegar

animais e escravos.

Esse novo tipo de homem e essa nova raça de mecânicos, não

os criaram só a mineração e a estrada de ferro: também as fun-

dições. E alem das fundições, aquelas atividades industriais que,

assando a servir-se de máquinas, precisaram também de valer-se

e maquinistas, isto é, de mecánicos'ou peritos de novo tipo.106

Se estes foram a principio só estrangeiros, não tardaram a ser,

em grande parte, brasileiros, isto é, mestiços e negros livres,

alguns dos quais tornaram-se peritos em difíceis especialidades; e

a muitos essa perícia proporcionou a desejada ascensão social.

Se a principio à aquisição da máquina europeia mais compli-

cada era preciso ue o produtor ou o industrial brasileiro jun-

tasse a aquisição 2è maquinista, também europeu, que se encar-

regasse do aparelho misterioso, a essa fase de exclusividade euro-

péia na revolução tecnica sofrida pelo Brasil sucedeu-se o pe-

ríodo da m' iria européia ou norte-americana manejada pelo

mestiço ou negro livre da terra. A Balduína dominada pelo

Balduino-nome que foi se generalizando entre a gente mestiça

antes como homenagem à possante locomotiva anglo-saxónia do

que em mernoria do heroi nórdico.

Desde a primeira fase-a da máquina completada pelo maqui-

nista estrangeiro, em geral inglês-que a revolução técnica cau-

sada pela presença de novas máquinas europeias nas cidades, nas

minas e nas plantações do Brasil foi também uma revolução

social, dado o valor novo representado elo maquinista, pelo téc-

nico, 1 ecanico do novo tipo; e daJas as novas relações entre

elo in

o seJoEr de terras e o técnico ou o maquinista-homem livre-en-



carregado de lhe moer, por novo processo, a cana ou o milho;

de lhe serrar a madeira; de lhe lavar o cascalho; de lhe fabricar

o açúcar ou a aguardente. A figura do técnico ou do maquinista

-primeiro estrangeiro, depois da terra ou mestiço-veio a ser, em

muitos casos, a de um primeiro-ministro de monarquia não já

#

534



GmBERTo FREYRz

absoluta mas limitada ou constitucional: primeiro-ministro que

vinha diminuir a figura, outrora onipotente, do senhor de terras

e, ao mesmo tempo, sultão de escravos. Escravos que se encarre-

avam do processo inteiro de produção e de transporte, inclusive

a parte rudimentarmente mecânica da produção nos engenhos

e nas minas.

Agora era diferente. A máquina vinha diminuir a importância

tanto do escravo como do senhor. Tanto do roprietário branco

como do servo preto. Vinha valorizar principalmente o mestiço, o

mulato, o meio-sangue; e também o branco pobre, sem outra ri-

queza ou nobreza que a da sua técnica, necessária ou essencial

aos proprietários de terras ou de fábricas e à comunidade. A

má uma vinha concorrer para fazer de uma meia-raça uma classe

mé21a.

Lendo-se os anuncios de novas máquinas que desde os prin-



cípios do século XIX começam a aparecer nas gazetas ainda co-

loniais do Brasil, e surgem com maior insistência nos primeiros

jornais do tempo do Império, quase não se tem idéia da revo-

lução social, e não apenas técnica, que essas réclames anunciavam

aos gritos, Nunca uma revolução se fez mais escandalosamente à

vista de todo o mundo do que essa, no Brasil da primeira metade

do século XIX. São jornais, os dos primeiros decênios do século

XIX, cujos anúncios fazem tremer nas bases todo o sistema escra-

vocrático e patriarcal, dominante na colônia e depois no Império.

Pois a vitória da máquina seria a ruína desse sistema baseado

quase exclusivamente no trabalho do escravo e subsidiariamente

na ener ia do animal, com a máquina desempenhando papel não

só secuntrio como insignificante.

A verdade é que quem abrisse com olhos de homem e mesmo

de adolescente a Gazeta do Rio de Janeiro, do tempo de Dom

joão, era o que encontrava de mais fascinante entre os anúncios:

anuncios de máquinas-além dos de carruagens, das quais, como

de várias máquinas, se destacava a virtude da velocidade ou da

ligeireza ligada à da resistência; de instrumentos de cirurgia e

de marcenaria; de fornos; de caldeiras; de arados. Se nos pri-

meiros anos de sua existência, a Gazeta trouxe principalmente

anúncios de louças e fazendas, de manteiga e de conservas, na

sua segunda fase tomaram relevo as réclames de máyinas e pia-

nos-fortes. As róprias carruagens foram se distancian o , em estru

tura e forma Se palanquins e liteiras para se tornarem, cada dia

mais "trens", "máquinas", obras de mecânica ou de engenharia

ue ao conforto e às vezes ao luxo dos forros de veludo e das

anternas de prata juntavam a capacidade de rodarem com extrema

velocidade pelas ruas e pelas estradas.

SOBRADOS E MucAmBos - 2.0 Tomo

#

535


o gosto pela velocidade anoderou-se de não raros brasileiros

como um demônio, fazendo de alguns quase uns endemoniados.

Donde o acontecimento ye foi, no Rio de janeiro ainda pacata-

mente colonial do tempo e S.S. A.A. R.R. a experiência do Barão

Charles de Drais com sua ma uina "denominada Draiscene, ou

Velocipeder. A experiência se ?etz perante as referidas S.S. A.A.

R.R., na Real Quinta da Boa Vista e segundo notícia no Diário do

Rio de Janeiro "teve o referido Barão, depois de a [a máquina]

ter feito trabalhar, a honroza satisfação de merecer de S.S. A.A.

R.R. elogios pela sua acertada e util invenção". Segundo o mesmo

Diário a nova ma uma assemelhava-se a um cavalo: "seu feitio

he semelhante ao M hum cavallo de pao, fixo sobre duas rodas,

Ee são movidas pelos pés, do cavalheiro"_ "Quando os cami-

os se achão seccos em planicie, ella anda quasi quatro legoas

por hora, que iguala a hum cavallo a galope. Em descida, ella

excede à carreira de hum. cavallo a toda a brida."107

0 encanto dos brasileiros das cidades dos primeiros anos do sé-

culo XIX-cidades ainda coloniais mas já escancaradas às novidades

técnicas da Europa-era pelas máquinas capazes de extremos de

velocidade ou de força; mas o ponto de referência, tanto para a

força como para a velocidade das mesmas máquinas, seria ainda

por muito tempo o cavalo: "[ .... 1 hum cavallo a galope", "hum

cavallo a toda a brida..." Ainda durante anos as carruagens com-

binariam, nas ruas das cidades brasileiras e nas estradas das áreas

rurais mais adiantadas do Império, a condição de máquinas com

o fato de dependerem de escravos e de animais para o seu funcio-

namento. Como, porém, a carruagem ligeira, do tipo inglês, foi

invenção que chegou ao Brasil de repente, com ela se deslumbra-

ram muitos brasileiros como meninos com um brinquedo novo; e

desse deslumbramento resultou muito abuso ou excesso. 0 Rio de

janeiro cedo se tornou cidade famosa pelo excesso de velocidade

com que os carros novos rodavam pelas ruas, com os cavalos a

galope ou mesmo a toda a brida e os trens aos solavancos, a

despeito das molas que os adoçavam. Exibicionismo ou arrivismo,

talvez, da parte de senhores, habituados a traquitanas ou a pa-

lanquins morosos e de repente donos de carruagens capazes de

os proclamarem superiores por mais esta condição: a de rodarem

velozmente por entre plebeus vagarosamente a pé. E da parte

dos escravos ou dos negros elevados à situação de boleeiros e

coroados de cartola, como os doutores, houve talvez o abuso da




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   75   76   77   78   79   80   81   82   ...   110


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
Universidade estadual
união acórdãos
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande