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Bailarinos que rindo, gingando, andando macio, deram para ma-

tar brancos-principalmente europeus-rasgando-lhes o ventre a

navalha e a faca, quando outrora apenas os espapaçavam no chão

com as terríveis cabeçadas, maltratando-os, e certo, e ondo-os

fora de combate; mas sem os matar. Como nas lutas de foz entre

os ingleses.

Em 1821 já era diversa a situação no Rio de janeiro: os feri-

mentos e as mortes estavam se tornando numerosos na cidade;

e muitas delas praticadas por escravos negros e mulatos. Donde

a representação dirigida ao Ministro da Guerra, a 26 de fevereiro

do mesmo ano, pela Comissão Militar, no sentido de desenvolver

a polícia ação mais vigorosa contra escravos e negros desabusados,

.visto que pela falta de castigos de açoites, unicos que os ate-

morisa e aterra, se estão pe etrando mortes e ferimentos como

tem acontecido ha poucos di Z que se tem feito seis mortes pelos

referidos capoeiras e muitos ferimentos de facadas. .." À Co-

missão Militar parecia faltar "energia" ao então Intendente de

Policia. Ou isto ou não estava ele "bem ao alcance das perigosas

conse uencia; que se devem esperar de tratar por meios de bran-

dura qalquellas qualidade de individuos..." Pelo que a mesma

Comissão recomendava a S. A. R., por intermédio do seu Ministro

da Guerra, que, em vez de prender os escravos desordeiros, como

se eles fossem sensíveis à pena de prisão, como os brancos-e des-

sas prisoes resultava "damno a seos senhores" que eram obriga-

dos a pagar as despezas da cadeia"-a polícia submetesse sempre

os pretos apanhados em desordem, ou "com alguma faca" ou

"instrumento suspeitoso", a castigos de açoites que pudessem

concorrer para a "emenda dos negros".611

Desde 8 de dezembro de 1823 que uma portaria de Clemente

Ferreira França10 mandava que o brigadeiro-chefe do corpo de

polícia da capital do Império fizesse reforçar as atrulhas nos

largos e açougues de sorte a evitar o ajuntamento Se negros ca-

#

:enw. E desde 1821 que um edital-de 26 de novembro-marí-



va ofe os açougues e tavernas se fechassem às dez horas da

r

r



oite,r a fim de evitar iguais ajuntamentos. Em 1825, outro

dital, este do Intendente-Geral da Polícia da Corte do Brasil,

Francisco Alberto Teixeira do Aragão, declarava que os escravos

ode~aín ser apalpados a qualquer hora do dia ou da noite, desde

que lhes era proibido, sob pena de açoites, o uso de qualquer

arma: "não só o uso de qualquer anna de defeza como trazerem

aos". Era também proibido ao escravo-não só a eles como a

todo negro ou homem de cor-estar parado nas esquinas "sem mo-

tivos manifestos" e ate "dar assobios ou outro qualquer signal" .72

Atíngia-se o muleque em algumas das liberdades mais caraterís-

icas de sua condição de muleque: a de parar nas esquinas e a

de dar assobios, por exemplo.

Entretanto esses negros, esses escravos, esses capoeiras, esses

nuleques, contidos e ate reprimidos nas suas expansões de vigor

viril e de combatividade de moços e de adolescentes como se

todos os seus exercí ios físicos, todos os seus passos de dança,

le

todos os seus cantos em louvor de Ogum, todos os seus assobios,



fossem crime ou vergonha para a Colônia ou para o Império,

é que Çonteriam as turbulências e reprimiriam a revolta de mer-

cenários irlandeses e alemães quando esses europeus armados, sol-

dados prediletos de Pedro I-como eles, europeu-sublevaram-se

em 1828. Primeiro-na manhã de 9 de junho-alemães, aquarte-

lados em São Cristóvão, depois de lançarem fogo aos quartéis,

precipitaram-se nas rias como uns demônios ruivos, saqueando

tavernas e maltratando quanta gente pacífica e desarmada foram

encontrando. Depois, fizeram o mesmo os alemães da Praia Ver-

melha. Estes, tendo assassinado o Major Benedito Teola, que ten-

tara contê-los, saíram em confusão pelas ruas assaltando casas,

bebendo e roubando. Dois dias depois, aos alemães procuraram

juntar-se os irlandeses aquartelados no Campo de Santana. Antes,

porem, que esses novos amotinados saíssem dos quartéis, foram

cercados por forças míliciarias que lhes cortaram comunicações

com as ruas. E quanto aos soldados irlandeses que se achavam

de guarda a edifícios ou estabelecimentos públicos, estes, ao tra-

tarem de reunir-se aos seus companheiros sublevados, foram "ata-

cados por pretos denominados capoeiras. que com eles travaram

combates mortíferos". Pormenoriza o historiador Pereira da Silva

3ue, embora "armados com espingardas" não puderam os irlan-

eses resistir aos capoeiras; e vencidos por "pedra", "pau", ~e

"força de braços" caíram os estrangeiros pelas ruas e praças pu-

blicas, feridos grande parte e bastantes sem vida".73

Se é certo que só com o auxílio de tripulações de navios de

guerra ingleses e franceses surtos no porto-marinheiros que fo-

#

522 CiLBERTo FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.0 Tomo 523



ram empregados em guardar os arsenais e estabelecimentos pú-

blicos-~ dg~"cidadãos importantes", capazes de reunir "paisanos"

dispostos à luta, p^de o Governo subjugar a revolta dos merce-

nários alemães e irlandeses, trazidos da Europa ou aqui reunidos

re10 primeiro Imperador para constituírem sua guarda de con-

jança contra as turbulências tanto dos mestiços ou dos "natos"

como dos -portugueses exaltadoS"~74 e também verdade que, con-

tra muitos dos amotinados agiram, de modo fulminante, "pretos

denominados capoeiras" que não eram outros senão os negros

mais viris e os muleques mais sacudidos, cansados do rame-rame

de carregar alanquins, fardos,ledras, madeira, água, barris de

o

excremento Nós brancos. Cansa os de servir de bestas de carga,



de bois de carroça e de cavalos de carro aos brancos sem que

lhes fosse permitido descarregar sua melhor energia de homens

e de adolescentes vibrantes em ]GgOs, exercícios físicos, danças,

cantos e batuques do seu gosto ou da sua devoção de africanos

e de filhos de africanos.

Não, orém, que esses negros e esses pardos fossem por natu-

reza anarquicos ou sangüinarios, como ainda hoje acreditam os

intérpretes mais superficiais de insurreições como a "dos alfaia-

tes", no século XVIII e a dos Malês, no século XIX, na Bahia.

Ou das insurreições de quilombolas. Ou das revoltas ou motins

de gente de cor como os de 1823 no Recife .75 Ou das façanhas

de capoeiras aí e no Rio de janeiro.

0 que negros e pardos moços fizeram, explodindo algumas

vezes em desordeiros, foi dar alívio a energias normais em ho-

mens ou adolescentes vigorosos que a gente dominante nem sem-

pre soube deixar que se exprimissem por meios menos violentos

que a fuga para os quilombos, o assassinato de feitores brancos,

a insurreição: o batuque, o samba, a capoeiragem, o assobio, o

culto de Ogum, a prática da religião de Maomé. A estupidez da

iepressão é que principalmente perverteu batuques em baixa fei-

fiçaria, o culto de Ogum em grosseiro arremedo de maçonaria,

com. sinais e assobios misteriosos, o islamismo, em inimigo de

morte da religião dos senhores cristãos das casas-grandes e dos

sobrados, a caXoeiragem, em atividade criminosa e sangüinária,

o samba, em ança imundamente plebéia. É curioso observar-se

hoje-largos anos depois dos dias de repressão mais violenta a

tais africanismos-que os descendentes dos bailarinos da navalha

e da faca como que se vêm sublimando nos bailarinos da bola,

isto é, da bola de foot-ball, do tipo dos nossos jogadores mais

dionisíacos como o preto Leônidas; os passos do samba se arre-

dondando na dança antes baiana que africana, dançada pela

artista Cármen Miranda sob os aplausos de requintadas platéias

internacionais; as sobrevivências do culto de Ogum e do culto

de Alá dissolvendo-se em práticas marginalmente católico-rornarias

como g lavagem da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim na Bahia,

#

há pouco transferida para uma das igrejas do Rio de janeiro.



i que até em negros rebeldes estava quase sempre presente,

no Brasil patriarcal e escravocrático o desejo de serem Íados

e protegidos paternalmente por brancos ou senhores pogeurosos.

Quando os brancos fracassavam como pais sociais de seus escravos

negros para os tratarem como simples animais de almanjarra, de

eito ou de tração ou simples "máquinas" de ganho, de produção

ou de trabalho, é que muitos dos negros os renegavam. Queriam

ser homens bem tratados-mesmo sob a forma de escravos; e não

ammais nem máquinas. Por sua vez, senhores da terra, de idéias

alegavam


mais adiantadas como o Visconde de Prados, era o que

contra a importação de coolies como substitutos de escravos da

África: que os coolies tendiam a ser simples "máquinas animais".

Com o que se mostrou de acordo Joa m Nabuco no seu dis-

curso na Càmara dos Deputados de 1 Wéi setembro de 1879.

Diz-se da chamada "conspiração dealfaiates" na Bahia, que

quase converteu a velha capitania, outrora sede de Vice-Reis,

78

numa república à feição da de Haiti ~ intenção também dos



negros e pardos que, em 1823, espalharam-se triunfalmente pelas

ruas do Recife, gritando contra os "caiados", isto é, os brancos,

que os oprimiam, e dizendo-se imitadores de CristóVão.77 Entre-

tanto, por um ofício dos conspiradores ao governador daquela

Capitania, parece que era c . lesejo dos baianos-"quase todos ho-

mens de cor, escravos e libertos'-conservar no governo da Bahia

Dom Fernando José de Portugal sob a forma, ou com o título, de

"Presidente do Supremo Tribunal da Democracia Bahinense".

Presidente eleito ela comunidade; e não governador imposto por

um rei distante. M que os moços cons adores-um dos quais,

Manuel de Santos Lira, parece que titar, já homem, rosto de

menino de dezessete anos, pois foi aconselhado pelos advo ados

0

a dizer-se menor 78-estavam impregnados era de um repálica-



nismo vagamente à francesa; mas um republicanismo que em vez

de se extremar em guerra a todos os brancos ou a todos os

senhores, se conciliava com o sistema atriarcal, dominante no

Brasil, a ponto de não se desprender No respeito dos escravos

e dos ex-escravos por aqueles senhores que tratavam paternal-

mente a gente de cor e de trabalho.

Não é de admirar que semelhante fato-tentativa de síntese

em vez de explosão crua de antítese-se passasse no Brasil dos

fins do século- XVIII-onde a escravidão parece ter sido desde o

século XVI mais benigna para o escravo do que na América in-

glesa-quando, no Sul dos Estados Unidos, nos princípios do sé-

culo. XIX, haveria quem considerasse o sistema patriarcal, "tal

#

524 GiLBERTo FREym SOBpAj:>OS E MUCAMBOS - 2.' TO-Nio 525



como existe em alguns domínios e colônias na América e nos

Estados Unidos sob o nome de escravidão [ .... 1 sistema coope-

rativo de sociedade". É a tese (pe defende "um morador de

Flórida" ("an ínhabitant of Florida em opúsculo, hoje raro, pu-

blicado particularmente pelo autor em 1829 sob otítulo Treatise

of the Patriarchal or Cooperatíve System, of Society. Parecia-lhe

o sistema escravocrático, quando patriarcal, não só necessário

como vantajoso para senhores e escravos, sempre que soubessem

se entender e se completar; e capaz de permitir a participação

dos escravos nos rendimentos do seu pró rio trabalho, excetuados

os que se derivassem do produto capitI no caso, dos escravos

considerados particularmente pelo autor do curioso tratado, o

algodão das fazendas ou plantações do Sul dos Estados Unidos.

Da intuição de ser o sistema patriarcal, a seu modo coorerativo,

1

1

talvez resultasse o fato, freqüente no Brasil, dos escrav( - urtarem



livremente dos senhores coisas miúdas, explicando: "furtar de Se-

nhor não é furtar" .79 Era como o filho que furtasse do pai. Como

da mesma intuição parece iâue se derivava o costume de negros

fugidos de senhor que cons eravam mau irem se apadrinhar com

-nhores de quem esperavam tratamento paternal. Ainda hoje 'se

se

encontram descendentes de negros no Brasil que dizem não saber



se conservarem em casa onde não ha*a senhor ou senhora, velha,

a quem tomarem toda santa noite a tênção, corno filhos a pais.

E as misticas recorrentes entre nós em torno de políticos con-

sagrados como "pais da pobreza", "pais dos pobres" "pais dos

humildes", correspondem evidentemente a essa prâisposição

remota.


Dos revoiticionários de 1798, na Bahia, é possível que alguns

ensassem de modo semelhante ao do economista ou sociólogo

e Mórida; e julgassem realizável o sonho de uma república, a seu

modo cooperativa e, ao mesmo tempo, patriarcal, em que brancos

ou senhores, estimados filialmente por escravos e ex-escravos, con-

tinuassem a desempenhar funções tutelares, por eleição ou desejo

da população politicamente livre mas patriarcalmente configurada

em sua estrutura social.

São várias as evidências de que o escravo africano ou descen-

dente de africano, no Brasil, sempre que tratado paternalmente

por senhor cuja superioridade social e de cultura ele reconhe-

cesse, foi indivíduo mais ou menos conformado com seu status.

Raras parecem ter sido as exceções. 0 negro com quem Saint-

-Hilaire conversou em Minas Gerais, e que confessou ao francês

estar satisfeito com sua vida de escravo,110 parece que deve ser

considerado limpidamente representativo ou típico dos escravos

da sua época, isto é, dos tratados paternalmente pelos senhores.

#

Dos tratados como pessoas e não corno animais ou como maquinas



de produção.

F, Koster parece ter inteira razão ao observar que, ao contrário

dos índivíduos que faziam da acumulação de riquezas seu fim

rincipal na vida, os brasileiros já antigos no Brasil e na posse

m

Sen terras e de negros, mostravam-se livres daqueles "avaricious



sor~ that works a man or a brute animal until it is unfit for

tarther service, without any regard to the well-being of the crea-

ture, which is thus treated as mere machine, as if it was formed

of wood or iron...'81 Havia certamente senhores que so enxer-

nos escravos máquinas como que feitas de madeira ou de

mas havia também os que consideravam seus negros pes-

soas e não máquinas nem apenas animais

senhores foram talvez o maior número.

À despersonalização das relações entre senhores e escravos e

que p~incipalmente se deve atribuir a insatisfação da maioria

de africanos ou descendentes de africanos, no Brasil, com o seu

estado de escravos ou de servos. E essa despersonalização, tendo

se verificado desde que aqui se expandiram os primeiros enge-

nhos em grandes fábricas, com centenas e não apenas dezenas de

operários-escravos a seu serviço, acentuou-se com a exploração

das minas e, já no século XIX, com as freqüentes vendas de escra-

vos, da Bahia e do Nordeste para o Sul, ou para o extremo Norte;

para cafezais e plantações de caucho, exploradas às vezes por

senhores ausentes ou por homens ávidos de fortuna rápida; e nem

sempre por senhores do antigo feitio atriarcal. já habituados,

como pessoas e ate crias de casa-gra~iR, ao sistema de convi-

vência patriarcal dos engenhos de açucar, os negros assim ven-

didos a estranhos que não sabiam tratá-los senão como animais

ou máquinas, foram se sentindo diminuídos à condição de bichos

ou de coisas imundas, pelas vendas humilhantes; e no meio novo

é natural que, como outros adventícios-como os próprios afri-

canos recém-chegados ao BraSil~82 Corno os mesmos europeus ainda

mal aclimados ao meio brasileiro, como os brasileiros brancos

ou quase-brancos do Norte, de espírito mais aventureiro, nos seus

primeiros anos de residentes em províncias do Sul-se comportas-

sem como indivíduos desenraizados do meio nativo; e como todos

os desenraizados, mais fáceis de resvalar no crime, no roubo, na

revolta, na insubordinação, do que os indivíduos conservados no

Sprio ambiente onde nasceram e se criaram. Daí, talvez, as

Ireqüentes insubordinações de negros importados do Norte, na

Província de São Paulo, onde muitas vezes sentiam-se antes trans-

formados em animais ou máquinas do que tratados como pessoas.

Daí, também, o fato de quase sempre terem sido os escravos

revoltados contra seus senhores, no Norte, negros da África-prin-

de trabalho. E estes

,1

#

J



#

526 GILBERTO FBEYRE SOB~S E MUCAMBOS - 2.1 Tomo 527

cipalmente os de áreas tOcadas pela influência maometana-e não

crioulos ou "brasileiros".

Quando esteve no Ria de Janeiro-já depois de cessada a im-

portação legal de escravos africanos para o nosso Pais-o francês

Charles Wiener espantou-se das muitas vendas e compras de ho-

mens: vendia-se ou comprava-se um homem como se vendia ou

se comprava um animal: cavalo ou carneiro, boi OU Cão.83 Éclaro

ue quanto mais freqüentes fossem essas vendas e essas compras

e escravos muitos deles já crioulos e todos diminuídos igual-

mente à condição de animais, mais difícil seria conservar-se o

sistema de relações entre senhores e escravos como um sistema

de relações entre pessoas. Era demorando numa casa, numa fa-

zenda ou numa estância, afeiçoando-se a uma família ou a um

senhor, que o escravo se fazia gente de casa essoa da família,

membro da "cooperativa patriarcal" de ue' ?alava o "morador

de Flórida". E não sendo facilmente veSdo ou trocado como

coisa, como animal, como simples objeto de comércio ou de lucro:

o caso de muito escravo em Salvador, nas mãos de comerciantes

de sobrado incapazes de praticar o patriarcalismo das velhas ca-

sas-grandes mais enraizadas na terra. Comerciantes que freqüen-

temente aparecem na Idade d'Ouro do Brazil trocando escravos

por "carne secca vinda de Montevideo" (12 de outubro de 1822)

ou por "cebo vindo de Porto Alegre" (3 de dezembro de 1822)

ou por "coral fino" (20 de dezembro de 1822).

A observadores mais argutos do ue Wiener o que deve ter

Çipalmente espantado no Brasil 2à segunda metade do século

Ité que os escravos fizessem, ainda, como pessoas ou como

animais, as vezes não tanto de cavalos e de bois, já meio arcaicos

para várias das funções que exerciam entre nós, quanto de má-

quinas, de que o Império patriarcal e escravocrático continuava

a não tomar conhecimento. Na primeira metade do século, Walsh

já se admirava do pouco uso da máquina e do próprio animal

entre nós-pais onde tudo era o braço escravo que fazia: no-

tando, porém, que da parte de numerosos brasileiros a atitude

era de avidez pelo conhecimento ou pela posse de inventos me-

cânicos já utilizados na Europa. ocidental e aos Wiais atribulam

e

a superioridade dos europeus do Norte sobre os emais.8'



Por outro lado, muitos eram os que, estando em situação eco-

nômica de possuir máquinas nas suas fazendas ou engenhos,

superiores às rudes caranguejolas de que se serviam para moer

mandioca, café, cana, e nos seus sobrados, moinhos domésticos

em vez de rudes pilões, contentavam-se com essas simples caran-

guejolas e esses rudes pilões. Contanto que não lhes faltassem

negros e bois. Principalmente negros. Os próprios cavalos eram

antes para a sua ostentação ou decoração social que para seu

uso. os bois apenas para auxiliarem os negros.

Mawe, na propriedade do Capitão Ferreira, em Morro Quei-

#

~do, no Rio de janeiro, ficou surpreendido com as instalações



arcaicas: engenho e destilaria. Disse o inglês ao capitão, ao ver

as fornalhas da destilaria, que não podiam ser piores. Ao que

o capitão respondeu que na reTao não se conheciam melhores. 85

A verdade é que, segundo pó (e observar o inglês, os senhores

brancos do tipo do Capitão Ferreira deixavam quanto era serviço

xnecàfflco nos seus estabelecimentos ao cuidado de negros, de es-

cravos. Nada sabiam do funcionamento das máquinas. Quando

Mawe procurou convencer o capataz da destilaria, que era um

negro, que estava-se gastando inutilmente imensa quantidade de

combustível e que era possível corrigir o gosto desagradável da

aguardente que Morro Queimado produzia, o negro riu, certo de

que htendo aprendido a fabricar cachaça com velho fabricante,

não avia rocesso melhor de produzi-Ia; e indiferente ao ro-

blema de Esperdício ou de economia de combustível. ConSUiu

o in lê sendo os pro rietários indiferentes a melhoramentos

mecfni os nos seus estabelecimentos e nas suas casas e tudo dei-

xando à direção ou ao critério de homens de cor, escravos ou

servos ue se contraíam de quanto fosse aumento temporário

ul

de trabSo, não era ossível que o Brasil saísse da rotina.86 E a



rotina pode-se generaRzar que era a do mínimo de máquina e a

do máximo de trabalho escravo, apenas auxiliado pela energia

do boi ou pela energia da mula.

Era uma aversão, a dos Nroprietários de engenhos e de están.

cias, de ran * as e de fazen as-mesmo os residentes de sobrados

ou casas gasso ]bradadas-pelos aperfeiçoamentos de técnica de pro-

dução, nos seus estabelecimentos ou nas suas casas, comum aos

brasileiros de tipo ou classe senhoril. "This aversion to improve-

ment 1 have often observed amonX the inhabitants of BrazW,

notou Mawe, atribuindo o fato à ependência do negro ou do

escravo em que se encontrava a inteira Organização industrial

e não apenas a agrária do País: o fabrico de tijolo como o de

açúcar, o fabrico de sabão como a exploração das minas.87 E ao

nell'b, quando escravo, não interessavam, de ordinário, melhora-

mentoS mecânicos que ele supunha virem aumentar-lhe se não

o trabalho, as preocupações, e as responsabilidades. 1 1 obser-

vação fez alguns anos depois WaIsli no interior do a

propósito da máquina de moer milho que encontrou nu a:

máquina arcaica e ineficiente que desperdiçava água. E não he-

sitou no diagnóstico: "[ .... 1 it is one of the effects of slavery".88

Donde ter sido, ao que parece, depois do técnico ou do artesão

estrangeiro, o negro livre, o pardo ou o mulato de cidade, o ele-

#

528 CILBERTo FREYRE SoB~5 F, MUCAMBOS - 2.0 Tomo 529



mento que com mais entusiasmo concorreu para a mecanização

do trabalho entre nós. E isto por enxergar ele no seu domínio

sobre a máquina meio de se elevar socialmente; de melhorar de




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