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e Norma" a seu irmão, José Antônio, para o governo das Minas,

Gomes Freire de Andrada referia-se em 1751 à "congregação de

pés rapados caribocas e mulatos, que hoje são os executores das

violencias".51

Admitido o fato de que, em remotos dias coloniais, os reinóis

tenham sobrepujado os brasileiros no cuidado com os pés ou no

luxo dos calçados, a situação parece,ter se modificado no sentido

#

512 Gu.BERTo FRE=



SOB~5 E Mu~os - 2.` Tomo 513

de verdadeiro culto aos pés e aos sapatos e às botas de montai

a cavalo da parte dos brasileiros de formaçao ou condiçãd-pa-

triarcal. já nos referimos ao costume do lava-pés não só nas

casas-grandes como nas próprias casas pequenas de lavradores do

interior: litur ia de hospitalidade e prática higiênica de origem

o

talvez orientW a que os viajantes se submetiam num como reco-



nhecimento do fato de que os lares patriarcais eram recintos

puros aonde não devia chegar a imundície das ruas ou dos ca-

minhos. Liturgia e prática higiÊnica a que se submetiam as pró-

rrias pessoas de casa antes de se recolherem às suas camas ou

s suas redes, nas casas-,wandes e nos sobrados nobres, havendo

mucamas que se especia izavam na arte não só de lavar os pés

dos ioiozinhos como na de livrá-los dos bichos causadores de

comichões, a principio volutuosas, depois irritantes ou incÔmodas.

Se voltamos ao assunto é para acentuar o fato de que a dis-

tância entre classes, no Brasil, teve no cuidado com os pés e

com os saxatos uma das suas expressões mais carateristicas, fa-

c

c



z os s dos homens senhoris uma espécie de és de

montar a cavafoée dos pés dos homens servis, pés de andEr nua

e cruamente pelas ruas ou pelas estradas. E, sobretudo, ideali-

zando-se os pés pequenos, bonitos e bem calçados'das mulheres

senhoris em objetos quase de culto ou de devoção da parte dos

homens: culto social e sexual que assumiu as ecto francamente

reli ioso, ao mesmo tempo que simbólico, na Jevoção pelos cha-

maNos "sapatos de Nossa Senhora". Ewbank ainda encontrou no

Rio de janeiro do meado do seculo XIX, o culto da "sola do

sapato de Nossa Senhora", sola que era beijada por homens de

cor tanto quanto por senhores brancos e respeitáveis. Viu o obser-

vador norte-americano um devoto beijar "the framed pattern of

Mary's shoe-sole: o devoto "putting his hands against the white-

washed wall, pressed his mouth and rubbed his nose against it".

0 culto-talvez reminiscência do Oriente na vida ou na cultura

portuguesa do Brasil-pareceu a Ewbank, "Untuoso". 52

A Debret impressionara o fato, no Rio de janeiro que ele

conhecera em 1816, de haver tanta loja de sapateiro numa cidade

onde cinco sextos da população eram, então, formados por indi-

víduos que caminhavam pelas ruas sem sapatos. Explicava-se o

aparente absurdo: as senhoras brasileiras usavam sapatos de seda

extremamente delicados. Postos em contato, mesmo breve, com

as calçadas ásperas, rompiam-se facilmente, exigindo consertos

das mãos dos sapateiros. Ou novos sapatos. Notou o francês que

as mulheres brasileiras tinham de ordinário lindos ~es: "[ .... 1 les

fenimes généralement favorisées d'un três joli pie, ... "53 Pés que

elas ou os homens, seus donos ou senhores-pais, maridos, aman-

tes-tinham extremo gosto em revestir de seda. Os sapatinhos das

#

iaiás da era colonial tinham sido principalmente brancos, r6seos,



azuis; depois de 1823, notou Debret que tornaram-se moda os

verdes e amarelos: cores imperiais ou nacionais."

Mas não era só a íaiá de sobrado ou de casa-grande que,,nos

últimos decênios da era colonial, ostentava pés não só mimosos

como calçados orientalmente de seda cor-de-rosa ou azul-celeste.

Também suas mucamas:'"[ .... 1 les six ou sept négresses qui la

suivent à Féglise ou à la promenade". diz Debret. Também a mãe

de família de casa térrea e pequena: "La mère de famille moins

fortunée a Ia même dépense pour ses trois ou quatre filles et ses

d~ négresses~'.

E, ainda, a *mulátresse entretenue". E, finalmente, a mulher

do mecânico ou a do artífice e a negra livre, que faziam esforços

verdadeiramente heróicos para se apresentarem bem calçadas nas

festas, de modo a se destacarem das baianas de chinelas na

ponta dos pés ou das neffras descalças. "La femme du pauvre

artesan"-escreve Debret- se prive presque du nécessaire pour

parakre avec une chaussure neuve à toutes les fêtes; et enfin Ia

né-aresse libre g ruine son, amant "r satisfaire à cette dépense

frêquemment renouvelée.55

Essa ostentação de sapatos finos de seda era nas ruas; ou só

nas calçadas, dos palanquins para o interior das igrejas, onde as

senhoras se ajoelhavam de modo a não deixarem aparecer senão

a Donta dos pés. Enquanto em casa, os sapatos velhos geralmente

lh;s serviam de chinelos.

Foi só depois da transferência da Corte, de Lisboa para o Rio

de janeiro, que aos sapatos medieval ou orientalmente feitos em

oficinas de sapateiro, se sucederam os fabricados em Londres:

os sapatos feitos já em máquinas e alguns com peles de animais.

E pardos, cinzentos, escuros, em vez de orientalmente de cor,

como os ostentados até então pelas senhoras. Não nos parece

que se deva atribuir, como parece querer Debret, à "anglomania

dos cortesãos portugueses",56 que vieram então para o Brasil, o

triunfo dos sapatos que poderemos considerar de feitio burguês

e de fabrico mecânico, ou semimecânico, sobre os antigos sapa-

tinhos de mulher feitos inteiramente a mão e com material in-

capaz de resistir a caminhadas longas e sobre ruas ásperas. Eví-

dentemente as novas condições de vida e de transporte-a maior

liberdade que foi sendo concedida às senhoras para atravessarem

as ruas a pé, nos dias de missa ou de festa, e a substituição de

palanquins (que as deixavam quase dentro das salas) por car-

ruagens que, a trote de cavalo ou de mula, apenas as conduziam

aos portões das casas-foram exigindo das senhoras o uso de

calçados mais resistentes que os de seda.

#

514 G~To n~ SoBRADos z Muc~ - 2.1 Tomo 515



Os calçados fabricados em Londres, com máquinas ou oi meio

de técnicas que permitiam a sua uniformização de esti o e seu

aumento de resistência, vinham atender a essas condições novas

de vida. A anglomania dos brasileiros mais adiantados da época

terá sido apenas o excitante que aguçou o desenvolvimento, entre

as senhoras, da moda dos sapatos fortes e de cores discretas, de

preferência aos frágeis e de cores vivas. E, entre os homens, da

moda das botinas burguesas que foram substituindo os antigos

sapatos de fivelas de prata, orgulho dos fidalgos da era colonial.

Os anuncios de sapatos aparecidos nas gazetas brasileiras dos

últimos anos do Reino e dos primeiros decênios do Império nos

deixam ver que foi principalmente nas fábricas inglesas que nossos

antepassados se supriram então de calçados de osto burguês,

ao mesmo tempo que de botas de montar a cavalo e de outros

artigos de couro,57 fabricados na In laterra com grande superio-

ridade técnica. 0 próprio comércio 1 meias de seda, a princí io

dominado pelos franceses, não tardou a passar para as mãos àOs

ingleses. 0 estado de guerra entre Portugal e a França, nos

primeiros anos do século XIX, contribuiu para o declínio desse

comércio e para o quase desaparecimento das meias francesas

de seda nos mercados brasileiros. Quando se fez a paz entre os

dois Reinos, diz Say que "les Brésifiens denwndèrent avec instance

qdon leur envoyat des bas de soie et des draps français, dont Ia

réputation étaít grande et ancienne parmi eux, mais lorsque ces

merchandises arrivèrent, ils reprochèrent aux bas de soie de n'avoir

pas Ulastícité des bas (patent stockíngs) des, Anglais. ."58 Se-

gosto

rasileirO ée se modificara, sob a influência das meias fabri



cada

Érimeira metade do século XIX o aparecimento,

no os de macia e rofilática sola de borracha-ca-

ueiro e que m

s na Inglaterra

também da p

Brasil, de sapat

pazes de resguardar o indivíduo Nos resfriamentos devidos a pós

MOI orno novidade técnica, talvez devam ser consi-

derados antes um brasileirismo do que um anglicismo. Em 1849

eram os sapatos desse tipo anunciados como "sapatos de gonima

elastica com sola para livrar da humidade, para homens e se-

nhoras". É o que diz um anuncio, no Jornal do Commercio de 10

de julho, da sapataria que havia então na Rua do Ouvidor n.O 72.

hados-e que,c

Sabe-se que os profiláticos de borracha, aos quais se atribui

na Inglaterra orifem francesa e, na França, origem inglesa, foram

primeiro fabric, os, ainda no século XIX, com matéria-Prima bra-

sileira-borracha do Pará-da qual foram também fabricados-ao

que parece dentro de ins Í ação oriental e segundo técnica chi-

#

nesa-os primeiros falos úteis e maleáveis de caucho, que tor-



naram famosos os nomes brasileiros do Pará e do Maranhão. Pires

gundo o mesmo Say o produto francês não se alterara .

de Almeida refere-se ao Pará. como a primeira região que for-

neceu "à indústria nacional e estrangeira, matéria-prima para esses

girtefatW.59 Para esses artefatos e para os sapatos de "gomma

~cor.


Intenso como fo4 no Brasil ainda patriarcal e já urbano, o

culto do pé pequeno, delicado e bonito de mulher Q mesmo de

homem, como evidência de sua superioridade ou de sua situação

social, e do sapato ou da botina que correspondesse a essas qua-

lidades; de pé, ou as acentuasse, ou resguardasse o pé fidalgo da

água das ruas ou da umidade dos caminhos---como o sapato ou

a botina de sola de borracha-é natural que transbordasse tal culto

da zona social para a de excessos de fetichismo sexual. Foi o que

sucedeu. Ao caso relatado elo médico Alberto da Cunha, em

tese inaugural"-o do indivíNuo que só se sentia apto para o ato

venéreo "quando ardentemente cobria de beijos a botina da mu-

lher ambicionada"60-podenam . untar-se vários outros de brasi-

leiros obcecados pelo pé ou pela Mina da mulher desejada, alguns

dos quais deixaram em sonetos célebres a marca de sua obsessão.

Também parecem ter sido-e continuam a ser-vários os casos,

entre brasileiros de formação ainda patriarcal, de predis stos ao

orgasmo ou à volutuosidade, através do simples roçar Teo um pé

no outro: a chamada "bolina~ de pé. Os pés como que se tomaram

em tais indivíduos zonas de particular sensibilidade talvez em

conseqüência dos bichos docemente extraídos dos seus pés de

meninos por mucamas ou mulatas de dedos ágeis e macios. Assunto

a que já nos referimos em capitulo anterior e a que voltamos

neste para consA verdade é que o culto do pé pequeno e bonito e do saXato

i i


i

elegantemente protetor desse pé fidalgo, surpreende ao estu loso

da história íntima do brasileiro como um dos traços mais expres-

sivos de formação de personalidade crelo status ou pela situação

o ~

social do indivíduo: a personalidade o aristocrata de casa-grande



e, principalmente, de sobrado, em oposição ao tavemeiro de é

grande e metido em tamanco ou ao negro de senzala, obrigaÀo,

como o de mucambo, pela natureza do seu trabalho rude de rua

ou de eito, a andar descalço ou apenas de alpercata, inteira ou

'ase inteiramente exposto aos bichos, à lama e à imundície.

dada essa importância do culto do pé, esse resguardo do pé

nobre, esse afã de proteger-se no fidalgo o pé, tanto quanto as

mãos, dos esforços ou trabalhos rudes, próprios só de escravo

ou de animal, com reende-se que o aristocrata brasileiro tenha

sido, na era colonZ e nos começos da imperial, homem eximio

na arte de cavalgar e, ao mesmo tempo, volutuosamente inclinado,

#

tanto quanto o rico ou o oderoso do Oriente, a fazer-se trans-



:)a?

a

a



portar, nas cidades, em p anquins, redes ou cadeiras, no interior,

#

516 GiLBERTo FREYRE



SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.0 Tomo 517

em bangüês ou liteiras, por escravos e animais de boa figura e de

bons musculos.

Atingido o Brasil pela "era da máquina", compreende-se, igual-

mente, que tenha se desenvolvido entre nós o gosto pela carrua-

gem puxada por bonitos cavalos e boleada por bonitos escravos:

complexo de máquina, escravo e animal a serviço do homem

fidalgo que não podia gastar os sapatos nem sujar os pós, andando

por caminhos ásperos e ruas imundas. Mas deve, igualmente, com-

5)reender-se que, ao culto do pé simplesmente pequeno e bonito,

o aristocrata rico, de palanquini ou de carro, tenha se juntado

entre nós, desde os dias coloniais, o culto do pé não só pequeno

e bonito porém ágil, como foi entre nós o pé do capoeira, do

capadócio, do baiano ou do malandro de chinelo e de andar

acapadoçado. 0 pé daquele aristocrata de cor que podia gabar-se

de não precisar de trabalhar rotineiramente nem com os pés nem

com as mãos para viver vida mais ou menos regalada nas gran-

des cidades do Brasil patriarcal: cidades onde o princi~al ini-

migo do capoeira foi menos o fidalgo de sobrado-do qua, tantas

vezes tornou-se aliado ou capanga, como Nascimento Grande de

José Mariano-do que o "marinheiro pé de chumbo" ou "pé de

boi", isto é, o português de venda, de taverna, de loja, de armazém,

de carroça, que enriquecia no trabalho duro e rotineiro-quase

animal-e mais de uma vez consetê pela sua maior estabilidade

c ~~

0.

econômica, arrebatar ao mulato io ou ao cabra romàntico,



tocador de viola, cantador de modinha e dançador de samba e

de capoeira, sua mulata de estimação.

Aos "pés de chumbo" raro foi possível sustentar vantajosamente

combate a pé com os és de cabra" descalços ou apenas de chi-

nelos-chinelos quase ~e mulher-mas sempre destros na arte da

capoeiragem. Era como se os caçoeiras pretos e mulatos lutassem

. r

contra os tavemeiros bram - rancos armados a pistola mas



burguesmente, a pé-cavalgando cavalos invisíveis de Oguni ou

de São Jorge. Na verdade só a cavalaria vencia esses capoeiras

diabólicos. Só cavalos de verdade. Só brancos, soldados ou fi-

dalgos feudalmente a cavalo faziam fugir muleques afoitos, ca-

poeiras desembestados, capadócios atrevidos. Veio até quase os

nossos dias o prestígio do simples grito de 'lá vem a cavalarial",

isto é, tropa a galope, fazer dispersarem-se desordeiros ou insur-

retos a pé.

Dos primeiros dias do Imperio é um episódio, ocorrido no

Rio de janeiro, que indica até onde chegou, entre nos, o poder

do muleque de rua ou do negro ou mulato capoeira em face da

superioridade técnica de soldados brancos ou europeus de infan-

taria. E desta vez, como de outras, veremos daqui a algumas

p ginas que o capoeira negro ou o muleque de rua não foi o

#

amotinado, o revoltoso ou o agitador mas, paradoxalmente, o



conservador da ordem social ou o defensor da dignidade nacional

contra o perturbador. ou o agressor estrangeiro: no caso, merce-

nários irlandeses ou alemães a serviço do primeiro Imperador de

quem se dizia que era mal visto por muitos brasileiros "por não

ser nato" como o segundo seria mal compreendido, por nume-

rosos súditos, por "não ser mulato".

Escreve Elísío de Araújo em seu já mais de uma vez citado

E,studo Histórico Sobre a Polícia da Capital Federal de 1808 a

1831 (Rio de janeiro, 1898) terem feito época, no Rio de ja-

neiro, nos princípios do século XIX, as chamadas . ceias de ca-

marão": grandes tundas depau dos granadeiros de corpo da

C,uarda Real da Polícia, em vagabundos" ou "peraltas" que fos-

sem apanhados nos "batuques, então muito freqüentes nos su-

búrbios da cidade".61 Entretanto, alguns, pelo menos, desses su-

postos "vagabundos" ou "peraltas" negros e mestiços, talvez fos-

sem principalmente devotos de Ogum prontos a honrar o santo

ou seu patrono, com uma valentia menos de negros ou mestiços

predispostos ao crime do que à ação militar, à guerra, à dança

rZeira, à expressão física e até artística de energia moça e

Essa energia moça eles a punham princiRalmente na afir

mação ou na defesa tanto de sua condição de filhos de Oguni"

ou de "São Jorge"-como de "filhos" del-Rei Nosso Senhor ou do

Imperador Nosso Pai ou da Santa Virgem Maria, quando des-

respeitada a Santa por hereges de qualquer espécie ou o Rei

ou o Imperador por estrangeiros. Tanto que depois de duramente

surrados pelos granadeiros do famoso Major Vidigal-que era com

seus "ares de moleirão" e sua "voz adoçada" a alma às vezes

danada da referida Guarda Real da Polícia---e èonservados presos

wr algum tempo na Casa da Guarda, "os válidos" daí saíam para

engrossar as fileiras do ExércitJ.62

No Exército é pena ter faltado a chefes áridos a imaginação,

a inteligência, a flania capaz de os fazer aproveitar a arte de

capoeiragem de cabras tão sarados no serviço da própria segu-

rança nacional. Esses escravos fugidos, inconformados com a con-

dição de escravos, ou esses descendentes de escravos, inadapta-

dos ao trabalho de rotina, mesmo livre, teriam dado ótimos sol-

dade,s-capoeiras. Pois os próprios historiadores da época que se

baseiaiA exclusivamente, como Araújo, em informações dos ar-

quivos policiais, salientam que o crime dos "peraltas", dos "capa-

dócios" ou dos "capoeiras" negros ou mestiços consistia em, nos

"batuques", nas "tavernas das mais baixas ruas" ou "nos terrenos

devolutos", exercitarem-se em "jogos de agilidade e destreza cor-

poral, com imenso gáudio dos embarcadiços e marujos que, entre

1, 1


11 i

li,


#

4AJ73 Jaaall

DireeClo da actriz

ISM ENIA DOS SANTOS

Terça-feira 21 de Abril de.1885

Êlearado com a Pre~M 088 8. Exe. a ar.

rUMIETE Dá Filomelã

MULATINHA DO CAROÇO

Pblo actor LYRA a linda ecena-oomica t

acto: 889129 Pela BBN£1?IOIADA o o 4etor LYRA a 1 ada opereta em 1

UMA

Pelii actriz IsMENIA a linda Poee'& da Vs'1os Ferreira:



A PEDIDO terminará o capectoculo com

o desproposito em um &ato:

MO xarila

pela beneficiada, Lpa, Lisboa, Tito o Maria da Rocha.

PrinoiPifirá de 8 Êorag.

Trem para Apipucos o Olinda e bouds para todas

as finha.3.

ANúNCIO DE ESPETÁCULO No TEATIRO SAN`TA, ISABEL Do IJE=, Ca-

raterístico das tendências contraditórias da arte teatral no fim da

era imperial e escravocrática, inclusive a glorificação da mulata ao

lado cio culto da atriz loura e européia.

SoB~s z MucA~s - 2.1 Tomo

519

baforadas de fumo imp~e



jnadas de álcool, gostosamente aprecia-

vain tais divertimentos .

para resguardarem-se da perseguição da polícia constituíam-

-se os capoeiras-e esta foi, verdadeiramente, a causa da capoei-

ragem entre nós ter deixado de se desenvolver num jogo carate-

risticamente afro-brasileiro para degradar-se em crime ou pecado

como v e nefando-como era natural que se constituíssem, em

"maltas de capadécios armadas de faca ou navalha que "em con-

tínuas correrias levavam o terror e o pânico à pacifica e burguesa

população desta antiga e atrasada metrópole.64 Devotos de São

Jorge-a-Cavalo, não é de estranhar que os "cavalos marinhos"

#

se tornassem, com outras "funções públicas", "o teatro predileto



dos terríveis ajustes de contas ou torneios de capoeiragem. .."65

No estudo já referido, Elísio de Araújo salienta que a datar

de 1814 "aumentam progressiva e espantosamente as devassas

mandadas proceder contra indivíduos encontrados de posse de

navalhas ou acusados de serem autores deferimentos feitos por

essas armas~.66 0 que parece indicar só em face da brutal

perseguição policial que depois de 1 se desenvolveu contra

eles, como contra as gelosias árabes, os telhados orientalmente

arrebitados nas pontas em cornos de lua, os batuques e os re-

médios africanos-e por motivo ou sob pretexto sempre o mesmo:

o de re llí

viNugnarem tais orientalismos ou africanismos aos o os,

aos ouvi os e ao paladar, quando não também aos interesses, dos

europeus "perfeitamente civilizados", isto é, os do Norte da Eu-

ropa-recorreram os capoeiras à navalha e à faca como armas

de defesa contra a polícia e mesmo de agressão a brancos into-

lerantes. Merecem estudo minucioso essas devassas pois "proje-

tam~-diz; Araújo-"iritensa luz sobre o conjunto dos exercícios que

constituem a capoeiragem", dos quais talvez o principal fosse a

chamada "cabeçada~.

Devassa de 22 de abril de 1812 contra o soldado Felício Novaís,

do 2.0 Regimento, refere ter o mesmo dado "uma cabeçada no

Inglez Guilherme LodgX67 que parece ter deixado o mister

espapaçado. Tratava-se de um capoeira ainda ortodoxo-dos que

não se serviam, em combate, de navalha ou de faca, mas da ca-

beça, dos pés e das mãos. Destes parece que o maior foi, ainda

no século XVIII-nos dias do Marquês de Lavradio-o tenente de

milícias João Moreira, por alcunha o "Amotinado", que, jogando

perfeitamente a espada, a faca e o pau, dava preferência à cabe-

çada e aos golpes com os Ses.68 Sinal de que algumas milícias

coloniais, na segu---- e do século XVIII, seguiram, com

relação aos exercícios de capoeiragem, lítica ainda mais avan-

çada a dos capitães-generais com refa0~ão às danças de negros

OS(Ve


e a atuques: a política não só de tolerá-los como de absorver-

#

I



520 CILBERTo Fp~ SoB~s E Mu~os - 2.' Tomo 521

-lhes valores e técnicas, no interesse da comunidade. À causa da

se 'blica só podia ser útil a presença, entre oficiais das

mN?~ança pu

. leias, de homens de cor que fossem também campeões da ca-

poeiragem. 0 caso, ao que parece, não só do Tenente Moreira

como do soldado Novais.

Se deles foram se queixando à polícia do Príncipe Regente,

como de bailarinos incômodos, ingleses e franceses que não viam

com bons olhos nem gelosias áral~es capazes de esconder ladrores

nem capoeiras peritos em cabeçadas e rabos-de-arraia, devem ter

se arrependido de algumas das queixas. Pois-repita-se-a perse-

t'ção sistemática da polícia do Regente aos capoeiras dos rabos-

-arraia e das cabeçadas e que os perverteu em bailarinos

ainda mais incômodos: bailarinos de navalha e de faca de ponta.




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