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ue tiverem lojas abertas dos ditos officios fora dos dominios

#

e seos Senhores, que estes pagarão pelos taes escravos. .



#

504 GU-BERTO FREYRE SOBRADOS E MucAmBos - 2.0 Tomo 505

Dizia mais o comunicado do Senado do Rio de janeiro publi-

cado no Diário, da mesma cidade, de 11 de junho de 1822, que

costumava a mesma Irmandade "pedir nas Cavalherices Reaes o

Cavallo branco sobre o qual sahia S. Jorge e por parte deste

Senado se pedia nas mesmas cavalherices o Estado que deve

acompanhar o Santo". Deixara, porém, a Irmandade, no referido

ano de 1822, de aprontar "a sella do Cavallo da Imagem". "Cul-

poso descuido" que merecia censura tratando-se de um culto que,

evidentemente, não era só do Santo cavaleiro mas do Cavalo,

animal capaz de assegurar ao homem situação de superioridade

sobre os demais homens e sobre os proprios dragões.

Também o grupo de negros ínconformados com seu estado de

servidão e de inferioridade social e com aspirações a grupo do-

minante-pelo menos a domínio sobre os escravos e ex-escravos-

fez no Brasil-principalmente no Rio de janeiro-de São Jorge,

aliás OgUni~35 seu santo ou seu padroeiro de homens que se não

apareciam senhorilmente-senão como pajens de brancos ou nos

dias de Xrocissão daquele santo-no alto de cavalos de carne,

d o com a vista os homens a pé, dominavam no$ dias

comuns forças ou energias equivalentes às de cavalos e capazes

de comprometer a ordem estabelecida. Forças que estavam nos

seus músculos de homens vigorosos, de moços, de adolescentes

capazes de se revoltarem cont~ra os brancos, de os assassinarem, de

os fazerem definhar com mandingas. São Jor e reuniu, assim, no

Brasil, dois cultos contraditórios.- o do grupo Sominante-de bran-

cos e de quase-brancos-e o daquele grupo dominado, de homens

de cor que se não conformavam, senão aparentemente, com a

dominação exercida sobre eles por brancos às vezes seus infe-

riores em instrução, em inteligência, em perícia técnica, em vigor

físico e em beleza de corpo. Que reagiam contra essa dominação

atraves do que um marxista chamçLria "luta de classes" e que a

outros tem se afigurado 9uta de raças" ou de "culturas" quando

na realidade, em tal conflito, parece ter se exprimido a interpe-

netração de vários antagonismos e nunca um só.

Como recorda H. J. do Carmo Neto, em interessante contri-

buição para a história da polícia no Rio de janeiro, no "feti-

chismo" dos negros que habitavam o Brasil-Colônia, Ogum era,

entre os orixás, uma especie de "deus da Guerra" ou da "Vin-

gança", tendo por símbolo "uma espaW ou um "arpão de ferro";

e por "ofertório" uma pedra, "posta numa encruzilhada", onde os

devotos iam depor ex-votos, tais como "uma faca tinta de san-

gue" ou outros instrumentos de crime, logo após a prática de um

homicídio ou de um simples ajuste preparatório".36 Era equiva-

lente esse seu culto, ao Católíço, do santo guerreiro São Jorge

-guerreiro dominador, montado significativamente a cavalo. Com-

preende-se assim, que a Igreja de São Jorge, no Rio de janeiro,

se tornasse o centro da devoção africana a Ogum. E por quase

todo o Brasil, a imagem do santo guerreiro-em algumas áreas

#

substituído pela figura de Santo Antônio-tornou-se para os negros



o símbolo de Oguin, em tomo do qual chegou a formar-se o que

Carmo Neto, apoiado em informações colhi as principalmente

nos arquivos policiais do Rio de janeiro, verificou ter siao "vasta

confraria" cujo emblema era "um bracelete de ferro", cuja "cor

tí *ca . era "o amarelo" e cuja venera, nos pejis, era "um adufe

aSornado, simbolizando a guerra".37

Ao culto de Ogum, ou de São Jorge-a-Cavalo, por negros orga-

nizados em confraria secreta, filia o mesmo Sesquisador o fato,

relatado por van Boelen com relação ao Rio e janeiro dos pri-

meiros anos do Imperio, de um negro a quem "idéias supersticiosas

haviam impedido de quebrar o compromisso tomado em uma

empreitada criminosa aSesar do mandante se haver adrede arre-

o

o

endido e quere , - o transe, evitar o crime; só os seus pa-



eI's, com a virtude dos seus exorcismos e ritos cabalísticos exe

cutados sobre uma pedra apanhada no canto de uma rua, vin

garam fazê-lo quebrar o juramento dado". Esse negro, o holandês

,onhecera e parece que era de ganho ou dos utilizados no

o c,

transporte de pessoas ou cargas, pois a re eito dos nel -)s de



ganho chegou a esta generalização: "[ .... sf convém de, )nfiar

deles a todo instante pois obrigados como são pelos senhores a

lhes entregar uma certa quantia diária, procuram sempre arranjá-

-Ia de qual uer modo; e citam-se vários casos de terem virado,

à tarde outrante a noite, na baía, canoas tripuladas por eles,

conduzindo a bordo passageiros que assim eram saqueados pri-

meiro e depois afogados. Deixam-se facilmente corromper a vil

reço, para tirar, de surpresa, a existência a um inimigo qualquer

Seterceiro; e depois de empenhada a palavra para esse fim, cum-

prem-na tão fielmente que ainda mesmo que o mandante retire

a ordem dada não pode mais demovê-los da prática do delito,

pois que a sua religião assim lhes proíbe".31

Desses como de outros depoimentos sobre criminosos negros

nas cidades principais do Brasil-Colônia e dos primeiros tempos

do Imperio, transparece o fato de que, em muitos deles, crimi-

nosos pretos, o crime era menos individual que de raça escra-

vizada ou de classe ou cultura oprimida, a quem o culto de São

Jorge-a-Cavalo dava esperança ou ânimo de libertação do jugo

dos brancos. Contanto que eles, negros, colaborassem com o po-

deroso santo armado, cada um matando a faca a a o com

veneno ou mandinga, o seu pequeno dragão. Pois Xá mandinga

'ou do feitiço ou veneno, desconhecido dos brancos, convém nos

recordarmos que foi um dos instrumentos de defesa ou de agressão

#

506



GnjumTo P)azym

de escravos contra senhores, de negros contra brancos, no Brasil

patriarcal.89

Um capítulo inteiro poderia escrever-se, num ensaio da natu-

reza deste, sobre a mandinga ou o feitiço como expressão de

antagonismos complexamente de raça, de classe e de cultura que

separaram a sociedade patriarcal no Brasil em pequenos grupos

. . gos uns dos outros e dos quais os organizados com maior

1 .

vigor, mas não os unicos, parecem ter sido os que tiveram em



São Jorge ou em Ogum seu patrono ou símbolo de luta.

0 antagonismo entre médicos de formação européia, e, geral-

mente, brancos quando não europeus-pois na primeira metade

do século XIX foram vários os médicos ingleses e franceses no

nosso Pais-e os curandeiros de formação africana ou indígena,

assumiu, às vezes, em nosso País, a mais clara expressão de luta

entre classes, entre raças ou entre culturas. Destaque-se, como

típico, o caso do "preto Manoel" que, no Pernambuco do meado

do século XIX, extremou-se em dramático conflito aparentemente

entre brancos e pretos mas, na verdade, entre sobrevivências de

cultura africana representadas por curandeiros e inovações -dá-

terapêutica de que eram portadores médicos de formação européia

com suas drogas, seus instrumentos de cirurgia e até suas máquinas

inglesas e francesas de tratar doentes, geralmente cuidados -por

físicos, barbeiros e curandeiros com ervas da terra ou remédios

tradicionais da Peninsula Ibérica. Permitiu-se a Manoel, curan-

deiro africano, tratar de doentes de cólera no próprio Hospital

de Marinha do Recife. Tendo, porém, falecido vários enfermos

sob seus cuidados, foi ele "advertido pela policia de que não devia

empregar mais o seu remediO". Desobedecendo a essa exigência,

recolheu-o a polícia à Casa de Detenção. São informações do

médico-presidente da Comissão de Higiene PUblica,40 em parte

confirmadas por outro médico da época, este formado na França:

"Um preto da costa d'Africa apparece em o engenho Guararapes

e pretende curar o colera: pessoas incompetentes em medicina

nem mesmo reflectindo que se essa affecção fosse conhecida na

costa de Guíné e aqui houvesse um preto que a curasse, na Bahia,

foco dos pretos da costa dAfrica, não teria deixado de apparecer

algum que a conhecesse e soubesse cural-a, apregoam as virtudes

therapeuticas das hervas empregadas por esse preto em fricções

e bebidas [ .... 1. Pessoas que occupam posição elevada na socie-

dade tomaram esse preto sob sua protecção; um até desejava que

houvesse uma sublevação popular afim de por-se a sua frente e

metralhar medicos [ .... ] e por fim esse preto não só poz-se a

vend r blicamente e por alto preço o seu remedio, senão a

ser levade casa em casa 1"41

Solo~ x MucA~s - 2.1 Tomo

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507



A Coinissio de Hipene tentou de início dominar a situação.

Mas mos protectores do preto redobraram de enthusiasmo e gri-

tavam pelas lojas e esquinas; a opulação exultou-se e os pretos

tornaram-se insolentes; os desor(reiros começaram a formar gru-

pos que percorriam as ruas como foram vistos durante duas noí-

tes, e de iodas as boccas só sabiam imprecações contra os medicos

que se viam expostos a ditos insultuosos; e por fim um sacerdote

Cregava no pulpito a favor desse preto . e contra os medicos e

21x=os, pretendendo que estes o queriam matar por que elle,

curava os pardos e pretos.,." Grupos chegaram a formar-se "para

quebrarem as boticas e maltratarem os medicos ... ~42

Durante algum tempo não houve médico, não no interior da

província de Pemambuco-uma das mais cultas do Império-mas

na sua capital-no Recife-jue rivalizasse com o preto Manoel em

Srestígío. ão eram só os oentes pretos e os pardos que corriam

os mucambos e das senzalas para o parceiro: também brancos

finos de sobrado. Era como se fosse um São Jorge escuro: não

lhe faltava cavalo. Ofereciam-lhe "c.arro para conaucção rapida",

conta o médico Cosme de Sã Pereira, em curioso relato das ati-

vidades do preto.43 Carro de cavalo que naqueles dias era prí-

vilégio ou regalo só de brancos, de fidalgos, de senhores. E em

informação ao Ministro do Império teve de confessar o então

Presidente da Província que, no meio da "conflagração egide-

1

mica que se estendia pelo País inteiro, surgia em Per 1 uco



o preto Manoel "com aura extraordinaria", trazido do interior da

província "como um signal de redempçao", por -pessoas mui no-

taveís entre ellas os comniendadores Manoel José da Costa, Ma-

noel Gonçalves da Silva, e o chefe de estado maior Sebastião

Lopes Guimarães", todos a afirmarem que o preto já operara

"curas instantaneas e que o povo o applaudía". Isto em contraste

com "a descrença a respeito dos medicos", que as devastações

da cólera nas casas-grandes e principalmente nas senzalas e da

febre amarela nos sobrados-principalmente nos sobrados das

capitais-vinha acentuando na população. Insistia o Presidente da

Província em salientar que se permitira que o preto Manoel cui-

dasse de doentes pretos no Hospital de Marinha fora para "inu-

tilisal-o sem risco de disturbio popular que seria inevitavel se

por outro modo se praticasse; porque já a população dizia que

se pretendia prender o preto para deixar que os medicos ma-

tassem a gente de cor que era a mais perseguida pela epidemia". 44

Vê-se, por esse acontecimento ao mesmo tempo dramático e

típico, que apaixonou a cidade do Recife e uase a ensanguentou

no meado do século XIX, que, em vários Is conflitos que agi-

taram a sociedade patriarcal no Brasil, e são hoje simplistamente

interpretados por estudiosos da nossa formação, filiados a siste-

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508



GILBERTo FREYRE

mas rígidos de interpretação da história humana, como puras ex-

pressões de 1utas de classes" e, por outros, de 1utas entre raças",

não foram exclusivamente nem uma nem outra cousa mas ambas,

confusa ou contraditoriamente; e, principalmente, choques entre

culturas. Médicos de formação européia e servidos r instru-

mentos e máquinas européias de tratar doentes ou robservar

doenças em suas relações com os climas frios ou os meios euro-

peus, tiveram que travar áspera batalha com curandeiros africanos

ou da terra, intimos conhecedores de ervas ou plantas tro Í ai

k~] e is

e protegidos às vezes-o caso do "preto Manoel"-p( - L ores

prestigiosos de casas-grandes e de sobrados patriarcais: gente a

quem re ugnava a invasão dos seus dorninios rurais ou semi-rurais

i

por icos nem sempre dispostos a se contentarem, como os



Sapelã~S com relação às almas dos mesmos domínios, a serem

cirurgiões de escravos" ou sequer "médicos de família". Gente

telúrica, confiante mais nas ervas dos escravos e dos caboclos da

terra do que nas drogas francesas e inglesas das boticas. Gente

antes conservadora da cultura tradicional-a de origem principal-

mente ibérica-que disposta a substitui-Ia ou modificá-la. De modo

que, Ror inercia cultural, confraternizavam esses brancos de casas-

-grandes e até de sobrados patriarcais, com os negros de senzala

e os pretos e pardos livres de mucambos, antipáticos, por inércia

ou sentimento de suficiência cultural, às inovações européias de

terapêutica, contra os brancos mais europeizados das cidades,

para quem a medicina da Europa era a verdadeiramente capaz,

com suas ingresias e francesias, de curar doentes e dominar

doenças.


A esse elemento europeizado, foi particularmente desfavorável

a devastação da população africana, ou de origem africana, das

senzalav e imicambos, pelo "mal asiático". Onde estava o poder

da técnica européia? De que valiam os instrumentos, as máqui-

nas, as ingresias dos mécticos de formação européia, se tantos

eram os negros e pardos que vinham morrendo de cólera? Apa-

receu então uma interpretação antes etnocêntrica que econômica

do fato: que os brancos estavam deixando que os medicos-quase

todos brancos-matassem a gente de cor. Economicamente-sa-

biam-no os próprios negros e pardos e os escravos mais ladinos-

convinha aos senhores brancos a saúde, e não apenas a vida, dos

seus servos. Como, porém, começara desde os primeiros decênios

do século XIX a imigração de europeus do tipo dos irlandeses

que foram chamados pela plebe do Rio de Janeiro de "escravos

brancos", era natural que negros e pardos desconfiassem de que

os brancos poderosos ou ricos desejavam a substituição dos pretos

e pardos por trabalhadores também brancos. Donde a idealização

em São Jorges capazes de vencer o dragão da cólera asiática, de

#

SOBRADOS E MucAmBos - 2.0 Tomo



509

dou a


fígur~as como o curandeiro Manoel, que triunfalmente an

cá~valo como um santo e rodou de carro como um lorde pelas ruas

de uma das mais cultas e nobres cidades do Imperio. Foram fi-

ras elevadas a redentores de pardos e pretos aos quais é pos-

a

1 e suas ervas beneficiassem, de fato, mais que as drogas



oÃi s, quase

fur,


ível u

curo ia inócuas no combate ao chamado mal asiático.

Tanto que foi nesses anos de crise para a medicina ortodoxamente

européia que se desenvolveu no Brasil, entre brancos esclarecidos,

a horneopatia. .45

Enquanto isso se verificava com relação aos negros mais ir-

Euietos ou mais inconformados com sua situação de raça ou de

sse .2?rimida, para os senhores brancos o culto de São Jorge-

c

c

-a-Cav o representava justamente o contrário: representava a



conservação da ordem social. Conservação por meio da força mi-

litar. Por meio da ação da cavalaria sobre a gentalha, a é; da

o

arma de fogo sobre a simples faca ou a pura navalha; Xa arte



estratégica aprendida nas academias militares sobre a canoeiragem

dos capangas ou dos capadócios de rua; da velocidade de horr,.n-

-a-cavaJo sobre a lentidão do homem-a-pé.

S reendendo-se de ver a procissão de São Jorge-a--avalo

sair o próprio palácio real do Rio de janeiro,46 Arago mostrou

não ter compreendido o alcance social de devoção tão contra-

ditória e tão importante no antigo Brasil. Tão de negros sequiosos

de libertação, por um lado (através de sua ascensão na sociedade

não só como guerreiros e soldados, como por suas qualidades de

artesãos, ferreiros, mecânicos, cirurgiões, maquinistas); e tão de

brancos empenhados na conservação do seu poder político e de

sua superioridade social, por outro lado. Donde ter sido um culto

ao mesmo tempo, e por motivos opostos, de palácio de rei e de

cabana de escravo, de sobrado e de mucambo, de igreja e de

eji de irmão de irmandade Católica e de inalungo de confraria

i~

p fri



a ana, de proprietário de terras e de prédios urbanos e de

proletário indispensável à construção de casas, móveis e carrua-

gens e ao manejo de máquinas, serras, tomos, bigornas.

Pois não nos esqueçamos do fato de que divi, idos por ódios

ou rivalidades de castas, de linguas, de regiões e de cultos em

#

moçambiques e congos, minas e coromatins, ladinos e negros da



Costaf os africanos e os descendentes de africanos no Brasil

sofreram influências no sentido de sua coesão. A primeira delas,

a condição de escravos de grande parte deles-embora fosse uma

condição que variasse da situação do negro doméstico (mucama,

pajem, malungo) à do negro de eito ou à do preto de ganho;

ou da situação de escravo de estancia à de escravo de mina; ou

da de escravo de engenho grande, de açUcar, em Pernambuco ou

no Rio de janeiro à de escravo de engenhoca de r~dioca em

#

510 Ca~To Fn~



SoB~9 z Muc~os - 2.11 Tomo 611

Santa Catarina ou de rapadura, no Piauí. A segunda, a cQrtdição

de africanos ou de descendentes de africanos-embora fosse outra

condição vária, dada a diversidade de cor, de traços, de carate-

rísticos étnicos entre eles.

Outras influências estabeleceram entre africanos diferentes na

cor da pele e nas formas de corpo e na situação de escravo, a uela

. espécie de parentesco" observada por Koster48 e que os Tazia

tratarem-se uns aos outros de malungos, "nome considerado entre

eles de elevada estima~. Entre essas outras influências, a que

resultava do fato de terem feito parte do mesmo lote de negreiro

com destino ao Brasil. A que resultava do fato de serem membros

da mesma irmandade Católica-em geral, de São Benedito-ou

do mesmo bando de capoeiras ou de capangas de cidade. E, prin-

cel almente, a que resultava do fato de serem devotos ou iniciados

i

dop culto religioso alongado em movimento secreto de insurreição



social que parece ter sido, entre nós, o culto de São Jorge-a-Ca-

valo-ou seu equivalente: o de Santo Antônio militar-praticado

por negros e escravos como disíarce do culto de Ogum e em

oposiçao ao mesmo culto-de São Jorge-a-Cavalo-praticado pelos

senhores dos sobrados, pelos militares das cidades, pelos brancos

econômica e politicamente poderosos.

Na capital de Pernambuco, os pretos carregadores de açúcai

dos armazéns que chegaram a formar corporação à parte, com

overnador especial,49 como se vê da provisão de 13 de setembro

e 1776 passada pelo Governador José César de Meneses, eram

negros protegidos pelo 1 róprio Rei; e parece que formavam o

1

5ru o mais import ~ e pretos da cidade, depois dos de sol-



axcs ou milicianos, com seus coronéis e suas regalias militares,

consideradas perigosas por mais de um José Venâncío de Seixas:

o provedor da Casa da Moeda na Bahia que em 1788 escrevia

a Dom Rodrigo de Sousa Coutinho reocupado com a formação

de "corpos milicianos. com gente ie cor. Gente "naturalmente

persuadida" e capaz, sob "o espirito do seculo"-o século da Re-

voIução Francesa-de "toda a qualidade de excesso".50 Era o

pavor a negros São-Jorges que, armados de espadas de milicianos

para a defesa da ordem, se revoltassem contra os brancos com

armas que só os brancos deviam ter o direito de usar e ostentar.

Impedidos de usar armas de fogo, esVdas, bengalas de estoque

-armas de fidalgos, de senhores ou de rancos-os escravos-prin-

cipalmente os negros de ganho e carregadores de fardos, que

parecem ter constituído no Rio de janeiro como no Recife, junto

com os ferradores, os ferreiros, os serralheiros e os maquinistas,

a aristocracia guerreira da massa cativa-tornaram-se peritos, junto

com cabras livres e muleques de rua, uns no manejo de facas e

navalhas e, principalmente, nas cabeçadas, nos rabos-de-arraia e

#

nas rasteiras da capoeira em; outros, no feitiço, na mandinga, no



veneno misterioso que aleijava e matava brancos. A arte da ca-

Riragem mais de uma vez lhes permitiu suprir a falta de armas

coeflor'go com movimentos de corpo que eram quase movimentos

,de dança. Dançando, esses bailarinos da capoeiragem enfrentaram

com pés ligeiros, pequenos, delicados, às vezes quase de moça

e, como os das baianas, geralmente calçados de chinelas orien-

talmente enfeitadas, soldados armados, nórdicos vigorosos, mari-

nheiros ingleses, portugueses machões e cheios de si, europeus

de pés grandes e bem calçados, destroçando-os e, de algum modo,

desmoralizando-os. Comprometendo-lhes a superioridade técnica

de militares ou de homens armados de pistolas, de espadas, e

de facões e a superioridade social de brancos, de senhores, de

reinóís. Talvez tenha se acentuado nesses embates a antipatia

dos reinóis pelos mestiços brasileiros-geralmente de pés pequenos

e ágeis-por eles chamados "pés de cabras"; e a dos mestiços

pelos reinóis, ue, geralmente homens de pés grandes, às vezes

chatos e pesa os, ficaram caricaturados no folclore como "pés

de chumbo"-

"Marinheiro pé de chumbo

Calcanhar de frigideira.

Quem te deu a ousadia,

De casar com brasileira?"

Contra o que os reinóis inventaram este canto, também de

guerra, alusivo tanto aos "pés de cabra" dos mestiços como à

âividade econômica-a plantação de café-que vinha libertando

os brasileiros da-tutela portuguesa:

"Cabra gente brasileira

Do gentio de Guiné

Que deixou as cinco chagas

Pelos ramos do café."

Não nos esqueçamos de que não foi só no Norte da América

lusitana que os brasileiros foram chamados de "pés rapados-

pelos portugueses. Também no Centro ou no Sul. Em "Instrucção




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