Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a



Baixar 10.37 Mb.
Página75/110
Encontro18.09.2019
Tamanho10.37 Mb.
1   ...   71   72   73   74   75   76   77   78   ...   110

arentas das fazendas e dos engenhos também randes e quase

èudais-e apenas visitando-se raras vezes em Ias de festa de

aniversário, de batizado, de casamento, de botada, de grande

churrasco, não sentiam-como já sugerimos noutro dos nossos

ensaios 17 -a necessidade nem de boas estradas ne~ri de veículos

rápidos. Contentavam-se com os maus caminhos e com as lentas

e raras viagens de rede ou de bangü^, aos ombros dos escravos;

ou em carros de bois atapetados e cobertos especialmente com

folhagem ou colchas,18 para essas viagens de pessoas senhoris.

Na área do açúcar, uma ou outra mulher mais amazÔnica acom-

panhava então o marido em viagens a cavalo-costume encon-

trado entre paulistas e gaúchos mais rústicos e menos aristocrá-

ticos que os brasileiros do Norte. 0 maior número das iaiás de

casas-grandes e sobrados do Norte preferia admirar nos homens,

quase sempre através das rótulas mouriscas, raramente em festa

ou cavalhadas, a pericia ou a elegância de cavaleiros. Arte em

que os aristocratas do Brasil da área do açúcar chegaram a sur-

preender os europeus da Holanda, da Inglaterra e da França

pela sua destreza e pelos seus floreios de movimento. Ninguém

os excedia em acrobacias a galope, nos torneios chamados de

cavalhadas, embora fossem acrobacias e floreios que talvez fizes-

sem sofrer os cavalos.

Deve-se, a propósito, recordar o torneio de cavalaria promo-

vido, com outras restas, por Maurício de Nassau, nos seus gran-

des dias de príncipe do Brasil holandês. Torneio do qual con-

seguiu que participassem, como grupos amigavelmente rivais,

europeus do Norte e fidalgos portugueses ou brasileiros da re-

gião. Merece o acontecimento ser recordado aqui não como sim-

Sles nota de pitoresco histórico mas Velo que parece ter revelado

e diferenças e de contrastes entre duas civilizações: uma ainda

patriarcal e até oriental ou mourisca no seu caráter monossexual;

outra j' mais burguesa que patriarcal e antes bissexual que mo-

nossexual na sua estrutura: tanto que as mulheres já bebiam e

comiam com os homens depois. de assistirem a paradas de equi-

tação. Diferenças que se refletiam nos proprios modos de anda-

rem a cavalo os nordicos e os "portugueses do Brasil".

Em seu Valeroso Lucideno e o Triumpho da Liberdade,19 Frei

Manuel Calado descreve com minúcia as festas que o Conde

Maurício de Nassau promoveu em Pernambuco para celebrar a

Restauração de Portugal em 1640. Houve banquete. Muita música.

0 rio encheu-se de batéis e barcas. As senhoras-inglesas e fran-

cesas-exibiram suas jóias mais ricas.

A parte mais interessante das comemorações foi, porém, a que

#

hoje chamariamos esportiva, com duas quadrilhas de cavaleiros



a darem demonstrações de perícia na arte então mais nobre e

viril ue havia: a de cavalgar. Uma quadrilha era de nórdicos:

holãeses, ingleses, alemães e franceses. A outra era de portu-

'eses e brasileiros. A primeira tinha por chefe o próprio Nassau.

outra, o fidalgo pernambucano Peãro Marinho.

Primeiro os cavaleiros, com suas lanças, desfilaram de dois em

dois as ruas do Recife: um português (ou brasileiro) e um

nóràZI E pela simples maneira de cavalgarem, parece que se

tornaram de início evidentes os contrastes entre as duas civili-

zações-a nórdica e a lusitana-que a astúcia política de Nassau,

aproveitando-se da notícia da Restauração de Portugal, conseguiu

fazer que ostentassem, numa festa quase de confraternização, os

seus caraterísticos diferentes. Donde o reparo do padre cronista

-o chamado Frei Manuel dos óculos-de que os animais caval-

gados "à bastarda~ pelos homens do Norte não sabiam senão dar

saltos. Os cavaleiros se descompunham em picar os cavalos. Fal-

tavâ-lhes a arte dos portugueses de irem sobre os animais "à

geneta" e "fechados nas seias".

naSe~undo o cronista, foram os cavaleiros portu ueses de Per-

in o


1 uco que atrairam o melhor entusiasmo das ramas, embora,

ortodoxo inflexível, não se esqueça de observar que "nenhumas

se poderiam gabar que portuguez algum de Pernambuco se affei-

çoasse a mulher das partes do Norte; não digo para casar com

ella, mas nem ainda para tratar amores, ou para alguma desen-

voltura; como por contrario o fizeram quasi vinte mulheres Por-

tuguezas que se--casaram com os Hollandezes ou, para melhor

dizer, amancebaram pois se casaram com herejes e por os pre-

dicantes herejes, porquanto os Hollandezes as enganaram, di-

zendo-lhes que eram Catholicos Romanos; e tambem por ue

como elles eram senhores da terra faziam as coisas como [Tes

Rarecia, e era mais honroso, e proveitoso; e se os paes das mu-

eres se queixavam, não eram ouvidos, antes os ameaçavam com

falsos testemunhos e com castigos." Observação que lança alguma

luz sobre os casamentos e~tre Católicos e acatólicos ue então

se realizatam no Brasil, a despeito do clamor dos paâres e da

Igreja contra eles.

Ao desfile dos cavaleiros, seguiram-se as carreiras em torno

das argolinhas e depois o jogo de "patos a mão". E a ser exata

a notícia que dá dos festejos o padre-cronista, as vitórias foram

quase todas dos portugueses de Pernambuco, sempre muito "com-

postos e airosos" nos seus cavalos e capazes das façanhas mais

I

#

498 CM~O FnEYRE SoBRADos E MucAmBos - 2.0 Tomo 499



espantosas como a de, no meio da carreira, passar-se um cava-

leiro ao cavalo do outro, nas ancas. 0 que o padre não estranha,

pois que em Pernambuco, havia então, segundo ele, "muitos e

mui bons homens de cavallo".

As damas estrangeiras é que ficaram maravilhadas com tais

façanhas dos "homens de cavallo" do Brasil. Frei Manuel informa

que houve "Inglezas e Francezas" ue tiraram os anéis dos dedos

e os mandaram oferecer aos cavaleiros de Pedro Marinho, "só

por os ver correr". E como no dia seguinte houve banquete aos

cavaleiros, e ceias até de madrugada, com a presença das tais

damas "Hollandezas, Francezas e Inglezas" e muita abundância

de bebida-banquetes em que as mulheres beberam "rnelhor que

os homens", arrimando-se a bordões, como era "costume em suas

terraS"20_é possível que, fora das vistas já cansadas de Frei

Manuel dos õculos, tenha havido "amores" e algumas "desenvol-

turas. entre os portugueses Católicos de Pernambuco e suas admi-

radoras, as mulheres acatólicas do Norte. Mas não nos deixemos

seduzir pelas suposições nem pelas hipóteses.

Os festejos promovidos pelo Conde de Nassau no Recife, em

abril de 1641, parecem ter tomado claros dois contrastes. Pri-

meiro, o contraste entre os cavalos adestrados e cavalgados por

homens de uma civilização ainda feudal em alguns dos seus traços

e os adestrados e cavalgados por homens de civilizações já bur-

guesas. Segundo, o contraste entre as mulheres daquela civili-

zação não só meio feudal como Católica e não só Católica como

ainda um tanto mourisca, e as mulheres das civilizações Protes-

tantes ou anticatólicas do Norte da Europa. Dentro dessas civi-

lizações Protestantes já havia, no século XVII, damas de tal modo

desembaraçadas dos pudores Católicos e dos recatos mouriscos

que bebiam melhor que os homens nos banquetes, arrimavam-se

a bordões, participavam de festas e enviavam ostensivamente

presentes a cavaleiros cujas façanhas na arte de cavalgar mais

admiravam. Protestantes, não lhes repugnavam os papistas. Estes

é que esquivavam-se ao casamento com mulheres dos países

reformados do Norte, menos, talvez, por preconceito de ordem

rigorosamente doutrinária ou teológica, do que moral ou social.

Homens habituados a mulheres doces e passivas, parece que os

modos desembaraçados das inglesas, das francesas, das mulheres

do Norte reformado, não os atraíam às mesmas mulheres senão

para namoros efêmeros: nunca para o casamento ou o amor con-

jugal. 0 mesmo não sucedeu com as mulheres da terra em re-

ação com os hereges. Foram várias as -que aceitaram hereges

ara esposos. É que das mulheres da terra algumas parecem ter

escobeito ou adivinhado nos mesmos hereges cavaleiros menos

brilhantes que os portugueses ou os brasileiros na arte da cava-

laria-talvez por serem mais brandos com os animais e os consi-

derarem já menos armas de guerra que instrumentos de comér-

cio-e homens menos tirânicos e os portugueses do Reino ou

#

do Brasil no seu trato com o Velo sexo, no qual a civilização



burguesa e Protestante do Norte da Europa fazia-os ver pessoas

quase iguais às deles, homens ou machos.

Dos cavalos das principais áreas ou cidades por onde se foi

aburguesando o Brasil agrário e patriarcal deve-se recordar que

contrastavam no vigor e no porte com os cavalos quase gigantes

das cidades do Norte da Europa, utilizados para o tranTorte de

pessoas ou de cargas por estradas e ruas, que com o esenvol-

vimento do comércio estimulado pelo aparecimento das indús-

trias, foram-se tornando menos ásperas que os antigos caminhos

e algumas até macias para as patas dos cavalos. Destes foi se exi-

Tnclo velocidade de galope ou de trote, ao lado da capacidade

e

e transportar grandes cargas. E foram sendo tratados como bons



e úteis gigantes. Com o mesmo cuidado com que no Brasil os

melhores senhores tratavam os melhores escravos. No interesse

da velocidade e em beneficio dos "trotters~', os melhoramentos

de estradas se acentuaram nos fins do século XVIII e nos prin-

ípios do XIX. PâncTalmente nos princípios do século XIX, com

o grande renovador a técnica de construção de rodovias que foi

MacAdam. Um inglês a quem os cavalos devem uma fase nova

na sua vida de servos do homem.

Maria Graham conheceu no Rio de janeiro dos princípios do

século XIX cavalos bonitos porém fracos, alimentados com milho

e com capim-da-guiné ("Cuinea Grass"), há pouco introduzido

no Pais onde já vicejava "prodigiosamente" ( prodigiously"). Os

cavalos comuns estavam longe de alcançar os preços por qi~e

eram então vendidos os belos animais de Buenos Aires, aos quais

se assemelhavam os do Rio Grande do Sul. E para as carruagens,

era costume usarem-se mulas em vez de cavalos, por serem as

mulas'mais resistentes do que eles, machos bonitos porém débeis

para os trabalhos cotidianos ou de rotina. Também por serem

as mulas capazes de tolerar melhor do que os cavalos o calor

do verão21 em cidades como o Rio de janeiro. De modo que às

obrigações de transporte rural, nas quais foi o rival do boi de

carro, a mula, no Brasil da primeira metade do século XIX, juntou

as igualmente duras obrigações de transporte urbano. já na se-

gunda ' metade do mesmo século-em 1865-Codrnan, tendo obser-

vado a entrada de uma tropa de mulas na cidade de Santos,

notou que quando os troSeiros retiravam as canialhas dos ani-

)s

mais, viam-se em muitos eles feridas que iam 2 aos ossos. Re-



sultado de longas viagens por maus caminhos, sem que os ho-

mens se preocupassem com os *animaiS.22 E quase o mesmo mar-

I

i

#



500 GILBERTO FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.0 Tomo 501

tírio sofriam as mulas nas cidades, transportando pelas ruas esbu-

racadas, em caleças e carros arcaicos, gordos vigários, imensas

baronesas acompanhadas de pretas também opulentas, fidalgos

enormemente arredondados pelo pirão e pela inercia ou inchados

monstruosamente pela elefantiase. 0 Comandante Wilkes viu no

Rio de janeiro, em 1838, essas caleças e esses carros arcaicos

puxados por mulas que rodavam pelas ruas maltratadas aos sola-

vancos, em contraste com os palanquins maciamente carregados

por escravos. Aliás, Wilkes notou que eram raras, então, as car-

roças, pois quase todo o transporte era feito aos ombros ou à

cabeça de escravo.:!3

Deve-se notar que no Rio colonial e mesmo no dos primeiros

tempos do Império-já depois de MacAdam e do seu triunfal

processo de pavimentação ou de macadamização de estradas-as

ruas se apresentavam "detestavelmente calçadas"; e "por terem

os esgotos pluviais ao centro, para onde as pedras mal calçadas

faziam rampas, se tornavam desagradáveis de transitar, empo-

çando de contínuo com as chuvas.. . "24 Só as patas de resistentes

mulas e de pachorrentos bois de carro eram capazes de competir

com os pés descalços dos igualmente vigorosos carregadores ne-

gros de palanquins, como animais de transporte de essoas e

cargas senhoris-vigários, capitães, baronesas, pianos Te cauda,

sofás de jacarandá, barris com excremento dos brancos dos so-

brados-através de ruas tão "detestavelmente calçadas", enlamea-

das e sujas, como as do Rio de janeiro ou as do Recife e mesmo

as de São Paulo.25Donde as cargas por muito tempo terem sido

transportadas, em cidades brasileiras, em carroças puxadas por

vagarosos mas resistentes bois para os quais pode-se quase dizer

ue não havia caminho mau. Nem para eles nem para os carrega-

ores negros de fardos: inclusive de tigres, isto é, os enormes bar-

ris de excremento conduzidos das casas às praias às cabeças ou

aos ombros de escravos. Eram também escravos ou negros que

conduziam das fontes ou dos chafarizes para as casas água de

beber, de cozinhar e de banho, pois no Rio de Janeiro, como nas

demais cidades i~ansortantes do Brasil, a facilidade de pretos para

suprirem os à os burgueses ou patriarcais de água e de ali-

mentos e de os aliviarem de excremento e de lixo, retardou a

instalação de serviços de canalização e de esgotos nas casas ou

nos sobrados. Foi uma das admirações de Schaeffer ando vi-

sitou o Brasil já quase no meado do século XIX: "hyYrants and

pipes" eram "unknown to the Brazilians".26

Havia também, para o transporte de pessoas ou de fardos, os

chamados negros de ganho: pretalhões munidos sempre de ro-

dilhas e às vezes vestidos só de tangas, prontos a acudirem aos

psius de quem quisesse se utilizar de seus serviços. Como os

carregadores de café, carregavam "pesos absurdos".

Entre as escravas de balaio à cabeça, as pretas vendedoras de

bugigangas, os vendedores de artigos do interior que traziam

#

pela arreata seus burros com caçuás, as baianas de tabuleiros



cheios de frutas ou de quitutes, as lavadeiras de trouxas de roupa

sujja, também à cabeça, aqueles pretalhões eram como "os ma-

rio as da Turquia d'Asia vergados ao peso absurdo

da carga ".21 Deles se pode dizer sem exagero que trabalhavam

mais duramente que bestas de carga, obrigados, como eram, a

trazer no fim do dia, à casa dos patrões, quantia considerável:

faltassem a isso e eram castigados "como fui testemunha por mais

de uma vez~, refere o holandês van Boelen que residiu no Rio

de janeiro durante os primeiros anos do Imperio .28 Wilkes, que

esteve no Brasil em 1838, escreveu que os carre adores do Rio

de janeiro corriam em gru os, pelas ruas, atrás No princi al de

cada grupo que, -- - - - Ne um maracá, fazia que os Semais

marchassem numa espécie de trote. Todos cantavam. E de ordi-

nário cada um carregava cerca de duzentas libras de peso.29 Dez

anos depois de Wilkes, Schaáfer horrorizou-se ao saber que

"these poor degraded blacks"-os carregadores de sacos de café,

de caixas, de fardos, que, no Rio de janeiro, faziam as vezes de

carroças e de animais-não suportavam mais do que sete anos

de semelhante vida: "about seven years finishes thern entirely".30

As rodas dos carros de boi chiavam, como para adoçar o sofri-

mento dos animais; os carregadores negros cantavam como para

aligeirar o peso da carga sobre os ombros ou as cabeças, nas quais

o hábito de conduzir barris ou tabuleiros abriam "coroas": as

coroas de carregar peso à cabeça" com que tantos escravos apa-

recem, caraterizados, em anúncios de jornais da primeira metade

do século XIX, ao lado de animais de carga também marcados

no lombo pelo mesmo trabalho cru.81

Grande parte da riqueza ainda patriarcal e já burguesa do Rio

de janeiro como de Salvador, do Recife ou de São Luís do Ma-

ranhão estava, ate a predominância do transporte por animal sobre

o twansporte por negro, nesses escravos de ganho, alugados pelos

seus senhores como se fossem cavalos de carro ou bestas de trans-

porte. Espécie de tropa de mulas levadas pela "madrinha" que

era o negro de maracá.

"This is one great cause that prevents the adoption of machi-

nery in abridging manual labor, as so many rersons have an

0

interest in its being performed by the slaves a one 32 observou



Walsh a propósito dos numerosos negros de ganho ue faziam

as vezes de animais de transporte e de car a nas ruas Ms cidades

brasileiras; e no interior, junto com as fás, as bestas e os bois,

#

502



GMBERTo FREYRE

as vezes do próprio vento ou da própria água capazes de moer

engenhos de açucar por meio de corrupios ou rodas de madeira.

Ao senhor de escravos que, todo fim de dia, recolhiam à casa

com o dinheiro ganho em serviços de rua, não interessava, na

verdade, a substituição desses produtivos escravos por cavalos de

tração ou de carga, com aumento de despesa; menos, ainda, sua

substituição por máquinas caras e complicadas, eu . as ingresias só

mecânicos estrangeiros ou mulatos pretens Mos de voltas

e

o



fossem capazes e manejar.

Não nos foi possível encontrar informações que nos permitissem

calcular com segurança o número de escravos empregados, no

Brasil colonial e no dos primeiros decênios do Império, no trans-

porte de pessoas e coisas. Devia ser imenso. E imensa, entre eles,

a mortandade. Tão grande como entre as mulas. De Minas Gerais

se sabe com se rança que, em 1837 era servida por cerca de

' u


260.000 mulas Je transporte, das quais nunca menos de 18.000

a 20.000 morriam cada ano. Para manter aquele numero os mi-

neiros importavam anualmente de Sorocaba cerca de 60.000 mulas.

Ou no cálculo de Aluisio de Almeida, adotado pelo Professor

Ellis Junior no seu recente "0 Ciclo do Muar", mais de 30.000

muares por ano de 1826 a 1845, mais de 50.000 de 1845 a 1855,

mais de 100.000 de 1855 a 1860.33

Dos cavalos eram como ue sagrados os necessários ao estado

de cavaleiros,, 1 autoridades, de sexo forte, dos se

nhores, dos chefes de tropa, dos milicianos ou militares; para o

rosso do trabalho nos engenhos e nas cidades e de transporte

e cargas, para a condução das senhoras às missas e às casas dos

parentes, para o regalo dos meninos, bastavam ao brasileiro a

triarcal dos engenhos ou fazendas e ao já burguês, das cidas es

-ou ao misto, que foi, por tantos anos, nas áreas principais, o

tipo dominante-os bois, as mulas, os burros, os carneiros e, prin

cipalmente, os negros escravos. Donde a uela resistência de mui

tos dos brasileiros da classe alta aos cavâ?01-s a vapor quando estes

começaram a apresentar-se sob a forma de máquinas inglesas e

como substitutos menos de animais, de algum modo sagrados, e

relativamenteoupados pelos donos, como eram os cavaloi- de

carne-cavalgaSosor eles, chefes, e particularmente estimados

pelos primeiros ing~e'ses que forarecendo no Brasil-do que

de bois, de mulas e de escravos dlho de campo ou de trans

Norte ou almanjarra. Por que a majuina cara, difícil, complicada,

e moer isso, de fazer aquilo, quan o havia o negro fácil, simples,

barato para moer isso e fazer aquilo? Por outro lado, por que a

generalização do uso do cavalo-mais difícil de nutrir, de cuidar

e de conservar do que o negro ou o boi, o escravo ou a mula

#

quando o cavalo devia ser animal só de ação guerreira e de trans-



S~~ z Mu~os ~ 2.1 Tomo

503


porte ou de.recreio só de senhor, de fidalgo, de militar, havendo

serviço das demais classes de homens a mula, o burro, o

Ç:r~a go jumento, *o próprio negro? Assim parecem ter pensado

muitos dos brasileiros identificados desde dias remotos com São

Jorge como com um padroeiro ou santo de classe: a classe domi-

nante na sociedade patriarcal.

Dos senhores que Brackenridge viu a cavalo nas ruas do Rio

de janeiro em 1817-cavalos pequenos, cujas caudas arrastavani-

-se pelo chão34-muitos deviam ser devotos de São Jorge e osten-

tar decorações da mesma categoria das ostentadas pelos "padres

e nobres" que aquele observador viu, ou antes entreviu, com olhos

escandalizados de Republicano e de Puritano, dentro de palan-

qx Padres e nobres que rebrilhavam de insígnias de nobreza

o01. ~ãe autoridade.

Revela uma noticia no Diário do Rio de janeiro de 11 de junho

de 1822 que a Irmandade de São Jorge, na sua qualidade de

irmandade de cavaleiros ou nobres-comparsas do Santo-e, ao

mesmo tempo, de ferreiros e serralheiros, estava sob a vigilância

do próprio Senado da Câmara. E não tendo, naquele ano, apare-

cido na Procissão do Corpo de Deus a imagem de São Jorge, a

irmandade de fidal os e ferreiros-unidos, ao que parece, pelo

50

mesmo culto, símbo o da força nobre-foi censurada de publico



pelo Senado ue lhe recordou o capítulo V da Obrigação: "Tem

esta irmandal por obrigação o compor annualmente a Imagem

do Senhor S. Jorge para hir na Procissão de Corpo de Deos, o

que se executará com todo o asseio possivel, hindo a mesma

Santa Imagem sobre hum cavallo bem ajaezado e adiante huma

figura de Alferes vestido de armas brancas e atraz huma fiWira

de pagem vestido de encarnado, ambos a cavallo; e hirão t em

a cavallo os tocadores de trombetas e atabales, e apé aquelles

tocadores de outros instrumentos [ .... ]. Alem do que serão no-

meados pela Mesa quatro irmãos para acompanharem a Imagem

do Santo, dous pegando nas estribeiras e dous tirando pela redea

do. cavallo, os quaes quatro Irmãos serão propostos ao Senado

da Camara para os obrigar a hir [ .... 1. 0 juiz, e Escrivão dos

Officios de Serralheiro, e Ferreiro, acompanharão o Estado do

Senhor S. Jorge, naquelles lugares em ue he costume hirem ves-

tidos de capa e voltas. . ." Para as Ispesas desse verdadeiro

culto ao cavalo e não apenas ao Santo Cavaleiro, eram obrigados

a concorrer "todos e quaesquer Officiaes, que trabalhassem por

jornal pelos Officios que ficão declarados no Capitulo 11, em

qualquer parte no Destrito desta Cidade, cada hum 320 rs.

annualmente e o mesmo se estenderá a respeito dos pretos forros




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   71   72   73   74   75   76   77   78   ...   110


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
Universidade estadual
união acórdãos
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande