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cópias em jacarandá. Também em bens arrolados de padres ou bacharéis

de Minas Gerais, daquela época, encontravam-se peças de louça da India,

destacando o historiador mineiro à página 118 do seu ensaio: ---... guamo.

ciam as residências grande cópia de louças da India, assim denominadas as

procedentes do Oriente..." Explica-se assim que às igrejas tivessem tam-

bém chegado peças decorativas do Oriente ou de estilo oriental, fabricadas

no Reino.

113Charles ExpiHy, Mulheres e Costumes do Brasa (trad. de Castão Pe-

nalva), São Paulo, 1940, pág. 369.

11416id., pág. 366.

- 115Psicanálise do Cafuné e Estudos de Sociologia Estática Brasileira,

Curitiba, 1941.

118Ibid., pág. 57.

#

117james Holman, Travels in Madeira, Sierra Leone, Tenerifie, S. lago,



Cape Coast, Fernando Po, Princes3 Island, etc., Londres, 1840, 1, pág. 487.

118A expre-uão "traseiro", com referência a casas ou prédios, ocorre fre-

qüentemente no Inventário.

119SÃo Paulo, 1929, pág. 79.

12OSão Paulo, 1922, pág. 158. Casos menos remotos de safismo no Brasil

que os referidos nas denunciações e,confissões do Santo Ofício são anotados

por Pires de Almeida em

seu estudo Homossexualismo - A Libertinagem

no Rio de Janeiro, Rio de janeiro, 1906.

121Mawe, op. cit., pág. 370.

122Aos banhos de gamela refere-se Burton em The Highlands of the

Brazil, I, pág. 103, nota. Os anúncios de jamais nos deixam ver a substitui-

ção de gamelas nos sobrados das cidade por banheiras de materiais que

passaram a ser considerados mais nobres e, talvez, mais higiênicos que a

madeira. "Huma bacia de cobre E .... ] para tomar banhos", aparece num

anúncio do Diário do Rio de janeiro de 2 de março de 1825, podendo ser

considerada dos novos tipos de banheiras móveis, anteriores aos banheiros

de mármore e azulejo nos sobrados nobres. Num anúncio de 22 de março

de 1825 no Diário do Rio de janeiro aparecem, ao lado da novidade técnica

representada por '%um par de pistolas de Aflemanha de algibeira", alguns

bons orientalismos e arcaísmos: "duas duzias de chicaras e pires da India,

dourados", 'lum espadim de corte, de prata, dourado", 'llum jogo de damas

de madreperola em caixa de xarão", '1uma chaleira de tartaruga em mar-

fim com feixadura", "huma bengalla de 'cana da India, de estoqud' e,

também, ao lado de outra novidade técnica - "hum catre de ferro que

todo se dezarTna", "huma garnefia de tomar banhos deitado".

123Expilly, op. cit., pág. 368.

124Koster, op. cit., pág. 189.

1251bid., pág. 181.

1261bid., pág. 190.

127Luccock, op. cit., pág. 115.

128]bid., pág. 111.

l29IbÃ., pág. 190.

13OVeja-se de john Fryer, A New Account of East India and Persia,

Londres, 1698, págs. 152-154. Para um resumo de depoimentos desse e

de outros cronistas dos séculos X-VII e XVIII sobre a India portuguesa,

leia-se o capítulo III do estudo do Professor Alberto C. Germano da Silva

Correia, La VieiUe Coa, Bombaim, 1931.

131A cena é a seguinte: -Un Portugais se trouva dernièrement dans un

defilé en face d'un Nègre qui fit un pas de c6té pour le laisser passer. Peu

satisfait le Portugais ordonne à resclave de franchir le fossé; le inalheureux

#

488



Gri.BmTo FREYRE

balbutie une excuse et s'efface davantage. 11 repoit un coup de canne.'

(Arago, op. cit., I, pig. 103).

182Luccock, op. cit., pigs. 594-595.

1831bid., pig. 596.

184Mawe, op. cit., pig. 318.

135Luccocl~ op. cit., pig. 597.

136Koster, op. cit., pig. 469.

ESCRAVO, ANIMAL E MÁQUINA

0culto de São Jorge no Brasil tem, entre outros significados

sociológicos, o de ter sido o culto do hornem-a-cavalo, do

nobre, do guerreiro, do poderoso, do dominador de dragões. Foi

esse culto equivalente, na zona social mais alta, de brancos, e

na zona cultural mais adiantada, de negros, do culto do boi. com-

panheiro ou auxiliar do escravo passivo e do negro conformado

com seu status de servo e, ao mesmo tempo, do brasileiro cultu-

ralmente mais atrasado das áreas pastoris, caraterizadas também

pelo carinho do homem para com a cabra: a "comadre cabre do

sertanejo mais pobre.

0 bumba-meu-boi e o culto de São Jorge, puro ou sob a forma

de culto de Oguin, surgem na formação brasileira como opostos

ou contrários e, ao mesmo tempo, como expressões dramáticas do

mesmo sentimento de identificação do homem com os animais

mais proximos de sua condição ou de suas aspirações de elevação

de status. Cavalo e boi, cabra e mula foram animais que, em nossa

formação social, concorreram para aliviar tanto o escravo como

o homem livre, mas pobre, dos seus encargos; e o senhor, de sua

exclusiva dependência do trabalho, da energia e do leite de es-

cravos. Ou de cabras-pessoas, tantas vezes diferenciadas, nos anún-

cios de jornais da primeira metade do século XIX, de cabras-

-bichos com a mesma naturalidade com que se distinguiam então

burras-bichos, de burras-cofres de guardar dinheiro ou valores;

ou macacos, monos, de macacos, máquinas de levantar peso.

É claro que o trabalho escravo, ou forçado, apenas se atenuou,

entre nós, com o crescente uso daqueles animais nos engenhos,

nas fazendas, no transporte de pessoas e de carga, no aleitamento

de crianças e na alimentação de doentes, de convalescentes e

mesmo de*gente sã sob a forma de leite fresco, coalhada e queijo,

substituindo-se na última função-a de fornecer leite às pessoas-

mulheres pretas e pardas por vacas e cabras chamadas de leite,

489

#

490 GMBIMTo FREYm S~&Dos E Muc~os - 2.0 Tomo 491



embora do pró rio leite consumido pela população do Rio de

janeiro no meaTo do seculo XIX conste que era rincipalmente

leite de escrava, isto é, de cabra-mulher; e não Xe cabra-bicho

ou de yaca.1 Pois semelhante gênero dê trabalho-o escravo-só

se tomaria arcaico ou obsoleto com o desenvolvimento da má-

quina-espécie de sublimação realizada entre nós palmente

p c, -leses, da energia animal em energia me= animada

pelo vapor. Particularmente da energia do cavalo consagrada pelas

iniciais H. P.-isto é, "Horse-Poweii"-como símbolo ou medida

de força motora ou de tração. Com o começo de generalização

do uso da máquina e que verdadeiramente principiou a libertação

do negro, da escravidão e da servidão; e se tornou possível a

valorização do animal, por longo tempo explorado entre nós com

uma crueldade que chegou a impressionar mal os estrangeiros

mais benevolentes que visitaram o nosso Pais.

Do desenvolvimento da máquina não se consegue separar,

como desprezível ou insignificante, o motivo moral ou o estímulo

sentimental, de acordo com a pretensão daqueles materialistas

históricos mais rígidos na sua "interpretação econÔmica" da His-

tória. Fato nada insignificante deve ser considerado o de tèrem-

os in leses-dos quais adotamos, aliás, o culto de São Jorge-a-

-CavaiÓI-se adiantado a outros povos no carinho pelo nobre ani-

mal de guerra e de transporte, de recreação e de carga, a ponto

de haverem desenvolvido o "trote inglês" que, segundo conhecida

autoridade no assunto, evita, mais que os outros, que o cavalo

seja ferido ou ma oado pelo cavaleiro.2 De modo que no "trote

inglês" pode o Er do historiador que tiver alguma coisa de

sicólogo, e não a enas de economista, descobrir o prirrieiro passo

e estímulo moraaf ou sentimental-sem se desconhecer, é claro,

a ação de outros estimulos-para a invenção de máquinas desti-

nadas à substituição ou à superação do cavalo e, à sombra do

cavalo, do burro, da mula, do boi e do camelo, como animais de

transporte de pessoas e de cargas; e também de uerra e de acio-

namento de engenhos e de moinhos. Animais JUI-ramente explo-

rados e até martirizados pelos homens tanto nas civilizações essen-

cialmente escravocráticas-a árabe, entre as antigas, a brasileira,

entre as modernas-como naquelas já,livres do trabalho humano

mais vil à custa de maior exploração ou utilização da energia

animal. 0 caso da civilização inglesa antes do cavalo mecânico,

isto é, a vapor (H. P.), haver substituído o cavalo animal.

Era, decerto, ouvindo o ruído dos grandes motores "made in

England" que Lívio de Castro regozijava-se, nos últimos anos do

Império, com "0 advento do Cavalo-vapor": "o cavalo-vapor a a-

rece em todos pontos do horizonte como uma ínundaçã so-

nha.. ."3 Inundação capaz de reduzir o sistema patriarcal brasi-

jeiro, baseado antes sobre o trabalho humano que sobre o animal,

a resto de naufrágio, Os novos sistemas de família e de sociedade

teriam de basear-se sobre a mecânica, sobre o carvão, sobre o

#

cavalo a vapor.



0 que aqui se sustenta, porém, é que os ingleses concorreram

por meio de aperfeiçoamentos da técnica de roduçao e de trans-

porte animal-aperfeiçoamentos tanto de orJem técnica como de

ordem moral--c, principalmente, por meio de nova técnica de

produção e de transporte-a mecânica, o vapor-para dificultar

a sobrevivência da escravidão entre os homens. 0 que não sig-

nifica que em sua luta a rincípio meio vaga, depois sistemática,

p

sil



contra a escravidão, no Bra , não agissem por motivo de crua

rivalidade econômica: a da produção mecânica a vapor, ainda

cara, com a produção por meio do braço escravo ou servil, por

algum tempo mais barata que a mecânica ou a vapor, dada a

situação do escravo em áreas tropicais em comparação com a do

operário em áreas de clima frio. e de vida mais cara do que nos

trópicos.

Entre aqueles primeiros aperfeiçoamentos-os do transporte,

intimamente ligados com os da produção por força ou energia

animal e com os do comércio inter-re i nal-já vimos que estava

g9 1

o trote inglês. Outro, aparecido no secti o XVIII, seria a sela



inglêsa.4 Já então estavam os cavalos ingleses diferenciados em

duas classes ou duas raças: cavalos de sela e cavalos de carga.

Os de sela especializados em qualidades militares, políticas-in-

clusive o transporte rápido de correspondência urg rite da classe

dominante--e aristocraticamente recreativas, de ligeireza, de velo-

cidade e de elegância de forma, de porte e de marcha. Os de

carga, especializados na capacidade de tração mais rápida que a

bovina e de transporte seguro de grandes volumes ou5 de Resadas

cargas. A mesma diferenciação de cavalos em "classes" ou raças",

conforme sua utilização, não tardou a acentuar-se em Portugal,

onde, entretanto, os cavalos grandes foram sendo empregados no

transporte comercial e os pequenos e médios tornaram-se os pre-

feridos para a guerra ou ara a cavalaria fidalga. 0 cavalo nobre

-diferente do quartau-Severia ter "seis quartas e meya, que

assim será mais facil de montar, e desmontar [ .... ] e regular-

mente vemos serem estes mais ligeiros que os cavallos grandes,

que são dotados de menos espirito". Devia também o cavalo

nobre ter "o pello murzello ou castanho escuro" e não "branco

ruço ou lazão clarojois estes se divisão de longe".6 0 cavalo

grande, por ser cons erado de "menos espirito 11 que os médios

ou pequenos ç, ao mesmo tempo, superior a eles em força, foi

se tornando cavalo servil entre alguns povos. E, como animal

servil, substituindo o escravo humano em várias atividades. No

#

CAFV DE INHAME



oxeellente iopurativo empregado para to.

das as enforwidades da ppile, com gran

ppo vantaguns o reconhecidos bei2pflcuí.

ruzailtados.

CAJURUBEBA

8t90 maravilliuse, rerripaio Confran 1,~

pliiIN que ePe dolui , Ia raí WR 1 fill:nte

prou. Aumatieo, Uartei

e'ou-.&,as poderosas injecções para o trata-

innrto fla torrivel enferruidadA qlie tantos

ma!aí r41-, ncc-z-i,, )ar- a bIraitem-hagia ;

,juncalmiliait e ~-31a111)Amá afamad98 e

mui conheridos peiro:--- -

li-fluhas , ~- pyeb.

etc. etc. ect ; todos us medicampatos que

ao procurar, finalmentá, encontrar-se-d

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BOTICA E DROGARIA



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depurativo mais util qij,. se, péde u,~ 2 -~ M

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Nao contem mercurío rem outrn qu-,i'

quer droga que seja nociva à sa

ú,] e e " AMIÇC3

por ifi-SO 0 MaSa proprio para o uso do; (~,n.

lermos, em geral. cura as segu:ntes

MoleRtias : to

AfrecçOes syphiliticas 1 j~. ~

T

0



rlicumatisr~o

escropEulas

empingens

: U 1


Joaquína 4. de Souza,.

REG.Rlo Ik laW

, fficoras

corrimentos uterinos

gonorrMas,

fraqueza geral, empobrecimento do saD-

gue, ittipureza do gue, etc.

AN~YNCIOS DE JORNAIS BRASILEIROS DO MEADO E DO FIM DA ERA IMPERIAL

relativos a estilos. de . conv~ivência ainda atriarcai e já urbana em algu-

a

mas das então principais arcas do País rBahia. Bio de janeiro, Pernam-



buco, Rio Grande do Sul). Grupo XII

SoBRAms z MucAmBos - 2.1 Tomo

493

Brasil, entretanto, veremos mais adiante que a mula é que se



revelou, como animal de transporte, o melhor escravo do homem.

o melhor e, ao lado do boi, o mais duramente explorado.

A seu favor, nunca se levantaram as mesmas vozes eloqüentes

que a favor do cavalo-"nobre animal" considerado por alguns

tão impróprio por natureza para a condição servil como o "nobre

selvagem . ou o "altivo indid'. Vozes como a do redator do "Re-

trospecto Semanar do Diário de Pernambuco que a 5 de feve-

reiro de 1859, a pro ósito de cavalos extenuados por viagens de

carro ou de ônibus Nos centros das capitais aos subúrbios, escre-

veu que era "[ .... 1 conveniente regulamentar as cocheiras de

aluguel, marcando-se, por exemplo, o número de viagens que

um carro poderia fazer, no espaço de um dia, daqui ao Poço

#

ou ao Monteiro". E mais: "[ .... 1 Daí também a necessidade de



se prescreverem regras ao tratamento dos cavalos. A nossa raça

cavalar é robusta e sã e talvez a prática de alimentá-la antes

com garapa, do que com sólidos, como milho, jerimum, maniva,

etc., i~ontribua ~ara enfraquecê-la e torná-la imprópria para ~uxar

randes pesos. Ou por isso ou por aquilo, não era anima, que

Sevesse ser abandonado como a mula à condição servil, sem

cuidados especiais.

Em ensaio memorável, o Comandante Lefebvre des Noêttes

destaca que contra a escravidão exigida pelas civilizações antigas,

foi vão ou inutil todo esforço simplesmente moral. 0 trabalho

escravo, "indispensável a essus civilizações",' só se atenuaria com

os aperfeiçoamentos realizados pelo homem na utilização do ca-

valo e do boi no transporte e nos trabalhos de agricultura e de

indústria. Dependência absoluta do progresso moral do progresso

material, como pretende o "materialismo histOrico" mais estreita-

mente sectário, ao salientar a importância da confirmação à sua

filosofia, trazida pelo estudo do Comandante des Noêttes? Para

jérôme Carcopino, autor do prefácio a esse notável estudo fran-

cês-prefácio, aliás, escrito no Rio de janeiro em setembro de

1930-semelhante confirmação seria "trop Matante et compUte

our être acceptée sans re~nce"." E ele próprio cita o exemplo

os Estados Unidos onde a escravidão sobreviveu aos aper-

feiçoamentos da técnica de tração, contra o aspecto "determinista"

ou, aparentemente, materialista-histórico, da tese de Des Noêttes.

0 que parece é que sem inquietação moral ou trepidação sen-

timental, só por efeito de aperteiçoamentos materiais ou técnicos,

não se realizam progressos dos chamados morais. Não se realiza-

ram nos Estados Unidos; e, no Brasil, o palanquim asiático carre-

gado por mãos de escravos africanos, ou descendentes de afri-

canos, resistiu Iongamente à carruagem européia: ao carro inglês

#

494 GmBwTo FREum SOBRADOS E Mu~os - 2.' 7~ 495



ou francês puxado a cavalo ou a mula. Enquanto não se gene-

ralizou contra seu uso-e contra o da rede ou do bangüé de

transporte de pessoas ou de coisas, no interior-a indignação mo-

ral, por algum tempo limitada aos brasileiros de maior sensibi-

lidade cristã; enquanto a esse uso não se associou a vergonha ou

o pudor de constituir arcaísmo oriental no meio de uma civili-

zação com pretensões a européia, o palanquim resistiu, nas ci-

dades, ao carro de cavalo como, no interior, a rede ou o bangüê

de transporte, ao carro de boi; e o engenho movido a besta ou

a boi, ao engenho a vapor. Por mercia, em grande parte, é certo;

por dificuldades de ordem física como as oferecidas à tração

animal pelas ladeiras em Salvador, em Olinda, no Rio de janeiro,

tão desfavoráveis aos cavalos e às carruagens; por falta de es-

tradas no interior. Mas, também, por ausência, ou quase-ausência,

de sentimentos de piedade pelos abusos do homem senhoril na

exploração do homem servil -e do animal manso. Sentimentos que,

generalizados no começo do século XIX, teriam concorrido para

a mais rã *d bstituição da energia humana pela ai4imal e da

1 a su

ani Á , a mecânica e a vapor, no nosso meio,



Esses sentimentos, o senhor patriarcal no Brasil limitava-se a

dispensá-los àqueles escravos ou servos que considerava uma

espécie de pessoas de casa: mães-pretas, mucamas, malungos. E

aos animais que personalizava em parentes: as comadres-cabras,

por exemplo. Pelos outros, sua indiferença era tal que confundia-

-se às vezes com crueldade. Com a "ausência completa da idéia

ou do sentimento de consciência" que Maximiliano encontrou

no Brasil na primeira metade do século XIX. Atribuiu a vários

fatores, essa -ausência de consciência", inclusive a inconstáneia

de tudo no Brasil; mas o principal responsável ela precariedade

de organização moral no nosso Pais, pareceu-Ne a natureza, o

clima, a vida fácil que não criava responsabilidades no homem,

sem que se devesse esquecer o sistema 'de trabalho escravo.10

Kidder, viajando pelo Brasil em mil oitocentos e quarenta e

Roucos, notou que~ na capital da Bahia não se enxergava um

unico carro, uma unica sege, uma única carroça ara o trans-

porte de cargas, pessoas, ou mercadorias: ", Áus or cab, or

even sege. .." Tudo se transportava às cabeças ou aos ombros

dos escravos. Observou apenas que na Bahia o ordinário era

carregár-se o açúcar ou o algodão aos ombros e não à cabeça,

como o café no Rio de janeiro. Eram negros altos e atléticos, os

empregados na Bahia nesses serviços de transporte. E como os

carregadores de café no Rio de janeiro e os de açúcar no Recife,

os de açúcar e de algodão, na cidade do Salvador, marchavam

cantando, como para adoçar o peso das grandes cargas. Um ritmo

de marcha fúnebre, o deles, que contrastava com o alegre, dos

seus camaradas do Rio de janeiro: "rather than the double-quick

step of their Fluminen*lan colleagues"."

#

Pode-se dizer que o maior espanto de Kidder numa cidade



da importância de Salvador e numa época como a da sua visita

ao Brasil-mil oitocentos e quarenta e poucos: época já carate-

rjzada pelos chamados "cavalos de ferro" na Europa e nos Es-

tados Unidos-foi a ausência de tração animal. Foi a sobrevi-

vência de tração humana. Ou nas suas palavras: "The almost

entire absence of horses and mules in the streets, did no cease

to a

,p ar singular. An unusual number of goats and pigs was



pe

hardly sufficient to supply the lack of the afore-mentioned

animals. '12

Na época em que na Europa ocidental e nos Estados Unidos

já começava o declínio do cavalo, do burro e do boi como ani-

mais de tração e sua substituição pela tração a vapor, na antiga

capital do Brasil-cidade da maior importância comercial, e não

apenas política, entre as do Império-a tração humana não só não

fora ainda superada pela animal como continuava quase a unica.

Não se enxergavam cavalos nem burros. Nem carruagens nem

carroças. Só palanquins. Nenhuma pessoa ou coisa sobre rodas

puxadas por animal ou mesmo por homem, Mercadorias carre-

gadas aos ombros de escravos. Homens carregados por homens.

enhores carregados por servos.

Não é de admirar. Na própria cidade do Rio de janeiro ainda

se viam então valanquins como o que Colton encontrou carre-

Edo por dois escravos e seguido por vários servos. "A Brazilian

dy of rank in her palanquif~", anotou ele no seu diári0.13 E 'à

observara que embora fosse condição de elegância de todo sobrado

ilustre ostentar na cocheira carruagem de duas ou quatro rodas,

a muitas das carruagens faltavam cavalos que as puxassem. Seu

papel era o de simples decoração ou ornamentação sociah "a

quiet indication of rank".14 Como o negro continuava a ser mais

fácil que o cavalo ou mesmo a mula, as senhoras menos abas-

tadas saíam de palanquim, enquanto as carruagens repousavam

nas cocheiras dos sobrados patriarcais.

Em Alagoas observara o mesmo Kidder outro fato interessante

para a história do transporte ou da tração no Brasil: o fato da

mula não ter sido introduzidg na região como besta de carga,

trabalho em que teria se revelado-segundo o observador norte-

-americano-animal mais prestimoso que o cavalo. A verdade, po-

rém, é o . çucar chegava então a Maceió-cidade ainda de

s re a

o r


raros rados e quase que exclusivamente de casas térreas fei-

tas de taipa-trazido em carros rústicos de madeira, rodas de

feitio primitivo e puxados por seis ou oito bois cada um.15 Eram

os carros de boi, que no interior do Brasil latifundiário, tanto

#

496 GmBERTo FREYRE SOBRADOS E MucAmBos - 2.0 Tomo 497



agrário como pastoril, mostraram-se os únicos veículos capazes de

vencer, sob o peso do açúcar ou de outros produtos, os péssimos

caminhos denominados estradas.16

As famílias patriarcais, bastando-se nas suas casas-grandes de

engenho, de fazenda e mesmo de estância-as grandes estâncias




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