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tilha ou ao manto à moda oriental-com um chapeuzinho atado

ao queixo. Ainda que já houvesse cintas no Brasil-novidade oci-

dental-a gorda senhora não as adotara: donde ficarem à vista

excessos de gordura que doutro modo se teriam conservado en-

cobertos. 0 vestido era enfeitado e de muitas cores; 125 e os sapa-

tinhos comprimiam a redundância de carne que se espalhava

elos tornozelos e Eelos pés. Uma superabundância de gordura

erramava-se da ca eça aos pés da mulher. 128

Evidentemente, um caso extremo de gordura oriental de iaiá a

tomar ridículo o uso de artigos femininos inspirados nas formas

ocidentais de mulher. Mas o fato é que o comum, no Brasil pa-

triarcal, eram as senhoras gordas ou moles. O~ti.corpulentas, como

as matronas que Luccock conheceu nos principios cio século XIX

Só as iaiazinhas eram de ordinário finas e franzinas.

Mas as iaiazinhas eram meninas-moças; e para elas não havia

vestidos feitos" da Inglaterra ou da França, donde só chegavam

trajos para as mulheres feitas. Os vestidos franceses e ingleses para

meninas de treze anos seriam todos, na época, vestidos para me-

ninotas consideradas ainda crianças; e não para mocinhas já em

idade de casar como era o caso no Brasil e no Oriente: nesse

Oriente de onde, nos princi ios do século XIX, ainda se recebiam,

no Brasil, vestidos 1 - Noras que, certamente, correspondiarri

melhor que os ingleses e franceses, às formas de co o, aos ges-

tos e ao ritmo de andar e de dançar e aos modos rSe sentar-se

-de pernas cruzadas sobre os tapetes ou as esteiras-das sinha-

zinhas ainda ortodoxamente atriarcais dos começos do século

#

passado. Como as mulheres XÓ Oriente, eram as do Brasil-não



só as das casas-grandes como as dos sobrados em que por algum

bola. Que anda-

i

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472 GnarRTo FREYRz SOBRADOS E MucAmBos - 2.' ToNto 473



tempo as casas-grandes projetaram quase toda a sua sombra pa-

triarcal-mulher~s que, ainda meninas, se casavam; que muito cedo

tornavam-se maes; que ainda novas começavam a envelhecer. E

1 .


cuja uruca atividade, fora a procriação, a devoção e a adminis-

tração das mucamas, era fazer renda e fazer doce: outra maneira

antes oriental que ocidentai de ser mulher. E fazendo renda a

iaiá era como se fosse mulher do Oriente: sentada de pernas cru-

zadas sobre uma esteira diante da almofada. A renda, notou Luc-

cock que não era empregada em chapéus de mulher-pois as mu-

lheres não usavam então cha éu no Brasil: "they wear none'~-

mas para enfeite de camisas, ZIcotes e mãngas de blusa. 127Ainda

outro orientalismo. Como oriental era o hábito de quase todas

elas só se ataviarem para sair; e em casa se conservarem de ca-

misa . ou cabeção-os célebres cabeções icados de renda-os pés

descalços ou soltos gostosamente em Xinelos sem meia e até

em tamancos: "no stockings and seldom e*her slippers or the

wooden clogs "th brown upper leatters called tanwncas", escreve

Luccock.129

Do mesmo observador inglês é o reparo de que a testa sempre

franzida das mulheres brasileiras talvez fosse conseqüência do

fato de viverem sob um sol de zona tórrida sem "covering on the

heacl* ou "shade for the eye", isto é, sem chapéu de estilo euro-

peu que as resguardasse dos excessos de luz tropical. Pois ele

próprio notou serem de uso geral, entre as mulheres-ao menos

no Rio Grande do Sul-os panos--em vez de chapéus-sobre a

cabeça: mantilhas de seda e de renda, entre as senhoras da classe

mais alta; capotas de casimira, entre as mulheres da "segunda

classe"; baetas, entre as de terceira, isto é, as escravas. 129 Reparo

semelhante ao de Mawe, referido em página anterior.

Entretanto, a mantilha ou o xale à moda oriental talvez cons-

tituisse melhor proteção para a mulher contra os excessos de luz

ou de sol num país como o Brasil do que os chapéus europeus

de que Luccock, como bom negociante inglês, se fazia consciente

ou inconscientemente propa di t 0 ue parece é que as mu-

ogan s a,

lheres de testa franzida servadas pelo inglÊs pertenciam ao

numero daquelas que já não usavam ortodoxamente a mantilha

senão na missa; e ainda não haviam substituído a mantilha ou o

manto oriental pelo chapéu ocidental.

Se voltamos ao assunto é, principalmente, para procurarmos

acentuar a semelhança, neste como noutros traços de cultura,

entre os hábitos da sociedade do Brasil patriarcal e a da índia

ocupada pelos portugueses; os quais, em vez de procurarem oci-

dentalizar violenta e completamente a Ásia que conquistaram,

adotaram dela numerosos usos e costumes. E desses costumes,

vários talvez tenham sido transmitidos diretamente dali ao Brasil.

Na verdade, o retrato que europeus como Pyrard de Laval e John

#

Fryer traçam da índia portuguesa nos séculos XVII e XVIII



parece as vezes do Brasil duranté o inteiro período de organi-

zação patriarcal de vida. Os mesmos palanquins fechados. 0 mes-

mo luxo de prata nos arreios dos cavalos. Os mesmos rosários

de ouro nas mãos das mulheres. A mesma ostentação de sêdas,

de veludos e de jóias nas ruas e nas igrejas. Os mesmos chapéus-

-de-sol de seda anunciando fidalgos. 0 mesmo excesso de zum-

baías entre pessoas de qualidade. As mesmas senhoras peritas no

preparo de doces e de cqnservas. Os mesmos mantos ou mantilhas

guardando-as do olhar dos estranhos. 130

Também o mesmo respeito da gente servil à senhoril. Os mes-

mos senhores armados de espada ou de bengala com as quais

às vezes obrigavam servos ou párias a se curvarem nas ruas à

sua passagem de brancos, de senhores, de fidalgos arbitrários.

Uma cena dessas, ocorrida no Brasil nos principios do século XIX

e fixada por Arago, parece ocorrida antes em Goa no século XVIII

do que no Brasil. 131

Não é de admirar que fosse tanta a semelhança do Brasil co-

lonial com a índia portuguesa dos séculos XVII e XVIII. já vimos

quanto foi vivo e numeroso o comércio entre as duas áreas, assim

regular como irregular, quando o Brasil simples colônia ou apenas

domínio de vice-reis. Transferida a Corte de Portugal, de Lisboa

para o Rio de janeiro, um dos efeitos dessa transferência do

centro político do Império lusitano foi deslocar para o Brasil

grande parte do comércio da índia com a antiga Metrópole,

aumentando, assim, as relações da América Portuguesa com o

Oriente. 0 referido Luccock, comerciante arguto, viu com olhos

de inglês a importância que assumiriam essas relações se a Grã-

-Bretanha não se apressasse em dificultá-las, como de fato as difi-

cultou, com o Tratado de 1810 e com os privilégios obtidos para

o seu comércio sobre o próprio comércio português. Considerou

o assunto merecedor de "the most particular attention " ' como

escreveu no seu livro sobre o Brasil, onde esteve de 1808 a 1818.132

Como os navios portugueses da linha oriental traziam princi-

Falmente da índia para o Brasil tecidos de algodão de várias qua-

i

idades-parte dos quais, reexportada daqui para Portugal, para



as colônias portu uesas da costa da África e para os portos da

América, ao sul À linha-tecidos que, muito procurados, entra-

ram em aguda competição com os da Irlanda, criou-se um pro-

blema para a Grã-Bretanha mais sério que o das antigas impGr-

tações de artigos orientais para a América Portuguesa por navios

que não fossem os ingleses ou os dos comboios de Lisboa. Tanto

mais quanto, além dos tecidos indianos, traziam os navios portu-

gueses para o Brasil, chá, tecidos de Nanquim, cobre, seda e

I

1

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474 G"wTo FREYRE SoB~9 ic MucAmmos - 2.1 Tomo 475



vários outros artigos da China.138 Mawe pôde escrever no seu

livro publicado em 1821 que nos princípios do século XIX havia

no Brasil grande abundância de artigos da China.134 Poderia ter

dito que, também, da India. Em uma palavra, do Oriente.

Luccock insinua, ainda, ue haveria- vantagem para o Brasil

em que navios po:3a linha do Brasil para o Oriente fos-

sem substituídos pelis ingleses'35-o que de fato sucedeu, através

dos privilégios obtidos pela gente britânica para o seu comércio

sobre o próprio comércio português, com prejuízo para os inte-

resses brasileiros; e vantagem imensa só para os ingleses. Tam-

bém lucraria a Grã-Bretanha imperial com a redução ao minimo

não só do comércio, por algum tempo particularmente intenso,

entre o Brasil, elevado a Reino, e a Ásia portuguesa, como das

relações, sempre mais ou menos numerosas, entre a América Por-

tuguêsa e o Oriente. Relações favorecidas-já o sugerimos-Tpelas

afinidades de organização patriarcal e escravocrática de família,

de economia e de convivência entre as duas áreas.

Quando Koster-outro comerciante britânico residente no Bra-

sil dos começos do século XIX e como Mawe e Luccock, arguto

observador-escreveu, em comentário ao Tratado de 1810, que

o artigo 21, do mesmo Tratado-relativo aos impostos proibitivos

que poderiam sofrer nos domínios de Portugal os produtos in-

gleses das Indias Orientais e das Indias Ocidentais-era uma

espécie de compensação ao artigo recedente-o que sujeitava a

impostos proibitivos na Grã-BretanÇa certos produtos brasileiros

de que houvesse similares, produzidos nas colonias britânicas136-

talvez tenha considerado o assunto com olhos apenas de inglês.

Pois não poderia estar no interesse do Brasil fechar-se à firipor-

tação de artigos das Indias Orientais-mesmo das áreas dominadas

elo comércio británico-do mesmo modo que estava no interesse

a Grã-Bretanha preferir ao açúcar e ao café da América Portu-

Cesa o açUcar e o café de suas colônias tropicais. Eram situações

erentes. Normalmente, teria sido da conveniência do Brasil

a continuação, ainda por longos anos, do comércio e das abun-

dantes relaçoes ue, durante séculos, conservaram-no em contato

com Uma parte % mundo de que ele se tornara ecológica e so-

cialmente parente. Parente pelo clima e parente pelo sistema de

organização patriarcal de economia e de convivência entre raças

e classes. Até que a reeuropeização intensa da sociedade brasi-

leira, a partir dos princípios do século XIX-reeuropeização coin-

cidente com o declínio do patriarcado nas suas áreas tradicionais

de domínio rural-tornou o Oriente, remoto e vago para a mesma

sociedade e para a sua cultura, ainda em formação. Tão remoto

e vago que valores orientais, outrora comuns entre nós.. tornaram-

-se quase tão raros-peças de museu, arcaismos, curiosidades-

como nos países de civilização mais acentuadamente ocidental

da América.

#

NOTAS AO CAPITULO IX



Aqui divergimos do ilustre ensaísta Sr. Afonso Arinos de Melo Franco

que, em estudo a propósito do Latin America and the EnZightment-livro

~to, em colaboração, por um grupo de ensaístas norte-americanos, um dos

quais, o Professor Arthur P. Whitaker, firma-se em sugestões nossas-na pri-

meira edição deste livro-para sustentar ter o Brasil "se desenvolvido pro-

gressivamente num sentido asiáticd' e participado, assim, menos que a

América Espanhola, da chamada "Época das Luzes" ocidental--escreve:

"...na verdade Freyre se refere exclusivamente ao que sempre tem em

vista, isto é, aos modos de viver, não aos modos de pensar. Doces, vestidos,

transportes, subordinação da mulher e da criança, traços arquitetõnicos

~dos do Oriente via Portugal..." E ainda: "em todo caso, nada de

aproximado com as idéias, as concepções de vida política (tão marcantes

no século dezoito), as posições assumidas em face dos problemas intelectuais,

numa palavra. Este assunto, que Gilberto Freyre não tinha em vista, e

com que, aliás, raramente se preocupa, é que Interessa ]Rarticular e exclu-

sivamente ao estudo da Época das Luzes". ÇA Época das Luzes", in Mar

de Sargaço3, São Paulo, s. d., pág. 55).

Admitido o exagero do erudito ensaísta norte-americano na interpreta-

ção das sugestões por nós esboçadas neste ~o desde 1936, temos, por

outrw lado, de admitir a tendência do ensaísta brasileiro para a crença,

igualmente exagerada, numa esp6cie de intelectualismo no vácuo, pois a

tanto importa a sua teoria de nada terem a ver os modos de pensar de

uma sociedade com seus modos de viver. Parece fato estabelecido pelos

estudos de Sociologia e de Psicologia justamente o contráÍrio: a Interdepen-

dència entre o pensar e o viver de um indivíduo ou de uma comunidade.

Quanto a nós, freqüentemente acusados de "materialista" por críticos

mais ou menos superficiais, devido ao fato de atribuirmos importincia básl-

ca aos modos de viver do brasileiro-inclusive aos até nós tio desdenhado

doces, tidos como preocupação digna apenas a, mulheres e de confeiteiro:

-tivemos num lúcido crítico francês, o Professor P. Arbousse-Bastide, quem

explicasse, com a clareza de que os franceses são mestres, nossa maneira

de lidar com coisas e de relacioná-las com as pessoas e as sociedades, inclu-

sive com seus modos de sentir e de pensar. A acusação que renova contra

nós um escritor da categoria do Sr. Afonso Arinos de Melo Franco obriga-

-nos a imodestamente recorrer ao sociólogo e crítico francês, para que res-

ponda por nós ao autor de Mar de Sargaço3. "Les é14ments mat~W-

escreve o Professor Arbousse-Bastide-"ne sont jamais pour Gilberto Freyre,

que des sígnes d'autres réalités, plus difficiles à saisir, mais plus essentieNe3.

11 serait ridícule de chercher à discréditer une tego méthode en Ia um~

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476 Gu.~To FREnm



SoB~s z Muc~ - 2.11 Tomo 477

de Ma~ste. elle no trahit méme pas ce quon pourrait appeler un favo-

rW~ du mat~ Au contraire, 1e3 objeis matérieis, dans une teUe c"

ception, Wont de um, ni £rintérét, que dans Ia mesure oià ils traduisent de#

réalítés imma~lá, des mentalités, des croyancos, do préiugés des inven-

tion3" (Prefácio a Um Engenheiro Francês no Brui~ Rio de janeiro, 19^

pág. XIV).

Dificilmente se admite que um ser social e cultural tio cercado de

objetos materiais" do Oriente, como o brasileiro--ou o português do Brasil

-da época colonial e dos primeiros anos do século XIX, não sofresse Influên.

cias orientais nos seus modos de pensar e de sentir. Sofreu-as e foram

influências que.principalmente reforçaram no sexo, na classe e na raça domi-

nantes, ou senhoria, atitudes patriarcais de superioridade sobre os demais

elementos da sociedade. Atitudes baseadas nas místicas de "sexo forte",

de "idade provecta" e de casta ao mesmo tempo feudal e militar, ou de

11 nobrezoj' agrária, e afirmadas em usos, trajos, insígnias, símbolos-como

os de dragões ou leões de louça ou de pedra nos umbrais dos portões-

meios de transporte, modos de sentar-se o homem ou de comportar-se a

mulher. Desses usos, trajos, símbolos, hábitos, muitos se alimentaram,

num Brasil desde o século XVIII crescentemente arcaico para o s~iàteYm

ocidental de civilização, de exemplos, Inspirações e materiais carateristica-

mente orientais. Só aos poucos o conceito caraterísticamente ocidental de

civilização-racionalista, individualista, s,---ularista-penetraria no Brasil, subs-

tituindo símbolos orientais por ocidentais e patriarcais por burgueses.

A insistência dos modernizadores da Turquia-até quase nossos dias mais

asiática que européia em seus costumes-em fazerem substituir o fez orien-

tal pela cartola ocidental e em abolirem o véu, também oriental, de mu-

lher, e substituí-lo pelo chapéu ocidental, mostra que a sagacidade levanti-

na vê nas coisas, nos "objetos materiais", nas exterioridades, nos símbolos,

influências capazes de influir sobre o íntimo das pessoas ou sobre sua men-

talidade, predispondo-as a estagnações ou alterações de natureza moral ou

intelectual. 0 ditador Kemal chegou a declarar que enquanto o turco usasse

fez e a turca se cobrisse com o tradicional véu do Oriente a Turquia se

conservaria fechada à "civilização" e ao "progresso", simbolizador, ao seu ver,

pela cartola ocidental e pelo chapéu europeu ou norte-americano de mulher.

0 hábito faria o burguês, o racionalista, o individualista, isto é, criaria no

turco a predisposição para ocidentalizar-se nos sentimentos e nos Idéias.

Novas modas de trajo favoreceriam novos modos de pensar. Veja-se sobre

o assunto, Barbara Ward, Turkey, Nova Iorque, 1942.

Contra esse processo de transculturação, pela adoção de exterioridades

e símbolos exóticos, favoráveis à alteração-de modos de sentir e de pensar

~-é que os japoneses procuraram resguardar-se, transigindo com várias

técnicas ocidentais por eles consideradas moralmente neutras, mas conser-

vando-se intransigentemente hostis a outras (john Embree, The Japaneso

Nation, Nova Iorque, 1945): conservando insígnias, símbolos e mitos orien-

taIS e, ao mesmo tempo, patriarcais e feudais, religiosos e coletivistas, írracio-

a~ e anticientíficos--entre eles o de origem divina do Imperador-contra

~ opostos ou equivalentes ocidentais e, ao mesmo tempo, burgueses, in-

#

divIdualistas e secularistas, capazes de alterarem a civilização japonesa na



ma essência, é que o Japão feudal, monárquico e pãtriarcal, conseguiu so-

~ver até nossos dias.

Siío ocorrências que recordamos para acentuar o fato de que, erfi nossos

estudo&, acentuando a importáneia de "objetos materiais", símbolos, insígnias,

mitos, não o fazemos por "materialismo" ou por desprezo pelos valores

jovigível e requintadamente intelectuais e espirituais, mas por considerar

os chamados "objetos materiais'~-inclusive móveis, trajos, alimentos--refle-

xos das ~das "realidades imateriais", nunca ausentes dos mesmos objetos.

Ausentes dos "objetos materiais" de procedência oriental, de uso mais ge-

nerslizado no Brasil da época colonial e dos primeiros anos do Império, não

M podem considerar o familismo, o patriarcalísmo, o hierarquismo, o reli-

gionismo, o irracionalismo do Oriente que, reforçando o nosso próprio sis-

tema de organização de lamília e de sociedade, chocaram-se no Brasil,

0C noutras áreas-a India portuguesa, por exemplo-com o individualismo,

o secularismo e o racionalismo do Ocidente.

20 Padre Luiz Gonçalves dos Sanctos, em suas Me~rias para Servir à

Historia do Reino do Brasil [ .... 1 Escriptas na Corte do Rio de Janeiro

no Anno de 1821 o Offerecidas a S. Magestade Eirei Nosso Senhor D. 1o40

VI, Lisboa, 1825, 1, pág. 136.

tDebret, op. cit., II, pág. I.

4Gonçalves dos Sanctos, op. cit., I, pág. 136.

51bid., I, pág. 137.

GNum almoço típico de gente média do campo de que participou em

Itamaracá, Kidder notou que a mesa, presidiu-a "the Senhor, sitting à Ia

Turque" (Daniel P. Kidder, Sketches of Residence and Travels in Braziii,

Filadélfia, 1845, 11, pág. 163). 0 costume era ainda muito generalizado

nas áreas rurais e, nas urbanas, limitado às senhoras ou às mulheres. já

Debret observara, no Rio de janeiro, entre senhoras da classe alta, que,

nu igrejas, sentavam-se à asiática Ç2 rasWique"), "wage"-acrescwwa-

"qWon retrouve dans ta réunions partículière3 de* ckwes infé~res' de Ia

population, toulours assíses par torre" (op. cit., II, pág. 91). Asiatismo ou

orientalismo deve ser também considerado o hábito de as mesmas senhoras

não usarem em casa sapatos, mas conservarem-se descalças, quando senta-

das à asiática no meio de suas mucamas, utilizando-se, para andarem den-

tro das salas, de "uns paire de soulíers fanós que leur sert de pantoufles

pour ne.pas marcher pieds nus dans Ia maisofi" (ibid., pág. 91).

. . 7Padre Luiz Gonçalves dos Sanctos, op. cit., II, pág. 137.

SR. Walsh, Notíces of Brazil in 1828 and 1829, Londres, 1830, 1, pág.

80. Nas palavras do observador inglês: "The window3 were barred up

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478 G"ERTO Fru= SomADos z Mu~os - 2.0 Tomo 479



Uke those of the Turks, with lattices of crow-barred laths~ which scarcely

admitted the light, and through which it was impossible to me or to be seen.'

9Veja-se o resumo de depoimentos de alguns desses europeus no estudo

do Professor ~o C. Germano da Silva Correia, La Vieille Coa (Aperçu

Historique, Récits de Voyageurs, Saint François ~ Chronique Sanitaire,

Esquisse Archeologique), Bombaim, 1931, capítulo IIII. Do mesmo autor

veja-se Os "Luws descendentes" da India Portuguesa - Estudo Histórico,

Demog~ Antropométrico -e Aclimatioo, Lisboa, 1925.

10Domingos Alves Branco Moniz Barreto, Memoria sobre a Abo" do

Conimercio de Escravatura, Rio de janeiro, 1837, pág. 26.

11Ibid., pág. 27.

12Ibid., pág. 25---

13jbid., pág. 45.

14Representativo desse ponto de vista pode ser considerado L. P. de

Lacerda Werneck que em 1855 publicava no Rio de janeiro seu ensaio

1~ Sobre Colonização Precedidas de uma Sucinta Exposição dos Prin-

cípios Cerais que Regem a Pop~ (Rio de janeiro, 1855). Levantava-

-se ele contra a idéia de substituir-se o escravo africano pelo trabalhador

asiático - "povo sem vida e sem futuro" (pág. 78), quando o que nos

convinha era "a raça forte e enérgica dos neolatinos e anglo-saxónios", "que

com sua intervenção" viessem "inocular-nos o sangue fervente da agitação

industriosa, misturando-se e derramando-se pela nossa população atugW

(pág. 78). "Superior ao china", considerava Werneck o próprio africano

porque neste, ao menos havia "a força bruta" sem os "prejuizos" do fraco

chinês: "... se nós achamos má a colonização afÉrana, como nos pode-

mos lembrar da chinesa?l" (pág. 79).

1VO Mongolismo Ameaça o Brasill", Anais Brasiliense: de Medicina,

Rio de janeiro, tomo XXXI, n.I 2, 1879, pág. 11.

Em 1879 dizia Joaquim Nabuco em discurso na Câmara dos Deputa-

dos, traçando um paralelo entre a China e o Brasil: ". . . ambos esses países

são dois dos maiores impérios do mundo; ambos têm à sua frente um go-

vérno patriarcal; em ambos o imperador é, como se diz na linguagem ofi-

cial da China, o pai e a mãe do povo; ambos têm os seus mandarins, a sua

organização especial..." Apenas a China levava ao extremo "o respeito

das suas tradições, dos seus antepassados", enquanto no Brasil tudo estava

"em evolução" (Discurso pronunciado em 1 de setembro de 1879, Discursos

Parlamentares, Publicação do centenario do nascimento de Joaquim Nabuco,

iniciativa da Mesa da Câmara dos Deputados, Seleção e prefácio de Gilberto

Freyre, introdução de Munhoz da Rocha, Rio de janeiro, 1949, pág. 142.




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