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e Cantão"" que rebrilham, nos anúncios de jornais, . chicaras es-

maltadas para chá" em contraste com o branco insípido ou ape-

nas dourado nas beiras das louças européias. Nem eram apenas

"fazendas da Asia" em contraste com as casimira3 pretas e es-

curas vindas da Europa, que o Brasil dos dias de Dom João VI

e de Pedro I importava do Oriente, com algumas das quais deviam

ser feitos não só vestidos de senhoras mais ricas como aquelas

casacas de homens, azuis, roxas, verdes cor de alecrim, que ainda

surgem romanticamente dos anúncios de jornais dos dias de Pe-

dro I, embora já ameaçadas de morte pelas novas sobrecasacas

87

escuras dos ingleses. Vinham do Oriente para os fidalgos dos



sobrados navalhas da China, com as quais podia-se fazer a barba

sem offensa da pelle deixando a cara parecendo estar na pri-

meira mocidade", navalhas trabalhadas por "dous dos melhores

e mais abalisados cutileiros da nunca excedida e rica cidade de

Pekim, capital do Imperio Chim".88

Não eram apenas tecidos finos que o Brasil recebia do Oriente,

como já recordamos: "guardanapos da India a 1:600 a duzia";89

gangas azuis de Nanquim;90 "ricos cortes" de vestidos de tonquini

~a índia "adamascados, cor de roza e verde a 8$000 reis e pretos

e azues a 12$000";91 gangas da índia e de Cantão .92 Também

J

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464 GILBERTO FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.0 Tomo 465



11 canella da China" em 11 pequenos fardinhoS";93 "marfins de lei";94

caixas de voltarete da India com suas fixas";95 "conxas de madre-

,erola",96 "pentes de tartaruga fina da India";97 bolsas de pa-

i

lhinha da índia como a que aparece num anúncio do Diário do



Rio de Janeiro de 15 de novembro de 1821; "caixinhas de charão

da India para chá"."' E leques finos.

0 Oriente continuou a se fazer sentir fortemente no Brasil até

os primeiros dias do reinado de Dom Pedro 11. Em 1828-diz-nos

Walsh-havia, ainda, no Rio de Janeiro negociantes dedicados à

importação de artigos do Oriente. E os anúncios de jornais nos

permitem acompanhar o esforço de resistência do Oriente ao

Ocidente, no Brasil, através de toda a primeira metade do século

XIX: resistência notavelmente enérgica até cerca de 1840. Dai

em diante tal é a penetração do Ocidente no comércio, na eco-

nomia, na cultura moral do Brasil ainda patriarcal e já burguês,

que o Oriente se manifesta apenas em sobrevivências ,

Baseados no estudo de anúncios dessa época de transição, no

Brasil, de familismo para estatismo, de religiosismo para secula-

rismo, ousamos afirmar que a mulher-geralmente considerada

mais volúvel que o homem-resistiu, no nosso País, mais do que

o homem culto, a forças ou influências novas no sentido da curo-

peização ou ocidentalização do seu adorno pessoal e do seu traio.

Durante quase toda a primeira metade do século XIX o vestido

oriental, bordado a ouro ou a prata competiu, entre nós, com o

vindo de Paris ou feito aqui por modista francesa. E o chapéu

europeu de senhora só aos poucos venceu o manto ou o xale

oriental preferido pelas senhoras brasileiras para se resguardarem

tanto do sol como dos olhos dos curiosos de rua sem sacrifício

dos seus penteados também orientais.

Sob a pressão das novas modas inglesas e francesas, vários

costumes de origem principalmente oriental foram se juntando

a sobrevivências européias da época pré-burguesa e pré-industrial

da Europa, como costumes "arcaicos", "vergonhosos", "indignos"

de uma nação, como o Brasil dos principios do século XIX, que

já não era simples colônia de plantação de Portugal porém Reino

e até Império. Semelhantes arcaísmos foram, uns reprimidos pela

folícia, outros ridicularizados elos progressistas ou ocidenta-

istas nas gazetas e nas farsas Xe' teatro.

0 costume das senhoras se cobrirem com mantilhas, mantas ou

capotes-a que já nos referimos-foi um deles. Esse traço, ao mes-

mo tempo moral e estético, ligado intimamente à mística da

organização patriarcal de família, resistiu como poucos aos irio-

vadores ou reformadores. Sua substituição ou superação pelo

chapéu ocidental de mulher foi lenta e, por muitos anos, in-

completa.

Mawe notou que as PauIistas-"célebres no Brasil inteiro pelos

seus encantos"-apareciam na missa ou na rua, nos começos do

#

século XIX, vestidas de seda preta, com um longo manto tam-



bém de seda e debruado de renda, sobre a cabeça. Manto ou

xale que estava começando a ser, em parte, substituído or com-

prido casaco de lã guarnecido de veludo, renda, ouro, àe' acordo

com a situação social da senhora. Quando vestiam esse casaco,

havia senhoras-naturalmente as mais amaz6nicas-que apareciam

também com "chapéus redondos", iguais aos de homem e usados

também pelas mulheres que andavam a cavalo.911 Nos bailes se

apresentavam as Paulistas com muitas correntes de ouro pelo

pescoço e cheias de pentes,100 à maneira de mulheres do Oriente.

Em Minas Gerais, viu Mawe damas vestidas com fazendas in-

glesas e uma "profusão de correntes de ouro em volta ao pes-

coço, sempre usadas quando as senhoras fazem ou recebem vi-

sitas" . 101 Orientalismo do bom em combinação com o ocidenta-

lismo dos vestidos. Notou também o inglês ser ainda raro entre

as senhoras mineiras o hábito europeu das mulheres usarem cha-

péu. A não ser. as velhas~102 nas quais tornou-se insígnia de idade

e de classe senhoril, até o fim do século XIX, o uso de capotas,

geralmente pretas. Enquanto as pobres ou de'classe ou raça ser-

vil se cobriam com xales, panos da Costa ou baetas. Nos dias de

Mawe no Brasil as senhoras, mesmo vestidas à européia, apre-

sentavam-se sem chapéus, com o cabelo orientalinente adornado

de pentes "freqüentemente de ouro". Ficaram elas espantadas

de saber que as sènhoras inglesas usavam chapéus.103

Esse orientalismo-o uso e grandes pentes no cabelo, em vez

de chapéus- -parece explicar pOr'que só no meado do século XIX

o chapéu para senhora, de fabrico inglês ou francês, se apoderou

verdadeiramente do mercado brasileiro, fazendo declinar o uso

dos grandes pentes de ouro, de marfim e de tartaruga da índia

ou de Moçambique, chamados "tapa-missas" ou "trepa-muleques".

Fazendo declinar também o uso das mantilhas, mantos e xales

entre tis senhoras da classe alta, Mantos e xales foram tornando-se

insígnias de classe inferior, de raça negra ou de mulher da roça. Os

adornos de rendas-rendas de ouro ~u de veludo-das mantilhas

ou dos mantos de mulher-que outrora distinguiam as classes ou

subclasses-passararri assim a perder seus antigos significados, ao

lado daquelas distinções de origem regional, dentro da procedên-

cia africana das mulheres servis, indicadas pelo modo je usarem

seus xales ou seus panos da Costa que, antes do Professor M. J.

Herskovits na América do Norte, tentamos estudar no Norte do

Brasil com a colaboração do Sr. Cicero Dias como desenhista.104

Oriental foi também o hábito de se ornamentarem as varandas

dos sobrados, nos dias de festa, com panos ou colchas de veludo

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GILBERTO FRjE:YRE

ou de seda bordadas de ouro. Assim ornamentadas, era "esplên-

dida" a aparência das casas, informa Mawe referindo-se parti-

cularmente à Bahia.105 Oriental o crepe de luto de que os mes-

mos sobrados se revestiam quando falecia pessoa da casa.

Orientais já recordamos que eram os fogos de vista nas festas

de igreja, nos são-joões das cidades e dos en enhos, nas próprias

festas cívicas, quando grande era o gasto Ne ólvora e maior,

ainda, o de cera da índia ou da África, que se Jerretia nas velas

das igrejas, o de incenso ou perfumes do Oriente, que se q~ei-

mavam dentro das igrejas ou nas procissões.106 Sentía-se nos

ares a fragrancia de aromas, transplantada ao occidente a odori-

fera Arabia do Oriente", escreveu um cronista de solene procissão

de que, na Vila Rica colonial, participaram, além da "opulen-

tissima" Irmandade do Divino Sacramento, com seu guião de "da-

masco carmezim franjado de ouro", a "Irmandade cios Pardos da

Capella do Senhor S. joseph", a "Irmandade da Senhora do

Rosario dos- Pretos", a de "Santo Arrtonio de Lisboa", clero, o

Governador, a Companhia de Dragões, "turcos" e "christãos" dan-

çando danças caraterísticas, negros tocadores de.charamelas.107

Embora poucas referências tenhamos encontrado em anúncios

de jornais ou em testamentos ou inventários, a mobílias de fa-

brico ou de feitio oriental, elas existiram entre nós, em número

considerável, feitas de sândalo ou de ébano, embutidas de mar-

fim ou de madrepérola. Não seriam, todas, de importação direta

do Oriente. Talvez produtos principalmente das oficinas estabe-

lecidas em Lisboa por artistas indianos, a que Ramalho Ortigão

se refere.108 Ramalho,. porém, fala também de oficinas estabele-

cidas na índia por artífices portugueses; e já vimos que foi maior

do: que geralmente se supõe o comércio regular e irregular entre

o Brasil colonial e o Oriente, sendo rovável que de lá nos te-

nham chegado, em dias remotos, a= de jarros, bordados e

pinturas da China-como as que Maria Graham viu na sala de

visita de um sobrado de Salvador`-móveis da própria índia, ao

lado dos da China. Alguns passam pelos anúncios de jornais com

sua pompa de cores orientais que talvez tenha sido responsável

pelo costume dos nossos avós coloniais de, imitando o laqueado,

intarem de azul,ade vermelho, e de outras cores vivas, os móveis

e jacarandá ou de vinháticO"das casas-grandes e dos sobrados.110

Entre outros: "hum tocador feito na India", como o que aparece

num anúncio do Diário do Rio de Janeiro de 5 de janeiro de

1825 ao lado de artigros igualmente vindos do Oriente como --pen-

tes de tartaruga", "colar~s de coral" e "pomadas muito frescas

bem cheirozas"; "huma rica e grande meza de louça da China,

esmaltada de ouro, e*azul, com serviço para dezert, e para chá,

caffé e chocolate", como a que se destaca de um anúncio de 2

SOBRADOS Z MucAmBos - 2.0 Tomo

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467



de março do mesmo ano no MeSMO Diário; como as "mezas de

charão . e vêm anunciadas no Diário de Pernanibuco de 20

de maio X 1840.

Das nossas igrejas da época colonial sabe-se que mais de uma

se embelezou com objetos vindos do Oriente, alguns dos quais

podem ser vistos em museus como o de Arte Sacra de Salvador.

Schaeffer, quando esteve no Brasil em 1849, admirou-se de ver

num mosteiro do Rio, construido-diz ele--em 1671-"a Ia China

figure of our Saviour in the Cross"-numa capela que b&e'va de

cores orientais: "the walls with porcelain and China srares,

relived by gilt and scarlet lines"."' Em Sabari, em Minas erais,

uma das,~rejas por nós visitada em 1936 na companhia do his-

toriador onso Àrinos de Melo Franco, ostenta adornos orien-

tais que dão ao interior do templo Católico cores quase de pagode.

De modo que é possível que a cristianização ou a catequização

dos indígenas por meio da "~intura decorativa", nas i17,rejas-pin-

tura a que se refere o Sr. Luis jardim, em sugestivo estudo sobre

igrejas de Minas Gerais 112-tenha se feito, mais de uma vez, no

Brasil, com o emprego de adornos ou decorações orientais. Buda

-e Islã parecem ter concorrido, no nosso País, para conduzir a

Cristo ou a Roma indígenas fascinados por vermelhos, amarelos

e azuis do Oriente.

Oriental-mouro, ao que parece--na origem mais remota dos

1 seus requintes volutuosos arece que se deve considerar o hábito,

ue o Brasil herdou de Krtuga4 das senhoras, dos meninos e

os próprios senhores das casas-grandes e até dos sobrados dei-

xarem catar o cabelo ou coçar a cabeça por inaos ou dedos de

escravos que matavam, ou simulavam matar, piolhos, com pe-

quenos trincos caraterísticos: os cafunés. Pois na ausência de. pio-

lhos, regalavam-se ioffis ou iaiás mais dengosas com trincos ou

cafunés de mucamas, na cabeça e por entre o cabelo, isto é, com

a catação simulada ou simbólica de piolhos pelas pontas das

unhas finas das mulatas ou das negras. Às vezes era o contrário

que se verificava: a iaiá branca catava a mucama ou o malungo.

o seu Vocabulário Pernambucano, Pereira da Costa recorda, a

propósito desse tipo de cafuné, os versos populares:

"Eu aáoro unia iaid

Que ndo está de ~é

Me c= muito em segredo

Pra me dar seu cafuné

Não sei que leito ela tem

No revolver aos dedinhos

Qu'eu fecho os olhos, suspiro

Quando sinto os estalinhos."

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468


GILBERTO FREYRE

"Se se acreditasse nas más línguas, algumas damas tinham

razoes mais poderosas para cultivar assiduamente o cafuné do

que o desejo de uma doce superexcitação de nervos, seguido de

um estado de prostração que chega ao êxtase", escreveu Charles

Expilly.113 Pormenoriza o europeu escandalizado com o costume

brasileiro volutuosamente oriental: "À hora do grande calor [ .... ]

as senhoras recolhidas no interior dos aposentos deitam-se no

colo da mucama favorita, entregando-lhe a cabeça. A mucama

passa e repassa seus dedos indolentes na espessa cabeleira que

se desenrola diante dela. Mexe em todos os sentidos naquela luxu-

riante meada de seda. Coça delicadamente a raiz dos cabelos,

beliscando a pele com habilidade e fazendo ouvir, de tempos a

tempos, um estalido seco entre a unha do polegar e a do dedo

médio. Esta sensação torna-se uma fonte de prazer para o sen-

sualismo das crioulas. Um volutuoso arrepio percorre os seus

membros ao contato dos dedos acariciadores. Invadidas, vencidas

elo fluido que se espalha em todo o seu corpo, al umas sucum-

em à deliciosa sensação e desfalecem de prazer soEre os joelhos

da mucana ."114 Donde a interpretação psicanalítica do cafuné

inteligentemente oferecida pelo Professor Roger Bastide no seu

Psicanálise do Cafuné.115 Transcreve o Professor Roger Bastide

do cronista francês do meado do século XIX116 a informação de

ter sido o hábito do cafuné também regalo dos senhores, embora

principalmente das senhoras.

Ao que se deve acrescentar o regalo-este principalmente dos

meninos das casas-grandes e dos sobrados-de terem os pes ca-

tados por bonitas mucamas, peritas na extração de bichos: extra-

ção quase sempre precedida de volutuosa comichão, a que os

dedos das mulatas sabiam dar alívio, abrandando-a numa espécie

de coceira pós-operatória. Era a extração de bicho-d - é em me-

nino OU Menina, por mão macia de mucama de sobra o ou casa-

-grande, uma como catação de piolho nos pes. Volutuosa, tam-

bém, como o cafuné. Em viagem, os próprios adultos tinham em

áreas como a mineira os pes catados por peritos em extrair bichos:

"at which operation they are very expert",' 17 escreveu dos mi-

neiros o inglês James Holman que, cego, parece ter tido olhos,

e não apenas sensibilidade, nas pontas dos dedos dos pés: olhos

ara acompanharem as operações de extração de bichos, prece-

idas da lavagem dos pés em bacia ou alguidar, por mãos de

escravo ou escrava. Ora, o lava-pés mais ou menos volutuoso pode

ser incluído entre os orientalismos que caraterizaram a vida pa-

triarcal no Brasil. 0 lava-pés e a catação, real ou simbólica, de

piolhos na cabeleira das mulheres ou no cabelo dos homens. Cos-

tumes de origem evidentemente oriental. 0 cafuné, parece que

não só de origem oriental como, particularmente, moura.

SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.1 Tomo

#

469



Atribuindo a origem do hábito do cafuné ou do trinco-como

requinte volutuoso e não como pura atividade higiênica-aos mou-

ros, lembremo-nos de que a catação aparece em mais de uma

história de "moura-torta" ou de "moura-encantada" nos próprios

instantes supremos do desencantamento de mulher, ou princesa

encantada, por meio de alfinete ou espinho cravado na cabeça

da encantada e daí retirado por dedo ágil e macio. E nessas bis-

tOrias têm sempre relevo as belas "cabeleiras" da mulher e seus

pentes de ouro". 0 "complexo da cabeleira" parece ter sido tão

brasileiro quanto mouro ou oriental, dada a yersistência das

4

4

nossas damas coloniais em se apresentar- , estas de igreja,



e mesmo nas profanas, da primeira metade do século XIX, de

cabelo armado e cheio de pentes: pentes às vezes de ouro, geral-

mente de marfim e de tartaruga, importados do Oriente ou de

feitio oriental como os célebres e já referidos "tapa-missas".

E o mesmo parece que se pode dizer do banho não só de asseio

como de volúpia-quente ou morno, de bacia, dentro de casa, ou

de rio: nos rios para os quais davam a frente e não o traseiro,118

casas e sobrados senhoris-que entre as seâoras brasileiras da

erâ patriarcal foi, quase sempre, a "distração" e o "prazer" a 'C

se refere Expilly com relação às mulheres do Oriente "submetiTas

ao despotismo oriental". Dando o cerimonial do cafuné das bra-

sileiras da era patriarcal e escravocrática como equivalente social

do banho das mulheres do Oriente, o cronista europeu esqueceu-

-se de que também no Brasil o banho de rio de senhoras, ser-

vidas por mucamas que as despiam e as vestiam, que lhes sol-

tavam o cabelo e que as penteavam, foi instituição significativa

do sistema patriarcal em nosso País. E como o cerimonial do

cafuné, o do banho de rio pode ter oferecido às senhoras mais

comprimidas pelo despotismo masculino, oportunidades para a

rática se não de atos, de aproximaçoes ou simulações de atos

'

ésbicos, compensadores dos normalmente heterossexuais, de prá-



tica às vezes difícil.

Tais irregularidades-os atos lésbicos-foram praticadas no Bra-

sil como nos esclarecem os papéis da Inquisição, já examinados

pelo Professor Roger Bastide em relação com sua engenhosa inter-

pretação psicanalítica do cafuné. Nesses papeis-nos relativos às

áreas pernambucana e baiana-aparecern brancas como Maria

Lucena dormindo "carnalmente" com "as negras da casa", se-

gundo se lê na Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do

Brasil. Denuncíações de Pernambuco,119 ou como Madalena Pi-

mentel, com "uma parda"; Catarina Barbosa, "com uma mestiça",

,segundo se lê na Primeira Visítação às Partes.do Brasil

Confissões da Bahia.120

#

i

#



470

Gu.BEKTo FREYRE

Mawe, nos começos do século XIX, notou o uso generalizado

de banhos quentes em Minas Gerais. Isto depois de se ter refe-

1

rido ao "hábitos sedentários das mulheres",121 por ele ~side-



rados prejudiciais à saúde das delicadas iaiás. Para tomá-las lân-

guidas é possível que concorressem também os longos banhos

uentes em gamela, 122 bacia de prata ou banheira de mármore.

ariam, também esses banhos ainda mais que os banhos de rio

ocasião a aproximações, inconscientes ou não, de atos lésbicos,

semelhantes às daquelas senhoras de casas-grandes, observadas

por Expilly em dias de festa: recostadas negligentemente nos es-

paldares das cadeiras, entregavam as cabeças a jovens escravas,

peritas no cafimé, enquanto a conversa prosseguia seu curso. 123

'~ais senhoras se entregariam ao que pudesse haver de pecaminoso

ou de libidinoso nos prazeres do cafuné como Mr Jourdain fazia

prosa: sem o saberem. Tanto que era de público que se deixa-

vam, catar ou coçar por dedos de mucama. Nos banhos mornos

ou quentes em que as iaiás mais lân, idas deixavam orientalmente

que mãos de mucamas não só as Neuspissem e vestissem, descal-

çassem e calçassem, des enteassem e penteassem, como lhes esfre-

gassem o corpo, o ensloassem, o untassem de essências de jas-

mim, o enxugassem com toalhas finas e lhes lavassem e secassem

o cabelo solto, é que, ao caráter de "festas de preguiça" (que

teriam essas abluções como outros ritos da vida das mulheres

senhoris da era patriarcal e escravocrática), talvez se juntassem,

menos inconscientemente do que aos prazeres do cafuné, apro-

Não nos esqueçamos de que, dentro do ideal de mulher "porda

1

1



e bonita~-ideal mouro-e, mais do que isso, de mulher rágil,

mole, banzeira, resguardada do sol e do vento, criada em alcova

ou camarinha e cercada apenas dos filhos e mucarrias-ideal cara-

teristicamente oriental-é que se formou a brasileira durante os

dias decisivos ou mais profundos da era patriarcal. Daí o conflito

desse tipo de mulher fofa e quase só de carne, com as modas

ocidentais-isto é, inglesas e francesas-de trajo feminino, quando,

essas modas aqui penetraram depois da abertura dos portos em

1808 como em terra conquistada. Correspondiam as modas ingle-

sas e francesas a outro tipo de mulher-o já burguês e carateris-

ticamente ocidental: mulheres enxutas e até magras al umas mes-

mo ossudas, angulosas, como as inglesas mais seás Nos fins do

século XVIII e.dos princípios do XIX, que parecem ter precisado

de artifícios como o das anquinhas e o das saias-balão para pare-

cerem femininamente redondas. Também correspondiam as novas

modas ocidentais que chegaram ao Brasil nos começos do século

#

XIX a outro gênero de vida de mulher: o de mulheres que anda-



vam a pé nas ruas, que iam às lojas e aos armazéns tazer com-

SoBRAws E Muc~os - 2.11 Tomo

471

pras, que acompanhavam os maridos ao teatro, aos concertos,



aos jantares, às corridas de cavalo, aos jogos da

vam a cavalo quase à maneira dos homens.

Quando Koster voltou ao Recife-que ele conhecera em 1809-

no fim do ano de 1811, notou que muitos eram os recifenses que,

sob a influência do maior contato com europeus do Norte da

EuroSr, estavam -modernizando-se a si próprios, suas famílias e

suas abitações".124 Mas observou também que esse "espírito de

alteração"-ou de inovação: que outra coisa não era, senão ino-

vação revolucionária, o repúdio a estilos de vida orientalmente

atriarcais e a adoção de modas inglesas e francesas de tr 'o,

e transporte, de alimentação e de convivência burguesa-prxoWu-

zia conseqüências às vezes cômicas. Tal o caso de uma senhora

de "dimensões consideráveis" que apaixonou-se pelas inovações

e nelas se exagerou ou excedeu. Embora redonda de gorda-

"almost equal in circumference and heiet"-insistia em vestir-se

a

à moda inglesa: e em adornar a cabeça- abituada decerto à man-






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