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ques, perfumes, outrora restritos a pequeno número.

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0 Oriente foi desaparecendo das casas de comércio, dos anún-



cios de jornal, do interior das casas, do trajo e dos hábitos das

pessoas em conseqüência, até certo ponto, dessa democratização

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GILBERTo FpmyRE

de artigos que as fábricas do Ocidente podiam duzir em quan-

roc

tidade maior, embora com sacrifício da qualiJade ou da auten-



ticidade. E o Ocidente foi se assenhoreando do Brasil como de

uma semicolônia. Assenhoreando-se da Nropria paisagem marcada

desde dias remotoss%or formas e cores o Oriente. Pelo coqueiro,

por exemplo. E de e os fins do século XVIII e do começo do

XIX, pela mangueira, pela jaqueira, pela árvore de fruta-pão; e

também pela caneleira, pela pimenta-da-india, pelo cravo, pela

alcanforeira, o carrapato de mamona .64 Árvores e plantas do

Oriente trazidas diretamente de lá para o Brasil ou aqui intro-

duzidas depois da conquista de Caiena, onde vários desses va-

lores orientais já se achavam aclimados.

Data da própria primeira metade do século XIX, uma como

reação à influência oriental sobre a natureza, sobre os jardins,

sobre a arborização das ruas do Brasil; e um como movimento

no sentido da europeização, ou reeuropeização, de estilos de

jardim e de modas e sobremesa, com sacrifícios de valores já

aclimados ou de estilos já divulgados entre nós. Brasileiros ingle-

sados e afrancesados juntaram-se a ingleses e a franceses em expe-

riências de aclimação, em terras brasileiras, de árvores e plantas

elegantes da Europa. Daí a moda das nogueiras. De morangos

para a sobremesa.65 E desde 1799 já nos chegava da Inglaterra

a morus papyrifera; e junto com o cedro-do-líbano, sementes de

pinheiro." Macieiras e pereiras, foram aparecendo nas áreas que

se gabavam de "clima europeu".

Neste campo, orem, o Oriente resistiu vig ente às ten-

tativas no sentiTo de sua superação pelo Ocident no Brasil.

Continuaram suas árvores a rivalizar com as nativas em viço e

em fecundidade. Há áreas brasileiras em que velhas árvores na-

tivas como o pau-brasil e o proprio pau-d 1 arco e que parecem

hoje as exóticas, tal a sua raridade; enquanto as mangueiras, as

jaqueiras, as caneleiras, os coqueiros-da-íridia, as tamareiras, se

alastram triunfalmente como se a terra tivesse sido sempre sua.

0 mesmo é certo do boi da índia (bos indicus) que, introduzido

no Brasil em dias remotos, aqui se cruzou com o europeul pro-

duzindo a raça mestiça que C. A. Taunay, em obra publicada em

1839, considerava "valente e lindissima raça, de pontas tão lisas

e regulares e de aspecto nedio"; e da qual lhe diziam vários donos

01 e

cide~nt


ri tIv s

.i~a t


~,~,iva,,s

de animais que a preferiam à ordinária, pela "propriedade que

tem de aturar bem no serviço. . ."I'

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É curioso, aliás, que tendo o nativismo entre nós se exprimido



em movimento de exaltação à aguardente de cana e ao vinho de

caju e de repulsa ao vinho-do-porto, e de exaltação à mandioca

e de repulsa ao trigo , não tenha tomado vigorosamente o aspecto

de exaltação de árvores e plantas nativas como o pau-d'arco e

SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.0 Tomo

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o pau-brasil e de repulsa às exóticas. Nem às exóticas trazidas da

Ásia ou da África nem às de procedência euro~eia arece ter

havido repulsa que se manifestasse sob a form e eu to atrió-

tico ou nativista às árvores da terra. Apenas vozes isolaNas se

manifestaram uma ou outra vez sobre o assunto, isto é, no se~n-

tido de valorização de árvores e de plantas de jardim caraterIs-

tícamente brasileiras, raras vezes aproveitadas por alcaides ou ve-

readores do tempo do Império na arborização de praças, de ruas

ou de estradas. Na primeira metade do século XIX esteve, é certo,

um tanto na moda, em cidades do Império mais patrióticas, o

castanheiro-do-pará; e em Belém, Andrea plantou com manga-

beiras uma rua que logo atraiu a simpatia dos estrangeiros. Mas

foi essa também a época da nogueira e, ao mesmo tempo, da

gameleira. Sob as gameleiras passaram os escravos negros a des-

cansar dos excessos de trabalho nos cais e nas ruas das cidades:

o duro trabalho de carregar Sara os senhores brancos fardos de

al odão, sacos de açúcar e e café, pianos ingleses de cauda,

Jás e camas de jacarandá, barris de excremento. Árvore por

so

muitos deles, africanos, considerada sagrada foi, entretanto, e tal-



vez um pouco devido a esse fato, despertando a repugnância dos

brancos mais apegados a Europa. Era talvez gameleira a árvore

ue se tornou célebre, em Salvador, como "árvore de suicídio"

aqueles negros ou escravos ue não sabiam vencer o banzo-a

saudade da África-ou a humilhação do trabalho servil. 0 Barão

Forth-Rouen, visitando a Bahia em 1847, soube que a árvore

sinistra fora derrubada; mas depois de ter sido testemunha de

grande número de atos de desespero de negros ou escravos.68

A segunda metade do século XIX marca em nossa vida, entre

outras tendências dignas de estudo no sentido de procurarmos

parecer o mais possível, nas cidades, europeus, o desprezo por

árvores, plantas e frutas asiáticas e africanas aqui já aclimadas,

das quais muitos brasileiros mais requintados foram se envergo-

nhando. Envergonhando-se da jaca, da manga, da fruta- o , do

dendê, do próprio coco-da-índia, saboreados às escondi as, ou

na intimidade do banho de rio ou de bica-como o caju, o cajá

e a mangaba-da-terra-e não à mesa ou nas confeitarias. Daí ter

sido vão o esforço daqueles médicos alongados em patriotas que

pretenderam fundar no Rio de janeiro "hum jardim pharmaceu-

tico [ .... 1 especialmente reservado à cultura das plantas medi-

cinaes indigenas que compõem a materia medica brazileira". Pelo

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que um médico da época-o Dr. J. F. Sigaud-escreveu: "ahi está



o vento do Norte que sopra sobre as nossas plagas: o gelo, esse

agente tão energico, não ,,,irá mudar porventura de repente a

ordem dos remedios acreditados e gabados como infallíveis ?"69

E profético, diante do declínic, de prestígio das velhas compo-

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GILBERTO FREYRE

sições médicas com plantas ou ervas do Oriente ou dos trópicos,

vencidos pelas da Europa fria e ocidental, perguntava: "Quem

sabe se o grog britannico, a agoa com assucar franceza, não teem

de ser sacrificadas sem misericordia ao gelo dos Estados Unidos

d'America? Que revolução produz a agoa sobre o globo, sobre

os homens, condensada ou liquida, quente ou fria, em massas

monstruosas ou em deliciosos sorvetes !"70

Ao mesmo tempo que foram sendo abandonados os antigos

hortos ou jardins del-Rei onde, dentre as árvores e plantas acli-

madas, destacavam-se as árvores e plantas do Oriente, começaram

a aparecer no meado do século XIX, jardins, como o da Soledade,

no Recife, com sua grande variedade de flores, rosas, dálias, árvo-

res de fruto, "vindas de Portugal, França e Hamburgo" e que se

vendiam não só para a cidade como para "o centro da provin . cia

e as mais do Sul e Norte"` .7 1 Era o vento do Norte a nos trazer

suas sementes. Era o começo de ocidentalização sistemática da

própria paisagem do interior mais agrestemente patriarcal do Bra-

sil onde rosas e dálias, ao lado de macieiras, foram chegando com

o prestígio de sua novidade; e tornando desprezíveis flores, plan-

tas e árvores dos trópicos, nativas ou importadas do Oriente. Não

tardaram os brancos de olfato ou de paladar mais contagiados

pela cultura ocidental em descobrir em alguns dos jasmins da

terra cheiros parecidos com o do suor fétido das negras de tra-

balho; e no azeite-de-dendê, gosto bárbaro e grosseiro que só

indivíduos bárbaros e grosseiros poderiam tolerar.

Infiltrações mais sutis que as de paladar, de olfato, de gesto,

de trajo, de formas de arquitetura, de moral e mesmo de estética,

do Brasil pelo Oriente teriam substituição mais lenta por equi-

valentes ou contrários europeus. Ou substituição, durante longos

anos, mais aparente do que real.

Oriental não fora só, no Brasil-Colôn dos primeiros tempos

do Império, o costume de homens e ~~ res se sentarem de

ulh

pernas cruzadas sobre tapetes, esteiras ou ri chão-costume se-



a

guido pelas mulheres até nas festas de i ~i ~ . Fora, também, o

de bater a pessoa palmas à porta das casas, para se anunciar ~72

costume ainda hoje muito brasileiro. Fora o gosto pelo chapéu-

-de-sol, não só para resguardar do sol o homem importante como

para marcar-lhe a condição socialmente superior de pessoa fina.

Fora o hábito das unhas crescidas, outra ostentação de impor-

tância social ou de condição senhoril nos homens e nas mulheres

fidalgas ou parafidalgas. Fora o costume das sinhazinhas serem

dadas em casamento ainda meninas a homens às vezes mais ve-

lhos que seus proprios pais. 0 hábito de não aparecerem as se-

nhoras a estranhos. 0 de se revestirem de mantilhas ou de xales.

0 de armarem as senhoras o cabelo em penteados altos-de pre-

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SOBRADOS E MucAmBos - 2.0 Tomo



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ferència ao uso europeu de chapéu-e o de adornarem as muica-

mas a cabeça com turbantes. 0 gosto pelas cores quentes, pelos

rfumes fortes, pelas comidas avivadas por temperos também

rortes.

Fora também oriental o rito de se reverenciarem, em soleni-



dades oficiais, com zumbaias caraterísticas do extremo respeito

dos governados pelos governantes, quando não as pessoas, os

retratos dos monarcas ou dos príncipes (prática que a Protestantes

mais severos nareceu. tão repugnante quanto a do beija-mão nos

rácios reais~. Oriental o costume de se ajoelharem todos na rua

passagem da Rainha ou de Valquer dos Príncipes da Família

Real, desde que a ilustre família se transferiu de Lisboa para

o Rio de janeiro; ou o da gente servil curvar-se diante da senhoril

em gestos que se tomaram conhecidos entre nós por aquele nome

indiano: zumbaias. Zumbaias também trocadas entre iguais na

classe, na raça e na cultura regional.

Ne

"Bien des Portugaís sont ' res par cet usage escreveu, refe



rindo-se ao hábito de se ajoéSarem as pessoas à passagem da

Rainha ou dos Príncipes, o francês Arago~73 para quem só gente

de raça inferior ou de classe servil, como a negra ou a africana,

era az de se pôr humildemente de joelhos diante de principes.

A ve7Xàde é que no Oriente quase inteiro-inclusive no mais civi-

lizado-continuavam os príncipes, no século XIX, a despeito da

Revolução Francesa e da "Época das Luzes", a ser pessoas quase

divinas para seus súditos, que diante deles se prostravam como

os Católicos do Ocidente diante não so do Santíssimo Sacramento

como do Santo Padre; e desses costumes de tal modo se impreg-

nara o português que só aos poucos a "grande Revolução" ou a

"Época das Luzes" o afetaria nos seus modos semi-orientais de

reverenciar príncipes, pais e avós. "Não há país em que os filhos

testemunhem maior respeito aos pais', observou o mesmo Arago

no Brasil. "Depois da refeição, sempre lhes beijam as mãos e

nunca se sentam em sua presença, a menos que autorizados por

um gesto ou olhar ~"74 É claro que Arago referia-se aos países

ocidentais do seu conhecimento; pois no Oriente encontraria ainda

maiores demonstrações de respeito dos filhos aos pais-e não

apenas dos súditos aos monarcas-do que as observadas no Brasil

do tempo de Dom João.

Também o escandalizara no nosso País outro orientalismo: o

fato de haver castrati, ou eunucos, que cantavam nas igrejas:

`I`Tous sont chanteurs de la chapelle royale, et reçoivent de forts

appointements, On les entend dans tolates les églises et jamais au

théâtre."75 De estranho havia o fato de serem esses castrati, eu-

ropeus-italianos-e não, como seria de esperar, importados do

Oriente já cristão: de Coa, por exemplo. Ou recrutados dentre os

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460 GILBERTO FREYRE SOBRADOS E MucAmBos - 2.' Tomo 461



africanos já convertidos à fé Católica, aos quais era costume os

senhores mandarem ensinar a cantar e a tocar nas festas de igreja.

Num país, entretanto, da organização patriarcal e escravocrática

do Brasil, não estava de modo algum na conveniência econômica

dos senhores de escravos que se castrassem negros ou mulecões só

para adoçar-lhes melifluamente a voz de homens em voz de eunu-

cos, bons apenas para entoar ladainhas e cantos sagrados; e, im-

pedindo-se, assim, homens vigorosos de procriarem e de se mul-

tiplicarem, como, normalmente, os machos, e, sobretudo os ma-

chos ou garanhões das senzalas, noutros negros, isto é, noutros

escravos.

Não nos es ueçamos dos ciganos-outra mancha colorida de

remoto orientaErno, na paisagem do Brasil. Ao nosso sistema pa-

triarcal não se adaptaram esses nômades senão como marginais.

como pequenos e às vezes sádicos vendedores de escravos nas

cidades e como negociantes ou trocadores de cavalos, e conser-

tadores de tachos, caldeiras e máquinas de engenho, no interior.

Donde, talvez, o nome de gringos por que foram se tornando co-

nhecidos em algumas áreas ~76 como, depois, os ingleses e outros

estrangeiros de aparência rebarbativa, empenhados em atividades

mercantis e, ao mesmo tempo, mecânicas.

Kidder encontrou ainda na Bahia o subúrbio denominado Mou-

raría por ter sido zona reservada a ciganos 7 1 Desde 1718 que

eI-Rei de Portugal banira para o Brasil várias famílias de ciganos,

proibindo-lhes apenas o uso de sua língua, a fim de que esta

desaparecesse e com ela o viver à parte e às vezes parasitário de

tais gringos. Trinta anos depois verificava-se que não era menor

o dano que eles causavam ao Brasil do que o causado a Portugal.

Onde mais daninhos se revelaram no Brasil patriarcal, foi no

roubo de cavalos e bestas aos mineiros, a despeito de todas as

precauções tomadas contra tão astutos ladrões; e é possível que

fossem autores de roubos misteriosos de meninos de cor, para

serem vendidos como escravos.711 Também houve entre eles assas-

sinos célebres como, no Rio de janeiro, Joaquim Alves Saião (o

"Bujo") e Antônio da Costa que se serviam, para seus crimes,

de "armas prateadaS".79 Em compensação, teria sangue de cigano

o poeta Castro Alves80 que numa suas poesias cantou a beleza

a nfo


e 5

o dá


da mulher oriental sob a form~ _igana, mas de judia, num

disfarce, talvez consciente, de sua a~miração ou ternura pela

figura materna. E dos ciganos-váríosi~05 quais, passada a fase

e

e



de marginalidade socialmente patológ a, dissolveram-se no con-

junto brasileiro-em certas áreas, como a cearense, é que parece

haver a sociedade patriarcal do Brasil absorvido-naquela área e

na baiana donde se comunicou a outros trechos do País, sob for-

#

mas mais pálidas-o rito (Ia ramisa nupeial, isto é, o de se fazer



da camisa vestida pela noiva na noite de casamento e manchada

de sangue, troféu de virgindade. Debret, curioso de informar-se

a respeito dos ciganos do Brasil, soube do costume ainda domi-

nante entre eles nos princípios do século XIX, da camisa bordada,

de núpcias, ser, na manhã seguinte ao casamento, apresentada

às pessoas mais respeitáveis da família como "trophée de Vhy-

men".81 Ainda hoje, em trechos do Brasil cultural ou socialmente

mais presos ao passado patriarcal-pastoril, notam-se práticas se-

melhantes à que Debret fixou como caraterística do patriarca-

lismo cigano em nosso País. Era natural que os dois patriarca-

lismos se interpenetrassem. nesse e noutros pontos como no do

culto às imagens de santos com laços de fitas e moedas, que

Debret registrou como pitoresco ciganismo no Brasil.82No Brasil

que ele conheceu nos primeiros anos do século XIX seria ciga-

nismo. No Brasil de hoje, pode ser considerado bom e autêntico

brasileirismo.

judiaría é orientalismo que parece não ter havido, rigorosa-

mente, nem em Salvador dia Bahia nem noutra qualquer cidade

do Bras~7rtuguês. 0 Recife holandês-como já foi recordado

o

em capí o anterior-é que teve seu arremedo de judiaria: sua



Rua dos judeus, suas sinagogas, seus rabinos ilustres. Os judeus,

entre nós, foram quase sempre gente encoberta que só na sombra

praticava seus ritos, seguia seus costumes, comia suas comidas

e regalava-se com seu ouro, sua prata e suas pedras preciosas,

evitando, assim, os duros castigos do Santo Ofício. 0 contrário

dos ciganos que ostentavam nos cintos, no trajo, no cabelo, no

pescoço, nas orelhas, nos braços, nos dedos, nos pés, tudo que

era seu: ouro, prata, jóias, pedras preciosas. Nem por isto devem

ou podem os judeus ser desprezados como agentes mais ou menos

secretos de orientalismo, e não apenas de internacionalismo, num

meio como o patriarcalmente brasileiro, fechado a quanto fosse

elemento ostensivamente acatólico. Certos pratos brasileiros pre-

parados de véspera, e encobertos, ou dormidos, é possível-já o

sugerimos naquele capítulo-que tenham alguma coisa de orien-

talmente judaico em sua inspiração.

Contra "judeus" e "mouros" conservou-se sempre vagamente

hostil o brasileiro da era patriarcal não só rural como urbana,

mais impregnado de reminiscências portuguesas das lutas entre

cristãos e infiéis na Península e no Oriente. Lutas recordadas

sob a forma de dramas populares: os combates entre "Xlouros"

e "Cristãos", tão estimados, outrora, nas festas brasileiras" e as

comemorações de rua dos sábados de aleluia. Contanto que a

vitória tocasse aos "Cristãos" e os "Mouros" terminassem sob

pancadaria ou castigo. E os sábados de aleluia acaba~sein-ou

principiassem-= os judas de pano ou de trapo-judas em clí-

#

462 GILBERTo FREYRE SO]IIRADOS ]& MucA3,mos - 2.0 Tomo 463



gie-atraçalhados nas ruas e queimados pelos muleques, numa

evidente expressão popular de ódio teológico do Católico ao judeu

e de ódio social do oprimido ao opressor: do muleque pobre de

rua ao homem apatacado e nem sempre de sangue -israelita, em-

bora quase sempre considerado "judeu", de sobrado comercial.

Daí, talvez, as tentativas que, desde os primeiros anos da Inde-

pendência, se fizeram, entre nós, para acabar policialmente com

uma prática considerada por alguns dirigentes mais afrancesados

ou inglesados da nação tão contrária à dignidade nacional como

os palanquins asiáticos, as gelosias orientais, os batuques dos

africanos: "o tristissimo brinquedo Publico, das figuras de judas

nos Sabbados de Aleluia". "Fica prohibido o tristissimo brinquedo

Publico, das figuras de judas nos Sabbados de Aleluia", dizia nas

suas posturas de 1831 a Câmara da Cidade do Recife, "assim

como os Fumicocos, e Papanguz, figuras de mortes, e de tirannos

nas Procissões que a Igreja celebra no tempo da Quaresma, por

tornar acto irrisorio, e indecente: os administradores contraven-

tores pagarão de multa 4$ e os representantes de taes objectos

soffrerão 24 horas de prisão".84

Os próprios bur eses de idéias de civilidade ou de urbani-

dade mais adiantaNuas deram para castigar com bengaladas ou

golpes de chapéu-de-sol muleques que insistiam em tais arcaismos.

Arcaismos ~7ue deixavam mal o Brasil aos olhos do estrangeiro

-alguns de es acatólicos ricos ou Trestigiosos e portadores, eles

t

próprios, de bengalas e chap e-sol senhoris. Ingleses ricos.



judeus ricos. Negociantes, banqueiros, industriais que não deviam

ser ofendidos por muleques de rua, merecedores, por suas afoí-

tezas contra estrangeiros ilustres, de rijas bengaladas.

No tempo de Pedro I tornaram-se comuns no Brasil as ben-

galas importadas da índia, que começaram desde o começo do

século XIX a substituir as espadas de que se faziam acompanhar

fidalgos e até burgueses afidalgados do século anterior e do XVII.

Desde 15 de janeiro de 1822 encontravam-se no Diário do Rio

de Janeiro anúncios de "bengallas de cana da India". A 3 de

março de 1825 o mesmo Diário do Rio de Janeiro publicava, entre

seus anúncios mais importantes, o de uma bengala da índia que

pedia evidentemente mão de fidalgo ou de burguês rico: "huma

rica bengalla de cana da India com castão, ponteira e fiador de

ouro". No dia seguinte pessoa mais modesta anunciava no mesmo

jornal: 'Treciza-se de huma bengalla de cana da India liza com

seu castão de prata". As bengalas da índia estavam na moda.

A 20 de agosto de 1828 o Jornal do Conimercio anunciava

"huma grande porção de Bengallas chegadas proximamente nos

Navios da India" para a loja da Praia dos Mineiros n.O 51. A 12

de janeiro de 1830 o Diário do Rio de Janeiro anunciava a venda

de "bengallas" ao lado de louças e champanha: artigos de luxo

oriental e ocidental.

#

já vinha se acentuando a competição entre a bengala da índia



e outro artigo, outrora do Oriente e que, por influência do Oriente,

tomara-se, no Brasil, insIgnia de importância ou de fidalguia:

o chapéu-de-sol. Nos anuncios de jornal do tempo de Dom Pe-

dro 1 e da Regência o chapéu-de-sol aparece menos com a sua

velha ompa oriental do que como artigo civil e utilmente bur-

uuês, Sé procedência inglesa ou de gosto inglês; mas sem perder

e todo suas antigas sugestões orientais de grandeza; nem seus

y

antigos caraterísti~os asiaticos de insígnia de gente nobre. Tanto



que seu uso era, pela tradição ou pelo costume, vedado ao escravo

e ao plebeu-assunto a que já nos referimos em capítulo anterior.

Em 1847 vendiam-se ainda, no Brasil, chapéus-de-sol furta-cores

ao lado dos pretos, de barra lavrada-"os mais modernos que teern

apparecido neste mercado", dizia o dono de uma loja de cha-

péus-de-sol do Recife em anúncio no Diário;5 e também "cha-

peos de sol de panninhos de todas as cores e ultimo gosto da

rainha da Escocia". As cores vivas de gosto oriental harmoni-

zando-se com os gostos ocidentais, através das combinações esco-

cesas de cores vivas com as escuras.

Não eram só louças da índia ou da China e os bergantins,

como o Novo Dourado, traziam nos frimeiros lecênios do século

a

a

XIX do Oriente para o Brasil: aque as "tigelas azues de Nankiin




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