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e apresentação de fatos é técnica que pertence ao domínio da

ficção" [ .... ] "sendo dificilmente possível escrever alguém

duas linhas consecutivas de narrativa histórica sem nela in-

troduzir personificaçÓes fictícias como "Inglaterra" ou

"França" ou o "Partido Conservador" ou a "Igreja", ou a

"Imprensa", ou a "Opinião Pública".

Não faz muito tempo que um crítico europeu da Sociologia

exclusivamente estatística - o sociólogo Paul Lazarsfield -

escandalizou os devotos do quantitativismo, mostrando-lhes

que, em vários trabalhos da escola estatística ou matemática

de Sociologia, o abuso de números, de gráficos, de quadros

estatísticos, antes obscurecia que esclarecia os fatos impor-

tantes: "obscured rather than revealed the important facts."

Quem assim falou em 1935 não foi um simples teórico de

qualquer das Ciências Sociais mas o autor de pesquisa socio-

lógica notável sobre os desempregados de Marienthal (Ãus-

tria), realizada com o auxílio de sete estudantes de Sociologia

e quatro médicos, a nenhum dos quais permitiu o Professor

Lazarsfield que se comportasse como simples e distante ob-

servador dos fatos a serem estudados: de todos exigiu que

se tornassem participantes da vida da comunidade que era

Marienthal. É que seu estudo, considerou-o desde o início

esse franco inimigo da Sociologia apenas matemática, me-

cânica ou objetiva, uma espécie de meio-termo entre o ro-

mance e o recenseamento: "a cross between the novel on the

one hand and the census on the other hand." 0 que nos faz

pensar na idéia que os Goncourt já faziam da "história ín-

tima" a que se dedicaram na França do século passado com

escrúpulos de miniaturistas que, ao gosto pela miniatura con-

creta, juntassem a sensibilidade aos con)untos significativos:

1111histoire intime [ .... ] ce roman vrai".

. 0 mesmo se poderá dizer do estudo não somente histórico,

mas his tórico-socio lógico ou psico-sociológico, que se em-

#

preenda de uma instituição, dentro do critério seguido por



Lazarsfield em sua pesquisa de Marienthal e definido por

ele próprio como combinação da "enumeração e mensuração

dos fatos" com "o conhecimento íntimo" e, por conseguin-

te, psicológico e até intuitivo ou poético das "experiências

e situaçÓes pessoais": "ce roman vrai". "Romance", sim;

mas "romance verdadeiro". "Romance" descoberto pelo

observador, ao mesmo tempo intérprete e participante da

história ou da atualidade estudada; e não inventado por

ele. "Romance" que, afinal, é menos romance que extensão,

. 1 .


ampliação ou alongamento, por processo v%cario e empático,

de autobiografia; extensão ou ampliação da memória ou da

experiência individual na memória ou na experiência de

uma família, de um grupo, de uma sociedade de que o

participante se tornou também observador e, por fim, in-

térprete. Num trabalho de tal natureza, observador, par-

ticipante e intérprete da realidade selecionada para estudo

ou revelação se completdm e um tende a corrigir os excessos

dos outros: o método científico objetivo seguido pelo obser-

vador serve de constante testing às aventuras de indução e

intuição, de revelação e de interpretação, do participante ou

do intérprete.

Mais de uma vez as antecipaçÓes do intérprete sociológico

ou psico-so cio lógico de algum trecho mais representativo de

experiência ou de natureza humana, têm sido acusadas, pe-

los objetivistas absolutos, de simples "palpites", "adivinha-

çÓes", "coisas de romance" ou "poesia" no sentido apenas

beletrístico ou pitoresco de romance ou poesia. Entretanto,

em 1903, um matemático da altura do inglês Bertrand Rus-

sell já afirmava de toda a indução que era mais ou menos

"methodical guess work". Se das ciências, em geral, não é

possível afastar o hipotético, a necessidade de hipóteses au-

menta nas chamadas Ciências Sociais, sempre que nelas_se

empreenda obra de compreensão e não apenas de descrição;

tentativa de interpretação e não apenas de mensuracão do

comportamento de um grupo humano. Em qualquer obra

dessas é também maior que vas de ciências chamadas exatas

a necessidade de história; pois como salienta, com a lucidez

de sempre, o Professor 31orris R. Colien, "necessita-se de

mais história para con?,preeMer-,ze a rcação de um bálgaro

a um sé,?,z~io que para co~7preeMer-sc, a reação da água a

#

LXVI



GILBERTo FREYR.E

uma corrente elétrica". Necessita-se igualmente de muita

história - de história total mas principalmente de história

orientada pela psicologia para compreender-se a reação

de um brasileiro de hoje produto de quatro séculos de

Brasil, isto é, de quatro séculos de interpenetração de inf luên-

cias de culturas diversas, dentro de condiçÓes peculiares a de-

terminado espaço geométrico, e não apenas social - a um

sueco ou a um belga, produtos de outros espaços, de outras

experiências, de outras combinaçÓes de cultura.

A Sociologia que se faça sem História e sem Psicologia,

esta sim, é uma Sociologia vã ou, pelo menos, precária; não

há "eloqüência de números" que lhe dê solidez ou autentici-

dade. Sempre lhe faltará o apoio que vem do conhecimento

das raízes que prendam à terra, à carne e ao espírito dos ho-

mens, qualquer instituição. Pois considerados no vácuo,

instituiçÓes ou grupos humanos podem ter extraordinário

interesse como curiosidades etnográficas ou aparências es-

téticas -mas não como realidades sociológicas. A realidade

sociológica é das que não prescindem de História. 0 conhe-

cimento sociológico do brasileiro não é possível sem o conhe-

cimento de suas origens e do seu desenvolvimento considera-

dos sociologicamente: Sociologia Genética. A Sociológia

Genética sendo principalmente a sociologia da família, desta

seria erro básico separãr o estudo sociológico da casa que

corresponde ao tipo dominante de família, inseparável, por

sua vez, das condiçÓes físicas e sociais de ocupação ou do-

minação do espaço por grupo humano: ecologia. E não

apenas das técnicas de produção: economia. Sempre eco, isto

é, casa.


Daí a importância atribuída por nós à casa nos estudos, a

que nos aventuramos, não só de Sociologia como de Ecologia

e História Sociais da família, ou da sociedade, de origem

principalmente lusitana, que se vem desenvolvendo no Brasil

desde os começos do século XVI; e cujo desenvolvimento se

fez patriarcalmente: em torno do pater farailias, dono de ca-

sas caraterísticas menos do seu domínio de homem, que do

domínio da família representada por ele, sobre mulheres, me-

ninos e sobre outros homens. Primeiro, a casa-grande, rural

ou semi-rural, completada pela senzala. Depois, o sobrado

urbano e semi-urbano, completado - ou contrastado - pelo

mucambo, pela palhoça, pelo rancho ou pela cabana.

Entre esses extremos têm havido vários tipos intermediá-

rios de habitação cara teris ticamente brasileiros: as peque-

nas casas térreas da roça e das cidades, com sua variedade de

aparência e de plano. Mas acreditamos haver acertado atri-

~--,u,,AO A SEc;u-,,DA ED14;X0

#

LXVII



buindo àqueles tipos extremos de habitação o máximo valor

simbólico que lhes atribuí-mos, dentro dos traços predomi-

nantes na configuração social brasileira do século XVI aos

fins do século XIX.

Foi então o Brasil uma sociedade quase sem outras for-

mas ou expressÓes de status de homem ou família senão as

extremas: senhor e escravo. 0 desenvolvimento de "classes

médias", ou intermediárias, de "pequena-burguesia",quéna" e de "média agricultura", de "pequena" e de "média

e, entre nós, sob formas notáveis ou,

indústria", é tão recent,

sequer, consideráveis, que durante todo aquele período seu

estudo pode ser quase desprezado; e quase ignorada sua pre-

sença na história social da família brasileira. Quase negli-

genciados podem ser também, do ponto de vista sociológico,

os tipos intermediários de casa na paisagem brasileira da-

queles quatro séculos , sem que essa quase-negligência impor-

te em desconhecer-se o fato de terem existido: chegaram a

repontar nos próprios anúncios de jornal dos começos do sé-

culo passado sob a forma de "casas térreas para pequenas

famílias", de "casas de porta e janela", de "sobrados peque-

nos". Sinal de que não foram de todo insignificantes.

Apenas, dentro de certas "hipóteses de trabalho% existem

fatos sociologicamente desprezíveis semelhantes às chama-

das quantidades matematicamente desprezíveis. Num estu-

do etnográfico da casa no Brasil estaríamos obrigados a re-

gistrar todos os tipos de habitação brasileira. Num estudo

çociológico ou ps%co_socio lógico, não estamos sob a mesma

obrigação. Recordando tal distinção, pretendemos estar nos

explicando de "deficiências" de que nos acusaram alguns

críticos nacionais e dois ou três estrangeiros, para os quais

fomos excessivos na simplificação dos tipos brasileiros de ha-

bítação dos séculos XVI-XIX em casa-grande e senzala, em

sobrados e mucambos. Por que não a tejupaba do sertanejo?

Por que não o rancho do gaúcho? Por que não a casa térrea do

Rio de Janeiro ou do Recife antigo? Por que não a casa de pi-

nho do Paraná? Por que não a cabana do "Cabano"? Ou o ti-

jupá do seringueiro? Ou o tajupar? Ou o tiupá? Um entusias-

ta, infelizmente já falecido, dos estudos de história da arqui-

tetura no Brasil, José Mariano Filho, chegou a lamentar,

numa de suas páginas mais vibrantes, o fato de em nenhum

dos nossos trabalhos haver encontrado referência à tejupa-

ba, como se ignorássemos - reforçava ele meio irônico - "a

existência histórica e o papel prepondera-nte que exerceu no

correr do século XVI e seguintes" a mesma tejupaba, defi-

rtida pelo ilustre publicista e esteta como "casa de muitos,

#

LXVIII CILBER-ro FREYRE INTRODUÇÃO À SEGUNDA EDIÇÃO LXIX



choça, refúgio, cabana coletiva". Mas o próprio esteta, tdo

ardente indianófilo quanto radical negrófobo em assuntos de

arquitetura, confessou que alguns dos supostos mucambos,

por nós descritos, mereceriam "o nome de Tejupabas tão tí-

picas e caraterísticas quanto aquelas de que falam Joseph de

Anchieta, Fernão Cardim, Abbeville, Ives d'Evreux...-' Si-

wal de que, tendo de designar por um nome só, a casa antité-

tica à casa nobre ou o tipo mais rústico de habitação brasi-

leira incorporada às cidades - onde constituiu o principal

contraste com os sobrados - optamos pela designação afrí-

cana: mucambo. E o fizemos, não por aversão ao amerín-

dio e à tejupaba, nem por inteira ignorância de sua existên-

cia, ou completo desconhecimento de sua "importância% ma8

pelo fato das populaçÓes proletárias ou servis das nossas

principais cidades patriarcais - Rio de Janeiro, Bahia, Ouro

Preto, Recife, São Luís - nos terem parecido predominan-

temente africanas em seus caraterísticos de cultura - in-

clusive a técnica de hiabitação - e em sua composiçdo é~ni-

ca. E as predominâncias de maior significaçdo psico-socio-

lógica, ou apenas sociológica, é que nos vem interessando as-

sinalar num estudo, como o empreendido por nós, muito me.

nos de história da arquitetura civil ou doméstica, em nosso

país, considerada do ponto de vista técnico ou estético, que

de introdução - simples introdução e, por conseguinte, an-

tes esquemático que exaustivo - à história da sociedade pa-

triarcal ou tutelar, entre nós. Sociedade vista, e porventura

reconstituída e interpretada através dos seus tipos de habi-

tação sociologicamente mais representativos ou mais signi-

ficativos - isto é, mais significativos como pontos de apoio

material ao sistema patriarcal: aos seus antagonismos, à

sua hierarquia, à sua separação dos indivíduos em sexo for-

te e sexo frágil e dos homens em senhores e escravos que, de

modo geral, foram, desde anos remotos, entre nós, "brancos"

e "negros". E não "brancos" e ameríndios - a não ser em

áreas de exceção como, por algum tempo, a paulista e, por

longo período, o extremo Norte, onde "chácaras" ficaram

"rocinhas".

As críticas levantadas contra nós por estetas ou técnicos

voltados para o estudo da história da arquitetura doméstica

ou civil no Brasil de ponto de vista inteiramente diferente do

nosso, vêm, principalmente, do fato de não tomarem eles em

consideração diferença tão importante entre eles e nós: a

de ponto de vista. A do critério de estudo. Donde nos sen-

tirmos obrigado a acentuar mais uma vez o critério sob que

procuramo3 há anos desenvolver nossa tentativa de recons-

i

I



#

tituição e de interpretação da sociedade patriarcal ou da fa-

mília tutelar brasileira: o de estudá-la dentro dos seus prin-

cipais contrastes de tipos e estilos de habitação, principais

reflexos de tipos e estilos diversos de vida e de cultura tanto

quanto expressÓes e, ao mesmo tempo, condiçÓes, da convi-

vência, da interpenetração e até da sintetização de valores.

Interpenetração e sintetização que se processaram, entre nós,

sob o sistema ou a organização patriarcal, embora com sacri-

fício da sua pureza e, afinal, de sua integridade.

Pois dentro desse sistema muita comunicação houve entre

casas-grandes e senzalas, entre sobrados e mucambos e não

apenas separação ou diferenciação. Síntese e não apenas an-

titese. Complementação afetiva e não apenas diversificação

economicamente antagônica. Nem se explicaria de outro

modo o relevo que vêm tomando, entre nós, manifestaçÓes hí-

bridas não só de cultura como de tipo físico. 0 sistema ori-

ginal, mal reponta do oceano de mestiçagem que o vem avas-

salando; e dentro do qual os valores absolutamente puros de

uma origem ou de outra - européia ou ameríndia, lusitana

ou africana, civilizada ou primitiva, senhorial ou servil -

sobrevivem apenas sob a forma de ilhotas cada dia mais in-

significantes: antes curiosidades etnográficas, étnicas ou

estéticas que realidades sociológicas. Antes pedaços f lu-

tuantes de um continente ou arquipélago desfeito do que ter-

ra firme capaz de resistir, mesmo reduzida em sua antiga

configuração, à inundação triunfante. Desta já vão emer-

gindo - isto sim - nova superfície social, nova configura-

ção de cultura, novas formas de sociedade, caraterizadas prin-

cipalmente por uma convivência entre os homens de sexos,

origens, idades e profissÓes diversas que merece o qualifica-

tivo de democrática; e pelo começo de generalização, entre

eles, de um tipo de homem e de um tipo de casa, se não úni-

co - pois permanecem diferentes certos caraterísticos re-

gionais, de raça e de classe - muito menos diferenciado, do

que outrora, em seus extremos de posição ou de situação no

espaço social.

São hoje raros, nas cidades brasileiras, os palácios que ape-

nas abriguem indivíduos opulentos ou famílias patriarcais; e

muitos os de habitaçÓes coletivas, já recordadas: hotéis, pen-

sÓes, casas de saúde, hospitais, asilos, quartéis, internatos,

edifícios de apartamentos, conjuntos de residências operá-

rias. E numerosíssimas as casas isoladas, médias - nem

grandes nem extremamente exíguas no espaço físico-social

que ocupam: meio-termo entre os antigos sobrados cheios de

salas e dequartos e os mucambos de uma só peça ou de duas,

#

LXX GILBERTo FREYRE INTROL)Ug,~O k SEGUNDA ED1gX0 LXXI



que, entretanto, continuam abundantes nas cidades e nos

campos. Abundantes e transbordantes de moradores. A

diminuição mais sensível, na paisagem brasileira, é a de so-

brados grandes, casas-grandes, solares ocupados por indi-

v.íduos ou famílias patriarcam.

Marca essa alteração nos volumes arquitetÓnicos e nos es-

paços ocupados por eles, a desintegração final do patriarcado

em nossa sociedade e a reorganização da mesma sociedade so-

bre bases novas, ainda que impregnadas de sobrevivências

patriarcais: aspecto do desenvolvimento social brasileiro que

procuraremos estudar em ensaio próximo, Ordem e Progresso,

dedicado principalmente à análise da transição do trabalho

escravo para o livre, entre nós. Transição que coincidiu com

o abandono da forma monárquica de governo pela republi-

cana, a favor da qual brasileiros de São Paulo e de outros Es-

tados e principalmente Positivistas do Maranhão, do Rio de

Janeiro e do Rio Grande do Sul

te desde 1870.

Eram esses republicanos - alguns deles senhores de casas-

grandes ou homens de sobrados - brasileiros du tipo mais

"progressista% à maioria dos quais repugnaria, entretanto,

uma República que fosse incapaz de assegurar ao país a or-

dem necessária ao desenvolvimento material das cidades e à

mecanização de indústrias e lavouras: progressos por eles

ardentemente desejados para o Brasil. Donde o lema posi-

tivista adotado pela República que se fundou em 1889 ter

correspondido bem às aspiraçÓes da maioria dos nossos repu-

blicanos, mesmo dos ideologicamente afastados da seita ou

da filosofia comtista. Não é inexpressivo o fato de, fundada

a República, vários dos seus principais líderes - alguns de-

les mestiços com sangue fidalgo ou de origem plebéia mas

já aristocratizados pela instrução acadêmica ou pelo casa-

mento com iaiã ou moça de sobrado - terem se distinguido

como chefes de polícia particularmente enérgicos na de-

fesa da Ordem, isto é, da ordem já burguesa mas ainda

patriarcal, que constituía a segurança da sociedade brasilei-

ra daqueles dias. -Um desses líderes - bela e forte figura

de fidalgo mouro - enfrentou, no Rio de Janeiro, com notá-

vel vigor, a própria figura do capoeira: expressão do ódio

do preto livre ou do mulato pobre - e também livre - ao

branco rico; da gente da terra ao europeu; da população

dos mucambos à dos sobrados. Extremara-se o capoeira na

defesa do Trono sob a forma de "guarda neqra" nos dias em

que a Monarquia - repelida por tanto senhor ilustre de ca-

áa-grande e de sobrado, de quartel-general e de palácio de

1

, começaram a agir ativamen-



#

bispo, desapontados uns com os excessos abolicionistas, ou-

tros com os exageros pamanos ou regalistas do Imperador -

foi encontrar, sob a figura da Princesa Isabel, aclamada "a

Redentora", simpatias e até dedicaçÓes entre cabras, negros

e muleques dos mucambos. Muitos desses eram negros fugi-

dos ou descendentes de negros fugidos que, frustrados em

suas relaçÓes de "filhos" com "pais" nas fazendas, estabele-

cimentos ou sobrados patriarcais, sentiam, ainda, necessida-

de de "pais" ou "mães" simbólicas ou ideais que os prote-

gessem de maneira se não efetiva, mística ou simbólica, dos

pais renegados ou maus.

Mas não nos antecipemos sobre este ponto. Aqui apenas

desejamos deixar anotado o fato de que, tendo o sobrado su-

cedido à casa-grande como expressão de domínio do sistema

patriarcal sobre a paisagem brasileira, ao declínio ou ao en-

fraquecimento desse domínio correspondeu, além do aumen-

to de casas térreas médias - habitaçÓes da gente média em

que se foi fragmentando muita família antiga e opulenta de

casa-grande e de sobrado ou à qual foi se elevando, pela pe-

rícia mecânica, muito mulato ou negro livre - a degrada-

ção de antigas residências senhoriais em habitaçÓes coletí-

vas - cortiços, prostíbulos, pensÓes, hotéis, asilos, etc. -

ou sua transformação e descaraterizaçÓo em sedes de repar-

tiçÓes públicas, legaçÓes, consulados, clubes, jornais, sana-

tórios, lojas maçônicas, teatros, armazéns, etc.

Ao declínio do. poder político do particular rico - poder

de que fora sede cada casa-grande ou sobrado mais senhorial,

mais importante ou mais nitidamente patriarcal em seus ca-

raterísticos - correspondeu o aumento de poder político pú-

blico, encarnado por órgãos judiciais, policiais ou militares ou

simplesmente burocráticos do governo monárquico e, depois,

do republicano, não raras vezes instalados em antigas resi-

dências patriarcais como em ruínas de fortalezas conquistadas

a um inimigo poderoso: desses que, mesmo depois de venci-

dos, se fazem notar pelas sobrevivências ou aparências do seu

antigo poder. Tal o caso do Palácio do Catete e o do Itama,

rati, no Rio de Janeiro, que, ainda hoje, recordam aos olhos

do brasileiro ou do estrangeiro o que foi o patriciado do Bra-

sil patriarcal: tão opulento - principalmente na área flumi-

nense - que os estadistas da República de 89 encontraram

nas residências dos antigos barÓes do Império melhores pa-

lácios onde instalarem os principais órgãos do governo repu-

blicano do que nas próprias residèncias dos antigos impera-

dores ou dos antigos príncipes. 0 sobrado patriarcal se im-

pôs, naqueles dois expressivos casos, aos triunfadores de 89,

#

GLLBERTO FREYRE T,;-nj0T)JJ1~:jj0 ~ SF.CT~'."A, Fr)J~',~O LXX111



LX11

pela solidez de sua nobreza arquitetÓnica - uma nobreza co-

mo que já aclimada à terra e ao meio e com a qual, aliás, não

tardou a contrastar a arquitetura precária e desajeitada dos

edifícios especialmente levantados pelos governos republi-

canos para sedes de repartiçÓes públicas.

0 mesmo, aliás, se poderia dizer dos edifícios levanta-

dos pelos últimos governos monárquicos: sua dignidade não

igualava à dos edifícios particulares levantados por barÓes

ainda patriarcais. Sinal de que o sistema patriarcal no Bra-

sil conseguira exprimir-se em tipos de residências particula-

res que chegaram a ultrapassar a arquitetura oficial em au-

tenticidade, em qualidades ecológicas, de adaptação ao meio e

de domínio sobre a paisagem, e, mesmo, em nobreza de cons-

trução e de estilo, numa demonstração de que aquele siste-

ma foi, no nosso país, sob mais de um aspecto, criador de

valores carateristicamente brasileiros ao mesmo tempo que

carateristicamente patriarcais. Ou "tutelares", como diria

o Professor Zimmermann, a quem repugna a expressão "pa-

triarcal", pelo que parece atribuir de absoluto ao poder do

patriarca-indivíduo, quando esse poder seria antes da famí-

lia investida de funçÓes tutelares do que do seu chefe. "Pa-

triarcal" ou tutelar, o certo é que a família, no Brasil, que




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