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daquelas becas orientais, se sentiam mais à vontade para exercer

seu ofício do que em togas de juízes ingleses ou franceses im-

pregnados de estatismo ou de secularísmo. De modo que a im-

portação de becas para magistrados correspondia a profunda afi-

nidade entre os dois sistemas sociais e de cultura: o brasileiro

e o oriental, este representado principalmente pela China ou pela

índia. E o mesmo era certo de outros artigos então importados

pelos brasileiros, do Oriente, como vestidos bordados a ouro e

a prata. E leques, também insígnias de casta como os mandados

fazer na China para comemorar aclamaçoes e coroações no Brasil

e dos quais se vêem curiosos exemplares no Museu de Petrópolis.

Importador, durante anos, de artigos orientais foi o armazém

de Joaquim Matos Costa, estabelecido à Rua dos Pescadores n.0

11, no Rio de janeiro, dos primeiros decênios do século XIX,

1ado direito hindo para cima": aí encontravam-se lonas, meias-

-lonas e brins da índia cabos do Cairo de todas as bitolas, sabão

em caixa, arroz da índia muito claro e inteiro, além de fazendas,

chá e gangas, tudo do Oriente.31 E anáncio da Gazeta de 24 de

janeiro de 1818 indica que havia então para vender à Rua de

São Pedro ri.0 25 "guardanapos da India a 1:600 a dtizia", além

de "hum vestido de cassa bordado de ouro muito rico", Os ves-

tidos de gosto oriental, bordados a ouro e a prata, os lenços de

cambraia da índia, as mantilhas "com apparelho de prata" foram

artigos do Oriente cuja presença no Brasil se prolongou mais

do que a de outros, talvez por serem as mulheres mais conser-

vadoras do que os homens; talvez por se adaptarem os vestidos

asiáticos melhor do que os europeus ao ambiente brasileiro de

cor e de luxo vistoso da gente senhoril.

Independente o Brasil de Portugal, e tomado zona de influên-

cia ou de domínio econômico da Grã-Bretanha, não se desprendeu

de repente dos velhos laços que o ligavam ao Oriente, embora

as dificuldades criadas pelos ingleses ao comercio direto do Brasil

com os por-tos orientais tradicionalmente ligados à nossa eco-

nomia e a nossa cultura. Dificuldades a que mais adiante volta-

remos a nos referir. No Rio de Janeiio, em pleno ano de 1827

recebia-se ainda IoLiça da índia vinda diretamente de Macau,

que era vendida à Riia dos Pescadores ri.' 2. Aí vendiam-se apa-

relhos de inesa, sopeiras, meias tigelas para almoço de Nanquim

e Cantão-tudo azul ou esmaltado. Também gangas azuis de Nan-

quim "da primeira quali(lacle".-"'

Em 1828 importava-se ainda da China "bom fogo artificial"

ara as festas de igreja. Vendia-o no Rio de janeiro a loja da

W1]

ua do Sabão n.' 100, especializada, ao que parece, em artigos



#

de procedência oriental, pois ali se encontravam também "chá

uxim. e "conchas de madreperola".40 E não nos esqueçamos de

que, indiana a origem do Carnaval brasileiro, como pareceu a

Thomas Ewbank,41 teríamos aí-e não apenas nos santo-antÔnios,

nos são-joões e nos são-pedros e nas festas de igreja celebradas

com muito fogo de artifício, à moda oriental-tão profunda marca

de influência oriental sobre os estilos brasileiros de recreação,

como sobre os estilos de vestuário, de transporte, -de arquitetura

doméstica, de adorno pessoal.

Em 1830 encontrava-se à Rua da Alfândega ri.0 126, na loja

de um Mr. Hunt, tinta do Japão, tanto a varejo como em bar-

ricas de trinta dúzias, conforme anúncio no Jornal do Commercio

de 31 de março. "Chapeos de sol de seda cor de rapé e verdes

muito superiores" e "chapeos de lan de camello da India" eram

vendidos no Recife em 1833 ~42 ao lado de 1enços de cambraia

da India bordados para senhora, tanto brancos como de cores",

chales de seda", "vestidos bordados de ouro e prata", 1enços

bordados de ouro e prata para senhora", "mantilhas com appa-

relho de prata" 43 "colchas de Damasco... da fabrica de Lis-

boa "~44 cuja traáição era a oriental. Dez anos depois era raro

brilhar num anúncio de jornal brasileiro vestido ou mantilha ou

lenço do Oriente, com tanto bordado a ouro e a prata. Quase

que só brilhavam "corazes azues com requefifes para braço de

senhora",45 tendo diminuído conÓideravelmente as importações de

artigos de marfim, de porcelana e de seda, ainda tão numerosos

nos primeiros dez ou quinze anos que se seguiram à Indepen-

déncia. Tanto que em 1833, nas ruas do Rio de janeiro, os olhos

do francês Douville haviam se surpreendido com o luxo oriental

dos vestidos de mulher, bordados de ouro e prata.46

A lista dos Neneros de importação em grosso publicada a 20

de dezembro e 1828 pelo Jornal do Comimercio do Rio de Ja-

.neiro nos deixa ver que continuava então o Brasil a importar

do Oriente, em largas quantidades, cravo-da-índia, cera amarela,

chá, gangas da índia, gangas de Cantão, marfim de lei, "tarta-

ruga ae Moçambique". E a essas importações em grosso juntava-se

a . e artigos especiais e delicados como bandejas, porcelanas,

caixas para senhoras, móveis, inclusive as "mezas com caixas de

Costuras da China" a que se refere um anúncio no Jornal do

Commercio de 27 de janeiro de 1831.

Não consta de anúncios de jornais por nós examinados mas

sabe-se por tradição oral que, durante os dias coloniais e durante

os primeiros anos do Império, vijeram do Oriente para o Brasil,

450 GILBE:RTo FREYRE SOBRADOS E MucAmBos ~ V Tomo 451

coçadores de marfim, ou "mãos de coçar", com que os requin-

tados davam-se. ao luxo de coçar as costas. E não nos esqueçamos

de que, por evidente influência oriental, desenvolveu-se no Brasil

dos dias coloniais o costume, que veio até à época do Segundo

Reinado, de usarem as pessoas superiores, dentro da hierarquia

patriarcal, unhas excepcionalmente compridas nos dedos princi-

pais das mãos. Por elas e pelo uso, também oriental, de anéis de

diamantes, esmeraldas, rubis-alguns importados da India-expri-

mia-se, como já salientamos noutro dos nossos ensaios sobre a

formação brasileira, a condição senhoril e aristocrática do indi-

víduo: indivíduo que não precisava de trabalhar ou de lidar

com instrumentos plebeus ou servis de trabalho. Ou que podiam

ostentar sua qualidade de ociosos, como observou Lindley. "The

singular custom"-escreveu Lindley, que conheceu a sociedade

colonial do Brasil ainda quase intacta nos seus modos e costumes

do s6culo XVIII-"of permitting the nail of the thumb, or fore-

-finger (sometimes both) to grow to a hideous length, and then

paring it to a sharp oint, is common to both sexes" .47 E acres-

centava que . Ça excrescência, além de anunciar nos seus

portadores a qualidade de pessoas de ócio, ou lazer, tinha sua

utilidade, em relação com outros costumes brasileiros: servia para

os homens dividirem as fibras da folha de tabaco e cortarem-na

na forma necessária à preparação de charutos, por eles tão esti-

mados-substitutos, no ritual da sobremesa, dos palitos de dentes,

feitos também pelos próprios senhores"-e servia para o manejo

de violas e violões, instrumentos então aristocráticos,'9 embora,

com surpreendente rapidez, substituídos ~pelos pianos ingleses,

quando não pelas primeiras caixas de musica.

0 mesmo era certo dos palanquins-tão comuns nas cidades

principais do Brasil até os começos do século XIX como os ban-

gü~s, também de origem oriental, nas áreas dos engenhos de

açucar. Em Salvador da Bahia-cidade por longos anos rica como

nenhuma, da América Portuguesa, e como nenhuma, das do

litoral, ladeirosa e cheia de voltas-encontravam-se nos tempos

coloniais, e mesmo nos primeiros anos da IndeSendência, os pa-

lanquins mais orientalmente sobrecarreg e ouro e prata.

Revestiam-nos pesadas cortinas, al umas de seda,50 decoravam-nos

figuras de cupidos, de anjos, de áragões. E os palanquins ou as

"cadeiras" da gente mais fina ou mais rica, carregavam-nas negros

vestidos caprichosamente de trajos de cor-casacos, calções, saio-

tes azuis e vermelhoS5'-embora descalços, como, aliás, os qu e

Koster encontrou no Recife. 52 Não havia calçado que resistisse

ao aspero e ao imundo das ruas; além do que a hierarquia dos

modos de vestir não admitia que escravos se apresentassem cal-

çados, como senhores. Só l5or exceção mucamas e pajens que

#

eram quase pessoas das famílias, mucamas havendo que iam às



festas com o excesso de jóias das iaiás a lhes abrilhantarem as

orelhas, os braços, os dedos e os pescoços de mulatas ou de

negras. Acentue-se de passagem que não foram apenas as pes-

soas finas que em geraf fora~i transportadas, no Brasil patriarcal,

à moda do Oriente, isto e, em paian uins. Também o foram

certas mercadorias ou fardos, conduzi= pelos "puxadores de

carretas * " que aparecem em estampas da época: quatro adiante

e dois atras empurrando, à "moda japonesa". Isto sem falarmos

nos carretos à cabeça e nos bangüês,

Foram os palanquins uma expressão de cultura oriental no

Brasil que as peculiaridades da situação física e social de Sal-

vador permitiram que resistisse mais vigorosamente lá do que

noutras cidades à carruagem, ao carro de cavalo, às novas téc-

nicas de transporte do Ocidente. já o Brasil independente, via-

jando Kidder lo Norte do Império ficou surpreendido com o

número de pafaenl uins em Salvador onde seus olhos não desco-

briram ônibus, caliolet ou sege, já numerosos no Rio de janeiro

e no proprio Recife. Só alan uins ou -cadeiras". Palanquins ou

cadeiras cujos carregalcres Je cor ofereciam-se avidamente ao

senhor branco que aparecesse: "Quer cadeira, Senhor?" Conti-

nuavam a ser palanquins guardados por cortinas: o antigo recato

oriental e ao mesmo tempo patriarcal que a generalização do

uso do vidro veio quebrar no Brasil, expondo à vista do público

o interior das salas de visita, dos palanquins e dos armazéns.

Kidder notou que na riqueza das cortinas e dos ornamentos,

assim como no trajo dos carregadores dos palanquins, exprinuarri-

-se a situação econômica, a condição social, o estilo de vida das

famílias proprietárias,53 Lindley fizera igual reparo quase meio

século antes, horrorizado com a excessiva ornamentação dos.pa-

lanquins da Bahia. Onde os palanquins eram raros, como no

extremo Sul do Brasil, os homens afidalgados ostentavam sua

condição de ricos ou de nobres na prata de que orientalmente

revestiam os cavalos. Exatamente como os portugueses e os des-

cendentes de portugueses da índia.

Aliás, a vitória do Ocidente sobre o Oriente no Brasil foi menos

fácil e mais lenta, em certos meios, ou com relação a certos

estilos de vida, do que parece a primeira vista ter sido. Não só

o palanquim resistiu em alguns meios, longamente, à carruagem

ou ao carro de cavalo, a porcelana da China à européia, a fazenda

da índia à inglesa e à francesa, o xale ou o capote do Oriente

ao véu europeu de ir à missa e ao chapéu de senhora, inglês

ou francês, de ir às festas profanas. A própria vitória do vidro

de janela de casa e de carruagem sobre o muxarabi, a gelosia, a

rótula, a cortina de seda ou a "esteira da India", foi lenta, em

#

452 GILBEEtTo FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.1 Tomo 453



grande parte do Brasil. Na verdade só em relação com os sobrados

ricos do Rio de janeiro parece ter sido fulminante.

Mesmo no Rio de janeiro, porém, o vidro nem sempre foi o

substituto da madeira em xadrez das rótulas ou gelosias. Outro

substituto oriental se apresentou para o muxarabi: a "esteira para

janelas". Em 1828 essas esteiras continuavam a ser vendidas à Rua

dos Pescadores n.o 51- "esteiras da India para janellas, grandes e

pequenas, muito superiores tanto em padrões como em qualidade",

dizia um anúncio no Jornal do Comnwrcio de 7 de janeiro daquele

ano. No mesmo jornal, outro importador de artigos do Oriente

anunciava a 4 de março de 1830: "esteiras finas da India para ja-

nellas". E no Recife, em 1840, segundo anúncio no Diário de Per-

númbuco de 15 de julho, vendiam-se ainda "esteiras para janellas"

vindas do Oriente. Eram esteiras que defendiam o interior das

casas de residência dos excessos de sol forte como outrora as ge-

losias, ao mesmo tempo que o ornamentavam ou alegravam com

suas pinturas e suas cores. No mesmo caso estavam, com relação

às casas de negócio, as empanadas ou os guarda-sóis que or

algum tempo as protegeram orientalmente do sol: até que leis

ocidentalistas as proibiram como em Salvador, postura de 17 de

junho de 1844, alegando excesso de sombra com prejuízo da cla-

ridade necessária ao interior das casas e incômodo para o trânsito

público.

A generalização do uso da faca e do garfo individuais entre a

bur uesia brasileira marca uma das vitórias mais expressivas do

OciSente sobre o Oriente nas nossas cidades, em conseqüência da

abertura dos portos e da rápida dominação dos mercados pelo

comércio britânico. Merece estudo à parte a invasão do Brasil,

desde os primeiros anos do seculo XIX, por artigos ocidentais de

cutelaria que brilham e rebrilham nos anúncios de jornal: facas

e garfos ara as mesas, facas de cozinha, facas de açougue, tesou-

ras, navIas, tesouras de jardim. E também lancetas de cirurgião

e instrumentos de cirurgia. Artigos de aço -e de ferro com cabos

de prata, "prata alemã", latão, cffifre, madeira e, em alguns casos,

por combinação do material do Ocidente com o do Oriente, de

marfim e de tartaruga.

Vasilhas para cozinha também anglicizaram o Brasil. Fogões

de ferro. Candeeiros europeus de bronze e de latão. Artigos de

couro, arreios para cavalo, selins para homens e até para senho-

ras, cujo uso não podia deixar de significar a morte dos palan-

quins, das cadeirinhas, das liteiras, o fim das viagens em que

senhoras e meninos repousavam em fofas colchas e em macias

esteiras do Oriente. Forravam essas colchas e esteiras, para como-

didade da gente senhoril, aos próprios carros de boi.

Compreende-se que os importadores de artigos ocidentais da

época procurassem vencer o apego dos brasileiros às doçuras das

colchas e das esteiras do Oriente com a réclame do extremo

conforto que as novidades da indústria ocidental ofereciam ao

#

corpo ou ao traseiro dos indivíduos mais delicados. Donde o



significativo anúncio de "Affonço St. Martin" que na sua "loja

franceza" da Rua do Cabugá, no Recife, tinha para vender em

1840-diz o Diário de Pernambuco de 22 de maio-"grande sor-

timento de selins para Sras.1 para meninos e para homens, entre

os quaes ha dos estufados elasticos, chamados regala bunda".

0 Recife, menos conservador ãue a capital da Bahia e, sob

alguns aspectos, mais aberto a in uências transoceânicas do que

o próprio Rio de janeiro, não se deixou, entretanto, encantar de

repente por todas as vozes de sereia do Ocidente. Não foi senão

aos poucos que se desprendeu de algumas de suas ligações mais

íntimas com o Oriente. Inclusive o gosto pelo móvel pintado:

imitação do laqueado.

Se foi rápida, nas suas ruas planas, a vitória das carruagens

ocidentais sobre os palanyins orientais, no interior das casas

muita coisa continuou-se a azer à moda do Oriente e com artigos

vindos da China ou da índia. Em 1840, "as caixas de charon para

chá com pés dourados", as "sestinbas de charon pa. senhoras , , os

1eques de charon e papel", importados da índia, tinham ainda

em Pernambuco quem os preferisse aos substitutos ocidentais.

Eram esses artigos vendidos na Rua do Apolo, segundo anuncio

no Diário de Pernambuco de 30 de junho.

São do mesmo ano e do mesmo jornal anúncios de grande

variedade de artigos do Oriente, vindos de Manilha e de Batávia

num navio espanhol que aparentemente destinava-se a Santander;

mas que parece ter repetido a técnica-a quase rotina-de arri-

bação, das velhas naus chamadas da índia. E se a repetiu é que

continuava a haver naquela parte do Brasil, dezoito anos depois

da Independência, mercado fácil para produtos orientais e mesmo

avidez por esses produtos, até cerca do ano de 1835 anunciados

nos jornais ao lado de produtos das fábricas européias. A impor-

tância atribuída ao fato daquela arribação nos anúncios do cor-

retor Oliveira e significativa. E a quantidade e a variedade dos

artigos expostos à venda pelo mesmo corretor indicam que, com

arribações como a do brigue espanhol Francisco José no Recife

de 1840, o domínio do Ocidente sobre os mercados brasileiros

sofreu, já depois de francamente imperial, para não dizer ímpe-

rialista, interrupções não de todo insignificantes, durante as quais

reavivaram-se na nossa cultura cores e traços orientais.

Pode-se dizer que o ano de 1840 foi colorido no Recife por

aquele acontecimento-recorrência dos de sua ainda próxima vida

i

#

454



Gn.BIERTo FREYRE

colonial: arribações de naus da índia. Transbordaram do brigue

artigos orientais que logo se espalharam entre a população, como

outrora as louças e as fazendas das naus da índia que arribavam

em porto brasileiro para "reparo" ou "aguada". E vale a pena

fixarmos o fato com alguns pormenores, dado o seu caráter de

representativo ou, pelo menos, significativo, do gosto ue con-

tinuava a haver entre brasileiros, dezoito anos depois S Inde-

pendência e de predomínio inglês e francês no comércio, pelas

coisas ou valores do Oriente.

Dessas coisas ou valores trazia o brigue arribado xales-de-ton-

uim bordados e estampados, mantas da China, lenços de seda

e muitas cores, sedas diversasTara vestidos, mosquiteiros para

t

t



armações de camas, caixinh ~ e costura para senhoras, caixas

para chá e para tabaco de tartaruga e de marfim, porta-garrafas,

ratos, bandejas, copos e bacias de lavar rosto de charão, fichas

e madrepérola, jogo de damas, leques de todas as qualidades

tanto finos como "mais inferiores", inclusive alguns de prata, pen-

tes de tartaruga e de marfim, livros com pinturas finas, panos

de Cantão superiores para camisas e lenços, figuras de barro de

chefes chineses vestidos de sedarias, mesas de charão, charuteiras,

canastras para roupa suja.51 E ainda: bolas de marfim, leques

de marfim, baús de alcanfor, fazendas de quadros, tafetás, sedas

lustrosas, damascos, mantas de manilha, panos de chamados cutão,

xales bordados, xales estampados, bocetas, rafas,, caixas de mar-

i

~im, jarros, esteiras para janelas, figuras dlige:MíraisfIh e da China,



10 de

o

sedas para mosquiteiros, cestas, pratinhos de harão, xales e



mantas de palha.55

Pode-se detalhar acerca de alguns desses artigos: que havia

tafetás "encarnados e verdes"; que dos xales de palha alguns eram

"bordados"; que havia lenços com "pinturas"; que havia leques

e bocetas de charão; jarros de porcelanas; bonecos, quadros, flau-

tas, 56 " casacas feitas de pacha proprias para o verão".51 Também

que os vendedores de artigos vindos do Oriente pelo brigue arri-

bado tinham permanentemente para vender, no seu armazém da

Rua da Conceição n.O 34, produtos da arte ou da indústria orien-

tal-sedas, marfins, charões, tafetás-"em porções à vontade dos

compradores".511

Outros anúncios de jornal da época, do meado ou já da se-

gunda metade do século XIX, indicam que no Recife, como no

Rio de janeiro, os pentes de marfim e de tartaruga do Oriente

-depois fabricados no Norte com a matéria fornecida pelas tar-

#

tarugas indígenas-e os leques de madrepérola da China conti-



nuaram a resistir às ingresias e às francesias do mesmo genero.

Francesias e ingresias que desde os primeiros anos do século en-

chem os jornais como a Idade d'Ouro do Brazil, a Gazcta e o

SOBRADOS E MucAmBos - 2.' Tomo

455

Diário do Rio de, Janeiro. Neste aparecem, ainda antes da Inde-



pendência, até anúncios de "creadas brancas"" vindas de Lisboa

ara competir com as escravas de cor, de "berços de jacarandá"

éitos "em Londres",60 de "mezas de costura" para "chá" e para

jogo, fabricadas em Hamburgo, para virem competir com as im-

portadas do Oríente.61

No meado do século, enquanto "Madama Rosa Hardy", modista

do Recife, anunciava gelo Diário de PernambuCO62 vir recebendo

da França chapé - e seda para senhoras de todas as cores,

chapeuzinhos de palha de arroz para moças e meninas, cortes

de seda para noivas, enxovais completos para batizar crianças,

luvas, mantas, meias; e a loja da Rua do Queimado n.I 33 dizia,

nas suas réclames, vir importando, também da França, espartilhos

de molas, de carretéis e de ilhoses para enfiar; e Bieber & Corri-

panhia comunicavam ao público terem acabado de receber da

Inglaterra, lonas inglesas, Bowman e Starr & Companhia e Low-

-Moor, também da Inglaterra, maquinas a vapor, tachos de ferro,

bombas de re uxo para regar hortas e baixas de capim e varan-

das e grades NCI ferro "de gosto modernissimo", para os sobrados,

ainda havia, no comércio do Recife, quem recebesse legítimos

"leques de madreperola" e "pentes de tartaruga [ .... 1 fornidos

para coco", "para piolhos" e "travessas".63 Eram já miudezas, essas

de madrepérola, de marfim, de tartaruga, de coral, a se perderem

na imensidade de artigos ocidentais de osso e de baleia que, no

dizer dos anunciantes, chegavam a confundir-se com os do Oriente

e eram muito mais baratos. "Pentes grandes de chifre que finge

tartaruga", anunciava no Diário 4 Rio de Janeiro de 3 de maio

de 1822 um mercador da Capital.

A partir do meado do século XIX aumentou a variedade de

sedas, fazendas, porcelanas, móveis, vidros, ferros, aços que os

navios europeus vinham trazendo para o Brasil, desde 1808, por

Áp eços inferiores aos dos artigos do Oriente, da Inglaterra, de

amburgo e da França. As imitações ocidentais de marfim, de

tartaruga, de seda, de casimira, de cambraia foram pondo ao al-

cance de maior número de pessoas, no Brasil, artigos que, quando

autênticos e feitos a mão no Oriente, só haviam sido aqui adqui-

ridos pelos fidalgos, pelos ricos, ou pelos remediados, consti-

tuindo insígnias ou privilégios de classe e de raça senhoris ou

de famílias ou indivíduos em ascensão social. A vitória do Oci-

dente industrial sobre o Oriente artesão teve, no Brasil, efeito

nitidamente dernocratizante. Generalizou-se o uso de pentes, le-




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