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tituído, durante a era polonial do Brasil, numa das bases mais

sólidas do sistema, agrário e gatriarcal brasileiro. Para certos cen-

tros orientais de produ,e tecidos, como Malabar, o Brasil

tornara-se quantidade nada desprezível como mercado consumi-

dor. "0 Corrimercio da Asia, principalmente 0 da Costa de Ma-

labar, sente rave prejuísO pela estagnação das iminensas e diffe-

rentes fazeriNas que dali se exportavão para o Brasil", escrevia

em 1837 Domingos Alves Branco Moniz Barreto em sua Memoria

sobre a Abolição do Coffimercio da Escravatura, publicada no R,0

de janeiro. Pois de muita fazenda comum da Ásia-fazenda des-

tinada a escravos e lepeus-e não apenas da de luxo e para os

ricos ou opulentos, SasVecia-se o Brasil, antes do inglês imperial-

mente dominar ou absorver o mercado brasileiro: pano de Cafre,

11 coberta de bozarrate-, "calaganes pintados", lenços de Diu ver-

melhos e azuis." E de Ipuita quinquilharia asiática e africana se

supria a América Portuguesa no Oriente, antes do frances- asse-

nhorear-se desse gênero de comércio: miçariga de todas as cores,

conta miúda chamada ,polona", "roncalha" ou mi

iça a corn~rida,

búzio, coral falso. TambCm pratos de estanho, facas de o de

pau, chumbo em pastas, pólvora, chumbo de munição, pistolas,

espadas, chifaroTodo esse comércio, rrem, desenvolvera-se à sombra do co-

f

mércio de escravos da fr ca para o Brasil; e continuava a de-



pender desse tráfico e da estabilidade do sistema agrário, pa-

triarcal e escravocrático brasileiro, para sua conservação. Hosti-

lizando esse sistema, hostilizava o industrialismo inglês sistema

ainda maior: o de prodilÇãO oriental, ao qual a economia brasi--

leira acomodara-se através de uma série de vantagens recíprocas,

certo como é que cheRou a ser considerável a exportação, do

Brasil para a África, d~ fumo e de aguardente.12

Não foram raros os bi,asileiros da época que chegaram a con-

siderar as afinidades do Brasil com o Oriente, procedentes de

sernelharicas dos sistemas patriarcais em vigor nas duas áreas,

base ou ~ondição de &ia reciprocidade econômica entre elas

capaz de sobreviver à rrópria extinção do tráfico de escravos.

Um desses brasileiros o referido Moniz Barreto que, naquela

memória, publícada Jrn 18.37, já advogava a importação, pelo

Btasil, de "homens livres,' da África, que ficariam "engajados na

#

SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.0 Tomo



433

lavoura" ou "aprendendo, com Mestres, artes e officios".13 r, que,

ao seu ver, "a extrema desigualdade de fortunas"-caraterística

de um país sernifeudal. em sua economia, como o Brasil-repug-

nava de tal modo ao trabalhador europeu, agrário ou artesão, que

não poderíamos contar com esse tipo de homem livre. Enquanto

o africano de origem plebéia não estranharia, mesmo livre, tais

condições. Ao contrário: quase sem esforço se acomodaria a elas.

Argumento que seria, alguns anos depois, utilizado pelos apolo-

gístas da importação de trabalhadores asiáticos para o Brasil, ais

onde "a extrema desigualdade de fortunas" não oferecia aos los

de um plebeu do Oriente o mesmo aspecto estranho e desagra-

dável que aos olhos de um mecânico europeu da Inglaterra ou da

França; ou de um camponês da Alemanha ou da Suíça ou mesmo

da Espanha ou de Portugal.

0 que importava a esses apologistas da importação de "homens

livres do Oriente para o Brasil era satisfazerem o inglês quanto

à exigência de abolição do tráfico de escravos. Não ignoravam

eles que africanos e chins "livres" seriam, no Brasil, virtualmente

escravos, dentro de um sistema patriarcal que se assemelhava ao

dos países de origem desses africanos e desses chins. A tais indi-

víduos não repugnaria, no Brasil, como a europeus do Norte

e mesmo do Sul, a condição de se 1 1 al estavam habituados

desde tempo~ remotos. Ao contrário: na a lhes faria tanta falta

fora do Oriente como um senhor patriarcal que lhes concedesse

Froteção em troca do trabalho escravo ou quase-escravo que eles

he rendessem. ;Çeste ponto, o Oriente e o Brasil poderiam ter se

compreendido e se completado vantajosamente se ao aspecto

puranente social ou econômico das relações entre as duas áreas

não se juntassem o cultural e o étnico. Como Oesde a transfe-

rência da Corte ara o Brasil-uma Corte dominada por in le-

ses-a Europa ganÇara um prestígio novo, no Brasil, como moRlo

da "civilização perfeita" a que deviam todos os brasileiros aspirar,

a essa atitude, irradiada das cidades ou dos centros de popu-

lações mais cultas, teria que corresponder, como de fato corres-

pondeu, a desvalorização de tipos de homem e de valores de

cultura extra-europeus.

Donde verdadeiros movimentos da parte de médicos e de outros

home-is de ciência brasileiros da época no sentido da condenação

de "amarelos", e não apenas de "negros", como elementos de com-

posição ou de recomposição étnica e cultural de população na-

cional. Segundo eles, a população brasileira. deveria procurar apro-

ximar-se, na sua etnia e na sua cultura, da Europa. Seria uma

loucura acrescentarmos ao número Ja considerável de africanos

introduzidos no Brasil como escravos, africanos "livres" ou asiá-

ticos. As sobrevivências da Ásia e da África entre nós pensavam

#

SOBBADOS E NIUCAMBOS - 2.0 Tomo 435



434 C11.BERTo FREY"

os antimelanistas que só faziam humilhar-nos aos olhos dos eUro-

peus. Delas deveríamos nos desembaraçar completamente em vez

de reanimá-las ou refrescá-las com a introdução, no País, de

novos asiatismos e africanismos, ao lado de novos africanos e

de asiáticos em grande número que acentuassem vergonhosas

manchas pretas, pardas e amarelás na face da população e con-

servassem na cultura e na paisagem brasileiras vermelhos escan-

dalosos e amarelos gritantes que já não correspondiam aos gostos

europeus de cor, de decoração e de composição aqui desenvolvidos.

Ao tráfico de escravos africanos não queriam os antimelanistas

que se sucedesse o de asiáticos aparentemente livres14 mas tão

servis como os africanos, e, como eles-ou pior que eles-elemento

de perturbação do desenvolvimento do Brasil em população branca

e em cultura européia. E esse desenvolvimento devia considerá-lo

sagrado todo patriota brasileiro esclarecido pela ciência. Que não

deixasse o Governo aumentar o número de orientais entre nós, sob

o pretexto de aqui introduzirem o chá ou cultivarem o bicho-

-da-seda.

Semelhante corrente de opinião veio tomando força entre nós

desde os primeiros decênios do Império. Cresceu de tal modo,

depois do meado do século XIX, que, em 1879, o Dr. Costa

Ferraz se jul aría no dever de lançar, como médico ou homem

de ciênc , fármante grito de guerra: "0 Mongolismo ameaça

o Brasil!" já eram varios os males que afligiam "a pátria" de-

vidos, "em grande parte, à falta de previdência e ao desprezo

das reiteradas reclamações da ciência. . ." E a esses se vinha jun-

tando o Mongolismo: "0 Brasil, vitimado 1 seus descobridores

lo

com o terrível cancro da escravidão, uma ras causas que mais têm



concorrido para o seu atraso, está ameaçado, depois de mais de

meio século de independência, do maior de todos os flagelos, da

inoculação do mongolismo."15

Acrescentava Costa Ferraz que a "tão grave questão para o pre-

sente e para o futuro de nossa pátria" não podia ser "indiferente,

a 1 e . iência médica que com máximo carinho formula e firma prin-

cipios que concorrem para o progresso e conservação das popu-

lações".16 Pois "quer se encare como médico, quer corno filósofo,

quer enfim como patriota, a invasão mongólica de que está amea-

çado o País, a resultante será sempre das mais fatais conseqüèn-

cias". Não seria com "vantagens pecuniárias" se compensariam

os males de ordem física e de ordem moral àa`i~projetada invasão

mongólica". Daí não poder o médico que fosse também patr`ct,

deixar de "levantar um brado da mais justa indignação ennti- -,

criminosa invasão a que se quer sujeitar o nosso Pns de

em que a degradação moral se acentua em seus hábi~'

e sobressai como um dos mais notáveis carateri.mer ~ ---

Esquecia-se, talvez, o radical inimigo da imigração de orientais

#

de que, do ponto de vista liigíênico, a mesma colonização, quando



representada por chineses, estava longe de justificar a fúria, con-

tra ela, de médicos particular-m ente sensíveis ao aspecto sanitário

do assunto. Pois a verdade é que tendo se realizado no meado

do seculo XIX, em Mucuri, uma experiência de colonização do

Brasil com elementos estrangeiros de várias procedências, os chins,

em contraste com os próprios alemães, primaram pelo asseio. A

cinqüenta braças do rancho de alemães, "recendia o cheiro mais

nauseabundo".` Deixaram-se os alvos colonos invadir pelos bichos-

-de-pé pois "o pouco asseio do corpo atraía os daninhos insetos". . .

"Debalde se dizia aos colonos que aquela doença se extirpava

com a tesourinha ou o alfinete e~que o grande preservativo era re-

correr diariamente ao rio e trazer o corpo limpo de imundices.

Mas eles queriam curar-se do mal dos bichos com ungüentos e

cataplasmas e não foi Sossível convencer a um grande número

que o hábito brasil - e lavar ao menos os pes todas as noites

e uma necessidade do homem do povo e não como pensa o prole-

tário europeu, uma fantasia ou regalo de aristocratas e sibaritas".19

Enquanto isso acontecia com os colonos alemães, os chins, "como

não têm horror à água, nunca sofreram de bichos no Mucuri.

Um só não vi ainda manquejar por tal motivo. Foram há 3 anos

para o Mucuri 89 de que só têm morrido dois". Isto escreveu

Ottoni, observador idôneo.20

Aliás, não foram somente chins ou chínas-como eram geral-

mente cbamados-que desde os dias coloniais se introduziram

no Brasil para competir com escravos africanos nos serviços de

campo e no doméstico. Também asiáticos de outras procedências.

Alguns aparecem em anúncios de jornais da primeira metade do

século XIX um tanto confundidos com negros ou escravos fu-

gidos. Tal o caso do cozinheiro de "Nação Aziatica" que em 1822

desapareceu de uma casa à rua do Sabão n.O 364 no Rio de

janeiro. Era homem de 28 a 30 anos, cor quase negra, cabelo

crespo, estatura bastante pequena, magro, andar como de mari-

nheiro, "Nação Aziatica ou Cafre". À primeira vista se conhecia

. ser extrangeiro pelas suas feições que não são de negro". Falava

mal o português, pouco e mal o inglês e também o frances "não

obstante querer passar por tal", diz um anúncio no Dídrio do Río

de Janeiro de 30 de maio de 1822.

As razões de "ordem física" para os médicos brasileiros que

fossem também patriotas se colocarem contra a "invasão asiática

do Brasil", isto é, contra a introdução de asiáticos em maior

número do que os introduzidos na era colonial como cozinheiros,

mascates, cultivadores de chá, deviam ser de ordem principal-

mente eugênica. E Pão, principalmente, de ordem higiênica ou

#

436 GILBERTo FpxyRE S(BRADOS E MUCAMBOS - 2.0 Tomo 437



cultural. A experiência de Mucuri, considerada por oDservadores

estrangeiros esplêndido laboratório para estudos de grupos de

diferentes raças e do seu comportamento em meio tropical, foi,

do ponto de vista higiênico, rasgadamente favorável ao colono

asiático no Brasil.

0 artigo de Costa Ferraz deve sertalvez considerado o pri-

meiro grande brado, entre nós, contra a "invasão asiática", isto é,

contra a introdução, no País, de trabalhadores asiáticos em grande

número, assunto que se tornaria mais agudo no decênio seguinte;

e ao qual voltaremos em ensaio próximo, a respeito da transição

do trabalho escravo para o livre. Aqui apenas recordaremos que

durante a primeira metade do século XIX vários grupos de orien-

tais foram introduzidos no Brasil ~21 concorrendo com sua presença

para acentuar influências do Oriente aq i isiveis ou apenas sen-

u v, ,

síveis desde o primeiro seculo de colonização portuguesa, quando



numerosos mascates parecem ter chegado aqui do Oriente.

Em seu Vocabulário Perhambucano, Pereira da Costa recorda,

a propósito de ser o vocábulo "mascate" de origem asiática, que

já nos primeiros anos do século XVII concorriam à América Por-

tuguesa-fato re istrado pelo autor dos Diálogos das, Grandezas

do Brasil-de tolas as partes, principalmente das Indias, "diversas

condições de gentes a comerciar com os naturais da terra, acom-

panhando suas fazendas que vinham daquelas remotas procedên-

cias conduzidas pelas naus do comércio". Tais mascates devem

ter sido portadores, em dias remotos, de numerosos orientalismos,

dissolvidos hoje na cultura brasileira; e aos quais se vêm acres-

centando outros, por intermédio não só de simples mascates como

de ingleses ou de franceses de prol: pijama, quimono, bangalô.

De origem oriental é a palavra caqui (kaki) tanto para de-

signar o brim de tecido forte (usado há anos no fardamento mi-

litar do Brasil) como o fruto do caquizeiro, também há anos

aclimado no nosso País, onde veio fazer companhia à manga, ao

jambo, à fruta-pão. Recorda-o o mesmo Pereira da Costa, no seu

referido Vocabulário Pernambucano, ao registrar a palavra "ca-

qui". Trazido igualmente da India foi, segundo o mesmo pes-

uisador, o caramboleiro, aclimado no Norte do Pais no Horto

el-Rei, em Olinda.

Também foi de origem oriental o kiosque ou quiosque, pequeno

pavilhão de forma otogonal que sob esse nome ou o de pagode,

tornou-se, com o alanque, caraterístico das praças públicas do

Brasil do tempo X0` Im eriO, algumas das uais, enfeitadas com

bandeírolas de papel e fanternas de cor e folhas de canela, torna-

vam, nos dias de festa, aspecto nitidamente oriental. Principal-

mente ao clarão dos fogos de artifício acompanhados do ruído

de foguetes. Quiosque ou pagode foi construção leve importada

cio Oriente e às vezes feita orientalmente de bambu e palha d

coqueiro, que se tornou comum

#

-rito nitorescamente festivo.



nas cidades do Brasil como ele-

Em 1848, José dos Santos Torres era proprietário, em Pernam

buco, de "bem conhecido hotel ambulante Oh! que belo retiro!",

isto é, "ele tspaçoso KiosU' onde se encontrava "toda a

âualidade 5 bebidas espirituosas e refrescos" e muitos e varia

os quitutes euro eus e brasileiros. 0 Ravilhão oriental serviu,

assim, __--- E ponto de encontro de valores de cultura os

mais diversos, al ao Brasil como o sorvete e a

juns novos p ra

asosa, outros ve hos ou tradicionai!

~b s. No quiosque do Torres

9champanha-cometa, montebello, chateau-margô, ale,

vendiam-se

orter, verdadeiro marasquino de zara, limonadas, gasosas e sor-

vetes de todas as fructas da estação". Também "salame, fiambre,

rosbife, perus, galinhas, peixe frito e de escabeche, mão de vaca,

empadas, pastães, tortas e pudins e todas as diversas iguarias

que constituem a boa mesa e o deleite do gourmand". Ainda

que nele se encontrasse mão de vaca, o 'lcioski" do Torres, esta-

belecido por algum tempo na Estância, era um pavilhão predo-

.nantemente aristocrático.

Na segunda metade do século, porém, o quiosque de pé de

ponte ou esquina de rua e rival de quitanda-não o pavilhão ou

pagode de centro de jardim público-seria nota plebéia da pai-

sagem brasileira. Nele se venderia, não fiambre ou champagne,

porém cachaça, vinho português barato, bacalhau, sarapatel, mun-

tizá, mão de vaca. Até que contra essa sobrevivência oriental,

não de todo má, nas cidades brasileiras, levantou-se o ociden-

talismo dos urbanistas e engenheiros do Brasil-República enver-

gonhados do quanto fosse cor ou forma da Ásia ou da África na

cultura-, na vida e na paisagem desta parte da América. Mas

isto é assunto para outro ensaio.

Aqui lembraremos ainda, a propósito de quiosques como o do

Torres, com a sua conciliação pitoresca de champagne com mão

de vaca, de gasosa com refrescQ de tamarindo, de arcaísmos

com modernismos, de exotismos com valores da terra, que tal

conciliação ocorreu noutras esferas, no Brasil da mesma época,

isto é, da primeira metade do século XIX. Apenas outro exem-

plo: o Diário de Pérnambuco de 12 de fevereiro de 1848 traz

um anúncio de representação no "Theatro Publico" do Recife,

na qual, a uma queirria de lapinhas dentro do gosto dos tradi-

cionalistas mais exigentes, com "uma linda e eterna musica de

despedida das pastoras composta pelo sr. major Patricio"-talvez

homem de cor, pois os homens livres de cor, da época, muito se

refugiaram na composição e execução de músicas do exercicio

de ocupações que pudessem comprometer-lhes a dignidade de

#

438 Gn.BERTo FiREyRE



SOBFLADOS E MUCAMBOS - 2.0 Tomo 439

homens livres-juntavam-se danças de "polka ' mashurka, polaca,

podidu inglez e minuete escossez" pelas mesmas pastoras. No

meio desses exotismos, as arrematações tradicionais. 0 pre

e o pastoril. Satanás. 0 Velho. Os Anjos. As pastorinhas. 0

do Menino Deus.

Os teatros públicos já abandonavam, na sua iluminação, a "an-

tiga rotina das materias; oleosas" pelos candeeiros de gás que

além de darem "excellente luz" eram de "um asseio a toda pro-

va 1. -como se lê no mesmo Diário de 28 de janeiro de 1848-e

ainda abrigavam sobrevivências medievais com toques ou man-

chas orientais como os presepes e os pastoris. Mocinhas vestidas

de anjos que, pela tradição européia, deviam ser antes ociden-

talmente louros que orientalmente morenos. Pastoras que podiam

ser tanto morenas como as mouras como louras à maneira das

européias do Norte. As pastoras do cordão azul deviam ser quanto

possível louras, as do cordão encarnado, morenas. E aos pastoris

e presepes, juntavam-se às vezes as lutas entre "cristãos" e "mou-

ros" nas quais também o público via dramatizar-se aos seus olhos

o conflito entre o Ocidente e o Oriente.

já na segunda metade do século, a cômicas ou atrizes louras

-como, em geral, as atrizes das companhias estrangeiras-se jun-

tariam números de "baianas", num começo de glorificação pública

da "morena brasileira" e até da própria "mulata da terra" vestida

à maneira do Oriente. As baianas facilmente se prestavam a essa

especie de glorificação pelo teatral do seu traio cotidiano, muito

cheio de cor, de brilhos e de reminiscências orientais e muçul-

manas às quais, aliás, se juntaram, como notou Wetherell na

Bahia, influências cristãs como a de se atenuarem os mesmos

brilhos durante a Semana Santa.

Durante largos anos foram conservadas vivas pelo comércio

tanto regular como irregular entre as duas áreas e ao qual já

se fez referência, influências do Oriente como o trajo das baianas.

Como o encanto pelas mulheres morenas. Como o gosto pelas

sedas, pelas jóias, pelas sandálias.

Por meio de comércio regular vinham as

ID

mercadorias orientais



para o rasil-Colônia, em navios portugueses que chegavam de

Lisboa e do Porto aos ortos brasileiros não só cheios de vinho,

farinha de trigo, bacalEau e queijo do Reino-ou da Europa-

como de artigos do Oriente, aqui trocados, junto com os da Eu-

ropa, por algodão, açúcar, aguardente, café, tabaco, madeira,

raizes medicinais. Era considerável, nesse intercâmbio, a balança

de lucro a favor de Lisboa-segundo reparou ' nos princípios do

século XIX, um observador inglês-a despeito de se conceder

então a brasileiros a graça de importarem da África, escravos e

de trazerem nos negreiros, dos mercados africanos, cera, ouro

#

em pó e outros valores, trocados por algodões grosseiros, aguar-



dente e fumo."

Toda outra atividade de comércio com o exterior proibida a

brasileiros e a estrangeiros, dada a política de segregação e de

monopólio seguida por Portugal com relação à sua colónia ame-

ricana depois que nela se descobriram diamantes e esmeraldas,

além de ouro, era natural que se desenvolvesse, entre a gente

da colônia mais afoita em seus pendores para a mercancia clan-

destina, de um lado, e de outro lado, entre os estrangeiros mais

audazes ou astutos que então navegavam por águas do Atlântico

sul, o gosto, a técnica, a aventura do contrabando, Apresentava-

-se sedutor o comércio irregular de brasileiros com o Oriente,

cujos artigos eram altamente estimados por uma população, como

a colonial, do Brasil, não só marcada pela influência do Oriente

desde os dias já remotos de sua formação portuguesa como reavi-

vada, em alguns dos seus traços ou hábitos orientais, pela cons-

tante transferência do Oriente para o Brasil de funcionários, mi-

litares e religiosos portugueses e pela também constante impor-

tação de escravos impregnados da mesma influência.

Tantas eram as proibições de monopólios, no Brasil colonial,

e delas resultava o estímulo ao contrabando, notado por Lin-

lue y. 23 E no assunto Lindley deve ser considerado antoridade,

pois conheceu de perto atividades irregulares de ingleses como

intermediários do Brasil com o Oriente, não só na época em que

essas atividades eram toleradas quase como normais pelas auto-

ridades portuguesas na América, como, principalmente, nos dias

de intolerância e de rigor. Intolerância e rigor que parecem ter

concorrido para a hostilidade dos ingleses ao comércio do Brasil

com o Oriente. Tal comércio, sob forma irregular e semiclan-

destina, parece ter sido também praticado nos fins do século XVIII

e nos princípios do XIX pelos rivais dos ingleses na técnica ou

na arte de transporte marítimo: os norte-americanos. 0 que,

1

tendo se verificado mais de uma vez, deve ~ ter concorrido para



a política britânica, do século XIX, de dominação ou absorção

imperial do mercado brasileiro, que a Grã-Bretanha invadiu com

os Irodutos de sua indústria nos próprios setores de especiali-

e

da e africana ou asiática: a fazenda fina e, a porcelana. Tam-



bem com alguns produtos do Oriente naturalmente por preços

muito mais elevados que os das fábricas inglesas e transportados

pelos navios ingleses.

Lindley informa dos navios ingleses que no século XVIII se

destinavam às índias Orientais, à China e a outras terras do

Oriente que, devido à viagem extremamente longa, viam-se quase




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