Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a



Baixar 10.37 Mb.
Página66/110
Encontro18.09.2019
Tamanho10.37 Mb.
1   ...   62   63   64   65   66   67   68   69   ...   110

tância, e não apenas alguns dos seus brilhos mais vistosos de os efêmeros dorninios de franceses, no Rio de janeiro e no Ma-

côr, à cultura que aqui se formou e à paisagem que aqui se ranhão, de holandeses, no Nordeste, e de

ingleses, na Amazônia.

compôs dentro de condições predominantemente patriarcais de E o primado iberico de cultura nunca foi, no Brasil, exclusiva-

convivência humana, em geral, e de exploração da terra pelo ho- mente euro eu mas, em grande parte, impregnado de influências

mem e dos homens de uma raça pelos de outra, em particular. mou . Çes, israelitas, maometanas. De influências do Oriente

E não só substância e cor à cultura: o Oriente concorreu para meséladas às do Ocidente. De

sobrevivências sólidas do Oriente

avivar as formas senhoris e servis dessa convivência entre nós: os não de todo dissolvidas nas

predominâncias do Ocidente sobre

modos hierárquicos de viver o homem em família e em sociedade. Portugal ou sobre a Ibéria.

Modos de viver, de trajar e de transportar-se que não podem ter Em 1809, fervoroso apologista da

ocidentalização do Brasfi re-

deixado de afetar os modos de pensar.' feria-se aos costumes, em grande parte de fundo oriental, que

Só o vigor do capitalismo industrial britanico na sua necessi- aqui se haviam desenvolvido à sua

maneira em usos carateristi-

dade às vezes sôfrega de mercados não só coloniais como semi- camente brasileiros, como a "bisonhos, e antigos costumes, que

coloniais para sua produção, de repente imensa, de artigos de apenas se podião tolerar quando esta porção da America era

vidro, ferro, carvão, lã, louça e cutelaria-produção servida por reputada huma Colonia Portugueza", por

#

serem usos que,"desde



um sistema verdadeiramente revolucionário de transporte-con- muito não se soffrem entre povos Cultos,

e de perfeita civili-

seguiria acinzentar, em tempo relativamente curto, a influência sação. . ."2 A "perfeita civilisação" sendo a ocidental, a cristã, a

oriental sobre a vida, a paisagem e a cultura brasileira. Pois o européia, era para esse estado de

perfeição humana que devia

que parece e que, ao findar o seculo XVIII e ao priacipiar o caminhar o Brasil, desembaraçando-se de sobrevivências asiáticas

XIX, em nenhuma outra área americaífia o Palanquim, a esteira, e africanas em sua cultura,~m sua vida, no gesto dos seus homens,

· quitanda, o chafariz, o fogo de vista, a telha côncava, o bangüê, na sua propria paisagem. Pois já vimos

em capítulo anterior que

· rótula ou gelosia de madeira, o xale e o turbante de mulher, houve, na primeira metade do século XIX, e, de certo modo,

· casa caiada de branco ou pintada de cor viva e em forma de através do inteiro século passado, verdadeiro afã da parte dos

pagode, as pontas de beiral de telhado arrebitadas em cornos

424

#

426



GILBERTO FREYRE

principais dirigentes do Brasil e dos próprios particulares de prol

em importarem, para o nosso País, arvores e plantas européias,

ao . co ntrário da política portuguesa da época colonial que fora,

principalmente, no sentido de enriquecer a América lusitana com

árvores, plantas e animais úteis, ou de gozo, trazidos menos

da Europa que da Ásia, da África, e das ilhas do Atlântico Sul.

De áreas de clima parente do da América tropical. Debret ainda

de observar no Brasil dos primeiros anos do Império: o brasi-

re i ro n'emprunte à 1'Europe scule ses innovations; il va lui-

niême les demaWarsà rAsie. .."3

Entre aqueles "costumes bisonhos", indignos de "uma perfeita

civilisação', era natural que o eloqüente apologista do Ocidente

que foi o Padre Gonçalves dos Sanctos incluísse, como incluiu

-referindo-se principalmente ao Rio de Janeiro-o uso das ró-

tulas ou gelosias de madeira ~lue .tanto afêa o prospecto da Ci-

dade, e a faz menos brilhante ; pois "alem de serem inconimodas,

prejudiciaes à saude publica, interceptando a livre circulação do

ar, estão mostrando a falta de civilisação dos seus moradores. . ~"

Pelo que eram os próprios moradores do Rio de janeiro que

deviam "arredar de si os testemunhos da antiga condição de con-

quista, e de colonia", representados pelas rótulas ou gelosias

orientais e concorrer, assim, para "enobrecer", isto é, ocidentalizar

ou europeizar a Corte; "e fazel-a mais notavel, e magnifica aos

olhos dos Estrangeiros, que já em grande numero começão a

concorrer a ella. . ."4

Confirma-se aqui o fato, por nós já salientado em capítulo

anterior, de que o brasileiro do litoral ou de cidade viveu, du-

rante a primeira metade do século XIX-na verdade durante o

século inteiro-sob a obsessão dos "olhos dos Estrangeiros". Preo-

cupado com esses olhos. Sob o temor desses olhos como outrora

vivera sob o terror dos olhos do jesuíta ou dos da Santa Inqui-

sição. E os "olhos dos Estrangeiros" eram os olhos da Europa.

Eram os olhos do Ocidente. Do Ocidente bur uês, industrial,

carbonifero, com cujos estilos de cultura, modos 11 vida, compo-

sições de paisagem, chocavam-se as nossas, particularmente im-

pregnadas de sobrevivências do Oriente. Penetrado ou desvirgi-

nado por Portugal, o Oriente como que se vingara do ousado

conquistador semi-ocidental avivando nele empalidecidos traços

orientais de cultura e até de sangue; e acrescentando a antigos

caraterísticos africanos e asiáticos dos portugueses, vários novos.

Desses traços muitos foram transmitidos ao Brasil desde os pri-

meiros anos de colonização; e aqui se desenvolveram a seu modo

sob o favor da política de segregação da Europa adotada pelos

portugueses com relação à sua colônia americana depois que se

SOBRADOS E MucAmBos - 2.0 Tomo

#

427


descobriram nesta parte da América esmeraldas e diamantes,

alem do ouro dos Gerais.

No próprio Portugal, os traços mientais chegaram ao século

XIX com uma vivacidade que talvez só fosse maior, ~a Europa

inteira, na Turquia Asiática ou na parte asiática da nússia. For-

mavam eles forte contraste com os traços da Europa propria-

mente ocidental, da qual, chegando ao Brasil, o Príncipe Regente

e seus orientadores tudo fizeram para aproximar o Brasil, mesmo

afastando-o de Portugal. 2 ue os orientadores do Regente e ele

próprio agiram menos em 7U1'nção de uma política castiçamente

portuguesa ou ibérica com relação ao Brasil, do que de uma polí-

tica imperialmente inglesa, ou britânica, de absorção e dominação

de povos e culturas extra-européias, para maior expansão dos -Pro-

dutos de suas indústrias. Os "olhos dos Estrangeiros", ou, antes,

dos Ingleses, é que passaram a governar o Brasil através menos

de cônsules e de caixeiros-viajantes, que daqueles portugueses e

brasileiros anglófílos do tipo do Conde de Linhares e do econo-

mista Silva Lisboa, Xara quem a salvação de Portugal ou do

i

Brasil estava em per erem, com a possível rapidez, quanto fosse



forma ou cor oriental de cultura para adquirirem as formas, as

cores e os gestos dominantes no Ocidente perfeitamente civíli-

zado. E para eles o Ocidente perfeitamente civilizado eram a

Inglaterra e a França. Principalmente a Inglaterra. Donde o sen-

tido sociológico da frase que desde os princípios do século XIX

se generalizou no Brasil: "para inglês ver".

Os "olhos dos Estrangeiros", sob os quais o Brasil devia ascen-

der à condição de Nação ou de Reino civilizado, seriam princi-

palmente os olhos dos ingleses. Eram eles que deviam substituir

o olhar duro, exigente, tutelar dos jesuítas e da Santa Inquisição

na direção "politica e morar' das atividades brasileiras. 0 yróprio

i

anglófilo a quem já se fez referência a pro ósito do signi cativo



incidente de destruição das rótulas nos árados do Rio de ja-

neiro, é como procura justificar a violência policial que então se

praticou contra os senhores dos mesmos sobrados: invocando "mui-

tos motivos de consideração moral e politica". Entre os de consi-

deração política, estariam, como Ja sugerimos noutro ensaio, os

de política econômica que várias evidências indicam terem con-

corrido para o desejo inglês de que as rótulas ou gelosias de

madeira das cidades principais do Brasil fossem substituídas, nos

sobrados-só nos sobrados-por janelas de vidraça e varandas

de ferro.

0 fato de alcançar a medida apenas os sobrados parece indicar

que o costume da rótula só era considerado "bisonho" neste tipo

nobre de edifício: os "motivos de consideração moral e politica"

contra as gelosias como que deixavam de existir quando elas

#

,4 c,


7

c, = - , 2-3 = M

o 2,2 -2 tL , = =

É -2 ~s 2

EE cv ~:~

7-

r/) C.~ E -U . = 5 g 2- ~



z CI-3

:> -r z,


(~J Z, = Z; ~_, ~

,= _: = c -a

a) 0 . -Z o r. 1 h

o ~C,, -7,-5 2i r- w

=1 C) ~. ci c, c. ~ a

C1 :, ~% ~U E W -

~ tr,-, ,.- o w o

,ç = o 'A Á2 *0 -

.- E ;;.2 o - `J

M OÇ


&

o M , r -C W

o ~ M W r- ~

r-

-2 co = "0



,~9 ,

Ç w n


o. - , , ="O r= C) ~

Ç-1 ~Z


2

200$ Pe gra-filicnao.

Ausentou-se da cata do abaixo assig,

nado na noite de 30 de janeiro p. p.-

o seu escrav( Raymundo, Dreto, criou.

lo, do sertão, representa ter 30 annos,

he de boa figura, tem pouca baOa e

Lisa-a rapada, alto, cheio do corpo e bem

faliante. tein falta de eeutes na frente,

tem uma dequena rotura n,1 lado diroito,

e usa funda, tena os dedos grandes dos

f6 um pouco tortos, foi vestido de pa-

#

eltot preto, camisa de chita franceza,



calca de brim branco de pequenos qua-

dro~ e chapéo do Chyii ; consta que na-

quella noite e no (lia seguinte (domingo

51) estivera no bairro do Peres em com-

P , anhia de outros na propriedade do Sr.

J ecintho Jose Cabi -ai : roga-se a policia e

a qualquer outra 1)essoa a sua apLeliei ção

conduzindo-o a c ia do mesmo abaixo

assignado, rua No n. 53,

No dia 13 ido corrente, fligio do sitio de An-

tonio Alvas Rarbosa em Santo Amaro, um escraya

de nome Luiz, crioulo, alto, reforrado do corpo-

cór preta, tendo por signal urna ii-ande ferida ni

canella direita, que faz com que se conheça visivel-

mente puxar pela perna quando anda: ioga-se por

tanto a todas as antoridades de fazerem capturar

[em qualquer parte que appareva e rnanda-lo entre-

gar ao abaixo- assiganado, na ina de Apollo n. 30,

10

U v# U


No di 13

Ai ar


no ie u i7,

, L ,


p t tend

anella . t

bo

d a do en eIro 1



f, ,

[o vas Il corr t to A

n Liem Sa

me 1 e 1, sa ulo , alto , re

o al u In,

e

, r r i e n



d a e - in que

o por S g

m na uandc

es de


o

a

de



ca

o

u



no

#

r pr



N

A

e



cane 11

o

le



t

d

v



L

3

a



u

r

ui7



tend

e

o



o

s

['1



p

a

o



e

u

o



or

e

1



r

r

in



o

s

'g



n

a

n



q ue faz co

te

a



a

n to


#

a a 1


in

t.

f



o

u

ra



que

ra n I qua nd c

es de

u arer a


1

g Faa


e dire'ta~el pe r

ta n n te pu 18 a lito ridad

o a todas '

e q alquer parte que app areva

r o ~baixo ass gan ado, na 1 1

011 e se ajarAo to " as des~

d d ez 1

N. reiro e 859._Alltoll.

e %o A ves

FugIo em dezembro do an1

e Ire. i qu faz o

ente puxar ela per3

t

a nt a das as a lito ridad



o to

e qua q u e arte q ue p

r o i S, a a 0,

r aba X o a ,i,11 d na r

o to

1 s 5a


onde se Lagarão tod" as despezis. Recife 15 de fe-

z

Uto Mo Á v 2,



vereiro 1859.-Antonio Alves Barbosa.

e

- Fugio em dezembro do am:



- Fugio em dezembro do anno ssado um es-

cravo de nome Cosme, crioulo, idaXa45 annos, es-

Ptura alta., côr fula e com falta de dentes na frentel;

ievoudeamisa branca e calca azul, o qual é escravo de

os6 a Cunha : roga-se 'as autoridades policiaes e

capilães de campo a captura do dito esaravo e leva-

1, à trapiche do Cunha, aue generosamente se-gra-

tiricará.

#

PERN.. - M. DE M. F. DE FARIA. - 1859.



Vende-se uma escrava propria para o serviro

do mato, com ~nuita saúde o bem possante : na eh-

ada da, rua do Sebo n. S.

A\'é.NCIOS DE JORNAIS BRASILEIROS DO MEADO E DO FIM DA ERA IMPERIAL

relativos a estilos de e,ons,ivència ainda patriarcal e já urbana epi algu-

Irias das então principais áreas do Pais (Bahia, Rio de janeiro, Pernarn-

buco, Rio Grande ólo Sul). Grupo X

SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.1 Tomo

429

revestiam o tipo médio, ainda que já muito generalizado, de casa



urbana, que era a casa térrea: meio-termo entre o sobrado e o

niucambo; entre o palácio de rico e a palhoça de pobre ou mise-

rável. Pelo ato violentamente policial que acabou com as rótulas

na cidade do Rio de janeiro, deviam elas desaparecer das "ja-

nellas dos sobrados [ .... ] no termo de oito dias", tolerando-se

pelo "espaço de seis mezes" as dos peitoris daquelas casas que

não tivessem ainda "grades de ferro", para, durante esses breves

seis meses, grocessar-se a substituição da madeira pelo ferro, e

1

1

não apenas o xadrez mourisco pelo vidro de fabrico inglês. Exce-



tuavam-se, porem, da violência, as gelosias das já numerosas

casas terreas que nada influem na belleza do rospecto. . ."5

Que não influísse o casario térreo na beleza No "prospecto" ou

do conjunto urbano, é duvidoso. 0 que parece certo, porém, é

que os moradores ou os proprietários desse casario médio fossem,

na sua maioria, indivíduos economicamente incapazes de subs-

tituir em dias ou meses as gelosias de suas residências por janelas

envidraçadas. Razão para que só fossem consideradas "disformes"

e "funebres" as gelosias dos sobrados.

0 Padre SaDctos informa terem elas caído por terra no meio

de "geral satisfação". "Geral satisfação", ao que parece, dos oci-

dentalistas que eram os reformistas ou os modernistas da época,

revoltados contra "os prejuisos, com que nos criarão os nossos

Avósi"


Para esses ocidentalistas era como se o desaparecimento de cara-

terístico tão oriental da arquitetura doméstica como a gelosia

de madeira marcasse a vitória decisiva do Ocidente sobre o

Oriente na luta entre culturas ou civilizações a que o Brasil vinha

servindo há anos de campo; e ora tomando feições nitidamente

orientais nos costumes, nos gestos-inclusive no modo de sen-

tar-se a mulher e mesmo o homem: de pernas cruzadas, "como

os turcos", segundo notaram Kidder, no Norte, e Debret, no Rio

de janeiroO-na a.rquitetura, nos meios de transporte da gente e

das coisas e na paisagem dos jardins e das estradas; ora assu-

#

rAindo aspectos ocidentais de cultura e paisagem que superavam



os orientais. 0 sentimento que animava os ocidentalistas era, po-

rém, o de superação total do Oriente pelo Ocidente na vida

brasileira de modo a tornar-se o Brasil área ocidental ou subeuro-

péia de cultura.

Quando os ocidentalistas eram também, como os industriais

ingleses e os franceses da primeira metade do século XIX, fabri-

cantes de artigos de casa, de vestuário, de gozo, de alimentação,

de transporte, de recreação, ou importadores, corno vários bra-

sileiros da mesma época, desses artigos domésticos e civis, ao

sentimento ~áva-se o interesse: o interesse na absoluta ociden-

#

430


GIIXERTo FREYnE

talização da vida brasileira para que daqui desaparecesse a tra.

dição de artigos orientais ou o gosto pelo seu uso. Donde a

necessidade, enxergada com olhos quase de ingleses e franceses,

or ocidentalistas brasileiros1 de levantarem-se as novas gerações

o seu País contra os "prejuisos dos Avós"-caturras apegados a

elosias, a esteiras e a Falanquíns do Oriente; a sedas, a porce-

E

t



fanjas, a perfum eques da China; e até ao costume dos

adultos, e não apenas dos pequenos, divertirem-se soltando fogos

de vista orientais e empinando papagaios de papel-de-seda à ma-

neira dos chineses. Costume-o de adultos empinarem papagaios,

como forma de recreação nobre ou fidalga-que viria ate quase

nossos dias, devendo notar-se que foi empinando-já moço ilustre

e até bacharel-baldes e gamelas, que Augusto Severo de Albu-

querque Maranhão teve seu interesse particularmente voltado para

o problema da navegação aérea, de que seria mártir, com a

queda do balão Pax, em Paris. Seu companheiro de recreação

oriental fora o seu primo, igualmente já adulto e grave, José

Antônio Gonsalves de Melo que, na República, seria um dos

mais severos "bispos" do Tesouro Nacional, do qual foi diretor.

Para os ocidentalistas, do que o Brasil necessitava era do que

um deles, regozijado com a violenta destruição das gelosias nos

sobrados no Rio de janeiro, em 1809, chamava expressivamente

de "desassombramento".7 Desassombramento através do vidro in-

glês nas casas e nas carruagens ainda orientalmente revestidas de

gelosias e cortinas: as casas de "grades de xadrez" que a Walsh

recordaram as dos Turcos." Desassombramento nas cidades, atra-

vés de ruas largas corno as do Ocidente que substituíssem os

becos orientalmente estreitos do Rio de janeiro, de Salvador, do

Recife, de São Luís do Maranhão, de São Paulo, de Olinda, de

todos os burgos antigos do País. Desassombramento nas igrejas,

atraves da substituição, pelas senhoras, de capas, mantos, man-

tilhas ou xales orientalmeríte espessos, por transparentes véus fran-

oeses que não escondessem os encantos de rosto e de peito das

iaiás. Desassombramento no rosto dos homens, por meio do corte,

com as tesouras e as navalhas inglesas de que se encheram as lo*as

brasileiras na segunda metade do século XIX, dos excessos das

barbas chamadas de "mouros", de "turcos", de "nazarenos"-barbas

ao mesmo tempo orientais e ortodoxamente patriarcais, que seriam

aos poucos substituídas por suíças, peras e cavaignacs burgueses

ou serniburgueses. Desassombramento através de poderosos siste-

mas ocidentais de iluminação das ruas, das praças, das casas que

substituíssem o azeite de peixe, a vela de sebo, a lanterna oriental

de papel, a chamada "cabeça de alcatrão", pelo lampião de que-

pelo


#

rosene, pelo candeeiro inglês, ou belga, também de querosene,

bico de gás. Desassombramento nos costumes, nas maneiras, nos

SOBRADOS E MucAmBos - 2.0 Tomo

431

hábitos, nos gestos, nas relações entre homem e mulher e entre



paVie filho.

eremos mais adiante que "desassombrando-se" sob a influência

de técnicas ocidentais de produção, de transporte, de urbanização,

de iluminação, de pavimentação de estradas, de habitação, de

conservação e preparação de alimentos, de recreação, de sanea-

mento de ruas e de casas, o Brasil entrou em nova fase de vida

moral e material. Mas sem que essa fase nova fosse marcada só

por vantagens para a nossa gente e para a nossa cultura ainda

em formação. Sob vários aspectos, o que havia já entre nós de

imitado, assimilado ou adotado do Oriente re resentava uma ja

_profunda- e, às vezes, saudável adaptação do Cem ao trópico,

que aquele "desassombramento" rompeu ou interrompeu quase de

reçD~te.

ois não se vence o trópico sem de algum modo ensombrá-lo à

moda dos árabes ou dos orientais. Sem ruas estreitas. Sem xales,

anos da Costa, guarda-sóis orientalmente vastos para as caminha-

as sob o sol dos dias mais quentes. Sem sombras de grandes

árvores asiáticas e africanas, como a mangueira, a Jaqueira, a game-

leira, em volta das casas, nas praças e à beira das estradas. Sem

telha côncava nos edifícios. Sem largos beirais arrebitados nas

Nontas em cornos de lua. Sem casas de telhado acachapado no estilo

os agodes da China. Sem varanda ou copiar, à moda indiana

ou X: bangalôs da índia, nas habitações rústicas. Sem cortinas:

sem rótulas ou sem gelosias nas casas ou sobrados de cidade. Sem

esteiras dentro das casas, forrando o chão. Sem colchas da índia

nas camas dos ricos. Sem refrescos de tamarindo, de limão, de

água de coco, nas horas de calor mais ardente. Sem muito azeite,

muito cravo, muita pimenta, muito açafrão avermelhando a co-

mida, avivando-a, reql'eimando-a para melhor despertar o paladar

um tanto indolente das pessoas amolecidas pelo calor. E esses

valores orientais, o Brasil assimilara-os através do português, do

mouro, do judeu, do negro. 0 Brasil fizera-os valores seus. Ao

findar o século XVIII eram valores brasileiros. Ligavam amorosa-

mente o homem e a sua casa à América tropical. Não podiam

deixar de afetar a mentalidade ou o espírito dos homens, certo

como'é que o hábito tende a fazer o monge: tanto o hábito-trajo

como o hábito-costume.

Mas não era só ecologicamente que o Brasil, oficialmente colo-

nizado por europeus, se aproximara de tal modo do Oriente e,

através de experiencias e instrumentos de cultura do Oriente, se

adaptara de tal modo ao trópico, a ponto de se haver tornado,

sob vários aspectos de sua organização e de sua paisagem, área

#

indecisa entre o Oriente e o Ocidente. Área que as vezes se diria



destacada antes do Oriente que do Ocidente. Espécie de Coa por-

#

432



GILBERTo FREyRE

tuguesa em ponto rande onde o Oriente se encontrasse com o

Ocident 1 go um tipo misto de português e de cultura

como a surpreendida nat índia lusitaria.por europeus do Norte da

Europa, espantados corj, novas combinações de cor e de forma

de homens e novas cornpinações de estilos de vida,9

Economicamente o Brasil e o Oriente haviam se aproximado

a ponto do comércio regular e irregular entre os dois ter se cons-




1   ...   62   63   64   65   66   67   68   69   ...   110


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal