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Irmandade de Nossa Senhora do Rosário na Igreja de Nossa Senhora da

Conceição das Carrancas - 30.1.1816. Doe. 25 - U 24 - Compromisso da

Irmandade de Nossa Senhora dos Humildes, ereta na sua Capela, da Vila

de Nossa Senhora da Purificação e Santo Amaro, no ano de 1817. Doe. 17

- L.0 25 - Aditamento ao Compromisso da Irmandade do Santíssimo Sacra-

mento da Freguesia de Nossa Senhora do Pilar da Vila de São João del-Rei,

Comarca do Rio das Mortes - 7.1.1817. Doe. 51 - L.0 26 - Compromisso

da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, da Freguesia do

Arraial de Camandaocaia, Bispado de São Paulo - 15.1.1818.

Doe. 1 - U' 27 - Estatutos da Confraria de Santa Cecília, ereta na

Catedral da Cidade de Mariana - 8.2.1820. Doe. 40 - W 28 - Aprovação

e Confirmação dos Estatutos da Irmandade de Nossa Senhora de Amparo

ereta na Freguesia de São Gonçalo - 19.6.1827. Doe. 18 - L.0 29 - Com-

promisso da Irmandade de São Caetano da Divina Providência, ereta no

Mosteiro de São Bento da cidade da Bahia - s. d. Doe. 52 - L.0 30 -

Compromisso da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Igreja Matriz da

Freguesia da Senhora da Ajuda de Caçapava - s. d. Doe. 72 - L.0 31 -

Compromissos das Irmandades de Nossa Senhora do Rosário, Santa Ifigènia

e São Benedito, eretas na sua comum Igreja de Nossa Senhora do Rosário

da Cidade de Mariana - s. d.

42Teodoro Sampaio, "A Engenharia e a sua Evolução no Século da Inde-

pendência da Bahia", Diário Oficial do Estado da` B hia, Edição especial

a

smo~



do Centenário, 2 de julho de 1922. Veja-se do me autor a obra póstuma,

há pouco publicada, História da Fundação da Cidade do Salvador. Leia-se

também a História Política e Administrativa da Cidade do Salvador, de Afonso

Ruy, Salvador, 1949. '

Não nos esqueçamos deste fato importante para a compreensão do que

têm sido, no Brasil, as interpenetrações de condições de raça, classe e região

das famílias ou dos indivíduos: que na India, no século XVII, havia cons-

trutores portugueses de navios, então considerados essenciais à segurança e

à expansão do Reino, que eram "pessoas de certa consideração [ .... 1 cava-

leiros da casa real,- embora fossem mestres de carpinteria". Recorda-o Sousa

Viterbo em Artes e Artistos em Portugal - Contribuição para a História das

Artes e Indústrias Portuguesas (2.a ed., Lisboa, 1920, pág. 147), que acres-

centa: "um deles, Francisco do Souto, era mestre de carpinteiros da ribeira

de Coa, e pedia que lhe fosse concedido o hábito de São Tiago ou de Avis,

COM vinte mil-réis de tença, como fora concedido a Jorge de Carvalho,

mestre dos carpinteiros de Cochim [ .... 1 EI-Rei não o atendeu mas reco-

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11 ,


I

418 Gia.BERTo FREnm SOBRADOS E MucAmBos - 2.' Tomo 419

mendou ao vizo-rei que lhe fizesse a mercê que julgasse conveniente" (pág.

147). A---outro, Valentim Temudo, ia ser concedido o hábito de São Tiago,

por ser mestre-mor das naus da Ribeira de Goa", quando se verificou que,

além de ser ele próprio mecânico, "tinlia mais duma costela de mecânico".

Mesmo assim parece que se mandaram passar as provisões necessárias para

ser lançado o hábito de fidalgo a Temudo (pág. 149).

43A observação de Lindley sobre a Bahia ainda colonial pode ser gene-

ralizada às demais áreas opulentas do Brasil agrário e patriarcal da mesma

6poca. e da primeira metade do s6culo XIX: "The rich owners of these plan-

tations have very handsome seats (with chapels adjoining) where they gene-

rally reside, except during the winter rains, when they repair with their fa-

milies to their houses in the city, and by this intercourse their manners

and habits assimilate so much with those of the citizens as to form the

same character" (Thomas Lindley, Narrative of a Voyage to Brazil, Lon-

dres, 1805, pAg. 271).

Por outro lado a história dos provedores e benfeitores de uma instituição

carateristicam ente senhoril e, ao mesmo tempo, urbana, como a Misericórdia

do Rio de janeiro, que no seu compromisso fechou-se de modo inIransi-

gente à entrada no grêmio daqueles que trabalhassem ---porsuas mãos*,

nos permite ver que foram os mesmos provedores, desde o século XVII,

homens mistos quanto às suas situações sociais e às suas regiões de resi-

dência. Altos funcionários da administração pública e, ao mesmo tempo,

senhores de engenho, como Pedro de Sousa Pereira (1649), provedor da

Fazenda e senhor de engenho em Irajá e Campos dos Coitacases (José

Vieira Fazenda, Os Provedores da Santa Casa de Misericórdia da Cidade

de São Sebastião do Rio de Janeiro, Rio de janeiro, 1912, pág. 37); ou

como alcaide-mor e senhor de engenho em Tijubucajá como Tomé Correia

de Alvarenga, provedor em 1651 (pág. 41); "ricos proprietários na cidade

e por isso senhores abastados" e senhores de engenho em Jacarepaguá como

os Teles' , o primeiro dos quais ocupou a cadeira de regedor em 1678 (pág.

61); ou como José de Sousa Barros - "grande benfeitor" da Casa falecido

em 1722 que era ao mesmo tempo "senhor de engenho em Iriri" e dono

de---muitaspropriedades na cidade"; ou como o Capitão Francisco de Araújo

Pereira, eleito provedor em 1790, que à condição de. forte negociante na

cidade juntava-se a de "dono da grande fazenda da Olaria" (pág. 181); ou

como Gomes Barroso, provedor em 1812, também "grande benfeitor" da

Casa, "negociante de muito crédito" e "senhor de engenho de Itaguaí e

Piaí" (pág. 198); ou, ainda, o provedor eleito em 1818, Joaquim Ribeiro

de Almeida, "rico proprietário" no Rio de janeiro e também "dono da

grande fazenda do Lagarto em Macaé" (pág. 207). Só já nas proximidades

do meado do século XIX é que se acentuaria o domínio, sobre a importante

instituição, dos puros negociantes de cidade, capitalistas, ou homens públicos

com residência única na Corte, depois de abolida em 1823 a classificação

dos innãos em dois foros - fidalgos, que formavam o primeiro foro - e

não fidalgos - que formavam o segundo foro. "À falta de fidalgos de

#

Sangue azul eram considerados do primeiro foro até oficiais subalternos do



_exército, da milícia e das ordenanças-, diz-nos Vieira Fazenda numa expli-

~o indireta do fato dos irmãos provedores, negociantes na capital, serem,

ao mesmo tempo, senhores de engenho e de fazenda, situações que lhes

conferiam títulos militares de capitães-mores e sargentos-mores e, por con-

seguinte, de fidalgos da melhor qualidade, que eram os militares. "No se-

gundo [foro] figuravam os industriais, os negociantes a retalho, artistas, etc."

(pág. 213), gente que dificilmente poderia aspirar a títulos militares que

o# enobrecessem, embora essa ascensão à nobreza fosse possível e aconte-

cene. Tal o caso do português Joaquim Antônio Ferreira - definidor da

Misericórdia de 1823 até a sua morte em 1859 - que começou a vida no

Rio de janeiro como empregado da casa de comércio de Comes Vale, da

qual se tomou sócio; e que, feito Capitão de Ordenanças do Regimento de

Minas Novas, foi depois agraciado por D. João VI com o hábito da Ordem

de Cristo, por D. Pedro I com a mercê de Cavaleiro de Cristo do Brasil

e por D. Pedro I1 com o foro de fidalgo da Casa Imperial, com o título

de Barão, com o de Visconde e com a Comenda da Rosa (pág. 222).

Depois de Ferreira, vários foram os casos de homens de cidade enrique-

cidos no comércio ou na indústria, que foram enobrecidos pelo Governo

Imperial e se tomaram no Rio de janeiro e noutras cidades, provedores

de Misericórdias por sua vez já democratizadas em sua composição.

44fornal do Commercio, 26 de outubro de 1827. Veja-se no Diário de

Saude ou Ephemerides das Sciencias Medicas e Naturaes do Brazíl, vol. I,

n.O 81, Rio de janeiro, 18 de abril de 1835, o pequeno mas sugestivo estudo,

do médico J. F. Sigaud, "A Moda dos Remedios e os Remedios da Moda",

onde são registradas várias transferências de remédios de umas classes e

de umas raças para outras e também de regiões: da metrópole ou do litoral

para o interior e do interior para o litoral. Longo foi o reinado da sangues-

suga vinda da Europa em época em que nas regiões tecnicamente mais

adiantadas do continente europeu já não era empregada: "[ .... 1 que de

milhões destes annelides tem sido transportados para o Brazil ha dez annos

a esta partel que recurso para os doentes, para os barbeiros, para a alfan-

dega e até para a diplomacia extrangeira", escrevia o autor do estudo, refe-

rindo-se ao caso de cerca de 30.000 sanguessugas importadas pelo encar-

regado de negócios de uma nação européia, naturalmente para comércio, terem

gido comidas pelos ratos num armazém da Alfandega. Refere-se a novo

prestígio do "calomelano agente universal da therapeutica ingleza" que

tomara "a ganhar sua influencia". Ao mesmo tempo vinham tomando "me-

recido logar na therapeutica", talvez devido ao movimento geral de nati-

~o e de caboclismo, o barbatimão, o angelim, o guaranhern e outros

produtos das nossas matas, em luta com os produtos de regiões européias

c norte-americanas: emetina, estricnina, salicina, etc. (pág. 32). Produtos

economicamente mais poderosos que os nossos. 0 tabaco indígena - na

época considerado terapêutico sob a forma de rapé que desentupia as

ventas e talvez reduzisse os efeitos de sinusites e de outras aflições - é que

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GILBERTo FF.EYRE

vinha se revelando superior ao estrangeiro. Interessantíssimo para as su-

gestões esboçadas no texto do nosso ensaio é este reparo do Dr. Sigaud:

"A elass'C inferior da sociedade gosta e gostaria sempre dos purgantes, e

entre estes os drasticos serão os mais queridos. Os proletarios e os escravos

adorarão sempre os tonicos, e o alcool será o emblema de sua predilecção.

Para a classe remediada ficão os minorativos e os anti-phlogisticos para

os ricos."

45john Mawe, Travels in the Interior of Brazil, cit., pág. 59, nota. Foi

em Santa Catarina - terra de peixe farto, ao mesmo tempo que de boas

aves, ovos e legumes - que Mawe conheceu o bagre, chamado "mulato

velho-. Era o peixe, informa o inglês, comido pelos negros na Semana

Santa e nas sextas-feiras e sábados. Espécie de bacalhau caboclo.

46Erarn ambíguos os anúncios como este, no Diário de Pernambuco de

18 de novembro de 1828: "Compra-se huma cabra de boa qualidade que

esteja prenhe ou já dando leite. . ." Ou este: "Desapareceu do sitio do

Bebedor huma cabra, bonita figura julga-se já ter parido. .." (Diário de

Pernambuco, 21 de abril de 1836). Exemplo de anúncio claro de cabra-

-mulher: "Vende-se [ .... 1 hurna cabra sem vicio nem achaque algum,

sabe cozinhar o diario de uma casa, lava, engoma e é boa custureira [sic],

tem boas maneiras, e só se vende por se não dar com outra parceira..."

(Diário de Pernambuco, 8 de novembro de 1830).

Freqüentemente se encontra, nos anúncios, a caraterização de "cabra-

-bicho", quando se trata de venda de animal, e não de mulher: 'liuma cabra

(bicho) muito mansa e com muito bom leite". (Diário de Pernambuco, 19

de julho de 1841). Ou no Diário do Rio de Janeiro de 12 de janeiro de

1930: "Vende-se [ .... 1 huma cabra bicho bastante grande parida a 3

dias com huma cria.. ."

47Sérgio Buarque de Holanda, "Redes e Redeiras de São Paulo", Pau-

listaria, São Paulo, julho-agosto, 1948. 0 pesquisador paulista contrasta aí

a rede, por natureza móvel, com a cama ou o catre, por natureza seden-

tarios (pág. 27). Destaca que havia redes "por vezes luxuosamente ador-

nadas, como a de PascoaI Leite Pais, feita de tecido carmezim com o forro

de tela verde e passamanes de prata..."

48Ms. na Seção de Mss. da Biblioteca Nacional, 1, 3, 3, 20.

49Veja-se nosso prefácio ao livro do Sr. Júlio Bello, Mem6rias de um

Senhor de Engenho, 2.1 ed., Rio de janeiro, 1948.

51113os Cabanos de Pernambuco e de Alagoas se sabe que viviam ves-

tidos "com roupa de algodão cor de folhas secas, para melhor se ocultarem,

por entre o foIbiço e tronco das árvores"- ("0 14 de Abril de 1832 em

Pernambuco", cit., pág. 62).

51"Posturas da Carnara", Diário de Pernambuco, 13 de dezembro de 1831.

52Posturas da Camara, 1844, ins., Arquivo da Prefeitura do Município

do Salvador.

53"Posturas da Camara", Diário de Pernambuco, 13 de dezembro de 1813.

S011~5 E MUCAMBOS - 2,1 Tomo

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54Posturas da Carnara, 1844, ins., Arquivo da Prefeitura do Município

do Salvador.

WTosturas da Carnara", Diário de Pernambuco, 13 de dezembro de 1831.

56john Warren, Fard; or Scenes and Adventures on the Banks of the

Anwzon, Nova Iorque, 1851, pig. 9.

570S primeiros banhos públicos de mar da gente senhoril no Brasil

não foram abertamente nas praias mas em "casas de banho" ou em barcas

de banho corno'a Fluctuante que nos começos do século XIX fundeava

"defronte do largo do Paço" no Rio de janeiro, recomendando-se pela

-?segurança, decencia [ , . . . 1 lugares separados para homens, e senhoras".

o tempo do banho devia ser de '1/2 hora pelo preço de 320 reis" (Gazeta

do Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1811).

58M9. na Seção de Mss. (Coleção Pereira da Costa) da Biblioteca do

Estado de Pernambuco.

UMs. na Seção de Mss. (Coleção Pereira da Costa) da Biblioteca do

Estado de Pernambuco.

8ODíário de Pernambuco, 11 de novembro de 1856.

SlDiário de Pernambuco, 12 de novembro de 1856.

82Diáio de Pernambuco, 12 de novembro de 1856.

MEntre outros, Auguste de Saint-Hilaire que se refere à desagradável

---vourauque" das senhoras do Brasil, provavelmente devido ao hábito de

darem ordens a escravos (Voyagos daru rIntérieur du BrésÚ, Paris, 1830,

II, pág. 284). Não só o hábito de dar ordens, terá dado à voz senhoril no

Brasil - à do homem e principalmente à da mulher - sua estridència desa-

gradável: também o hábito de repreender, admoestar, castigar com gritos

e palavras insultuosas, os escravos ou os inferiores sociais. E não devemos

nos esquecer da distância física que, -ao lado da social, tende a estimular

o hábito de falar o senhor excessivamente alto, como ainda hoje se observa

nos gaúchos de estância habituados a gritar para os peões.

84"[ .... ] muito poeta no falar" é como vem caraterizado em anúncio

de negro fugido "José, * de Naoo Cabinda, estatura regular, beiçudo, coxeia

de hunia coxa". (Diário de P~mbuco, 27 de maio de 1830); 1~ cozi-

nheiro, fala fina", é como aparece o crioulo José num anúncio da Gazeta

do Rio de Janeiro de 28 de setembro de 1816; "fala [ .... 1 fanhoza e

branda" tinha João, outro negro fugido (Diário de Pernambuco, 20 de

março de 1830); do negro Benedito, desaparecido em 1841 diz o anúncio

no Diárío de Pernambuco de 31 de agosto que tinha "falla muito baixa";

1a11a branda e humilde", era também a de jacob, escravo fugido do Enge-

nho Utinga-de-Cima (Diário de Pernambuco, 9 de dezembro de 1848);

"faUa muito descançada", era a de Francisco, Nação Janga, fugido do brigue

SertMo (Diário de Pernambuco, 9 de dezembro de 1848); Antônio, de

"Nação Angola", quando falava era "com um ar de riso" (Diário de Per-

nambuco, 25 de junho de 1846); João, de "Nação Quelimane (Meçam-

bique), alto, seco do corpo, cor muita retinta, e [ .... 1 com cicatrizes nas

nadegas" tinha, entretanto, "falla mansa" (Diário de Pernambuco, 27 de

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GILMERTO FREYRE

agosto de 1846); Maria, desaparecida da casa do seu senhor no Recife,

quando falava era 'lium pouco devagar, indicando vergonha" (Diário de

Pernambuco, 1 de outubro de 1848); Certrudes, parda clara, que fugiu

de um sobrado do Aterro da Boa Vista, tinha "fafia aportuguesada", natu-

ralmente por ter sido cria de portugueses (Diário de Pernambuco, 16 de

outubro de 1848). A predominância de fala entre escravos, ou fosse "apor-

tuguesada", ou "amatutada", era a da fala "~mansa-, "humilde", "baixa",

"fina", "vagarosa". Sabe-se, entretanto, que certos escravos juntavam à sua

voz de servos, ou servil - isto é, baixa, mansa, humilde - a imitada da

família de que eram sociologicamente membros: daí a voz fanhosa e des-

cansada de escravos dos Wandefley.

Ujohn Mawe, Travels in the Interior of Brazil, 2.a ed., Londres, 1821,

pág. 481.

W'Relatório Sobre a Nota ou Memória do Dr. Júlio Rodrigues de Moura

pelo Dr. Peçanha da Silva", Anais Brasilíenses de Medicina, Rio de janeiro,

1867, 1, Tomo XIX, pág. 45.

67"E se atendermos ao gênero de lavoura, veremos que a do café

dos cereais tem influência mais manifesta do que a da cana, porquanto

aquela é mais penosa, o gênero de trabalho é menos variado, os indivíduos

expoem-se mais à insolação e aí é verdade que o uso da garapa em fer-

mentação alcooliza e mesmo o uso da cachaça tem influência curativa

sobre tal moléstia, claro é que os plantadores de cana [escravos] são menos

expostos a contraí-Ia pelo uso que dela [cachaça] fazem". ("Relatório", cit.

págs. 41-42).

680pmião do "falecido Dr. Sfiva". Na Bahia, segundo o Dr. Lívio

Coutinho, "os soldados, sabendo da perniciosa influência da umidade para

o aparecimento desta moléstia, deitavam-se muitas vezes sobre a terra

molhada, com o firme propósito de adquiri-Ia. . ." ("Relatório", cit., pág. 43).

OgDas senzalas das fazendas, escrevia o Dr. Peçanha da Silva: "Em geral

são senzalas onde há muito pouco asseio, formadas de palhoças de sapé ou

telha-vã, pouco resguardadas do ar, de modo que durante as noites penetra

o ar frio, e muitas vezes sobrecarregado de umidade.. ." E ainda: " ... em

pequenos espaços acumulam-se grande número de indivíduos..." ("Relatório",

cit., pág. 42). Daí resultaria "supressão das funções exalantes da pele e mu-

cosas. . . " (pág. 43). Quanto à alimentação, deficiente na parte "animal",

parecia-lhe concorrer para "o freqüente aparecimento" da doença não só

"nos escravos das fazendas" como "na população pobre, privada pelas suas

tristes condi~ de fortuna de uma alimentação substancial e reconstituinte"

(pág. 43).

70joh. Bapt. von. Spix e C. F. Phil. von Martius, Travels in Brazil, trad.,

Londres, 1824.

Entre as doenças peculiares ao negro escravo e, por conseguinte, apa-

rentemente de raça e de classe mas, na verdade, provocada pela transfe-

rência brutal não só de status como de uma região a outra, não deve ser

desprezado o banzo para o qual médicos adiantados como Paula Cândido

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SOBRADOS E MucAmBos - 2.0 Tomo



4Z3

em 1835 já aconselhava tratamento mental e social: ' um trato que seja

capaz de desímaginar [o doente]", -permissão de [o doente] se divertir e

folgar a seu modo-. (Diario de Saude, cit., 13 de abril em 1835, pág. 74) ,

Vejam-se também as doenças anotadas por jobim como predominantes entre

os escravos domésticos e operários do Rio de janeiro na primeira metade

do século XIX em seu "Discurso sobre as Molestias que mais Affligern a

Classe Pobre do Rio de jançiro", Rio de janeiro, 1835.

71j. F. X. Sigaud, Du Climat et des Maladies du Brésil, Paris, 1844.

Veja-se também o estudo "Cofisiderações Medico-Topographicas sobre a

Cidade do Rio de janeiro e suas Immediações", pelo Dr. Paula Cândido,

Diario de Saude, cit., 13 de junho de 1835.

72Roger Bastide, Psicanálise do Cafuné e Estudos de Sociologia Estética

Brasileira, Curitiba, 1941.

73M. de Oliveira Lima, Impressões da América Espanhola, trabalho em

impressão, lido por nós em ms. Note-se que em 1835, em face de distúrbios

provocados por estudantes na Escola de Medicina do Rio de janeiro, a

polícia proibiu-os de "entrar no recinto da escola com bengala ou arma

de qualquer naturesa.. ." (Diario de Saude, cit., 16 de maio de 1835).

Tirava assim aos moços, em grande número brancos e de famílias distintas,

uma das insígnias de classe e de raça senhoris, ao mesmo tempo que lhes

cortava a regalia de "muleques finos" de que tanto se serviram os estu-

dantes de escolas superiores no Brasil do século XIX, não só para troçar

de velhos, do Governo e de instituições venerandas como para "escrever

pelas paredes ou fixar em qualquer

satyricas".

Note-se que em estilos de tiajo, os estudantes de cursos superiores, no

Brasil daquela época, procuraram principalmente distinguir-se dos caixeiros,

de sua mesma idade mas de classe considerada inferior à sua. Foram fre-

qüentes os conflitos entre estudantes de -repúblicas" e caixeiros de "cas-

telos", alguns motivados pelo fato de caixeiros mais elegantes pretenderem

usar cartola, sobrecasaca e bengala.

parte, dysticos ou palavras obscenas e

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1 X - 0 ORIENTE E 0 OCIDENTE



SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.0 Tomo

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de lua, o azulejo, o coqueiro e a mangueira da India, a elefan-

tíase dos Árabes, o cuscaz, o alfeolo, o alfenim, o arroz-doce com

canela, o cravo das Molucas, a canela de Ceilão, a pimenta de

Cochim, o chá da China, a cânfora de Bornéu, a- muscadeira de

Bandu, a fazenda e a louça da China e da India, os perfumes do

Oriente, haviam se aclimado com o mesmo à-vontade que no

Brasil; e formado com valores indígenas, europeus e de outras

procedências o mesmo conjunto simbiótico de natureza e cultura

que chegou a formar no nosso País. É como se ecologicamente

nosso parentesco fosse antes com o Oriente do que com o Oci-

dente que, em sua mística de pureza etnocêntrica ou em sua

intolerância sistemática do exótico, só se manifestaria, entre nós,

através de alguns daqueles estilos e de algumas daquelas subs-

táricias inglesas e francesas de cultura generalizadas no litoral

brasileiro após a chegada de Dom João VI ao Rio de janeiro.

Á quem tenha por exagerada a importância por nós atri- Ou por meio de um ou outro arreganho de ocidentalismo orto-

Hbuída ao Oriente na formação da cultura que aqui se de- doxo da parte de portugueses mais em desarmonia com o quase

senvolveu com a sociedade patriarcal e foi, em várias de suas instinto ou a quase Solítica portuguesa de expansão, que sempre

formas, condicionada pelo tipo absorvente de organização de se afirrr o da conciliação dos valores orientais

com


economia e de política, de recreação e de arte, de religião e de os ocidentais.

assistência social, de educação e de transporte-e não apenas de É que até a transferência da Corte de

Portugal para o Rio

família, no sentido apenas biológico da palavra-que é o patriar- de janeiro, o primado europeu de cultura

no Brasil significara

cal. A verdade é que o Oriente chegou a dar considerável subs- o primado portupês ou iberico, abertas, apenas, exceções para




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