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mulheres só pela qualidade de Indios" (pág. 112). Infelizmente, o Regi-

SoBRADos z Muc~os - 2.0 Tomo

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mento não foi na prática o que prometia ser em teoria, continuando os

i~dígenas, naquelas áreas, a serem abusados por particulares que os tratavam

pior do que a escravos, "Pois só cuidavam de tirar dos mesmos Undios] o

maior serviço possivel, chegando à inqualificavel barbaridade de lhe deita-

rem pimenta nos olhos si adormeciam prostrados de fadiga. Si os Indios

a~ cruelmente tratados, fugiam, eram perseguidos no sertão em seus mu-

cambos; e si aprehendidos, castigados severamente com trabalhos e calceta,

sem direito a premio ou salario algum" (págs. 113-114). Veja-se também

a memória do Cônego Januário da Cunha Barbosa, "Qual seria o Melhor

Systema de Colonisar os Indios Entranhados em Nossos Sertões.. .", Rev. do

Inst. Hist. Geog. Br., II, págs. 3 e seguintes.

I8Manue1 Guedes Aranha, "Papel Politico sobre o Estado do Maranhão

Apresentado em Nome da Camara, por seu Procurador Manoel Guedes

Aranha (1665)", Rev. do Inst. Hist. Geog. Br., XLVI, pág. 1.

14joão Mendes de Almeida, Algumas Notas Genealógicas. Livro de Fa-

mília, São Paulo, 1886, pág. 318.

MApud Mendes de Almeida, op. cit., pág. 318. Mendes de Almeida re-

corda que Pedro Taques fez observação semelhante a respeito dos indígenas

encontrados pelos portugueses no Brasil meridional.

~alheiro, op. cit., parte 2.`, pág. 106.

17Maximiliano, op. cit., pág. 17.

18Ibid., pág. 50.

19M. Lopes Machado, "0 14 de Abril de 1832, em Pernambuco", Rev.

do Inst. Arq. Hist. Geog. Pern., XXXIII, pág. 62. Para esse historiador os

insurretos de 1832 deram provas de "heroicidade, de amor ao lar e à

família..." (pág. 65) supondo "defender a família, o lar e a religião" (pág.

62). Foram uma espécie de antecipação e, ao mesmo tempo, "iniatura

de Canudos: "Dos píncaros mais agrestes, dos alcantis mais e~scabrosos, das

brenhas mais enredadas daqueles lugares, caíam de improviso sobre as avan-

çadas do governo, ou os atraíam a veredas enguerrilhadas para os destruir

e aniquilar e quando surpreendidos todos ou separados na refrega, morriam

motejando, sem nunca se renderem" (pág. 61). Note-se, ainda, que, "divi-

diam-se em bandos sem disciplina militar mas obedientes ao chefe" (pág.

61), isto é, ao chefe de cada bando. São muitas as semelhanças entre o

movimento chamado dos "Cabanos", no Nordeste, e os quase contemporâneos

que ocorreram no Maranhão ("Balaiada") e no extremo Norte do Império

("Cabanagem"), o primeiro estudado pelo Sr. Astolfo Serra no seu ensaio

A Balaiada, Rio de janeiro, 1946, o segundo pelo Sr. Ernesto Cruz, no seu

trabalho Nos Bastidores da Cabanagem, Belém, 1942.

2OIbid., pág. 63.

2lNote-se que em Pedra Bonita a superstição dominante foi a de que

al~ depois do sacrifício de certo número de inocentes, se desencantaria um

reino "onde o proletário [ .... 1 ressurgiria nobre, rico e poderoso", como

lembra o Conselheiro -.*,tão de Alencar Araripe em prefácio a Fanatismo

Religioso - Memória Sobre o Reino Encantado na Comarca de Vila Bela.

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404 GiLBEnTo FREYm SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.0 Tomo 405



de Antônio Ático de Sousa Leite, 2.1 edição por Solidônio Ático Leite, juiz

de Fora, 1898, pág. 8. E pormenor significativo: além do sacrifício de cria-

turas humanas, houve "o sacrifício de cães, verdadeiros molossos, que no

dia do grande evento levantar-se-iam como valentes e indómitos dragões

para devorar os proprietários" (pág. 9).

2213ante de Laytano, 0 Negro no Rio Grande do Sul, Porto Alegre,

1941, pág. 8.

23Em seu ensaio 0 Bangüê nas Alagoas (Rio de janeiro, 1949), o Sr.

Manuel Diegues Júnior recorda que na luta contra os holandeses o próprio

escravo negro "acompanhou o senhor de engenho no seu sofrimento e na

sua reação". E acrescenta: "Moradores e cabras de engenho, gente do eito

e da bagaceira, pessoal da moenda e da casa-grande, juntaram-se todos ncr

mesmo sentimento de confraternização com os proprietários rurais, reagindo

contra os holandeses." Em comentário ao mesmo ensaio, já salientamos em

trabalho publicado em Cultura, Rio de janeiro, n.O I, setembro-dezembro de

1948, que o patriarcado no Brasil "não só tomou o senhor dependente do

escravo e o escravo dependente do senhor como criou entre senhor e es-

cravo, nos dias normais e não apenas nos de guerra, sentimentos de solida-

riedade mais de uma vez superiores aos de classe ou de raça de cada um

daqueles elementos. Donde podermos concluir que tais elementos nem sem-

pre foram antagônicos mas, ao contrário, sob mais de um aspecto, simbióticos".

E mais: " ... não devemos nos esquecer de que nas Alagoas, como noutras

partes do Brasil, a tendência dominante foi para o escravo sentir-se membro

da família de que era escravo, a ponto de identificar-se com seus senti-

mentos, sua linguagem, seus gestos, seus deuses domésticos, suas devoções

e seus símbolos. Sabe-se que houve escravos, por este vasto Brasil, de tal

modo identificados com a política de seus senhores que, homens feitos,

usavam, como os senhores, o cavanhaque ou a pera que se tomara insígnia

dos membros do Partido Conservador" (pág. 121).

24Laytano, op. cit., pág. 10.

25Ern seu Ensaio Sobre os Costumes do Rio Grande do Sul (Porto Ale-

gre, 1883), João Cesimbra Jacques reconhece ser "indispensável" a quem

estuda a população rio-grandense-do-sul, .1 não olvidar os negros africanos%

introduzidos na província, como, em maior número, noutras partes do Brasil

e de toda a América, como "brutas máquinas de produção" (pág. 48).

Nota porém que, ao contrário do que sucedeu entre os brancos e indígenas

- a ponto das "gerações rio-grandenses que viveram até 1839 falarem indi-

ferentemente a língua portuguesa e a guarani" - o elemento africano no

Rio Grande do Sul "muito pouco se tem combinado com os brancos, devido

a uma natural repugnância na aproximação dos sexos, especialmente o sexo

feminino branco com o sexo masculino negro; assim é que os poucos mu-

latos que aqui existem são filhos de brancos com negras, sendo mui raro

vê-los oriundos de uma origem diversa" (pág. 48). Entretanto, dada a

grande inclinação das mulheres indígenas pelos negros, observada pelo meti-

culoso Saint-Hilaire, é de presumir que daí tenha resultado numeroso sub-

grupo de curibocas, talvez menos repugnantes que as negras puras ao pa-

ladar sexual dos brancos. 0 fato é que ao olhar do antropólogo mais farru-

liarizado que o leigo com os caraterísticos de raças maternas conservados

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pelos mestiços, não escapam, em rio-grandenses-do-sul, do mesmo modo que



em paulistas, de hoje - alguns eminentes na vida pública - traços ne-

gróides, talvez derivados de curibocas.

2OIbid., pág. 72.

271bid., pág. 92. Sgbre o caráter guerreiro e, ao mesmo tempo, apolíneo

- no sentido sociológico - das danças de carnaval na subárea de fronteira

do Rio Grande dó Sul, em relação com outras danças brasileiras de carnaval

- quase todas dionisíacas - veja-se nosso pequeno estudo "Problemas de

Relações de Personalidade com o Meio", em Problemas Brasileiros de Antro-

pologia, Rio de janeiro, 1943, págs. 154 e seguintes, onde também se

encontra outro pequeno estudo sobre a área rio-grandense-do-sul, do ponto

de vista de suas semelhanças e dessernelhanças com as demais áreas brasi-

leiras, "Sugestões para o Estudo Histórico-Social do Sobrado no Rio Grande

do Sul", onde observamos: "Pela leitura de anúncios de jornais rnais antigos

do Rio Grande do Sul já consegui verificar quç os móveis dos sobradões

daqui, nos meados do século passado, se assemelhavam aos do Norte do

país: que à louça dos sobrados não faltavam, entre porcelanas finas e objetos

de ouro e de prata, açucareiros e bules para chá" (pág. 146). A mais re-

cente edição de Problemas Brasileiros de Antropologia é a de 1959.

28MS. do Arquivo Público do Estado de Pernambuco. É curioso que,

enquanto para muitos brasileiros do Norte, os gaúchos eram homens gros-

seiros em tudo, até nas danças, dançadas com batidos de salto de bota e

ruídos de roseta de espora, para muitos gaúchos eles é que dançavam com

graça, em contraste com "as danças grosseiras [ .... 1 dos sertanejos do

Norte do Brasil". Nas palavras de Jacques, referindo-se às antigas danças

carateristicamente regionais do.Rio Grande do Sul (tirana, anU, tatu, cara,

feliz amor, balaio, xará, chimarrita, chico, queromã, bambaquerê e ?,,Ilras):

"Estas danças, apesar de serem um tanto toscas, apresentavam certos me-

neios delicados, revestidos de muita graça e estavam longe de assem elhar-se

às danças grosseiras e de umbigadas dos sertanejos do Norte do Brasil"

(op. cit., pág. 92).

Do lundu, escreveu Pereira da Costa, baseado em Sylvio Romero, à pá-

gina 423 do seu Vocabulário Pernambucano (Recife, 1937): "Originaria-

mente era uma dança lasciva, ao sorn da citara e da viola [ .... 1. "Dança

de origem africana encontramos já a sua menção na obra Compêndio Nar-

rativo do Peregrino da América, da lavra de um brasileiro e impressa em

1731; e teve tanta voga que saiu da senzala e subiu as escadas da casa-

-grande do engenho, entrou nas salas da cidade e por fim chegou à propria

metrópole [ .... 1 dançado por louro peralta adamado ao som do bandolim

marchetado".

Por outro lado, Grant escreveu à página 233 de sua History of Brazil

da dança brasileira, por ele considerada ---arnixture of that of Africa with

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i, !



406

GILBERTo FREYRE:

Spanish fandango" que no século XIX, passou a ser substituída, nos meios

elegantes, por danças européias: "This national dance [ .... 1 among the

higher and more enlightened classes of the Bahians it has in a great measure

given place to minuets and country danceZ'.

29Edmundo Zenha, 0 Município no Brasil (1532-1700), São Paulo, s. d.,

pág. 93.


3OIbíd., pág. 93.

3IAfonso de E. Taunay, Na Era das Bandeiras, São Paulo, 1922, pág. 59.

32Afonso de E. Taunay, História Seiscentista da Vila de S. Paulo - Es-

crita à Vista de Avultada Documentação Inédita dos Arquivos Brasileiros e

Estrangeiros, São Paulo, 1927, Il, pág. 37.

23]bid., lI, pág. 202.

34Robert Southey, História do Brasil, trad., IV, 390, cit. por Zenha,

op. cit., pág. 95.

35No seu Dicionário Corográfico, Histort . co e Estatístico de Pernambuco,

Rio de janeiro, 1908, A-0, pág. 413, salienta Sebastião Calvão que "o rei

D. João IV, grato aos heróis da restauração, que tinham com os próprios

esforços reivindicado para Portugal todo o território conquistado pelos holan-

deses, concedeu àqueles quantos privilégios pediram e desejaram. E se entre-

gando nos braços da nobreza, que era a descendência dos povoadores da

capitania, desde logo foi a mesma nobreza senhora da administração, go-

zando por isso a capitania de Pernambuco de prerrogativas e imunidades

que nenhuma outra do Brasil tinha. Os primeiros governadores mesmo que

se seguiram à restauração foram escolhidos de preferência dos que haviam

servido na guerra holandesa, notando-se entre eles André Vidal de Ne-

greiros, duas vezes, D. João de Sousa, e o historiador Brito Freire, sendo

que os substitutos vinham sempre de acordo com o Senado da Câmara,

representação direta da nobreza pernambucana, cuja sede principal era

Olinda."

No Rio de janeiro, recorda o Sr. Paulo Thedin Barreto, no seu excelente

estudo, ainda em ms., Casas de Câmara e Cadeia, que não podiam fazer

parte da Câmara os judeus e os oficiais mecânicos: a Câmara do Rio de

a para ela, como consta de documento publicado nos Anais

da Biblioteca Nacional, XLVI, pág. 1.129, pessoas que -fossem da principal

e conhecida nobreza".

36"Registro de Huma Provisão do Exmo. Senhor Marquez de Agu. V.

Rey e Capitão Geral de Mar e Terra deste Estado do Brasil paçada a favor

dos Moradores desta Capitania de Pernambuco. . .", in "Cartas Regias, De-

cretos e Provisões (1711-1824)", livro ms. na Seção de Mss. da Biblioteca

do Estado de Pernambuco. Sobre as graças honoríficas dadas por el-Rei de

Portugal ern 1642 aos moradores da Cidade do Rio de janeiro veja-se o

"Ali-nanack Historico da Cidade de São Sebastião do Mo de janeiro para o

Armo de 1799", Rev. Inst. Hist. Geog. Br., XX1, págs. 99-100.

37Ms. na Seção de Mss. da Biblioteca do Estado de Pernambuco.

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janeiro só queri



SOB~05 E ~AMBOS - 2.0 Tomo

4W

38Sobre o assunto, Henry Koster acrescenta: "It is said that mulattos make



bad masters... The change of situation would lead to the same consequences

in any race of human beings, and cannot he accounted peculiar to the mixed

biood." Entretanto, destaca o fato de conhecidos mulatos livres, tão bondosos

e lenientes com os escravos ou servos, quanto qualquer branco. (Travels in

Brazil, Londres, 1816, pág. 393).

São ainda do mesmo observador estes reparos: "The creole negroes of

Recife are, generally speaking, mechanics of all description; but they halve

not yet reached the higher ranks of life, as gentlemen, as planters and as

merchants. Some of them have accumulated considerable sums of money,

and possess many slaves, to whom they teach their own trade, or these

slaves are taught other mechanical employments by which they may become

useful" (pág. 398). Entretanto, sendo homens ricos, esses negros não se

tomavam ricos homens como os mulatos mais claros enriquecidos em artes

ou oficios manuais pois "the negroes are excluded... from the off ices" que

os mulatos "nwy obtain through their evasion of the law, but which the

decided and unequivocal colour of the negro entirely precludes him from

aspliring too" (pág. 398). Questão mais de cor do que de raça. 0 bastante,

porém, para impedir que negros retintos, por mais ricos, se elevassem a

certos cargos e tivessem acesso a certas irmandades aonde, nas mesmas con-

áições, os mulatos chegavam como brancos, quase-brancos e sernibrancos.

Debret observa que no Rio de janeiro, nos princípios do século XIX,

operários negros e mulatos foram assimilando as técnicas dos franceses e

alemães e tomando-se "les rivaux de leurs maitres.. ." (II, pág. 91). Os

rivais mais poderosos dos europeus foram, nos aspectos sociais da compe-

tição técnica, os mulatos. A esse propósito, escreveu Teodoro Sampaio que

na sociedade brasileira dos primeiros núcleos coloniais os mulatos "tidos em

gradação inferior ao marnaluco, nessa sociedade semifeladal, propendiam para

as artes e ofícios e não raro davam para as façanhas de pegar negros fugidos

e destruir mocambos. Viviam quase todos solteiros" (História da Fum~ição

da Cidade do Salvador, obra póstuma, Bahia, 1949, pág. 280).

39A respeito de 'liomens-bons" e "ricos homens" o Sr. Edmundo Zenhw,

no seu já citado ensaio sobre o município no Brasil, recorda o conceito de

'liomens-bons" de Alexandre Herculano, na sua História de Portugal: "os

indivíduos da povoação mais ricos e mais notáveis por qualquer título"

(pág. 90). E transcreve de A Propriedade, Comentário à Lei dos Forais

(Coimbra, 1850, pág. 94), 6bra de Antônio Luís Seabra, palavras que

esclarecem melhor o assunto: "Em todos os tempos as qualidades morais

têm sido representadas pelos objetos materiais, com que têm alguma função

ou analogia. Assim o homem abonado foi chamado homem-bom e o melhor

título de nobreza era o de rico-homem. Ainda hoje o homem de bem é

vulgarmente o rico, o fidalgo; e o homem vil, vilão, o que nada tem -

rhomme de rien, como dizem os franceses; e nisto prendem, mais ou menos,

as teorias eleitorais fundadas no censo, etc., etc." (pág. 91 ).

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408 GILBERTo FREYRE SOBRADOS E MucAmBos - 2.0 Tomo 409



No Brasil, esse conceito, já por natureza elástico, de nobreza suficiente

para a govemança, ganhou maior elasticidade. Mas só muito lentamente veio

a incluir negros ou pretos evidentes como o velho Rebouças, embora no

século XVII, por exceção, tivesse beneficiado o herói negro da guerra contra

os hereges louros, Henrique Dias,

Teodoro Sampaio, na sua referida obra póstuma, depois de salientar

que em Salvador os oficiais da Câmara eram escolhidos dentre os -homens-

-bons', isto é aqueles que, por sua pessoa, partes e qualidades eram consi-

derados capazes de governação" (op. cit., pág. 201), lembra que "os bran-

cos do Brasil" cedo tomaram-se em grande parte "mazombos" ou "mama-

lucos", isto é, gente com Iaivos de sangue indígena", embora houvesse da

parte de mulatos "o cuidado de provar a boa e pura linhagem" (pág. 280).

"Não obstante isso- - acrescenta - "mamalucos se ligavam por laços matri-

moniais às mais importantes famílias da colônia. Com os descendentes do

Caramuru, todos de procedência indígena, ligaram-se os de Garcia d'Ávila,

os dos Aragões, dos Araújos, Britto Freire e Barbosa" (pág. 280). 0 que

ocorreu na Bahia com os descendentes de Caramuru - incorporados desde

os primeiros anos coloniais à melhor nobreza da região, à classe dirigente,

à raça senhoril - aconteceu em São Paulo com os descendentes de Tibiriçá

e em Pernambuco com os de Maria Arcoverde. Quase sempre o estigma de

.1 raça inferior" desapareceu para a incorporação de elementos indígenas à

nobreza patriarcal, sob a consideração de se tratarem de caciques, ou prín-

cipes, ou de filhos de caciques. Ou de princesas, como Maria Arcoverde.

A classe sobrepujava a raça.

40Ms. no Arquivo Público do Estado da Paraíba, pac. ri.' 29. É oportuno

lembrarmos aqui que há anos nos interessa particularmente o assunto - as

relações das irmandades com as diferenças de ofício, profissão, classe, raça,

sexo e região no Brasil - sobre o qual já conseguimos reunir considerável

material para um estudo à parte. Dois dos nossos antigos alunos - o hoje

professor da Universidade Católica de Washington, Dr. Manoel Cardozo,

que seguiu nosso curso de seminário sobre a formação social do Brasil, na

Universidade de Stanford, -e o hoje também professor José Bonifácio Ro-

drigues, que seguiu nossos cursos de Antropologia Social e de Sociologia

na extinta Universidade do Distrito Federal - vêm estudando, por sugestão

nossa, outros aspectos do assunto, sobre o qual o Professor Cardozo já

publicou interessante nota prévia: "The Lay Brotherhoods of Colonial Bahía",

The Catholic Historical Review, vol. XXXIII, abril, 1949.

Sobre ofícios mecânicos na Capitania da Bahia, sua organização, eleições

de seus juizes, sua presença em procissões vejam-se Documentos Históricos

do Arquivo Municipal, Atas das Câmaras, 1625-1 . 641, Prefeitura Municipal

de Salvador, S. d., 1.' volume e 2.' volume, 1641-1649, Salvador, s. d. Sobre

irmandades no Rio de janeiro colonial, veja-se o bem documentado estudo

do Sr. Vivaldo Coaracy, 0 Rio de janeiro no Século 17, Rio de janeiro,

1944, págs. 80, 95-96, 123, 197-198. Salienta este historiador que "não raras

vezes eram acesas e intensas as rivalidades e ciúmes entre irmandades" (pág-

96), rivalidades em que talvez se exprimissem - pensamos nós - anta-

gonismos entre classes e raças, através de antagonismos ou conflitos entre

ofícios e bairros, diversas, como eram, as irmandades em sua composiçao

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étnica, social e cultural. Tais conflitos mais de uma vez se verificaram, sob



o pretexto de precedência de lugar em procissões. Tal o que sucedeu em

1790, em Campos, onde a Irmandade de N. S.a Mãe dos Homens, dirigida

pelo Capitão Manuel Fonseca de Azevedo Castelão, quis para si a prece-

dência na procissão de São Sebastião, contra os direitos de irmandades mais

antigas - de São Benedito, do Terço, da Boa Morte, do Rosário - "só com

o pretexto de serem estas de pretos e pardos e a sua de brancos. . . " ( Alberto

Lamego, A Terra Goitacá, Niterói, 1941, IV, pág. 154).

4IEm relação às discriminações, por parte das irmandades, confrarias e

ordens Terceiras mais aristocráticas, que atingissem pardos na sua condição

de raça e mecânicos ou mercadores na sua condição de classe, foram apa-

recendo desde o século XVIII associações religiosas - como em "Penedo

do Rio São Francisco", a "Irmandade do Glorioso Martyr S. Gonçalo Gar-

cia" - patrocinadas não por santos militares cavaleiros e brancos - São

Jorge, Santo Antônio, São José Patriarca, São Pedro Príncipe dos Apóstolos,

Senhor Jesus dos Quartéis, São Sebastião dos Militares - mas por santos

mercadores ou de meio-sangue, como o referido São Gonçalo, nascido em

Baçaim, na India Oriental, de pai "português" e mãe "preta" e que até

tomar o estado de religioso exercera "o tracto da mercancia, navegando da

India para a Ilha de Manilha.. ." (Compromisso da Irmandade do Glorioso

Martyr S. Gonçalo Garcia, Penedo, 1914, pág. 4). Defrontava-se essa irman-

dade - franqueada a "todos os homens e mulheres livres, sem distincção

alguma de cor" (pág. 7) - com a aristocrática Venerável Ordem Terceira

da Penitência, da mesma cidade de Penedo, que, no seu compromisso, por

nós lido em ins. por ocasião da nossa visita àquela cidade alagoana em 1944,

declarava: "Fica entendido que é condição essencial de admissão à Ordem

a limpesa do sangue tão recorrimendada no Capítulo Segundo da nossa Santa

Regrd'. Essenciais à admissão de candidato eram também consideradas in-

formações exatas sobre a sua situação econômica: "acerca de suas posses

para que não venha a ser gravoso à Ordein". Mais liberal no assunto,

a Irmandade de São Gonçalo, que parece ter reunido no século XVIII nego-

ciantes menores da cidade e pardos enriquecidos nos ofícios e na mercancia,

dizia no artigo 51 do seu compromisso que a irmandade faria "effect*-'

v

suf`fragios e direitos concedidos por este compromisso a todos os irmãos



que falecessem, ---aindaque 'algurii fique debitado e insolvente: devendo

porem promover a cobrança mesmo judicial dos debitos dos irmãos, falle-

cidos, que deixarem bens com que possam pagal-os" (pág. 19). Ainda mais

liberais no tocante à admissão de candidatos ao seu grêmio que as irman-

dades do tipo da de São Gonçalo Garcia, as Confrarias de São Benedito

admitiam como irmãos "as pessoas de cor livres de cativeiro, podendo, po-

rém, ser também admitidas as pessoas livres, de cor parda e branca que

por devoção quiserem pertencer à confraria_" (Compromisso da Confraria

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GnjaEwro FREYRE

de São Benedito ereta no Convento de Santo Antônio da Cidade do Recife




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