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Ou a "opflação" ue um mé

~dico da Bahia, o Dr. Wucherer, fa-

zendo autópsias S negros, em 1860 ligou ao "anchylostomum

duodenale"60 já associado no Egito à clorose dos servos descalços.

E que outro médico do meado do século XIX, Lima Santos, em

est~do, "Considerações Sobre o Brasil, seu Clima, suas Enfer-

midadeS Especiais', publicado no Diário de Pernambuco em 9

de agosto de 1855, considerava conseqüência não só de clima

como de causas sociais. Escrevia ele: "Os meninos são em geral

fre lentemente afféctados, e os pretos escravos, principalmente

os To matto, não menos. 0 vulgo tem considerado um dos symp-

tomas da molestia como um vicio dependente da vontade e ao

qual lhe dá o nome de vicio de co-mer terra; mas he este um erro

a elo abandono que à molestia se dá e pelos actos de

CtarícdiadIeP raticados contra os 011e a soffrem. Sendo a opilação

uma enfermigade que em resulta consiste na alteração do san-

gue, e pobreza dos principios que o constituem, claro he que

deve ser combatida pelos meios da arte, e nunca pelo rigor, e

exercicio forçado, como he de uso practicar-se. Pode-se attribuir

as causas do desenvolvimento da opilação à natureza do cli.ma,

e a hygiene pelos habitantes dos lugares humidos, elos meninos

pobres e pretos escravos de ruins senhores. He Né observação

que nos lugares onde o calor he forte, em que existe bastante

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396 GILBERTO FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.0 Tomo 397



humidade como a partir do Rio de janeiro ate o rio Amazonas,

esta molestia he muito frequente; mas independente das condi-

ções climatericas, cremos que a principal causa está na natu-

reza do solo que se habita, e na especie de alimentação_"

Pois, da população, "a parte que mais soffre he a que vive

sujeita a uma má nutrição", como "os pobres e os escravos",

isto é; os* escravos de "ruins senhores" e os "pobres que moravam

em lugares humidos, entregues ás intemperies do tempo como o

frio e a humidade". A devastadora "opilaçao" foi, no Brasil pa-

triarcal, doença ao mesmo tempo de raça-a africana-de classe-a

servil-e de região-a agrária e latifundiária. Principalmente da

sub-região do café.67 Para um médico brasileiro do Rio de ja-

neiro que desde o meado do século XIX estudou pacientemente

o assunto, embora concorresse Sara intensificar o mal a ação

combinada do calor e da umida e de certas regiões, a opilação

se apresentava maior onde o trabalho dos escravos era excessivo

e. mais exposto à chuva ou ao sol como na área dos cafézais; e

onde eram piores as condições de habitação. Uma das "causas

predisponentes da molestia 11 parecia-lhe ser o "dormir sobre a

argila humida";,O" e o Dr. Peçanha da Silva responsabilizava tam-

bém pela generalização do mal entre nossa gente servil o ves-

tuário dos escravos de eito-ou. "quasi nus" ou "cobertos por báetas

rossas de uma cor azul escura"-e a alimentação: no Sul; farinha

e mandioca e feijão~preto. e este "apenas temperado com um

pouco de gordura de porco ou farinha de milho, batatas-doces,

carás, abóboras, com deficiência de "alimentação animal". Em

fazendas onde à alimentação vegetal dos escravos se juntava a

animal, como na propriedade da Marquesa de Paraná, a opilação

era desconhecida.69

Vícios e doenças tiveram no Brasil patriarcal suas especializações

de raça e de classe e não apenas de sexo, de idade e de região-

algumas destas registradas por Spix e Martius10 com olhos de clí-

nicos. Várias observadas por Sigaud .71

0 vicio de comer terra, barro, cinza, pó de café, o de mascar

tabaco, o da maconha, o da cachaça, foram, entre nós, vícios asso-

ciados quase exclusivamente a gente de classe, de raça e de região

"inferiores". Vícios de escravos, de negros, de tabaréus. E as

doenças resultantes deles, doenças vergonhosas. Ao contrário das

doenças venéreas, de que particularmente se gabavam os rapazes

brancos e de famílias senhoris das áreas agrárias numa afirmação

não só de virilidade precoce como de superioridade de classe e

de raça: a classe e a raça donas, desde cedo, das mulheres. 0

vício do rapé, a paixão das brigas de galo e de canário, a das

bar anhas com cavalos, fixaram-se como hábitos de classe alta

e raça branca que, entretanto, acabaram transferindo-os à

1

classe baixa e à gente de cor. Destas subiram, em compensação,



ao alto das casas-grandes e dos sobrados, vários hábitos de ali-

#

mentação, de recreação, de devoção e até de adorno e de pro-



filaxia e cuidado da pessoa ou do corpo da pessoa. Hábitos por

longo tempo desprezados como inferioridades de negros ou de

escravos. Assim se explica a valorização do caruru, do vatapá,

do efô, do samba, da figa, do balangandã, de ungüentos e chás

com ervas africanas ou indígenas, da faca de ponta como arma

de defesa pessoal aristocratizada, com o tempo, no punhal de

cabo de prata dos senhores ou dos fidalgos. Explica-se também

a aristocratização do hábito de catar piolho, comum entre escravos

e pobres, no hábito volutuoso do cafuné entre as senhoras e os

próprios fidalgos da nobreza rural, que entregavam as cabeças

aos dedos ou às unhas das mucarrias, para um catar antes sim-

bólico do que real de piolhos, no qual o Professor Roger Bastide

encontrou motivos para interessante interpretação psicanalítica. 72

Ao mesmo tempo foi se concedendo a negros, a escravos, a

descendentes_de negros e de escravos a graça de ostentarem

doenças-e não apenas vícios-consideradas privativas de bran-

cos ou de senhores . 0 direito de serem anêmicos. 0 direito de

sofrerem de reumatismo. 0 direito de morrerem do coração e

até de febre amarela. E també - uso de insígnias, por algum

tempo de raça, de classe e regiZO-0dominantes, ao mesmo ternro

que de sexo forte, como a bensiala, a bota de mo ------ - - 0,

* rebenque de cabo de prata, ~'pistola, o chapéu alto, a botina,

* sobrecasaca, a luva, o anel. Foram essas as concessões mais

lentamente feitas no Brasil por senhores a servos, por brancos a

pretos, importando, como importavam, no reconhecimento de ne-

gros e escravos, e de seus descendentes, como seres capazes ou

dignos de participarem, sob a forma de indivíduos excupcionais,

do poder ou do mando exercido ou do ócio desfrutado por bran-

cos senhoriais, como um direito de nascença. Direito de raça,

de classe e de sexo biológica ou naturalmente "superiores".

Da bengala sabe-se que alguns senhores brasileiros da época

patriarcal não se separavam nunca do mesmo modo ue não a

admitiam em mão de negro, de escravo, de mulher ou 21e inferior.

Era como se fosse um cetro de homem branco e senhoril. Donde

a,caturrice de ilustre estadista do Império, homem da zona agrá-

ria e aristocrática da Bahia, que, estando em Londres, foi visitar

famoso museu de arte; e sentiu-se ferido no mais fundo do seu

brio ou da sua dignidade senhorial quando dele exigiram, na:

portaria, que deixasse ali a bengala. Nenhum senhor digno desse

nome deixava-se despojar de sua bengala como se fosse um negro

a quem as leis brasileiras não permitiam andar de cacete, quiri

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398 GILBF_RTO FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.0 Tomo 399



ou pau pelas ruas. Pelo que o Conselheiro Saraiva deixou, no

fim do século XIX, de visitar a National Gallery de Londres.73

Essas bengalas e os chapéus-de-sol e guarda-chuvas aristocrá-

ticos da era patriarcal brasileira merecem estudo à parte. Eram

de madeiras nobres. Os cabos, de ouro ou de marfim. E muitos

deles simbólicos de autoridade ou de poder: cabeças de leão,

de águia, de tigre, de serpente, de dragão. Uma das nossas mais

fortes recordações de meninice e a da loja, no Recife, de chapéus,

chapéus-de-sol e bengalas, dos nossos parentes João e José de

Sousa e Melo que eram, também, senhores do Engenho São

Severino dos Ramos, em Pernambuco, herança de família, do ramo

em cuja origem aparece a figura de um capitão-mor de índios

e indio puro ele proprio, casado com moça raptada a família

opulenta de casa-grande do Norte da então Capitania de Per-

nambuco, os Barbosa Aguiar de Araújo, de Limoeiro. Não se

envergonhavam aqueles dois senhores de terras de cana, de gê-

nero tão ilustre de comércio, freqüentada, como era, sua loja-que

da segunda metade do século XIX chegou, decadente, aos prin-

cípios do seculo XX-só,por gente de sua própria classe, da qual

se tornaram, durante anos, uma espécie de orientadores em

assuntos de chapéus, chapéus-de-sol e bengalas. Assunto impor-

tante numa época de senhores ainda ciosos de suas afirmações de

status social por meio da bengala ou do chapéu-cle-sol que o indi-

viduo conduzisse, da qualidade da madeira de que fosse feita a

bengala ou chapéu-cle-sol, do ouro ou do marfim que lhe revestisse

o cabo.


Data do século XX a degradação da bengala e do chapéti-de-sol

como insígnias de classe e de raça dominantes; e a vulgarização

do seu uso, independente da situação social do portador. (5 folclore

registrou alguns aspectos da vul arização, a princípio escandalosa,

de insígnias por muito tempo Ne classe e de raça senhoris. Por

exemplo:


"Ne ro de luva

v

'vef de chuva".



sina

E as primeiras mulheres de cor a se vestirem como senhoras

brancas no Brasil foram vaiadas pelos muleques: isto é, los de

sua própria raça inconformados com a deserção de negros cra classe

servil para a alta. 0 mesmo sucedeu a negros de cartola, de sobre-

casaca; de luva, de bengala: foram vaiados pelos muleques em

mais de uma cidade do Brasil, durante o século XIX. Na própria

Corte. No próprio Rio de janeiro. No jornal Nova Luz Brasileira,

do Rio de janeiro, de 9 de março de 1830, encontrou o historiador

Otavio Tarqüínio de Sousa a informação, que nos comunicou, de

que, naquela época, se aparecia no teatro, em camarote, um "ei-

#

dadão homem de cor, livre- entravam brancos e supostos brancos



a espirrar'-'uso de Portugal para insultar os pretos", esclarece o

jornal-e -a gritar fora preto, fora carvão, ao que se ajuntam asso

vios e algazarras.. ." Acrescentava o jornal da Corte, depois de

observar que a gente do Rio de janeiro, tendo então "a bocca

cheia" de a civilisação do Rio de janeiro", "nós, os civilisados da

Corte" praticava incivilidades dessa espécie: "egualmente se appa

rece alguma parda que deite a cabeça fora do camarote gritam

logo-fora mindubi torrado e outras plirases semelhantes que abor

recem a toda a gente polida. Dizem alguns que isto provem de

caixeiros imprudentes e rapaziada que tem a presunção de possuir

a cor branca, que e a cor conquistadora ou dos senhores. . ." Não

era a parte mais polida do publicoti lia dessas expansões

contra a gente mais ostensivamentee comparecesse a

teatro, de camarote: era a parte meNão era a classe

mais alta mas a classe de conquista-senhores", senão

baixa, ainda em ascensão; e, por conseguinte, em competição com

a de indivíduos de cor também em ascensão.

Dos carateristicos de raça e de classe que mais vem resistindo

ao desaparecimento de fronteiras rígidas entre classes, raças e re-

giões na sociedade brasileira, alguns devem ser aqui recordados.

Mas recordados, a enas; pois o que pe~e~m é estudo à parte. Tais

os gestos, modos Te' andar, de falar, dê rir, de cantar, eculiares

não a escravos ou a servos mas a capoeiras ou capaTócios das

cidades, a jagunços do interior, a sertanejos, a caboclos, a malan-

dros cariocas, a baianas, depois de terem separado, principalmente,

senhores de escravos e brancos, de negros, europeus, nativos ou

de africanos, ricos, de pobres. Note-se, entretanto, que numerosos

negros, crias de casas-grandes opulentas, ad uiriram dos senhores

ou da família senhorial gestos, modos de ZIar, de andar, de rir,

carateristicos de classe alta e de raça "superior", a ponto de terem

se tomado, cultural e sociologicamente, membros da mesma fa-

mília e de suas maneiras contrastarem com as da maioria da gente

de sua raça e de sua classe. Daí a vulgarização, no Brasil, de

expressões eruditas como "vote"-de "vote, tib~'-que das salas pas-

saram às cozinhas e às senzalas.

Confundiram-se, nesses casos, carateristicos de raça e de classe

sob a influência decisiva ou absorvente dos traços e hábitos de

família dominante, ciosa de manifestar sua superioridade social

ue tinha

1 cor qu


nos policia.

dores" ou

e de cultura nos seus próprios crias e não apenas nos seus filhos.

Muitas vezes concedeu-se a afilhados , crias, filhos naturais, o di

reito de tomarem de seus pais, padrinhos ou senhores brancos,

nomes europeus e fidalgos de família: outra forma de confusão

de plebeus com fidalgos, através da qual vem se democratizando

a sociedade brasileira em virtude do próprio sistema patriarcal.

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400 GILBERTO FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.' Tomo 401



Um sistema que foi entre nós contraditório em vários dos seus

efeitos sociais.

NOTAS AO CAPITULO VIII

lSermão de 6 de janeiro de 1662 em presença da Rainha e da Corte.

Note-se que já no século XV1II eram numerosos os escravos mais brancos

que os senhores, conservados, como se achavam, em situaçãd de escravos,

indivíduos quase-brancos, como destacou el-Rei no alvará de 16 de janeiro

de 1773; "existem ainda Pessoas tão faltas de sentimentos de Humanidade,

e de Religião, que guardam nas suas casas Escravas, humas mais brancas

do que elles com os nomes de Pretas e de Negras, e outras Mestiças. . . "

(Cópia na Seção de Mss. da Biblioteca do Estado de Perríambuco). Dos

mestiços e quase-brancos provenientes de uniões de senhores com escravos

é que Perdigão Malheiro escrevia no seu A Escravidão no Brasil - Ensaio

Histórico-Jurídíco-Social (Rio de janeiro, 1867, parte 2.a) que, com eles "a

raça reputada a mais nobre e superior abastardava-se, com dano para si, e

sem vantagem para as outras, não tanto porque do cruzamento só por si

viesse esse dano ou prejuízo, mas por causa da condição a que essa des-

cendência escrava era reduzida e degradada" (pág. 14). E o notável ensaísta

enxergava nesse processo de degradação de negros e mestiços "agravação do

mal de raças pelo de classes" (pág. 16).

2A Santidade do Monarcha Ecclesíastico Innocencio X, Lisboa, 1646,

pág. 32.


3Marquês de Penalva, Dissertação a favor da Monarchia, Lisboa, 1799,

pág. 17. Idéia também de José da Cama e Castro ao notar que "o governo

primitivo e natural foi decididamente monarquico. . .--o monárquico pa-

triarcal, evidentemente - devendo os outros ser considerados "obra de arti-

fício" (0 Novo Príncipe, Rio de janeiro, 1841, pág. 20) e ao insistir na

necessidade da família patriarcal nobre conservar-se presa à terra sem trans-

ferir suas afeições para a "propriedade móvel" (pág. 276).

4Príncipe Maximiliano Neuwied, Travels in Brazil in 1815, 1816 and

1817 (translated from the German), Londres, 1820, pág. 32. Notou também

Maximiliano que os índios aí aldeados eram bons caçadores e peritos no

uso das armas de fogo; também que revelavam "predileção pelas florestas:

'suas florestas---. Conta que certo indígena, membro de uma das tribos mais

selvagens, depois de Sacerdote Católico, durante anos, em Minas Gerais,

desapareceu de repente da paróquia; e quando se soube dele estava vivendo

novamente nu, na floresta, entre indígenas (págs. 32-33). Sinal de que

nem todos tinham profundo desdém pelos tapuias ou índios do mato.

5A aldeia de indígenas civilizados visitada por Maria Graham foi a de

São Francisco Xavier de Itaguaí ou Taguaí, no Rio de janeiro. Perguntando

a uma mulher (em cuja palhoça a inglesa entrou) pelos seus parentes, res-

pondeu-lhe a ameríndia que o marido morrera, que as filhas viviam em sua

companhia mas que os filhos e netos haviam regressado à vida selvagem,

depois que a aldeia deixara de ser dirigida por jesuítas. Em geral, ficavam

em aldeias, em maior número, as mulheres das quais escreve Maria Graliam:

-Many of the Indian women have married the creole Portuguese; inter7 tar-

#

riages between creole women and Indian men are more rare. The chiLdren



of. such comples are prettier and appear to me to be more intelligent than

the pure race of either" (Journal of a Voyage to Brazil and Residence There

During the Years 1821, 1822, 1823, Londres, 1824, pigs. 284-285).

J. B. Debret (Voyage Pittoresque et Historique au Brisil, 1816-1831,

paris, 1834-1839) impressionou-se eom os bons resultados das uniões de

brancos com indígenas no Brasil, a respeito do que escreveu: " ... il existe

dam les, provinces de San-Paulo et de Minas de trã-belles familles de race

mêlée, issues de runion d'hommew blancs et des fenimes caboeles". Predo-

mInava, ao seu ver, nesses mestiços paulistas "une beauté gracieuse et pi-

quant, particulièrement remorquable chez les femmes" (I, pág. 39). Notou

que, para os portugueses, "índio civilizado" queria dizer índio batizado e

iniciado no Cristianismo ou no Catolicismo (pág. 40). 0 que sucedia de

acórdo com a tendência geral do colonizador português, pelo menos no

Brasil, para substituir a mística de raça pela de religião - tendência por

nós destacada em nosso Casa-Grande & Senzala e noutros ensaios. Segundo

essa mística, o indivíduo de raça exótica que fosse batizado e cristianizado,

tomava-se membro, se não da "raça", da cultura ou da comunidade cristã,

organizada, mas não monopolizada, por portugueses. Seu status de classe

é que variava segundo considerações que alcançavam antes a situação social

do neófito, anterior à sua conversão, que a sua raça.

Reconhecendo inconscientemente esse fato ~'que Debret (II, pág. 19)

chega a referir-se à sub-raça ou meia-raça de mulatos, no Brasil, como

"clwse mulátre", da qual escreve: .1 c'est elle, en effect, qui fournit Ia via-

jeure partie des ouvriers recherchés pour habilité c'est elle aussi qui est Ia

plw turbulente et, par conséquent, Ia plus facile à influencer pour fomenter

les troubles populaires. . ." Situação que lhe pareceu transitória, pois, exa-

minando-se esses "demi-blancs dans leur état de parfaite civilisation, parti-

culièrement dans les principales vílles de rempire, vous en rencontrez déià

un grand nombre horiorés de restime générale, qu'ils douvent a leurs succès

dans ia culture des sciences et les arts, tels que Ia medicine ou la musique,

les mathématiques ou Ia poésie, Ia chirurgie ou la peinture" (II, pág. 19).

CAlberto Sampaio, As "VíW'do Norte de Portugal, Porto, 1903, pág. 117.

7ofíCio de Frei Plácido de Messina ao Presidente da Província de Per-

nambuco, Barão de Boa Vista, datado de 26 de novembro de 1842, dando

conta da missão de que fora encarregado no interior da Província. Ms. no

arquivo do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco.

Veja-se, a propósito, nosso estudo Casa-Grande & Senzala, Rio de janeiro,

1958, 9.a edição brasileira, I, pág. 91.

sMaria. Graliam, ibid., pág. 284. Essas fugas devem ser atribuídas prin-

cipalmente ao fato, salientado por Perdigão Malheiro, de que "moradores,

o próprio Governo (apesar de seus escrúpulos), e até os jesuítas, degene-

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402



GILBERTO FREYRE

rados dos seus primeiros e gloriosos tempos, todos praticavam de modo

que os Indios eram de fato, contra algumas disposições humanas das leis,

destinados só ao trabalho da colônia, e que peles se pretendia apenas um

viveiro de trabalhadores, de cujas força, sangue e indústria tirassem o maior

proveito possível..." (Agostinho Marques Perdigão Malheiro, A Escravidão

no Brasil - Ensaio Histórico-lurídico-Social, Rio de janeiro, 1867, parte 2.1,

pág. 88). Perdigão Malheiro cita a propósito as palavras do Padre Antônio

Vieira: que os colonos só queriam do "sangue vermelho" dos índios tirar

o "ouro amareIlo". Sobre o assunto veja-se também a "Memória Sobre as

Aldeias dos Indios da Província de São PauW, Rev. do Inst. Hist. Geogr.

Br., IV, págs. 295 e seguintes.

gColeção de Leis, pelo Desembargador Delgado, citado por Perdigão

Malheiro, op. cit., parte 2.a, pág, 98-102.

1OIbid., págs. 100-101.

"Col. de Leis, cit., apud Malheiro, op. cit., parte 2.`, pág. 70.

UMalheiro, op. cit., parte 2.1, pág. 105. No Regimento destinado espe-

cialmente ao Grão-Pará e ao Maranhão determinava-se não só que aos

Indios se fizesse aprender a língua portuguesa, "banido o perniciosissimo

abuso de conservarem [os jesuítas] os Indios na ignorancia della", corno.que

"não fossem [os Indios] chamados negros, pela infamia e vileza que istó

lhes trazia por equiparal-os aos da Costa d'Africa como destinados para

escravos de brancos, segundo se pensava": também se determinava "que os

Indios tomassem sobrenomes, com preferencia de familias Portuguezas, para

evitar a confusão que do contrario se seguia, e a vileza de o não terem";

e, ainda, que se recomendava aos diretores de aldeias que cuidassem de

construir para os indígenas aldeados "casas à semelhança das dos Portu-

guezes, para que não vivessem todos promiscuamente com offensa da hones-

tidade" e de se conseguir que "os Indios deixassem de andar nus..." Mais:

"havendo sido causas da miseria publica não só a ociosidade mas tambem o

abuso de terem sido applicados os Indios a serviço dos particulares", que

os diretores cuidassem em induzir os indígenas à cultura da mandioca para

farinha, feijão, milho, arroz, outros gêneros alimentícios, e algodão e tabaco

- gêneros então "de grande interesse commercial" - pagando-se aos mesmos

indígenas o dizimo (Malheiro, op. cit., parte 2.a, pág. 108).

É ainda de significação para o estudo das relações entre raças e entre

classes no Brasil do século XVIII, naquelas sub-regiões ou áreas menos

dominadas pelo poder patriarcal das casas-grandes e que o paternalismo

del-Rei procurou arrancar ao excessivo paternalismo dos padres da Com'

panhia e às explorações de aventureiros sôfregos de enriquecimento à custa

do trabalho servil do indígena, que o referido Regimento investe contra a

"odiosa separação" em que os jesuítas procuravam conservar indígenas e

brancos e insiste em que, "para extinguir essa abominavel separação de

Indios e brancos, fomentassem os Directores os casamentos de uns e outros,

castigando-se os que, depois de casados, despresassem os maridos ou as




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