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latos livres das cidades-sobretudo do Rio de janeiro e do Re-

cife-a arte da capoeiragem, através da qual indivíduos desar-

mados poderiam lutar vantajosamente com polícias e particulares

armados.


Ficavam, ainda, proibidos, na cidade do Recife, por decis.ão

dos seus vereadores de 1831, "os jogos pelas ruas, praças, praias

ou escadas, que costurnão os pretos e vadios, faserem, sob pena

de soffrerem os que forem livres, de 2 a 6 dias de Cadeia, e os

escravos, de 12 a 36 bojos dados na mesma Cadeia, e logo depois

serem entregues a seos senhores.. ." Pormenor interessante é o

de que essa -graduação de pena" seria "em proporção das ida-

des dos transgressoreS" * A pena variava, portanto, não só com a

condição de livre ou escravo do transgressor como com a sua

#

condição de idade.



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388 Gn.BERTo FnEYRz SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.0 Tomo 389

A mais se estendia o cuidado da Câmara Municipal do Recife

de 1831 no sentido de dar à vida da cidade aparência tão euro-

éia quanto possiVel: todo indivíduo que fosse "achado nu em

eiras de praia'. ou "tomando banho com os corpos descubertos,

sem a devida decencia", seria punido com prisão ou bolos. Exce-

tuavam-se os indivíduos pertencentes a "corporações militares",

que seriam entregues "aos seos Conimandantes respectivos para

estes lhes faserem. applicar a correspondente pena de prisão..."

A despeito do rigor dessas proibições, documentos extra-oficiais

da época indicam que até mesmo na segunda metade do século

continuou o costume de recifenses pobres ou médios se banharem

nus, às vezes perto das próprias pontes principais da cidade e à

vista das senhoras dos sobrados mais nobres; e na cidade de

Belém do Pará o norte-americano Warren, quando ali chegou em

1850, viu homens, mulheres e meninos do povo banhando-se nus,

com a maior sem-cerimônia deste mundo .5'Aliás, veio até quase

nossos dias o hábito, no Norte do Pais, da própria gente senhoril

tomar nua seus banhos de no, erto às casas de subúrbio ou no

interior. Apenas des - . Sicamente em banheiros de palha

à beira ou dentro da ára. As senhoras e as crianças desciam

ao rio numa hora; os sen ores, noutra. 0 banho tinha assim todas

as vantagens do verdadeiro banho, sem ue o corpo se revestisse

dos pesados trajos de baeta escui , ;%' se propagaram entre a

gente senhoril no Brasil, com a moda dos banhos de mar, iniciada

no Rio de janeiro ainda na primeira metade do século XIX; mas

só generalizada na segunda.57

A gente do povo das cidades, porém, que não tinha banheiro

de palha onde desgir se, para o banho de regalo ou de higiene,

se via obrigada a es~Ír-se no meio do mato e daí caminhar nua

ara a água do rio ou do mar, escandalizando aqueles moradores

e sobrado que não compreendiam a vista ou a paisagem que

se gozava do alto de suas varandas maculada por manchas ar

das, pretas e amarelas de nudez plebéia. Além do que havia ~re-

juizo da saude dos habitantes" que bebiam água de rios cons-

u ados pelos banhos da mesma plebe. Pelo que às Câmaras

forrae se juntando os juizes de paz na perseguiçao aos indivíduos

sobres e de cor que, com seus banhos, conspurcavam as águas

os rios e "representavam figuras contrarias à moral publica",

incorrendo assim nas genas estabelecidas pelo Código do Processo

Criminal no seu i . , artigo 12;.e não apenas nos castigos das

posturas das Câmaras.

0 que indicam várias dessas imposições e proibições no inte-

resse só de um grupo, ou apenas de uma classe, de uma raça ou

de uma cultura de. minoria e de região-raramente no interesse

do público ou do grosso ou da maioria da população nacional-é

que,pralelo ao processo de europeização ou reeuropeízação do

Brasil que caraterizou, nas principais áreas do País, a primeira

metade do século XIX, aguçou-se, entre nós, o processo, já an-

#

tigo, de opressão não só de escravos ou servos por senhores,



corno de pobres por ricos, de, africanos e indígenas por portadores

exclusivistas da cultura européia, agora encarnada principalmente

nos moradores principais das cidades. Nos moradores ou senhores

dos sobrados e das casas assobradadas. Opressão que não poderia

deixar de criar, como criou, revoltas ou insurreições como as já

referidas: a dos "Cabanos", a dos "Baianos", a dos "Quebra-Qui-

los"; e como a dos Malês, na Bahia, em 1835.

Não era possível que se conservassem noutro estado senão no

de crispação, no, de ressentimento e no de insurreição, grupos

aos quais se proibiam de modo tão simplistamente policial expan-

sões de fervor religioso e de ardor recreativo à maneira de suas

velhas tradições e de velhos costumes de sua cultura materna:

cantos de trabalho; trajos regionais; jóias, adornos, balangandãs.

Os indivíduos, aparentemente livres, aos quais se obrigava-como

aos sertanejos, aos matutos ou aos roceiros-num requinte de hu-

milhação, que não entrassem nas cidades montados ou sentados

nos seus animais de carga, mas ao lado ou à frente deles; e hurnil-

demente, a passo, pisando o chão e a lama como peões indignos

de se apresentarem aos olhos dos moradores de sobrados com

aparência ou modos de cavaleiros.

0 direito de galopar ou esquipar ou andar a trote pelas ruas

das cidades repita-se que era exclusivo dos militares e dos mili-

cianos. 0 de atravessá-las montado senhorilmente a. cavalo era

privilégio do homem vestido e calçado à européia. A água dos

rios poluía-se quando nela se banhava o muleque, o homem do

povo, o escravo. 0 ar das cidades enchia-se de ruídos como que

nefandos quando eram os africanos que cantavam seus cantos de

trabalho, de xangô ou de maracatu, tão diversos no som e nas

palavras das ladainhas cantadas nas procissões Católicas, nas fes-

tas de pátio de igreja, nos terços diante dos nichos.

0 que se verificava repita-se que era vasta tentativa de opressão

das culturas não-européias pela européia, dos valores rurais pelos

urbanos, das expansões religiosas e lúdicas da população servi]

mais repugnantes aos padrões europeus de vida e de comporta-

mento da população senhoril, dona das Câmaras Municipais e

orientadora dos juizes de paz e dos chefes de polícia. Como espe-

rar que a primeira metade do século XIX fosse, entre nós-nas

nossas áreas social ou culturalmente decisivas-um período diverso

do que foi? Foi um período de tão freqüentes conflitos sociais e

de cultura entre grupos da população-conflítos complexos com

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390 C=ERTo FREYw SoBRAi)os E MucAmiaos - 2.0 Tomo 391



aparencia de simplesmente políticos-que todo ele se distingue

pela trepidação e pela inquietação.

Nos séculos anteriores, houvera, talvez, maior prudência, maior

sabedoria, mais agudo senso de contemporização da parte das

autoridades civis (quando não também das eclesiásticas) e dos

grandes senhores patriarcais, com relação a culturas e a popu-

lações consideradas por eles inferiores; e encarnadas por ele-

mentos quando não servis, oprimidos, degradados ou simples-

mente ridicularizados pelos brancos, pelos cristãos-velhos e pelos

moradores de áreas urbanas ou dominadas por casas-grandes mais

requintadas em sua organização ou na sua estrutura senhoril. De-

àradados ou ridicularizados por peculiaridades de raça e de classe,

e cultura e de região que repugnavam aos grupos dominantes

da população, representados por aquelas predominâncias de raça,

de classe e de cultura que se consideravam superiores.

Nos fins do século XVIII, ouvido pelo Ministro de Estado Mar-

tinho de Melo e Castro sobre danças de negros no Brasil, era de

parecer o Conde de Povolide, antigo governador de capitania,

que tais danças não deviam ser consideradas mais indecentes

Jue os fandangos de Castella e as fofas de Portugal e os lunduns

os brancos e pardos daquelle paiz". Dançavam os negros, "divi-

didos em nações e com instrumentos proprios de cada uma",

fazendo "voltas como arlequins" e com "diversos movimentos do

corpo.. Dessas danças toleráveis deviam ser separadas, por me-

recerem "total reprovação", aquelas que "os pretos da Costa da

Mina" faziam "ás escondidas ou em casas ou em roças com uma

reta mestra, com altar de ídolos, adorando bodes vivos e outros

Feitos de barro, untados seus cor os com diversos oleos ou sangue

de gallo, dando a comer bolos Te' milho depois de diversas ben-

çans supersticiosas, fazendo crer aos rusticos que aquellas uncções

de pão dão fortuna, fazem uerer bem mulheres a homens e

homens a mulheres, e cheganão tanto a credulidade de algumas

pessoas, ainda daquelles que pareciam não serem tão rusticos

como frades e clerigos que chegarão a vir presos à minha presença

em os cercos que mandava botar a taes casas que querendo-os

desmaginar me foi preciso em as suas presenças lhes fazer con-

fessar o embuste aos pretos donos das casas; e depois remettel-os

a seus prelados para que estes os castigassem como merecião,

e aos negros fazia castigar com rigorosos açoites e obrigava aos

senhores que os vendessem para fóra ."55

0 Santo Ofício achava o Conde que não devia confundir umas

danças com as outras. E baseado, ao que parece, em parecer de

homem tão profundamente conhecedor de assuntos brasileiros, e

que o Ministro Melo e Castro escrevia a 4 de julho ao Gover-

nador de Pernambuco que as danças dos pretos "ainda que pouco

innocentes podiam ser toleradas, com o fim de se evitar com este

menor mal, outros males maiores, devendo coirítudo usar de todos

os meios suaves que a sua prudencia lhe suggere para ir destruindo

#

pouco a pouco divertimento tão contrario aos bons costumes".



Quando mais tarde veio de Goiana uma reclamação contra os

batuques dos negros, o Governador Dom Tomás José de Melo

respondeu aos reclamantes em ofício de 10 de novembro de

1796: "Quanto aos batuques que os ne&ros dos engenhos e dessa

villa costuinao gaticar nos dias santos não devem ser pri-

vados de seme ante funcção por ue para elles é o maior gosto

que podem ter em todos os dias 11 sua escravidão."59

Foi essa sabedoria de contemporização ou essa inteligente to-

leríncia de diferenças de comportamento de raça, de classe e de

cultura de região que faltou àquelas Câmaras Municipais do

Brasil-Império, mais ciosas de sua condição de Câmaras de ci-

dades principais; e àqueles juízes de paz, àqueles residentes de

Srovíncia, àqueles chefes de polícia,~' les prelaÃos que se de-

icaram à perseguição dos batuques candomblés, dos mara-

catus de escravos e de africanos como a uma guerra santa. Em

.Salvador, pelas posturas da Câmara de 1844, ficaram proibidos

os batuques, danças e ajuntamentos de escravos, em qualquer

logar e a qualquer hora..."

Semelhante política de coerçao ou repressão violenta seria,

aliás, aplaudida ela melhor imprensa da época. Em 1856 a po

ispersa _Recife, sob os aplausos

lícia provincial Xj va, na cidade do

da imprensa mais esclarecida, representada pelo Diário de Per-

nambuco, o maracatu, dos "pretinhos do Rosário", da mesma ci-

dade do Recife, não-esclarece o referido jomal-"porque julgasse

que aquele ipocente divertimento era atentatório da ordem pú-

blica, mas porque do maracatu passariam a bebedeira e daí aos

distúrbios..." -Pelo que a polícia provincia~ segundo a mesma

imprensa, "obrara muito beni"."

Não admira. Da mesma imprensa partiam aplausos a atos ainda

mais violentos da polícia com relação a negros e escravos. Porque

dois pretos cativos fossem ingenuamente queixar-se ao subdele-

gado da Boa Vista de que seus senhores os haviam castigado

com a2atoadas por eles consideradas injustas e o Javert: aten-

a

dessepa queixosos mandando "duplicar a dose de cada um", o



Diário de Pernambuco comentou 0 abuso de força, aplaudindo-o:

excelente despacho para tais petições..." Negro não tinha o di-

reito a queixar-se à polícia, de castigo de senhor branco. Escravo

não tinha o direito de pedir reparação de castigo que lhe tivesse

sido aSlicado por senhor. E nada parecia mais vergonhoso aos

olhos os moralistas do grave diário-representativo dos jornais

que melhor orientavam então o público brasileiro-que tolerar a

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392 GILBERTo FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.0 Tomo 393



olícia os chamados 1evantamentos de bandeiras" com "bandos

e meninas cantarolando à moda de Guiné". Tal costume nos

fazia passar "aos olhos do estrangeiro como selvagens".61

Eram os olhos que, talvez, mais que os de Deus, nos preocu. a-

vam no meado do século XIX-na verdade desde a abertu Nos

Sortos: "os olhos do estrangeiro". Os olhos do inglês. Os olhos

o francês. Os olhos do europeu.

Desses olhos o que principalmente deviamos esconder eram

costumes africanos e batuques de negros, danças de Guiné nas

ruas, sertanejos vestidos à moda regional nas capitais do Império.

Donde a benevolência com que vem registrada, num jornal de 26

de novembro de 1856, uma "reunião de pretos africanos", na

Ponte Velha do Recife, reunião em que os negros "arremedaram

toda a etiqueta dos salões, dançaram, tocaram, conversaram, co-

meram e beberam na melhor ordem poSSíVel".02 Isto sim, estava

direito. Podia ser visto por ingleses e franceses: os negros afri-

canos do Brasil divertindo-se conforr~e a "etiqueta dos salões"

dos brancos. Nada de danças de Guine nem de batuque nem de

xangô. Tudo como uma reunião de sobrado burguesmente pa-

triarcal. Danças arremedadas das dos brancos. Música imitada da

dos brancos. Bebidas européias. Comida feita segundo as receitas

dos livros europeus.

Por consideração ou temor aos "olhos dos estrangeiros"-isto é,

aos olhos dos ingleses e dos franceses-e sob a pressão de inte-

resses, e não apenas de valores, representados por esses olhos cri-

ticos ou desdenhosos de quanto fosse diferente dos costumes e

das modas dominantes na Europa ocidental, carbonifera e bur-

guesa-é que se destruíram, entre nós, na segunda metade do

século passado-na verdade durante o século XIX inteiro-algu-

mas daquelas sobrevivências rústicas ou orientalmente patriarcais,

várias daquelas expressões mais pitorescas de diferenças de cul-

tura, de raça, de classe e de região jue vinham coexistindo entre

nós sob o primado nada despótico o elemento europeu, isto e,

o lusitariamente Católico, Rompeu-se o equilíbrio para acentuar-se

pela exclusão violenta de diferenças, a supremacia ou a superio-

ridade do elemento europeu, senhoril e urbano, agora com um

sentido nitidamente burguês, capitalista, francês e inglês de do-

minação. Dominação de "superior" sobre "inferiores".

Bem caraterístico da época é o desprimor que foram adqui-

rindo expressões estéticas e recreativas de uma cultura já brasi-

leira-e não apenas patriarcal-como a arte da modinha cantada

ao violão nas festas de família e nas serenatas e alvoradas de rua;

como o hábito do rapé esmeradamente feito no Rio de janeiro

ou na Bahia ou importado de Lisboa e até de Londres-hábito

generalizado entre a gente nobre de casa-grande e de sobrado;

como a cozinha, a doçaria e a confeitaria mestiças, de repente

repelidas ou perseguidas sob a acusação de serem "africanas",

"grosseiras", "indignas de paladar de gente fina"; como os santos

#

de cajá feitos por santeiros rústicos com uma técnica meio-euro-



péia e meio-asíatica ou meio-africana, 7ue lembra a das escul-

turas do Aleijadinho; como as redes de io de algodão e de plu-

mas feitas por indígenas; como os móveis talhados em madeiras

da terra por mãos de mulatos que se deliciavarri em arredondar

ernas de mesas e de cadeiras e em amolecer a técnica européia

Neo móvel patriarcal e de convento, dando-lhe formas aprendidas

com artistas portugueses impregnados de influências do extremo

oriente e da própria África-e nãb apenas da Europa ocildental-e

inspiradas por um sentido já brasíleiramente mestiço da vida e

da natureza;.como a arte da renda e do bico, das mulheres rús-

ticas do interior; como a das jarras, bilhas e quartinhas de guar-

dar água, conservando-a fresca; como a das cestas e balaios; como

a dos balangandãs, das jóias e das pratas trabalhadas também

por mãos mestiças, com floreios e variações já tão carateristica-

mente brasileiras ou regionais como as que tornaram doces e

guisados importados do Reino novas combinações de gosto ou de

estilos marcados pelo trópico e pela mistura de ingredientes. 0

arroz-doce feito com leite de coco. 0 cuscuz feito com mandioca.

0 filhó comido com mel de engenho.

Os anuncios de jornal da época deixam bem clara a rápida

substituição, nas casas da ~ente~mais fina, do violão Xelo ano

inglês, da modinha pela música italiana ou francesa, ( rappéi da

o

Bahia e do Rio de janeiro pelo charuto de Manilha, e, mais



tardo, pelo de Havana, do doce ou do quitute brasileiro feito em

casa pelo importado da Europa e adquirido na confeitaria ou na

mercearia, do remédio igualmente caseiro pelo i almente impor-

tado da Europa e adquirido na botica_ou na gruógaria, da rede

de repouso pelo canapé, pelo marquesão, e pela cadeira de ba-

lanço, do santo de cajá feito por santeiro da terra pelo importado

da Europa e de feições puramente européias, do móvel feito por

marceneiro pelo importado já feito de Portugal, de Hamburgo,

da Inglaterra, da França e até dos Estados Unidos, da renda e do

bico feitos na terra Selos, fabricados na Europa e de lá impor-

tados, do vasilhame e barro pelo de ferro, pelo de vidro ou de

cristal, das jóias de ouro e prata maciça feitas na terra pela im-

Nortada da Europa e aqui trocada, com enorme vantagem, pela

a terra, por judeus da Alsácia especializados nesse gênero de

negócio.

Com essa transformação verificada nos meios finos ou supe-

riores, deu-se a degradação de artes e hábitos mestiços que já

se haviam tornado artes e hábitos da raça, da classe e da região

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394 GMBIERTo FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.' Tomo 395



aristocrática, em artes e hábitos de classes, raças e regiões consi-

deradas inferiores ou plebéias. Foram várias essas degradações;

e algumas rápidas.

0 rapé, até o meado do século XIX hábito de fidalgo, nas ca-

itais e nas casas-grandes mais ilustres do Brasil, foi-se degra-

ando em vício apenas de senhores rurais mais rústicos, de ma-

gistrados e vigários desterrados no interior, de negros velhos, de

caipiras, de tabaréus, de matutos, de roceiros. Entre estes os lenços

de Alcobaça foram-se tornando símbolos de um vício ridículo e

lamentável que chegara, entretanto, a ser hábito elegante dos

grandes do tempo do Rei e dos primeiros decênios do Império.

Tão elegante que da arrematação dos bens penhorados do espólio

do Conde da Barca, constavam, segundo o Diário do Rio de

janeiro de 15 de março de 1822, "caixas para tabaco".

0 mesmo verificou-se com o violão, vencido de tal modo pelo

piano inglês de cauda que se tornou vergonhosa sua presença

em casa de gente que se considerasse ilustre pela raça e nobre

pela classe. Também o violão tornou-se símbolo de inferioridade

social e de cultura, arrastando na sua degradação a modinha.

Violão e modinha desceram das mãos, das bocas e das salas dos

brancos, dos nobres, dos ricos para se refugiarem nas palhoças

dos negros e dos pardos, e nas inaos dos capadócios, dos cafa-

jestes, dos capoeiras, ao lado das rudes vasilhas de barro, das

redes de fio de algodão, dos santos de cajá, das rendas e dos

bicos da terra, das panelas de cozinhar caruru, das gara as de

maracujá com cachaça com que a plebe se alegrava nos Ias de

festa.

Largos anos se passariam até que se verificasse novo ajusta-



mento em valores brasileiros, nacionais, mestiços, de hábitos, artes

e técnicas que, na primeira metade do século XIX, se separaram

duramente em valores ou hábitos cruamente caraten'sticos de raça,

de classe e de região "superior- ou "inferior", depois de terem

já atingido sentido quase universalmente brasileiro-ou pari-bra-

sileiro-através da miscigenação de raças e da interpenetração de

culturas nacionais e regionais. 0 caso de vários alimentos, de

várias danças, de vários remédios.

Tais diferenças vieram acentuar outras, inseparáveis da orga-

nização escravocrática ou do sistema patriarcal, isto é, de sua

hierarquia: velhos e meninos; homens e mulheres; senhores e

escravos. Diferenças de vozes, de gestos, de insígnias, as dos

dominadores não se confundindo com as dos dominados. A voz

de mando era uma-e vários observadores estrangeiros repararam

nas próprias senhoras brasileiras do tempo da escravidão o hábito

de falarem gritando~63 naturalmente pelo costume de darem de

longe ordens a escravos ou servos-e a servil, outra: "humilde",

'mansa", " ol'tica" "fina" e até "poética"64 como aparecem em

anúncios XE iornal's; o. andar do senhor era um, o do escravo,

outro, embora a tendência deste para imitar, uando pajem, mu-

#

cama ou malungo, o andar e os gestos da farrila senhoril de que



sociologicamente era membro; o comportamento dos velhos era

um, e outro, muito diferente, o dos meninos e moços da casa que

na presença dos velhos não levantavam sequer a voz, não riam,

não fumavam; os gestos dos homens eram uns, e outros, muito

diversos, os das mulheres, que deviam se distinguir pela graça,

pela delicadeza, pela doçura, pela submissão aos pais e aos

inaridos, pelo sacrifício aos filhos.

Diferençw também de doenças, Embora logicamente as da

sedentariedade devessem ser as da raça e classe senhoris e as de

excesso de esforço ou de ação, as da raça e classe servis, deve-se

notar que eram principalmente os senhores que sofriam da "doen-

ça dos cavaleiros", isto é, a "seiatica" que afligia os cavaleiros

depois de longas caminhadas a cavalo Ou a mula,65 devido à quen-

tura que do corpo do animal-principalmente da mula-se comu-

2

nicava às pernas do homem. Enquanto eram comuns entre os



ne n

,tros das senzalas, doenças de sedentários como a que se atri-

.fri

bu à 'agem" do chão ou do barro onde muitos dormiam e que,



de qualquer modo, quase não acinzentava, descorava e matava

senão escravo de eito: a então cliamada "hypoemia inter-tropicar.




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