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siderada servil ou inferior; sertanejos superiores aos homens do

litoral em poder econômico e em prestígio político; proprietários

rurais dependentes de tal modo de comissários de cidades a

ponto de tornarem Seus vassalos econômicos.

A despeito de tais inversões e confusões, podem ser destacados

do conjunto de valores, hábitos e estilos brasileiros de vida e de

cultura, elementos que se vêm conservando, em nosso País, cara-

terísticos ou particularidades de classe, de raça ou de região:

tipos de casa, de leito e de sepultura, meios de transporte, ani-

mais domésticos e de campo, alimentos, remédios, trajos, calçados,

chapéus, devoções, vícios, maneira de sentar-se o indivíduo, di-

vertimentos, brinquedos de meninos, flores de jardim. Assim, de

São Benedito se sabe que é, no Brasil, desde dias remotos, "santo

de negro", como Santo Onofre é "santo de pobre". 0 samba foi

r muito tempo divertimento de escravo ou de preto de e

Eorarneo ou gente senhoril não participava. São vários os reme os

2iu

c

de negro e mesmo de caboclo, de matuto, de caipira, de serta-



nejo, que têm sido desprezados pelos "civilizados" como indignos

#

1 BIBLIOTECA PúELIC-11, 1'0 FIARÁ



i

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380



GILBERTO FREYRE

de gente fina ou delicada. Nas áreas mais requintadas em cultur,

européia, sempre têm se esmerado aqueles -civilizados" no usc

e até no abuso de alimentos, bebidas e remédios caros, importado

da Europa e tornados uma esyecie de expressão ou de ostentação

i

i



de classe superior e d ina-gente a quem os alimentos, as

bebidas ou remédios rústicos poderiam fazer maior dano que as

proprias doenças. Nos anúncios de jornal da primeira metade do

século XIX são freqüentes os remédios que se recomendam como

proprios para , pessoas delicadas", "fidalgas" ou "nobres": tal o

"Elixir tonico anti-cholerico de Guilhie" ou "remedio do Le Roy,

para as Senhoras e os Ficialgos", alguns dos quais, entretanto,

como o próprio Le Roy, acabariam desprezados pelas "Senhoras"

e pelos "Fidalgos" e vendidos em garrafas só "para as roças e

para os negroS".44

Também como alimentos próprios de "nobres" se recomendam

nos anúncios da mesma época o presunto, a passa, o petit-pois,

em contraste com a carne-seca, o bacalhau, a abóbora, tidos por

comida Silebéia, grosseira ou rústica. Os gróprios peixes ainda

hoje se ivídem em classes que correspon em a classes sociais,

através de uma verdadeira hierarquia que se torna notável du-

rante a Semana Santa. 0 bagre, peixe considerado inferior, era

significativamente chamado no tempo do Brasil-Colônia, o "mu-

lato velho" .45

Grande parte do desdém do brasileiro "progressista" pela casa

de palha ou pelo inucambo-sob varios aspectos, habitação boa

para o meio tropical-parece vir do fato de ser o mucambo ou a

palhoça um tipo de habitação associado durante séculos a classe,

raça e região consideradas inferiores e das quais, muitas vezes,

provém o "progressista" ou "reformador" ansioso de desembara-

çar-se das marcas dessas origens. Com o leite de cabra-bicho foi

hábito, por longo tempo, criarem-se os meninos sertanejos e, nas

cidades, oslobres ou apenas remediados, enquanto os da classe

a

alta, nas ci ades e nas áreas agrárias mais opulentas, criavam-se



com leite de vaca ou de cabra-mulher. A distinção entre cabra-

-bicho e cabra-mulher, ambas para o aleitamento de crianças, é

freqüente nos anúncios de jornais da primeira metade do sé-

CUJO XIX.46

Dormir em cama foi, também r longo tempo, sinal de dis-

tírição social-de classe, de raça e e região culta ou rica-no meio

do uso generalizado da rede para leito e não apenas para re-

pouso-repouso móvel-durante o dia ou transporte aristocrá-

tico-na falta do palanquim-do indivíduo-principalmente da se-

nhora-de uma casa a outra e até de uma cidade a outra ou de

cidade a engenho ou fazenda. Com relação à área paulista, o his-

#

toriador Sérgio Buarque de Holanda já destacou o fato de terem



SOBRADOS " UCAMBOS - 2.' Toxio

381


sido raras as camas nos primeiros séculos de colonização. Só os

indivíduos muito opulentos possuíam cama .47

1

Também nas prisões refletiram-se sem re, entre nós, dístinções



de classe e de raça, não se compreenSendo que, pelo mesmo

crime, fossem rec*idos ao mesmo tipo de prisão indivíduos

de classes e raças , aiversas. Em 1729, o Bispo de Pernambuco,

Dom Frei José Fialho, levantou-se quase como um leão ferido

no peito na defesa daqueles clérigos que se achavam presos nas

cadeias de Olinda e do Recife, "servindo de grande escandalo

e indecencia. contra o Habito Sacerdotal acharem-se os taes ele-

rigos na companhia dos seculares facinerozos, sendo os mais

d'elles Pardos e Negros. . ."41 E durante anos, um dos motivos

de serem procurados avidamente por brasileiros os títulos de

capitães e sargentos de milícia e, depois, os de Guarda Nacional,

foi o direito ou o privilégio que se concedia ao portador de tais

titulos de ser recolhido, quando acusado de crime, a prisão espe-

cial, com honras de militar, conferidas também ao portador de

titulo acadêmico.

0 mesmo se verificaria com as primeiras casas de saúde a se-

rem estabelecidas entre nós, e que vieram quebrar a exclusividade

dos hospitais das Ordens Terceiras, para os ricos, e das Mise-

ricórdias, para os pobres e escravos e juntar-se aos hospitais para

soldados: instalaram-se em antigas casas-grandes patriarcais de

sítio adaptadas às novas funções. E como a de Santo Amaro,

estabelecida num casarão desses na cidade do Recife, no meado

do século XIX, foram repartidas de modo a poderem receber

essoas de diversas cate ia Categorias correspondentes tanto

região de origem dos Vrensies-sertanejos, moradores de enge-

nhos, estrangeiros empregados no comércio e em oficinas, embar-

cadiços-como a sua classe e à sua raça-remediados, pobres, livres,

escravos, brancos, pretos, pardos. Constando aos proprietários de

mesma casa de saúde-a de Santo Amaro-os Drs. Ramos e Seve,

vir se espalhando o boato de que "os doentes brancos estão mis-

turados com os escravos" , apareceram eles, alarmados, em aviso

lDelo jornal principal da cidade-o Diário de Pernambuco, de 21

àe fevereiro de 1857-desfazendo "a falsidade deste boato" e de-

clarando que "há em seu estabelecimento cômodos excelentes para

a separação dos doentes conforme suas categorias, e moléstias,

e que nunca se deu o caso de estar um doente,branco no mesmo

quarto do escravo". Declararam mais que "as roupas, camas, lou-

ças e mais objetos do uso dos doentes estão também separados

1 .... ] conforme suas categorias, e moléstias". As "categorias" so-

ciais e étnicas avultavam sobre as doenças.

#

Aliás, são da mesma época casas de saúde destinadas exclu-



sivamente a escravos, enquanto os ingleses, desde os começos do

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382



GrLBERTo RLEYRE

século XIX, foram juntando, nas principais cidades comerciais

do Brasil , às capelas e aos cemitérios particulares, hospitais ou

casas de saúde destinadas exclusivamente aos seus embarcadiços,

marítimos, negociantes solteiros, técnicos e operários de fundição.

As casas de saúde e hospitais diferenciavam-se não só pela raça,

pela classe e pela região de origem dos doentes a que principal-

mente se destinavam como pela técnica e pelos remédios empre-

gados pelos doutores e pelo tipo de assistência religiosa dispen-

sada aos moribundos, numa época em que eram profundas as

divergências entre Católicos e Protestantes e também entre a tera-

pêutica inglesa e a da Europa latina.

Profundas eram também as diferenças entre ingleses e luso-

-brasileiros quanto ao tipo de calçado predominante entre as

classes médias e proletárias dos dois povos e também quanto aos

seus hábitos de cuspir , de tratar do cabelo e dos dentes: hábitos

tão difíceis de ser conciliados na

célebre o horror britânico não só ao

convivência dos hospitais. É

muito cuspir, às muitas escar-

radeiras e ao palito de dentes como aos tamancos de origem

portuguesa e rural que, no Brasil, tornaram-se, com a freqüente

transformação de portugueses de origem rural em homens urba-

nos, o tipo predominante de calçado nas cidades entre pequenos

· até médios e grandes comerciantes portugueses e brasileiros;

· entre operários, marítimos de cais, negros e pardos livres de

mercado e de rua. 0 comércio de tamancos chegou, no meado

do século XIX, a ser um dos mais importantes nas cidades brasi-

leiras; e sabe-se-é da tradição oral, pelo menos-que até irmãos

do SS. Sacramento desfilavam de tamancos nas procissões. Que

de tamancos iam à missa negociantes e não apenas caixeiros do

Rio de janeiro, de Salvador e do Recife. Que de tamancos mon-

tavam a cavalo anti os comerciantes transformados em senhores

de engenho-o caso Se Cabriel Antônio em Serinhaém, por exem-

plo-em contraste com aqueles decaídos da opulência rural que,

mesmo dentro de casa e nus da cintura para cima, conservavam-se

de botas de andar a cavalo .49

0 Recife, como o Rio de Janeiro, chegou a ter "grande fábrica

de tamancos", a da Rua Direita, onde, no meado do século pas-

sado, encontravam-se "tamancos de todas as qualidades", princi-

palmenté os 11 proprios para a estação invernosa", anunciados no

Diário de Pernambuco de 30 de janeiro de 1858. Eram tamancos

que estalavam nos pés dos caixeiros e dos proprios comerciantes

pelas duras pedras do calçamento do Recife, de Salvador, do Rij

de janeiro, com um estridor que muito deve ter doído aos ouvi-

dos delicados dos ingleses estabelecidos com armazéns e escri-

tórios nas mesmas cidades, explicando-se, talvez, por sua reação

#

de gente quãse fanática do silêncio a essa espécie de barulho,



SOB~05 E MUCAMBOS - 2.0 Tomo

383


o fato de ter se generalizado entre nós como invenção inglesa

-quando parece ter sido apenas um aperfeiçoamento inglês de

técnica brasileira-o sapato de sola de borracha, por algum tempo

fabricad incipalmente pelos escoceses da Fábrica Clark. Era

o sapatooXersola de borracha a verdadeira antítese do tamanco

ue, nos pés de doentes e serventes de hospital, tornava a melhor

3as casas de saúde brasileiras verdadeiro inferno para enfermos

ou convalescentes ingleses e talvez para os proprios sertanejos,

habituados a alpercatas inacias.

0 inglês Wetherell observou na Bahia da pruneira metade do

século XIX o uso de sandálias por "muitospadres" e pela "maioria

dos matutos", enquanto os tamancos, ou tamancas"-registra ele

à página 146 de seu Stray Notes from Bahia-eram, usados por

muita gente na cidade.

As casas de saúde exclusivamente inglesas. e as divisões por

categorias" de hospitais como o dos Drs. Ramos e Seve, parecem

ter correspondido não só a preconceitos de raça e de cor da

parte da gente britânica em suas relações com o Brasil mestiço

ou negróide do século XIX e da parte de umas classes com re-

lação a outras, dentro da própria sociedade brasileira, como tam-

bém a diferenças de estilos regionais e nacionais de cultura e

de vida entre os dois povos e entre aquelas várias classes ou sub-

classes. Pois mais do que nos hotéis, nos restaurantes e nas igre-

é difícil a convivência de indivíduos muito diversos em estilos

e cultura e de vida, nas casas de saúde e nos hospitais, onde

a maior sensibilidade do enfermo ou do convalescente a dife-

renças de raça, de classe e de cultura regional ou nacional nos

companheiros, torna quase impossível a tolerância mútua.

0 trajo nas principais cidades do Brasil durante a primeira

metade do século passado-época que nas então principais áreas

brasileiras mareou o nítido começo de desintegração do patriar-

cado rural entre nós-deixando de distinguir, com o vigor de

outrora, as gerações, isto é, os velhos dos moços-embora a ten-

dência continuasse até quase nossos dias no sentido dos moços

mais sequiosos de poder se anteciparem em trajar como velhos,

para absorverem assim o prestigio característico da idade pro-

vecta-acusava mais visivel e pitorescamente que outros estilos

de cultura as diferenças de classe, de raça e de região entre os

brasileiros. Com o começo nítido de desintegração do patriarcado

rural como o maior poder econômico-e não apenas moral-em

nosso meio, principiou a definir-se a tendência no sentido dos

vários trajos regionais e de raça e de classe acompanharem o das

cidades. Ou fosse o da Europa ocidental e triunfantemente bur-

guesa, da qual o Brasil, despregando-se do Portugal meio mou-

risco, passou a ser colônia não só econômica como, sob vários

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GILBERTO FR.EYRE

outros as Pa ectos, cultural. Daí os próprios senhores de engenho

e fazendeiros mais opulentos não se apresentarem nas cidades

senão vestidos burguesmente de sobrecasaca e cartola e burgues-

mente calçados de botinas. Os primeiros chapéus-do-chile parecem

ter surgido.em cabeças de desabusados. De chapéus de couro do

sertão ou de palha grosseira, do tipo dos de Ourícuri, de sapatos

do tipo, também rústico, de Aracati, quem se apresentava nas ci-

dades era o matuto, o roceiro, o criador sertanejo de cabra, o

dono de engenho pequeno, homens a seu modo senhoris mas

prejudicados, em sua condição de senhores, pelo seu excessivo

arcaísmo. Os simples matutos e roceiros, os "moradores" de enge-

nhos grandes, os pequenos lavradores e criadores, os caipiras,

estes as cidades tiveram de lhes impor suas modas de trajo, tal

a insistência deles em se apresentarem aos olhos burgueses de

camisa por fora das calças, à moda sertaneja ou caipira: e de

chapéus de palha ou de couro dos mais crus e rústicos.

Daí ter sido a primeira metade do século XIX uma época

de leis municipais muito significativas pelos estilos de trajo de

homem que consagravam através do repúdio aos modos de trajar

mais ostensivamente rurais ou rústicos. São leis que evidentemente

exprimem a vitória dos estilos urbanos sobre os rurais e que devem

ter concorrido para as reações, que então se verificaram, das

populações rurais mais vigorosas à tirania das cidades do litoral:

revoltas como a dos "Cabanos", a dos "Balaios", a dos "Quebra-

-Quilos", a dos "Farroupilhas". Gente cujo próprio traio de "re-

voltosos" procurava confundir-se com o mato, com as árvores,

com as folhas secas.50

Em 1831 a Câmara Municipal do Recife repelia como um in-

sulto à dignidade urbana o hábito de matutos e sertanejos anda-

rem em ceroulas e camisas: "Ninguem poderá tranzitar pelas ruas

desta Cidade e seos suburbios em ceroulas e camisa, mas sim em

calças. . ." Era igualmente proibido aos mesmos matutos e serta-

nejos entrarem na cidade montados ou sentados em~cavalos que

trouxessem carga: deviam vir puxando os animais 'pela arreata

ou cabresto"."

E a passo. Nenhum matuto entrasse na cidade esquipando ou

galopando como se as ruas fossem estradas e eles, matutos, cava-

leiros entre peões. Os que corressem a cavalo dentro da cidade,

sendo homens livres, pagariam a multa de trinta mil-réís e sendo

cativos, sofreriam três dúzias de palmatoadas. Excetuavam-se as

ordenanças montadas e os oficiais e soldados em serviço público,

e, é de presumir em face das regalias caraterísticas da época,

os homens de botas de montar a cavalo e de esporas de prata

em geral, que estes eram quase todos oficiais de milícias ou da

Guarda Nacional que as sucedeu em prestígio; e, esquipando ou

q0 ORrj* ~,1h C

#

P A AGR DO



NOIAENDI SENHORAS

~~& 11-14 £1,9 o

AN*NCIO DA FAMOSA LOJA DE C~íUS-DE-SOL Do RECIFE, dos

irmãos Sousa e Melo (aparece no retrato o chefe da nhores do também célebre Engenho São Severino dos Ramos,

de Pau-XAlho (Pernambuco).

galopando, estavam tais oficiais honorários no gozo ou na osten

tação de direitos tão amplos que iam ao extremo de conferir a

condição de brancos aos portadores dos títulos máximos. Ora,

oficiais honorários de milícias ou da Guarda Nacional eram quase

todos os senhores de engenho ou fazendeirim, ortantes da época.

Quase todos tinham, seus títulos e gozavam vilégios que

decorriam desses títulos. Quase todos faziam Vitas de mon

tar a cavalo e das esporas de prata, insígnias brilhantes de sua

situação de senhores ou fidalgos rurais. De modo que entre eles

e os matutos, os sertanejos, os caipiras que apenas revestiam os

pés de alpercatas ou de sapatos de couro cru e não sabiam o

que era dominar cavalos com esporas de prata, a distáricía. social

e, ostensivamente cultural, que havia, era grande. Imensa, mesmo,

embora pelo critério de branquidade fossem, numerosas vezes, os

sertanejos-muitos deles louros e de olhos azuis-os brancos puros;

e os senhores de engenhos e de fazendas, os incertos ou turvos

quanto à sua pureza de sangue europeu em relação com o de

africano ou de escravo.

de Mais forte que a condição de raça, como condição ou base

. prestígio, eram, evidentemente, a condição de classe e a pró-

Wia condição de região de origem ou residência do indivíduo.

à

ão nos esqueçamos de ue, em Pernambuco, quem fosse pro-



prietário de largas terras S cana na chamada zona da mata era

como quem fosse grande senhor de engenho na zona baiana do

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386


QLBERTo FREYRE

Recôncavo ou grande estancieiro no Rio Grande do Sul: um pri

vilegiado pela região física e pelo espaço social de sua proprie

dade ou de sua fazenda. Vantagem que, ligada à de raça branca

à de classe superior e à de sexo chamado forte, favorecia o indi

víduo com as condições ideais de bem-nascido e de bem-situad(

na sociedade: o caso de Araújo Lima, em Pernambuco. 0 de

Saraiva, na Bahia. 0 de Paulino de Sousa, no Rio de janeiro

0 caso de Joaquim Nabuco, bem-nascido como ninguém no Brasil

de há cem anos e desde pequeno bem-situado como ninguém, cul-

tural e socialmente, na sociedade brasileira do Segundo Reinado

e do começo da República.

Voltemos, porém, às posturas de Câmaras brasileiras da pri-

meira metade do século XIX, que, como as do Recife de 1831

e as de Salvador, de 1844 ~52 se referem a situações de raça, de

classe e de região dos indivíduos e nos permitem surpreender,

através de suas definições de status e de suas restrições à liber-

dade individual, a ostentação de poder dos brancos sobre os

pretos, dos senhores sobre os escravos e, como evidência de

transição do patriarcado rural para o urbano, das populações das

cidades-ou de suas élites dominantes: os moradores de sobrados-

sobre as poçulações dos campos. Excetuados destas últimas, é

o

claro, os sen ores rurais mais fortes ou mais ricos, muitos deles



moradores de casas-grandes assobradadas. Homens. enobrecidos

com títulos não só de barão e de visconde concedidos pelo Impe-

rador metropolitano como de capitães de milícias e da Guarda

Nacional que constituiam antes forças auxiliares do Exército cons-

titucional do que autônomas. E o Exér , cito constitucional ou im-

perial, embora servido por homens de cor, desde os primeiros

dias do Império, tomou-se afirmação do oder, da cultura e dos

interesses predominantemente europeus Xa Corte e das capitais

de província, vitoriosas sobre as populações dispersas, meio anár-

quicas e mais ou menos deseuropeizadas, ou antietiropéias, do

interior. Esse papel, representou-o nitidamente Caxias cuja espada

garantiu não só a integridade nacional contra as insurreições re-

gionais como a supremacia da cultura européia da élíte predomi-

nantemente branca e da classe senhoril (que era principalmente

a agrária embora já fosse também a dos grandes negociantes das

capitais) sobre os elementos que tentaram disputar ou compro-

meter tal supremacia.

Entre as posturas da Câmara Municipal da Cidade do Recife

-cidade insistentemente referida neste capítulo por ter sido, na

época aqui considerada, mais carateristica que qualquer outra

capital brasileira, exceção feita da Metrópole (sob alguns aspec-

tos, atípica) do rocesso de reeuropeização ou europeização, da

paisagem, à viTá e da cultura brasileiras'-são particularmente

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SOBRADOS E MucAmBos - 2.' Tomo



387

.significativas as que atingeir; aqueles pretos cujos costumes mais

cruamente africanos e aqueles escravos cujo comportamento ou

cujo trajo, considerado mais ostensiva ou perigosamente impró-

, de sua condição servil, perturbavam ou inquietavam os indi-

Muos da raça, da cultura e da classe dominantes com respOn-

sabilidades de administração ou de governo das cidades e do

País. Assim, ficava proibido, na Cidade do Recife artir de

10 de dezembro de 1831, fazer alguém "vozerias, ~laariXos e gri-

tos pelas ruas", restrição que atingia em cheio os africanos e as

suas expansões de caráter religioso ou simplesmente recreativo.

Ficava, também, proibido que os pretos carregadores andassem

Velas ruas cantando, "desde o recolher até o nascer do sol".'3

ejstrição severa, dado o hábito dos africanos de adoçarem o

trabalho com o canto. Em Salvador, pelas posturas de 1844,

roibíam-se "lundus, vozerías; e alaridos" só "nas horas de si-

rc

rc

encid*."



Mais: nenhum escravo poderia, na cidade do Recife, andar na

rua "de dia ou a noite, com E aos, ou outra qualquer arma, publica

ou oeculta, sob pena de sor rer de 50 a 150 assoutes na Cadeia,

conforme a qualidade aggravante da arma, isso executado será en-

tregue a seo, senhor..." Só "os carregadores de Tipoias, ou redes"

Joo ]


- eriam trazer as competentes furquilhas, que lhes; sirvão de

áescanço, e aos companheiros, e os que condusem lenha, pequenos

paos que ajudem a carga".55

Desde remotos dias coloniais que os homens de governo, no

nosso País, preocuparam-se em proibir aos escravos e aos pretos

não só a ostentação de jóias como a de armas, considerando-se que

umas e outras deviam ser insígnias da raça e da classe dominantes.

As armas não foram consideradas só insígnias, como vantagens téc-

nicas em caso de luta ou conflito de senhores com servos. Dai, pro-

vàvelmente, o fato de ter se desenvolvido entre os negros e mu-




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