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com alguns acréscimos importantes, as mesmas utilizadas no

preparo do ensaio inicial. De modo que, no fim do presente

volume, se apresentarão apenas a bibliografia e as fontes

#

LIV


Gii.DERTo FREYRE

utilizadas particularmente no preparo deste segundo ensaio

da série iniciada com Casa-Grande & Senzala.

As ilustraçÓes do Sr. Luís (Lula) Cardoso Ayres baseiam-

se sobre material recolhido por nós, para o ensaio que se se-

gue, de arquivos públicos, eclesiásticos e principalmente Par-

ticulares. Dessas ilustraçÓes destacaremos a planta (Ia casa

nobre ou sobrado do Barão de Itambi, no Rio de Janeiro, re-

constituída de acordo com indicaçÓes minuciosas de sua ne-

ta, a Ex.- Viúva Joaquim Nabuco, Dona Evelina, há pouco

falecida. Tão valiosa colaboração de uma das sobreviventes

mais ilustres da antiga sociedade patriarcal no Brasil, de-

vemo-la à gentileza da Sr,.,"Carolina Nabuco. Ao desenhista

admirável nossos agradecimentos pelo esmero artístico e pela

preocupação em ser exato com que se dedicou ao difícil tra-

balho de ilustrar um ensaio não só de reconstituição histó-

rica como de interpretação sociológica, acompanhando o au-

tor numa e noutra atitude e procurando dar vida ao material

já pálido recolhido dos arquivos. Mas vida sem sacrifício

de sua configuração exata. Iguais agradecimentos aos dese-

nhistas M. Bandeira, Carlos Leão e G. Bloow.

Também devemos salientar gentilezas recebidas dos dire-

tores do Arquivo Nacional, da Biblioteca Nacional, do Ar-

qutvo e ao Museu do PAIth Ú MMIt 9 ft MUÇÈK% 1D3 ES-

tado de Pernambuco, que nos facilitaram o acesso a obras,

documentos e mss. raros. Devemos especiais agradecimen-

tos ao por algum tempo diretor da Biblioteca Nacional, Dr.

Josué Montelo, ao por algum tempo diretor dá Seção de Obras

Raras e Mss. da Biblioteca Nacional, e depois diretor do Ar-

quivo Nacional, Professor José Honório Rodrigues, ao Sr.

Medeiros Lima, por algum tempo diretor de seção da mesma

Biblioteca e ao subdiretor da Biblioteca do Estado de Per-

nambuco, Sr. Francisco Caheté, e aos nossos amigos Edson

Nery da Fonseca, Ivan Seixas e a Sr.a Maria Clay que nos

auxiliaram na cópia de documentos e mss. de arquivos e bi-

bliotecas, particularmente na cópia de documentos e mss.

de arquivos de confrarias e irmandades religiosas e car-

tórios do Rio de Janeiro, da Bahia, de Pernambuco e do

Maranhão. A outro amigo, o Sr. Risério Leite, descendente

de antiga família patriarcal do interior da Bahia, agradece-

mos a remessa de parte considerável do arquivo dos seus

avós, senhores do sobrado do Brejo, com interessante cor-

respondência ilustrativa do papel desempenhado pelo compa~

drio e pela política de partido na convivência patriarcal em

nosso país. Ao ilustre amigo, o Senador pelo Distrito Fe-

deral Sr. Hamilton Nogueira, as facilidades que nos propor-

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PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO



LV

cionou para o exame do arquivo da família de sua senhora

que foi uma das famílias patriarcais mais ligadas ao Paço

durante o Segundo Reinado: a família Lassance da Cunha.

A outro amigo, Antônio Alves de Araújo, a parte do arqui-

vo de família - a do Barão de Amaragi (Alves da Silva)

- que pôs à nossa disposição.

Pouco antes de morrer, velha parente nossa, Maria (Iaiá)

Cavalcanti de Albuquerque Melo, passara bondosamente às

nossas mãos grande parte do arquivo de seu pai, Félix

Cavalcanti de Albuquerque. 0 mesmo fizera com as foto-

grafias mais antigas do arquivo do seu Engenho Boa Vista,

do Cabo, nosso bom amigo Paulo Cavalcanti de Amorim, Sal-

gado e com relação aos restos de sua outrora opulenta cole-

ção de jornais brasileiros, o velho Alfredo Couceiro. Com

relação aos arquivos, ou restos de arquivos, de família, dos

Engenhos Japaranduba e Noruega, de Pernambuco, de Luís

Pinto, de Minas Gerais, de Dona Joaquina do Pompeu, tam-

bém de Minas, e da Fazenda Forquilha, de tanta significação

na história da sociedade patriarcal do Rio de Janeiro, nun-

ca será demais salientar que devemos a oportunidade de os

ter examinado demoradamente, ou deles haver conseguido

retirar originais, ou cópias de originais, de interesse para nos-

sos estudos, a amigos já jalecidos: Pedro Paranhos Ferrei-

ra, André e Gerôncio Dias de Arruda Falcão, Alberto Álva-

res e Saul Borges Carneiro, casado na família Werneck; e

também ao Sr. Israel Pinheiro.

Também nos utilizamos de restos de arquivo dos velhos

Alfredo Alves da Silva Freire (que alcançam tanto suas ex-

periências do genro de senhor de engenho como as de arma-

zenário de açúcar e, no fim da vida, senhor ele próprio de

três engenhos) e Ulisses Pernambucano de Melo, nossos avós

paterno e materno,,este último por algum tempo residente no

sobrado da Soledade onde nasceu Manoel de Oliveira Lima:

mestre que nos estimulou aos estudos de História e de An.

tropologia Sociais.

Santo Antônio de Apipueos,

março, 1949-1961.

G. F.

#

#



wx~

_; -ã4 INTERIOR DE SOBRADO PATRIARCAL URBANO DO MEADO DO SÊCULO XIX.

(Desenho de L. Cardoso Ayres, baseado em notas do autor.)

#

INTRODUQAO



Ik

SEGUNDA EDIÇÃO

E STE ensaio, aparecido no ano já remoto de 1936, reapa-

rece agora tomando o mesmo feitio da última edição de

Casá-Grande & Senzala - obra de que é a continuação an-

tes lógica que cronológica, se é que, rigorosamente, se de-

va falar numa lógica que regule no tempo ou no espaço as

ocorrências ou'os processos sociais, condicionando, ao mes-

mo tempo, , os estudos sobre essas ocorrências e esses

processos.

Cronologicamente exato nenhum dos dois ensaios pretende

ser. Em nenhum deles os fatos são estudados a prazo fixo,

isto é, entre datas determinadas ou inflexíveis. Ao próprio

começo da sociedade patriarcal no Brasil, quem ousaria atri-

buir data certa e única, sem qualificar deste ou daquele mo-

do tal começo - começo econômico ou começo político ou co-

meço civil? A fundação de São Vicente não satisfaz todas as

condiçÓes de começo único. A sociedade patriarcal no Brasil

- esta parece ser a verdade - em vez de um começo só, te-

ve vários em espaços e datas diversas. Em vez de.desenvol-

ver-se linear ou uniformemente, no tempo ou no espaço, de-

senvolveu-se em ambos desigual e até contraditoriamente,

amadurecendo numas áreas mais cedo do que noutras, decli-

nando no'Norte, ou no Nordeste - antes por motivos ecoló-

gicos que pura ou principalmente econômicos - quando ape-

nas se -arredondava, por iguais motivos, em formas adultas

no Brasil meridional; e de tal modo variando de substân-

cia do extremo Norte ao extremo Sul do país, a ponto dos es-

tudiosos que, em Sociologia, se orientam mais pelo conteúdo

que pela forma dos acontecimentos ou dos fatos perderem,

diante dessa diversidade antes etnográfica, geográfica ou

econômica que sociológica - o pastoreio, aqui, a extração

da borracha, ali, o café, em São Paulo, o ouro e os diaman-

tes, nas Minas Gerais, o açúcar, o tabaco, o algodão ou o ca-

cau, no Norte - o sentido da unicidade sociológica de for-

ma e de processo. Unicidade, ao nosso ver, caraterizada em

áreas e em espaços diversos pela organização mais ou me-

nos patriarcal ou tutelar, não só da família como da econo-

mia, da política, da.socialidade; pela monocultura; pelo la-

tifúndio; e pelo trabalho escravo ou servil com todas suas

decorrências ou correlaçÓes, inclusive a técnica de transpor-

LVIII


#

~DUÇÃO À SEGUNDA EDiçÃo

LIX

te, a de cozinha, a sanitária. Por conseguinte, por um ver-



dadeiro complexo.

Desse complexo a amplitude pode ser apenas sugerida,

nunca perfeitamente definida, com os qualificativos de que

vimos nos utilizando desde a publicaçdo do nosso primeiro

estudo sobre o sistema patriarcal brasileiro: patriarcal, mo-

nocultor, latifundiário, escravocrático e, sociologicamente,

feudal, embora já misto, semifeudal, semicapitalista, em sua

economia. A interpenetraçdo desses vários caraterísticos

até formarem um conjunto predominantemente patriarcal, e,

por conseguinte, com tendências a monossexual ao mesmo

tempo que a monocultor - tal a importância atribuída ao

sexo nobre e ao artigo, também nobre, de exploração agrá-

ria, acreditamos ter sido o primeiro a esboçar, numa tentati-

va menos de descrever que de fixar e interpretar, tanto quan-

to possível dentro de uma sistemática nova - antes, psico-

sociológica, 8ocioecológica e histórico-social, que puramente

sociológica - a formação brasileira. Interpretaçdo em têr-

mos, também, dialéticos, sugeridos pelos títulos simbólicos

por nós atribuídos às fases que nos parecem histórica, ecoló-

gica e, ao mesmo tempo, psico-8ociologicamente, mais ex-

pressivas do desenvolvimento social da gente brasileira no

vasto território em que Portugal, primeiro, e depois o pró-

prio Brasil, pelo esforço principalmente do Bandeirante, se

expandiu na América: Casa-Grande & Senzala, Sobrados e

Mucambos, Ordem e Progresso.

Jazigos e Covas Rasas - o título com que deverá apare-

cer o trabalho de conclusão dos nossos estudos - cobrirá o

mais possível, como estudo de ritos patriarrais de sepulta-

mento e da influência de mortos sobre vivos, aquelas várias

fases de desenvolvimento e de desintegração - desintegra-

ção na qual ainda se encontra a sociedade brasileira - do pa-

triarcado, ou da família tutelar, entre nós. Patriarcado a

princípio quase exclusivamente rural e até feudal, ou para-

feudal; depois, menos rural que urbano.

0 túmulo monumental ou o jazigo chamado perpétuo ou a

simples cova marcada com uma cruz de madeira - prolon-

gamentos das casas-grandes depois dos sobrados, das ca-

sas térreas, dos mtícambos, hoje das últimas mansÓes ou ca-

sas puramente burguesas e do numeroso casario pequeno-

burguês, camponês, pastoril e proletário - é, como a pró-

pria casa, uma expressão ecológica de ocupação ou domínio

do espaço pelo homem. 0 homem morto ainda é, de certo

modo, homem social. E, no caso de jazigo ou de'monumen-

to, o morto se torna expressão ou ostentação de poder, de

#

LX

I



11.

GILBERTo FREYRE

prestígio, de riqueza dos sobreviventes, dos descendentes, dos

parentes, dos filhos, da família~ 0 túmulo patriarcal, o ja-

zigo chamado perpétuo, ou de família, o que mais exprime é

o esforço, às vezes pungente, de vencer o indivíduo a própria

dissolução integrando-se na família, que se presume eterna

através de filhos, netos, descendentes, pessoas do mesmo no-

me. E sob esse ponto de vista, o túmulo patriarcal é, de to-

das as formas de ocupação humana do espaço, a que repre-

senta maior esforço no sentido de permanência ou sobrevi-

vência da família: aquela forma de ocupação de espaço cuja

arquitetura, cuja escultura, cuja simbologia continua e até

aperfeiçoa a das casas-grandes e dos sobrados dos vivos, re-

quintando-se, dentro de espaços imensamente menores que

os ocupados por essas casas senhoriais, em desafios ao tem-

po. Esses desafios têm assumido, no Brasil, a forma de ima-

gens ou figuras de dragÓes, leÓes, anjos, corujas, folhas de

palmeira ou de louro, santos, da própria Virgem, do próprio

Cristo: símbolos de imortalidade. Símbolos ou figuras que,

feitas de mármore, de bronze, de outros materiais nobres,

guardam os Jazigos privilegiados - jazigos com pretensÓes

a eternos - como que defendendo-os, até que chegue o Dia

de Juizo, de ladrÓes, de ímpios, de enchentes, dos bichos imun-

dos, das tempestades, dos raios, das profanaçÓes dos mule-

ques. Um tanto à maneira dos cães defenderem as,casas

dos senhores vivos, 'defendidas, também, simbólica ou mis-

Úcamente, por figuras de santos, de anjos, de leÓes, de dra-

gÓes e por plantas profiláticas, aquelas outras figuras sim-

bólicas guardam as casas dos mortos ricos ou ilustres. Ca-

sas guarnecidas quase sempre de palmeiras. As palmeiras-

imperiais se tornaram, na ecologia patriarcal do Brasil, a

marca ou o anúncio de habitação ou casa nobre, com preten-

sÓes a eterna ou imortal; e também a marca dos cemitérios

ilustres ou dos túmulos monumentais.

Vãs pretensÓes. A ruína ou degradação dos sobrados, das

casas nobres, das casas-grandes, dos próprios túmulos ou ja-

zigos de família mais suntuosos, é tão freqüente, no Brasil,

que parece revelar, no brasileiro, singular negligência pelo

que foi obra ou fundação de antepassado ou de avô morto,

Não vegz?emos ao brasileiro esse defeito que, aos olhos dos

entusiastas do Progresso com P maiúsculo, se apresenta, tal-

vez, (,o7??o q?~alidade: os mortos que não perturbem as ati-

vidadcs c/, *(t(lo?~(is dos 7~ivos com as sobrevivências de suas

criaçÓes ia arcaicas. A verdade é que, desintegrado o pa-

#

friarcado, aqi~clas casas, aqueles sobrados, aqueles t2'onulos,



~ó ra?-ao~cUe podem ser ?7?antídos por uma sociedade pós-pa-

INTRODUgX0 ; SECUNDA E:DI(;XO

LX1

triarcal ou - diria o Professor Carl C. Zimmermann - "ato-



mística" , como, em suas formas dominantes, grande parte

,da brasileira de hoje. À decadência de famílias por três,

quatro, cinco ou seis geraçÓes patriarcalmente opulentas, te-

ria- de corresponder o que vem acontecendo, entre nós: a ruí-

na, por abandono, de velhas casas-grandes de fazenda ou de

engenho; ou a sua transformação em fábricas, asilos, quar-

téis, refúgios de fantasmas de subúrbio ou de malandros de

cais. A transformação, também, de antigos sobrados urba-

nos ou suburbanos, outrora habitaçÓes de famílias solida-

mente patriarcais, em hospitais, cortiços, "cabeça-de-porco",

prostíbulos, escolas, museus, conventos, colégios, pensÓes,

hotéis, fábricas, oficinas, depósitos de mercadorias, armazéns.

Quanto aos túmulos suntuosos - os jazigos de família ou

chamados perpétuos - sua conservaçao é dispendiosa. Ex-

cede, freqüentemente, à capacidade econômica dos descenden-

tes dos senhores ricos que levantaram , tais monumentos nos

dias de sua máxima opulência patriarcal.

Ocorre-nos, a este propósito, a recordação de curiosa ex-

periência: a de termos um dia comparecido ao enterro de

velha senhora pernambucana, muito amiga das pessoas mais

velhas da nossa família materna. Chegados ao Cemitério

de Santo Amaro verificamos que éramos apenas três os que

acompanhávamos o corpo da velhinha ao ffimulo. Pelo que

pedimos a um estranho que nos ajudasse a conduzir o cai-

xão, da porta do cemitério ao túmulo. Caminhamos cemité-

rio adentro, por entre palmeiras-imperiais, até o jazigo da

família da morta.

Era um túmulo com alguma coisa de monumental. Man-

dara-o levantar família opulenta do tempo do Império. Seu

chefe fora ministro de Pedro II. Abandonado, arruinado,

sujo, o túmulo patriarcal abria-se naquela tarde de chuva,

longos anos depois de falecido o grande do Imperio que o

mandara levantar nos seus dias de morador de sobrado de

azulejo da Boa Vista, de dono de carruagem forrada de ve-

ludo e guarnecida de lanternas de prata, para receber o cor-

po magro e vestido simplesmente de chita branca com salpi-

cos azuis de uma pobre velha - sua neta - cujo enterro não

chegara a atrair as clássicas seis pessoas necessárias para

a condução decente de qualquer ataúde. Entretanto, por um

contraste irônico, aquele corpo de velha pobre e moradora de

casa térrea, ia sepultar-se não em cova rasa - igual àquela

em que, outro dia triste, vimos sumir-se na terra preta e pe-

gajenta do mesmo Cemitério de Santo Amaro do Reei , fe o

#

corpo de um Wanderley antigo e autêntico, velho flamenga-



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LXII GmBmTo FREYRF. INTRODTJ(;;iO k SEGUNDA EDIg.,~O LXIII

mente louro e alvo, filho de senhor de engenho do Sul de Per-

nambuco e dono, nos seus dias de senhor-moço, de alguns-

dos melhores cavalos e de alguns dos mais bravos galos de

briga daqueles sítios - mas num jazigo de família com al-

guma coisa de monumental.

Não era sem razão que a gente antiga do Recife chamava

ao beco que ia do centro da cidade ao Cemitério de Santo

Amaro de "Quebra Roço". "Roço" é brasileirismo que quer

dizer - ensina Mestre Rodolfo Garcia*- "presunção, vai-

dade, ordulho". E é domo o tempo - e através do tempo,

a dissolução das instituiçÓes, e não apenas a dos indivíduos

- age sobre as casas e os túmulos - mesmo os monumen-

tais, e n~o apenas os modestos: quebrando-lhes o roço. 0

rôço do que o patriarcado no Brasil teve de mais ostensivo,

isto é, a sua arquitetura caraterística - casas-grandes, so-

brados, monumentos fúnebres: criaçÓes de pedra e cal, de

mármore, de bronze com que as famílias patriarcais ou tu-

telares pretenderam firmar seu domínio não só no espaço co-

mo no tempo - vem sendo quebrado à vista de toda a gente.

Para acompanharmos a degradação dos valores menos vi-

síveis, caraterísticos da poderosa instituição, é que necessi-

tamos de estudá-la nas suas intimidades mais sutis e esqui-

vas. E essas intimidades não as alcança apenas o estudo his-

tórico ou sociológico; algumas delas só se abrem ao conhe-

cimento ou ao estúdo psicológico; várias só ao conhecimen-

to poético, vizinho do cientificamente psicológico. Elas pre-

cisam de ser estudadas em nós mesmos ou nos nossos avós -

produtos ou reflexos, ao mesmo tempo que animadores, e não

apenas portadores, da instituição. NÁas pessoas e não ape-

nas nas formas impessoais em que histórica e sociologica-

mente se objetivou ou materializou o patriarcado no Brasil.

Daí o método - ou a pluralidade de métodos ou de técni-

cas - de indagação e estudo, adotado pelo autor neste en-

saio, como no que o precedeu. Sob o critério psico-socioló-

gico, e, ao mesmo tempo, histórico-social, de estudo, várias

técnicas, e não uma só, de tentativa de revelação, compreen-

são e interpretação do assunto foram utilizadas: a ecológica,

a sociológica, a psicológica, a antropológica, a folclórica. 0

sobrado patriarcal brasileiro, procuramos retratá-lo por to-

dos os meios que nos facilitassem o conhecimento de sua rea-

lidade; e não apenas pelo convencionalmente objetivo ou o

cientificamente fotográfico. Pois o,que nos interessa nos

nossos estudos da sociedade patriarcal no Brasil não é dar-

mos prova de ser possível a alguém estudar este ou outro as-

sunto sob critério único e por meio de um só método - o so-

ciológico, por exemplo; ou o histórico. 0 que nos interessa

é o máximo de revelação do assunto: assunto, na sua genera-

lidade, independente de tempo e de espaço, e, nas s---,aspe-

#

culiaridades, limitado no tempo e no espaço. Daí não nos re-



pugnar, quando necessário, o próprio impressionismD: aquê-

le que, em Literatura, mesmo histórica, é, como o empregado

na Pintura, tentativa de surpreender a vida em movimento e,

por conseguinte, diversa segundo o critério interpretativo

com que for surpreendida. Devemos nos guardar do impres-

sionismo fácil e irresponsável, que é o jornalístico ou o be-

letrista, sem desprezo pelo que ilumine de visão direta e co-

mo que imediata, um fato visto ou reconstituído quase a olho

nu; e confirmado ou não por técnicas de verificação. Do

passado se pode escrever o que Proust escreveu do mundo:

que está sendo sempre recriado pela arte. E quase como a

arte pode ser a ciência, busca ou procura de realidade com-

plexa que adormeça em fatos aparentemente mortos tanto

como em naturezas chamadas igualmente mortas: uns e ou-

tros valorizados e incorporados ao conhecimento humano pe-

lo impressionismo revelador de aspectos esquivos ou fugazes

de realidade ostensivamente viva ou aparentemente morta.

Dentro de limites de eÈpaço e de tempo, embora sempre

atento àquela generalidade que é aspiração constant, do so-

ciólogo, é po * ssível a um só indivíduo tentar compreender, e

não apenas conhecer, o que foi no Brasil a família patriarcal

considerada em seus traços principais e em alguns dos seus

pormenores mais significativos. Ao que pode acrescentar a

aventura de dar-se ao luxo de procurar comparar alguns dos

caraterísticos da área estudada com os de outras áreas pa-

triarcais; com os de outros espaços e de outras épocas socta-

mente definidas pela mesma instituição e por seus concomi-

tantes: latifúndio, monocultura, esc,;,avidão, miscigenação.

Os que não encontram nos nossos ensaios a abundância de

estatísticas, de números, de expressÓes quantitativas, a que

os habituou a Sociologia norte-americana mais divulgada na

América do Sul, têm nos acusado de fazer mais poesia que

ciência; ou mais literatura que sociologia; ou mais história

pitoresca que história natural ou científica. Talvez tenham

alguma razão. Mas para chegarmos a juizo definitivo sobre

ponto tão duvidoso teríamos de discutir antes a quest , ão da

qualidade e da quantidade, nos estudos cientificamente so-

ciológicos ou cienti , ficamente históricos. Uma coisa, porém,

é certa: vão somos lioje o Único, vo Brasil, para quem a So-

ciologia apevas qua?itilativa não é senão parte da Sociologia;

c não a Sociologia iiiteira. É também o critério de dois jo-

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LXIV GILBERTO FREYRE INTRODUg;iO ~. SEGUNDA EDIg;iO LXV



vens mestres, cujos estudos merecem cada dia maior aten-

ção: os Srs. Mário Lins e Pinto Ferreira.

Os devotos da Sociologia apenas quantitativa ou matemá-

tica, ou da História apenas cronológica e descritiva, são ho-

2 . e sebastianistas à espera de algum Dom Sebastião que sob

a forma de novo Racon restaure, nos estudos sociológicos e

nos históricos, o prestígio absoluto do Número ou do Fato

Puro. Que esperem o seu Dom Sebastião. Mas que dêem

aos outros o direito de seguir critério diferente de Ciência

Social e de História humana.

Quanto a estudos históricos, vamos encontrar num dos

maiores filósofos europeus da História, o nosso contempo-

râneo Arnold J. Toynbee, o reconhecimento do fato de que

o historiador se utiliza, e precisa se utilizar, da técnica do

romance ou do drama. Pois "a simples seleção, distribuição




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