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zado do rapé entre nos: não podemos considerar exclusividade

de raça ou de classe ou de região vicio tão geral. A diferença

estava na qualidade do fumo e no modo de conduzi-lo ue variava

das bocetas de ouro dos fidalgos aos cornimboques Je chifre e

às caixinhas de lata dos roceiros, dos escravos ou dos pobres de

cidade.


~e, em grande número de casos, a cristianização ou a euro-

peização de ameríndios e de africanos e de seus descendentes foi

obra de superfície, não os arrancando senão aparentemente de

seus hábitos de "raças inferiores" transformadas em classes servis,

noutros casos resultou em fazer de descendentes de selvagens ou

primitivos uns quase fanáticos das ortodoxias-a política, a moral

e a religiosa-por eles mal assimiladas dos primeiros europeus.

Nessas ortodoxias-talvez mais por fidelidade ou apego à região

mais propícia aos homens de cultura primitiva e de economia

antes rústica que urbana, isto é, o sertão, que por motivos prin-

cipalmente de "raça" ou de classe-alguns grupos se fixaram com

unhas e dentes, contra desvios ou invasões dos próprios brancos

do litoral. Daí o seu modo nem sempre lógico de participação

em lutas civis travadas no Brasil, depois de já aqui estabelecidas

formas patriarcais de convivência. Em vez de investirem contra

as ordens estabelecidas pelos brancos, a atitude de caboclos e

homens de cor foi, mais de uma vez, a de defesa de valores

europeus ortodoxos, ou já tradicionais, no Brasil. Valores que jul-

gavam ameaçados por inovações.

Não foi outro o modo de se justificarem os cabanos e os papa-

-mel do Norte-grande número dos quais, sertanejos e matutos

com sangue ameríndio, a quem se juntaram negros e pardos de

engenhos, atraídos pela possibilidade de se libertarem-de sua

guerra de morte a liberais, progressistas e inovadores dos so-

brados do litoral ou das cidades. "Os Liberaes não querem mais

desigualdade, ando desde que Christo se humanisou que lia

desigualdade", Sziam. os pa a-mel de Alagoas em resposta à pro-

clamação legalista de 11 TCI setembro de 1832. justificavam-se

assim esses homens quase de rnucambos do seu monarquismo abso-

lutista e do seu patriarcalismo severo e a seu modo hierárquico,

de rústicos. E acrescentavam: "querem os Liberaes que os filhos

não obedeçam aos pacs, os sobrinhos aos tios, os afilhados aos

padrinhos: querem, si agradar, a filha dos outros, carregal-a e

da mesma sorte a mulher mais bonita... o mais a proporçao

como estão obrando contra a lei de Nosso Senhor Jesus Christo.

Finalmente não querem obedecer ao Monarcha e o mesmo Deus

#

disse ao Rei que quando os Povos lhe faltassem com a obedícricia



que elle os &estruira com peste, fome e guerra".19

Ora, desse movimento a um tempo patriarcalista e monarquista,

de homens rústicos contra liberais e progressistas das cidades,

não participaram so pequenos aNricultores e criadores de gado,

dos quais muitos, descendentes e caboclos; nem apenas negros

e homens de cor, escravos de engenhos da região-região de en-

genhos equenos. Também participaram dele arneríndios recém-

-civilizasos como os do Jacuípe, com seu capitão-mor~20 envol-

vidos na luta-luta de Absolutistas contra Constitucionalistas, de

restauradores de D. Pedro I contra nacionalistas partidários de

Pedro II-talvez ror solidariedade com a região ou por "cons-

ciência de espécie regional-sertanejos contra o litoral-talvez por

vago sentimento de lealdade à monarquia, sabido como é que,

no Brasil, os Reis de Portugal deixaram bem estabelecida a

tradição de ser a Coroa amiga dos indígenas, em particular, e

das gentes de cor, em geral. E na verdade mais de uma vez de-

fendeu a Coroa as gentes de cor, contra os interesses dos parti-

culares ricos ou contra a exploração ou os excessos de religiosos

poderosos. Contra a propria. discriminação de raça ou de cor da

parte de jesuítas contra pardos.

Da crise de Pedra Bonita-onde sertanejos de Pajeú das Flores,

na Província de Pernambuco, na sua maioria caboclos, dominados

por um místico que foi u:na espécie de esboço traçado a sangue

do fanático ou monge de Canudos, chegaram ao sacrifício liu-

rnano21-não nos esqueçamos de que foi a seu modo sebastianista:

expressão de sentimento ou desejo de regresso à monarquia abso-

luta e, ao mesmo tempo, de repúdio àquelas formas dominantes

de grande propriedade-a das casas-grandes-que não se conci-

liavam com a independência das "casas de caboclos", donos ape-

nas de cabras de leite. Antes de haver no Brasil uma "guarda

negra", de defesa à monarquia paternalista ou maternalista dos

Braganças e composta de africanos e descendentes de africanos-

capoeiras, capadócios, capangas-que grandemente dificultaram

a ação antimonárquica de bacharéis brancos como Silva jardim

ou a de propagandistas da República mestiços como Saldanha

Marinho e Gycerio, houve caboclos e descendentes de caboclos,

mestiços e cafuzos que, em grupos numerosos, se puseram ao lado

das instituições mais antigas para aqui transplantadas da Europa

-mesmo as mais duramente hierárquicas, como a monarquia abso-

luta ou a forma mais severamente patriarcal de família-e contra

as inovações, mesmo as igualitárias: igualitarismo que, praticado,

#

366 CILBERTo FREYm SOBRADOS E MucAmmos - 2.1) Tomo 367



tenderia a beneficiá-los, É que, como raças subjugadas, se sentiam

necessitados menos de liberdades abstratas que da roteção efe-

tiva que reis e papas pareciam ser os mais aptos a Es conceder

contra senhores brancos e padres Católicos desabusados no exer-

cício, ou na perversão, do dominio econômico, político ou reli-

gioso sobre as gentes de cor. Dos reis e dos papas, na verdade,

é que mais de uma vez tiveram os nativos do Brasil e mesmo

os negros vindos da África, proteção efetiva contra abusos de

particulares e até de religiosos; e essa proteção é natural que

tenha criado nos ameríndios e nos seus descendentes e nos negros

e descendentes de negros sentimentos de classe capazes de su-

erar os de raça: vermelhos, pretos ou pardos eram tão filhos

e Deus e de Maria Santíssima como qualquer branco; vermelhos

ou pardos eram tão súditos del-Rei como qualquer português. Nem

a colonização portuguesa do Brasil-já o acentuamos noutras pa-

ginas-se fez sobre outra base: a da ortância capital ser a do

o

im`So


a

status religioso e não a do de raça; a status político e não a

do de cor.

0 que desde cedo resultou na transferência de valores e sen-

timentos, noutras áreas presos principalmente à condição de

raça, para a condição, quase ura, de classe: o homem de cor,

civilizado e cristianizado, pola ser socialmente tão português

como qualquer português e tão cristão como qualquer cristão,

desde anos remotos tendo se aberto aos ameríndios o pro rio

sacerdócio, franqueado também, em casos excep, Zs-

cendentes de africanos como o grande Antônio Vicira; desde an')s

remotos tendo se aberto aos dois elementos extra-europeus, por

imposiçao de necessidades de defesa militar da colônia, a propria

carreira das armas, na qual podiam chegar a postos elevados da

coiifiança especial del-Rei. 0 caso de Camarão e o de Henrique

Dias, entre outros.

E tendo sido esta a tendência, em nosso País, desde dias re-

motos, e natural que as gentes de cor venham se comportando,

menos como duas raças oprimidas pela branca, que vária ou di-

versamente,. segundo status de cada indivíduo ou de cada fa-

mília na sociedade (classe) e no espaço fLico-social ou físico-

-cultural (região). Pois não devemos nos esquecer da força com

que, entre nós, a situação regional do indivíduo ou da família

a tem impelido para integrar-se, independente da cor, da raça,

da classe, e da própria condição de naturalizado ou de nato, em

culturas, ou configurações regionais de cultura, como a sertaneja,

a caipira ou a gaúcha. Que o diga, além dos exemplos já invo-

cados, o de Canudos onde se reuniram, em torno do Conselheiro,

indivíduos e famílias de procedências e situações étnicas diversas,

cuja "consciência de espécie" era principalmente a de sertanejos

#

estagnados em sua concepção ao mesmo tempo pastoril e patriar-



cal de vida, em fase remota de transição de culturas primitivas

para a européia e Católica. Que o diga, por outro lado, a situação

do ameríndio e do róprio negro nas estâncias rústicas do Rio

Grande do Sul, onde, segundo esclarecido historiador moderno

da região, "o negro foi mais companheiro do que servo" .22 Si_

tuação que se acentuou quando o negro, numa área brasileira

eminentemente militar como a sul-rio-grandense pastoril, encon-

trou na atividade bélica, ou no serviço de guerra a pé e a cavalo,

o caminho para sua elevação social. 0 mesmo caminho que encon-

trara no Nordeste do século XVII, isto é, durante os dias de

uma guerra de efeitos confratemizantes sobre portugueses e bra-

sileiros de todas as classes, raças e até regiões-pois os próprios

Paulistas participaram da luta-reunidos contra o inimigo comum,

que era o invasor holandês.23

0 Professor Dante de Laytano ja Os em relevo o fato de que,

ao contrário do geralmente afirmaIc pelos historiadores, o Rio

Grande do Sul chegou a ter numerosa população de origem afri-

cana: o mapa de Córdova (1780) indica que em Cachoeira,

Triunfo e Anjos da Aldeia o elemento negro era então superior,

em número, ao branco e em Rio Pardo, Mostardas e Viamão

quase igual ao branco, tendo essa proeminência desaparecido pelo

. caldeamento", "dispersão" (inclusive "fuga para o Rio da Prata~)

e "falta de novas entradas ".24 0 caldeamento de preto com

ameríndio parece ter sido considerável, na região, recordando

a respeito o Professor Laytano a expressiva informação de

Saint-Hilaire: "As índias dizem que se entregam aos homens de

sua raça por dever; aos brancos por interesse; e aos negros por

prazer." 0 que parece indicar que numa área, como a pastoril,

do Rio Grande do Sul, durante dois seculos especializada em

guerras, entreveros, cavalhadas, o negro conseguiu impor-se à

atenção e até ao entusiasmo das chinas, ou caboclas, por quali-

dades superiores as dos nativos. Entre elas, a própria bravura

guerreira, segundo o d o* ento de Saint-Hilaire: o nego e

a

1 e~i Í



1

mais bravo do que o ín o'~r` isto é, o índio do Rio C e do

Sul. Deste modo, o negro, na area ou na região gaúcha, se so-

1 .


bre os ao proprio índio. Deste modo e por sua situação de com-

1

Reiro dos brancos das estâncias. Essa situação, superando a



e servo, teria condicionado, naqueles extremos do Brasil, o com-

portamento ou a figura do afrirano ou do seu descendente, em-

pregado no pastoreio ou engajado no serviço mi~itar. Donde, em

parte, pelo menos, a atração sentida pela índia, desencantada,

talvez, com a inércia dos homens de sua raça e encantada com a

bravura de ação dos africanos.

#

368 CiLBERTo FiREYnz SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.0 Tomo 369



A situação regional modificou, assim, a de raça e de classe

servis que, noutras áreas-as de patriarcado agrário mais opu-

lento-fizeram do negro, aos olhos dos indígenas, e não apenas

dos brancos, um ser desprezível, tomando necessário-para re-

corrermos a um exemplo expressivo-aos africanos e descendentes

de africanos concentrados em Palmares, raptarem caboclas para,

sob violência e de modo algum por prazer, lhes servirem de mu-

lheres. 0 que não significa afirmar-se que a formação social do

Rio Grande do Sul se fez sem distâncias entre estancieiros e peões,

correspondentes às que, nas áreas de grande lavoura, separaram

os homens em senhores de casas-grandes-brancos ou quase bran-

cos-e servos das senzalas-negros ou mestiços. Sem confundirmos

estâncias com estanciolas-equivalentes das engenhocas de rapa-

dura ou de aguardente do Norte-devemos reconhecer nas anti as

casas-grandes das verdadeiras estâncias, equivalentes exatos Nas

casas-grandes das fazendas e dos engenhos. Eram casas-as das

grandes estâncias-às vezes com "boas mobílias, piano, havendo

em algumas banda de música como na estância do Coronel Ma-

cedo".25 Se nas numerosas estanciolas era curta a distancia social

entre senhores e peões, ou entre brancos e servos de cor, . nas

grandes a distância se fazia notar, como nas fazendas e engenLjs,

or diferenças de trajo, de alimentação, de comportamento, de

anças. Os fandangos, por exemplo, foram a principio danças

"dos salões das altas classes [estancieiros] ",26 só na segunda me-

tade do seculo XIX, "descendo até as senzalas dos peões" e sendo

substituídas por danças, não só senhoris como estritamente euro-

péias: "gavota", "montenegro", "valsa", "polea", entre outras .27 o

que agiu mais constantemente na área gaúcha do que nas demais

áreas brasileiras, no sentido de diminuir distâncias entre classes

e raças, para criar principalmente a aristocracia da bravura inde-

pendente de cor ou de situação social, foi o freqüente estado de

r

guerra-inclusive guerra cívil--em que viveu durante longos anos



a população.

"Até hoje se reseivou ao índio esse papel de formador da von-

tade guerreira do gaúcho, entretanto Saint-Hilaire [ .... 1 o con-

sidera muito inferior ao negro", recorda mais de uma vez o

Professor Dante de Laytano em trabalho que, entre outros me-

ritos, a l esenta o de levantar-se, com o apoio de sólida documen-

r,

tação Tes rezada pelos historiadores convencionais, contra o sis-



temático Zsprezo pela ação do negro na formação da sociedade

rio-grandense-do-sul. No Rio Grande do Sul não foi a ação do

negro menos intensa, embora muito menos extensa, que noutras

re iÕes do País. Se foi no Nordeste, com os "henriques" e na

BZa, com os malês e os "alfaiates" da revolução de 98, que o

a

negro deu, no Brasil, maiores demonstrações de capacidade revo-



#

lucionaria ou guerreira, essa capacidade ele a revelou menos dra-

maticamente noutras regiões-em Minas Gerais, no Rio de ja-

neiro, em São Paulo-sempre que as situações regionais o esti-

mularam, pela extrema facilidade ou pelo extremo obstáculo, a

definir-se por atitudes de altivez, de bravura e de resistência,

geralmente associados só aos Indios. É que tais qualidades devem

ser consideradas menos de raça ou mesmo de classe que de si-

tuação regional de grupo.

Do estudo das expressões ou variações de status na história

da sociedade brasileira, nunca se deve separar a consideração da

situação regional do indivíduo ou do grupo, tantas vezes modi-

ficadora de outros aspectos do seu status. Ora no sentido dígni-

ficante, de valorização, ora no degradante, de desvalorização.

Ser senhor de engenho foi, de modo geral, situação dignifi-

cante ou nobilitante na sociedade patriarcal ou tutelar brasileira.

Mas essa situação sofreu sempre restrições consideráveis impostas

pela condição regional do senhor ou do senhorio. Não era o mesmo

ser senhor de engenho de rapadura no Piauí ou de engenho de

mandioca em Santa Catarina, do que de açúcar em Pernambuco

ou , no Recôncavo da Bahia-regiões dos melhores engenhos de

açUcar e das melhores terras de cana. E o baiano de cidade,

isto é, de Salvador, acabou por sua vez fazendo de sua condição

de homem da capital do Brasil-por muitos anos a cidade por

excelência do palanquim e de negros que gritavam para todo ho-

mem de sapato que descesse de navio ou nau: "Quê cadeira,

sinhô?"-motivo de supravalorização de origem ou de situação

regional. Era como se fosse Salvador a única região civilizada,

urbana, polida, do Brasil; e o mais, mato rústico.

A essa supravalorização de origem ou situação urbana ou me-

tropolítana, o gaúcho reagiu a seu modo, desdenhando de quanto

brasileiro do Norte se mostrasse incapaz de montar a cavalo

com a destreza dos homens do extremo Sul; e associando essa

incapacidade à condição de baiano. Ser baiano era ignorar a arte

máscula da cavalaria. Era ser excessivamente civilizado: quase

efeminado. Quase mulher. Quase sinhá. Era só saber viajar de

palanquim, de rede, de cadeira, aos ombros dos escravos negros.

De modo que baiano tornou-se, no Brasil, termo ao mesmo tempo

de valorização e de desvalorização do indivíduo por circunstân-

cias regionais de origem e de formação social. E o mesmo se

verificou com gaúcho.

Em Pernambuco notava em 1806 o Capitão-Ceneral Caetano

Pinto de Miranda Montenegro, em carta ao Visconde de Anadia

datada de 13 de janeiro, que "Matutos chamão aqui a todos os

q. morão fora do Re. e de Olinda, são os Camponezes de Por-

tugal; e posto q. o nome seja pouco harmonioso não he ouvido

#

370 G"ERTo FREYRE SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.0 Tomo 371



por aquelles a quem se da com o mesmo desagrado como o de

carioca no Rio de janeiro ."28 Montenegro conhecia de perto o

Rio de janeiro: tinha autoridade para afirmar que aos ouvidos

dos naturais não soava bem a designação de "carioca", hoje puri-

ficada de qualquer sentido pejorativo. 0 recifense foi por algum

tempo chamado desdenhosamente "mascate" pela gente de Olin-

da, da qual, entretanto, grande parte acabou transferindo-se das

velhas casas olindenses para os sobrados recifenses.

São numerosos, no Brasil, os exemplos de designações pejora-

áreas ou regiões pelos

de áreas ou regiões suas rivais em poder econômico, em pGder

político ou em valores de cultura. Nessas designações têm se

refletido circunstâncias regionais modificadoras do status de indi-

víduo ou grupo, status que raras vezes pode ser seca e exclusi-

vamente atribuído à condição de raça ou de classe de um ou

de outro. Para qualquer caraterização sociológica de status do

brasileiro dentro de uma sociedade regulada principalmente pela

tutela de família ou de patriarca, como foi a nossa até quase

nossos dias, devemos sempre nos informar, além de sua posição.

na constelação familial, de sua condição de região, ao lado da

de raça e da de classe. Só assim se esclarecerá a posição de um

Andrada, de Santos, por exemplo, numa sociedade como a pau-

lista, e em face de paulistas de Itu, da formação de Diogo An-

tônio Fe-o Ambos paulistas mas de regiões diferentes e social

e cultur ônicas.

Pois onal de caraterização que a ui se apresenta

como e ao de indivídu S grupo parti

cular dentro da ersocial brasileira, que foi a patriarcal,

deve-se separardéia política, administrativa ou geográfica de

estado, de prova ou de capitania. É o nosso um critério so-

ciológico. E sob esse critério, maiores são as semelhanças entre

~utos de províncias ou capitanias diferentes, ou entre homens

do int~ isto é, homens de pequenas cidades do interior bra-

sileiro como o Padre Feijó, de ltu, e Ibiapina, do Ceará, do que

entre Feijó e qualquer dos Andradas, de Santos; ou do que entre

Ibiapina e qualquer Maciel, Monteiro mais cosmopolita do Re-

cife do tempo em que o cearense estudou na capital não só de

Pernambuco como do Nordeste.

-1~O, AmDOs F

1

mente antag



do critéri ? regi

ssencial a compreens

geri alidade

a i


inci

0 que não significa que na caraterização de indivíduo ou grupo

brasileiro por status, consideremos preponderante, ou invariavel

#

mente decisiva, sua situação re.-de cultura e de poder po-



c

lítico correspondente a essa 11 Za regionalmente configurada.

Decisiva nos parece antes sua situação sociocultural-principal-

mente econômica-de classe que, por muito tempo, no Brasil, foi

a de escravo oposta à do sentior ao mesmo tempo que simbiótica

tivas de naturais ou de residentes de certa

à do mesmo senhor dentro da constelação familial ou patriarcal

constituída pelo patriarca e pela mul,her, pelos filhos, pelos des-

cendentes, pelos parentes pobres1 pejos a regados e pelos escra-

vos-em geral pessoas de casa ou da famífia do mesmo patriarca.

Deve-se, entretanto, reconhecer o fato de que data dos co-

meços da sociedade brasileira configurada como sistema familial

de organização, a presença, nas primeiras áreas de vida urbana

que aqui se esboçaram, de subgrupos cuja situação de classe,

escapando àqueles dois extremos, fê-los ter, entre nós, funções

semelhantes à de grupos ou classes intermediárias nas sociedades

de composição mais complexa que as patriarcais ou tutelares. A

subgrupos de mecânicos vindos do Reino ou da Europa foram-se

juntando muitos dos mestiços, hábeis em ofícios, peritos em cali-

grafia e noutras artes burocráticas aprendidas com os brancos

e que, desde os primeiros dias de colonização, começaram a sur-

gir da sombra das casas-grandes e dos sobrados patriarcais e, prin-

cípalmente-naqueles primeiros dias-dos colégios de padres. Daí

se espalharam pelas zonas ou espaços sociais mais livres, às vezes

em competição com aqueles outros elementos, r)ão de todo insig-

nificantes nas referidas áreas de vida urbaila: os mecânicos vin-

dos do Reino ou da Europa.

Referindo-se a esses mecânicos, e também, de modo geral e

um tanto vago, aos "degredados, judeus e estrangeiros", observa

em ensaio recente o Sr. Edmundo Zenha que, no Brasil, não foram

sistematicamente afastados dos cargos municipais com a mesma

rigidez que em Portugal, onde a instituição de "homens-bons"

chegou a ser instituição fechada. No Brasil era natural que essa

instituição sofresse, com outras instituições e estilos de vida e

de arquitetura importados da Europa, o amolecimento que já

procuramos caraterizar noutro ensaio. Para o Sr. Edmundo Zenha

desde que o degredado, por exemplo, representasse na colônia

"uma unidade ativa e útil, esquecia-se a condição pejorativa para

acolher-se tão somente os padrões de valores que o mesmo re-

sumia~.29 0 caso~,de Filipe de Campos, "prestativo cidadão da

vila piratiningana , a quem Taques atribui "muita civilidade, cor-

tesia, política e boa instrução": traços que em meio urbano ainda

em formação atenuavam num adventício a condição de degre-

dado por crime de morte. Fora o crime cometido por "acidentes

do tempo e extravagâncias de estudante", dizia-se para reduzir-

-lhe a importância. E ainda mais expressivos que o caso de Cam-




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