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escravos e minas.

2lSaint-Hilaire recorda que em 1818 caravanas de cinqüenta mulas fa-

aro sem cessar a viagem entre São João e Rio de janeiro, trazendo e le-

vando mercadorias (Voyages dans le District des Diamants et sur le

Littoral du Brésil, Paris, 1833, 1, pág. 253) e - é evidente - conservando

o burgo mineiro em contato com a civilização do litoral e com a civiliza-

ção européia. Também informa que os víveres consumidos naquelas cidades

vinham de fazendas próximas, em carros de boi (ibid., I, pág. 259) cuja

rusticidade ou primitividade devia contrastar com a modernidade e a civi-

lidade dos hábitos e trajos da gente de São João. Do mesmo observador

francês é a informação de que as casas de fazenda em Minas Gerais apre-

sentavam, nos começos do século XIX, 11 peu de commodités", não se co-

nhecendo nelas "aucun de ces meubles que nous accumulons dans nos ap-

partements. . ." Eram raras as próprias cadeiras. Só mereciam atenção as

camas: as camas ou os tálarnos patriarcais (Voyages dans I'Intérieur du Brésil,

Paris, 1830, 1, pág. 208).

22Tanto Mawe como Saint-Hilaire surpreenderam-se de encontrar, nas

cidades de Minas, as modas européias seguidas de perto pelas próprias

senhoras.

23Sant-Hilaire observou num baile em Vila Rica: "La toílette et la tour-

nure des dames pouvaient ofrir matière à la critique d'un Français nouvel-

lement arrívé de Paris; cependant nous ffimes etonnés de ne pas trouver,

à une aussi grande distance de la côte, une dífference plus sensíble entre

les manières des fçmmes et celles des Européennes" (op. cit., 1, pág. 151).

24A. D. de Pascual, Ensaio Crítico Sobre a Viagem ao Brasil em 1852 de

Carlos B. Mansfield, Rio de Janeiro, 1861.

25Recorde-se mais uma vez que Tollenare, a cuja chegada, em sobrado

ou casa nobre do Recife, as senhoras se retiraram, para não serem vistas

pelo estrangeiro, vingou-se desse excesso de recato da parte de pernam-

bucanas, surpreendendo nuas, no banho, iaiás de família ilustre. ("Notas

Dominicais Tomadas Durante uma Viagem em Portugal e no Brasil, em

1816, 1817 e 1818-, Rev. do Inst. Arq., Hist. e Geog. Pern., vol. XI, n.O 61).

26Saint-Hilaire notou em Minas: "L'intérieur des maisons reservé pour

les femmes, est un sanctuaire oà Utranger ne pénètre jamais. . .- (op. cit.,

I, pág. 210).

27"Que esperais dessa enclausurada das más alcovas ... ?" perguntava em

1872, referindo-se à moça brasileira de sobrado e criticando defeitos de

#

350 Ga.BEFtTo FREYRE SOBP-AJ)I)S E MucAmi3os - 1.0 Tomo 351



habitação, de trajo e de educação urbano-patriarcal no Brasil, o médico

Corroía de Azevedo (Anais Branlienses de Med"na, Rio de janeiro, abril

de 1872, tomo XXIII, ri.' 11, pág. 432).

. 28Em 1835 - sessão de 12 de julho - ocupou-se Lino Coutinho, na

Câmara dos Deputados, do assunto: a tentativa de colonização de certo

trecho da Bahia com irlandeses: "Paga-se um dinheirão a esses homens

e eles não querem trabalhar; não há ano em que morram 30 e 40 e todos

eles têm pesado sobre o hospital nacional para onde vão com hidrops,ías,

etc., etc... ainda não vi beberrões maiores" (Anais do Parlamento Brasileiro

(Câmara dos Srs. Deputados. Sessão de 1830), Rio de janeiro, 1878).

299uase ao mesmo estado de degradação dos irlandeses da Bahia atingi-

ram OS alemães, em Pernambuco, aos quais se deram terras em 1829 em

Catucá ou Cova da Onça. Em Pernambuco, o plano fora vencer quilom-

bolas ou negros fugidos, refugiados nas matas de Catucá, com uma massa,

que se supunha irresistível, de 150 famílias européias, "em numero de 750

almas. .." Supunha-se que instalando-se, naquelas matas, colonos suíços ou

germânicos, se extinguiriam "OS negros do Quilombo". ingênua suposição

manifestada pelo Cônsul da Suíça em Pernambuco, Meroz, em carta ao

Diário de Pernambuco publicada a 16 de dezembro de 1828. Enquanto os

colonos de sangue ou stock germânico ali instalados, degradaram-se em

simples carvoeiros, o quilombo, cresceu de tal modo que foi necessario ao

Coverno da Província lançar contra éles a Companhia de Caboclos de

Barreiros, comandada pelo Capitão da Guarda Nacional daquele lugar José

Pessoa Panasco Arco Verde (Diário de Pernambuco, 11 de agosto de 1835).

30Adolphe XAssier, op. cit., págs. 253-258.

31F. Denis, op. cit., pág. 114.

32Charles Expilly, Le Brésil tel qu'il est, cit. por D'Assier, op. cit.,

págs. 253-254.

331) Assier, op. cit., pág. 256. Veja-se sobre o assunto S. Dutot, 17vance

et Brésil (Paris, 1857), cujo ponto de vista era o de que os brasileiros dos

primeiros decênios do século XIX, detestando os portugueses, respeitavam

os ingleses, estimavam os alemães e imitavam os franceses (pág. 33).

34Filosofando sobre os "negócios afrancesados" no Brasil D'Assier che-

gou à conclusão de que, furtados os brasileiros por negociantes europeus,

os roubados por todos eram os negros, cujo trabalho os brasileiros brancos

e quase brancos exploravam: "eux aussi spéculaient sur les sueurs de

1'esclavage. . ." (D'Assier, op. cit., pág. 260).

35Quem primeiro viu a Revolta Praieira com olhos não apenas de histo-

riador político, mas de historiador social, foi Joaquim Nabuco que, em Um

Estadista do Império, destaca: "A guerra dos Praieiros era feita a esses

dois elementos - o estrangeiro e o territorial: mais que um movimento po-

lítico, era assim um movimento social" (Rio de Janeiço, 1898, tomo 1, pág.

103). Sobre o assunto- prepara interessante trabalho, baseado em pesqui-

sa em jornais e documentos da época, o Professor Amaro Quintas. Em sua

nota prévia - "Considerações Sobre a Revolução Praieira" (Separata da

Revista do Arquivo Público, Recife, 1949, ano III, ri.0 V) - conclui o pes-

quisacior -que "qualquer coisa existia no ânimo da Praia diante do panora-

ma de desajustamento social em que vivia a Província" (p. 130).

#

SOA Cabanagem - voltamos a assunto ferido em página anterior - fel,



tanto no Pará como noutras áreas do Norte, movimento de sentido social:

sentido que não tem escapado aos historiadores mais perspicazes, embora

para outros continue, como para o Diário de Pernambuco da época (9 de

janeiro de 1834), revolta de "meia duzia de salteadores e estupidos matutos".

Esse sentido social pode ser simbolicamente sintetizado dizendo-se do mo-

vimento que foi revolta de moradores de cabanas, palhoças, tejupares, mu-

cambos, ranchos de sapé contra os de casas nobres (casas-grandes, sobra-

dos, casas assobradadas), embora em seu ensaio Nos Bastidores da Caba-

nagem (Belém, 1942), o pesquisador paraense Emesto Cruz saliente que,

por exceção, os cabanos maranhenses eram "gente poderosa, da elite social

[ .... 1 portugueses apatacados" (pág. 15). Por conseguinte, gente de

sobrado.


Se a Cabanagem nem sempre foi "guerra de índios contra brancos" ou

dos "destituídos dos bens contra os que possuíam bens" - sabido que

em cabanas moravam, às vezes, no Brasil, homens mais solidamente ricos

que os moradores de sobrados elegantes - parece ter sido, quase sempre,

conflito entre a cultura matuta e a urbana, aquela quase parada desde os

primeiros séculos da colonização portuguesa do Brasil, esta renovada nas

suas cores, européias, individualistas e secularistas, depois de 1808, quando

o comércio ou o capital estrangeiro passou a ter predominância na eco-

nomia brasileira e a alterar os estilos de vida e de convivência do País.

Donde ser aceitável a generalização sobre a Cabanagem, de Euclydes da

Cunha, em À Margem da Hist6ria. Generalização recordada pelo Sr. Ernesto

Cruz no seu referido ensaio (pág. 41): "Era o crescente desequilíbrio entre

os homens do sertão e os do litoral [ .... 1. Ao cabano se ajuntariam no

correr do tempo o balaio, no Maranhão, o chimango, no Ceará, o cangaceiro,

em Pernambuco, nomes diversos de uma diátese social única, que chegaria

até hoje projetando nos deslumbramentos da República a silhueta trágica do

jagunço."

37Aceita a informação de Pereira da Costa de que os ciganos eram

chamados "gringos" no Brasil (ins., Biblioteca do Estado de Pernambuco), é

fácil aceitar-se a transferência dessa designação para os ingleses, judeus

alsacianos e outros tipos exóticos que, a partir dos primeiros anos do século

XIX, passaram a percorrer pontos mais afastados do País.

IMPRESSO NAS OFICINAS DE SOLIVRO GRÁFICA E EDITORA

LTDA., RUA SANTO CRISTO, 175, RIO DE JANEIRO. RJ PARA A

LIVRAP,IA JOSÊ OLYMPIO FDITORA, EM fevereiro de 1977

COD. JO: 01332

"Arthow Viewdr,

11


Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a

intenþão de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma

manifestaþão do pensamento humano..

 

#



leia de GILBERTO

FREYRE [[~PI

L-

ALÉM DO


APENAS MODERNO

(Sugestões em torno de possíveis futu-

ros do homem, em geral, e do homem

brasileiro em particular)

Disse a COMISSÃO JULGADORA DO PRÈ-

MIO ASPEN (presidida por Lord Franks, da

Universidade de Oxford):

"Gilberto Freyre, como filósofo, cientista

e escritor literário, transformou a ima-

gem que o Brasil fazia de si mesmo, e

inspira agora a humanidade inteira a al-

cançar um sentido mais claro do seu pro-

pósito e do seu destino."

TEMPO MORTO

E OUTROS TEMPOS

(Diário de adolescência e primeira mo-

cidade 1915-1930)

disse JOÃO GUIMARÃES ROSÁ:

"Gilberto Freyre, homem de espírito e

ciência. - Sistematizador, descobridor, gran-

de crítico e artista. Sabe ver, achar, pen-

sar, inventar e pôr a reviver, remexer, ex-

perimentar, interpretar, alumiar, animar,

influir. Irradiar, criar. Mestre. Mas seu

estilo-macio e falador, à vontade e ime-

diato, exato e espaçoso, limpo e coloidal,

personalíssimo e público, embebido de tudo

e tão eficazmente embebedor,-já, por si,

daria para obrigar a nossa admiração."

0 BRASILEIRO ENTRE

OS OUTROS HISPANOS:

afinidades, contrastes e possíveis futu-

ros nas suas inter~relações

#

#



#

#

LIVRARIAJOSÉ OLYMPIO EDITORA



apresenta de

GILBERTO FREYRE

INTRODUÇAO

A

HISTORIA DA SOCIEDADE PATRIARCAL NO BRASIL



2

SOBRADOS


E

MUCAMBOS


DECADÊNCIA DO PATRIARCADO RURA

E DESENVOLVIMENTO DO URBANO

5.a EDICAO

Ilustrações de Lula Cardoso Ayres; M. Bandeira,

Carlos Leão e do autor

2.o TOMO


RIO DE JANEIRO/1977

1,011


em convênio com 0

INSTITuro NACIONAL DO LIVRO

MINISTIÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA

BRAMIA


#

iLtI--u


Orn

Iq

Copyright (D 1936 by Gilberto Freyre



Direitos desta edição reservados à

LIVRARIA JOS]e OLYMPIO EDITORA S.A.

Rua Marquês de Olinda, 12

Rio de Janeiro - República Federativa do Brasil

Printed in Brazil / Impresso no Brasil

Freire, Gilberto, 1900 -

F933s Sobrados e mucambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvi-

mento do urbano /por/ Gilberto Freyre; ilustrações de Lula Cardoso Ayres,

M. Bandeira, Carlos Leão e do autor. 5.ed. Rio de Janeiro, J. Olympio; Bra-

sília, INL, 1977.

2t. ilust. (Introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil. 2)

Dados biobibliográficos do autor

Bibliografia

1. Brasil - Condições sociais 2. Brasil - Vida e costumes sociais

3. Antropologia social - Brasil I. Instituto Nacional do Livro II. Título

III. Título: Decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano

IV. Série.

CCF/SNEL/RJ-77-0105

CDD - 309.181

301.2981


CDU - 308(81)

39(81)


919L.IOTECA POE~LIC^

,' I


4

#

SUMÁRIO



2.0 TOMO

VIII - Raça, Classe e Região ...................

NOTAS AO CAPíTULO VIII

IX - 0 Oriente e o Ocidente ....

NOTAS AO CAPíTULO IX ....

X --- Escravo, Animal e Máquina

NOTAS AO CAPíTULO X ...

XI - Ascensão do Bacharel e do Mulato ....................

NOTAS AO CAPíTULO XI .............................

XII - Em Torno de uma Sistemática da Miscigenação iÀo Brasil

Patriarcal e Semipatri-arcal

NOTAS AO CA.PíTULO XII .

BIBLIOGRAFIA .....................................

INDICE ONOIA.~STICO ..................................

INDICE DE ASSUNTOS

SUMÁRIO DE ILUSTRAÇõES

2.0 TOMO

353


400

424


475

4'9


551

573


625

632


662

u67


708

734


Sobrado patriarcal semi-urbano da segunda metade do século XIX

Anúncio de famosa loja de chapéus-de-sol do Recife ..........

Anúncios de jornais brasileiros do meado e do fim da era imperial

(Grupo X) ......* * * * * .* * * ' * ' * * . .

Anúncios de jornais brasileiros do meado e do fim da era im-

perial (Grupo XI) ......

Anúncios de jornais brasileiros do meado e do fim da era imperial

(Grupo XII) .................................

Anúncio de espetáculo no Teatro Santa Isabel do Recife

Anúncios de jornais brasileiros do meado e do fim da era imperial

(Grupo XIII) ......................................

#

Anúncio de casa de chapéu-de-sol (1870) ....



492

518


548

................ 610

#

#

I



SOBRADO PATRIARCAL SEMI-URBANO DA SEGUNDA METADE DO SÊCULO XIX,

(Desenho de L. Cardoso Ayre&.)

#

SOBRADOS


MUCAMBOS

2.0 Tomo


V 111 - RAÇA, CLASSE E REGIÃO

uma sociedade patriarcal e até feudal, isto é, com

u zonas sociais sociologicamente equivalentes às

chamadas feudais, como foi o Brasil durante o

tempo quase inteiro da escravidão entre nós, não eram cidadãos

nem mesmo súditos que aqui se encontravam como elementos

básicos ou decisivos da população, porém famílias e classes. E

estas famílias e classes, separadas, até certo ponto, pelas raças

que entraram na composição da gente brasileira com suas dife-

renças de tipo físico, de configuração de cultura e, principal-

mente, de status ou de situação inicial ou decisiva.

Tomaram também com o tempo essas raças, cores re ionais

diversas conforme as condições físicas da terra, de solo e e con-

figuração de paisagem ou de clima e não apenas as culturais, de

meio social. Os dominadores eram os invasores brancos ou euro-

peus e seus descendentes uros ou insignificantemente mesclados

com as gentes de cor, dominados e utilizados como instrumen-

tos de produção, de transporte e de trabalho, os nativos e, em

face da sua insuficiência ou da sua deficiência antes de cultura

E=o de


que de capacidade física, os africanos e seus descendentes uros

ou misturados com os nativos; ou mesmo com o sangue dos Nomi-

nadores nas veias, embora dos principais desses dominadores-os

portugueses-dissesse no século XVII o Padre Antônio Vieira:I

"[ .... 1 somos tão pretos a respeito delles [os holandeses], como

os indio3 em respeito de nós"; e se soubesse de vários deles, se-

De~paços o

das sociedades

nhores de "negros" e de "pretos", que guardavam nas suas casas

escravas "mais brancas do que eUes".

Das famílias agrupadas em torno de pais naturais e sociais-ou

simplesmente sociais-o prestígio variava mais com o poder eco-

nÔmich e as condições regionais de espaço físico do que com a

origem social ou étnica. As classes eram constituídas por domi-

353

#

354



GILBERTO FREYRE

nadores ou por dominados: os senhores, num extremo, os escra-

vos, no outro. E flutuantes entre aqueles elementos de carate-

rização de homens pela sua situação de família, de classe, de

raça e de região, os produtos dos cruzamentos que desde os

primeiros dias se foram verificando entre dominadores e domi-

nados, entre homens do litoral e homens dos sertões, e ue não

raro resultaram em transferências de indivíduos e ate delamílias

inteiras de uma classe para outra e, no plano ou no espaço social,

de uma raça ~ara outra, com desprezo das insígnias ou dos cara-

terísticos biológicos e mesmo culturais de tipo étnico ou regional.

Donde o vasto amalgamento verificado no Brasil e que toma

duvidoso aos olhos de alguns, o caráter principalmente feudal

que outros atribuem à organização patriarcal, ou tutelar, da eco-

nomia e da sociedade brasileiras durante a época da escravidão,

tais as flutuações sociais e étnicas dentro da mesma organização.

Com tais flutuações, como admitir a existência de um feudalismo

brasileiro, sabido que o feudalismo se faz notar principalmente

pela fixidez?

É que-para insistirmos em interpretação esboçada nas primei-

rasXáginas deste estudo-as flutuações foram, no Brasil, de con-

teú (o e substância e não de forma. Em suas formas a organização

brasileira foi predominantemente feudal-embora um tanto capi-

talista desde o início-durante séculos. 0 patriarcalismo carate-

rizou-a sociologicamente, isto é, considerada a organização em

suas formas e em seus processos, embora variassem os conteúdos

econômicos e geográficos e as predominâncias étnicas e culturais

que lhe deram coloridos regionais diversos. Sociologicamente, po-

rém, o fenômeno foi o mesmo, admitindo essa generalidade, ao

lado da caraterização de feudal que se dê a sociedade patriarcal

brasileira considerada em suas zonas e períodos de maturidade

-maturidade que se verificou no Recôncavo, em Pernambuco, no

Maranhão, no Rio de janeiro, em Minas Gerais, nas estâncias do

Rio Grande do Sul, em períodos nem sempre coincidentes-o estudo

sociológico do Brasil como processo de integração, amadureci-

mento e desintegração da forma patriarcal, ou tutelar, de organi-

zação de família, de economia e de cultura. Integração, amadu-

recimento e desintegração que não se verificaram nunca, inde-

pendentemente de outro processo igualmente caraterístico da for-

mação brasileira: o de amalgamento de raças e culturas, principal

dissolvente de quanto houve de rígido nos limites impostos pelo

sistema mais ou menos feudal de relações entre os homens às

situações não tanto de raça como de classe, de grupos e in.

divíduos.

Os dois processos sempre se interpenetraram entre nós. Rara-

mente entraram em choque ou conflito violento, embora tais con-

SOBRADOS E MUCAMBOS - 2.1 Tomo

#

355



flitos tenham se verificado. Desde os primeiros dias de coloni-

zação portuguesa da América, a tendência foi para os dois prO-

cessos operarem, interpenetrando-se. Até que o que havia de

mais renitentemente aristocrático na organização patriarcal de

família, de economia e de cultura foi atingido pelo que sempre

houve de contagiosamente democrático ou dernocratizante e até

anarquizante, no arnalgamento de raças e culturas e, até certo

ponto, de ti s regionais, dando-se uma especie de despedaça-

mento das foorinas mais duras, ou menos plásticas, por excesso

de trepidação ou inquietação de conteúdos.

Começou então o que, no estudo sociológico da história bra-

sileira, pode ser considerado o declínio do patriarcado: primeiro

do rural, que foi o mais rígido, e porventura, o mais caraterístico;

depois do semi-rural, semi-urbano, urbano. E ao lado desse de-

clínio verificou-se-ou vem se verificando-o desenvolvimento de

formas por alguns chamadas particularistas, ou individualistas, de

organização de família, de economia, de cultura. Apareceram mais

nitidamente os súditos e depois os cidadãos, outrora quase ausen-

tes, entre nós, tal a lealdade de cada um a seu pai natural ou

social, que era o patriarca, o tutor, o padrinho, o chefe de família;

e tal a suficiência de cada um desses pais naturais ou sociais com

relação ao pai político de todos e que passou a ser-abaixo de

Deus-el-Rei Nosso Senhor, substituído mais tarde pelo Impe-

rador, também pai político não só de patriarcas como de filhos

de atriarcas, não só de brancos como de indivíduos de cor, não

só Se ricos como de pobres, não só de homens do litoral como

dos sertões. Substituição que foi de certo modo absorção-a das

rerrogativas do patriarca por el-Rei-explicando-se assim que

esde 1646 pudesse escrever em Lisboa um João Pinto Ribeiro:

"Porque o Rey he pay de vassallos; a parentes & não parentes;

a amigos & não amigos o p;~y a todos coantos filhos tê acode cõ

igoaldade. Que na casa cio Rey tem vassallos foro de filhos ."2

Conceito quase repetido pelo Marquês de Penalva ao escrever

que os . verdadeiros" modelos dos Reis eram, em geral, "os Pa-

triarcas da antiga Lei [ .... 1 os Paes de família" que, aliás, no

Brasil como que se haviam inspirado nos antigos senhores abso.-

lutos de mulheres, de filhos, e de escravos, para o abuso, em que

aqui se extremaram, do pátrio poder.

Ao começar a verificar-se a absorção desse poder pelo real,

ou pelo imperial, no Brasil, já se verificara entre nós, em Ia a

escala, uma extensão de domínio paternal que os portuguesesrSo

Reino apenas haviam principiado a experimentar em seus tratos

com mouros e africanos: a de poder ser um patriarca branco

pai não só de brancos como de inâivíduos de cor; não só de indi-

víduos do seu próprio status econômico como de status não apenas

#

356 GrLBERTo FRErm SOBRADOS E MUCANIBOS - 2.' Tomo 357



inferior, como sexvil. Antes, porém, dos reis de Portugal tomarem

a si a proteção de todos os seus silditos-os; de cor e não exclu-

sivamente os brancos, pois todos tinham "foro de filhos"-viram-

-se vários patriarcas cois de família estabelecidos no Brasil,

como ainda no Século I, Jerônimo de Albuquerque, estende-

rem a filhos naturais e de cor a proteção paternal. Neles é que

talvez tenham se inspirado reis, ou pais políticos, para atitudes

semelhantes, em relação a súditos pobres ou de cor e contra

pais naturais ou sociais-entre estes alguns dos Jesuitas estabele-

cidos no Brasil no século XVII-menos compreensivos do que

Jerônimo de Albuquerque em seus sentimentos ou idéias de obri-

gações de paternidade. De qualquer modo, deve-se atribuir a tais

sentimentos ou idéias de obrigações de paternidade da parte de

alguns patriarcas, consideráver influência na interpenetração das

condições de raça e classe que desde os começos da colonização




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