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já eram os franceses e os italianos. Que na Corte do Brasil 'à

se tomava sorvete tão bom como na Europa. E os anúncios Je

jornais da primeira metade do século XIX vêm cheios de cozi-

nheiros franceses oferecendo-se com muita mesura e riquefife

ara as casas ricas; de hotéis anunciando pratos franceses, cozinha

rancesa, massas italianas. É certo que nos anúncios da época en-

contram-se "cozinheiros negros" em franca competição com os

europeus. Representativo deles pode ser considerado o escravo

posto à venda pelo seu senhor em anuncio no Didrio do Rio de

janeiro de 5 de março de 1830: "[ .... 1 hum preto perfeito Cosi-

nheiro de fomo como de fogão faz podins, doces, massas, cremes,

geleias, muito capaz de desempenhar hum grande antar [ .... ]

i .


muito sadio, não bebe e não tem vicios conhecidos .

Os móveis dos sobrados se afrancesaram no estilo tanto quanto

as modas de vestidos das senhoras. Vieram mestres franceses

para as cidades do Império, trabalhar, com as suas mãos brancas,

o jacarandá e as outras madeiras nobres e boas da terra, até en-

tão quase só trabalhadas por mãos grandes e rudes de pretos,

às vezes por mãos de moça de mulatos efeminados. As velhas

cadeiras portuguesas, pesadas e largas, foram desaparecendo das

salas de visitas, com outras velharias do tempo dos Afonsinhos;

foram desaparecendo dos santuários, as imagens feitas pelos san-

teiros e água-doce; e aparecendo os sofás à Luís XV, as poltro-

nas graciosas e finas, os armários de carvalho de Hamburgo, as

mobílias de mogno, os espelhos de Nuremberg, as imagens fran-

cesas e italianas. Ou então cadeiras inglesas, que já vêm anuncia-

das na Gazeta do Rio de Janeiro no ano remoto de 1809. Móveis

importados da Europa. Móveis fabricados, não mais nos enge-

nhos, nem nas casas particulares, mas em oficinas; e segundo

estilos franceses e ingleses, por artífices e o erários brancos e

louros. Mestres franceses e alemães da arte Fe ma cenei o.

Natural que fosse se acentuando a rivalidade entre o artífice

ou o operário da terra--em geral, o preto ou o mulato livre,

porque o escravo negro não podia dar-se ao luxo de rivalidade com

ninguem-e o operário ou o artífice estrangeiro, que surgia com

grande réclame pelos jornais ou protegido pelos governos. A ri-

validade, também, entre o funcionário público menor, o pequeno

#

CURA E NAO RECOLHE



CURA E TONIFICA

Cura o não mata

1 59000$000

QUEM PROVAR IQUE NÃO É PURAMENTE VEGETAL

11RIEGETIt ROÇUI

Não, tem mercurio nem odiureto

Não tem morphina nem narcema

CURA RHEUMATISMO, INFLUENZA,

ASTHMA, BRONCHITE, ANGINA, G.ASTRITE

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ANI~NCIOS DE JORNAIS BRASILEIROS DO ".MEADO E DO Fl'l',1

DA ERA IMPERIAL relati,.,os

a estilos de convivência ainda patriarcal e já urbana cin alguin~S ÇLIS elitão

principais áreas ao País (Bahia, Rio de janeiro, Pernanibi 1 iL,~, 1~ -~ (,rande

SOBRADOS E MucAmBos - 1.' Tomo

343


burguês brasileiro, o proletário caboclo ou mulato, e o vendeiro

português, o "marinheiro" da venda, do botequim, da quitanda.

Português geralmente considerado porcalhão e sumítico amigado

com negra que trabalhava servilmente para ele e a quem às vezes

o "marinheiro" abandonava depois de tê-la explorado duramen-

te. Era esse "marinheiro" que vendia o bacalhau e a carne-seca

a magricelas doentes mas afidalgados nos hábitos de trajo: os

caboclos da terra" incapazes, como pequenos funcionários pú-

blicos, de se alimentarem de carne fresca.

Em artigo na revista 0 Progresso perguntava H., em 1846,

a propósito do problema da colonização do Brasil, por que razão

em vez de aprenderem os officios de alfaiate, çedreiro, carapina-

-que iam sendo cada vez mais dominados pe o operário estran-

geiro-"os filhos das familias pouco favorecidas" continuavam no

empreguinho público, os do mato buscando as vilas? Reconhe-

cia as dificuldades do mancebo de família pobre que quisesse vi-

ver do próprio trabalho, cultivando seu bocado de terra ou ven-

dendo seu bacalhau ou seu charque. Na agricultura, a "Grande

Propriedade Territorial"-é do autor o luxo de maiúsculas-tor-

nava impossível a figura do pequeno lavrador independente. No

comercio, só se fizessem uma lei que tornasse o comércio a re-

talho privativo dos nacionais poderia o brasileiro nato fazer al-

guma coisa.

A verdade é que a situação de rivalidade entre brasileiro nato

e comerciante ou artífice europeu, de tal modo se extrernou que

culminou num começo de drama social logo abafado a san-,Ue;

b

e que ainda ho e passa aos olhos dos observadores menos profun-



dos como simples insurreiçao política: a chamada Revolta Praiei-

35

ra do Recife, em 1848. Também a Cabanada teve um pouco



esse caráter: o de rivalidade entre "caboclo da terra" e adventí-

cio.81 Enquanto no Rio de Janeiro e na Bahia a rivalidade entre

os dois elementos geri eraEzou-se na rivalidade, tantas vezes san-

grenta, entre "marinheiros", isto é, portugueses ou europeus, co-

#

merciantes, e "capoeiras" ou "muleques".



A idéia de o operário ou -artífice estrangeiro estar fazendo som-

bra ao mulato, o português da venda estar tirando a oportuni-

dade ao filho de família pobre de enriquecer no comércio a reta-

lho, foi crescendo nas cidades, a ponto de explodir, em algumas,

em reações nativistas contra o europeu. No Rio de janeiro, no

Recife, em Belém do Pará

Mas a europeização Jo e até certo ponto a do comér-

cio, se impusera com o decImio da economia rigidamente patriarcal

lus-a~,'~ -,~) r~ vida hu~sIei-,q, Corn o novo ritmo

e com a ind- k, , -i(-

#

344 GILBERTO FREYRE SOBRADOS E MUCAIMOS - 1.0 Tomo 345



de vida: ritmo que veio exigir relógios, tão raros na época em

que o tempo quase não se contava por horas, muito menos por

minutos, só pelo nascer do sol,pelo sol a pino, pelo pôr do sol.

Com os novos estilos de vida, e conforto, de arquitetura criados

pela abertura dos portos ao comércio europeu e para satisfazer

os quais não estava apto o artífice de engenho, o mulato livre, o

operário da terra. Só o estrangeiro, do tipo dos que o Barão de

Boa Vista mandou vir para a então Província de Pernambuco. E

que fizeram a glória do seu governo, e ao mesmo tempo a impo-

pularidade do seu nome na política da época.

Com o rapé, o vinagre, a vela, o pano, a escova, o colchão

de cama, a vassoura, o carvão, o vinho de caju, o sabão, o ta-

manco, o sapato, com tudo que era indústria ou arte de casa-

-grande, de negro, de mulato, quando muito de mestre português

-fabricado não mais dentro de casa, mas nas cidades e à grande,

por novos processos; com a paisagem econômica do Império enri-

quecida de fábricas de gelo, de fumo picado a vapor, de sabão,

de macarrão, de aletria, de licor de genebra, de caixa de pape-

lão, de piano, de órgão, de chapéti-de-sol, de vidro, de chocolate,

de máquinas de serrar madeira; com os trens, com o saneamento

das cidades, a iluminação, o gás-quase tudo obra de engenheiro

inglês; o operário europeu, o artífice branco, o técnico estran-

geiro se tomaram tão necessarios como o próprio ar à organiza-

ção mais industrial e à estrutura mais burguesa, mais urbana, mais

mecanizada, da vida brasileira. 0 nativismo gritou contra a con-

correncia do adventício louro ao "caboclo da terra". A febre ama-

rela já recordamos que matou muito adventício ruivo. A malária

também. E a peste bubÔnica-outra inimiga de gringo.37

Mas o técnico europeu repita-se que acabou triunfando. Até que

o mulato aprendeu com ele a dirigir os trens, os tomos, as maqui-

nas, a fabricar o vidro, a fazer macarrão e aletria. 0 sábio norte-

-americano john Casper Branner, viajando, já no fim do século

XIX, pelo interior do Brasil, espantou-se da rapidez com que,

diante dele, dos seus olhos claros de anglo-saxão, simples mulatinho

de Minas endireitou certa vez as rodas de enorme balduíria, que se

desconsertara no meio da viagem. Era a assimilação da técnica

do europeu ou do anglo-saxão pelo "iruilato da terra". Uma nova

fase nas relações entre o europeu e o brasileiro. Também uma

nova fase na economia e na convivência brasileiras, com a valo-

rização, pela perícia técnica, do descendente de escravo, da

gente de cor, moradora de mucambo; e a desvalorização, pela

imperícia, do descendente de senhor de casa-grande, de fidalgo

z,

de sobrado, de morgado de canavial.



0

NOTAS AO CAPITULO VII

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lEmile Allain, Rio de Janeiro. Quelques Données sur la Capitale et sur



rAdministration du Brésil, 2.` ed., Rio de janeiro-Paris, 1886, pág. 147.

Afirma Pereira da Costa (Vocabulário Pernambucano, cit.), a propó-

sito da expressão "para inglês ver", que sua origem é a seguinte: -focan-

do na Bahia na tarde de 22 de janeiro de 1808 a esquadra que conduzia

de Lisboa para o Rio de janeiro a fugitiva família real portuguesa e não

desembarcando ninguém pelo adiantado da hora, à noite, a geral iluminação

da cidade, acompanhando a todas as suas sinuosidades, apresentava um des-

lumbrante aspecto. Extasiado e entusiasmado o príncipe regente D. João,

ao contemplar do tombadilho da nau capitânia tão belo espetáculo, excla-

ma radiante de alegria, voltando-se para a gente da Corte que o rodeava:

---Estábem para o inglês ve?~", indicando com um gesto o lugar em que fun-

deava a nau Bedford, da marinha de guerra britânica, sob a chefia do

Almirante jervis, de comboio à frota real portuguesa".

2Perdidos em Salvador os registros ("Register of Burials") de 1811-

-1836, de sepultamentos no Cemitério dos Ingleses, os registros posteriores

fo-am recentemente examinados, a nosso pedido, pelo pesquisador norte-

-americano Charles Cauld, nosso antigo aluno na Universidade de Stanford

que, gentilmente, nos comunicou os resultados de sua pesquisa naquele ar-

quivo. Do assunto nos ocuparemos minuciosamente no segundo ou no ter-

ceiro volume de Ingleses no Brasil. Os epitáfios que destacamos como

típicos foram recolhidos de túmulos nos cemitérios ingleses do Rio de Ja-

neiro, Salvador e Recife.

3joaquiin de Aquino Fonseca, José Joaquim de Morais Sarmento e Sim-

plício Mavignier foram três dos médicos brasileiros da primeira metade do

século XIX que mais inteligentemente se ocuparam de problemas de hi-

giene de habitação e vestuário no Brasil. Morais Sarmento já se insurgia

em 1842 contra o maú hábito, consagrado como artigo de fé, "de se es-

perar pelas horas de calor para sahir de caza depondo então as vestes leves

e frescas, de que usamos de manhan para nos envolvermos em calorentos

tecidos de lan, quando o sol vae chegando ao meridiano . . ." (Selatorio

dos Trabalhos da Sociedade de Medicina de Pernambuco no Armo de

1841 a 1842", Annaes da Medicina Pernambucana, Recife, 1843, n.O 3, pág.

110). Também se insurgia Sarmento contra o europeísmo de se fazer das

habitações "verdadeiras estufas onde o calor é concentrado por tapetes,

vidraças e ferros, não só caros e desnecessarios, mas directamente contrarios

à saude.. ." (pág- 110). Enquanto o Dr. Mavignier lamentava, na mesma

época, que estivessem desaparecendo da cidade do Recife os antigos quin-

tais ---bastanteespaçosos, cujo arvoredo contribuia poderosamente para a

purificação da affimosfera e agitação do ar", quase todos eles estavam, po-

rém, -transformados em quarteirões de cazas . . ." Em pouco tempo não

existiria ---umarvoredo" dei)tro da cidade e "nem ao menos praças publicas

1

#



346

CILBERTo FREYRE

substituirão alguns desses quintacs: brevemente não se verá mais do que

paredes formando cazas e as ruas cheias de lamas, de aguas corrompidas e

de materias organicas em putrefacção" ("Representação que a Sociedade de'

Medicina [de Pernambuco] Dirigio ao Excellentissimo Presidente da Pro-

vincia em Maio de 1842 Acerca das Molestias que então Reinavão na

Capital da Província"), Annaes da Medicina Pernambucana, cit., pág. 125.

4joaquim de Aquino Fonseca, cit. por Otávio de Freitas, A Tuberculose

em Pernambuco, Recife, 1896.

5Vilhena, Cartas, cit., pág. 89.

OLuccock, op. cit., pág. 127.

7Para Correia de Azevedo o Brasil devia fugir do "moderno francesis-

mo ., inclusive em relação ao vestuário das crianças: "0 mesmo brasileiro,

em conseqüência do clima e dos acidentes das localidades em que habita,

tem de seguir uma higiene à parte, só para ele formulada. Nossas crianças

não podem e não devem ser criadas nem à inglesa, nem à alemã, nem à

russa [ .... 1. 0 seu vestuário deve apenas resguardar-lhe o corpo das va-

riedades da temperatura" ("Concorrerá o Modo por que são Dirigidas en-

tre Nós a Educação e a Instrução da Mocidade para o Benéfico Desenvolvi-

mento Físico e Moral do Hornem?`, Anais Brasilíenses de Medicina, Rio

de janeiro, abril de 1872, tomo XXIII, pág. 435).

&Nos seus cursos, os Franciscanos e outros mestres, no Brasil, foram

dando, ao ensino, caráter mais democrático que o do ensino jesuítico, por

longo tempo intransigentemente clássico nos seus melhores aspectos e ex-

cessivamente ornamental ou decorativo nos piores. A favor dos jesuítas, sa-

Lente-se que eles próprios vêm ultimamente admitindo um humanismo 'l)a-

seado na língua moderna" (Padre F. Charmont, S. J., L'Humanisme et

IrHumain, cit. pelo Professor Antônio Ferreira de Almeida Júnior, em Díre-

trizes e Bases da Educação Nacional, Rio de janeiro, s. d., pág. 85).

gLuccock (op. cit., pág. 129) salienta o fato de poucos serem os livros

ingleses lidos pelos brasileiros nos princípios do século XIX. Os livros es-

trangeiros mais lidos eram então os franceses. Veja-se sobre o assunto nosso

Ingleses no Brasil, Rio de janeiro, 1948.

1OVelozino foi um dos médicos que mais se destacaram no Brasil colo-

nial, quando o Recife holandês, tendo atraído, da Europa, letrados israelitas,

atraiu também médicos de valor, da mesma raça ou fé, do mesmo modc, que

já atraíra técnicos no fabrico de açúcar e atrairia técnicos em mineração.

(M. Kayserling, "The Earliest Rabbis and Jewish Writers of America", Pu-

blications of the American Jewish Historical Society, Nova lorque,

1895, n.' 3).

Em seu excelente estudo "Os Sinais da Suspeição" (Os judeus na

História do Brasil, Rio de janeiro, 1935, pág. 84), o Professor Roquette-

-Pinto recorda que entre tais sinais estava vestir-se o judeu no sábado com

roupas e jóias de festa.

SoB~s E Mu~os - 1.0 Tomo

347

#

Quanto ao judeu que participou no Brasil dos trabalhos de mineração,



Solidônio Leite salienta que o preparo do ferro laminado Ç'folha-de-flan-

dres") foi invenção ou descoberta de um judeu de Minas Gerais, preso pela

Inquisição. (Os judeus no Brasil, Rio de janeiro, 1921) Veja-se também

Artur H. Neiva, "Estudos Sobre a Imigração Semita no Brasil", Revista de

Imigração e Colonização, Rio de janeiro, junho de 1944, ano V, n.O 2.

IlVeja-se em Jean Crespin (A Tragédia de Guanabara, trad., Rio de

janeiro, 1917, pág. 87) o apêndice "A Religião Cristã Reformada no Brasil

no Século XVII (Atas dos Sínodos e Classes do Brasil no Século XVII, duran-

te o Domínio Holandês)", tr. de Pedro Souto Maior.

120 Professor Manoel. Cardozo, nosso antigo aluno na Universidade de

Stanford e atual catedrático da Universidade Católica de Washington, lem-

bra no seu estudo "Brazilian Cold Rush" baseado em pesquisas no Arquivo

Hist6rico Colonial, de Lisboa, que "as early as 1702 complaints were sent

to Lisbon by the governor-general of Bahia on the 'pernicious consequen-

ca arising out of the presence of non-Portuguese in the gold fields. The

number of foreigners in the colony was never large at any one time, but

their influence was disproportionately great. In 1703 Brazilian business men

protested against these foreigners, who, to the detriment of Portuguese sub-

jects, were accused of participating in Brazirs commercial life" (The Arne-

ricas, Washington, outubro, 1946, vol. III, n.O 2, pág. 140).

130bservou Maximiliano que, no interior do Brasil, notava-se geralmente

o seguinte: que os fazendeiros conservam-se apegados a antigos hábitos rãs-

ticos de habitações e de vida sem sequer pensarem em melhorá-los. (Prin-

cipe Maximiliano Neuwied, Travels in Brazil in 1815, 1816 and 1817, trad.,

Londres, 1820, pág. 53). Veja-se sobre o assunto Alberto Ribeiro Lamego,

0 Homem e o Brejo, Rio de janeiro, 1945.

14A rusticidade de vida no Rio Grande do Sul, observada nos começos

do século XIX por A. de Saint-Hilaire, foi também retratada por Arsène

Isabelle (Viagem ao Rio da Prata e ao Rio Grande do Sul, cit.). Modificou-

-se aquela rusticidade à proporção que se levantaram ao lado de torres de

igrejas, sobrados patriarcais de feitio serneibante aos do Norte e do centro

do País e que as esâncias começaram a ser visitadas por mascates ou col-

portores franceses - provavelmente israelitas franceses - com seus baús de

artigos de moda e de "bijotiterie fine-, Sobre sobrados no Rio Grande do

Sul, veja-se nosso estudo em Problemas Brasileiros de Antropologia, Rio de

janeiro, 1942. Sobre a influência dos colportores franceses naquela área

brasileira, veja-se M. H. L. Séris, A traverç les Pro,,;inces du Brésil, Paris,

1881, págs. 19-20. Também Arsène Isabelle, op. cit.

15Saint-Hilaire, op. cit.

16Sobre as influências sofridas pelos judeus, nas Espanhas, da parte das

~ r abalho sistemático que o assunto

_)ulaç~5es regionais, não existe ainda o tr.

ICCI . zmnbora seja muito sugestivo o ens,t:o de A, S. Yaliuda, -Contribución

ai del Judío-espafio1-, Revista de Fi~olo-ía Espaiiola, Madri, 1915,

o

1

#



348 GILBERTO FRE= SOBRADOS E MUCAMBOS - 1.' Tomo 349

tomo II. Vejam-se J. Leite de Vasconcelos, Origem Histórica e Formação do

Povo Português, Lisboa, 1923, e P. Bosch Gimpera, La Formación de los

Pueblos de Espaíía, México, 1945.

17A possibilidade de ter sido Bento Teixeira, o autor da Prosopopéia,

cristão-novo - o Bento Teixeira que aparece em denúncia ao Santo Ofício

referente a morador de Pernambuco do século XVI - foi pela primeira

vez sugerida por nós, em prefácio à reedição popular do poema, promovida

pelo Sr. Carlos Pereira da Costa (Recife, 1927) e, do ponto de vista da

interpretação do texto, pelo Professor Joaquim Ribeiro. Foi posteriormente

admitida por conhecida autoridade em história colonial do Brasil:

Rodolfo Carcia, então diretor da Biblioteca Nacional, na introdução escrita

à Primeira Visitação do Santo Ofício, Denunciações de Pernambuco (São

Paulo, 1929). 0 assunto provocou pesquisas minuciosas de um dos mais

ilustres membros do Instituto Axqueológico, Histórico e Geográfico Pernam-

bucano, João Peretti, para quem o Bento Teixeira da Prosopopéia não

seria o mesmo Bento Teixeira denunciado à Inquisição (Barleu e Outros

Ensaios Críticos, Recife, 1941). As dúvidas acabam de ser resolvidas de

modo definitivo pelo historiador J. A. Consalves de Melo, em erudito en-

saio incluído nos seus Estudos Pernambucanos (Recife, 1961), que mostra

ter sido de fato o autor da,Prosopopéia o cristão-novo denunciado ao Santo

Ofício.


18Para Alfredo de Carvalho, "o etriólogo presume com razão lobrigar na

psicologia do pernambucano indícios apreciáveis do tenaz espírito de in-

dependência que foi a feição mais rasgada do caráter nacional dos seus

efêmeros dorninadores" (Frases e Palavras, Recife, 1906, págs. 54-55).

Veja-se também nosso prefácio a Tempo dos Flamengos (Rio de janeiro,

1947), do Sr. José Antônio Consalves de Melo, onde recordamos haver

sociólogos que supõem, como Artur Orlando, "ter o contato com os filhos da

Holanda" deixado "no espírito dos nossos antepassados, ideais que mais

tarde deviam fazer explosão". "Esses ideais" - são ainda palavras nossas

naquele prefácio - "teriam sido o de 'pensamento livre' segundo Artur Orlan-

do, o de 'espírito de independência', conforme Alfredo de Carvalho, o de

1 tolerância, a melhor das virtudes~, na opinião de Oliveira Lima e o de liber-

dade de comércio' e o de 'liberdade de consciência' na síntese um tanto der-

ramada de Joaquim Nabuco..." (pág. 11). Para Alfredo de Carvalho os

holandeses teriam deixado também "flagrantes vestígios no Direito pátrio".

. lgMawe (op. cit., pág. 126) destaca o conforto das casas de Vila Rica

que ele conheceu nos começos do século XIX. Não nos esqueçamos de

que, no século XVII, havia quem desse, em Minas Gerais, seis (6) oitavas

de ouro em pó por "urna boceta de prata de relevo em tartaruga para taba-

co" (Rev. Arq. Púb. Min., Belo Horizonte, 1906, ano XI, pág. 374).

20Mawe, op. cit., pág. 130. Veja-se também o que escreve sobre o luxo

em cidades mineiras da era colonial, J. Felício dos Santos em "Memorias

do Distiito Diamantino" (Rev. Arq. Púb. Min., Belo Horizonte, 1910, ano

XV) que salienta costumes essencialmente urbanos ao mesmo tempo que

um tanto orientais, entre os mineiros de prol daquela época como o uso

de bastões de castão de prata e de ouro e de floretes de bainha de ouro, o uso

ou o abuso de sedas, veludos, cetins, sapatos com fiv~las de cravação de pe-

#

dras, flores de pedras preciosas sobre o peito das senhoras, sapatos de



bico agudo voltado para cima, anéis nos dedos das mãos. Não faltavam os

mestres de "política" ou "civilidade" (pág. 683): evidência de que a

gente dos sobrados esmerava-se em parecer ou ser urbana, embora deco-

rando-se socialmente com a posse de terras ou fazendas e não apenas de




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